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Anders de la Motte · Capítulo 2 de 65

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Sexta-feira, 18 de outubro

 

 

ÀS VEZES, quando criança, Jesper Stenberg tinha a im pressão de que podia parar o tem po. Quase sem pre na véspera do Natal ou em aniversários. Ocasiões especiais pelas quais ele m al podia esperar. No m eio de tudo, no ponto alto da ocasião, quando estava no ápice da em polgação, era com o se o tem po desacelerasse. Com o se tivesse a chance de absorver com tranquilidade cada nuance, cada sensação derivada desse instante pelo qual tanto esperava.

Ainda se lem brava daqueles instantes nos quais se sentia totalm ente no presente. Trinta anos depois, ainda podia rem ontá-los nos m ínim os detalhes: a cor do vestido da m am ãe, o cheiro do pós-barba do papai, a textura dos papéis de presente em seus dedos ainda pequenos. Tudo m uito fresco na m em ória, sem a pátina triste de um álbum de fotografia.

Mas, logo cedo na adolescência, esse poder desapareceu. Durante um longo tem po, acreditou que tinha a ver com o divórcio dos pais. Ou então seria sim plesm ente porque havia se tornado adulto, perdendo sua percepção infantil do tem po. Depois disso, não im porta a ocasião, as celebrações nunca m ais foram a m esm a coisa. A form atura do ensino m édio, o diplom a da faculdade de direito, o prim eiro processo crim inal, o pedido de casam ento, até m esm o sua luxuosa cerim ônia com Karolina. Todas essas ocasiões podiam ser descritas com um a única palavra: decepcionante.

Ele havia trabalhado tanto por cada um daqueles instantes. Esperou por eles, fantasiou sensações, cheiros, sabores. Depois, m uito rápido, tudo se acabou, e só restaram as lem branças vagas e um sentim ento incôm odo de insatisfação.

Ele se convencia de que seria diferente da próxim a vez. Se tentasse fazer algo m ais grandioso e desse o m elhor de si, seria capaz de sentir m ais. O nascim ento dos filhos, o em prego em Haia, a filiação à Ordem dos Advogados, o dia em que foi convidado a ser o sócio m ais j ovem de todos os tem pos do prestigiado escritório Thorning & Com panhia.

Mas, novam ente, a m esm a sensação, a m esm a falta de presença. Com o se existisse um filtro finíssim o entre ele e a realidade.

Stenberg com eçou a fotografar. Inundava o com putador com fotos de um a resolução fantástica, dedicava horas editando pequenos film es de férias em praias no exterior, toalhas xadrez de piquenique e m om entos Astrid Lindgren com os filhos. Não im portava a quantidade de pixels da câm era ou a resolução da tela, ainda se sentia insatisfeito. Com o se tivesse perdido algum detalhe decisivo daqueles instantes, um a nuance im perceptível que faria toda a diferença.

Mas hoj e tudo era diferente. Era o m elhor m om ento da vida de Stenberg, o m om ento que ele esperou por anos a fio, e nem precisava baixar os olhos para fitar o Patek Philippe no pulso. Ele sabia que o preciso ponteiro de segundos do relógio suíço tinha acabado de parar e que esse instante seria tão estilizado e perfeito com o sem pre sonhou. Todo o desgaste, todos os sacrifícios por fim seriam recom pensados. Os anos de cão na defensoria pública: fraudadores, agressores de esposas, ladrões, assaltantes e toda essa corj a. Depois, o tem po em Haia quando, em bora tivesse casos m aiores, um j ovem prom otor com o ele atuava m ais com o garoto de recados. Em seguida, a m udança para o Thorning & Com panhia. Casos de m aior notoriedade, perfeitos para um j ovem e am bicioso advogado de defesa que queira ganhar renom e.

Mas, apesar do dinheiro, do trabalho de alto prestígio, do interesse cada vez m aior da m ídia em sua pessoa e de o próprio John Thorning tê-lo escolhido com o seu favorito, Stenberg odiava ser advogado. Durante os prim eiros seis m eses, a prim eira coisa que fazia ao voltar para casa vindo do escritório era tom ar um a ducha. Arrancava o terno feito sob m edida e os sapatos italianos caríssim os que o faziam parecer im pecável na tv. Esfregava-se até a pele ficar verm elha com o sangue.

Depois se acostum ou e adotou um a m áscara, exatam ente com o Karolina havia sugerido. Um tipo de personagem no qual podia entrar e sair num a fração de segundo. Alguém que parecia e soava com o Jesper Stenberg, m as com palavras e atitudes com as quais ele não queria exatam ente se identificar.

Dessa form a, pôde continuar a j ogar aquele j ogo e ainda assim m anter as aparências. Esperava pacientem ente pelo seu m om ento. Este momento. E, portanto, tinha a intenção de agarrar cada m ínim o m ilissegundo dele. Pregá-lo no seu córtex para que pudesse se lem brar de cada detalhe, cada nuance, m esm o depois de quarenta, cinquenta anos, quando aquele intervalo de tem po que parecia infinito quando criança estivesse chegando ao fim .

Seus sentidos estavam totalm ente despertos, saturando-o com detalhes. Os traços da m adeira dos m óveis escuros e pesados ao redor da m esa de conferência. O carpete espesso e verm elho sob os sapatos. A luz dos lustres de cristal refletida em bules de café prateados postos no m eio da m esa. A porcelana fina com o papel da xícara à sua frente. Tudo era exatam ente com o ele havia im aginado. Mas a im pressão m ais firm e era o cheiro do salão. Um odor doce e pesado que o dom inava. Quase o excitava um pouco.

