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Anders de la Motte · Capítulo 1 de 65

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Sábado, 23 de novembro

 

LUZES AZULADAS... É o prim eiro pensam ento claro que tem ao abrir os olhos.

Não deve ter passado m ais que alguns segundos inconsciente, não m ais que um a pequena pausa. Ainda assim , o m undo parece tão estranho, tão desconhecido. Com o se ainda não tivesse acordado direito.

Reflexos azulados dançam em volta dele. No retrovisor, quicam da parede de concreto para o teto, da pista m olhada para os detalhes de plástico crom ado no painel do carro.

Um carro. Está no banco do m otorista de um carro, atravessando um túnel longo.

A dor o alcança. Ele se lem bra vagam ente de a ter sentido antes do desm aio. Faíscas brilhantes, um a tocha para solda penetrando fundo o lado esquerdo da cabeça, transform ando seu raciocínio num a m assa viscosa.

Pode até sentir o cheiro.

Metal, plástico, eletricidade.

Algum a coisa está acontecendo com seu corpo, algum a coisa séria, que am eaça toda a sua existência. Mas o estranho é que não se sente exatam ente assustado. Ele aperta os dedos em volta do volante e sente o couro m acio na palm a das m ãos. Um a sensação confortável, calm ante até. Por um instante, quase cede e se deixa levar, relaxando e seguindo cada m olécula de volta àquele estado de inconsciência.

Mas, em vez disso, ele se agarra ainda m ais forte ao volante. Tenta fazer com que sua cabeça latej ante explique o que está acontecendo.

— David Sarac. Você se cham a David Sarac e...

E o quê?

O carro continua a atravessar o túnel, e um dos vários m edidores m inúsculos e incom preensíveis no painel certam ente indica que está indo m uito rápido, rápido dem ais.

Tenta tirar o pé do acelerador, m as suas pernas se recusam a obedecer. A verdade é que ele nem sente m ais as pernas. A dor está cada vez m ais intensa, porém , ao m esm o tem po, por m ais estranho que pareça, m ais distante. Ele se dá conta de que o seu corpo está prestes a apagar, a interrom per qualquer processo que não sej a essencial para sua sobrevivência até que o colapso na sua cabeça estej a sob controle.

— Você se cham a David Sarac — m urm ura para si m esm o. — David Sarac.

Um a profusão de sons vem dos alto-falantes: m úsica, toques de discagem , vozes agitadas falando, todas ao m esm o tem po, entre as interferências do rádio.

Ele olha para o retrovisor. Por um segundo, tem a im pressão de ver um m ovim ento de relance, um a silhueta escura. Será que tem alguém no banco de trás, alguém que possa aj udá-lo?

Ele tenta abrir a boca e vê a silhueta no espelho fazer o m esm o. Percebe a barba por fazer, um a expressão perturbada e bastante fam iliar. Ele se dá conta do que aquilo significa. Não tem ninguém m ais lá, está totalm ente sozinho.

O clarão que reflete do retrovisor faz seus olhos lacrim ej arem . As vozes do rádio continuam a falar, ainda m ais agitadas, ainda m ais alto.

O deslizam ento do seu corpo se aproxim a. Vai se espalhando pelas pernas e segue até o peito.

— Polícia! — grita um a voz no rádio. A palavra se infiltra e rapidam ente preenche a sua consciência.

Polícia.

Polícia.

Polícia.

Ele desvia os olhos do retrovisor e, com m uita força de vontade, vira um pouco a cabeça. Esse esforço o faz gem er de dor.

— Você se cham a David Sarac.

E?

De longe, veem -se as lanternas de um outro carro. Logo ao lado delas um a enorm e placa de sinalização, algum tipo de obstáculo e um a saída. De repente, as lanternas estão verm elhas com o fogo.

Ele deveria virar o volante, seguir aquele carro para fora do túnel. Todos os seus instintos lhe dizem que essa seria um a decisão sábia. Mas parece que a conexão com os seus braços tam bém está prestes a ser desativada, tudo o que sente é um pequeno espasm o, um quase m ovim ento.

O obstáculo se aproxim a cada vez m ais. Um a enorm e barreira de concreto m arca a bifurcação do túnel. Os olhos de gato cintilam com a luz dos faróis do carro. Ele tenta prever alguns segundos do percurso, calcular se há algum risco de colisão. Mas o cérebro não está m ais funcionando com o deveria.

O apagão chega ao rosto, fazendo seu queixo despencar de um a vez.

A distância até o obstáculo continua a reduzir.

— POLÍCIA!

A palavra está de volta, dessa vez ainda m ais forte e de repente ele percebe o porquê. Ele é um policial. O brilho interm itente vem do seu próprio carro.

Ele se cham a David Sarac. Ele é policial. E...?

A dor na cabeça cede por tem po suficiente para que consiga form ar um a linha de pensam ento coesa. O que está fazendo aqui? Quem está perseguindo? Ou será que é ele quem está sendo perseguido?

A luz no retrovisor se aproxim a cada vez m ais. Queim ando, penetrando fundo a sua cabeça.

O m edo é esm agador, faz seu pulso disparar. A dor azul cintilante está voltando, bem m ais forte dessa vez. As pálpebras trem em , todos os sons ao seu redor se dispersam , se distanciam . Ele tenta se m anter consciente e im pedir o processo de deslizam ento. Mas agora não há m ais nada que se possa fazer.

Um breve choque faz o carro balançar, no entanto ele m al percebe. O processo de desligam ento está quase com pleto e ele está praticam ente inconsciente de novo. Liberto de dor, m edo e desorientação. Tudo o que resta não passa de um sinal teim oso, quase im perceptível no cérebro atordoado. Um im pulso elétrico que se desloca entre dois neurônios que se recusam a ser desativados — não antes de cum prir sua tarefa.

Na im inência do carro se chocar com o obstáculo de concreto, no segundo anterior ao carro passar de um obj eto com form as definidas a um m onte de sucata, o im pulso chega ao seu destino. Em um m om ento repentino de clareza, ele se lem bra de tudo.

Por que está no carro. Do que se trata tudo isso.

Os rostos, os nom es, os lugares, as quantias de dinheiro.

O m otivo pelo qual todos, cada um deles, precisa m orrer.

Tudo por causa dele. Por causa do segredo.

Um sentim ento inexprim ível de alívio corre por seu corpo. Seguido de arrependim ento.

Ele se cham a David Sarac. Ele é policial. E ele fez algo im perdoável.