Me chame pelo seu nome
PARTE 2: O penhasco de Monet
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Tire o calção.
A situação parecia estranha, mas não fui capaz de desobedecer. Então abaixei e tirei o calção. Era a primeira vez que ficava nu diante dele em plena luz do dia. Aquilo me fez sentir estranho e estava começando a ficar nervoso.
— Sente.
Eu mal tinha obedecido à ordem quando ele se abaixou e colocou meu pau inteiro na boca. Fiquei duro na hora.
— Vamos guardar para depois — disse ele com um sorriso irônico e foi embora.
Seria sua vingança contra mim por imaginar que o tinha superado?
Então lá se foram… minha autoconfiança, minha lista e meu desejo de superá-lo. Belo trabalho. Eu me sequei, coloquei o short do pijama que tinha usado na noite anterior, me joguei na cama e não acordei até Mafalda bater à minha porta perguntando se eu queria ovos no café da manhã.
A mesma boca que ia comer ovos esteve por toda parte na noite anterior.
Como se estivesse de ressaca, fiquei me perguntando quando o enjoo ia passar.
De vez em quando, uma dor repentina desencadeava uma pontada de vergonha. Quem quer que tenha dito que a alma e o corpo se encontram na glândula pineal era um tolo. Eles se encontram no cu, idiota.
* * *
Quando ele desceu para o café da manhã, estava usando meu calção de banho. Não chamaria a atenção de ninguém na casa, porque todos sempre trocavam roupas de banho, mas foi a primeira vez que ele fez isso, e era o mesmo calção que eu tinha usado ao amanhecer quando fomos nadar. Vê-lo usando minhas roupas me deu um tesão insuportável. E ele sabia disso. Nós dois ficamos excitados. Pensar em seu pau roçando o forro onde o meu tinha estado me lembrava de como, diante dos meus olhos e depois de tanto esforço, ele finalmente gozou sobre meu peito. Mas não era isso que me deixava excitado. Era a porosidade, a fungibilidade de nossos corpos… o que era meu de repente era dele, assim como o que pertencia a ele podia ser meu agora. Eu estava sendo atraído de volta? À mesa, ele decidiu sentar ao meu lado e, quando ninguém estava olhando, colocou o pé não em cima, mas embaixo do meu. Eu sabia que meu pé era áspero por andar sempre descalço; o dele era macio; na noite anterior eu tinha beijado seu pé e chupado seus dedos; e agora eles estavam aconchegados sob meu pé calejado, e eu precisava proteger meu protetor.
Ele não permitiria que eu o esquecesse. Lembrei de uma castelã casada que, após passar a noite com um jovem vassalo, mandou que os guardas do palácio o levassem e o executassem imediatamente em um calabouço sob acusações falsas, não só para eliminar qualquer prova da noite adúltera que tinham passado juntos ou para impedir que o jovem amante se tornasse um estorvo agora que achava que tinha direito a seus favores, mas para eliminar qualquer tentação de repetir a transgressão na noite seguinte. Ele estava virando um estorvo vindo atrás de mim? E o que eu poderia fazer… contar à minha mãe?
Naquela manhã ele foi à cidade sozinho. Correio, Signora Milani, as coisas de sempre. Vi Oliver pedalar pela alameda ladeada de ciprestes ainda usando meu calção. Ninguém nunca tinha usado minhas roupas. Talvez os significados físicos e metafóricos sejam modos tortuosos de entender o que acontece quando dois seres precisam não só estar juntos, mas ser tão flexíveis a ponto de um se tornar o outro. Ser quem eu sou por sua causa. Ser quem ele era por minha causa. Estar em sua boca enquanto ele estivesse na minha e não saber mais de quem era o pau, dele ou meu, que estava em minha boca. Ele era meu canal secreto para mim mesmo… como um catalisador que permite que nos tornemos quem somos, o corpo estranho, o condutor, o enxerto, o curativo que desencadeia os impulsos certos, o pino de aço que mantém o osso de um soldado no lugar, o coração de outro homem que faz com que sejamos mais nós mesmos do que éramos antes do transplante.
Só de pensar nisso de repente quis deixar tudo o que faria naquele dia e correr para ele. Esperei cerca de dez minutos, então peguei a bicicleta e, apesar da promessa de não pedalar naquele dia, saí passando pela casa de Marzia e subi a encosta íngreme o mais rápido que pude. Quando cheguei à piazzetta, percebi que poucos minutos nos separavam. Ele estava estacionando a bicicleta, já tinha comprado o Herald Tribune e estava a caminho do correio: sua primeira tarefa.
— Eu precisava ver você — falei correndo até ele.
— Por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Eu só precisava ver você.
— Você não está enjoado de mim?
Eu achava que sim, estava prestes a responder isso, e queria estar…
— Eu só queria ficar com você — respondi. Então acrescentei: — Se você quiser, eu volto agora mesmo.
Ele ficou parado, baixou a mão ainda segurando o maço de cartas não enviadas e ficou ali olhando para mim, balançando a cabeça.
— Você faz ideia do quanto estou feliz por termos passado a noite juntos?
Dei de ombros como que afastando outro elogio. Eu não era digno de elogios, principalmente se viessem dele.
— Não sei.
— É a sua cara não saber. Não quero me arrepender de nada… incluindo aquilo que você não permitiu que eu falasse hoje de manhã. Mas me assusta pensar que eu possa ter perturbado você. Não quero que nenhum de nós dois tenha que pagar de um jeito ou de outro.
Eu sabia exatamente a que ele estava se referindo, mas fingi não saber.
— Não vou contar a ninguém. Não vamos ter problemas.
