Memórias
Pó da Estrada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio, de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...—P'ra diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!—Era um convencido. Diz-se que os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião e concluiu:
—Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de vencermos, governaremos...
Ao que João Franco respondera:
—Não, podendo evitar-se o sangue—evitamol-o.
E Jaime Victor conclue:
—A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle, por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o receber.
N —1909.
Guerra Junqueiro desalentado:
—Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal.
*
Do João Franco diz:
—Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou.
*
O Carneiro de Moura:
—Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para O Portugal, vinte contos. Já lá vão em pagodes!
Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso
Herminio.
Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso
Herminio.
N —1909.
Conta hoje o Fuschini—sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade e dos cabelos todos brancos:
—O Soveral é um homem de negocios[8]. O que elle quer é dinheiro. Já tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa um correspondente do Dail Maily, que contou á Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do casamento.
*
O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:
—Quem deu o dinheiro para O Portugal foram as beatas. Um padre lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a viscondessa de Sarmento deu seis.
*
Um artigo curioso do Corriere de la Sera, assignado pelo Gomes dos Santos:
«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?
Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar do crime.
É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque os regicidas não eram anarchistas.
O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se compõe de homens capazes de tudo. Tudo deixa crer que o regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande coragem individual.
Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião publica com um diversivo.
Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia da conspiração.
Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de Cascaes, outro na redacção d'um jornal revolucionario —parecem ter intimas relações com a existencia da Mão Negra local.
Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes independentes dedicaram longas columnas.
Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um dos implicados na revolução republicana de 28 de janeiro— que era o receptador das armas roubadas. Já a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, auctor do furto.
Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do alto das ribas.
O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente que cometera o crime,—e que, além de ser antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e confessada.
Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde está de sentinella á vista.
Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o crime?
A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta interrogação...»
D —1909.
Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações carbonarias.
D —1909.
O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei quanto—outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.
*
Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia um companheiro de repartição:
—Tenho lá em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito negro que queria que você visse.
Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos, lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e está hoje na galeria do Paço d'Ajuda.
D —1909.
O Avelino d'Almeida:
—A verdadeira razão por que o Seculo se fez republicano?... É que no Paço, das ultimas vezes que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal, trataram-no d'alto.
*
—Um homem muito honesto o Hintze—diz o Carneiro de Moura—um homem muito honesto que fazia assim: —Ó Val-Flôr, empreste-me vinte contos.—E o Val-Flôr emprestava-lhos—e recebia do Estado compensações que valiam o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do Estado o valor de cincoenta mil reis.
D —1909.
Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno Chiado:—O rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos prometido o poder!
E o Vilaça conta:
—O José Luciano reuniu-nos hontem á noite, a mim, ao Beirão, ao Dias Costa, ao Moreirinha e disse-nos:—Se os senhores estão no partido apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. Não podem recusar as pastas que eu lhes indicar.—Todos se curvaram, o Vilaça, que perde dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria ser outra vez ministro.
23 D —1909.
O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador. Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima entrevista, dizendo a alguem:—Só lhe faltou bater-me...
D —1909.
O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe genealogias, negoceia em bric-à-brac e escreve satyras. D'uma vez, a um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala, perguntando:—Hein, com quem se parece?...— escreveu elle a seguinte quadra:
Do Imperador, de quem diz que é
filho,
Tem o retrato na sala,
Mas da p... que o pariu
Não tem retrato nem fala...
*
Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas a meninas do Sacre Coeur sobre a masculinidade dos creados... Depois fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive hoje arredado em Torres Novas.
—D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o craquelé—e debaixo das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias...
Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças magnificas, signé Germain, e que valem um milhar de contos.—D'uma vez disse a D. Luiz:—Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar com a boiserie de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa apresenta uma sala assim.—Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro. Vi as contas todas, photographei tudo...
*
—Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...—e sorri com ironia—comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata antiga a um canto.—Que é aquillo? —Está alli para derreter.—Deixem-me vêr.—Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro— uma salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.—São para derreter? Então venda-m'as. Quanto pezam?— Quinhentos mil reis.—Dou seiscentos.—Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me alguns contos de reis.
Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo—e d'algumas peças que tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»...
*
Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou sempre na tradição da sua familia:
—O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume—mas ella não cede. Pede, suplica—perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se depois das contumelias da pragmatica—e, ao sahir, volta-se de repente e dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso manguito...
*
Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.—É o pendant do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que todos estes do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro.
J —1910.
Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente, de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero...
J —1910.
O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:
—No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas automaticas. Meteram-no no calabouço—e confessa, não confessa... o homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:—Nós vamos alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.—E começou:— Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que vinha aqui para nos atirar bombas!—Quando o oficial abriu a porta do calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:—Não me matem que eu confesso tudo.— Então quem te entregou o caixote?—Foi o Alfredo Costa.—Veio a participação para o governo civil—mas só chegou ás mãos do juiz depois da morte do rei...
José Maria de Alpoim.
José Maria de Alpoim.
*
O juiz:
—Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras populares.
*
O dr. Antonio Emilio ao Beirão:
—Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que os chacinem.
E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.
J —1910.
Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se, diz-se...
F —1910.
O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro aviso.
*
O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se o que O Povo d'Aveiro, que está tendo tiragens enormes, publicou nos ultimos
numeros[9].
*
O T..., d'O Mundo, disse-me que janta duas vezes por semana com o Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do Diz-se...
*
O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:
—No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente preparado para a deposição de D. Carlos —marinha, tropa, organisações, tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que o João Franco estivesse morto.
M —1910.
Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei, assistiram trinta pessoas.
*
Paçô Vieira:
—A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo, corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel na mão.—Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta carta do rei que me levou a pedir a demissão.—Repliquei-lhe:—Sei perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por phrase.—E diante do espanto do Hintze:—Vim no comboio com o Afonso Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa carta... —Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos republicanos—naturalmente ao Bernardino —antes de ser enviada ao Hintze.
M —1910.
Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é— emfim! emfim!—o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As suas melhores obras—as que sonhou e nunca se resolveu a escrever—leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta:
—É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!...
—Fuja.
—Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba—e eu alli ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado!
M —1910.
Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S. Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de Herculano.—Que eram seus avós?—Pedreiros.—Efectivamente no retrato Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo, afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano edificou em granito—e no granito abriu pacientes e admiraveis lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam o pedaço sêco de pão com um ar solemne,—acabaram, emfim, por encontrar um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o universo—o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam—e capaz de edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade, veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no pó—mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem, sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra do pedreiro maximo de toda a sua geração.
M —1910.
José d'Azevedo:
—Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União Vinicola. Disse-lhe logo:— Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso.
A —1910.
O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das
cartas que o Afonso Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'O Mundo—esteve estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou hoje n'O Imparcial e disse ao José d'Azevedo:—Se isto assim continua minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso Costa.—Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus vencimentos suspensos...
*
Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze:
—O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes estava o meu nome, eu disse:—Mas isso não é uma lista de pares—é uma lista de credores.—Soube-o logo e nunca me perdoou.
*
Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'O Imparcial, disse:—Este é o creado do Paçô, que vae muito ao Mundo e pertence ás associações secretas.
*
—O José Luciano foi sempre um homem pernicioso— diz o José d'Azevedo.
—Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar—conclue o Fuschini. E acrescenta:—Quem manda é o seu salão onde se fazem os negocios mais escuros e mais porcos d'este paiz.
*
—Esse ministro italiano que ahi está—conta o José d'Azevedo—foi um dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe disse:—Prohibo-te que te metas n'isso.— Não se importou. Procurou Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.—Isso é extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.—Reuniram-se e examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:—Pois meu tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.—O embaixador conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo. Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:— Andei dois annos com febre!
*
José d'Azevedo:
—Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria. Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto—e venci. Uma tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:—Olha o que me diz o Paçô...—E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de José Luciano.
1 M —1910.
José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:—Não são sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem auctorisação dos governadores.
*
É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva. Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda, linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que synthetisa n'estas palavras:— Babo-me... Não escrevo, babo-me...—Não crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou com elle, dizia:—As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me medo. —São os olhos dos Brocas.
—Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui com o meu creado, a cavalo—e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios, depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o degolar...
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Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:— Sobrinho, Deus não existe... ou embarcou!
*
E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José d'Azevedo, depois do medico sahir:
—Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o Eusebio Macario, estes filhos de boticario!
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Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no primeiro periodo de loucura:—Veja esse desgraçado... Era um rapaz inteligente...—E depois d'uma pausa dolorosa:—E tudo isto porquê, sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.
J —1910.
Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana. Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:
PROPAGANDA || Ide escravos quebrar os
ELEIÇOEIRA || grilhões,
DO BLOCO PREDIAL || As algemas da fome
|| homicida; || Armas promptas contra esses || ladrões,
(Musica—A || Que nos roubam a bolsa e a
MARSELHEZA) || vida! (bis)
|| Nova aurora de Paz, || Redempção, || Vá doirar nossos valles e || cerros, || Libertando os captivos dos || ferros, || Dando aos pobres a luz e o || pão. ||
|| Avante! Lusitanos!
Largae a servidão!
Unir! Unir! contra os
tyramnos,
Salvemos a Nação!
Avante Lusitanos,
Salvemos a Nação.
Tareco.
E o folheto «Os Barbadões»[11]:
«O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha O Barbadão; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 annos reina em Portugal.
A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias, bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo proprietário: A Nação.
Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira.
Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV; beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou prezas ao seu vestido de noiva!
Seu filho Afonso VI que no throno lhe sucedeu, corria de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão Pedro II para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.
João V que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio.
José I faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.
Teixeira de Sousa.
Teixeira de Sousa.
Maria I tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e endoidece; seu filho João VI que em seu nome governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por oficiaes inglezes.
D. Miguel foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do throno pela revolução triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe ficaram fieis.
Pedro IV, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso imperio indiano.
Maria II para se aguentar no throno chama marujos inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha liberal.
Pedro V não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.
Luiz I arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho Carlos. Este, esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no xão atirou com elle ao chão. Seu filho Manuel II que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.
Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas, barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe deve: uma divida colossal de oitocentos mil contos, nenhumas industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho: 365 contos por anno só para elle, mais 60 contos para a mamã, outros 60 para a vóvó e 16 para o titi; tem tambem para alfinetes 160 contos a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais 60 contos para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria e daremos 20 contos annuaes por cada pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo de Beja.
*
Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares; viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da filha do Barbadão.
*
Portuguezes! façamos votos pela conservação d'esta gloriosa dynastia—Oremos—Padre Nosso—Ave-Maria.
J —1910.
Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está livido.
—A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como habitualmente.
—E o rei?
—O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia, fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...
J —1910.
Do João de Menezes:
—Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas que deram dinheiro para jornaes e o resto.
*
A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do exemplo de João Franco?—A um ministro foi preciso escrever-lhe uma ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.— O exercito é nosso.—E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo, manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos, mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José d'Azevedo desafia-os:—Venham para a rua!—Fiado em quê? O pacto de Vila Viçosa
efectivamente existe? [12] Já o João Franco dizia tambem com arrogancia:—Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui a dois annos garanto-lhes que a não fazem.—Mas será este rei um chefe?—pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos respondem d'esta forma n'O Liberal:
«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella de quem lhe bate os pés.
«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.
«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a honra de uma nação.
«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a
ser rei. No momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós todos, que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei».
A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder, ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:—Estamos sobre um vulcão!—A audacia dos republicanos todos os dias augmenta:—Lisboa é nossa!—exclama o Chagas.—Se os republicanos fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a republica estava feita!—afirma o Silva Graça—E o Porto e a provincia?— pergunto eu ao Chagas.—Que me importa a provincia! Que importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo telegrapho.—Outro diz-me:—A marinha está toda comnosco. Tem havido ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido contel-os...—Todos os dias corre um boato e a agitação
popular augmenta pela carestia da vida [13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o terror, mortes?... —Não, soceguem, quando se fizer a republica—já o anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro—o que se ha-de ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres...