Mentirosos

E. Lockhart · Capítulo 1 de 5

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Mentirosos

Parte um

Para Daniel

PARTE UM

Bem-vindo

1

BEM-VINDO À bela família Sinclair.

Ninguém é criminoso.

Ninguém é viciado.

Ninguém é um fracasso.

Os Sinclair são atléticos, altos e lindos. Somos democratas tradicionais e ricos. Nosso sorriso é largo, temos queixo quadrado e sacamos forte no tênis.

Não importa se o divórcio retalha os músculos do nosso coração a ponto de mal conseguir bater sem esforço. Não importa se o dinheiro do fundo de investimento está acabando, se as faturas do cartão de crédito não são pagas e se acumulam sobre a bancada da cozinha. Não importa se tem um monte de frascos de comprimidos sobre a mesa de cabeceira.

Não importa se um de nós está desesperadamente, desesperadamente apaixonado.

Tão

apaixonado

que medidas desesperadas

precisam ser tomadas.

Somos Sinclair.

Ninguém é carente.

Ninguém erra.

Vivemos, pelo menos durante o verão, em uma ilha particular perto da costa de Massachusetts.

Talvez isso seja tudo o que você precisa saber a nosso respeito.

2

MEU NOME COMPLETO é Cadence Sinclair Eastman.

Moro em Burlington, Vermont, com minha mãe e três cães.

Tenho quase dezoito anos.

Tenho um cartão de biblioteca bem gasto e pouco mais que isso, embora more em uma casa enorme cheia de objetos caros e inúteis.

Eu era loira, mas meu cabelo agora está preto.

Eu era forte, mas agora sou fraca.

Eu era bonita, mas agora pareço doente.

É verdade que aguento terríveis enxaquecas desde o acidente.

É verdade que não aguento idiotas.

Gosto de distorcer significados. Percebe? Aguentar enxaquecas. Não aguentar idiotas. A palavra significa quase a mesma coisa nas duas frases, só que não.

Aguentar.

Você pode dizer que é o mesmo que “suportar”, mas não estaria cem por cento certo.

 

MINHA HISTÓRIA COMEÇA antes do acidente. Em junho, no verão em que eu tinha quinze anos, meu pai foi embora com uma mulher de quem gostava mais do que da gente.

Ele era um professor universitário de história militar relativamente bem-sucedido. Eu o adorava. Ele usava paletó de tweed. Era magro. Tomava chá com leite. Gostava de jogos de tabuleiro e me deixava ganhar, gostava de barcos e me ensinou a andar de caiaque, gostava de bicicletas, livros e museus.

Nunca gostou de cachorros, e um sinal do quanto amava minha mãe era deixar nossos golden retrievers dormirem no sofá e caminhar quase cinco quilômetros com eles todas as manhãs. Também nunca gostou dos meus avós, e um sinal do quanto amava minha mãe e eu era passar todos os verões em Windemere, na ilha Beechwood, escrevendo artigos sobre guerras disputadas há tempos e encarando os parentes com um sorriso no rosto em todas as refeições.

Naquele mês de junho, no verão dos meus quinze anos, meu pai anunciou que estava indo embora e partiu dois dias depois. Ele disse à minha mãe que não era um Sinclair e não podia tentar ser um, não mais. Ele não podia sorrir, não podia mentir, não podia fazer parte daquela linda família que morava naquelas lindas casas.

Não podia. Não podia. Não queria.

Ele já tinha contratado o caminhão de mudança. E alugado uma casa. Colocou a última mala no banco de trás da Mercedes (deixou o Saab para minha mãe) e ligou o motor.

Então sacou uma pistola e atirou no meu peito. Eu estava em pé no gramado e caí. O buraco da bala se alargou e meu coração saiu rolando da caixa torácica até o canteiro. O sangue jorrava continuamente da ferida aberta,

depois de meus olhos,

meus ouvidos,

minha boca.

Tinha gosto de sal e fracasso. A desonra vermelho-vivo do desprezo encharcava o gramado diante da nossa casa, os tijolos da entrada, os degraus da varanda. Meu coração se debatia entre as peônias como uma truta.

Minha mãe me repreendeu. Disse para eu me recompor.

Aja como uma pessoa normal, ela disse. Agora mesmo.

Porque você é. Porque você pode ser.

Não faça escândalo, ela disse. Respire e endireite-se.

Fiz o que ela pediu.

Ela era tudo o que me restava.

Minha mãe e eu erguemos a cabeça. Meu pai dirigia colina abaixo. Entramos e destruímos os presentes que ele havia nos dado: joias, roupas, livros, tudo. Nos dias seguintes, nos livramos do sofá e das poltronas que eles tinham comprado juntos. Jogamos fora a porcelana que fora presente de casamento, a prataria, as fotos.

Compramos móveis novos. Contratamos um decorador. Encomendamos prataria da Tiffany. Passamos um dia inteiro visitando galerias de arte e compramos quadros para cobrir os espaços vazios das paredes.

Pedimos para os advogados do meu avô protegerem os bens da minha mãe.

Depois fizemos as malas e fomos para a ilha Beechwood.

3

PENNY, CARRIE E BESS são as filhas de Tipper e Harris Sinclair. Harris herdou seu dinheiro aos vinte e um anos, quando saiu de Harvard, e aumentou a fortuna fazendo negócios que nunca me dei o trabalho de entender. Ele herdou casas e terras. Tomou decisões inteligentes no mercado de ações. Casou-se com Tipper e a manteve na cozinha e no jardim. Exibia-a usando pérolas, em veleiros. Ela parecia gostar.

O único fracasso do meu avô foi nunca ter tido um filho homem, mas não importa. As filhas dos Sinclair eram bronzeadas e afortunadas. Altas, alegres e ricas, aquelas meninas eram como princesas de um conto de fadas. Eram conhecidas em Boston, Harvard Yard e Martha’s Vineyard por seus cardigãs de caxemira e festas grandiosas. Foram feitas para virar história. Foram feitas para ser princesas e estudar nas melhores escolas, ter estátuas de marfim e casas majestosas.

Meu avô e Tipper amavam as meninas e não sabiam dizer qual delas amavam mais. Primeiro Carrie, depois Penny, depois Bess, depois Carrie de novo. Elas tiveram festas de casamento espalhafatosas com salmão e harpistas, netos loiros e cães divertidos de pelo amarelo. Ninguém podia ter mais orgulho de suas lindas garotas americanas do que Tipper e Harris tinham, naquela época.

Eles construíram três novas casas em sua escarpada ilha particular e deram um nome a cada uma: Windemere para Penny, Red Gate para Carrie e Cuddledown para Bess.

Sou a neta mais velha dos Sinclair. Herdeira da ilha, da fortuna e das expectativas.

Bem, talvez.

4

EU, JOHNNY, MIRREN E GAT. Gat, Mirren, Johnny e eu.

A família se refere a nós quatro como os Mentirosos, e é provável que mereçamos. Temos quase a mesma idade, e todos fazemos aniversário no outono. Quase todos os anos causamos problemas na ilha.

Gat começou a ir para Beechwood quando tínhamos oito anos. No verão dos oito, como dizíamos.

