Mentirosos

E. Lockhart · Capítulo 4 de 5

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Mentirosos

Parte quatro

Olhe, fogo

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OLHE.

Fogo.

Lá na ponta sul da ilha Beechwood. Onde fica a acerácea, sobre o amplo gramado.

A casa está queimando. As chamas sobem alto, iluminando o céu.

Não tem ninguém aqui para ajudar.

Ao longe, posso ver os fogos de artifício de Vineyard, atravessando a baía em um barco iluminado.

Ainda mais ao longe, o barco dos bombeiros de Woods Hole move-se ruidosamente na direção do fogo que iniciamos.

Gat, Johnny, Mirren e eu.

Iniciamos esse incêndio e ele está consumindo Clairmont.

Queimando o palácio, o palácio do rei que tinha três lindas filhas.

Nós ateamos fogo.

Eu, Johnny, Gat e Mirren.

Eu me lembro disso agora,

em uma onda que me atinge com tanta força que eu caio,

e afundo,

até o fundo muito rochoso, e

posso ver a base da ilha, e

meus braços e pernas ficam dormentes, mas meus dedos estão frios. Tiras de algas marinhas passam enquanto eu afundo.

E logo estou na superfície novamente, respirando.

E Clairmont está pegando fogo.

 

ESTOU NA MINHA CAMA em Windemere. Está amanhecendo.

É o primeiro dia da minha última semana na ilha. Vou cambaleando até a janela, enrolada no cobertor.

Lá está a nova Clairmont. Com toda a sua modernidade e o jardim japonês.

Eu a vejo como é agora. Uma casa construída sobre cinzas. Cinzas da vida que meu avô compartilhou com minha avó, cinzas da acerácea onde voava o balanço de pneu, cinzas da antiga casa vitoriana com varanda e rede. A nova casa está construída sobre o túmulo de todos os troféus e símbolos da família: os cartuns da New Yorker, os animais empalhados, as almofadas bordadas, os retratos de família.

Nós queimamos tudo.

Em uma noite em que meu avô e os outros tinham saído de barco pela baía,

em que os empregados estavam de folga,

e nós, os Mentirosos, estávamos sozinhos na ilha,

fizemos aquilo que temíamos.

Queimamos não só uma casa, mas um símbolo.

Reduzimos um símbolo a cinzas.

59

A PORTA DE CUDDLEDOWN está trancada. Bato até Johnny aparecer, usando as mesmas roupas da noite anterior.

— Estou fazendo chá arrogante — ele diz.

— Você dormiu de roupa?

— Sim.

— Nós iniciamos um incêndio — digo a ele, ainda parada na porta.

Eles não vão mais mentir. Ir a lugares sem mim, tomar decisões sem mim.

Entendo nossa história agora. Somos criminosos. Um bando de quatro.

Johnny olha nos meus olhos por um bom tempo, mas não diz uma palavra. Por fim, ele se vira e vai para a cozinha. Vou atrás. Johnny coloca água quente da chaleira nas xícaras.

— Do que mais se lembra? — ele pergunta.

Eu hesito.

Posso ver o fogo. A fumaça. Como Clairmont parecia enorme enquanto queimava.

Eu sei, de maneira certa e irrevogável, que ateamos fogo na casa.

Posso ver a mão de Mirren, seu esmalte dourado descascado, segurando um galão de gasolina para os barcos.

Os pés de Johnny correndo pelas escadas de Clairmont até o ancoradouro.

Meu avô, segurando-se em uma árvore, o rosto iluminado pelo brilho de uma fogueira.

Não. Corrigindo.

Pelo brilho de sua casa sendo consumida pelo fogo.

Essas são lembranças que tive o tempo todo. Apenas sei onde encaixá-las agora.

— Não me lembro de tudo — digo a Johnny. — Só sei que iniciamos o incêndio. Posso ver as chamas.

Ele se deita no chão da cozinha e estica os braços sobre a cabeça.

— Você está bem? — pergunto.

— Estou cansado pra caralho, se quer saber. — Johnny se vira com o rosto para baixo e encosta o nariz no ladrilho. — Elas disseram que não se falariam mais — ele murmura junto ao chão. — Disseram que estava tudo acabado e que iam se desligar umas das outras.

— Quem?

— As tias.

Eu me deito no chão ao lado dele para poder ouvir o que está dizendo.

— As tias se embebedavam, toda noite — Johnny murmura, como se fosse difícil expelir as palavras. — E ficavam cada vez mais bravas. Gritando umas com as outras. Cambaleando sobre o gramado. Vovô não fazia nada além de dar corda. Nós as víamos brigando pelas coisas da vovó e os objetos de arte de Clairmont, mas propriedades e dinheiro acima de tudo. Vovô estava embriagado com seu próprio poder e minha mãe queria me fazer brigar pelo dinheiro. Porque eu era o menino mais velho. Ela me pressionou, me pressionou… eu não sei. A ser o jovem e brilhante herdeiro. A falar mal de você como a mais velha. A ser a esperança branca e educada do futuro da democracia, um monte de bobagem. Ela tinha perdido o favoritismo do vovô e queria que eu o ganhasse para não perder sua herança.

Conforme ele fala, lembranças piscam em meu crânio, com tanta força e clareza que machucam. Eu me encolho e coloco as mãos sobre os olhos.

— Lembra mais alguma coisa do incêndio? — ele pergunta com calma. — As lembranças estão voltando?

Fecho os olhos por um instante e tento.

— Não, isso não. Mas outras coisas.

Johnny estende o braço e pega minha mão.

60

NA PRIMAVERA ANTERIOR AO VERÃO DOS QUINZE, minha mãe me fez escrever para meu avô. Nada ostensivo. “Estou pensando no senhor e em sua perda. Espero que esteja bem.”

Mando cartões de verdade, de uma cartolina grossa de cor creme com CADENCE SINCLAIR EASTMAN impresso no alto. Querido vovô, acabei de participar de uma jornada de cinco quilômetros de bicicleta pela pesquisa do câncer. A equipe de tênis começa semana que vem. Nosso clube do livro está lendo Memórias de Brideshead. Te amo.

— Lembre seu avô de que você se importa — disse minha mãe. — E de que você é uma boa pessoa. Madura, alguém que acrescenta algo à família.

Eu reclamei. Escrever parecia falsidade. É claro que eu me importava. Amava meu avô e pensava nele. Mas não queria escrever lembretes da minha excelência a cada duas semanas.

— Ele anda muito impressionável — disse minha mãe. — Está sofrendo. Pensando no futuro. Você é a primeira neta.

— Johnny é só três semanas mais novo.

— É disso que estou falando. Johnny é menino e apenas três semanas mais novo. Então escreva a carta.

Fiz o que ela pediu.

 

NO VERÃO DOS QUINZE em Beechwood, as tias assumiram o papel da minha avó, fazendo bolos invertidos e ficando em cima do meu avô como se ele não estivesse vivendo sozinho em Boston desde que Tipper morrera, em outubro. Mas não paravam de discutir. Não tinham mais a cola da minha avó mantendo-as juntas, e brigavam pelas lembranças, pelas joias, pelas roupas no armário, até mesmo pelos sapatos. Essas questões não haviam sido resolvidas em outubro. Todos ainda estavam muito sensíveis. Tudo havia sido deixado para o verão. Quando chegamos em Beechwood, no fim de junho, Bess já havia feito o inventário dos bens da minha avó em Boston e estava começando a listar os de Clairmont. Todas tinham uma cópia no tablet e a verificavam regularmente.

— Sempre amei aquele enfeite de Natal de jade.

— Fico surpresa por você se lembrar dele, já que nunca ajudou na decoração.

— Quem você acha que desmontava a árvore? E embalava todos os enfeites em papel de seda?

— Ah, que sofredora.

— Aqui estão os brincos de pérola que mamãe prometeu para mim.

— As pérolas negras? Ela disse que eu podia ficar com elas.

As tias começaram a arrumar confusão conforme o verão ia passando. Uma briga atrás da outra. Feridas antigas eram retomadas e encadeadas a novas.

Variações.

— Diga ao seu avô que adora as toalhas de mesa bordadas — minha mãe me disse.

— Mas eu não adoro.

— Ele não diria não a você.

Nós duas estávamos sozinhas na cozinha de Windemere. Ela estava bêbada.

— Você me ama, não é, Cadence? Você é tudo o que tenho agora. Não é como seu pai.

— Só não ligo para toalhas de mesa.

— Então minta. Fale com ele sobre as toalhas da casa de Boston. Aquelas creme com bordados.

Era mais fácil dizer a ela que eu faria.

E, depois, dizer que eu tinha feito.

Mas Bess tinha pedido para Mirren fazer a mesma coisa,

e nenhuma de nós duas

implorou ao vovô

pela porra das toalhas de mesa.

