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Anders de la Motte · Capítulo 6 de 65

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Dois

 

DAVID SARAC ainda delira. Às vezes, acha que está m orto; de vez em quando tem certeza absoluta disso. Mas não se incom oda. Se a m orte for assim , acho que consigo suportá-la, pensa. Mas, antes m esm o de rir de seu senso de hum or, a graça j á passou. Aquela sensação escapa para algum lugar do cérebro a que não tem m ais acesso.

O corpo está sobre um a cam a, ele percebe isso depois de um tem po. Mas não consegue j untar outras peças além desse fato. Nada além de que se cham a David Sarac, que é policial e que se envolveu em algum tipo de acidente.

Várias pessoas entram e saem do quarto, a m aioria de j aleco branco, e elas o apertam e puxam , o que deve significar que não está m orto. Pelo m enos, não ainda. Mas às vezes nota a presença de outras pessoas, figuras sem rosto que perm anecem um pouco distantes. Cam isas brancas e uniform es azuis com broches dourados, m isturados com alguns ternos escuros. Muitas delas sérias, um pouco perdidas. Com o se não entendessem m uito bem o que se esperava delas.

Outras parecem estar m ais inquietas. O vigor delas o assusta, m as ainda assim não consegue evitar exam iná-las m ais de perto. Porque foi da boca de um a dessas pessoas que Sarac ouviu o nom e.

— A gente sabe m ais algum a coisa sobre... Jano...?

Jano.

O nom e flutua em sua consciência, im pedindo-o de se acalm ar. Mas não im porta o quanto tente se aproxim ar, não consegue chegar à resposta.

— Tem que lim par essa m aldita bagunça — cochichou um a figura sem rosto em algum m om ento, e, por m ais estranho que pareça, essa m em ória não se apagou. Talvez o ultim ato tenha, na verdade, se dirigido a ele próprio. É por isso que o corpo não quer se entregar, porque precisa term inar seu trabalho? Porque ainda tem arestas a serem aparadas?

Coisas que precisam ser... esclarecidas?

ATIF ACORDOU com alguém o cutucando. Levou um tem po até perceber onde estava. No sofá, no apartam ento de Adnan. Ou, m elhor, no apartam ento de Cassandra e Tindra, afinal, Adnan estava num a gaveta na funerária.

Dorm ira assim que havia encostado a cabeça no travesseiro, o que era bastante raro. Alguém o cutucou de novo e ele se virou.

— O que é isso? — perguntou Tindra, apontando para um a cicatriz enorm e no om bro direito de Atif. Num a área do tam anho da palm a de um a m ão, a pele era enrugada e o tecido da cicatriz tinha um a cor diferente.

— Um a tatuagem antiga — respondeu Atif.

— Que nem a do papai? — Tindra inclinou a cabecinha loira para o lado e olhou para ele.

— Mais ou m enos isso. Sua m ãe j á levantou?

Tindra fez que não com a cabeça.

— Ainda não.

— Mas você está acordada sozinha?

Ela fez que não de novo e ficou séria por um instante.

— Eu e você estam os acordados, Amu. — Ela riu. Atif percebeu que gostou de ouvir a m enina cham á-lo de tio em árabe. Afastou o edredom e se sentou.

— Quer dizer então que você sabe quem sou eu?

Dessa vez ela fez que sim .

— Claro que sei. Papai tem um a foto de você no celular dele. Tem foto m inha tam bém ... só que bem mais — acrescentou.

— É claro que ele tem . Um a garotinha linda com o você.

Tindra era diferente na vida real, m uito m ais anim ada que nas fotos que ele im prim ia e revestia a parede do quartinho da m ãe na casa de repouso. Estava com um a cam isola desbotada, com a im agem de um personagem de desenho, m as Atif não sabia dizer exatam ente qual. As m arias-chiquinhas tortas na cabeça foram feitas por ela própria sozinha, sem dúvida. Você puxou o tom de pele da sua m ãe, pensou Atif, m as os olhos do seu pai.

— Am u, você sabe fazer panqueca? Papai sem pre faz panqueca quando ele está em casa. Com açúcar e geleia.

Atif se levantou da cam a e acariciou o rosto da m enina de leve. Gostava de quando ela franzia a testa ao pedir algo. Adnan fazia igual quando era pequeno.