Antes disso, Mirren, Johnny e eu não éramos Mentirosos. Éramos apenas primos, e Johnny era um chato porque não gostava de brincar com meninas.

Johnny é estalo, iniciativa e sarcasmo. Na época, pendurava nossas Barbies pelo pescoço ou atirava na gente com armas de Lego.

Mirren é açúcar, curiosidade e chuva. Na época, passava longas tardes com Taft e as gêmeas, mergulhando na praia maior enquanto eu desenhava em papel quadriculado e lia na rede da varanda da Clairmont.

Então Gat veio passar os verões conosco.

O marido da tia Carrie a deixou quando ela estava grávida do irmão de Johnny, Will. Não sei o que aconteceu. A família nunca fala disso. No verão dos oito, Will era bebê e Carrie já estava com Ed.

Esse Ed era um comerciante de arte e adorava crianças. Isso era tudo o que sabíamos sobre ele quando Carrie anunciou que o levaria para Beechwood com Johnny e o bebê.

Eles foram os últimos a chegar naquele verão e quase todos estávamos no cais esperando o barco se aproximar. Meu avô me levantou para que eu pudesse acenar para Johnny, que usava um colete salva-vidas laranja e gritava na proa.

Vovó Tipper estava ao nosso lado. Ela desviou os olhos do barco por um instante, colocou a mão no bolso e tirou uma bala de menta. Desembalou-a e colocou na minha boca.

Quando voltou a olhar para o barco, o rosto de vovó mudou. Apertei os olhos para enxergar o que ela via.

Carrie desceu com Will no colo. Ele usava um colete salva-vidas amarelo para bebês e não dava para ver muito mais do que alguns fios de cabelo loiro quase branco por cima. Ficamos felizes quando o vimos. Aquele colete, que todos havíamos usado quando bebês. O cabelo. Como era maravilhoso que aquele menininho que ainda nem conhecíamos fosse, de maneira tão óbvia, um Sinclair.

Johnny saltou do barco e jogou o colete sobre o cais. A primeira coisa que fez foi correr até Mirren e chutá-la. Depois me chutou. Chutou as gêmeas. Foi até nossos avós e endireitou o corpo.

— É bom ver vocês, vovó e vovô. Estou ansioso por um verão feliz.

Tipper o abraçou.

— Sua mãe pediu para falar isso, não pediu?

— Pediu — respondeu Johnny. — E quero dizer que é um prazer ver a senhora de novo.

— Bom menino.

— Posso ir agora?

Tipper beijou seu rosto sardento.

— Vá.

Ed desceu depois de Johnny, parando para ajudar a tripulação a descarregar a bagagem do barco a motor. Ele era alto e magro. Sua pele era muito escura — tinha ascendência indiana, depois ficamos sabendo. Usava óculos de armação preta e roupas alinhadas e urbanas: um terno de linho e camisa listrada. A calça estava amassada da viagem.

Meu avô me colocou no chão.

A boca da vovó Tipper formou uma linha séria. Depois ela mostrou todos os dentes e deu um passo à frente.

— Você deve ser o Ed. Que surpresa agradável.

Ele apertou a mão dela.

— Carrie não avisou que eu vinha?

— É claro que avisou.

Ed olhou para nossa família extremamente branca. Virou-se para Carrie e perguntou:

— Onde está Gat?

Chamaram por ele, que saiu do barco tirando o colete salva-vidas, olhando para baixo para soltar as fivelas.

— Mãe, pai — disse Carrie —, trouxemos o sobrinho do Ed para brincar com Johnny. O nome dele é Gat Patil.

Meu avô estendeu o braço e deu um tapinha na cabeça de Gat.

— Olá, meu jovem.

— Olá.

— O pai dele faleceu este ano — explicou Carrie. — Ele e Johnny são melhores amigos. Vai ser de grande ajuda para a irmã de Ed se ficarmos com ele por algumas semanas. E, Gat, você vai poder fazer piquenique e nadar como conversamos. Está bem?

Mas Gat não respondeu. Estava olhando para mim.

Seu nariz era grande, a boca, meiga. Pele bem morena, cabelo preto e ondulado. Corpo carregado de energia. Parecia que alguém tinha dado corda nele. Como se procurasse alguma coisa. Era todo contemplação e entusiasmo. Ambição e café forte. Eu poderia ficar olhando Gat para sempre.

Nossos olhares se encontraram.

Eu me virei e saí correndo.

Gat foi atrás. Dava para ouvir seus pés me seguindo pelas passagens de madeira que cruzavam a ilha.

Continuei correndo. Ele continuou seguindo.

Johnny perseguia Gat. E Mirren perseguia Johnny.

Os adultos continuaram conversando no cais, cercando Ed com educação, babando sobre o bebê Will. Os pequenos faziam seja lá o que os pequenos fazem.

Nós quatro paramos de correr na praia pequena perto de Cuddledown. É uma pequena faixa de areia com pedras altas dos dois lados. Ninguém ia muito lá naquela época. A praia maior tinha areia mais fofa e menos algas.

Mirren tirou os sapatos e nós todos fizemos o mesmo. Jogamos pedras na água. Só existíamos.

Escrevi nossos nomes na areia.

Cadence, Mirren, Johnny e Gat.

Gat, Johnny, Mirren e Cadence.

Foi o nosso começo.

 

JOHNNY IMPLOROU para que Gat pudesse ficar mais tempo.

Ele conseguiu o que queria.

No ano seguinte, implorou para que ele viesse passar o verão inteiro.

Gat veio.

Johnny era o neto mais velho. Meus avós quase nunca diziam não para Johnny.

5

NO VERÃO DOS CATORZE, Gat e eu pegamos o barco a motor pequeno sozinhos. Foi logo depois do café da manhã. Bess obrigou Mirren a jogar tênis com as gêmeas e Taft. Johnny tinha começado a correr aquele ano e estava dando voltas na trilha da costa. Gat me encontrou na cozinha de Clairmont e perguntou se eu queria sair de barco.

— Na verdade, não.

Eu queria voltar para a cama com um livro.

— Por favor!

Gat quase nunca pedia por favor.

— Vá você.

— Não posso pegar o barco — ele disse. — Não parece certo.

— É claro que pode.

— Não sem um de vocês.

Ele estava sendo ridículo.

— Aonde você quer ir? — perguntei.

— Só quero sair da ilha. Às vezes não suporto ficar aqui.

Eu não conseguia imaginar, na época, o que ele não suportava na ilha, mas concordei. Saímos de barco pelo mar usando jaquetas corta vento e roupa de banho. Depois de um tempo, Gat desligou o motor. Ficamos comendo pistache e respirando o ar salgado. A luz do sol brilhava sobre a água.

— Vamos entrar — eu disse.

Gat pulou e eu fui atrás, mas a água estava tão mais fria do que perto da praia que tirou nosso fôlego. O sol se escondeu atrás de uma nuvem. Soltamos risadas de pânico e gritamos que entrar na água havia sido uma ideia muito idiota. O que tínhamos na cabeça? Havia tubarões longe da costa, todos sabiam disso.

Não fale nos tubarões, minha nossa! Nós nos apressamos e empurramos um ao outro, lutando para ser o primeiro a subir a escada atrás do barco.

Depois de um minuto, Gat se afastou e me deixou ir na frente.

