Memórias

Raul Brandão · Capítulo 3 de 9 · parte 2/4

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Memórias

Pó da Estrada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

F —1904.

 

Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos. Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho. Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro, soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam baixinho os escandalos.

Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras, como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos. Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha. São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis esta mãe viciosa com a filha ao lado—de olhos limpidos e innocentes. Peor, ha peor... E mais esta—e mais esta— e mais esta condessa, que n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...

Puz-me a ouvir, a ouvir,—verdade? mentira?—e lembrei-me ao mesmo tempo da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da Chartreuse de Parma.

 

*

 

O general Lencastre de Menezes:

—Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado assim...

 

M —1904.

 

Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima: lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim. Tinham-no casado com uma linda rapariga branca—e o preto, á farta, pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.

Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou um yacht de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria. Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea.

Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis, pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e procurações para assignar—o enredo, a teia subtil em que o negralhão foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto, falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante.

...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe—de preto. Os brancos ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi, emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla—e lá em casa se toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.

 

M —1904.

 

As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos.

 

*

 

O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno.

 

M —1904. O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:—O amigo... o camarada... descança em paz.—Depois o Cunha e Costa falou na nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não cessavam de cantar—e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho:

—Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!...

 

A —1904.

 

O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:

—Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala grande, quando ella do alto da galeria:

—Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de honrarias?...

O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á baixa, não trocamos palavra.

 

M —1904.

 

As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella, quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle subiu—e depois desceu e foi tourear...

O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D. Carlota Joaquina.

 

A —1904.

 

A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal chega para uma hora de combate!

 

A —1904.

 

O dr. Antonio Centeno protesta:

—Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a camara e para os jornaes.

 

A —1904.

 

Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos estrangeiros chancela.

 

A —1904.

 

Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil. O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico.

 

A —1904.

 

Diz o Alpoim:

—O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz, que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho. Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.

 

M —1904.

 

O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...

—Eu disse-o depois ao rei.

 

*

 

A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto durante muitos annos.

 

J —1904.

 

Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado d'entente entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos de Delcassé.

J —1904.

 

A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades—chalet do Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.

 

*

 

Do Antonio José de Freitas:

O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D. Fernando com a comica, como elle lhe chamava. Uma senhora da aristocracia conversando com o marquez:

—Fui visitar el-rei que me disse:—Não queres vêr a condessa?—Falei com ella e parece-me...—hesitando —muito interessante...

 

Celso Herminio.

Celso Herminio.

E o marquez logo:

—A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa...

D —1904.

 

 

O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor do Amor de Perdição. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe metade.—N'esse dia—disse ella ao Alberto Pimentel—não tinha que lhes dar de comer.

 

*

 

O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...

 

D —1904.

 

O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das Novidades. Um amigo disse-lhe:—Deixe lá o Sebastião Telles ou o Alpoim ser presidente do conselho.—Essa hypothese não a admito eu!—protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras—talvez proposital —dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia direitos adquiridos senão dentro da lei.— Elle quer inutilisar-se...—É um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca—o nariz do Beirão—motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e indiferente a corrilhos, agarrado aos

seus livros[5]. Já em Abril, no conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:—Acabo de dar uma enxadada na minha reputação!—Quanto ao Alpoim desconfia que o José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças dentro do seu proprio partido: comprou A Tribuna e parece influenciar no Diario.—Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe porquê...—Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica agrava-se.

Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:—Se a Companhia dos Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.—Corre que os republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto, aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:

 

...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal.

«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.

«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem mais contribuiu para ella.

«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal; Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim em absolutismo.

«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade da nação.

«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual delles mais avançado, da reforma constitucional.

«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido progressista faz a centralisação dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça sempre suspensa sobre todos os liberaes.

«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.

«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu auge,—toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de morte para Portugal...

 

*

 

«A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso Calmon.

«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?

«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo. Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma, alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido conquistar as massas populares, e para captar as simpathias internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os, porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.

«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é comtudo imputado aos que o rodeiam. «Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso peso.

«E não se diga que a monarchia está identificada com a independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do povo.

«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de governo.

 

*

 

«É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza. Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação. É preciso que o partido republicano se transforme em partido do governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios; se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e dos humildes.

«Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em 1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica.

«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar á educação do povo. O estado actual o demonstra: tanto é certo que quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção.

«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da familia, a cooperação economica e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.

«Torna-se necessario defender a religião como um principio immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.

«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres principios: liberdade politica, liberdade economica e liberdade religiosa. Em nome de todos que querem saber, e não podem, oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem, oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios; em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende em Portugal: o partido republicano.

