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Sexta-feira, 18 de outubro
JESPER STENBERG j ogou a cam isinha na privada e deu descarga, lavou-se com cuidado na ducha e depois se secou em um a das toalhas felpudas do banheiro. Deu um a olhada rápida no espelho e exam inou, com o de costum e, o corpo e o rosto para ter certeza de que não havia nenhum a m arca que pudesse entregá-lo. Depois disso, vestiu-se depressa antes de voltar para o quarto da suíte.
Eram nove e trinta e dois da noite, os sogros estavam tom ando conta das crianças e Karolina estava num j antar com as am igas. Ela havia se oferecido para cancelar o encontro, m as ele a convencera a ir. Eles com em orariam apropriadam ente am anhã. O sogro j á tinha tudo preparado. Jantar no restaurante favorito, cham panhe, conhaque, vinhos caros. Com certeza, o sogro iria pagar a conta e se gabar do futuro, das possibilidades que se abriam para eles, desde que j ogassem as cartas certas.
Ela não estava m ais deitada na cam a, com o ele esperava. Em vez disso, tinha se servido de um drinque e se sentara no sofá da sala. Ainda estava nua; ele não pôde deixar de apreciar o corpo dela. Seios pequenos e firm es, pernas longas e delgadas, a pele branca com o porcelana e um abdôm en tonificado que indicava dietas e program as de ginástica que m al conseguia im aginar. Sentiria saudade daquele corpo. Das coisas que ela o perm itia fazer com ele...
Mas agora eram novos tem pos. A partir de agora, tudo seria diferente.
— Então, Jesper, quer dizer que te fizeram a pergunta?
Ele se esquivou indo ao bar e despej ou uns dois dedos de uísque em um dos copos pesados de cristal. Na verdade, não deveria beber m ais, estava dirigindo, m as precisava de um a bebida, disso teve certeza no exato m om ento em que ela abriu a boca.
Por um breve instante, pensara que ela j á havia entendido, que não seria tão difícil quanto pensava. Mas seu tom de voz fez todas as esperanças caírem por terra. Era de se esperar que ela não facilitaria. Sophie Thorning nunca facilitou as coisas para ninguém . Nisso, era igual ao pai.
— Todo m undo conseguiu o que queria. Você, sua grande chance, John puxa as rédeas e a sua m ulherzinha am biciosa e todos os parentes loucos por poder dela finalm ente têm um novo tram polim .
Sophie riu, um a risada sarcástica da qual ele não gostava.
— E agora você quer term inar com igo, não é? Minim izar os riscos, retom ar o controle. — Ela fez um pequeno gesto com o copo na direção do quarto.
Stenberg continuou sem responder nada; em vez disso, virou-se e olhou pela j anela. Ao longe, lá em baixo, via-se a saída do estacionam ento. Em alguns m inutos, ele estaria lá em baixo. No carro, a cam inho de casa. Pronto para deixar tudo isso para trás.
— Todo m undo conseguiu o que queria. Todo m undo, m enos eu — continuou Sophie. — De m im , só esperam que eu largue de m ão, que eu finj a que os últim os anos nunca existiram . É isso que você está pensando, Jeppe?
Ele se virou devagar. Sophie sabia que ele odiava aquele apelido.
— Jeppe da m ontanha — sacaneia. — Um idiota que pensa que é algum a coisa, que acha que de repente vai ser levado a sério, com o naquele conto antigo. Mas na verdade é só um a m arionete, um boneco que rebola assim que alguém m exe os pauzinhos. Parece fam iliar?
Ele abriu a boca para m andar que ela se calasse, m as se conteve no últim o segundo. Sophie sabia exatam ente com o lhe tirar do sério. Não podia dar o braço a torcer agora.
— Ah, eu te irritei? — Riu. — Sabe o que dizem : a verdade dói. Mas você gosta, Jeppe. Que nem eu. Gosta da adrenalina, do que é proibido.
Ela se virou, cruzou as longas pernas, devagar o suficiente para que ele pudesse ver seu sexo depilado.
— Acho que a gente deveria voltar para o quarto e com em orar de verdade a realização do seu sonho. Tenho um as ideias que, com certeza, você vai adorar, um as coisas que Karolina j am ais concordaria em fazer.
Stenberg esvaziou o copo e, devagar, colocou-o sobre o côm odo entre a cozinha e a sala de estar.