— Não porque você é menina, mas porque sou uma boa pessoa — ele me disse.

— Obrigada. — Mostrei a língua.

— Mas quando um tubarão arrancar minhas pernas, promete que vai escrever um discurso sobre como eu era incrível?

— Combinado — eu disse. — Gatwick Matthew Patil foi uma refeição deliciosa para um tubarão.

Parecia histericamente divertido passar tanto frio. Não tínhamos toalhas. Juntamo-nos debaixo de um cobertor de lã que encontramos sob os assentos, os ombros despidos tocando um no outro. Pés frios, um em cima do outro.

— É só pra gente não ficar com hipotermia — disse Gat. — Não pense que te acho bonita ou algo assim.

— Sei que não acha.

— Você está puxando o cobertor.

— Desculpe.

Uma pausa.

— Eu te acho bonita, Cady. Não quis dizer o contrário. Na verdade, quando ficou tão bonita? É perturbador — Gat disse.

— Continuo igual.

— Você mudou durante o ano. Está atrapalhando minha estratégia.

— Você tem uma estratégia?

Ele fez que sim, solene.

— É a coisa mais ridícula que já ouvi. Qual é sua estratégia?

— Nada penetra minha armadura. Nunca notou?

Aquilo me fez rir.

— Não.

— Droga. Achei que estivesse funcionando.

Mudamos de assunto. Falamos sobre levar os pequenos para Edgartown assistir a um filme à tarde, sobre tubarões e se realmente comem pessoas, sobre o jogo Plantas Versus Zumbis.

Então voltamos para a ilha.

Não muito tempo depois, Gat começou a me emprestar seus livros e me encontrar na praia pequena no início da noite. Ele me procurava quando eu estava deitada no gramado de Windemere com os cachorros.

Começamos a caminhar juntos na trilha que circunda a ilha, Gat na frente e eu atrás. Falávamos sobre livros ou inventávamos mundos imaginários. Às vezes dávamos a volta várias vezes até ficar com fome ou entediados.

Rosas japonesas demarcavam o caminho com um pink vivo. O cheiro era leve e doce.

Um dia, olhei para Gat, deitado na rede de Clairmont com um livro, e ele parecia… Bem, parecia ser meu. Como se fosse minha pessoa particular.

Fui para a rede ao lado dele em silêncio. Peguei a caneta de sua mão — ele sempre lia com uma caneta na mão — e escrevi Gat no dorso de sua mão esquerda e Cadence no da direita.

Ele pegou a caneta de mim. Escreveu Gat no dorso da minha mão esquerda e Cadence no da direita.

Não estou falando de destino. Não acredito em destino, almas gêmeas ou sobrenatural. Só sei que entendíamos um ao outro. Completamente.

Mas tínhamos apenas catorze anos. Eu nunca tinha beijado um menino, embora fosse beijar alguns no ano seguinte, e de alguma forma não rotulávamos aquilo de amor.

6

NO VERÃO DOS QUINZE, cheguei uma semana depois dos outros. Meu pai tinha ido embora e minha mãe e eu tínhamos todas aquelas compras para fazer, visitas ao decorador e tudo mais.

Johnny e Mirren nos encontraram no cais, bochechas rosadas, cheios de planos para o verão. Estavam preparando um torneio de tênis para toda a família e tinham separado receitas de sorvete. Íamos sair para velejar, acender fogueira.

Os pequenos estavam agitados e berravam como sempre. As tias davam sorrisos frios. Depois do alvoroço da chegada, todos foram a Clairmont para drinques antes do jantar.

Eu fui para Red Gate procurar Gat. Red Gate é uma casa muito menor que Clairmont, mas ainda tem quatro quartos no andar de cima. É onde Johnny, Gat e Will ficavam com a tia Carrie — e com Ed, quando ele estava lá, o que não era muito frequente.

Fui até a porta da cozinha e olhei pela tela. Gat não me viu. Estava parado junto à bancada, usando uma camiseta cinza desgastada e jeans. Seus ombros estavam mais largos do que eu lembrava.

Ele desamarrou uma flor seca que estava pendurada de cabeça para baixo na janela sobre a pia. Era uma rosa japonesa pink e de formas vagas, provavelmente da costa de Beechwood.

Gat, meu Gat. Ele tinha colhido para mim uma rosa de nosso local preferido para caminhar. Tinha pendurado a flor para secar e esperado eu chegar à ilha para me entregar.

Eu já tinha beijado um ou três garotos irrelevantes a essa altura.

Tinha perdido meu pai.

Tinha saído de uma casa cheia de lágrimas e falsidade e ido para a ilha.

E eu vi Gat,

e vi aquela rosa na mão dele,

e, naquele momento, com a luz do sol entrando pela janela e brilhando sobre ele,

as maçãs sobre a bancada da cozinha,

o cheiro de madeira e maresia no ar,

eu rotulei de amor.

Era amor, e me atingiu com tanta força que me inclinei junto à porta de tela ainda entre nós para me manter de pé. Queria tocar nele como se fosse um coelhinho, um gatinho, algo tão especial e macio que seria difícil manter os dedos longe. O universo era bom porque ele existia. Eu amava o rasgo em seu jeans e a sujeira em seus pés descalços e a ferida em seu cotovelo e a cicatriz que atravessava uma sobrancelha. Gat, meu Gat.

Enquanto ficava ali parada, olhando, ele guardou a rosa em um envelope. Procurou uma caneta, abrindo e fechando gavetas ruidosamente, então encontrou uma no próprio bolso e escreveu.

Não me dei conta de que estava escrevendo um endereço até ele pegar um rolo de selos de uma gaveta da cozinha.

Gat selou o envelope. Escreveu o endereço do remetente.

Não era para mim.

Saí da porta de Red Gate antes que ele me visse e corri pela trilha da costa. Observei o céu escurecer, sozinha.

Arranquei todas as rosas de um arbusto infeliz e as joguei, uma atrás da outra, no mar colérico.

7

JOHNNY ME CONTOU da namorada de Nova York naquela noite. O nome dela era Raquel. Johnny até a conhecia. Ele morava em Nova York, como Gat, mas mais ao sul da cidade, com Carrie e Ed, enquanto Gat morava no norte com sua mãe. Johnny disse que Raquel fazia aula de dança moderna e usava roupas pretas.

O irmão de Mirren, Taft, me disse que Raquel tinha mandado para Gat um pacote de brownies caseiros. Liberty e Bonnie me contaram que Gat tinha fotos dela no celular.

Gat não mencionou nada sobre ela, mas não conseguia me olhar nos olhos.

Na primeira noite, chorei, roí as unhas e tomei vinho roubado da despensa de Clairmont. Girei impetuosamente céu adentro, furiosa, golpeando estrelas em seu ancoradouro, rodopiando e vomitando.

Bati o punho na parede do chuveiro. Lavei a vergonha e a raiva em água fria, muito fria. Depois fiquei tremendo na cama como o cachorro abandonado que era, pele tremendo sobre os ossos.

Na manhã seguinte e em todos os dias desde então, agi normalmente. Ergui meu queixo quadrado.

Velejamos e acendemos fogueiras. Ganhei o torneio de tênis.

Fizemos sorvete e tomamos sol.

