Memórias

Raul Brandão · Capítulo 3 de 9 · parte 3/4

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Memórias

Pó da Estrada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

*

 

Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o menos possivel...

 

*

 

Phrase cruel d'um popular:

—Foi caçado como elle caçava os javardos—e em tempo defezo.

*

 

 

No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis, evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter. Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas vinte e tantas pessoas.

 

*

 

A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia:

—Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...

E a rainha:

—Has-de cumprir o teu dever até ao fim.

 

D. Carlos I de Portugal.

D. Carlos I de Portugal.

 

O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.

*

 

Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos postados nas esquinas até ás Necessidades.

 

*

 

A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:

—Foram portuguezes?

—Foram.

—Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.

E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:

—Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!

Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se, inventam-se outras mais.

 

*

 

O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do caso. Ficou furioso:

—Vá beber da merda!

—Digo a V. Ex.a que a policia não teve culpa...

—Vá beber da merda o senhor e a policia!

—Mas...

—Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda!

 

*

 

Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa.

 

*

 

Paçô Vieira:

—Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava de quando em quando:—A mo —Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava de quando em quando:—A morte do rei será muito sentida?— Estava tudo preparado para uma revolução. O Afonso Costa não deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente authentico: o João Franco ainda se ofereceu para governador civil de Lisboa.

—Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no Paço. Estavam lá tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais ninguem—nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a revolução. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de cá para lá, infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:—Que diz o Antonio Candido?—Elle não respondeu e ella continuou a passear de cá para lá como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de cá para lá, infatigavelmente...

 

3 F —1908.

 

Venho agora de Lisboa e—caso curioso—a impressão geral é d'alivio. Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram os homens que o assassinaram.

—Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado no Je sais tout... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria mulher—afirma o João Barreira.

—Foi um grande exemplo e uma tremenda lição.

—Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!

Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:

—A memoria do rei há-de ser rehabilitada.

 

*

 

No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior, como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel.

*

 

O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um ministro no governo—o Penha Garcia. Disseram-lhe:

—Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte das suas medidas.

—Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com isso.

 

*

 

A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:

—Então V. Ex.a não faz testamento?

—Não, o rei tambem o não fez...

 

*

 

O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um dos assassinos.

 

*

Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.

 

*

 

No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da rainha está agora de cima.

 

*

 

Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os homens, dizia de D. Carlos:—«Nunca o pude perceber».

 

*

 

Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:— É Saboia.—No conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o ouviam:—Não estou preparado para reinar.

Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe chamava prior do Crato. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é mais impetuoso— mas tem melhor coração.

F —1908.

 

 

Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.

 

*

 

A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem conversa em segredo, a medo—ch... ch... ch...—ao ouvido. A noticia soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.

 

*

 

Foi no automovel do Baltar do Janeiro que o Alpoim se safou para a Hespanha.

 

*

 

As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao rebordo do camarote no theatro.

O homem suicidou-se quando se viu descoberto.

 

*

 

O novo rei não gosta de sport. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em pequeno dizia:

—Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim, é que é gloria!...

As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:

—Isso são mariquices do senhor infante.

 

*

 

Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:

—Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não era porque elle não tivesse vontade, era porque o não deixavam!...

 

*

 

Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.

 

*

 

Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:

—Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do yacht. Ella deu-lhes uma desanda tremenda.

 

*

 

O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.

 

*

 

O pae do João Franco e os redactores do Jornal da Noite foram corridos do Suisso.

 

*

Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos, foi consultar a bruxa—M. me Brouillard, uma transmontana esperta que ahi está em Lisboa.

 

*

 

Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á morgue. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o guarda:

—Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!

—Qual!

—Parece...

—Já teve, já, mas agora está lasso.

—Mas olhe que...

E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem apalpa, e deu-lhe um formidavel aperto de mão.

O frigorifico é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicid é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de morto—exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.

 

*

 

Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:

—Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera, quando se lhe falavam em politica:—Não me falem em politiquices! não me falem em politiquices!

 

*

 

O João Pinto dos Santos:

—Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de Lemos:—O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas balas!—Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos, calças de verão, d'inverno, etc.—para ter a sensação de que estava livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica—e fui quasi feliz. O juiz interrogou-me:—Porque está preso?—Não sei.—Há uma testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.—É falso. Estava n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.—Chamou-se um policia a quem o juiz perguntou: —Conhece o snr. João Pinto dos Santos?—Não senhor.—Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? O João Franco avocou o processo a conselho de ministros e condemnou-me! Era odio pessoal. Na municipal fui sempre bem tratado.