— Não, Sophie, essa foi a últim a vez. Eu vou para casa agora. De agora em diante, só vam os nos ver no escritório e nossa relação vai ser estritam ente profissional.
Stenberg levantou a m ão antes m esm o que ela abrisse a boca para dizer algum a coisa.
— Não adianta, j á sei qual é a sua j ogada. Você tem um trunfo que vai usar agora, vai fofocar para Karolina ou para o seu papai. Quem sabe até os dois?
Ela olhou de relance, fez um a expressão de escárnio.
— Mas parece que você ainda não percebeu que o j ogo virou — continuou. — Você tem toda a razão ao dizer que os outros serviram de escora para eu subir. Isso eu j á tinha aceitado faz tem po, e m e dei conta de que era o único j eito de chegar aonde eu queria. E agora cheguei lá.
Stenberg fez um a pausa e se recom pôs.
— Sophie — retom ou, agora com um tom de voz m ais arrependido. —, alguns m eses atrás, você realm ente poderia ter estragado tudo. Poderia ter devastado a m inha vida. Mas a sua carta na m anga não vale m ais nada desde que m e fizeram A Pergunta.
Apontou em direção ao telefone que estava sobre a m esa.
— Ligue para Karolina, se quiser. Agora, ela não m e largaria por nada nesse m undo, nem se quisesse. Meu sogro j am ais perm itiria.
O sorriso de Sophie enrij eceu um pouco, m as ela parecia ainda não ter entendido direito.
— John — com eçou, finalm ente —, o papai iria...
— Ora, Sophie — disse com um a voz que foi m ais um tapa na cara. Um coquetel perfeito, com porções idênticas de preocupação e desprezo. — Você acha m esm o que John m e sacrificaria por você? Agora que tudo que ele investiu vai com eçar a dar lucro?
Stenberg indicou com a cabeça a direção do telefone.
— Fique à vontade, ligue para o seu papai e chore suas m ágoas. Conte tudo para ele, be my guest.
Ele sorriu e im itou a careta provocadora dela.
Os olhos de Sophie se desviaram discretam ente para o telefone. Ela passou a língua pelos lábios um a vez, várias vezes. Depois baixou a cabeça. Stenberg respirou aliviado. Apito final, ele ganhou. De repente, quase sentiu pena dela.
— Um a escolha inteligente, Sophie. Seria um a pena se você tivesse que com em orar o Natal na clínica m ais um a vez.
Ele se arrependeu no exato instante em que ouviu aquelas palavras saírem de sua própria boca. Droga! O copo passou de raspão, ela m irou bem na cabeça. Acertou na parede atrás dele, um a chuva de cacos de cristal inundou o piso de carvalho.
— Seu filho da puta!
Sophie deu alguns passos rápidos na direção de Stenberg e tentou arranhar o rosto dele com as unhas. Seu j oelho quase acertou a virilha de Stenberg, errou por poucos centím etros.
— Pelo am or de Deus, Sophie. — Stenberg se esquivou e a agarrou pelo punho.
Ela continuou tentando chutá-lo, contorcendo-se ferozm ente para tentar se soltar. Ele a j ogou no sofá, m as Sophie se levantou de um a vez e o atacou novam ente. Rosnou com o um cachorro enraivecido, os olhos estavam negros. Os lábios encolhidos, com o se quisesse m ordê-lo.
O golpe foi puro reflexo. De direita, com a m ão aberta, m as forte o suficiente para virar a cabeça dela e fazê-la desabar no sofá. Merda! Nunca havia batido num a m ulher antes. Pelo m enos não assim .
Sophie estava im óvel, pernas e braços pendendo. Algo m olhado escorreu pelo lóbulo da orelha de Stenberg e, m eio que inconscientem ente, ele levou a m ão à orelha. Não era sangue, com o pensou, só um a gota dourada de uísque. Deve ter respingado do copo.
— Sophie — cham ou com a voz trêm ula. Ela continuou sem se m exer.
Naquele silêncio opressor, ele conseguiu ouvir até m esm o a sua pulsação batucando nos tím panos. Olhou de relance para o elevador e logo depois para o corpo inanim ado no sofá. As pálpebras de Sophie trem erem algum as vezes, e Stenberg respirou aliviado.
Ele olhou ao redor. Pensou em ir até a cozinha buscar um pouco de água. Mas o chão estava cheio de cacos de vidro. Foi a um dos banheiros, um edeceu um a toalha. No cam inho de volta, aproveitou para pegar o robe de seda branca do chão.