61

GAT E EU FOMOS NADAR à noite. Deitamos na passagem de madeira e ficamos olhando as estrelas. Nos beijamos no sótão.

Nos apaixonamos.

Ele me deu um livro. Com tudo, tudo.

Não falamos sobre Raquel. Eu não podia perguntar. Ele não contou.

As gêmeas fazem aniversário em catorze de julho, e sempre há uma refeição farta. Nós doze estávamos sentados à longa mesa no gramado de Clairmont. Lagostas e batatas com caviar. Panelinhas com manteiga derretida. Legumes em miniatura com manjericão. Dois bolos, um de baunilha e um de chocolate, aguardavam dentro de casa, sobre a bancada da cozinha.

Os pequenos faziam barulho com as lagostas, cutucando uns aos outros com as garras e sugando a carne das patas. Johnny contava histórias. Mirren e eu ríamos. Ficamos surpresos quando meu avô se aproximou e se enfiou entre mim e Gat.

— Quero pedir o conselho de vocês a respeito de uma coisa — ele disse. — O conselho dos jovens.

— Somos jovens cosmopolitas e incríveis — disse Johnny. — Então veio à ponta certa da mesa.

— Sabem — disse meu avô —, eu estou ficando velho, apesar da minha boa aparência.

— Ah, tá — eu disse.

— Thatcher e eu estamos analisando meus negócios. Estou pensando em deixar uma boa porção dos meus bens para minha alma mater.

— Para Harvard? Para quê, pai? — perguntou minha mãe, que havia se aproximado e estava atrás de Mirren.

Meu avô sorriu.

— Provavelmente para fundar um centro acadêmico. Eles colocariam meu nome nele, bem na frente. — Meu avô cutucou Gat. — Como deveria chamar, meu jovem? O que você acha?

— Centro Harris Sinclair? — Gat arriscou.

— Pff. — Meu avô sacudiu a cabeça. — Podemos pensar em algo melhor. Johnny?

— Centro Sinclair de Socialização — Johnny disse, enfiando abobrinha na boca.

— E petiscos — acrescentou Mirren. — Centro Sinclair de Socialização e Petiscos.

Meu avô bateu na mesa.

— Gosto do nome. Não é educativo, mas todo mundo vai gostar. Estou convencido. Vou ligar para Thatcher amanhã. Meu nome estará no prédio preferido dos alunos.

— Você vai ter que morrer antes de construírem o prédio — eu disse.

— É verdade. Mas você não vai ficar orgulhosa de ver meu nome lá quando estiver na faculdade?

— Você não vai morrer antes de irmos para a faculdade — disse Mirren. Não vamos deixar.

— Ah, se vocês insistem… — Meu avô espetou um pedaço de lagosta do prato dela e comeu.

Fomos envolvidos facilmente, Mirren, Johnny e eu — sentindo o poder que ele nos conferiu ao nos descrever em Harvard, a distinção de pedir nossa opinião e rir de nossas piadas. Era assim que meu avô sempre nos tratava.

— Você não está sendo engraçado, pai — minha mãe retrucou. — Arrastando as crianças para esse assunto.

— Não somos crianças — eu disse a ela. — Entendemos a conversa.

— Não, não entendem — ela disse —, ou não embarcariam no papo dele.

Uma sensação de frio percorreu a mesa. Até os pequenos ficaram quietos.

Carrie vivia com Ed. Os dois compravam obras de arte que podiam ou não se tornar valiosas. Johnny e Will estudavam em escola particular. Carrie havia aberto uma loja de bijuterias com o dinheiro de seu fundo e a administrado por alguns anos, até a falência. Ed trabalhava e a sustentava, mas Carrie não tinha renda própria. E eles não eram casados. Ele era dono do apartamento em que moravam, não ela.

Bess estava criando quatro filhos sozinha. Ela tinha algum dinheiro de seu fundo, assim como minha mãe e Carrie, mas quando se divorciou Brody ficou com a casa. Ela nunca trabalhou depois que se casou, e antes disso só havia sido assistente na redação de uma revista. Bess estava vivendo do dinheiro de seu fundo e acabando com ele.

E minha mãe. Criação de cães não dá muito dinheiro, e meu pai queria que vendêssemos a casa de Burlington para ele ficar com metade do dinheiro. Eu sabia que minha mãe estava vivendo do fundo dela.

Nós.

Nós estávamos vivendo do fundo dela.

Não duraria para sempre.

Então, quando meu avô disse que podia deixar seu dinheiro para Harvard construir um centro acadêmico e pediu nossa opinião, não estava envolvendo a família em seus planos financeiros.

Estava fazendo uma ameaça.

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ALGUMAS NOITES DEPOIS. Drinques em Clairmont. Começou às seis ou seis e meia, na hora em que as pessoas subiram a colina até a casa. A cozinheira estava preparando o jantar e tinha feito mousse de salmão com bolachinhas salgadas. Passei por ela e tirei uma garrafa de vinho branco da geladeira para as tias.

Os pequenos, depois de terem passado a tarde toda na praia maior, estavam sendo obrigados a tomar banho e trocar de roupa por Gat, Johnny e Mirren em Red Gate, onde havia um chuveiro externo. Minha mãe, Bess e Carrie estavam sentadas em volta da mesa de centro de Clairmont.

Levei taças de vinho para as tias e meu avô entrou.

— E então, Penny — ele disse, servindo-se de uísque do decânter sobre o aparador. — Como você e Cady estão em Windemere este ano, nas novas circunstâncias? Bess se preocupa que estejam solitárias.

— Eu não falei isso — disse Bess.

Carrie apertou os olhos.

— Sim, falou — meu avô disse a Bess. Ele fez um sinal para eu sentar. — Você falou dos cinco quartos, da cozinha reformada e de como Penny está sozinha agora e não precisa de nada disso.

— Você disse isso, Bess? — Minha mãe respirou fundo.

Bess não respondeu. Ela mordeu o lábio e ficou olhando para a paisagem.

— Não estamos solitárias — minha mãe disse ao meu avô. — Adoramos Windemere, não é, Cady?

Meu avô sorriu para mim.

— Você está bem lá, Cadence?

Eu sabia o que devia dizer:

— Estou mais do que bem lá, estou ótima. Adoro Windemere, porque você construiu aquela casa especialmente para minha mãe. Quero criar meus filhos lá, e que meus filhos criem os deles. Você é demais, vovô. É o patriarca, e eu venero o senhor. Estou tão feliz por ser uma Sinclair. Essa é a melhor família dos Estados Unidos.

Não com essas palavras. Mas eu devia ajudar minha mãe a ficar com a casa dizendo para meu avô que ele era o maioral, que era a causa de toda a nossa felicidade, e lembrar que eu era o futuro da família. Nós, os Sinclair cem por cento americanos, nos perpetuaríamos, altos e brancos e belos e ricos, se ele me deixasse ficar com minha mãe em Windemere.

Eu devia fazer meu avô se sentir no controle quando seu mundo estava mudando devido à morte da minha avó. Devia implorar através de elogios, nunca reconhecendo a agressão por trás de sua pergunta.

Minha mãe e suas irmãs eram dependentes de meu avô e seu dinheiro. Tiveram a melhor educação, inúmeras oportunidades, milhares de conexões, e ainda assim acabaram incapazes de se sustentar. Nenhuma delas fez nada útil no mundo. Nada necessário. Nada corajoso. Ainda eram garotinhas tentando cair nas graças do papai. Ele era o pão e a manteiga delas, o leite e o mel também.

— É grande demais para nós — eu disse ao meu avô.

Ninguém disse nada enquanto eu saía da sala.

63

MINHA MÃE E EU ficamos em silêncio durante a caminhada de volta a Windemere depois do jantar. Assim que entramos e fechamos a porta, ela se virou para mim.

— Por que não me ajudou com seu avô? Quer que a gente perca a casa?

— Não precisamos dela.

— Eu escolhi a tinta, os azulejos. Pendurei a bandeira na varanda.

— Temos cinco quartos.

— Achamos que teríamos uma família maior. — Minha mãe franziu o rosto. — Mas não deu certo. Isso não quer dizer que a gente não mereça a casa.

— Mirren e os outros podiam aproveitar o espaço.

— Esta é a minha casa. Não pode esperar que eu abra mão dela porque Bess tem um monte de filhos e deixou o marido. Não pode achar certo ela roubar a casa de mim. Esse lugar é nosso, Cadence. Temos que proteger nossas coisas.

— Está ouvindo o que está dizendo? — retruquei. — Você tem um fundo de investimento!

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Tem gente que não tem nada. Nós temos tudo. A única pessoa que usava o dinheiro da família para caridade era a vovó. Agora ela se foi e todo mundo só está preocupado com as pérolas dela, os enfeites, a herança. Ninguém está tentando usar o dinheiro para algo bom. Ninguém está tentando melhorar o mundo.