Uma noite, nós quatro organizamos um piquenique na praia pequena. Mariscos no vapor, batata e milho. Os empregados que prepararam. Eu nem sabia o nome deles.

Johnny e Mirren desceram com a comida em assadeiras. Comemos em volta das chamas da fogueira, deixando pingar manteiga na areia. Depois Gat fez sanduíche de marshmallow com bolacha de três andares para todos. Olhei para suas mãos à luz do fogo, colocando marshmallows em um longo graveto. Onde antes havia nossos nomes escritos, agora ele tinha começado a escrever títulos de livros que gostaria de ler.

Naquela noite, na esquerda: O ser e. Na direita: o nada.

Eu tinha escrito nas mãos também. Uma citação de que gostava. Na esquerda: Viva o. Na direita: hoje.

— Querem saber o que estou pensando? — Gat perguntou.

— Sim — eu disse.

— Não — disse Johnny.

— Estou me perguntando como podemos dizer que o avô de vocês é dono dessa terra. Não legalmente, mas de fato.

— Por favor, não vai começar a falar dos crimes dos peregrinos — resmungou Johnny.

— Não. O que estou perguntando é: como podemos dizer que a terra pertence a qualquer pessoa? — Gat fez um gesto englobando a areia, o mar, o céu.

Mirren deu de ombros.

— As pessoas compram e vendem terra o tempo todo.

— Não podemos falar de sexo ou assassinato? — Johnny perguntou.

Gat o ignorou.

— Talvez ninguém devesse ser proprietário de terra. Ou talvez devessem existir limites de propriedade. — Ele se inclinou para a frente. — Quando fui para a Índia, no inverno, como voluntário, construímos banheiros. Porque as pessoas de lá, daquela vila, não tinham.

— Todo mundo já sabe que você foi para a Índia — Johnny afirmou. — Você já disse, tipo, umas quarenta e sete vezes.

Essa é uma coisa que eu adoro no Gat: ele é tão empolgado, tão extremamente interessado no mundo, que tem problemas em imaginar que outras pessoas possam ficar entediadas com o que ele está dizendo. Mesmo quando lhe dizem abertamente. Mas, também, ele não gosta de facilitar para nós. Quer nos fazer pensar — mesmo quando não estamos com vontade.

Gat cutucou as brasas com um graveto.

— Só estou dizendo que devíamos conversar sobre isso. Nem todo mundo tem ilhas particulares. Algumas pessoas trabalham nelas. Algumas trabalham em fábricas. Algumas não têm trabalho. Outras não têm o que comer.

— Pare de falar agora — disse Mirren.

— Pare de falar para sempre — disse Johnny.

— Em Beechwood, temos uma visão distorcida da humanidade — Gat afirmou. — Acho que vocês não percebem isso.

— Cala a boca — eu disse. — Eu te dou mais chocolate se ficar quieto.

E ele ficou, mas seu rosto se contorceu. Levantou de repente, pegou uma pedra na areia e a atirou com toda a força. Tirou o moletom e os sapatos. Então entrou no mar de calça jeans.

Zangado.

Observei os músculos de seus ombros ao luar, a água espirrando conforme ele avançava. Gat mergulhou e eu pensei: se eu não for atrás dele agora, aquela Raquel vai ficar com ele. Se eu não o seguir agora, ele vai se afastar. Dos Mentirosos, da ilha, de nossa família, de mim.

Tirei o suéter e segui Gat mar adentro de vestido. Caí na água, nadando até onde ele estava boiando de costas. O cabelo molhado estava para trás, mostrando a fina cicatriz em uma das sobrancelhas.

Encostei em seu braço.

— Gat.

Ele se assustou. Ficou em pé com o mar na altura da cintura.

— Desculpe — sussurrei.

— Eu não mando você calar a boca, Cady — ele disse. — Nunca te disse isso.

— Eu sei.

Ele ficou em silêncio.

— Por favor, não cale a boca — eu disse.

Senti os olhos dele percorrerem meu corpo coberto pelo vestido molhado.

— Eu falo demais — ele reconheceu. — Transformo tudo em política.

— Gosto quando você fala — eu disse, porque era verdade. Quando parava para escutar, realmente gostava.

— É que tudo me faz… — ele parou. — As coisas estão muito erradas no mundo, só isso.

— É.

— Talvez fosse melhor eu… — Gat pegou minhas mãos e as virou para olhar as palavras escritas no dorso. — Talvez fosse melhor eu “viver o hoje” e não ficar debatendo o tempo todo.

Minha mão estava em sua mão molhada.

Estremeci. Seus braços estavam descobertos e úmidos. Costumávamos ficar de mãos dadas o tempo todo, mas ele não tinha me tocado o verão inteiro.

— É bom que você enxergue o mundo dessa forma — eu disse a ele.

Gat me soltou e voltou a flutuar na água.

— Johnny quer que eu cale a boca. Estou deixando você e Mirren entediadas.

Olhei para o perfil dele. Não era apenas Gat. Era contemplação e entusiasmo. Ambição e café forte. Tudo aquilo estava lá, nas pálpebras de seus olhos castanhos, em sua pele macia, no lábio inferior protuberante. Havia uma espiral de energia lá dentro.

— Vou te contar um segredo — sussurrei.

— O quê?

Estiquei o braço e o toquei novamente. Ele não recuou.

— Quando falamos “Cala a boca, Gat”, não é isso que queremos dizer.

— Não?

— Significa que te amamos. Você nos lembra de que somos uns cretinos egoístas. Você não é um de nós, nesse sentido.

Ele baixou os olhos. Sorriu.

— É isso que você quer dizer, Cady?

— É — respondi a ele. Deixei meus dedos percorrerem seu braço, que boiava esticado.

— Não acredito que vocês estão nessa água! — Johnny estava parado com água até os tornozelos, a barra da calça dobrada. — É o Ártico. Meus dedos estão congelando.

— Você acostuma depois que entra — Gat gritou em resposta.

— Sério?

— Não seja molenga! — berrou Gat. — Vire homem e entre logo na água.

Johnny riu e entrou correndo. Mirren foi atrás.

E foi… extraordinário.

A noite avultante sobre nós. O sussurro do mar. O som das gaivotas.

8

EU NÃO CONSEGUIA DORMIR.

Depois da meia-noite, ele chamou meu nome.

Olhei pela janela. Gat estava deitado na passagem de madeira que leva a Windemere. Os cachorros estavam deitados ao lado dele, todos os cinco: Bosh, Grendel, Poppy, Príncipe Philip e Fatima. Os rabos balançavam com suavidade.

A luz da lua fazia todos parecerem azuis.

— Desça aqui — ele pediu.

Desci.

A luz do quarto da minha mãe estava apagada. O resto da ilha estava no escuro. Estávamos sozinhos, exceto pelos cachorros.

— Vai mais para lá — eu disse a ele. A passagem não era larga. Quando deitei ao lado dele, nossos braços se tocaram, o meu descoberto e o dele vestindo uma jaqueta verde-oliva.

Olhamos para o céu. Tantas estrelas. Parecia uma celebração, uma festa grandiosa e proibida que a galáxia fazia depois de colocar os humanos para dormir.