— Não estou falando disso. Mas tenho certeza de que pagarei de alguma forma… — E pela primeira vez à luz do dia vi um Oliver diferente. — Para você, qualquer que seja seu pensamento, ainda é tudo diversão, e deve ser. Para mim é outra coisa que ainda não compreendi totalmente, e o fato de não conseguir me assusta.
— Você queria que eu não tivesse vindo?
Minha tolice era intencional?
— Eu o abraçaria e beijaria se pudesse.
— Eu também.
Eu me aproximei de seu ouvido quando ele estava prestes a entrar no correio e sussurrei:
— Me come, Elio.
Ele lembrou e imediatamente gemeu o próprio nome três vezes, como fizemos durante aquela noite. Eu sentia que já estava ficando duro. Então, para provocá-lo com as exatas palavras que ele tinha usado naquela manhã, falei:
— Vamos guardar para depois.
Então disse que Até depois! sempre me faria pensar nele. Ele sorriu e disse:
— Até depois!
O significado era exatamente o que eu queria que tivesse: não só tchau ou vá embora, mas fazer amor logo mais. Virei e de repente estava na bicicleta, descendo o caminho de volta às pressas, com um sorriso largo, quase cantando se soubesse cantar.
Nunca na vida estive tão feliz. Nada podia dar errado, tudo ia acontecer como eu queria, todas as portas estavam se abrindo uma a uma, e a vida não podia ser mais radiante: estava brilhando sobre mim, e quando eu virava a bicicleta para a esquerda ou para a direita ou tentava me afastar de sua luz, ela me seguia como se eu fosse um ator no palco. Eu o desejava, mas também podia viver sem ele, e qualquer um dos dois estava bom.
No caminho de volta, decidi parar na casa da Marzia. Ela estava indo à praia. Descemos para as pedras juntos e nos deitamos ao sol. Eu amava seu cheiro, amava sua boca. Ela tirou a parte de cima do biquíni e pediu que eu passasse protetor em suas costas, sabendo que minhas mãos inevitavelmente tocariam seus peitos. A família dela tinha uma cabana de palha na praia, e ela disse que devíamos entrar lá. Ninguém ia usar. Tranquei a porta por dentro, sentei-a na mesa, tirei seu biquíni e coloquei minha boca onde ela tinha o cheiro do mar. Ela jogou o corpo para trás e levantou as duas pernas sobre meus ombros. Que estranho, pensei, que eles se sobrepusessem, sem que um excluísse o outro. Nem meia hora antes eu estava pedindo ao Oliver que me comesse e agora estava prestes a fazer amor com Marzia, mas nenhum deles tinha nada a ver com o outro a não ser os dois Elios que eu era e sempre seria.
* * *
Depois do almoço, Oliver disse que tinha que voltar a B. para levar as últimas correções à Signora Milani. Olhou por um instante em minha direção, mas, ao ver que eu não respondia, saiu imediatamente.
Depois de duas taças de vinho, eu não via a hora de tirar um cochilo. Peguei dois pêssegos enormes da mesa e levei-os comigo, beijando minha mãe ao sair da mesa. Comeria depois, disse. No quarto escuro, coloquei as frutas na mesinha de mármore. Então tirei toda a roupa. Lençóis limpos, frescos, engomados e quarados estavam esticados sobre minha cama… Deus a abençoe, Mafalda. Eu queria ficar sozinho? Sim. Uma pessoa na noite passada; e de novo ao amanhecer. De manhã, outra. Agora eu estava deitado nos lençóis tão feliz quanto um girassol recém-brotado e firme, cheio de vigor na tarde de verão mais ensolarada. Eu estava feliz por estar sozinho agora que estava prestes a dormir? Sim. Bom, não. Sim. Mas talvez não. Sim, sim, sim. Eu estava feliz, e só isso importava, com os outros, sem os outros, eu estava feliz.
Meia hora depois, ou talvez antes, fui acordado pelo aroma rico e encorpado do café que se espalhava pela casa. Mesmo com a porta fechada senti o cheiro e soube que não era o café dos meus pais. O deles fora passado e servido algumas horas antes. Era o segundo café da tarde, feito na máquina de espresso na qual Mafalda, o marido e Anchise passavam o café quando já tinham almoçado. Logo estariam descansando também. Um torpor pesado já pairava sobre a casa… o mundo estava adormecendo. Tudo o que eu queria era que ele passasse pela minha porta na varanda e, pela persiana entreaberta, visse meu corpo nu esparramado na cama. Ele ou Marzia… mas eu queria que alguém passasse e me visse, então decidisse o que queria fazer, eu poderia continuar dormindo ou, se eles se aproximassem, abriria espaço para que dormíssemos juntos. Vi um deles entrar em meu quarto e pegar a fruta e, com a fruta na mão, vir até a minha cama e aproximá-la do meu pau duro. Sei que você não está dormindo, diriam, então passariam o pêssego macio e maduro no meu pau até eu perfurar a fruta no vinco que me lembrava a bunda de Oliver. Esse pensamento me tomou e não ia embora.
