Memórias
Pó da Estrada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
M —1902.
Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do Janeiro, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso aberto:—Meu querido amigo...—e, mal se fecha por dentro, arranca os ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:—Ai que filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!—Nem para ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço.
No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:—Hei-de ser ministro porque quero mandar! gosto de mandar!—É um fidalgo com talento, e tanto serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço é identico.— Vou ao inferno por um amigo...—Ha ainda quem se lembre dum Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota...
Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:— Nada se faz sem mim. Sei tudo!—diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este que lhe sorri atraiçoa-o—e elle fala-lhe amavelmente:—Não me podem vêr porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do que elles podem dar.—Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a isso que elle se refere quando afirma:—Ninguem sabe a que portas vou bater!
Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José Luciano, que um dia sae-se com esta:
—Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem?
—A revolução! queremos a revolução!—concluiram todos.
—Eu disponho de seis mil homens.
—Vamos para a rua!
—Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex. a: é que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós...
O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:
—Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus amigos para nada!
—O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,— observa alguem do lado.
—Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim—que é um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:—Está tudo perdido, votem no José Luciano...—Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava o partido progressista.
Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande orador, sem brilho mas solido—e com caracter! com tenacidade e caracter!—pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.
Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:—Essa vil alforreca...—Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que se podia dar —e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos. Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde, a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas phrases que a historia terá de registar...
J —1902.
Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI, ia de sege para Cintra, Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis annos, cavalariço do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de fóra da sege, brada:
—Parem! para traz que ahi vem a p...!
A p...—era a mulher. As palavras são textuaes.
Fernandes Thomaz.
Fernandes Thomaz.
M —1903.
Diz o Abel d'Andrade:
Dos oito mil contos de deficit, quatro mil é a casa real que os gasta. Que ministerio tem força para se impôr ao rei? Ambos os chefes estão com medo ao João Franco...
*
Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para o dissuadirem...
*
Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos.
*
O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado com um malandrão. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de leve ao caso, achando-o improprio. Á noite encontrou na mezinha de cabeceira uma carta do rei com estas palavras: Dispenso-te do meu serviço. Seis meses não fez serviço; agora, antes da rainha partir, pediu-lhe apoquentadissimo a sua intervenção. Outra carta do rei com estas palavras: Entra outra vez de serviço, mas nunca mais me dês conselhos sem t'os pedir.
M —1903.
Alpoim:
—Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...
—?
—Um governo fóra dos partidos, uma dictadura feroz.
E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:
—Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e matando-o. Entravam lentes e estudantes...
*
O Alpoim:
—O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer disse-me:—O unico homem com quem eu poderia ser ministro era com o José Luciano.—Dantes dizia muito mal d'elle. D'uma vez estava no Paço, no vão d'uma janella, a dizer cobras e lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado, ouviu-o:
—Ó Mousinho cala-te.
—Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.
—Não, podes estar, mas acaba lá com a conversa.
*
—E porque é que o rei não gostava do Mousinho?
—Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a seu lado, carrancudo, sem palavra, mas severo como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu mais d'uma vez foi a rainha.
A —1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
—Já por diferentes ocasiões o Estado tem corrido o risco de ir a pique. Houve mezes em que quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e mais que uma vez o Banco de Portugal se viu em transes para arranjar trezentos contos de reis.
*
Um architecto do Paço conta que a rainha D. Maria Pia fuma constantemente charuto como um homem, e atira as pontas para onde calha, sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda sempre um creado de farda, com medo que pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado, antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer umas obras no Paço.
—E não volto sem estar tudo prompto.
Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes de ir outra vez para fóra, lembrou-se das obras—e mandou deitar tudo abaixo.
—Não volto sem estarem concluidas.
As provas dos vestidos são um martirio para as pobres costureiras, que mantém de joelhos duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. Quando as vê cahir exhaustas, arranca tudo, despedaça tudo...