Fiquei feliz por Gat não tentar parecer versado em constelações nem dizer coisas idiotas sobre pedidos para as estrelas. Mas também não sabia o que fazer com seu silêncio.

— Posso segurar sua mão? — ele perguntou.

Dei a mão para ele.

— O universo parece realmente enorme agora — ele me disse. — Preciso me segurar em algo.

— Estou aqui.

Ele esfregou o polegar no centro da palma da minha mão. Todos os meus nervos se contraíram, atentos aos movimentos da pele dele junto à minha.

— Não sei se sou uma boa pessoa — ele disse depois de um tempo.

— Também não sei se sou — eu disse. — Estou improvisando.

— É — Gat ficou em silêncio por um instante. — Você acredita em Deus?

— Mais ou menos. — Tentei pensar nisso com seriedade. Sabia que Gat não ficaria satisfeito com uma resposta irreverente. — Quando as coisas vão mal, eu rezo ou imagino alguém tomando conta de mim, ouvindo. Por exemplo, nos primeiros dias depois que meu pai foi embora, pensei em Deus. Em busca de proteção. Mas no resto do tempo só enfrento o dia a dia. Sem nada de espiritual.

— Eu não acredito mais — Gat disse. — Aquela viagem para a Índia, toda aquela pobreza. Nenhum Deus que eu possa imaginar deixaria aquilo acontecer. Depois voltei para casa e comecei a notar o mesmo nas ruas de Nova York. Pessoas doentes e famintas em um dos países mais ricos do mundo. Eu simplesmente… não consigo acreditar que tem alguém olhando por aquelas pessoas. O que significa que não tem ninguém olhando por mim também.

— Isso não te transforma em uma pessoa ruim.

— Minha mãe acredita. Ela foi criada no budismo, mas agora frequenta a igreja metodista. Não está muito satisfeita comigo. — Gat quase nunca falava da mãe.

— Você não pode acreditar em algo só porque ela quer — eu disse.

— Não. A questão é: como posso ser uma boa pessoa se não acredito mais?

Ficamos olhando para o céu. Os cachorros entraram em casa pela abertura na porta.

— Você está gelada — Gat disse. — Fique com a minha jaqueta.

Eu não estava com frio, mas sentei. Ele sentou também. Desabotoou a jaqueta verde-oliva e a tirou. Entregou-a para mim.

A jaqueta estava com o calor de seu corpo. Ficava larga demais nos ombros. Os braços dele agora estavam descobertos.

Eu quis beijá-lo ali, usando sua jaqueta. Mas não beijei.

Talvez ele amasse Raquel. Aquelas fotos em seu celular. Aquela rosa seca no envelope.

9

NA MANHÃ SEGUINTE, durante o café, minha mãe me pediu para olhar as coisas do meu pai no sótão de Windemere e pegar o que eu quisesse. Ela se livraria do resto.

Windemere é triangular e angulosa. Dois dos cinco quartos têm teto inclinado, e é a única casa da ilha com um sótão inteiro. Há uma varanda grande e uma cozinha moderna, com bancadas de mármore que parecem um pouco inadequadas ao lugar. Os cômodos são arejados e cheios de cachorros.

Gat e eu subimos para o sótão com garrafas de chá gelado e sentamos no chão. O quarto tinha cheiro de madeira. Um quadrado de luz entrava pela janela.

Nós já tínhamos ido ao sótão.

Mas também nunca tínhamos ido ao sótão.

Os livros se restringiam à leitura de férias do meu pai. Biografias de esportistas, romances policiais e revelações de astros do rock escritas por pessoas velhas de quem eu nunca tinha ouvido falar. Gat não estava prestando atenção. Separava os livros por cor. Uma pilha vermelha, uma azul, uma marrom, uma branca, uma amarela.

— Não quer nada para ler? — perguntei.

— Pode ser.

— Que tal Como marcar mais do que pontos?

Gat riu. Fez que não com a cabeça. Endireitou a pilha azul.

— Perdendo o controle? Herói da pista de dança?

Ele riu de novo. Depois ficou sério.

— Cadence?

— O quê?

— Cala a boca.

Permiti-me olhar para ele por um bom tempo. Cada curva de seu rosto era familiar, e ao mesmo tempo era como se eu nunca o tivesse visto.

Gat sorriu. Radiante. Acanhado. Ele ajoelhou, derrubando as pilhas de livros coloridos no processo. Estendeu o braço e acariciou meu cabelo.

— Eu te amo, Cady. Estou falando sério.

Eu me aproximei e o beijei.

Ele tocou meu rosto. Desceu a mão pelo meu pescoço e pela minha clavícula. A luz da janela do sótão batia em nós. Nosso beijo foi elétrico e suave,

hesitante e exato,

assustador e completamente certo.

Senti o amor correr de mim para Gat e de Gat para mim.

Estávamos aquecidos e tremendo,

jovens e velhos,

e vivos.

Eu estava pensando: é verdade, nós já nos amamos.

Já.

10

MEU AVÔ ENTROU BEM NA HORA. Gat deu um pulo. Pisou sem jeito nos livros separados por cor, que se espalharam pelo chão.

— Estou interrompendo? — meu avô perguntou.

— Não, senhor.

— Sim, com certeza estou.

— Desculpe pela poeira — eu disse. Constrangedor.

— Penny achou que pudesse ter algo aqui que eu quisesse ler. — Meu avô puxou uma antiga cadeira de vime para o centro do sótão e sentou, debruçando-se sobre os livros.

Gat permaneceu em pé. Ele precisava abaixar a cabeça por causa do teto inclinado do sótão.

— Cuidado, meu jovem — disse meu avô, curto e grosso.

— Perdão?

— Cuidado com a cabeça. Você pode se machucar.

— O senhor tem razão — disse Gat. — O senhor tem razão, posso me machucar.

— Então tome cuidado — meu avô repetiu.

Gat se virou e desceu as escadas sem dizer mais nada.

Meu avô e eu ficamos em silêncio por um momento.

— Ele gosta de ler — eu disse, depois de um tempo. — Achei que pudesse querer algum livro do meu pai.

— Você é muito importante pra mim, Cady — disse meu avô, batendo no meu ombro. — Minha primeira neta.

— Eu também te amo, vovô.

— Lembra quando te levei ao jogo de beisebol? Você só tinha quatro anos.

— Claro.

— Você nunca tinha comido pipoca doce — meu avô disse.

— Eu sei, você comprou dois sacos.

— Tive que te colocar no colo para você poder enxergar. Lembra, Cady?

Eu lembrava.

— Conta pra mim.

Eu sabia o tipo de resposta que meu avô queria que eu desse. Era um pedido que fazia quase sempre. Ele gostava de reviver os momentos importantes da família Sinclair, aumentando sua importância. Estava sempre perguntando o significado de alguma coisa, e a gente tinha que responder com detalhes. Imagens. Talvez uma lição aprendida.

Normalmente eu adorava contar e ouvir essas histórias. Os lendários Sinclair, como nos divertíamos, como éramos bonitos. Mas naquele dia eu não queria.

— Foi seu primeiro jogo de beisebol. — Meu avô insistiu. — Depois disso, comprei um taco vermelho de plástico. Você praticou o giro no gramado da casa de Boston.

Será que meu avô sabia o que havia interrompido? Ele se importaria se soubesse?