«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».

 

D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos: os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o Seculo e o Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o José Luciano, dizendo depois á familia:—O José Luciano está cada vez mais velhaco!— De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta anecdota que define uma figura:—O Rebello da Silva era muito amigo do Latino— mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o tempo do governo.

—Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro.

—Eu?!...—e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão sereno, que o outro ficou gelado...

D —1907.

 

O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado:

—Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D. Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos. A mim, que era então sargento, deram-me seis contos, para distribuir dezoito tostões por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse hoje gastava-os no brodio.

—Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles.

—O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graça, mais tarde celebre como major Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o sempre—conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.

 

D —1907.

 

O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o João Franco, das descomposturas ao rei, etc.,— e referindo-se aos politicos:

—Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos os dias me escrevem, e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de nojo!

 

D —1907.

Conta-me o D. João da Camara:

 

—A rainha era amicissima do meu irmão, o conde da Ribeira Grande. Visitou-o seis vezes durante a sua doença. N'uma das ultimas noites elle puxou-a a si, beijou-a, e explicou:

—É como se fosse minha filha.

Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe, n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas:

—Os politicos! Cautela com os politicos!

E ella respondeu-lhe:

—Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus quizer.

 

*

 

Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, passou a consolal-a...

 

J —1908. O Fialho conta, indignado, que a viuva do Eça de Queiroz, a quem o Estado dá uma pensão, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento e tantos contos.

—Veja você que pouca vergonha! São uns poucos de kilometros de terra de semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de cevados! Bem sei que metade da propriedade é da irmã, da mulher do Luiz Osorio... Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo o que o senhor Arnoso quer!...

 

J —1908.

 

Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo:

—Todos os oficiaes d'armada, á excepção de meia duzia, não podem vêr o rei, a quem chamam o pulha. Se houvesse em terra um movimento republicano, secundavam-no logo.

 

*

 

Diz-se por ahi:

—Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre d'isto!

 

J —1908. No Turf e no Club Tauromachico joga-se sempre escandalosamente. O conde de... lá vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no Club Tauromachico, o visconde de... tambem lá perdeu uma fortuna.

 

J —1908.

 

Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, O Marquez da Bacalhôa. Este Albuquerque, conhecido pelo Lendea, é o ultimo descendente, pelo pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto João de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de louça da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caçou no Cabo com lords, tocou guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalações electricas na Italia. Agora é jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo, em que a rainha, Senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquillo—e peor—anda por ahi de bocca em bocca ha muito tempo. E não vem de baixo—vem de cima...

 

*

 

Do Paço mandaram buscar um exemplar á livraria Ferreira.

 

J —1908.

O rei em Villa Viçosa caça; o João Franco em Carnide dorme com a casa cercada de policia. Fala-se em conspirações, na tropa, em transferencias d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria ao Bernardino Machado:

 

—Isto cheira a cadaver...

—Cheira a polvora, é que é—respondeu lhe elle.

Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prisões— fala-se em mais prisões ainda e os jornaes estão garrotados.

 

*

 

O Maximiliano d'Azevedo:

—É falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey. Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á Manuela. Ella aceitou-lha, e uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.

Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:

—Não! Não!

Chorou—e morreu. Já estava tisica ha muito tempo.

 

*

 

E conta-me tambem:

—A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lêr e toda a vida deu sylabadas.

 

J —1908.

 

O governo retira as munições a alguns regimentos e á marinha: só tem confiança na guarda. Diz-me o Schwalbach:—«Ouvi-o da bocca do oficial encarregado d'esse serviço. A noite passada retiraram as munições a um regimento da capital». Corre com insistencia que o coronel Albano da Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob pretexto de estudo de renovação e adaptação das munições, que se removeram para o serviço de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que varias peças do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios de guerra.

Gomes Leal.—Desenho de Antonio Carneiro. Gomes Leal.—Desenho de Antonio Carneiro.

 

*

O Fialho está um franquista ferrenho:

—O João Franco já me mandou chamar tres vezes.

E, como eu me espante de o vêr conservador, elle diz:

—Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu respeito:—É um bohemio que trata a roupa com nephetalina!

 

*

 

A Angela Pinto está com um preto que lhe poz automovel.

—Ó Angela, então tu agora?!

—Vocês que querem? Não andam todos os dias ahi a prégar que o futuro de Portugal está nas nossas colonias?

 

J —1908.

 

Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. O João Barreira conta-me que a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas não descobriu os depositos d'armamento. O João Pinto dos Santos diz:

—A prisão de Antonio José d'Almeida é um ensaio. Se virem que as massas populares não protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou aqui estou preso: o João Franco odeia-me.