Sophie estava sentada quando voltou, então ele estendeu a toalha e o robe para ela.
— Sophie, eu...
— Vai em bora! — Ela puxou bruscam ente a toalha e apertou contra a bochecha. Stenberg ficou ali alguns segundos, não sabia exatam ente o que fazer. — Você está surdo? Vai em bora, caralho! — sibilou Sophie ao m esm o tem po que se cobria com o robe.
Ele deu dois passos para trás e tentou dizer algum a coisa.
— Escuta, Sophie, eu...
A dor o interrom peu. Um caco de vidro furou seu calcanhar esquerdo, ele pulava em um a perna só, xingando e tentando arrancar o pedaço de vidro.
A risada dela era estridente e m uito alta.
— Caralho, com o você é patético, Jesper? Sabia? Patético...
Ele se recom pôs, j ogou o caco de vidro na cuba da pia. Olhou para ela um a últim a vez antes de ir m ancando até o elevador, sem dizer um a única palavra.
— Estou te avisando — esbravej ou ela —, eu m e m ato!
Stenberg cham ou o elevador e controlou o im pulso de se virar para trás.
— Eu vou à im prensa! Está ouvindo, Jeppinho? — continuou gritando enquanto as portas do elevador se abriam . — Vou contar tudo! Tudo, entendeu? Você está ferrado, sua fam ília inteira está ferrada! Eu vou...
A voz dela se converteu num falsete quando as portas cortaram a frase pela m etade. Ele ouviu passos acelerados, depois o barulho dos punhos cerrados dela batendo nas portas do elevador. Apertou o botão para o andar da garagem várias vezes, m as o botão não queria acender. Os socos continuaram , intensificaram -se e ecoaram entre as paredes de m etal do elevador.
Bum , bum , bum , bum ...
Ele socou o botão até que finalm ente conseguiu fazer a luzinha acender. Levou, por fim , a m ão aos ouvidos, enquanto o elevador se esgueirava até o subsolo.
ATIF RESPIROU fundo e depois olhou para cim a. O céu noturno aqui era tão diferente, se com parado com a Suécia. Mais alto e, de algum a form a, nítido. Mas o estranho era que, ao m esm o tem po, parecia m ais próxim o. Só que, na verdade, era só um a im pressão. O céu e as estrelas eram naturalm ente iguais, era só ele que os via de um outro lugar. Três m il e quinhentos quilôm etros de distância sim plesm ente lhe deram outra perspectiva das coisas. Agora ele teria que m udar de perspectiva novam ente.
— Aconteceu um a coisa, m am ãe — disse, sem desviar o olhar.
Ela não respondeu, quase nunca respondia. Ficava sentada quieta na cadeira de rodas, com um a m anta cobrindo as pernas m agras enquanto olhava para as estrelas. Mas Atif sabia que ela ouvia. Na verdade, ela deveria ter ido se deitar horas atrás. No entanto, nas noites claras e estreladas com o hoj e, as enferm eiras perm itiam que ela ficasse acordada. Sabiam que a acalm ava.
Ele respirou fundo. Era m elhor dizer de um a vez.
— Preciso voltar para a Suécia. É o Adnan — continuou.
Atif precisou forçar a boca a form ar as palavras, m as, para sua surpresa, foi ela quem falou.
— A-Adnan. — A voz dela era fraca, fina, quase com o a de um a criança. — Adnan ainda não chegou da escola.
Atif abriu a boca novam ente. Fale logo de um a vez. Explique o que aconteceu. Mas hesitou por alguns segundos além do que deveria. Um a das enferm eiras se aproxim ava lentam ente pelo piso rachado.
— Adnan é um bom m enino — continuou a m ãe. — Ele tem cabeça para estudar, pode ser o que quiser quando crescer. Engenheiro ou m édico. Você tem que aj udá-lo, cuidar para ele não term inar que nem ... que nem ... — Ela se calou, fitou o céu noturno. Atif m ordeu o lábio.
A enferm eira parou a alguns m etros. Fez um aceno curto e respeitoso.
— Hora de se deitar, m am ãe. — Ele se inclinou e a beij ou no rosto. — Eu telefono para você da Suécia. Khalti vem depois de am anhã ver a senhora. Ela vai trazer as tâm aras que a senhora gosta.