*
O Alpoim conta:
O rei é muitissimo bem educado, mas não gosta nada que ponham a rainha em primeiro logar. Não se importa com o paiz e julga-se um grande rei constitucional. Os ministros para elle não existem: só ouve e atende o presidente do conselho. É tão governamental que trata delicadamente os politicos quando estam na oposição, mas não conversa com elles. Não é como o D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros contra o presidente do conselho. Chegava a conspirar contra o José Luciano, partidario da aliança ingleza, com o Barros Gomes, que era pela Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço dado com o Mariano e Emydio Navarro, sem fazer caso do presidente do conselho. E depois d'elles sahirem, perguntava-lhe:
—Olha lá, quando é que tu pões fóra estes gatunos?
O D. Carlos não é assim: para elle os ministros não existem. Trata-os sempre por tu, menos quando é da assignatura. Não conserva odios. E fica contentissimo se os ministros descompõem a oposição. Quando foi da exhoneração do Mousinho pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e queixou-se ao José Luciano:
—No Paço todos me fazem má cara.
O José Luciano disse-o ao rei, que protestou:
—Não, por mim não é verdade. Quanto á rainha que a trate com todas as atenções, mas que não faça caso.
E para reforço traz o caso Oliveira Martins: O José Dias Ferreira nunca chegava a presidente de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou que manejava facilmente o velho rabula—e escolheu-o para taboleta. Enganou-se... O Valbom ainda tentou organisar ministerio, mas o Martins, sem manha politica, teimou no José Dias. Pois ao fim de dois mezes era elle quem mandava e que o queria alijar... No Paço, nem este rei nem o D. Luiz, gostavam do José Dias; apezar d'isso, quando o Martins, aborrecido, se fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D. Carlos disse ao Arnoso:
—Olha lá, diz ao Joaquim Pedro—era assim que elle o tratava—que se levante ou que se demita. Isto não é vida.
*
Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito de mentir, e que pensa em restaurar a monarchia no Brazil.
M —1903.
Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. Amelia não quiz receber o presidente Loubet, por escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:
—Viajo incognita.
—Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, e o rei mandou-a convidar para ir a Roma. Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. O governo italiano deu immediatamente ordem aos navios que estavam em Livorno—para sahirem uma hora antes da entrada do yacht...
*
Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:
O Silva Pinto escrevia de quando em quando cartas á condessa d'Edla, pedindo-lhe dinheiro. A condessa architectou um romance: nunca o vira e imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, morrendo por ella. E mandava-lhe ás vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no atelier de Columbano...
—Então este velho é que é?!...
E não lhe deu mais vintem.
M —1903.
Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem da rainha. Acusou-a de não ter querido receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se e negou.
Comentario do Alpoim:
—Que havia elle de responder? Mentiu como um cão!
De resto o discurso foi cheio de alusões. Chegou a isto: a lançar suspeitas sobre as relações do Soveral com a rainha. «Que está fazendo o snr. Soveral em Paris?
Façam-no recolher imediatamente a Londres[3]!»
—Triste simptoma—afirma o D. João de Alarcão—n'um paiz monarchico ninguem se levantou para defender o rei. Alguns como o Ayres de Gouveia foram cumprimentar o Arroyo; outros, como o José Luciano, sahiram dos seus logares e chegaram-se mais para perto, para não perderem pitada.
*
—O que nós fazemos não é discursos, é historia—diz o Arroyo.
*
Diz-se:
O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo chama-lhe corno...
*
O Alpoim:
O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama aos outros ladrões. Eu sempre queria que me dissessem o que elle é...
*
A quinta da Bacalhôa—continua o Alpoim—foi comprada pela casa de Bragança. Quem faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado.
M —1903.
O rei—diz hoje D. João d'Alarcão em conversa com o Alpoim—não se importa nada com isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho, defendido pelas baionetas inglezas.
*
O rei tem uma lista celebre a que chama a lista dos ladrões.
*
O Arroyo volta á discussão e, a proposito, conta-se de novo a historia dos tapetes:
«—Havia em Mafra um grande tapete persa, o mesmo que está hoje em Vila-Viçosa, por signal muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle, até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. Mas fiquei sempre com a impressão de que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu extasiado por ter comprado qualquer tapete insignificante, lembrei-lhe:
—V. Magestade tem em Mafra um muito melhor do que esse...
—Ora adeus!
Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o almoxarife e o tapete, e o homem instado apresenta, em logar do tapete, dois papelinhos... A saber: a ordem de Pedro Victor para entregar o tapete e o respectivo recibo. Não vi o telegrama do rei, mas vi a resposta do administrador da casa real: «Vossa Magestade manda, obedeço».
Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo tinha-o lobrigado em Mafra e comprado por 75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje n'uma parede do palacio de Vila-Viçosa».
*
Conversa entre o Soveral e o Alarcão:
—Ninguem diga d'este Soveral não beberei. Ainda has-de ser presidente do conselho.
—Para quê? Então tu imaginas que deixo a minha situação lá fóra por isto? Que mais quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado marquez...
E o Alarcão conclue:
—Acredito que elle não queira. Só se fôr para arranjar algum negocio, que elle anda muito precisado de dinheiro...
M —1903.
É certo que o rei falou ao José Luciano na dissolução da camara dos pares, substituindo-a por outra em bases diferentes. A noticia foi para os jornaes para assustar o Arroyo—que quer fazer outro discurso sensacional contra o rei.
*
O José Luciano procurou o Arroyo em casa:—Venho pedir-lhe que não faça o discurso contra o rei. É um homem na minha edade, perto da cova, que lhe pede isto em nome d'interesses superiores.—Sim senhor... se V. Ex.a me assevera que por traz d'isto não está o sr. Hintze Ribeiro...
E chorou.
*
—O rei—diz o Alpoim—está contentissimo. O discurso era tremendo. O Arroyo afirmava que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma vez pediu mil e seiscentos contos. Elle proprio, quando ministro, lhe deu muitas vezes dinheiro.—Aqui estam as provas!—E apresentava-as.—O primeiro a ser castigado devo ser eu, porque delinqui.
J —1903.
Os jornaes trazem a noticia de que o rei partiu para o mar no yacht D. Amelia e de que o duque d'Orleans chega na segunda-feira a Lisboa.
O rei safou-se de proposito para o mar, para o não receber. Do Paço mandaram ordem para se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei supoz que os acontecimentos de Paris com a rainha se relacionavam com imposições da familia Orleans.
...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu o duque.— Mas houve o diabo!...—diz o Alpoim.
*
—O Navarro defende-o, senhor Alpoim...
—O Navarro diz hoje bem de mim, como amanhã diz mal—por doze vintens.
J —1903.
O Diario de Noticias publica hoje esta curiosissima informação:
As recepções em casa do sr. conselheiro João Arroyo, constituem sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento multiforme do illustre parlamentar, que é um artista de raça, converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decoração dos salões, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas collecções de arte ornamental que elles encerram.
Não se encontra ali um “bibelot„ que não seja um objecto de arte ou não faça parte de uma collecção, paciente e sabiamente reunida e disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e «vitrines», resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento esthetico. A sala dos xarões e dos cobres e bronzes esmaltados e «cloisonnés» é por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e só por si basta para aferir o elevado grau que occupa o colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, tão bom ou melhor que admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes dão aos «gourmets do bric-a-brac» a impressão de verdadeiros escrinios de arte. Nestes casos estão a graciosa collecção de figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição de leques, cujos pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes do seculo XVIII ou são apenas formados de finissimas rendas a ponto, de Allençon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianças da China, e de Saxe; as soberbas «boiseries» da casa de jantar, bello trabalho decorativo no estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu fogão monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as prateleiras dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, faianças e cristaes.
Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada até ás salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana, flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de Gobelins e do Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e criterioso esforço de um artista e o bom gosto de um homem elegante poude colleccionar, tudo chama a nossa attenção, que só encontra ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de casa, a sr. a D. Maria Thereza Pinto de Magalhães (Arriaga) e na conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido naquella senhora uma valiosa collaboração artistica, assignalada em mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella residencia.
Por tudo isto, o «raout» de hontem esteve concorridissimo e encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, entre os quaes estavam:
Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justiça, obras publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e secretarios, Rouvier, ministro da França e esposa, ministro de Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D. Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell, marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e esposa, conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, almirante conde de Paço d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa, conselheiro José de Azevedo e esposa, conselheiros José e Antonio Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de Sabroso, conselheiro José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego, F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar, conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D. Elisa Pinto de Magalhães e D. Luiza Pinto de Magalhães, Alberto Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas, conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão e esposa, José Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa, condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M. Emygdio da Silva, etc., etc.