Levantei e peguei um dos pêssegos, abri a fruta com os dedos, coloquei o caroço na mesa e levei gentilmente o pêssego felpudo e colorido até meu pau, então comecei a pressionar até que a fruta aberta escorregasse por ele. Se Anchise imaginasse, se Anchise soubesse o que eu estava fazendo com a fruta que ele cultivava com tamanha devoção todos os dias, ele e seu chapéu de palha largo, os dedos longos, nodosos e calejados que estavam sempre arrancando as ervas daninhas da terra seca. Seus pêssegos estavam mais para damascos do que pêssegos. Eu já tinha experimentado o reino animal. Agora estava indo para o reino das plantas. Os próximos seriam os minerais. A ideia quase me fez rir. O suco da fruta escorria pelo meu pau. Se Oliver me visse agora, eu deixaria que ele me chupasse como tinha chupado naquela manhã. Se Marzia viesse, deixaria que ela me ajudasse a terminar. O pêssego estava macio e firme, e quando finalmente consegui rompê-lo ao meio com meu pau, percebi que o núcleo avermelhado lembrava não só um ânus, mas uma vagina, então, segurando cada metade em uma das mãos e pressionando-as com firmeza contra meu pau, comecei a me esfregar, pensando em ninguém e em todo mundo, incluindo o pobre pêssego, que não fazia ideia do que estava acontecendo, só sabia que tinha que deixar rolar e no fim provavelmente também sentiu o prazer do ato, a ponto de eu pensar que o ouvi dizer Me come, Elio, mais forte e depois de um tempo, Eu falei mais forte!, enquanto eu buscava em minha mente imagens de Ovídio… não tinha um personagem que virou um pêssego e, se não tinha, eu não podia inventar ali mesmo, digamos, um jovem desgraçado e uma garota que com sua beleza tinham desprezado uma divindade invejosa que, por vingança, os transformou em um pessegueiro e só agora, depois de três mil anos, recebiam de volta o que lhes tinha sido tirado tão injustamente, enquanto sussurravam “Vou morrer quando você terminar, e você não deve terminar, nunca deve terminar”? A história me excitou tanto que o orgasmo tinha chegado praticamente sem aviso. Senti que podia parar naquele instante ou, com mais um movimento, gozar, que foi o que fiz, com cuidado, mirando o jato no núcleo avermelhado do pêssego aberto como em um ritual de inseminação.
Que coisa mais louca. Inclinei o corpo para trás, segurando a fruta com as mãos, grato por não ter sujado o lençol de suco ou sêmen. O pêssego ferido e danificado deitou de lado na mesa, envergonhado, leal, machucado e confuso, tentando não derrubar o que eu tinha deixado dentro dele. Isso me fez pensar que eu provavelmente não parecia tão diferente na noite anterior depois de ele ter gozado dentro de mim pela primeira vez.
Coloquei uma regata, mas decidi continuar nu da cintura para baixo e deitar sob o lençol.
Acordei com o barulho de alguém abrindo a persiana e fechando de novo. Como no meu sonho, ele veio até mim nas pontas dos pés, não para me surpreender, mas para não me acordar. Eu sabia que era Oliver e, com os olhos ainda fechados, levantei o braço em sua direção. Ele o pegou e beijou, então levantou o lençol e pareceu surpreso ao perceber que eu estava nu. Imediatamente levou os lábios para onde tinham prometido voltar naquela manhã. Amou o gosto pegajoso. O que eu tinha feito?
Contei e apontei para a prova ferida que estava em cima da mesa.
— Quero ver.
Ele levantou e perguntou se eu tinha deixado aquilo para ele.
Talvez tivesse. Ou tinha simplesmente largado ali pensando em como jogar fora?
— É o que eu estou pensando?
Eu assenti, fingindo vergonha.
— Você tem ideia do esforço que Anchise dedica a cada um desses pêssegos?
Oliver estava brincando, mas parecia que ele, ou alguém por meio dele, estava fazendo a mesma pergunta a respeito do esforço que meus pais dedicavam a mim.
Ele trouxe o pêssego pela metade até a minha cama, com cuidado para não derramar o conteúdo enquanto tirava a roupa.
— Eu sou nojento, não sou? — perguntei
— Não, você não é nojento… queria que todo mundo fosse nojento como você. Quer ver o que é nojento?
O que ele estava aprontando? Hesitei em dizer sim.
— Pense no número de pessoas que gozaram antes de você… você, seu avô, seu tataravô, e todas as gerações de Elios antes de você, e os de lugares distantes, todos espremidos no conta-gotas que faz de você quem você é. Posso experimentar?
Balancei a cabeça.
Ele enfiou um dedo no núcleo do pêssego e levou até a boca.
— Por favor, não faça isso.
Era mais do que eu podia suportar.
— Nunca suportei o meu. Mas esse é seu. Por favor, explique.
— Me faz sentir horrível.
Ele deu de ombros para o meu comentário.
— Olha só, você não precisa fazer isso. Eu que fui atrás de você, eu procurei você, tudo o que aconteceu foi culpa minha… você não precisa fazer isso.
— Besteira. Eu quis você desde o primeiro dia. Só escondi melhor.
— Claro!
Eu me estiquei para pegar a fruta de sua mão, mas com a outra ele segurou meu pulso e apertou com força, como fazem nos filmes, quando um homem obriga o outro a soltar uma faca.
— Você está me machucando.
— Então pare.
Vi Oliver colocar o pêssego na boca e começar a comê-lo devagar, olhando para mim tão intensamente que pensei que mesmo uma transa não chegaria a esse ponto.
— Se você quiser cuspir não tem problema, não mesmo, eu prometo, não vou ficar ofendido — falei mais para quebrar o silêncio do que como uma última súplica.
Ele balançou a cabeça. Soube que ele estava sentindo o gosto naquele exato momento. Algo meu estava em sua boca, mais dele do que meu agora. Não sei o que aconteceu comigo naquele momento enquanto eu o observava, mas de repente senti uma vontade incontrolável de chorar. E, em vez de tentar lutar contra, como fizera em relação ao orgasmo, eu simplesmente me soltei, como se também quisesse mostrar algo íntimo meu. Eu me aproximei e abafei meu choro em seu ombro. Estava chorando porque nenhum estranho jamais foi tão gentil ou tão longe por mim, nem Anchise que uma vez abriu meu pé para chupar e cuspir o veneno de um escorpião. Eu estava chorando porque nunca conheci tamanha gratidão e não tinha outro jeito de demonstrar isso. E estava chorando pelos pensamentos horríveis que alimentei contra ele naquela manhã. E pela noite anterior também, porque, querendo ou não, eu nunca mais poderia voltar atrás, e era um bom momento para mostrar que ele estava certo, que não era fácil, que a diversão tinha seus meios de sair dos eixos e que se tínhamos apressado as coisas era tarde demais para dar um passo atrás… chorando porque algo estava acontecendo, e eu não tinha ideia do que era.