A m ãe fez que sim , distraidam ente. O olhar j á estava fixado novam ente nas estrelas. Atif se levantou e com eçou a se afastar. Ele contaria quando voltasse. Está decidido.
— Você tem um filho exem plar, que a visita sem pre, Dalia. — Ouviu a enferm eira falar. — Você deve se orgulhar dele.
Atif deu alguns passos rápidos. Tentou se convencer de que foi a distância que o im pediu de ouvi-la responder.
JESPER STENBERG foi m ancando até o carro, entrou e ficou sentado diante do volante por alguns segundos. Suas m ãos trem iam , o sapato esquerdo estava m orno e úm ido.
Maldita m aluca do caralho. Por que ele não fez o que tinha planej ado? Era só ter dito o que precisava dizer e depois ir em bora. Transar com ela prim eiro e depois dar um pé na bunda não foi certo. Sem contar o com entário im becil sobre a clínica na Suíça, o assunto que ele deveria ter evitado a qualquer preço. Mas, com o sem pre, Sophie conseguiu desequilibrá-lo. Desm ontar seu personagem autoconfiante, feito sob m edida.
Stenberg respirou fundo algum as vezes para tentar se recom por. Eram apenas dez horas. Karolina não chegaria antes das duas. Tem po o suficiente para voltar para casa, preparar um curativo, deitar no sofá com um uísque e fazer de tudo para esquecer esse episodiozinho sórdido. Ele era bom nisso. Esquecer, deixar as coisas para trás, em penhar-se em novos obj etivos.
Ligou o m otor e deixou o carro deslizar vagarosam ente para fora da vaga na garagem . O pé esquerdo passou a latej ar de form a seca. Stenberg parou próxim o à guarita autom ática. O crachá ficava em um a divisória interna da carteira, um cartão de plástico branco e anônim o e, evidentem ente, não estava registrado com seu nom e. Posicionou o câm bio em ponto m orto e baixou o vidro do carro. A função de direção ecológica do veículo desligou im ediatam ente o enorm e m otor, silêncio total. Longe dali, o sistem a de ventilação do estacionam ento roncava. Um ronco seco, agourento, que o deixou ainda m ais inquieto. O sentim ento de inquietação veio do nada, por alguns segundos, tom ou conta de todo o seu consciente e suas m ãos com eçaram a trem er im ediatam ente.
Precisa sair daqui, agora, nem um m inuto a m ais!
Stenberg socou o leitor com a carteira. O leitor deu um clique fraco, m as a cancela não abriu.
Falha na leitura do cartão.
Stenberg xingou em voz baixa e bateu m ais um a vez no leitor com a carteira.
— Vai, vai...
Pensou ter ouvido um barulho, com o um grito distante, e deu um a olhada rápida no retrovisor. Tudo parecia tranquilo. O ruído deve ter vindo da rua.
A cancela com eçou a se m over vagarosam ente aos solavancos, só alguns centím etros por vez, com o se, no fundo, não quisesse deixá-lo passar.
Stenberg ligou o som do carro e procurou algo alegre para m elhorar seu hum or. A introdução com eçou, e o visor passou a contar os segundos.
0.01.
0.02.
0.03.
Assim que o espaço sob a cancela estava alto o suficiente, ele fez o carro avançar. O alívio se espalhou por seu corpo. Stenberg reduziu a velocidade na altura exata em que a ram pa se nivelava com a rua. Suas m ãos ainda trem iam , tornando difícil colocar o cinto de segurança.
A m úsica parou de vez, fazendo Stenberg erguer a cabeça. O contador de segundos tinha parado, m as o botão play ainda estava aceso. Estranho. Algum a coisa branca pairava no canto do seu cam po de visão e parou no ar bem acim a do capô do carro.
Um saco plástico. Foi tudo o que ele teve tem po de pensar. Mas o obj eto era grande dem ais. O som do carro ainda estava com pletam ente m udo, o tem po no display ainda estava congelado. E, por fim , Stenberg entendeu o que estava acontecendo. Ele percebeu onde o carro estava e o que o grande obj eto branco flutuando no ar realm ente era.
Ele fechou os olhos, abraçou o volante, e sentiu um frio glacial se espalhar pelo peito. O contador dos segundos no display voltou à vida de repente e a m úsica continuou. Ela foi abafada apenas pelo barulho quando o corpo de Sophie Thorning despencou bem em cim a do capô do carro.