Quando eu veria Gat novamente?

Ele terminaria com Raquel?

O que aconteceria entre nós?

— Você quis fazer pipoca doce em casa. — Meu avô prosseguiu, embora soubesse que eu conhecia a história. — E Penny te ajudou. Mas você chorou quando viu que não tínhamos saquinhos vermelhos e brancos para colocar. Você se lembra disso?

— Lembro, vô — respondi, cedendo. — Você voltou até o estádio no mesmo dia e comprou dois sacos de pipoca doce. Comeu tudo no caminho, só para poder me dar os saquinhos. Eu lembro.

Satisfeito, ele se levantou e saímos juntos do sótão. Meu avô tinha dificuldade de descer as escadas, então colocou a mão no meu ombro.

 

ENCONTREI GAT na trilha da costa e corri até onde ele estava, olhando para a água. O vento estava forte e meu cabelo voava no olho. Quando eu o beijei, seus lábios estavam salgados.

11

VOVÓ TIPPER MORREU do coração oito meses antes do verão dos quinze em Beechwood. Ela era uma mulher estonteante, mesmo depois de velha. Cabelo branco, bochechas rosadas; alta e magra. Foi vovó Tipper quem fez minha mãe amar tanto os cães. Sempre teve pelo menos dois golden retrievers, às vezes quatro, desde a infância das filhas até morrer.

Minha avó era muito crítica e tinha seus favoritos, mas era afetuosa. Quando éramos pequenos, quem levantava cedo em Beechwood podia ir até Clairmont acordá-la. Ela sempre tinha massa de muffin na geladeira, que colocava em forminhas, então deixava os netos comerem quantos quisessem antes de o resto da ilha acordar. Vovó Tipper nos levava para colher frutas silvestres e nos ajudava a fazer torta ou uma coisa que chamava de bolo invertido para comermos à noite.

Um de seus projetos era uma festa beneficente todos os anos para o Instituto Agrícola de Martha’s Vineyard. Todos comparecíamos. Era ao ar livre, em belas tendas brancas. Os pequenos corriam com roupa de festa e pés descalços. Johnny, Mirren, Gat e eu roubávamos taças de vinho e ficávamos tontos e bobos. Minha avó dançava com Johnny, depois com meu pai, depois com vovô, segurando a saia com uma das mãos. Eu tinha uma foto da minha avó em uma dessas festas beneficentes. Ela usava um vestido de festa e segurava um leitão.

No verão dos quinze em Beechwood, vovó Tipper tinha partido. Clairmont parecia vazia.

A casa é cinza, em estilo vitoriano e tem três andares. Há uma pequena torre e uma varanda cercada. Dentro, é repleta de cartuns originais da New Yorker, fotos de família, almofadas bordadas, estatuetas, pesos de papel de marfim, peixes empalhados em quadros. Em todos os lugares, todos, há belos objetos colecionados por Tipper e meu avô. No gramado há uma enorme mesa, grande o bastante para acomodar dezesseis pessoas, e, a certa distância, um balanço de pneu pendurado nos galhos de uma gigantesca acerácea.

Vovó costumava tumultuar a cozinha e planejar passeios. Fazia colchas em sua sala de artesanato, e o zumbido da máquina de costura podia ser ouvido do andar de baixo. Dava ordens para o caseiro usando luvas de jardinagem e jeans.

Agora a casa estava em silêncio. Nenhum livro de receita aberto sobre a bancada, nenhuma música clássica no aparelho de som da cozinha. Mas o sabonete preferido dela ainda estava em todas as saboneteiras. Eram suas plantas que cresciam no jardim. Suas colheres de pau, seus guardanapos de pano.

Um dia, quando não havia ninguém por perto, fui até a sala de artesanato nos fundos do térreo. Toquei a coleção de tecidos da minha avó, os botões brilhantes, as linhas coloridas.

Minha cabeça e meus ombros derreteram primeiro, seguidos pelo quadril e pelos joelhos. Logo me transformei em uma poça, infiltrando-me nas lindas estampas do algodão. Ensopei a colcha que ela nunca terminou, enferrujei as peças de metal de sua máquina de costura. Eu era puro líquido naquele momento, durante uma ou duas horas. Minha avó. Minha avó. Perdida para sempre, embora eu pudesse sentir seu perfume Chanel nos tecidos.

Minha mãe me encontrou.

Ela me fez agir como uma pessoa normal. Porque eu era. Porque eu podia. Ela me disse para respirar fundo e me endireitar.

E eu fiz o que ela mandou. De novo.

Minha mãe estava preocupada com meu avô. Ele ficava perdido sem minha avó, segurando-se em cadeiras e mesas para manter o equilíbrio. Era o chefe da família, e ela não queria que ele se desestabilizasse. Queria que soubesse que suas filhas e seus netos ainda estavam por perto, fortes e alegres como sempre. Era importante, ela disse; era gentil; era melhor. Não cause transtorno, ela disse. Não faça as pessoas se lembrarem da perda.

— Você entende, Cady? O silêncio é uma camada protetora sobre a dor.

Eu entendi e consegui apagar vovó Tipper das conversas do mesmo modo que havia apagado meu pai. Não com satisfação, mas por completo. Nas refeições com minhas tias, no barco com meu avô, até mesmo sozinha com minha mãe, eu me comportava como se essas duas pessoas críticas nunca tivessem existido. Os outros Sinclair faziam o mesmo. Quando estávamos todos juntos, mantinham um sorriso largo no rosto. Havíamos feito o mesmo quando Bess deixara tio Brody, o mesmo quando tio William deixara Carrie, o mesmo quando o cão da minha avó, Peppermill, morreu de câncer.

Mas Gat nunca entendeu isso. Ele mencionava meu pai várias vezes, na verdade. Meu pai considerava Gat um bom adversário de xadrez e uma audiência sempre disposta a ouvir seus relatos chatos sobre história militar, então os dois passavam algum tempo juntos. “Lembra quando seu pai pegou aquele caranguejo grande?”, Gat dizia. Ou, para minha mãe: “Ano passado, Sam me falou que tinha um kit de pesca com mosca no ancoradouro. Você sabe onde está?”.

A conversa durante o jantar era interrompida bruscamente quando ele mencionava minha avó. Uma vez, Gat disse: “Sinto falta de quando ela ficava na ponta da mesa e servia a sobremesa, vocês não sentem? Era tão típico dela”. Johnny teve que ficar falando alto sobre Wimbledon até o desalento desaparecer de nosso rosto.

Sempre que Gat dizia essas coisas, de modo tão casual e verdadeiro, tão distraído, minhas veias se abriam. Meu pulso se abria. Eu sangrava pela palma das mãos. Ficava com tontura. Saía cambaleando da mesa ou desmoronava em uma agonia silenciosa e constrangedora, esperando que ninguém da família notasse. Principalmente minha mãe.

Mas Gat quase sempre percebia. Quando o sangue pingava em meus pés descalços ou escorria sobre o livro que estava lendo, ele era gentil. Envolvia meus pulsos em gaze branca e macia e me fazia perguntas sobre o que tinha acontecido. Perguntava sobre meu pai e sobre minha avó — como se falar sobre uma coisa fizesse melhorar. Como se feridas precisassem de atenção.