— Claro que sei, querida. Tudo o que seu pai sabe, ele aprendeu com igo.

Atif se arrependeu im ediatam ente de ter dito aquilo.

TINDRA JÁ havia com ido três panquecas inteiras quando Cassandra apareceu na porta da cozinha.

— Bom dia — saudou Atif.

— Mm m ...

Cassandra se abaixou e deu um beij o na cabeça de Tindra. Atif olhou de relance para a m ulher. Ele conhecia Cassandra desde antes de ela e Adnan com eçarem a nam orar. Naquela época, ela se cham ava Malin, era um a garota com um que se m atava de trabalhar nos bares do centro para j untar dinheiro e colocar peitos de silicone além de outras m elhorias.

Depois ela m udou de nom e, participou de alguns episódios de um reality show de que ninguém se lem bra m ais e conseguiu alguns trabalhos m enores com o m odelo. Salão do autom óvel, eventos VIP, aparições em boates e outras atividades do gênero. Naquela época, ela era bem bonita para quem gosta de loiras. Adnan, pelo m enos, gostava. Ele havia sido segurança de algum as boates populares, aj udava a botar para fora os bêbados que ficassem assanhados dem ais. Era bonito, frequentem ente tinha bastante grana. Além disso, era engraçado. Era capaz de entreter um a m ultidão, se estivesse de bom hum or.

Era a cara de Adnan ter um a nam orada que deixasse todo m undo babando, e, quando Tindra nasceu, sua vida deve ter beirado a perfeição. Mas isso j á faz tem po, e o glam our de Cassandra j á havia com eçado a desaparecer. Lábios enrugados por causa do cigarro, pele am arelada, olhos cansados. Na m ão esquerda faltava um a das unhas postiças, e os cabelos loiros ressaltavam ainda m ais o avanço das raízes escuras.

— Sorry... a gente não tinha nada m ais confortável que o sofá para oferecer.

Cassandra parou ao lado de Atif na beira do fogão e pegou um m aço de cigarro.

— Não tem problem a. Eu m esm o disse que podia ter ficado em um hotel — lem brou Atif.

Ela balançou a cabeça, acendeu um Marlboro e soltou a fum aça no exaustor da cozinha.

— Tindra estava louca para conhecer o tio.

— E com o ela está encarando tudo isso? — Atif indicou a m esa com a cabeça, a pequena j á atacava a quarta panqueca.

— Ela só tem 6 anos. — Cassandra deu de om bros. — Do que você se lem bra, de quando tinha 6 anos?

Mais do que gostaria, pensou Atif, porém ficou calado.

— Falando nisso, tenho um trabalho hoj e à noite. Você se im portaria de ficar de babá por algum as horas?

— Claro que não, sem problem a algum — respondeu Atif. — Aliás, com o vocês estão nesse aspecto?

— Dinheiro? Ah... o que você acha? — Cassandra deu de om bros. — Por acaso Adnan falou da academ ia que ele tinha pensado em abrir lá em Gläntan? Que investiu todas as nossas econom ias naquela ideia?

Atif fez que não com a cabeça.

— Faz tem po que não falo com Adnan.

— Então, com o sem pre, ele fez um a bagunça. Ficou im paciente com o atraso das obras e se endividou para agilizar o processo. A academ ia ficou superlegal, m as Adnan j á tinha vendido a parte dele m uito tem po antes de ficar pronta. Você sabe bem com o ele era, m uito charm oso, supersociável, m as paciência não era bem o ponto forte dele.

Cassandra franziu o rosto, talvez fosse um sorriso.

— Adnan era cheio de planos excelentes que nunca se realizaram — continuou ela. — Sem pre inventando o que fazer sem nunca chegar a lugar nenhum , se é que você m e entende. — O tom de voz de Cassandra era ríspido; ao m enos m ais ríspido do que precisava ser. — Mas tenho m eu salário. Além disso, a gente tem am igos que podem aj udar, então a gente está bem .

— Ahã... Vem m uita gente am anhã?