*
O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, que os trouxesse desde a obscuridade e da pobreza, que nos contasse o esforço, as transigencias, o talento gasto e o fel gasto, até chegarem ao poder—Navarro, filho d'um mestre de musica de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre. Alguem que nos desse a vida occulta, a audacia e o descalabro, a chaga politica que os engrandece e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o romantico da Morgadinha, até ao ponto de acabar por estas palavras amargas, com o ultimo suspiro:—A vida é uma comedia!—Alguem que nos mostrasse Arroyo e os seus phantasmas, Mariano e os seus phantasmas, Navarro e os seus phantasmas.
Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha e envilece—se lhe falta ideal, paixão, ou um forte sentimento que caldeie as figuras e as eleve! Não, a vida não é uma comedia. A vida é profunda. Elles é que lidaram apenas com inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano acabou quasi desprezado. O talento não lhe serviu de nada. Talvez o prejudicasse... Ha um momento tragico na sua vida, aquelle em que João Chrisostomo d'Abreu e Souza lê em plena camara a declaração, em seu nome e no dos seus colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos os actos irregulares praticados pelo ministro da fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo, livido—com um olhar atono, como nunca vi em mais ninguem. O sceptico! o sceptico amarfanhado, reduzido a trapo, com um golphão de desprezo, por si e pelos outros, na bocca, com um golphão de negrume!... Jamais me esquece esta figura, que vi morta entre os vivos, sentado n'um canto da camara, sem ninguem fazer caso d'elle, vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir, e não tendo podido realisar nenhuma das suas ambições:—Deixem-me! deixem-me!—Deixem-no com os seus phantasmas! Arroyo talvez encontrasse na musica um refugio... Navarro, porém, acabou no mesmo abatimento. Temiam-no— mas só o temiam. Arredaram-no. No fim da vida ficava horas e horas absorto ou ia para o fundo d'um camarote do Gimnasio ouvir musica. Apegara-se—mau simptoma —aos netos. Desconfio que o celebre estadulho não passava d'um espantalho, e que era grande a sua sensibilidade:—Sinto-me ferido em pleno coração—Do coração morreu, sem nunca o deixarem realisar as suas ambições.
Guerra Junqueiro
Guerra Junqueiro.
Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel—rodeados de invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam um desfalecimento—uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca Magalhães, outros respon Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel—rodeados de invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam um desfalecimento—uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca Magalhães, outros respondendo á audacia com audacia, outros sucumbindo ao nojo, com estas palavras que já surprehendi a alguem n'um momento supremo:—Não, não valia a pena!
*
O mundo politico é tão curioso! O que está á vista não tem importancia, o que se mostra não passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porquê? Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no á metropole. O artigo D. Folião do Colen fez successo... Já se diz:— Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou uma pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar, antes de cahir, um logar não sei onde. Ha politicos que se servem de todos os meios: ha-os—sei eu—que se escrevem cartas anonimas. Parece até que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos corredores das camaras, ácerca dum deputado da maioria:—O que eu admiro é o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta em que elle se confessa ladrão!—Este mundo tem as suas leis, as suas convenções, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal é o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas côrtes é apenas aparato: o José Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas surge ás vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze teimou—o rei teimou:—Vae para casa e pensa...—A atitude do Navarro explica-se
porque o rei nunca o deixou ser par... [4] D'ahi o odio— d'ahi barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que não fizesse o discurso contra o rei:— Sou eu, chefe dum grande partido, que lhe afirmo que não está inutilisado.—E publica no Correio da Noite o discurso com alusões á rainha—que o Alpoim manda retirar do Dia, por causa do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, mas cá em baixo vêm-se referver os interesses, as ambições, os despeitos. O D. Carlos mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz— e é talvez por isso mesmo que o atacam e o acusam. Não intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz ao José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse ministerio:—Isso não, meu senhor! E vou já d'aqui dizel-o ao Braamcamp.—Tudo parece confusão, todos os dias a teia se emaranha. Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por interesse, por camaradagem, seja pelo que fôr, mas já não ha ninguem que defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, só se fala no rei... O rei! o rei! o rei!...