Ele era um estranho em nossa família, mesmo depois de todos aqueles anos.

 

QUANDO EU NÃO ESTAVA SANGRANDO, e quando Mirren e Johnny estavam mergulhando ou discutindo com os pequenos, ou quando todos estavam no sofá assistindo a filmes na TV de tela plana de Clairmont, Gat e eu nos escondíamos. Sentávamos no balanço de pneu à meia-noite, braços e pernas enrolados, lábios quentes junto à pele na noite fria. Nas manhãs, nos esgueirávamos, rindo, para o porão de Clairmont, com garrafas de vinho e enciclopédias. Lá, nos beijávamos e nos maravilhávamos com a existência um do outro, nos sentindo misteriosos e felizes. Às vezes ele me escrevia bilhetes e deixava com presentinhos sob meu travesseiro.

 

Alguém escreveu uma vez que um romance devia apresentar

uma série de pequenas surpresas. É a mesma coisa quando

passo uma hora com você.

E aqui está uma escova de dentes verde com um laço

amarrado.

Ela expressa meus sentimentos de maneira inadequada.

 

Foi melhor do que chocolate ficar com você ontem à noite.

Como sou bobo! Achei que nada fosse melhor do que

chocolate.

Em um gesto profundamente simbólico, te dou essa barra de

Vosges que comprei quando fomos para Edgartown. Pode

comer ou simplesmente sentar ao lado dela e se sentir

superior.

Eu não respondia com bilhetes, mas fazia desenhos bobos de nós dois com giz de cera. Bonequinhos acenando em frente ao Coliseu, à Torre Eiffel, no alto de uma montanha, nas costas de um dragão. Ele colava tudo sobre a cama.

Gat tocava em mim sempre que podia. Por baixo da mesa, durante o jantar; na cozinha, quando estava vazia; secretamente, de forma hilária, por trás das costas do meu avô enquanto ele conduzia o barco. Eu não sentia barreira entre nós. Contanto que não tivesse ninguém olhando, passava os dedos ao longo das maçãs do rosto dele, em suas costas. Pegava sua mão, pressionava o polegar junto a seu pulso e sentia o sangue correndo pelas veias.

12

UMA NOITE, no final de julho do verão dos quinze, fui nadar na praia pequena. Sozinha.

Onde estavam Gat, Johnny e Mirren?

Não sei ao certo.

Andávamos jogando muito Scrabble em Red Gate. Eles deviam estar por lá. Ou em Clairmont, escutando as tias discutirem e comendo geleia de ameixa com biscoito.

De qualquer modo, entrei na água usando uma regata, sutiã e calcinha. Aparentemente, caminhei até a praia vestindo apenas isso. Nunca encontramos nenhuma roupa minha na areia. Nem toalha.

Por quê?

De novo, não sei ao certo.

Devo ter nadado para longe. Havia pedras grandes distantes da praia, ásperas e escuras; elas sempre parecem horríveis na escuridão da noite. Eu devia estar com o rosto dentro d’água e bati a cabeça em uma dessas pedras.

Como eu disse, não sei ao certo.

Só me lembro de uma coisa: afundei nesse mar,

até o fundo muito rochoso, e

pude ver a base da ilha, e

meus braços e pernas ficaram dormentes, mas meus dedos estavam frios. Tiras de algas marinhas passavam enquanto eu afundava.

Minha mãe me encontrou na areia, encolhida como uma bola, com metade do corpo ainda na água. Eu tremia descontroladamente. Os adultos me enrolaram em cobertores. Tentaram me aquecer em Cuddledown. Me deram chá e roupas, mas, quando viram que eu não falava nem parava de tremer, me levaram para um hospital em Martha’s Vineyard, onde fiquei durante vários dias enquanto os médicos faziam exames. Hipotermia, problemas respiratórios e provavelmente algum tipo de ferimento na cabeça, embora a tomografia não mostrasse nada.

Minha mãe ficou do meu lado, reservou um quarto de hotel. Eu me lembro do rosto triste de tia Carrie, tia Bess e meu avô. Eu me lembro de sentir os pulmões cheios de alguma coisa, bem depois de os médicos dizerem que estavam limpos. Eu me lembro de achar que nunca mais ficaria aquecida, mesmo quando me diziam que a temperatura do meu corpo estava normal. Minhas mãos doíam. Meus pés doíam.

Minha mãe me levou para casa, em Vermont, para eu me recuperar. Eu ficava deitada no escuro e sentia uma pena desesperadora de mim mesma. Porque estava doente, e mais ainda porque Gat nunca ligou.

Ele também não escreveu.

Não estávamos apaixonados?

Não estávamos?

Escrevi para Johnny, dois ou três e-mails apaixonados e ridículos pedindo para ele descobrir o que havia acontecido com Gat.

Johnny teve o bom senso de ignorá-los. Somos Sinclair, afinal, e os Sinclair não se comportam como eu estava me comportando.

Parei de escrever e apaguei todos os e-mails da pasta “Enviados”. Eram tolos.

O que importa é que Gat deu o fora quando me machuquei.

O que importa é que não passou de uma paixonite de verão.

O que importa é que ele devia amar Raquel.

Morávamos muito longe, de qualquer modo.

Nunca recebi uma explicação.

Só sei que ele me deixou.

13

BEM-VINDO AO MEU CRÂNIO.

Um caminhão passa por cima dos ossos do meu pescoço e da minha cabeça. As vértebras se rompem, o cérebro estala e vaza. Milhares de lanternas piscam em meus olhos. O mundo se inclina.

Eu vomito. Perco os sentidos.

Isso acontece o tempo todo. Não passa de um dia comum.

A dor começou seis semanas depois do acidente. Ninguém tinha certeza se as duas coisas estavam relacionadas, mas não havia como negar o vômito, a perda de peso e o horror em geral.

Minha mãe me levou para fazer ressonâncias magnéticas e tomografias. Agulhas, máquinas. Mais agulhas, mais máquinas. Fizeram exames procurando um tumor no cérebro, meningite. Tudo. Para aliviar a dor, receitaram esse medicamento e aquele medicamento e aquele outro medicamento, porque o primeiro não funcionou e o segundo tampouco. Passaram uma receita atrás da outra sem saber o que havia de errado. Apenas tentando domar a dor.

Cadence, disseram os médicos, não exagere.

Cadence, disseram os médicos, observe sinais de dependência.

Mas também: Cadence, não se esqueça de tomar os remédios.

Eram tantas consultas que nem consigo lembrar. Depois de um tempo, os médicos chegaram a um diagnóstico. Cadence Sinclair Eastman: cefaleia pós-traumática, também conhecida como CPT. Enxaquecas causadas por lesão cerebral.

Eu vou ficar bem, dizem.

Não vou morrer.

Só vai doer muito.

14

APÓS UM ANO NO COLORADO, meu pai quis me ver novamente. Na verdade, ele insistiu em me levar para Itália, França, Alemanha, Espanha e Escócia — uma viagem de dez semanas em meados de junho, o que significava que eu não iria a Beechwood no verão dos dezesseis.

— Essa viagem veio na hora certa — disse minha mãe, radiante, enquanto arrumava minha mala.

— Por quê? — Eu fico deitada no chão do quarto enquanto ela faz o trabalho. Minha cabeça dói.

— Seu avô está reformando Clairmont. — Ela fez bolas com as meias. — Já falei um milhão de vezes.

Eu não lembrava.

— Por quê?

— Coisas da cabeça dele. Vai passar o verão em Windemere.

— Você vai com ele?

Minha mãe fez que sim com a cabeça.

— Ele não pode ficar com Bess nem com Carrie. E você sabe que precisa de cuidados. Seja como for, você vai aprender muita coisa na Europa.

— Prefiro ir para Beechwood.

— Não, não prefere — ela disse, firme.

 

NA EUROPA, vomitei em pequenos baldes e escovei os dentes repetidamente com a pasta de dente britânica de consistência áspera. Deitei de bruços no chão do banheiro de vários museus, sentindo o piso frio sob o rosto enquanto meu cérebro se liquefazia e saía pelo ouvido, borbulhando. Enxaquecas espalhavam meu sangue sobre os estranhos lençóis de hotel, no chão, nos carpetes, em sobras de croissants e florentinas.

Eu podia ouvir meu pai me chamando, mas nunca respondia antes de o remédio fazer efeito.

Senti falta dos Mentirosos naquele verão.

Nunca mantínhamos contato durante o ano. Não muito, pelo menos, embora tivéssemos tentado quando éramos mais novos. Trocávamos mensagens, marcávamos uns aos outros em fotos do verão, principalmente em setembro, mas sempre íamos nos afastando depois de um ou dois meses. De certo modo, a magia de Beechwood nunca foi transportada para nosso cotidiano. Não queríamos saber dos amigos da escola, clubes e times uns dos outros. Sabíamos que nossa afeição seria renovada quando nos víssemos no cais no mês de junho do ano seguinte, o ar salgado, o sol refletindo na água.

Mas no ano posterior ao acidente, perdi dias e até semanas de aula. Fui mal em várias matérias e o diretor me informou que eu teria de repetir o terceiro ano. Parei de jogar futebol e tênis. Não podia trabalhar como babá. Não podia dirigir. Os amigos que tinha acabaram virando apenas conhecidos.

Mandei algumas mensagens de texto para Mirren. Liguei e deixei recados dos quais depois senti vergonha, tamanho o teor solitário e carente.

Liguei para Johnny também, mas sua caixa de mensagens estava lotada.

Resolvi não ligar mais. Não queria ficar dizendo coisas que fizessem me sentir fraca.

Quando meu pai me levou para a Europa, eu sabia que os Mentirosos estavam na ilha. Meu avô não tinha instalado internet em Beechwood e não havia sinal de celular por lá, mas comecei a escrever e-mails. Diferente das minhas lastimáveis mensagens de voz, esses eram recados charmosos e encantadores de uma pessoa sem dores de cabeça.

Na maior parte do tempo.

Mirren!

Mando um oi de Barcelona, onde meu pai comeu sopa de caracol. No hotel, tudo é dourado. Até os saleiros. É gloriosamente odioso. Escreva contando as malcriações dos pequenos, em quais faculdades você vai se inscrever e se encontrou o amor

verdadeiro.

Cadence

Johnny!

Bonjour de Paris, onde meu pai comeu rã.

Vi a Vitória de Samotrácia. Corpo extraordinário. Sem braços. Estou com saudade de vocês. Como está Gat?

Cadence

Mirren!

Olá de um castelo na Escócia, onde meu pai comeu haggis. Ou seja, meu pai comeu coração, fígado e pulmões de

carneiro misturados com aveia e cozidos em um estômago.

Você sabe, ele é o tipo de pessoa que devora corações.

Cadence

Johnny!

Estou em Berlim, onde meu pai comeu morcela.

Mergulhe por mim. Coma torta de mirtilo. Jogue tênis. Acenda uma fogueira. Depois me conte. Estou extremamente

entediada e inventarei castigos criativos se você não colaborar.

Cadence

 

NÃO FIQUEI TOTALMENTE SURPRESA quando eles não responderam. Além do fato de que, para acessar a internet, precisariam ir até Martha’s Vineyard, Beechwood é praticamente um mundo à parte. Uma vez lá, o resto do universo parece um sonho desagradável.

A Europa talvez nem existisse.

15

BEM-VINDO, MAIS UMA VEZ, à bela família Sinclair.

Acreditamos em exercícios ao ar livre. Acreditamos que o tempo cura.

Acreditamos, embora não digamos de maneira tão explícita, em remédios controlados e drinques antes do jantar.

Não discutimos nossos problemas em restaurantes. Não acreditamos em demonstrações públicas de angústia. Nosso lábio superior é rígido e é possível que as pessoas fiquem curiosas a nosso respeito porque não abrimos nosso coração.

É possível que apreciemos o modo como as pessoas ficam curiosas a nosso respeito.

Aqui em Burlington agora somos só eu, minha mãe e os cães. Não temos o peso do meu avô em Boston nem o impacto de toda a família em Beechwood, mas ainda assim sei como as pessoas nos veem. Minha mãe e eu somos praticamente iguais, na casa grande com varanda no alto da colina. A mãe esbelta e a filha doente. Temos maçãs do rosto protuberantes, ombros largos. Sorrimos e mostramos os dentes quando vamos à cidade.

A filha doente não fala muito. As pessoas que a conhecem da escola tendem a se manter afastadas. Não a conheciam direito antes de ficar doente mesmo. Ela já era quieta.

Agora, falta à escola na metade do tempo. Quando está lá, sua pele pálida e os olhos úmidos tornam seu visual encantadoramente trágico, como uma heroína da literatura definhando com tuberculose. Às vezes ela cai na escola, chorando. Assusta os outros alunos. Mesmo os mais gentis já estão cansados de levá-la até a enfermaria.

Ainda assim, tem uma aura de mistério que a impede de ser importunada ou escolhida como alvo de brincadeiras desagradáveis típicas do colégio. Sua mãe é uma Sinclair.

Naturalmente, não sinto meu próprio mistério ao comer uma lata de sopa tarde da noite ou ao ficar deitada sob a luz fluorescente da enfermaria da escola. Não é nada glamoroso como eu e minha mãe brigamos desde que meu pai se foi.

Eu acordo e a encontro parada na porta do meu quarto, observando.

— Não fique me olhando.

— Eu te amo. Estou cuidando de você — ela diz com a mão no coração.

— Bem, pare com isso.

Se eu pudesse fechar a porta na cara dela, faria isso. Mas não consigo levantar.

Com frequência, encontro anotações que parecem registrar os alimentos que ingeri em determinado dia: meia torrada com geleia; maçã e pipoca; salada com passas; chocolate; macarrão. Hidratação? Proteína? Muito refrigerante.

Não é glamoroso não poder dirigir. Não é misterioso ficar em casa em pleno sábado à noite, lendo um romance com um amontoado de cachorros. No entanto, não estou imune à sensação de ser vista como um mistério, como uma Sinclair, como parte de um clã privilegiado de pessoas especiais, e como parte de uma narrativa mágica, importante, apenas por fazer parte desse clã.

Minha mãe também não está imune a isso.

Foi para isso que fomos criadas.

Sinclair. Sinclair.