— Então, era isso que eu precisava contar a você. — Cassandra pôs o cigarro num a xícara de café pela m etade em cim a da pia, onde outras bitucas am areladas flutuavam . — A gente precisou adiar o funeral uns dois dias. Prim eiro, os policiais não queriam liberar o corpo. Depois, a data não batia com a agenda da agência funerária e do m eu trabalho. Tentei ligar de novo, falei com o seu chefe, Faisal, m as você j á tinha viaj ado. Mas, tipo, vai ser um prazer se você ficar — continuou —, m as, se precisar voltar, está tudo bem . A gente se vira, com o eu j á disse.

Puxou outro cigarro e segurou o m aço na direção dele. Atif fez que não com a cabeça.

— Parou? — indagou ela.

Atif não respondeu. Estava pensando na passagem de volta, no trabalho que foi forçado a deixar de lado, na sua casa agradável, no céu estrelado acim a do seu pequeno j ardim .

Tindra m urm urava um a m úsica enquanto tentava acabar com a últim a panqueca. Atif olhou para Cassandra m ais um a vez, notando que não gostou do j eito com o ela falou de Adnan. A form a com o ela pronunciou a palavra corpo. Ficou pensando no tipo de am igos que a estavam aj udando.

— Tudo bem — pensou —, dá para rem arcar m inha passagem .

ATIF ESTAVA voltando para a casa quando o viu. Um Audi grande, escuro, estacionado um pouco m ais acim a na rua, e isso fez seu sinal de alerta tocar im ediatam ente. Saíra não havia m uito tem po, no m áxim o dois m inutos. Trancara a porta, nem tinha se preocupado em vestir um a j aqueta.

Havia colocado Tindra para dorm ir pouco m ais de um a hora atrás, dando um beij o suave na testa dela, antes de colocar o conto de fadas no toca-CDs antigo e apertar repeat all, exatam ente com o fora instruído. Depois, sentou-se na sala de estar e passou por vários canais que passavam com erciais antes de lem brar que a sacola plástica com livros tinha ficado no carro alugado lá no estacionam ento. Levaria no m áxim o cinco m inutos para buscar. Tindra estava num sono profundo, Cassandra não voltaria antes da m eia-noite.

A friagem penetrando na pele o fez apertar o passo ainda m ais. No entanto, quando viu o Audi escuro estacionado, reduziu a velocidade e depois parou. O carro não estava lá quando ele saiu, disso tinha certeza. Sem chance de tê-lo deixado passar despercebido.

Poderia ser um carro de vigilância, m as nem o m odelo nem as dim ensões exageradas das rodas crom adas o convenciam disso. Esse carro era caro dem ais e cham ava m uito a atenção para ser de um policial. Mas, ainda assim , estava parado em um a posição ideal caso alguém quisesse ficar de olho na portaria deles. O m otor estava desligado, m as havia alguém sentado lá dentro, possivelm ente m ais de um a pessoa, a j ulgar pelos vidros em baçados.

Na verdade, Atif deveria ignorar tudo aquilo. Atravessar a rua correndo e voltar para o apartam ento, exatam ente com o tinha planej ado. Depois trancar a porta e ficar na com panhia de seus livros. No prédio tinha pelo m enos cinquenta apartam entos, portanto era pouco provável que as pessoas dentro do carro estivessem interessadas nele. Ainda assim , Atif não resistiu ao im pulso de olhar um pouco m ais de perto.

Ele seguiu pelo canto da calçada, colocando um pé no gram ado coberto de neve, assim evitando quase totalm ente a ilum inação da rua.

Quando faltavam dez m etros para chegar ao carro, ouviu um barulho. Um ruído elétrico, seguido de um pequeno estalo, quando os vidros do carro desceram alguns centím etros. Ele não parou, abaixou a cabeça e continuou andando. Dava para perceber m ovim entos no carro. A silhueta de um a pessoa no banco do m otorista, depois de m ais um a pessoa, que parecia m udar de um banco para o outro. Cinco m etros, quatro, três...

Ele passou pelo carro e olhou de relance, com cuidado. Ouviu um gem ido saindo pela fresta do vidro, e de repente percebeu que se tratava de algo totalm ente diferente do que havia pensado. Atif continuou em direção às portas do prédio e quase sorriu.

Mas logo percebeu que conhecia a m ulher que estava no carro. A j aqueta, as calças de couro j ustas, os cabelos loiro-prateados que precisavam ser retocados para esconder a raiz escura.

De repente, desej ou não ser tão curioso.