J —1903.
—Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou são pedantes ou fadistas.
A este proposito o D. João da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um discurso á mãe, dizendo-lhe ella no fim:
—O menino ha-de sahir um bom pedante.
Se tarda em morrer acabava odiado.
E acabava. As grandes figuras moraes são sempre uma calamidade para si e para os outros. O universo é amoral, e não ha como os acomodaticios, com alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os outros só fazem a sua desgraça e a desgraça dos que os rodeiam.
J —1903.
Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. Lá no fundo morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascença, experimentou o fresco, as tapeçarias, os trabalhos em cêra e prata. A senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e dizia:
—Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. Criei-os a todos.
—E o Columbano?
—Esse é meu irmão, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os maiores homens de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala:
—O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu atelier pousar para o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu transtornada:
—Salve-nos! salve-nos!
Era depois dos acontecimentos do ultimatum. O Martins procurou ou escreveu—não me lembro—ao Anthero do Quental e elle afastou-se e abandonou tudo.
São curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou. Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para se lhe não ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia, desaparecia logo: não pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de pedinte:
—Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou...
Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul—mas quando falava!... Nunca olhou para o retrato.
—Está prompto?
Foi-se embora como viera...
J —1903. O José de Figueiredo diz-me:
—Copiei por minhas mãos, para o Antonio Candido, a carta em que o Soveral é durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que, se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
J —1903.
—Ninguem me mete na cabeça que esta rainha é boa pessoa—diz o Alpoim ao vel-a descer o Chiado.
Mas, quando passa, toda a redacção do Dia corre á janella, para a cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixão, põe á pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar n'uma grande cortezia.
*
Fala-se hoje do Soveral na redacção do Dia, e da amizade que o liga ao rei d'Inglaterra.
—São tão amigos que por occasião do ultimatum, ainda Eduardo VII era Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e só lhe disse estas palavras:—A Alemanha está comnosco...
O Soveral correu ao telegrapho.
J —1903.
O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas combinações de finança, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers, etc.:
—Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o. Todos estendiam a mão. Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá, magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:—É magnifico... só lhe falta o assucar.—Eu, que já ia prevenido, tirei das algibeiras alguns rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:—E agora?— Agora está optimo.—E concluiu:—Você é uma mercearia ambulante!
J —1903.
O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga:
—É que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forçado a viver em Portugal, fazia-me revolucionario.
*
Tambem o Alpoim diz hoje:
—Quem me dera uma revolução!
E, deante do nosso espanto, explica:
—Para pôr o rei no seu logar... Eu não tenho nada a perder, meus filhos estão colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas quê! Agora com a aliança ingleza é muito peor. Ainda outro dia dizia o José Luciano:—Podem vir os republicanos todos juntos, os de cá e os de Hespanha, que não fazem nada. É da aliança que, se houver qualquer movimento, desembarcam tropas e defendem o rei.
E acrescenta:
—Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho.
*
—Elle é mau, é—diz o Alpoim do rei—mas a gente não tem outro.
J —1903.
O Abel d'Andrade:
—Conheço muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem, pessimas n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe que o enganam—e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades, que vão crescendo á medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme; não é capaz de dizer não peremptoriamente a ninguem.
J —1903.
O Emygdio Navarro está furioso com o rei. Sentiu immenso que o não convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra—quando foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliança anglo-portugueza.
J —1903.
Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o Rato, por causa d'uma querela do Dia. É um homem atarracado e forte, com um ar de falsa bonhomia. Ha n'elle não sei quê de inquisidor e de satiro, e é tão desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras doiradas de palhinha e consoles com gatos de vidro, ha varios mostrengos em exposição: o retrato delle e retratos de familia, temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro não sei de quem, ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em pêlo...
É este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se mais casos curiosos. É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo á sua disposição para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraçados. Tortura—verdade ou mentira?—no fundo das celulas alguns presos politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que ao José do Valle não o deixaram dormir sem elle confessar tudo...—É uma especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem o diga uma especie de Providencia. É incontestavelmente um homem esperto, que protesta:—Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente não sabe ou não quer defender-se...
Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem não encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada, surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiçados, que dão de comer, ás escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e deitam a fugir quando me vêem.