Minha mãe se levantou.

— Você se acha muito superior, não é? Acha que entende o mundo melhor do que eu. Ouvi Gat falando. Vi você devorando as palavras dele como se fosse sorvete. Só que você nunca pagou contas, nunca teve uma família, nunca foi dona de uma propriedade, nunca viu o mundo. Você não tem ideia do que está falando, e ainda assim não faz nada além de julgar.

— Você está destruindo esta família porque acha que merece a casa mais bonita.

Minha mãe caminhou até a base das escadas.

— Você vai voltar a Clairmont amanhã. Vai dizer ao seu avô que ama Windemere. Dizer a ele o quanto ama Windemere. Dizer a ele que quer que seus filhos passem o verão aqui. Você vai dizer isso a ele.

— Não. Você devia enfrentar vovô. Pedir para ele parar de manipular vocês. Ele só está agindo assim porque está triste com a perda da vovó, você não percebe? Não pode ajudar? Ou arrumar um emprego e não se importar com o dinheiro dele? Ou dar a casa para Bess?

— Escute uma coisa, mocinha. — A voz da minha mãe era grave. — Você vai falar com seu avô sobre Windemere ou eu te mando passar o resto do verão com seu pai no Colorado. Faço isso amanhã. Juro que te levo para o aeroporto logo cedo. Você não vai mais ver aquele seu namorado. Está entendendo?

Ela me ganhou ali.

Sabia sobre mim e Gat. E podia afastá-lo.

Ia afastá-lo.

Eu estava apaixonada.

Prometi tudo o que ela pediu.

Quando disse ao meu avô que adorava a casa, ele sorriu e disse que sabia que um dia eu teria lindos filhos. Depois disse que Bess era gananciosa e ele não tinha a mínima intenção de dar a casa para ela. Mas então Mirren me contou que ele tinha prometido Windemere para Bess.

— Eu vou cuidar de você — meu avô dissera. — Só me dê um tempinho para tirar Penny de lá.

64

GAT E EU fomos para a quadra de tênis alguns dias depois da briga com minha mãe. Jogamos bolas para Fatima e Príncipe Philip em silêncio.

Finalmente, ele disse:

— Você já percebeu que Harris nunca me chama pelo nome?

— Não.

— Ele me chama de “meu jovem”. Tipo, “Como foi o ano na escola, meu jovem?”.

— Por quê?

— Parece que, se me chamasse de Gat, estaria na verdade dizendo: “Como foi o ano na escola, garoto indiano cujo tio indiano vive em pecado com minha filha branca e pura? Garoto indiano que peguei beijando minha preciosa Cadence?”.

— Acha que é isso que ele está pensando?

— Ele não me suporta — disse Gat. — Não mesmo. Pode gostar de mim como pessoa, pode até gostar do Ed, mas não é capaz de dizer meu nome nem de olhar nos meus olhos.

Era verdade. Agora que ele tinha dito, eu percebia.

— Não estou dizendo que ele quer ser o cara que só gosta de gente branca — Gat continuou. — Ele sabe que não deve ser esse cara. Ele é democrata, votou no Obama, mas isso não quer dizer que se sinta confortável tendo pessoas de cor dentro de sua bela família. — Gat sacudiu a cabeça. — Ele é falso com a gente. Não gosta da ideia de Carrie estar com meu tio. Ele nem chama Ed de Ed. Chama de “senhor”. E faz questão de lembrar que sou um forasteiro sempre que aparece uma chance. — Gat acariciou as orelhas macias de Fatima. — Você viu como foi aquele dia no sótão. Ele quer que eu fique bem longe de você.

Eu não tinha enxergado a interrupção do meu avô dessa forma. Tinha achado que ele havia ficado constrangido ao pegar a gente se beijando.

Mas agora, de repente, entendi o que tinha acontecido.

Cuidado, meu jovem, meu avô tinha dito. Cuidado com a cabeça. Você pode se machucar.

Era outra ameaça.

— Sabia que meu tio pediu Carrie em casamento no outono? — Gat perguntou.

Fiz que não com a cabeça.

— Eles estão juntos há quase nove anos. Ele é como um pai para Johnny e Will. Ele se ajoelhou e a pediu em casamento, Cady. Eu, Johnny e Will estávamos lá, e a minha mãe. Decorou o apartamento com velas e rosas. Todos nos vestimos de branco e havia comida de um restaurante italiano que Carrie adora. Ele colocou Mozart para tocar. Johnny e eu até perguntamos o motivo de tudo aquilo. Ela mora com você, cara. Mas meu tio estava nervoso. Ele comprou um anel de diamantes. Bem, aí ela chegou e nós quatro ficamos escondidos no quarto do Will. Era para sairmos correndo e desejando felicidades. Mas Carrie disse não.

— Achei que eles não quisessem casar.

— Meu tio quer. Carrie não quer arriscar sua herança idiota — Gat disse.

— Ela ao menos perguntou ao meu avô?

— Aí é que está — disse Gat. — Todo mundo sempre consulta Harris para tudo. Por que uma mulher adulta tem que pedir aprovação do pai para se casar?

— Meu avô não a impediria.

— Não — disse Gat. — Mas, quando Carrie foi morar com Ed, Harris deixou claro que todo o dinheiro que seria destinado a ela desapareceria se casasse com ele. A questão é que Harris não gosta da cor do meu tio. Ele é um cretino racista, assim como Tipper era. Sim, eu gosto dos dois por uma série de razões, e eles sempre foram mais do que generosos me deixando vir para cá todo verão. Estou disposto até a achar que Harris nem percebe por que não gosta do meu tio, mas o fato é que não gosta o suficiente para deserdar sua filha mais velha.

Gat suspirou. Eu adorava a curva de seu queixo, o buraco em sua camiseta e os bilhetes que escrevia para mim, o modo como sua cabeça funcionava, como ele movimentava as mãos enquanto falava. Imaginava, na época, que o conhecia completamente.

Eu me aproximei e o beijei. Ainda parecia tão mágico poder fazer aquilo, e o fato de ser correspondida. Tão mágico que mostrássemos nossas fraquezas um ao outro, nossos medos e nossa fragilidade.

— Por que nunca falamos sobre isso? — sussurrei.

Gat me beijou novamente.

— Eu amo esse lugar — ele disse. — A ilha. Johnny e Mirren. As casas e o som do mar. Você.

— Eu também.

— Parte de mim não quer estragar tudo isso. Não quer nem imaginar que não seja perfeito.

Entendi como ele se sentia.

Ou achei que entendesse.

Gat e eu descemos até a costa, depois caminhamos até uma grande pedra lisa de frente para o porto. A água batia no litoral. Nós nos abraçamos, tiramos parte da roupa e esquecemos, pelo maior tempo possível, todos os detalhes horríveis da bela família Sinclair.

65

ERA UMA VEZ um mercador rico que tinha três lindas filhas. Ele as paparicava tanto que as duas meninas mais novas passavam quase o dia todo apreciando a própria beleza diante do espelho e beliscando as bochechas para deixá-las rosadas.

Um dia o mercador teve que partir em uma jornada. “O que devo trazer para vocês quando voltar?”, ele perguntou.

A filha mais nova pediu vestidos de seda e renda.

A filha do meio pediu rubis e esmeraldas.

A filha mais velha pediu apenas uma rosa.

O mercador ficou fora durante vários meses. Para a filha mais nova, encheu um baú com vestidos de todas as cores. Para a filha do meio, vasculhou os mercados em busca de joias. Mas, apenas quando já estava perto de casa, lembrou-se da promessa de levar uma rosa para a filha mais velha.

Ele encontrou uma grande cerca de ferro que se estendia ao longo da estrada. Ao longe ficava uma mansão escura, e ele ficou satisfeito ao ver uma roseira cheia de flores vermelhas. Várias delas estavam ao seu alcance.

Cortar a flor levou um minuto. O mercador estava guardando a rosa em seu alforje quando um rugido zangado o impediu.

Um sujeito coberto por um manto apareceu onde o mercador tinha certeza de que não havia ninguém um segundo antes. Ele era enorme e falava com uma voz muito grave. “Está pegando algo meu sem nenhuma intenção de pagamento?”

“Quem é você?”, o mercador perguntou, tremendo.

“Basta dizer que sou aquele de quem você roubou.”

O mercador explicou que havia prometido uma rosa à filha depois de uma longa viagem.

“Pode ficar com sua rosa roubada”, disse o sujeito, “mas, em troca, terá de me dar a primeira de suas riquezas que vir ao retornar.” Ele então tirou o capuz e revelou o rosto de uma fera horrenda, cheia de dentes, com um focinho. Um javali selvagem misturado com um chacal.