 

*

 

Um livreiro:

Fizeram mal em prohibir O Marquez da Bacalhôa. Já ha quem tenha dado por um exemplar tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez a quinze tostões... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais que toda a gente sabia onde era impresso.

28 J —1908.

 

A atmosphera é electrica.—Isto não pode ser! isto não pode ser!—ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei que não podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no Porto e Villa Real; está assignado um decreto expulsando do paiz republicanos e dissidentes; e—sabem? sabem?—o movimento é preparado pelo João Franco para tomar medidas d'excepção... O Coelho de Carvalho, de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria Ferreira:—Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotação augmentada em cento e sessenta contos, pagos em oiro.

Ás sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:—Que ha? que ha?...—Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco da Bandeira....— Só?—E arranca-me das mãos o Correio da Noite:— Vem feroz! vem optimo!...—No comercio não se desconta uma letra. A rua do Oiro não tem metade do movimento habitual. Consta que o João Franco disse hontem:—Dá-se-lhes uma sangria...—O que eu lhe posso garantir, e sei-o por uma senhora de relações intimas do João Franco—diz o Fialho,—é que elle passa as noites sem dormir.—Medo—ou revolução? As mulheres vão buscar os maridos ás repartições e aos bancos, outras, na previsão de acontecimentos, fornecem-se á pressa nas lojas. Ha nervos na atmosphera. A questão dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, discutido e injuriado. Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o Hintze com desgostos. Os Braganças são todos ingratos. Que quer o rei? O rei só quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a piolheira, o rei é um ladrão. Dizem-no até os cavadores d'enxada da provincia:—O rei é um ladrão! o rei é um ladrão!—Gera-se não sei que excitação que se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma pressão a que não ha fugir. Nas esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, anunciando o folhetim Soror Amelia, com o retrato da rainha vestida de freira...

O que os jornaes de grande circulação não se atrevem a dizer, o Seculo, o Mundo, o Noticias, propala-se de ouvido para ouvido, ou publica-o o Correio da Noite, do velho José Luciano, que ataca com violencia o rei e o governo.—Que há? Que há?—Um policia aliciado pelo João Chagas denunciou a revolução; o juiz ao lêr o depoimento do Antonio José d'Almeida, exclamou:— Ora até que emfim encontro um homem!—O Cunha e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:—Vocês que querem? Está tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com este quadro: d'um lado da porta um municipal lia O Mundo, do outro, outro municipal lia A Lucta.

E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites enchentes nas revistas, Ou vae... ou racha, Pr'a frente! Todas as noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo as suas manias, as suas ambições, os seus interesses...

 

*

 

Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que queria matar o João Franco, entrou n'um café. A policia tentou apalpal-os—defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem, fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os guardas. Havia um plano de revolução? É fóra de duvida. Lançaram-se bombas que não explodiram a varias esquadras—á do Campo de Sant'Anna, por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo de dissidentes, Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o elevador da Bibliotheca, no intuito de lançar um foguetão, que desse o signal á esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes pontos, deviam assaltar os quarteis. Só o Alpoim e o Ameal conseguiram fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e telegraphos. No forte de Caxias estão presas 93 pessoas, e presos estão tambem o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A policia desandou então a prender a tôrto e a direito. O José de Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:—Já prendemos quatro. —Prendam mais.—Era preso quem passava na rua.

Á revolução adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos decididos a correr a municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio parece que foi sustel-os á ultima hora. Varios bandos foram prevenidos logo que o signal falhou. Os que esperavam no café do Rato, a hora do assalto á casa do João Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral, que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graça—e deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em casa d'um negociante, foi uma irmã dum actor de D. Maria.

 

*

 

—Isto—toda a gente o afirma—acaba logicamente no atentado pessoal.

 

30 J —1908.

 

Corre com insistencia que o João Chagas morreu d'uma pleurizia no hospital.

 

*

 

Os bufos são aos centos. Pára-se a conversar—tem-se logo um bufo á perna. O Baracho procurou hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:

—Eu não conspiro; portanto não me mandem espionar, senão corro os bufos a tiro. Se desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei. E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: Os senhores não hão-de ser sempre ministros. Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem de o ser, eu lhes tomarei as responsabilidades.—Ao que o ministro respondeu:—Se soubesse, general, as saudades que eu tenho do meu caminho de ferro!...