O cheiro do poder.

Na cabeceira, o chefe entronizado em sua m aj estade. Seus subordinados, inclusive o próprio sogro de Stenberg, am ontoados ao longo da m esa. Ternos, vestidos de luxo, papadas e testas com Botox. Olhares sim páticos da m aioria dos rostos, m as obviam ente não de todos. Ele era, afinal, um estranho, um arrivista que não seguira o percurso predeterm inado. Alguém que poderia perturbar o equilíbrio de poder.

Os hom ens e as m ulheres ao redor da m esa fitavam Stenberg, aguardando sua resposta. Ele controlava as expressões. Hum ildade com um tom de surpresa, geralm ente conseguia se exprim ir assim com facilidade. Mas o irritante esboço de um sorriso espreitava, podia senti-lo repuxando um canto de sua boca. Não era de se estranhar. Ele havia acabado de receber A Pergunta. Seus sonhos estavam prestes a se realizar e, a partir de agora, tudo seria diferente.

No exato instante em que abriu a boca e fez do pequeno esboço de sorriso seu m elhor sorriso para a TV, teve a im pressão de sentir um a leve vibração no relógio. Com o se um a nova era tivesse acabado de com eçar.

ATIF ABRIU a caixa de isopor, revirou as latas de refrigerante até achar um a que ainda estivesse m ais ou m enos gelada e a pressionou contra a nuca. O suor escorria pelas costas, um dos vários apagões tinha feito o ventilador de m esa parar há m ais de um a hora, e o ar na saleta som bria ficou quase com pletam ente parado.

Ele abriu a lata, bebeu avidam ente e, em seguida, retornou ao seu posto de observação na j anela suj a, quase encoberta pela poeira.

Lá fora, as atividades seguiam com o de costum e. Alguns cam inhões estacionados, todos com as portas da carroceria abertas ou as lonas levantadas, enquanto várias m ercadorias circulavam lentam ente. Metade dos veículos era verde-m ilitar. Os m otoristas uniform izados papeavam e fum avam na cafeteriazinha enquanto os carregadores esvaziavam os cam inhões. Alguns cães vira-latas rondavam entre os veículos. Eles ficavam a um a distância segura e ocasionalm ente farej avam o ar, com o se investigassem se havia algo com estível em algum a das m uitas caixas que os hom ens descarregavam .

A essa altura, Atif j á estava fam iliarizado com tudo o que acontecia ali na praça em poeirada. Qual m arca de cigarro os m otoristas preferiam , o nom e da filha m al-hum orada do dono da cafeteria, qual dos carregadores vendia haxixe ou qual dos vira-latas era o m acho-alfa. O que era tem ido pelos outros.

O celular com eçou a vibrar no bolso da cam isa. Atif enfiou o fone de ouvido na orelha e ergueu o binóculo. Aum entou o zoom para ver a guarita da única entrada de verdade da praça. O guarda estava escorado na parede e fum ava, a Kalashnikov casualm ente pendurada no om bro.

O celular vibrou de novo e Atif atendeu.

— Alô.

— Sou eu. E aí?

— Mais ou m enos a m esm a coisa.

— Nenhum a pista ainda?

— As pistas m e trouxeram até aqui.

— E você está sentado aí j á tem quanto tem po, Atif?

— Vai fazer três sem anas.

— OK. Já não está na hora de deixar isso quieto?

— Ele vem .

Silêncio do outro lado da linha por alguns segundos. Atif passeou o binóculo pela praça, depois voltou para a guarita. O hom em tinha se recom posto, j ogou a bituca do cigarro na terra verm elha e pisou nela.

— Um a m ulher ligou para você — disse a voz na orelha de Atif. — Da Suécia. Ela disse que era sua cunhada, queria que você ligasse de volta assim que pudesse. É sobre o seu irm ão...

— Meio-irm ão — resm ungou, sem tirar os olhos do guarda.

A postura do hom em m udara de repente. Tinha tirado a arm a autom ática do om bro e agora a segurava com as duas m ãos. De repente deu a im pressão de levar seu trabalho m uito m ais a sério. O hom em assobiou, e as atividades na praça se interrom peram im ediatam ente.

Um carro escuro, com placa m ilitar e vidros escurecidos, entrava em baixa velocidade. O guarda levou um a das m ãos à cabeça, um gesto entre prestar continência e um aceno. O clim a na praça m udou em questão de segundos. Os m otoristas apagaram os cigarros, esm agaram as bitucas com os pés e se entreolharam , nervosos. Os carregadores apressaram o passo.

Até m esm o os cachorros pareciam saber que algo estava para acontecer. Eles se deitaram e se esconderam à som bra ao m esm o tem po que seguiam atentos o carro escuro com os olhos. O veículo parou, e um hom em de uniform e e óculos de sol desem barcou. Atif não precisou nem olhar nos binóculos, a reação dos outros bastava para saber quem era.

O hom em que estava procurando.

O m acho-alfa.

Atif estendeu a m ão, pegou a pistola que estava na m esinha de pernas bam bas e enfiou no cós da calça, às costas. Puxou um pouco a barra da cam isa para se assegurar de que a arm a estava escondida.

— Preciso desligar — m urm urou ao telefone.

— Atif, espera — disse a voz. — Parecia im portante. Muito im portante. Acho m elhor você ligar para casa.