“Você me importunou uma vez”, disse a fera. “Morrerá se me importunar novamente.”

O mercador voltou para casa tão rápido quanto seu cavalo podia correr. Ainda estava a um quilômetro de distância quando viu sua filha mais velha esperando por ele na estrada. “Tivemos notícias de que chegaria hoje à noite!”, ela gritou, correndo para os braços dele.

Ela era a primeira de suas riquezas que ele viu ao retornar. Agora sabia o preço que a fera havia exigido.

E depois?

Todos sabemos que a Bela acabou amando a Fera. Ela acaba se apaixonando por ele, independentemente do que sua família pudesse achar, por seu charme, sua educação, seu conhecimento de arte e seu coração sensível.

Na verdade, ele é humano e sempre foi. Nunca foi nenhum javali ou chacal. Era apenas uma ilusão repugnante.

O problema é que é extremamente difícil convencer o pai disso.

Ele vê as presas e o focinho, ouve o terrível rugido, sempre que a Bela leva seu novo marido para visitá-lo. Não importa o quanto ele seja civilizado e erudito. Não importa o quanto seja gentil.

O pai vê um animal selvagem, e sua repugnância sempre estará ali.

66

UMA NOITE, no verão dos quinze, Gat jogou pedrinhas na janela do meu quarto. Coloquei a cabeça para fora e o encontrei parado entre as árvores, o luar refletindo em sua pele, os olhos brilhantes.

Ele estava esperando por mim no último degrau da varanda.

— Estou com desejo de chocolate — ele sussurrou. — Vou invadir a despensa de Clairmont. Quer vir?

Fiz que sim e andamos juntos pelo caminho estreito, dedos entrelaçados. Demos a volta pela entrada lateral de Clairmont, que levava a um quartinho repleto de raquetes de tênis e toalhas de praia. Com uma mão na porta de tela, Gat se virou e me puxou para mais perto.

Seus lábios quentes estavam junto aos meus,

nossas mãos ainda estavam dadas,

lá, na porta da casa.

Por um instante, nós dois estávamos sozinhos no planeta,

com toda a vastidão do céu e o futuro e o passado se espalhando à nossa volta.

Pisando na ponta dos pés, entramos no quartinho e depois na grande despensa que se abria para a cozinha. O cômodo era antigo, com pesadas gavetas de madeira e prateleiras para acomodar vidros de geleia e picles na época em que a casa foi construída. Agora armazenava biscoitos, caixas de vinho, batatinhas, legumes, água com gás. Deixamos as luzes apagadas, caso alguém entrasse na cozinha, mas sabíamos que apenas meu avô estava dormindo em Clairmont. Ele não ouviria nada. Usava aparelho auditivo durante o dia.

Estávamos explorando quando ouvimos vozes. Eram as tias entrando na cozinha, com vozes arrastadas e tom histérico.

— É por isso que as pessoas se matam — disse Bess com amargura. — Eu devia sair daqui antes de fazer algo de que me arrependa.

— Você não está falando sério — disse Carrie.

— Não me diga o que pensar! — gritou Bess. — Você tem Ed. Não precisa de dinheiro como eu.

— Você já colocou as garras na casa de Boston — disse minha mãe. — Deixe a ilha em paz.

— Quem organizou o funeral da mamãe? — retrucou Bess. — Quem ficou ao lado do papai durante semanas? Quem providenciou a papelada, falou com todos os que compareceram, escreveu os bilhetes de agradecimento?

— Você mora perto dele — disse minha mãe. — Estava bem ali.

— Eu estava cuidando de uma casa com quatro crianças e tentando manter um emprego — disse Bess. — Vocês não estavam fazendo nada.

— Um emprego de meio período — disse minha mãe. — E, se eu ouvir você falar quatro crianças de novo, vou gritar.

— Eu também estava cuidando de uma casa — disse Carrie.

— Qualquer uma das duas podia ter ido passar uma semana ou duas com ele. Deixaram tudo nas minhas costas — disse Bess. — Tive que lidar com papai o ano todo. Eu que corro para lá quando ele precisa de ajuda. Eu que lido com sua caduquice e seu luto.

— Não fale assim — disse Carrie. — Você não sabe quantas vezes ele me liga. Não sabe o que preciso engolir pra ser uma boa filha.

— Então é claro que quero aquela casa — continuou Bess, como se ela não tivesse escutado. — Eu fiz por merecer. Quem levava a mamãe ao médico? Quem ficou ao lado da cama dela?

— Não é justo — disse minha mãe. — Você sabe que fui até lá. Carrie foi também.

— Visitar — rebateu Bess.

— Você não precisava fazer tudo aquilo — disse minha mãe. — Ninguém pediu.

— Não tinha mais ninguém lá. Vocês me deixaram fazer, e nunca agradeceram. Estamos apinhados em Cuddledown, que é a casa com a pior cozinha. Vocês nunca vão lá. Ficariam surpresas com a situação em que está. Não tem quase valor nenhum. Mamãe arrumou a cozinha de Windemere antes de morrer, e os banheiros de Red Gate, mas Cuddledown está como sempre foi. E aqui estão vocês duas, me negando uma compensação por tudo o que fiz e continuo fazendo.

— Você concordou com os projetos de Cuddledown — Carrie a censurou. — Queria a vista. Tem a única casa de frente para a praia, Bess. E tem toda a aprovação e a devoção do papai. Achei que bastasse. Só Deus sabe como é algo impossível para nós duas.

— Você prefere não ter — disse Bess. — Escolheu Ed; prefere viver com ele. Prefere trazer Gat aqui todos os verões, quando sabe que ele não é um de nós. Sabe como papai pensa, e não só continua com Ed como também traz o sobrinho dele para cá e fica desfilando como uma garotinha rebelde com um brinquedo proibido. Seus olhos estiveram bem abertos o tempo todo.

— Pare de falar do Ed! — gritou Carrie. — Cala essa boca, cala a boca.

Ouvimos um tapa. Carrie bateu na boca de Bess.

Bess saiu, batendo a porta.

Minha mãe saiu também.

Gat e eu ficamos sentados no chão da despensa, de mãos dadas. Tentando não respirar, tentando não nos mover enquanto Carrie colocava os copos na lava-louças.

67

ALGUNS DIAS DEPOIS, meu avô chamou Johnny em seu escritório de Clairmont. Pediu que lhe fizesse um favor.

Johnny disse não.

Meu avô disse que esvaziaria a poupança para a faculdade de Johnny se ele não fizesse o que estava pedindo.

Johnny disse que não ia interferir na vida amorosa de sua mãe e que podia muito bem estudar em uma faculdade pública.

Meu avô ligou para Thatcher.

Johnny contou para Carrie.

Carrie pediu para Gat parar de jantar em Clairmont.

— Está irritando Harris — ela disse. — Seria melhor para todos se você fizesse um macarrão e comesse em Red Gate, ou posso pedir para Johnny trazer um prato depois. Você entende, não é? É só até as coisas se resolverem.

Gat não entendia.

Johnny também não.

Todos nós, os Mentirosos, paramos de comer lá.

Logo depois, Bess pediu para Mirren pressionar um pouco mais meu avô a respeito de Windemere. Ela devia levar Bonnie, Liberty e Taft para falar com ele em seu escritório. Eles eram o futuro da família, Mirren devia dizer. As notas de Johnny e Cady em matemática não eram suficientes para entrar em Harvard, mas as de Mirren, sim. Era Mirren quem tinha uma mente voltada para os negócios e era a verdadeira herdeira de tudo o que vovô valorizava. Johnny e Cady eram fúteis demais. E esses lindos pequenos! As lindas gêmeas loiras, o sardento Taft. Eles eram Sinclair dos pés à cabeça.

Fale tudo isso, disse Bess. Mas Mirren não quis.

Bess tomou seu celular, seu laptop e sua mesada.

Mirren não quis.

Uma noite, minha mãe perguntou sobre mim e Gat.

— Seu avô sabe que tem alguma coisa acontecendo entre vocês dois. E não está feliz com isso.

Eu disse a ela que estava apaixonada.

Ela me disse para deixar de ser boba.

— Está arriscando seu futuro — disse. — Nossa casa. Sua educação. Em nome de quê?

— Amor.

— Uma paixonite de verão. Deixe o menino em paz.

— Não.

— O amor não dura, Cady. Você sabe disso.

— Não sei.

— Bem, acredite em mim. Não dura.

— Não somos você e o papai — eu disse.

Minha mãe cruzou os braços.

— Cresça, Cadence. Veja o mundo como ele é, não como você queria que fosse.