—E souberam?

—Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr e diante do meu quarto bradou á sentinella:—Cuidado com esse sujeito! —O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um soldado lhe fez um manguito. Os oficiaes é que continham a soldadesca—mas até onde?

—E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?

—É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu respondi-lhe:—Bem vê V. Ex. a que não quero que meus filhos possam dizer:—Meu pae foi um assassino.—Isso não! Mas se um dia, depois de o insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.a nem toda a guarda municipal m'o arrancam das unhas!

 

*

 

Ha quem diga do João Franco:—Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o tio, o Mil diabos da capinha, dava tiros e fazia disturbios sempre que tinha as costas quentes.

 

*

 

João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.

 

8 F —1908.

 

É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E por ahi diz-se á bocca cheia:

—Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam ás mãos das camarilhas.

 

*

 

Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem apregoa:—O ultimo granadeiro! quem quer O ultimo granadeiro?—Mais carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se levasse o luto da monarchia.—O ultimo granadeiro!...—Mais coches, e aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo... Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa—silencio e um largo ah! a que se segue uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por largarem n'uma abalada de pavor—carros funerarios passando entre a indiferença gelada— farrapos de multidão que atravessam o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:—O ultimo granadeiro! quem quer O ultimo granadeiro?...

Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:—Então morreu-lhe alguem da familia?...

 

*

 

O Correia d'Oliveira:

—Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou... A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.

 

*

 

Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:

 

Morte aos Sanguinarios

Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava,

os Verdadeiros Assassinos

DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.

 

E outros, escriptos á machina, atribuindo o crime a este e áquelle...

 

*

 

A preocupação do rei é esta:

—N'este caso que faria D. Pedro V?

 

*

 

O João Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias.

 

*

 

O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, disse em casa das Thomares:

—Ha cinco annos que o João Franco está doido.

E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:

—Ás vezes avançava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mãos á cara ou desatava aos berros—e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e sem interrupção, colera, despreso, ambição, serenidade, medo, orgulho, riso, ferocidade, paz, vertigem...

 

*

 

E outro:

—Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Sómente o Martins dissera, arrependido, a Junqueiro:

—Nas penitenciarias está gente muito melhor que o rei.

 

11 F —1908.

 

Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma intentona—e os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores civis!

 

*

 

O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão alvadio:

—Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema—dizia comigo:—Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós, estamos perdidos!—Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á sentinela:—Cuidado!—O frio era mortal. O soldado encostou-se á porta—não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...

 

Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro. Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.

 

E o João Pinto dos Santos:

—Pude ver d'uma vez o Diario Illustrado, nas mãos d'um soldado, com o retrato do rei, mas calculei:— chegaram de Vila Viçosa.

—Mas nem sequer reparou na tarja de luto?

—Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que o rei tinha sido morto.

—Os oficiaes—continua o Chagas—trataram-me muito bem, mas á despedida disse-lhes:—Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum rumor.

E conclue:

—Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem, durante alguns mezes. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!...

*

 

Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam horas a conversar baixinho.

—Eram muitos?

—Ás vezes doze ou quinze—diz o creado.—E ficavam até tarde em grandes discussões...

 

*

 

Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos.

 

*

 

E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse logo:—Escusam de procurar, isso é d'El-Rei.

*

 

 

O Seculo, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000 exemplares.

 

F —1908.

 

Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a contra revolução.

—Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.

 

20 F —1908.

 

Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma dictadura militar.

 

*

 

Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de anno— dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e de ternura a envolver tudo isto...

Conheceu o rei e explica-o:

—Quando queria era um charmeur. Ás vezes ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um sorriso:—É minha filha.

E conclue:

—Era um grande pantomimeiro!

 

F —1908.

 

O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:

—O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que pensam ou escrevem em Portugal—afastou-os. Ha annos para cá o caso explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da vida palaciana que se não comprehendem.

—E como artista?

—Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não tinha tempo—outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um mal— começou a sel-o apenas ha um anno.

 

F —1908.

 

Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.

 

*

 

O Manuel Ramos:

Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade receia...—E elle logo decidido:—Eu não!—E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil co Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:— Mas se Vossa Magestade receia...—E elle logo decidido:—Eu não!—E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos politicos.