— Independentemente do que aconteça entre nós, Elio, quero que você saiba. Nunca diga que você não sabia.
Ele ainda estava mastigando. No calor da paixão seria uma coisa. Mas aquilo ali era outra bem diferente. Ele estava me levando consigo.
As palavras dele não faziam o menor sentido. Mas eu sabia exatamente o que queriam dizer.
— Esse é meu jeito de demonstrar. Melhor isso do que palavras. De todas as pessoas que conheço, você certamente entenderia — acrescentou ele.
Esfreguei minha mão em seu rosto. Então, sem saber por quê, comecei a lamber suas pálpebras.
— Me beije agora, antes que desapareça totalmente — falei.
A boca dele teria gosto de pêssego e de mim.
Fiquei em meu quarto muito tempo depois que Oliver saiu. Quando finalmente acordei, era quase noite, o que me deixou de mau humor. A dor tinha ido embora, mas senti de novo o mal-estar que tinha experimentado ao amanhecer. Não sabia se era o mesmo sentimento, ressurgindo depois de um longo hiato, ou se o anterior tinha curado e esse era totalmente novo, resultado da atividade sexual da tarde. Eu sempre sentiria aquela culpa solitária após os momentos inebriantes juntos? Por que não sentia a mesma coisa depois da Marzia? Era o jeito da natureza de me lembrar que era melhor que eu ficasse com ela?
Tomei um banho e coloquei roupas limpas. Lá embaixo, todos estavam tomando drinques. Os dois convidados da noite anterior haviam retornado e conversavam com minha mãe, enquanto um convidado novo, outro repórter, ouvia com atenção Oliver descrever seu livro sobre Heráclito. Ele tinha aperfeiçoado a arte de criar um resumo de cinco frases que parecia ter sido criado no calor do momento especialmente para aquele ouvinte.
— Você vai ficar? — perguntou minha mãe.
— Não, vou encontrar Marzia.
Ela lançou um olhar apreensivo e começou a balançar a cabeça discretamente, como se dissesse, Não aprovo, ela é uma boa garota, você devia sair com ela em grupo.
— Deixe o garoto em paz, você e seus grupos. — Foi a resposta libertadora do meu pai. — Ele fica em casa quieto o dia todo. Deixe-o fazer o que quiser. O que quiser!
Se ele soubesse.
E se eu contasse?
Meu pai jamais se oporia. Talvez fizesse uma careta, mas logo voltaria ao normal.
Nunca me ocorreu esconder de Oliver o que eu fazia com Marzia. Padeiros e açougueiros não competem, eu pensava. Nem ele, provavelmente, se importaria com a questão.
Naquela noite Marzia e eu fomos ao cinema. Tomamos sorvete na piazzetta. E de novo na casa dos pais dela.
— Quero ir à livraria de novo — disse ela enquanto me levava até o portão no jardim. — Mas não gosto de ir ao cinema com você.
— Quer ir perto da hora de fechar amanhã?
— Por que não? — Ela queria repetir aquela noite.
Marzia me beijou. O que eu queria era ir à livraria quando tivesse acabado de abrir pela manhã, com a opção de voltar na mesma noite.
Quando cheguei em casa, os convidados estavam quase indo embora. Oliver não estava em casa.
Tudo bem, pensei.
Fui para o quarto e, por falta do que fazer, abri meu diário.
Registro da noite anterior: “Vejo você à meia-noite.” Espera só. Ele nem vai aparecer. “Não encha o saco”… é isso que “Vê se cresce” quer dizer. Queria não ter dito nada.
Nos rabiscos que tracei em volta dessas palavras antes de ir até o quarto dele, eu estava tentando recuperar a memória do nervosismo da noite anterior. Talvez quisesse aliviar as ansiedades daquela noite, tanto para mascarar as atuais quanto para me lembrar de que, se meus piores medos de repente se dissolveram quando entrei no quarto dele, talvez também tivessem o mesmo fim hoje e fossem facilmente dominados assim que eu ouvisse seus passos.
Mas eu não conseguia nem me lembrar das ansiedades da noite anterior. Tinham sido completamente ofuscadas pelo que as seguiu e pareciam pertencer a outro segmento de tempo ao qual eu não tinha acesso. Tudo sobre a noite anterior desapareceu de repente. Eu não me lembrava de nada. Tentei sussurrar “Não encha o saco” para mim mesmo para tentar reacender minha memória. As palavras tinham parecido tão reais na noite anterior. Agora eram apenas palavras tentando fazer algum sentido.
Então percebi. O que eu estava vivenciando essa noite era diferente de tudo o que já tinha vivido.
Era muito pior. Eu não sabia nem que nome dar àquela sensação.
Pensando bem, eu também não sabia que nome dar ao nervosismo da noite anterior.
Eu tinha dado um passo gigante. Mas ali estava, não me sentia mais sábio nem mais certo das coisas do que antes de passarmos a noite juntos. Era como se nem tivéssemos passado.
Pelo menos na noite anterior havia o medo de falhar, o medo de ser colocado para fora ou chamado pelo mesmo nome que já tinha chamado outros. Agora que tinha superado esse medo, essa ansiedade, embora latente, estaria presente o tempo todo, como um presságio e um aviso de recifes assassinos além da tormenta?
E por que eu me importava com onde ele estava? Não era isso que eu queria para nós dois… padeiros e açougueiros e a coisa toda? Por que me sentir tão perdido só por ele não estar lá ou porque tinha dado um jeito de fugir, por que a sensação de que tudo o que estava fazendo agora era esperar por ele… esperar, esperar, esperar?