Olhei para ela. Minha mãe, adorável e alta, com lindos cachos e uma boca rígida e amarga. Suas veias nunca estavam abertas. Seu coração nunca saltava e caía, desprotegido, sobre o gramado. Ela nunca derretia e virava uma poça. Era normal. Sempre. A qualquer custo.

— Para o bem da família — ela acabou dizendo —, você vai romper com ele.

— Não vou.

— Você precisa. E, quando terminar, faça com que seu avô saiba. Diga que não significa nada e que nunca significou nada. Diga que ele não precisa mais se preocupar com aquele garoto e depois converse com ele sobre Harvard, a equipe de tênis e o futuro que você tem pela frente. Está entendendo?

Não entendia e não faria aquilo.

Sai correndo de casa, para os braços de Gat.

Sangrei sobre ele e ele não achou ruim.

 

MAIS TARDE, naquela mesma noite, Mirren, Gat, Johnny e eu descemos até o galpão de ferramentas que ficava atrás de Clairmont. Encontramos martelos. Só havia dois, então Gat pegou um alicate e eu peguei uma tesoura de poda.

Pegamos o ganso de marfim de Clairmont, os elefantes de Windemere, os macacos de Red Gate e o sapo de Cuddledown. Levamos tudo para o cais no escuro e os estraçalhamos com os martelos, o alicate e a tesoura, até o marfim se transformar em pó.

Gat encheu um balde com a água fria do mar e limpou todo o cais.

68

NÓS PENSAMOS.

Conversamos.

E se, dissemos,

e se,

em outro universo,

numa realidade paralela,

Deus apontasse o dedo e

fulminasse Clairmont com um raio?

E se

Deus a incendiasse?

Assim, puniria os gananciosos, os insignificantes, os preconceituosos, os ordinários, os cruéis.

Eles se arrependeriam de seus feitos.

E, depois disso, aprenderiam a se amar novamente.

A abrir sua alma. Abrir suas veias. Apagar seu sorriso falso.

Ser uma família. Agir como uma família.

Não era algo religioso, da maneira como pensávamos.

Mas ao mesmo tempo era.

Castigo.

Purificação pelas chamas.

Ou ambos.

69

NO DIA SEGUINTE, fim de julho do verão dos quinze, houve um almoço em Clairmont. Mais um almoço como todos, servido na mesa grande. Mais lágrimas.

As vozes eram tão altas que nós, os Mentirosos, subimos a passagem de Red Gate e ficamos na frente do jardim, escutando.

— Tenho que reconquistar seu amor todos os dias, pai — minha mãe disse com a voz arrastada. — E quase sempre falho. Não é justo, porra. Carrie fica com as pérolas, Bess fica com a casa de Boston, Bess fica com Windemere. Carrie tem Johnny, e você vai deixar Clairmont para ele, sei que vai. Eu vou ficar sem nada, nada, embora Cady devesse ser a escolhida. A primeira, você sempre disse.

Meu avô se levantou da cadeira à cabeceira da mesa.

— Penelope.

— Vou levar Cady embora, está me ouvindo? Ela vai comigo e vocês não vão se ver nunca mais.

A voz do meu avô explodiu através do pátio.

— Estamos nos Estados Unidos da América — ele disse. — Você parece não entender isso, Penny, então me deixe explicar. Aqui as coisas funcionam da seguinte maneira: nós trabalhamos pelo que queremos, e saímos na frente. Nunca aceitamos não como resposta, e somos recompensados por nossa perseverança. Will, Taft, vocês estão ouvindo?

Os meninos fizeram que sim com a cabeça, com o queixo trêmulo. Meu avô continuou:

— Nós, os Sinclair, somos uma família nobre e antiga. É algo de que se orgulhar. Nossas tradições e nossos valores formam a base que sustentará as futuras gerações. Esta ilha é nosso lar, como foi do meu pai e do meu avô. E ainda assim vocês, três mulheres, com seus divórcios, lares corrompidos, seu desrespeito pela tradição, sua falta de ética de trabalho, não fizeram nada além de decepcionar um velho que pensou que tinha criado as filhas corretamente.

— Pai, por favor… — disse Bess.

— Fique quieta! — berrou meu avô. — Você não pode esperar que eu aceite tamanha falta de consideração pelos valores dessa família e ainda recompense vocês e seus filhos com segurança financeira. Não podem, nenhuma de vocês pode esperar isso. E mesmo assim, dia após dia, vejo vocês fazendo isso. Não vou mais tolerar.

Bess se desfez em lágrimas.

Carrie agarrou Will pelo cotovelo e andou na direção do cais.

Minha mãe arremessou sua taça de vinho contra a lateral da casa.

70

— O QUE ACONTECEU DEPOIS? — pergunto a Johnny. Ainda estamos deitados no chão de Cuddledown, de manhã cedo. No verão dos dezessete.

— Você não lembra? — ele pergunta.

— Não.

— Todo mundo começou a sair da ilha. Carrie levou Will para um hotel em Edgartown e pediu que eu e Gat fôssemos para lá assim que fizéssemos as malas. Os empregados partiram às oito. Sua mãe foi visitar aquela amiga dela em Vineyard…

— Alice?

— Isso, Alice veio buscar sua mãe, mas você não quis ir. E por fim ela teve que ir sozinha. Vovô foi embora para a cidade. E foi aí que tomamos a decisão do incêndio.

— Nós planejamos tudo — digo.

— Planejamos. Convencemos Bess a pegar o barco grande e levar os pequenos para ver um filme em Vineyard.

Conforme Johnny fala, as lembranças se formam. Vou preenchendo detalhes que ele não contou em voz alta.

— Quando eles saíram, bebemos o vinho que tinham deixado na geladeira — diz Johnny. — Quatro garrafas abertas. E Gat estava tão bravo…

— Ele estava certo — digo.

Johnny vira o rosto e fala para o chão novamente.

— Porque ele não voltaria mais. Se minha mãe casasse com o Ed, eles seriam cortados. E, se minha mãe rompesse com Ed, Gat não teria mais nenhuma conexão com nossa família.

— Clairmont era como um símbolo de tudo o que estava errado. — É a voz de Mirren. Ela foi tão silenciosa ao entrar que nem escutei. Agora está deitada no chão ao lado de Johnny, segurando sua outra mão.

— O centro do patriarcado — diz Gat. Também não o ouvi entrar. Ele se deita ao meu lado.

— Você é tão besta, Gat — diz Johnny de maneira amigável. — Sempre diz patriarcado.

— É o que quero dizer.

— Você usa essa palavra sempre que pode. Patriarcado na torrada. Patriarcado na minha calça. Patriarcado com gotas de limão.

— Clairmont era como o centro do patriarcado — repete Gat. — E, sim, estávamos muito bêbados. E, sim, achamos que eles tinham destruído a família e que eu nunca mais voltaria. Imaginamos que, se a casa fosse destruída e a papelada e os registros que havia lá dentro também, se todos os objetos pelos quais eles lutavam fossem destruídos, o poder seria destruído.

— E seríamos uma família — diz Mirren.

— Era como uma purificação — diz Gat.

— Ela só lembra que iniciamos um incêndio — diz Johnny, de repente elevando o tom de voz.

— E algumas outras coisas — acrescento, levantando-me e olhando para os Mentirosos à luz da manhã. — As coisas estão voltando conforme vocês me contam.

— Estamos contando tudo o que aconteceu antes do incêndio — diz Johnny, ainda em voz alta.

— Sim — diz Mirren.

— Nós iniciamos um incêndio — digo com espanto. — Não choramos e sangramos; fizemos alguma coisa. Fizemos algo para mudar.

— Mais ou menos — diz Mirren.

— Está brincando? Nós reduzimos aquela porra de palácio a cinzas.

71

DEPOIS QUE AS TIAS E MEU AVÔ DISCUTIRAM, comecei a chorar.

Gat também estava chorando.

Ele deixaria a ilha e eu nunca mais o veria. Ele nunca mais me veria.

Gat, meu Gat.

Eu nunca tinha chorado com ninguém antes. Ao mesmo tempo.

Ele chorava como um homem, não como um menino. Não como se estivesse frustrado ou as coisas não fossem do jeito dele, mas como se a vida fosse amarga. Como se suas feridas não pudessem ser curadas.

Eu queria curá-las para ele.

Descemos sozinhos para a praia pequena. Eu me abracei a ele e sentamos juntos na areia, e pela primeira vez Gat não tinha nada a dizer. Nenhuma análise, nenhuma dúvida.

Finalmente, eu disse algo sobre

se,

e se,

fizéssemos com nossas próprias mãos?

E Gat disse:

Como?

E eu disse algo sobre

se,

e se,

eles parassem de brigar?

Temos algo para salvar.

E Gat disse:

Sim. Você e eu e Mirren e Johnny, sim, nós temos.

Mas é claro que sempre podemos nos ver, nós quatro.