J —1903.
O artigo de hontem, das Novidades, sobre a mortandade da Servia, cheio d'alusões ao rei, fez sensação. E dizia-se por ahi:
—Quando se faz cá o mesmo?
—Foi uma limpeza!—phrase do Alpoim.
*
O Beirão:
—O Alpoim não quer vêr que o partido do João Franco, apezar de pequeno, é um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe os mesmos poderes que tem dado ao Hintze ou ao José Luciano.
J —1903.
Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito do rei e do poder pessoal:
—Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo, pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que não pareça poder pessoal... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D. Augusto meteu-se-lhe em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. Era no tempo em que se falava muito na união iberica. O Corvo opoz-se, apesar da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e disse-lhe:
—Escusa de insistir, que não casa. É pelo bem do paiz.
*
O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse hoje!...
J —1903.
—O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:—Peço-lhe que desista.—O infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de ir ao estrangeiro. Resposta do rei:— Cá ha um bom especialista.—Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio Lencastre. O rei tem pensado...
—Se isso fosse verdade!—exclama o Alpoim.
J —1903.
Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do Dia, a procissão do Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos—quando o bispo de Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
—Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!—Tinha hypothecado lá fóra os rendimentos do curia por noventa annos!
J —1903.
O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas dois retratos—o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do Remexido, quando o fuzilaram. E termina:—A Angela Pinto é neta do Remexido. Aposto que não sabiam!
J —1903.
—Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal—disse um patusco ao Marçal Pacheco.
—De juiz?!
—Isso.
—Mas você endoideceu! Não lh'o dão!
—Isso sei eu.
—Mas então porque é que o pede?
—Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já sei, mas é capital de queixa que amontôo.
*
O Alpoim:
—Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço esplendido—e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando charutos enormes e com as saias arregaçadas...
S —1903.
O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com os ataques nas Novidades.
O —1903.
O Alpoim recomenda no Dia que se não publique nada que possa ferir as susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se podem ver: têem um pelo outro odio figadal.
*
Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo.
José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita
de Celso Herminio.
José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita
de Celso Herminio.
*
Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da iluminação da Avenida diz-se:—Dos Restauradores para cima dirige o Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...
*
Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto, emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.
O —1903.
O D. João da Camara conta o seguinte:
—O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa. Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o dinheiro.—E o Brazão?—Cuido que não são casados, apezar do que por ahi se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:—É o meu melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe a Odette e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.
O —1903.
—Vi eu, vi eu!—exclama o Antonio José de Freitas—o Oliveira Martins, n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer, d'um janota banal.
D —1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
—Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o meu amigo que todos os annos ha um deficit de 7:000 contos. Ninguem tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se roubar á vontade!
*
O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.
Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as relações com a Italia.
—Se o José Luciano morrer é á facada!—exclama o Alpoim.
Morrer era ainda—Deus me perdoe!—uma solução... Peor será conserval-o na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.—Hoje deitou um litro de pus pela pelle.—Está salvo!—Morre!—Fica invalido!—Tem sifilis!—Nesta altura da politica portugueza, é elle quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»
Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço—dizem todos os politicos—e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que se succedam trez annos de fome.—Tudo quanto se faz de mau é o rei quem o faz...—Ainda hoje ouvi esta conversa:—Foi o Hintze quem disse ao Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer». Nunca lh'o deveria ter dito.—Os politicos inutilisam-no e inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no Noticias, no Seculo e no Diario, anunciando um grande emprestimo no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca, Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:—Quem não deixa passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada. No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no estrangeiro. Elle manda em tudo:—manda no Credito Predial, no Banco de Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe. Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.—A esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.—Hoje deitou mais pus!—Morre!—Com quem está o Paço?—O Moreirinha com a algalia não lhe sae da cabeceira.—Quem vae ao poder? O João Franco?
—Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São mil os interesses, mil as ambições.—Tudo menos o Beirão, que só tem por si a gente velha, a gente conhecida pelos batibarbas.
Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem, que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima—ambição ou grandeza?—ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o ataque, á frente dos batibarbas, contra o Alpoim, e o Alpoim, que ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois do conluio feito pelo Silva Graça:—Com esse me entendo eu!