O que havia na espera que começava a parecer tortura?
Se está com alguém, Oliver, está na hora de voltar para casa. Não vou fazer perguntas, prometo, só não me deixe esperando.
Se ele não aparecer em dez minutos, vou fazer alguma coisa.
Dez minutos depois, me sentindo impotente e me odiando por isso, decidi esperar mais dez, dessa vez de verdade.
Vinte minutos depois, não consegui mais suportar. Coloquei um suéter, saí para a varanda e desci. Iria até B., se fosse preciso, ver com meus próprios olhos. Estava indo em direção ao galpão das bicicletas, já discutindo comigo mesmo se devia ou não ir a N. primeiro, onde as pessoas costumavam ficar na rua até bem mais tarde do que em B., e já me xingando por não ter enchido os pneus de manhã, quando, de repente, alguma coisa me disse que eu devia parar imediatamente e tentar não incomodar Anchise, que dormia na casinha ali perto. Anchise sinistro… todos diziam que ele era sinistro. Eu suspeitei o tempo todo? Devo ter suspeitado. A queda da bicicleta, a mistura caseira de Anchise, a bondade com que cuidou dele e limpou a ferida.
Mas lá embaixo, nas pedras à beira da praia, ao luar, eu o vi. Estava sentado em uma das pedras mais altas, usava o suéter azul e branco listrado com os botões sempre abertos nos ombros que havia comprado na Sicília no início do verão. Não estava fazendo nada, estava apenas com os braços em volta dos joelhos, ouvindo as ondas baterem nas pedras lá embaixo. Olhando para ele da cerca, senti algo tão terno que me lembrou de como tinha ido correndo a B. para alcançá-lo antes mesmo que ele entrasse no correio. Ele era a melhor pessoa que eu tinha conhecido na vida. Eu havia escolhido bem. Abri o portão e pulei as várias pedras até chegar perto dele.
— Estava esperando você — disse.
— Achei que você tinha ido dormir. Pensei até que não queria.
— Não. Esperando. Só apaguei as luzes.
Olhei na direção da nossa casa. As persianas estavam todas fechadas. Eu me abaixei e beijei o pescoço de Oliver. Foi a primeira vez que o beijei com sentimento, não só desejo. Ele me abraçou. Inofensivo, caso alguém visse.
— O que você estava fazendo? — perguntei.
— Pensando.
— Sobre?
— Coisas. A volta para os Estados Unidos. Os cursos que tenho que dar no outono. O livro. Você.
— Eu?
— Eu? — Ele imitou minha modéstia.
— Em mais ninguém?
— Em mais ninguém. — Ele ficou em silêncio por um tempo. — Venho aqui todas as noites e fico sentado. Às vezes passo horas.
— Sozinho?
Ele assentiu.
— Nunca soube. Achava que…
— Eu sei o que você achava.
A notícia não podia ter me deixado mais feliz. Aquilo claramente vinha ofuscando as coisas entre nós. Decidi não insistir no assunto.
— Este lugar provavelmente é o que mais vai deixar saudade. — Então, depois de refletir um pouco, acrescentou: — Tenho sido feliz em B.
Parecia um preâmbulo da despedida.
— Eu estava olhando para lá — continuou, apontando para o horizonte — e pensando que em duas semanas vou estar de volta em Columbia.
Ele estava certo. Eu tinha feito questão de nunca contar os dias. No início porque não queria pensar em quanto tempo ele ficaria conosco; depois porque não queria encarar o fato de que restavam poucos dias.
— Tudo isso quer dizer que em dez dias, quando eu olhar para cá, você não vai estar aqui. Não sei o que vou fazer. Pelo menos você vai estar em outro lugar, onde não há lembranças.
Ele apertou meu ombro.
— Você tem uns pensamentos às vezes… você vai ficar bem.
— Talvez. Mas talvez não. Desperdiçamos tantos dias… tantas semanas.
— Desperdiçamos? Não sei. Talvez só precisássemos de tempo para descobrir se era isso mesmo que queríamos.
— Alguém dificultou as coisas de propósito.
— Eu?
Fiz que sim com a cabeça.
— Você sabe o que estávamos fazendo há exatamente uma noite.
Ele sorriu.
— Não sei como me sinto em relação a isso.
— Também não sei. Mas estou feliz por termos feito.
— Você vai ficar bem?
— Vou ficar bem. — Enfiei a mão dentro da calça dele. — Amo estar aqui com você.
Era meu jeito de dizer, Tenho sido feliz aqui também. Tentei imaginar o que feliz aqui queria dizer para ele: feliz ao chegar aqui depois de ter imaginado como seria o lugar, feliz por trabalhar naquelas manhãs de calor escaldante no paraíso, feliz indo e voltando da casa da tradutora de bicicleta, feliz indo para a cidade toda noite e voltando tão tarde, feliz com meus pais e a labuta prandial, feliz com os amigos do pôquer e todos os outros que fez na cidade e sobre quem eu não sabia nada? Um dia talvez ele me contasse. Eu me perguntei qual era meu papel no panorama geral de felicidade.
Por outro lado, amanhã, se fôssemos nadar cedinho, talvez eu fosse tomado mais uma vez pela autoaversão exagerada. Eu me perguntei se era possível se acostumar com isso. Ou será que acabamos acumulando um déficit de mal-estar tão grande que aprendemos a encontrar maneiras de consolidá-lo em um único sentimento com anistias e períodos de graça próprios? Ou a presença do outro, que ontem de manhã quase parecia um intruso, se torna cada vez mais necessária porque nos protege do nosso próprio inferno, e a mesma pessoa que causa nosso tormento ao amanhecer é quem o alivia à noite?