Ano que vem já podemos dirigir.

Sempre existe o telefone.

Mas aqui, eu disse. Isso.

Sim, aqui, ele disse. Isso.

Você e eu.

Eu disse algo sobre

se,

e se,

pudéssemos de algum modo deixar de ser

a bela Família Sinclair e ser apenas uma família?

E se pudéssemos deixar de ter

cores diferentes, passados diferentes, e apenas estarmos apaixonados?

E se pudéssemos obrigar todo mundo a mudar?

Obrigar.

Você quer brincar de Deus, Gat disse.

Quero tomar uma atitude, eu disse. Sempre existe o telefone, ele disse.

Mas e aqui?, eu disse. Isso.

Sim, aqui, ele disse. Isso.

Gat era meu amor, meu primeiro e único. Como podia deixá-lo ir?

Ele era uma pessoa incapaz de forçar um sorriso, mas sorria com frequência. Envolvia meus pulsos em gaze branca e acreditava que feridas precisavam de atenção. Escrevia nas mãos e perguntava em que eu estava pensando. Sua mente era inquieta, inquieta. Ele não acreditava mais em Deus e ainda assim desejava que Deus o ajudasse.

E agora ele era meu e eu disse que não devíamos deixar nosso amor ser ameaçado.

Não devíamos deixar a família se desintegrar.

Não devíamos aceitar um mal que podíamos mudar.

Nós enfrentaríamos, não é?

Sim. Enfrentaríamos.

Seríamos até heróis.

 

GAT E EU falamos com Mirren e Johnny.

Convencemos os dois a agir.

Dissemos uns aos outros

repetidas vezes: faça aquilo que teme.

Dissemos uns aos outros.

Repetidas vezes, afirmamos.

Dissemos uns aos outros

que estávamos certos.

72

O PLANO ERA SIMPLES. Encontraríamos os galões sobressalentes de gasolina, aqueles que ficavam no galpão para usar nos barcos. Havia jornais e papelão no quartinho. Faríamos pilhas de lixo reciclável e as encharcaríamos de gasolina. Encharcaríamos o piso de madeira também. Tomaríamos distância. Colocaríamos fogo em um rolo de papel-toalha e o arremessaríamos. Fácil.

Incendiaríamos todos os pisos, todos os cômodos, se possível, para garantir que Clairmont queimasse completamente. Gat no porão, eu no térreo, Johnny no segundo andar e Mirren no último.

— Os bombeiros chegaram tarde demais — diz Mirren.

— Duas equipes de bombeiros — diz Johnny. — A de Woods Hole e a de Martha’s Vineyard.

— Estávamos contando com isso — digo, lembrando.

— Planejamos ligar para pedir ajuda — diz Johnny. — Naturalmente alguém tinha que ligar ou ficaria parecendo um incêndio criminoso. Diríamos que estávamos em Cuddledown, assistindo a um filme, e você sabe como as árvores cercam tudo. Não dá para ver as outras casas a não ser do telhado. Então faria sentido demorar para ligar.

— Aquelas equipes de bombeiros são formadas praticamente por voluntários — diz Gat. — Ninguém tinha a mínima ideia do que fazer. Velhas casas de madeira. Material inflamável.

— Se as tias e vovô suspeitassem de nós, nunca nos acusariam — acrescenta Johnny. — Era fácil contar com isso.

É claro que não acusariam.

Ninguém aqui é criminoso.

Ninguém é viciado.

Ninguém é fracassado.

Senti um tremor ao pensar no que fizemos.

Meu nome completo é Cadence Sinclair Eastman e, ao contrário da bela família em que cresci, sou uma incendiária.

Uma visionária, uma heroína, uma rebelde.

O tipo de pessoa que muda a história.

Uma criminosa.

Mas, se sou uma criminosa, sou então uma viciada? Sou então uma fracassada?

Minha mente está brincando com as palavras como sempre faz.

— Nós fizemos isso acontecer — eu digo.

— Depende do que você acha que isso é — diz Mirren.

— Nós salvamos a família. Eles começaram de novo.

— Tia Carrie fica perambulando pela ilha à noite — diz Mirren. — Minha mãe fica esfregando pias limpas até ficar com as mãos em carne viva. Penny fica observando você dormindo e anota tudo o que você come. Elas bebem pra caramba. Estão se embebedando até as lágrimas escorrerem pelo rosto.

— Quando vocês foram até a nova Clairmont para ver isso? — pergunto.

— Eu subo lá de vez em quando — diz Mirren. — Você acha que resolvemos tudo, Cady, mas acho que foi…

— Estamos aqui — eu insisto. — Sem aquele incêndio, não estaríamos aqui. É isso que estou dizendo.

— Está bem.

— Vovô tinha tanto poder — digo. — E agora não tem mais. Mudamos um mal que víamos no mundo.

Entendo muitas coisas que não estavam claras antes. Meu chá está quente, os Mentirosos são lindos, Cuddledown é linda. Não importa se as paredes estão manchadas. Não importa se tenho dores de cabeça, nem que Mirren esteja doente. Não importa se Will tem pesadelos e Gat se odeia. Cometemos o crime perfeito.

— Vovô só não tem poder porque está caduco — diz Mirren. — Ele ainda torturaria todo mundo se pudesse.

— Discordo — diz Gat. — A nova Clairmont parece um castigo para mim.

— O quê? — ela pergunta.

— Uma forma de se punir. Ele construiu uma casa que não é um lar. É propositalmente desconfortável.

— Por que faria isso? — pergunto.

— Por que você doou todas as suas coisas? — Gat pergunta.

Ele está olhando fixamente para mim. Todos estão olhando fixamente para mim.

— Para ser caridosa — respondo. — Fazer algum bem para o mundo.

Faz-se um silêncio estranho.

— Odeio acumular coisas — digo.

Ninguém ri. Não sei como acabei virando objeto dessa conversa.

Nenhum dos Mentirosos fala nada por um bom tempo. Então Johnny diz:

— Não pressione, Gat.

E Gat diz:

— Fico feliz que tenha se lembrado do incêndio, Cadence.

E eu digo:

— É, bem, de uma parte dele.

E Mirren diz que não está se sentindo bem e volta para a cama.

Os meninos e eu ficamos deitados no chão da cozinha, olhando para o teto, por mais um tempo, até que me dou conta, um pouco constrangida, de que os dois pegaram no sono.

73

ENCONTRO MINHA MÃE NA VARANDA de Windemere com os cachorros. Ela está fazendo um cachecol azul-claro de lã.

— Você está sempre em Cuddledown — minha mãe reclama. — Não é bom ficar lá embaixo o tempo todo. Carrie passou lá ontem, procurando alguma coisa, e disse que está uma imundície. O que aconteceu?

— Nada. Desculpe pela bagunça.

— Se estiver realmente sujo, não podemos pedir para Ginny limpar. Você sabe disso, não é? Não é justo com ela. E Bess vai ter um ataque se vir.

Não quero ninguém indo a Cuddledown. Quero a casa só para nós.

— Não se preocupe. — Eu sento e acaricio a doce cabeça amarela de Bosh. — Ei, mãe?

— O que foi?

— Por que você pediu para ninguém da família me contar do incêndio?

Ela solta o novelo e fica olhando para mim por um bom tempo.

— Você se lembra do incêndio?

— Ontem à noite eu me lembrei de repente. Não me lembro de tudo, mas, sim. Lembro que o incêndio aconteceu. Lembro que vocês todos brigaram. E todo mundo foi embora da ilha. Eu lembro que fiquei aqui com Gat, Mirren e Johnny.

— Você se lembra de mais alguma coisa?

— Lembro como o céu ficou. Com as chamas. O cheiro da fumaça.

Se minha mãe acha que tenho alguma culpa, ela nunca, nunca, vai me perguntar. Sei que não.

Ela não quer saber.

Mudei o curso da vida dela. Mudei o destino da família. Os Mentirosos e eu.

Foi uma coisa horrível de se fazer. Talvez. Mas foi alguma coisa. Não fiquei apenas sentada, reclamando. Sou uma pessoa muito mais poderosa do que minha mãe jamais saberá. Eu a desobedeci e a ajudei ao mesmo tempo.

Minha mãe acaricia meu cabelo. Tão melosa. Eu recuo.

— Só isso? — ela pergunta.

— Por que ninguém fala comigo sobre isso? — repito.

— Por causa da… por causa… — Minha mãe faz uma pausa, procurando palavras. — Por causa da sua dor.

— Porque tenho dores de cabeça, porque não consigo me lembrar do acidente, não posso lidar com a ideia de Clairmont ter pegado fogo?

— Os médicos nos pediram para não acrescentar estresse na sua vida — ela diz. — Disseram que o fogo pode ter desencadeado as dores de cabeça, pela inalação de fumaça ou… medo. — Ela termina de uma maneira ridícula.