 

*

 

Tem sido tambem presos alguns oficiaes do exercito. E o Fialho faz blague:

—Desde que a policia entrou no caminho das descobertas, foi dar com a escripturação completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas dobradas. Uma revolução burocrata!

 

31 J —1908.

 

Sabem qual é a impressão geral? Pena de que o movimento gorasse.

 

*

 

Até as mulheres estão furiosas com o Franco. Ha-as que dizem:—Eu vou matal-o!—Mas ha tambem quem o defenda e aplauda como nenhum ministro foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena rua do Ouro:

—Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c... que não cabiam em Lisboa. Agora não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c... que não cabem em Portugal!

 

*

 

O Bernardino Machado:

—Sabe o que isto parece? Parece que o rei disse ao João Franco, entregando-lhe uma carabina:—«João arranja-me dinheiro».—O João Franco executa.—«João torna a levar a carabina e traz mais dinheiro».—E a atitude vergonhosa das nações estrangeiras que assistem com aplauso a este espectaculo! Porquê? Pelo que eu disse um dia d'estes a um negociante francez:—Ha um dictado em Portugal que explica tudo: —Ladrões não se encobrem de graça!

 

1 F —1908.

 

O João Franco responde aos clamores e á revolta com o decreto d'hoje:

Senhor—São bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em perigo a segurança das pessoas e das propriedades.

Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar a acção das medidas de circumstancia á esphera restricta de legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperança de que essa publicação fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse aviso efficaz aos agitadores.

D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre publicações attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro sobre crimes contra a segurança do Estado, das pessoas e das propriedades.

Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar que as tentativas e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e instigadores d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica e segurança do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham accrescentar se ás desgraças já occasionadas e, porventura, originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e á fortuna nacional.

Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha apresentou ás côrtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por deliberação do conselho de ministros, sob prévia informação das auctoridades locaes, as pessoas que pertençam a associações hostis á ordem social e que de semelhantes principios façam propaganda, e como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o são mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercussão em toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta e criminosamente a forma de governo de Estado.

N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe á segurança do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes da Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.

Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que contra a segurança do proprio Estado se manifestam ou que como inimigos da sociedade se apresentam.

Taes são, Senhor, as principaes disposições do diploma que tenho a honra de submeter á apreciação de Vossa Magestade.

Paço, em 31 de Janeiro de 1908. João Ferreira Franco Pinto Castello Branco—Antonio José Teixeira d'Abreu— Fernando Augusto Miranda Martins de Carvalho— Antonio Carlos Coelho Vasconcellos Porto—Ayres d'Ornellas de Vasconcellos—Luciano Afonso da Silva Monteiro—José Molheira Reymão.

 

*

O Alpoim fugiu para a Hespanha.

 

*

 

O Cunha e Costa:

—Ha mais de duzentas pessoas apostadas em matar o João Franco. Isto acaba por um atentado pessoal.

 

1 F —1908.

 

Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda transtornado:—Acabam de matar agora o rei!—O quê?! —Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...

Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo exclama:—Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça despedaçada!...—Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece. Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um empregado do Jorge O'Neill confirma:—Vi do escriptorio um policia correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era calvo. O policia varou-o com um tiro.

E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram, reconstituo assim a tragedia:

O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia.

O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na sombra...—El-Rei não joga? —perguntou o principe.—Jogo, jogo...—Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou n'esse dia nem almoçou no seguinte.

Nem uma nuvem. «Tarde sem par»—escreveu Ramalho.—Linda tarde para uma bomba—exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João Franco:—Não haverá perigo?—V. Ex. a vae ver que ovação!—Tinha-lha preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D. Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio, sem precipitação,

colocar-se á porta do ministerio do reino [6].

Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não conheciam uns aos outros.—«Eu assisti—diz o Navarro.—Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro passos—confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse uma palavra que não percebi bem»...—«Ao primeiro tiro—continua o Navarro—a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e descarregava. O principe real ergueu-se— cahiu varado. A rainha, louca de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.—Então não acodem?! Não ha quem me acuda?!—Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça: sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara intervir—mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de Oliveira esteve para ser morto:—Vinha de chapeu alto e foi o que me valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado, exclamando como um doido: —Matei agora um! matei agora um!

 

*

 

Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro quando sahia do Paço.

*

 

 

O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em punho, dizendo:

—O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe!

Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve este movimento colerico: bater no João Franco.

 

*

 

Acusam á boca cheia o João Franco—que não tomou precauções para o rei—de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.

 

*

 

A rainha no Arsenal disse ao João Franco:

—Veja a sua obra...

*

 

O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos, porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios artificiaes.

Continuar: parte 3 de 4