 

F —1908.

 

A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque de armas e munições.

 

*

 

Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta de escarros!

 

F —1908.

 

O João Chagas:

—Tem visto a atitude palaciana do Dia? Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo Alpoim e todos os dias collo pedaços do Janeiro e do Dia. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como agora... Impõe-nos um governo—e esse governo, não podendo ser rotativo, ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!... Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo O Regicida, se elle e os seus amigos nos atraiçoarem—os seus amigos, que, diante de mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!

 

M —1908.

O Brazão conta que na première do Othelo, o irmão de Augusto Machado foi cumprimental-o ao camarim:

 

—Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a peça é uma grande borracheira...

 

9 M —1908.

 

Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse:

—Não tenho medo por mim, é por elle...

—Os politicos, agora vão ter juizo...—disse alguem. E ella respondeu:

—Os politicos não teem coração.

E o rei dizia a um e a outro:

—Seja bom portuguez e meu amigo.

 

M —1908.

 

—Vou a Lisboa—diz o Columbano ao conde d'Arnoso.

—Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta.

 

M —1908.

Antonio José de Freitas:

 

—O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e, conversando com Rouvier, perguntou-lhe:

—Se se fizer a republica em Portugal?...

—Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a federação latina.

 

Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:

—Que familia! O melhor de todos é o cego—mas esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso furar-lhos!

 

M —1908.

 

O João Chagas:

—O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida, que disse:—Eu não só não sou republicano, mas sou anti-republicano.—Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa riamos ás gargalhadas.

Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa, nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo. Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz.

—Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto inevitavel. Que me importa o Porto?

E como eu duvide:

—Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em que os regimentos são completamente nossos.

 

A —1908.

 

Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no Jornal do Commercio, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos:

—D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as armas reaes.

 

N —1908.

 

A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis:

—Os outros não os conheço, mas aquella cara do

homem das barbas nunca mais me sae dos olhos[7].

 

D —1908.

 

O caso do dia é este:—Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:—Vossa Magestade anda iludido.

Esta gente que o cerca engana-o. A situação do paiz é deploravel, etc.

Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente, interrompida pela primeira vez naquella representação em que o formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem totalmente repelil-as.

Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...

 

J —1909.

 

—Esta vida artificial como lhe sinto a falta!—exclama o Fialho ali ao pé do Suisso.

—E porque não vive em Lisboa?

—Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente cria amor...—Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta isto:—Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!

Falamos de politica:

—Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha republicanos—ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um campo...

 

*

 

O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:

—A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento.

 

*

 

Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio, declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:—Eu bem sabia, por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os fazer...—Porquê, almirante?—A situação não me era agradavel.

 

*

 

Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira dissera:— Vendi a carabina a Fulano.—O ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.

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O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi correu, de que o rei se confessa todas as semanas.

 

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Larga distribuição d'estes papelinhos:[nota de editor]

 

J —1909.

 

Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de lisboeta—café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria. Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma mulher já fannée, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda, depois um sofá...

—E que tal, Munhoz?

—Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje almoçamos nós um bidet—e por signal que não estava nada mau!...

 

*

 

Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:—Um... dois... três...—A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos phantasmas que se sentam a seu lado:—Come, Luiz? Não queres d'este prato, Carlos?—E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época. Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer amarelo...

 

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O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:—Se m'o matarem quero ser rei uma hora, mas n'essa hora hei-de mandar...

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—E o rei?

—O rei...—diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço—O rei é um fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de orgulho.—E acrescenta:—Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por você.

 

J —1909.

 

Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:

—Era um pedante.

—Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros não se apura uma pagina...

Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...

—O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço —e algumas por causa do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o Hamlet commigo—elle que me roubou duzentas e tantas phrases!—e eu disse-lhe:—Pois sim, vamos lá discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem nervoso...—E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle disse-me:—Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o Hamlet como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular...

E eu respondi logo:

—Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um diplomata; se é por organisação é porque é um histerico...

E elle mandou-me embora.

 

*

 

Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe: —Vou organisar um concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.

 

*

 

O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os particulares, com a gente que lhe chamava doutor Tavares, e então regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria.

 

*

 

Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher caline, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.

 

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A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada, sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:

—Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o camarote.

 

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Não sei quem fala do Saldanha...

—Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam que não era persona grata. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:— Mandem lá esse velho pecador.

 

F —1909.

 

O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo do Hintze:

—Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses criminosos, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis mezes depois tinham morrido cincoenta de febres!...

 

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No outro dia—diz o Freitas—estive com a rainha D. Amelia. Está uma mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei, perguntei e explicaram-me:—São os aneis de brilhantes, que ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho—e que traz sempre comsigo.

 

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Um empregado da fazenda:

—Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por desleixo.

F —1909.

 

O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:

—O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,— adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por uma guitarrada.

 

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No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis emprestados.

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Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador «seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para lha segurar:—Mas tem cuidado que são ovos!...—observava sempre.

 

*

 

Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma loja, executar um alto personagem...

 

25 F —1909.

 

Visita ao Coelho de Carvalho, que está doente, e mora n'um velho palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados. São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre, fala-se em politica. Não se fala n'outra coisa... —A policia tem o processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia 21, n'uma loja maçonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinação politica com o João Franco? Disse-mo elle a mim:—«O acordo esteve feito para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e Beltrano decidimos perdel-o»... —Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graça. Tinham até ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os adiantamentos. E foi por isso que o João Franco pôde responder como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mãos provas d'essa combinação.

Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado que foi muito tempo no ministerio da justiça, é hoje alli n'uma meza do Martinho. Desconfio que mistifica os clientes—para se divertir... As dificuldades da sua vida são talvez invenciveis, mas a desgraça encontra-o sempre de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas brancas enquadrando uma face moça, e oculos redondos de tartaruga, que lhe dão uma aparencia de retrato de Holbein.—Os oculos de Spinoza...—como elle lhes chama.

 

M —1909. O Armando Navarro:

—D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que conheço, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar á Hespanha, é o primeiro passo...

 

6 M —1909.

 

Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a alguem a chorar:

—D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!

Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus senhores...». Entrou no palco e disse a phrase:

 

Boas noites, meus senhores...

 

E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e responderam á uma:

—Muito boas noites, senhor Taborda!

A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São mais felizes.

 

M —1909.

 

As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:—«A reacção envolve o rei».— Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa—fazendo-o visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...

 

*

 

Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que elle quer lá voltar para lhe dar uma lição.

 

M —1909.

 

Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas—e ficou pobre: são as Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com magnificas encadernações.

 

M —1909.

 

Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração muito adiantada.

—Porque não escreve as suas memorias?

—Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia... Depois deixo-me d'isso.

E conta-me:

—Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:—Não faça questão, que será um dos membros da junta.

E diz:

—Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me o peor que é possivel do rei e acrescentou:—Aceito a sua idéa... E tem casa?— Tenho.—E se a policia intervier?—Resistimos e apelamos para o povo.—Bem, vá falar ao José Luciano. —Procurei essa vil alforreca, que exclamou:—Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...—Dias depois o Hintze dizia-me:—O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.—Ex, que exclamou:—Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...—Dias depois o Hintze dizia-me:—O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.—Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de amanhã.—No dia seguinte estava morto.

 

M —1909.

 

Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos, emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas—festas de Santo Antonio, etc.—poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço e perguntou pelo rei.—Está com o seu director espiritual.—Então preciso de falar á rainha.—Está tambem com o seu director espiritual.

 

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A rainha—dizem-no todos—arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a perder o rei.

 

M —1909.

 

Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do general Baracho para se pôr á frente d'um movimento.

—Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os outros as comam!

 

M —1909.

 

O Cunha e Costa:

—O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou ao Amaral:—São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco de Abril...—Vou indagar.—Meia hora depois:—Está? Sou o Amaral.—E muito placidamente:—Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...—!!!—Os republicanos do Mundo, quando lhes constou que iam ser atacados:—Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...—A casa do cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.—Ao Pimentel Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação de jantar com os makavenkos:—Janto, janto, mas pago, meus senhores, pago sempre.—Ao Arroyo, quando lhe dizia:—Enganaram-no, almirante.—É que eu sou um ingenuo.

 

A —1909.

 

Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da rainha D. Amelia.

 

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O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:

—Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas as condecorações—todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o bonnet às tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos—e elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:—O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me, etc.—E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao bonnet e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.

 

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Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica, durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa.

—Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...

—Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando aliado com os progressistas...

—Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos declarados.

Continuar: parte 4 de 4