— Não sou criança — digo. — Sou capaz de lidar com informações básicas sobre nossa família. Durante todo o verão eu venho me esforçando para me lembrar do acidente e do que aconteceu antes. Por que não podem me contar, mãe?

— Eu contei. Há dois anos. Contei várias vezes, mas você nunca lembrava no dia seguinte. Quando falei com o médico, ele disse que não devia ficar te chateando desse jeito, não devia ficar te pressionando.

— Você mora comigo! — eu grito. — Não tem nenhuma fé de que seu próprio julgamento seja superior ao de um médico qualquer que mal me conhece?

— Ele é um especialista.

— O que faz você pensar que quero que toda a minha família guarde segredos de mim, até mesmo as gêmeas, até mesmo Will e Taft, minha nossa, em vez de saber o que aconteceu? O que faz você pensar que sou tão frágil a ponto de não poder saber de simples fatos?

— Você parece frágil para mim — diz minha mãe. — E, para ser sincera, não tenho certeza de que poderia lidar com isso.

— Não tem ideia do quanto isso é ofensivo.

— Eu te amo — ela diz.

Não consigo mais olhar para sua cara de pena e de dona da razão.

74

MIRREN ESTÁ NO MEU QUARTO quando abro a porta. Está sentada à escrivaninha com a mão sobre meu laptop.

— Queria saber se podia ler os e-mails que me mandou ano passado — ela diz. — Você ainda tem?

— Sim.

— Nunca li nenhum deles — ela diz. — No início do verão eu fingi que tinha lido, mas nunca abri.

— Por que não?

— Simplesmente não abri — ela diz. — Achei que não importava, mas agora acho que importa. E veja! — ela disse com leveza. — Até saí da casa para fazer isso!

Engulo o máximo de raiva que posso.

— Entendo você não ter respondido, mas por que nem ao menos leu meus e-mails?

— Eu sei — Mirren diz. — É péssimo e sou uma péssima pessoa. Por favor, posso ler os e-mails agora?

Abro o laptop. Faço uma busca e encontro todas as mensagens direcionadas a ela.

São vinte e oito. Leio sobre seu ombro. A maioria são e-mails agradáveis e educados de uma pessoa que não parece ter dores de cabeça.

Mirren!

Amanhã viajo para a Europa com meu pai infiel que, como você sabe, é também extremamente chato. Deseje-me

sorte e saiba que eu queria estar passando o verão em Beechwood com você. E com Johnny. E até com Gat.

Eu sei, eu sei. Eu devia ter superado isso.

Já superei.

Já.

Estou indo para Marbella conhecer espanhóis bonitões, veja só. Estou pensando se consigo fazer meu pai comer os pratos mais nojentos de cada país que visitarmos, como castigo

por ter fugido para o Colorado.

Aposto que consigo. Se ele realmente me ama, vai comer rã, rim e formigas cobertas com chocolate.

Cadence

 

A maioria era assim. Mas alguns e-mails não eram agradáveis nem educados. Eram deploráveis e verdadeiros.

Mirren,

Inverno em Vermont. Escuro, escuro.

Minha mãe continua me observando enquanto durmo.

Minha cabeça dói o tempo todo. Não sei o que fazer para a dor parar. Os remédios não funcionam. Alguém está

partindo o topo da minha cabeça com um machado, um machado cego que não consegue fazer um corte preciso no meu crânio. Quem quer que o esteja segurando tem que ficar golpeando minha cabeça, batendo repetidas vezes, nem sempre no mesmo lugar. Tenho múltiplos traumas.

Às vezes sonho que quem segura o machado é o vovô.

Outras vezes, sou eu.

Outras vezes, é Gat.

Desculpe parecer louca. Minhas mãos estão trêmulas enquanto digito isso e a tela é brilhante demais. Quero morrer às vezes. Minha cabeça dói demais. Fico te escrevendo todos os meus pensamentos mais lúcidos, mas

nunca menciono os obscuros, mesmo que os tenha o tempo todo. Então estou dizendo agora. Mesmo se você não

responder, vou saber que alguém escutou, e isso pelo menos já é alguma coisa.

Cadence

 

LEMOS TODOS os vinte e oito e-mails. Depois de terminar, Mirren me dá um beijo no rosto.

— Não posso nem pedir desculpas — ela me diz. — Não existe uma palavra no Scrabble para descrever como me sinto mal.

Então ela vai embora.

75

LEVO O LAPTOP para a cama e crio um documento. Pego minhas anotações em papel quadriculado e começo a digitá-las, além de todas as novas lembranças, rapidamente e com milhares de erros. Preencho com hipóteses os espaços vazios, não ocupados por lembranças verdadeiras.

O Centro Sinclair de Socialização e Petiscos.

Você não vai mais ver aquele seu namorado.

Ele quer que eu fique bem longe de você.

Adoramos Windemere, não é, Cady?

Tia Carrie chorando, usando a jaqueta de náilon do Johnny.

Gat jogando bolas para os cães na quadra de tênis.

Minha nossa, minha nossa, minha nossa.

Os cães.

Os malditos cães.

Fatima e Príncipe Philip.

Os cães morreram naquele incêndio.

Agora eu sei, e a culpa é minha. Eles eram cães tão desobedientes, não eram como Bosh, Grendel e Poppy, adestrados pela minha mãe. Fatima e Príncipe Philip comiam estrelas-do-mar na praia, depois vomitavam no meio da sala. Sacudiam água de seus pelos embaraçados, fuçavam a comida do piquenique, mastigavam frisbees até virarem pedaços inúteis de plástico. Adoravam bolas de tênis e desciam para a quadra para encher de baba qualquer uma que ficasse pelo chão. Não sentavam quando alguém mandava. Ficavam pedindo comida perto da mesa.

Quando o fogo começou, os cães estavam em um dos quartos de hóspedes. Meu avô muitas vezes os fechava no andar de cima quando Clairmont estava vazia, ou à noite. Assim eles não comeriam sapatos nem ficariam uivando perto da porta de tela.

Meu avô os tinha prendido antes de sair da ilha.

E nós não tínhamos pensado neles.

Eu tinha matado aqueles cães. Era eu quem tinha cães em casa, quem sabia onde Príncipe Philip e Fatima dormiam. Os outros Mentirosos não pensavam nos cachorros — não muito, pelo menos. Não como eu.

Eles tinham morrido queimados. Como posso ter me esquecido deles assim? Como posso ter ficado tão envolvida em meu exercício criminal idiota, na agitação, na raiva das tias e do meu avô…

Fatima e Príncipe Philip queimando. Farejando sob a porta, inalando fumaça, abanando o rabo com esperança, esperando alguém aparecer para resgatá-los, latindo.

Que morte horrível tiveram aqueles pobres, queridos e desobedientes cães.

76

SAIO CORRENDO de Windemere. Está escuro lá fora, é quase hora do jantar. Meus sentimentos escorrem pelos olhos, enrugando meu rosto, fazem meu corpo todo tremer enquanto imagino os cães ansiando pelo resgate, olhando fixamente para a porta conforme a fumaça invade.

Para onde ir? Não posso encarar os Mentirosos em Cuddledown. Will ou tia Carrie podem estar em Red Gate. A porra da ilha é tão pequena que não tenho para onde ir. Estou presa ali, onde matei aqueles pobres, pobres cães.

Toda a ousadia de hoje pela manhã,

o poder,

o crime perfeito,

a derrubada do patriarcado,

o modo como nós, os Mentirosos, salvamos o idílio de verão e o transformamos em um lugar melhor,

o modo como mantivemos nossa família unida ao destruir uma parte dela…

tudo isso é ilusão.

Os cães estão mortos,

os cães idiotas e fofos,

os cães que eu podia ter salvado,

cães inocentes que ficavam radiantes quando alguém lhes dava um pedaço de hambúrguer,

ou dizia seus nomes;

cães que adoravam andar de barco,

que corriam livres o dia todo com as patas sujas de lama.

Que tipo de gente age sem pensar em quem poderia estar preso em um quarto no andar de cima, confiando nas pessoas que sempre os mantiveram em segurança e os amaram?

Estou chorando um choro estranho, silencioso, parada na passagem entre Windemere e Red Gate. Meu rosto está molhado, meu peito está apertado. Volto cambaleando para casa.

Gat está na porta.

77

ELE DÁ UM PULO quando me vê e me envolve com o braço. Soluço em seu ombro e enfio os braços em sua jaqueta, em volta de sua cintura.

Ele não pergunta o que há de errado até eu dizer.

— Os cães — digo, finalmente. — Nós matamos os cães.

Ele fica em silêncio por um instante. Depois:

— É.

