MemoRandom
Sábado, 23 de novembro
O CENTRO da cidade parece estar repleto de luzes azuis. Elas dançam entre as fachadas dos edifícios, são sutilm ente ofuscadas pela neve que cai antes de serem refletidas na água escura sob a ponte. Alguns dos carros de resgate estão com as sirenes ligadas, m as a m aioria segue a busca noite adentro em silêncio.
Os seis estudantes que subiam a rua Skeppsbron j á estavam entediados com a com oção. Eles interrom peram o passeio por algum tem po e, do m irante próxim o à praça Slussen, acom panharam o circo lá em baixo, na ponte que dá para a m ovim entada rodovia. O local estava repleto de am bulâncias, cam inhões dos bom beiros, viaturas e carros policiais à paisana, o que indicava que algo sério havia acontecido no túnel.
Dois dos j ovens ligaram a câm era dos celulares, apoiaram -se nas grades geladas do parapeito e espreitaram à espera de capturar um pouco de ação. Mas, com o nada de especial aconteceu depois de vários m inutos, perderam o interesse. Os graus negativos congelantes e a neve pesada convenceram o grupo a cam inhar em direção ao centro da cidade.
A guerra de bolas de neve com eça m ais ou m enos no m eio da Skeppsbron. Um dos rapazes, não dá para saber qual, para e reúne um a grande quantidade de neve acum ulada no para-brisa de um carro estacionado. Ele rapidam ente form a um a bola m eio disform e e j oga nas costas dos outros, e logo depois com eça a guerra. Todos os seis correm pela calçada e se esquivam dos proj éteis uns dos outros, ocasionalm ente parando para fazer novas bolas de neve.
Um a garota de touca verm elha é quem faz a descoberta.
— Olha, tem alguém dorm indo aqui dentro — grita, e aponta para o carro estacionado do qual tinha acabado de pegar um punhado de neve. — Oi, acorda! Ele está apagado. — Ela ri quando o nam orado se aproxim a.
Pela pequena abertura escura na cobertura de neve, ele distingue os cabelos claros de um hom em grande. Está sentado no banco do passageiro, com a testa escorada no painel. Parece estar dorm indo.
O rapaz da calçada tam bém bate no vidro do para-brisa, m as, com o não vê nenhum a reação, com eça a afastar a neve que ainda encobre parte da visão. Prim eiro devagar e depois m ais rápido, até que quase todo o para-brisa fica sem neve. Ele faz o m esm o com os vidros laterais. O hom em no carro continua sem se m exer.
Longe dali, dá para ouvir o som de m otores e o ruído de um helicóptero se aproxim ando. Algum a coisa faz com que os outros do grupo parem a brincadeira de repente e vão para perto do carro. Eles se aproxim am vagarosam ente, com o se na verdade não tivessem certeza se querem ver quem ou o que está escondido no interior do veículo. Mas a garota de touca verm elha não percebe a m udança no clim a.
— Já chega — diz, dando um a risadinha. — Estou congelando, deixa o cara dorm ir.
Ela puxa o nam orado pelo braço, tenta fazer com que ele a acom panhe, m as o rapaz não desiste. Assim que acaba de tirar toda a neve das j anelas, ele m ete a cara no vidro.
— Merda! — m urm ura.
— O que foi...? — De repente, a voz da garota perde o tom de brincadeira. Agora está m ais para m edo. O som das hélices do helicóptero está m ais forte.
— Merda — repete, m ais para si m esm o que para os outros.
O gelo que se form ou do lado de dentro do vidro atrapalha a visão e, além disso, está escuro no interior do carro. Mas, entre ele e o hom em que dorm e, há m enos de m eio m etro de distância, então não há nenhum a dificuldade para distinguir os detalhes. A j aqueta de couro, a estam pa bordada nas costas, a tatuagem tribal que serpenteia para fora do colarinho e vai até o pescoço grosso.
Mas é a m ancha escura na nuca do hom em dorm indo que captura o interesse do rapaz. Um pequeno furo coberto de cristais de gelo escuros, a m ilím etros uns dos outros, form ando um desenho aperolado na nuca.
O barulho das hélices é ensurdecedor; ecoa entre as paredes dos prédios. Transform a-se em um rugido quando o helicóptero passa bem acim a de suas cabeças.
— Merda... — diz o rapaz um a terceira vez, m as os outros não ouvem . Depois ele dá um passo para trás e com eça a procurar o celular.
DAVID SARAC não percebe o trabalho de resgate acontecendo em torno dele. Nem as vozes preocupadas. Nem os bom beiros que cobrem de espum a os destroços do carro, que usam intensam ente as ferram entas hidráulicas de todas as m aneiras possíveis por quase quinze m inutos até conseguir soltá-lo das ferragens. Nem m esm o os param édicos que usam um a ferram enta envergada para conseguir enfiar um tubo de oxigênio na garganta dele e evitar, por um triz, que os pulm ões entrem em colapso. Onde Sarac está, não existe nenhum a dor, nenhum a preocupação, nenhum m edo. Em vez disso, ele sente um a paz im ensurável.
O corpo não é nada além de um am ontoado de m oléculas, um a associação tem porária que — assim com o toda m atéria sólida — está a cam inho da sua inevitável decom posição.
Ele consegue ouvir os sons ao redor, m áquinas que em item sinais de alerta, a discussão focada do pessoal do resgate. Um barulho desagradável e ruidoso que, aos poucos, percebe ser sua própria respiração.
Mas ele não está com m edo. Nem um pouco. Porque sabe que tudo é um plano do universo. O m om ento de se transform ar. De retornar ao fluxo universal.
Só depois que alguém levanta suas pálpebras, cham a seu nom e e m ete um a luz bem dentro do seu cérebro é que ele sente m edo. Não da luz nítida ou da voz que cham a por ele. O que lhe assusta é a som bra no canto de um dos olhos. Um a silhueta escura e am eaçadora no canto do seu cam po de visão. Sarac a segue com os olhos, m as a silhueta se esquiva. Ele percebe um a j aqueta de couro, um capuz puxado de form a que o rosto da silhueta se torne um buraco negro.
— ... precisa ir agora. O helicóptero j á está a postos — diz alguém , possivelm ente um dos param édicos.
Mas a silhueta não se m ove, continua a se im prim ir no canto do olho de Sarac. Em algum lugar, um celular toca. Um a vez, depois de novo.
O barulho faz seu m edo aum entar e se intensificar. Ele aperta o peito de Sarac e faz seu coração disparar e um a dor de cabeça explodir com o fogos de artifício. Depois, o param édico solta a pálpebra e o deixa voltar para o conforto da escuridão.