* * *
Na manhã seguinte, fomos nadar juntos. Mal tinha passado das seis, e o fato de ser tão cedo energizou o exercício. Mais tarde, enquanto ele boiava na piscina, quis segurá-lo, como instrutores de natação fazem quando seguram nosso corpo tão levemente que parecem nos manter boiando com o toque dos dedos. Por que eu me sentia mais velho do que ele naquele momento? Eu queria protegê-lo de tudo naquela manhã, das pedras, das águas-vivas, agora que era época de águas-vivas, de Anchise, cujo olhar sinistro, quando ele entrava no jardim para ligar os regadores, sempre arrancando ervas daninhas onde quer que estivesse, mesmo quando chovia, parecia arrancar também todos os segredos que acreditávamos ter escondido tão bem.
— Como você está? — perguntei, imitando a pergunta que ele fez na manhã anterior.
— Você deveria saber.
No café da manhã, não sei o que me deu, mas de repente estava abrindo o ovo quente para ele antes que Mafalda interviesse ou que ele o quebrasse com a colher. Eu nunca tinha feito isso para alguém na vida, mas ali estava, garantindo que nenhum pedacinho de casca caísse no seu ovo. Ele ficou feliz com o ovo. Quando Mafalda Trouxe o polpo diário, fiquei feliz por ele. Alegria doméstica. Só porque ele tinha deixado que eu ficasse por cima na noite anterior.
Percebi que meu pai estava olhando para mim enquanto terminava de abrir o segundo ovo quente.
— Os americanos não sabem fazer isso — falei.
— Tenho certeza de que eles dão um jeito… — respondeu ele.
O pé que encostou no meu embaixo da mesa me disse que talvez eu devesse parar e supor que meu pai havia percebido alguma coisa.
— Ele não é bobo — disse Oliver mais tarde quando estava se arrumando para ir a B.
— Quer que eu vá com você?
— Não, melhor não chamar a atenção. É melhor você se dedicar ao Haydn hoje. Até depois.
— Até depois.
Marzia me ligou naquela manhã quando ele estava saindo. Oliver quase piscou para mim ao entregar o telefone. Não havia nada que sugerisse ironia, nada que não me lembrasse, a não ser que eu estivesse enganado — e não acho que estava —, que o que havia ente nós era a total transparência que existe entre dois amigos.
Talvez fôssemos amigos em primeiro lugar e amantes em segundo.
Mas talvez os amantes sejam exatamente isso.
* * *
Quando penso nos últimos dez dias que passamos juntos, vejo o mergulho logo cedo, o café da manhã preguiçoso, a pedalada até a cidade, o trabalho no jardim, os almoços, os cochilos à tarde, mais trabalho à tarde, tênis talvez, a piazzetta depois do jantar e toda noite o tipo de sexo capaz de fazer o tempo parar. Naqueles dias, acho que não houve um minuto, além da meia hora que ele passava com a tradutora ou de quando eu conseguia roubar algumas horas para ficar com Marzia, em que não estivéssemos juntos.
— Quando você soube de mim? — perguntei um dia.
Esperava que ele dissesse Quando apertei seus ombros e você quase desmaiou nos meus braços. Ou, Quando você molhou o calção naquela tarde em que conversamos no seu quarto. Algo nesse sentido.
— Quando você ficou vermelho — respondeu ele.
— Eu?
Estávamos falando sobre tradução de poesia; de manhã cedinho, durante sua primeira semana conosco. Começamos a trabalhar mais cedo do que o normal naquele dia, provavelmente porque já tínhamos desfrutado das conversas espontâneas enquanto o café da manhã era servido embaixo da tília e estávamos ansiosos para passar mais tempo juntos. Ele perguntou se eu já tinha traduzido poesia. Disse que sim. Por que, ele também? Sim. Ele estava lendo Leopardi e tinha chegado a alguns versos que eram impossíveis de traduzir. Falávamos sem parar, sem perceber o quanto uma conversa iniciada às pressas poderia ir longe, porque, ao mesmo tempo que nos aprofundávamos no mundo de Leopardi, também encontrávamos brechas onde nosso espontâneo senso de humor e nosso amor pelas palhaçadas corriam livres. Traduzimos os versos para o inglês, então do inglês para o grego antigo, e de volta para o inglês capenga e o italiano macarrônico. Os últimos versos de “À lua” ficaram tão distorcidos que caímos na gargalhada ao repetir a poesia sem sentido em italiano; de repente houve um momento de silêncio e, quando olhei para ele, vi que me encarava com aquele olhar frio e vítreo que sempre me desconcertava. Eu estava tentando articular as palavras e, quando ele perguntou como eu sabia de tantas coisas, tive a presença de espírito de dizer algo sobre ser filho de um professor universitário. Não costumava alardear meus conhecimentos, principalmente para alguém que me intimidava tanto. Não tinha com o que responder, nada a acrescentar, nada que pudesse confundir as coisas entre nós, nenhum lugar onde me esconder ou me proteger. Eu me senti tão exposto quanto um cordeiro abandonado nas planícies secas do Serengeti.
O ato de me encarar não fazia mais parte da conversa ou da brincadeira com a tradução; tinha suplantado as duas e se tornado um tema próprio, mas nenhum de nós se atrevia a mencioná-lo. E, sim, havia um brilho em seus olhos que me obrigou a desviar o olhar e, quando tornei a encará-lo, seus olhos permaneciam os mesmos e ainda estavam concentrados em meu rosto, como se dissessem Então você desviou o olhar e voltou, vai desviar o olhar de novo?… e tive que desviar o olhar mais uma vez, como se estivesse imerso em meus pensamentos, enquanto na verdade procurava algo para dizer, como um peixe que procura a água em um lago lamacento que está secando rápido ao sol. Ele devia saber exatamente o que eu estava sentindo. O que enfim me fez ficar vermelho não foi a vergonha natural do momento em que percebi que ele me pegou tentando sustentar seu olhar para então deixar o meu escapar em segurança; o que me fez ficar vermelho foi a possibilidade eletrizante, inacreditável de como eu queria que permanecesse, de que talvez ele realmente gostasse de mim, e de que gostava de mim como eu gostava dele.