Não digo mais nada até meu corpo parar de tremer.

— Vamos sentar — Gat diz.

Nos acomodamos nos degraus da varanda. Gat apoia a cabeça na minha.

— Eu amava aqueles cães — digo.

— Todos nós amávamos.

— Eu… — Engasgo com as palavras. — Acho melhor não falar mais sobre isso, ou vou começar a chorar de novo.

— Tudo bem.

Ficamos sentados mais um tempo.

— É só isso? — Gat pergunta.

— O quê?

— Você está chorando só por isso?

— Não me diga que tem mais alguma coisa?

Ele fica em silêncio.

E continua em silêncio.

— Ah, droga, tem mais — digo, e meu peito parece oco e gelado.

— Sim — diz Gat. — Tem mais.

— Mais alguma coisa que as pessoas não estão me dizendo. Mais alguma coisa que minha mãe preferiria que eu não lembrasse.

Ele para um instante para pensar.

— Acho que estamos dizendo, mas você não quer ouvir. Você está doente, Cadence.

— Vocês não estão me dizendo diretamente — digo.

— Não.

— E por que não?

— Penny disse que seria melhor assim. E, bem, com todos nós aqui, eu tinha esperança de que você lembraria. — Ele tira o braço do meu ombro e abraça os joelhos.

Gat, meu Gat.

Ele é contemplação e entusiasmo. Ambição e café forte. Amo as pálpebras de seus olhos castanhos, sua pele morena e macia, o lábio inferior protuberante. Sua mente. Sua mente.

Beijo seu rosto

— Lembro mais sobre nós do que antes — digo a ele. — Lembro que nos beijamos na porta do quartinho dos fundos antes de tudo dar errado. Nós dois na quadra de tênis, conversando sobre Ed ter pedido Carrie em casamento. Na costa, na pedra lisa, onde ninguém podia nos ver. E na praia pequena, conversando sobre o incêndio.

Ele confirma.

— Mas ainda não me lembro do que deu errado — digo. — Por que não estávamos juntos quando eu me machuquei? Nós brigamos? Eu fiz alguma coisa? Você voltou para Raquel? — Não consigo olhar nos olhos dele. — Acho que mereço uma resposta sincera, mesmo se isso que existe entre nós agora não for durar.

Gat franze o rosto e o cobre com as mãos.

— Não sei o que fazer — ele diz. — Não sei o que devo fazer.

— Apenas me conte.

— Não posso ficar aqui com você — ele diz. — Preciso voltar para Cuddledown.

— Por quê?

— Eu preciso — ele diz, levantando-se e andando. Então ele para e se vira. — Eu estraguei tudo. Sinto muito, Cady. Sinto tanto, tanto. — Ele está chorando novamente. — Eu não devia ter te beijado, nem feito um balanço de pneu para você nem te dado rosas. Não devia ter dito o quanto te acho linda.

— Eu quis tudo isso.

— Eu sei, mas eu devia ter me afastado. Foi muito errado ter feito essas coisas, sinto muito.

— Volte aqui — digo, mas, quando ele não se mexe, vou até ele. Coloco as mãos em seu pescoço e o rosto junto ao dele. Beijo-o com intensidade, para que saiba que é de verdade. Sua boca é tão macia e ele é simplesmente a melhor pessoa que conheço, a melhor pessoa que conheci, independentemente das coisas ruins que possam ter acontecido entre nós e do que venha a acontecer depois.

— Eu te amo — sussurro.

Ele se afasta.

— É disso que estou falando. Sinto muito. Só queria te ver.

Ele se vira e desaparece no escuro.

78

HOSPITAL EM MARTHA’S VINEYARD. Verão dos quinze, depois do acidente.

Eu estava deitada em uma cama, coberta por um lençol azul. Todo mundo sempre imagina lençóis de hospital brancos, mas esses eram azuis. O quarto estava quente. Eu tinha um acesso intravenoso no braço.

Minha mãe e meu avô olhavam fixamente para mim. Meu avô segurava uma caixa de doces de Edgartown que havia trazido de presente.

Fiquei tocada por ele lembrar que eu gostava dos doces de Edgartown.

Eu estava escutando música com fones de ouvido, então não dava para ouvir o que os adultos diziam. Minha mãe chorava.

Meu avô abriu a caixa de doces, tirou um e ofereceu para mim.

A música:

Nossa juventude está enfraquecida

Não vamos desperdiçá-la

Lembre-se do meu nome

Porque fizemos história

Na na na na na na na

 

LEVANTEI A MÃO PARA tirar os fones. Estava enfaixada.

Minhas duas mãos estavam enfaixadas.

E meus pés. Dava para sentir o esparadrapo neles, debaixo do lençol azul.

Minhas mãos e meus pés estavam enfaixados porque estavam queimados.

79

ERA UMA VEZ um rei que tinha três lindas filhas.

Não, não, espere.

Era uma vez três ursos que moravam em uma casinha na floresta.

Era uma vez três cabritos que moravam perto de uma ponte.

Era uma vez três soldados, vagando juntos pelas estradas depois da guerra.

Era uma vez três porquinhos.

Era uma vez três irmãos.

Não, é isso. É essa variação que eu quero.

Era uma vez três lindas crianças, dois meninos e uma menina. Quando cada um dos bebês nasceu, os pais ficaram exultantes, os céus ficaram exultantes, até mesmo as fadas ficaram exultantes. Elas compareceram às festas de batismo e deram aos bebês dons mágicos.

Estalo, iniciativa e sarcasmo.

Contemplação e entusiasmo. Ambição e café forte.

Açúcar, curiosidade e chuva.

E também tinha uma bruxa.

Sempre tem uma bruxa.

A bruxa tinha a mesma idade das lindas crianças, e conforme ela e eles cresciam, tinha cada vez mais inveja da menina, e dos meninos também. Eles haviam sido agraciados com todos esses dons fantásticos, dons que haviam sido negados à bruxa em seu próprio batismo.

O menino mais velho era forte e veloz, talentoso e bonito. Embora fosse extremamente baixo.

O outro menino era estudioso e sincero. Embora fosse um forasteiro.

E a menina era esperta, generosa e ética. Embora se sentisse impotente.

A bruxa não era nada disso, pois seus pais haviam irritado as fadas. Nenhum dom lhe fora concedido. Ela era solitária. Seu único poder era sua magia negra e repugnante.

Ela confundia ser frugal com ser caridosa, e doava seus bens sem fazer o bem com eles.

Confundia estar doente com ser corajosa, e agonizava imaginando ser digna de louvor por isso.

Confundia sagacidade com inteligência, e fazia as pessoas rirem em vez de tirar o peso de seu coração ou fazê-las raciocinar.

Sua magia era tudo o que tinha, e ela a usava para destruir o que mais admirava. Visitava todos os jovens por volta de seu décimo aniversário, mas não lhes fazia mal imediatamente. A proteção de algum tipo de fada — a fada lilás, talvez — impedia que fizesse isso.

Então, ela os amaldiçoava.

“Quando você completar dezesseis anos”, proclamava a bruxa com uma onda de inveja. “Quando todos nós completarmos dezesseis anos”, ela disse àquelas lindas crianças, “vão espetar o dedo no fuso de uma roca de fiar — não, vão riscar um fósforo. Sim, vão riscar um fósforo e morrer nas chamas.”

Os pais das lindas crianças ficaram assustados com a maldição e tentaram, como qualquer um faria, evitá-la. Mudaram-se com as crianças para bem longe, para um castelo em uma ilha exposta ao vento. Um castelo onde não havia fósforos.

Lá, certamente, estariam seguros.

Lá, certamente, a bruxa nunca os encontraria.

Mas ela os encontrou. E, quando estavam com quinze anos, pouco antes de completar dezesseis, quando seus pais ainda não estavam esperando, a bruxa invejosa inseriu sua abominável e perigosa figura na vida deles na forma de uma criada loira.

A criada fez amizade com elas. Ela os beijou e os levou para passear de barco e comprou doces para elas e lhes contou histórias.

Então lhes deu uma caixa de fósforos.

As crianças ficaram hipnotizadas, pois, prestes a completar dezesseis anos, nunca tinham visto fogo.

Vamos lá, risquem o palito, disse a bruxa, sorrindo. O fogo é belo. Nada de ruim vai acontecer.

Vamos lá, ela disse, as chamas vão purificar sua alma.

Vamos lá, ela disse, pois vocês podem pensar por si próprios.

Vamos lá, ela disse, de que vale a vida se não agirmos?

E eles deram ouvidos a ela.

Pegaram os fósforos e os riscaram. A bruxa observou a beleza deles queimando,

o estalo,

a inteligência,

a esperteza,

a sinceridade,

o charme,

os sonhos para o futuro.

Ela viu tudo desaparecer na fumaça.