Durante semanas confundi seu olhar com hostilidade descarada. Era simplesmente um homem tímido sustentando o olhar de outra pessoa.
Nós éramos, finalmente percebi, as duas pessoas mais tímidas do mundo.
Meu pai foi o único que realmente enxergou a situação desde o início.
— Você gosta de Leopardi? — perguntei, para quebrar o silêncio, mas também para insinuar que foi algo sobre Leopardi que me fez parecer um pouco distraído durante a pausa na conversa.
— Sim, muito.
— Eu também gosto muito dele.
Sempre soube que não estava falando de Leopardi. A questão era: ele sabia?
— Eu sabia que estava deixando você desconfortável, mas precisava ter certeza.
— Então você sempre soube?
— Digamos que eu tinha quase certeza.
Em outras palavras, havia começado poucos dias depois da chegada dele. Tudo tinha sido simulação, então? E todas as oscilações entre amizade e indiferença… o que eram? Nosso jeito furtivo de manter o controle sobre o outro e ao mesmo tempo negar? Ou eram simplesmente um jeito de manter o outro distante, esperando que o que sentíamos fosse de fato indiferença?
— Por que você não me deu um sinal? — perguntei.
— Eu dei. Ou tentei, pelo menos.
— Quando?
— Um dia depois do tênis. Toquei em você. Era uma maneira de demonstrar que gostava de você. O modo como você reagiu me fez sentir como se eu praticamente o tivesse molestado. Decidi manter distância.
* * *
Nossos melhores momentos aconteciam à tarde. Depois do almoço, eu subia para tirar um cochilo quando o café estava prestes a ser servido. Então, quando os convidados do almoço tinham ido embora, ou se retirado para descansar na casa de hóspedes, meu pai ia para o escritório ou deitava para cochilar com minha mãe. Às duas da tarde, um silêncio intenso se instalava sobre a casa, sobre o mundo, interrompido aqui e ali pelo arrulhar dos pombos ou pelo martelo de Anchise quando ele trabalhava em suas ferramentas tentando não fazer muito barulho. Eu gostava de ouvi-lo trabalhar à tarde, e mesmo quando as batidas me acordavam, ou quando ouvia o amolador de facas nas tardes de quarta-feira, eu me sentia tão descansado e em paz com o mundo quanto me sentiria anos mais tarde ao ouvir uma sirene distante em Cape Cod no meio da noite. Oliver gostava de manter as janelas e persianas totalmente abertas à tarde, apenas as cortinas finíssimas esvoaçando entre nós e a vida lá fora, porque era um “crime” bloquear tanta luz solar e manter uma paisagem daquela longe do nosso campo de visão, principalmente para quem não teria aquilo pela vida inteira, dizia ele. Os campos ondulados do vale que levava às colinas pareciam sentar sobre uma névoa crescente verde-oliva: girassóis, videiras, as lavandas esparsas e as oliveiras rasteiras e humildes, curvadas como espantalhos velhos e enrugados, olhando pasmas pela nossa janela quando estávamos nus na cama, o cheiro do seu suor, que era o cheiro do meu suor, ao lado do meu homem-mulher, e eu seu homem-mulher, e à nossa volta o aroma do sabão de camomila da Mafalda, que era o aroma do mundo vespertino da nossa casa.
Penso naqueles dias e não me arrependo de nada, nem dos riscos, nem da vergonha, nem da total falta de precaução. O brilho lírico do sol, os campos repletos de plantas altas balançando no calor intenso da tarde, o ranger do chão de madeira, ou o arranhar do cinzeiro de argila empurrado levemente sobre a placa de mármore que ficava na minha cabeceira. Eu sabia que nossos minutos eram contados; mas não ousava contá-los, assim como sabia para onde tudo aquilo estava levando, mas não queria ler as placas. Houve um momento em que intencionalmente não joguei migalhas para marcar o caminho do retorno; em vez disso, comi todas. Ele podia vir a se revelar uma aberração; podia me mudar ou me estragar para sempre, e o tempo e a fofoca talvez estripassem tudo o que compartilhávamos e podassem a coisa toda até que só restassem espinhas de peixe. Talvez eu sentisse saudade desse dia, ou talvez acabasse bem melhor do que agora, mas pelo menos sempre saberia que naquelas tardes no meu quarto eu tinha aproveitado o momento.
Certa manhã, no entanto, acordei e vi toda B. coberta por nuvens escuras e baixas quer corriam no céu. Soube exatamente o que queria dizer. O outono estava virando a esquina.
Algumas horas depois, as nuvens limparam completamente, e o tempo, como se para compensar a pegadinha impiedosa, pareceu apagar qualquer sinal de outono de nossas vidas e nos deu um dos dias mais amenos da estação. Mas entendi o aviso e, como um júri que ouviu provas inadmissíveis antes que fossem excluídas dos autos pelo juiz, de repente vi que nosso tempo era emprestado, que o tempo é sempre emprestado, e que a agência de crédito cobra a dívida exatamente quando estamos menos preparados para pagá-la e precisamos pegar mais emprestado. Comecei a tirar fotos mentais dele, juntei as migalhas que caíam da nossa mesa e as guardei para minha fuga e, vergonhosamente, fiz listas: a pedra, o penhasco, a cama, o som do cinzeiro. A pedra, o penhasco, a cama… Desejei ser como aqueles soldados nos filmes cujas balas acabam e eles jogam as armas fora como se nunca mais pudessem ter qualquer utilidade, ou como fugitivos no deserto que, em vez de racionar a água da cabaça, cedem à sede e engolem tudo, e jogam as cabaças fora pelo caminho. Em vez disso, me agarrei a pequenas coisas para que nos dias de escassez que viriam vislumbres do passado pudessem trazer de volta o calor. Comecei, relutantemente, a roubar do presente para pagar dívidas que eu sabia que poderia contrair no futuro. Isso, eu sabia, era tão criminoso quanto fechar as persianas nas tardes ensolaradas. Mas também sabia que esperar pelo pior era o jeito certo de prevenir que o pior acontecesse.
Quando saímos para caminhar uma noite e ele me disse que logo voltaria para casa, percebi o quanto minha pretensa previsão tinha sido fútil. Bombas nunca caem no mesmo lugar; aquela, contra todas as minhas previsões, caiu exatamente no meu esconderijo.
* * *
Oliver ia voltar para os Estados Unidos na segunda semana de agosto. Nos primeiros dias do mês, ele disse que queria passar três dias em Roma e usar esse tempo para trabalhar na versão final do manuscrito com o editor italiano. De lá voaria direto para casa. Eu gostaria de ir com ele?
Eu disse sim. Mas não era melhor perguntar aos meus pais primeiro? Não seria necessário, eles nunca diziam não. Tudo bem, mas eles não…? Não. Ao saber que Oliver ia embora antes do esperado e que passaria alguns dias em Roma, minha mãe perguntou — com a permissão do kaiboy, é claro — se eu poderia acompanhá-lo. Meu pai não foi contra.
Minha mãe me ajudou a fazer a mala. Eu precisava levar um paletó, caso o editor quisesse nos levar para jantar? Não haveria jantar. Além disso, por que eu seria convidado? Eu devia levar um paletó mesmo assim, pensou ela. Eu queria levar uma mochila, viajar como qualquer pessoa da minha idade viajaria. Como quiser. Mesmo assim, ela me ajudou a tirar tudo e a refazer a mala quando ficou claro que não haveria lugar para tudo o que eu queria levar. Você vai ficar só dois ou três dias. Oliver e eu não tínhamos falado com precisão sobre nossos últimos dias juntos. Minha mãe jamais saberia como seu “dois ou três dias” me atingiu naquela manhã. Sabíamos em que hotel ficaríamos? Penzione alguma coisa. Nunca ouvi falar, mas quem era ela para saber?, disse. Meu pai não queria discussão. Ele mesmo fez as reservas. É um presente, disse ele.
Oliver não só arrumou a própria mala como, no dia em que pegaríamos o direttissimo até Roma, segurou-a e colocou-a no exato lugar do quarto onde eu a tinha largado no dia de sua chegada. Naquele dia, minha mente acelerou para o momento em que teria meu quarto de volta. Agora me perguntava do que estaria disposto a abrir mão para voltar àquela tarde no fim de junho, quando apresentei a ele aquele que tinha se tornado o tour de rigueur da propriedade, que fazia com todos os hóspedes, e como uma coisa levou a outra acabamos no terreno baldio que levava aos trilhos abandonados onde recebi minha primeira dose de tantos depois. Qualquer pessoa da minha idade ia preferir tirar um cochilo do que caminhar até os limites da nossa propriedade naquele dia. Claramente eu já sabia o que estava fazendo.
A simetria de tudo, ou a aparência vazia, quase saqueada, do quarto, me deu um nó na garganta. A imagem que me veio à mente não foi a de estar em um quarto de hotel à espera do mensageiro que nos ajudará a levar as coisas para o saguão depois de uma estadia maravilhosa prestes a acabar, mas a de estar em um quarto de hospital depois que todos os nossos pertences foram guardados, e o próximo paciente, que ainda não foi internado, provavelmente se encontra à beira da morte na emergência, esperando por um leito, exatamente como fizemos uma semana antes.
Era um teste para a separação final. Como olhar para alguém preso a um respirador que vai ser desligado em dois dias.
Eu estava feliz porque o quarto tinha voltado para mim, e o meu ficaria com o meu irmão assim que ele voltasse da Ásia. No meu quarto, que também era de Oliver, seria mais fácil me lembrar das nossas noites.
Não, melhor ficar no quarto atual. Assim, pelo menos, eu poderia fingir que ele ainda estava no dele e, se não estivesse, que ainda não tinha chegado, como era comum naquelas noites em que eu contava os minutos, as horas, os ruídos.
Quando abri o armário, percebi que ele tinha deixado em alguns cabides um calção, uma cueca, a calça de sarja e uma camisa limpa. Reconheci a camisa. Esvoaçante. E reconheci o calção. Vermelho. Eram para quando ele fosse dar um mergulho pela última vez naquela manhã.
— Preciso contar uma coisa sobre esse calção — falei ao fechar a porta do armário.
— Contar o quê?
— No trem eu conto.
Mas acabei contando mesmo assim.
— Só prometa que vai me deixar ficar com ele.
— Só isso?
— Bom, use bastante hoje… e não vá nadar com ele.
— Nojento.
— Nojento e muito, muito triste.
— Nunca vi você assim.
— E quero a camisa também. E as alpargatas. E os óculos de sol. E você.
No trem contei sobre o dia em que pensei que ele tinha morrido afogado e como estava determinado a pedir ao meu pai que reunisse o máximo possível de pescadores para procurar por ele e, quando o encontrassem, eles acenderiam uma pira na praia e eu pegaria a faca da Mafalda na cozinha e arrancaria seu coração, porque aquele coração e a camisa eram tudo o que eu tinha de valioso na vida. Um coração e uma camisa. O coração dele enrolado em uma camisa úmida — como o peixe de Anchise.