Mentirosos
Parte cinco
Verdade
80
EIS A VERDADE sobre a bela família Sinclair. Pelo menos a verdade que meu avô conhece. A verdade que ele teve o cuidado de manter fora dos jornais.
Há dois verões, em uma noite quente de julho,
Gatwick Matthew Patil,
Mirren Sinclair Sheffield,
e
Jonathan Sinclair Dennis
morreram em uma casa que pegou fogo, supostamente devido a um galão de combustível de motor que virou no quartinho dos fundos. A casa em questão se reduziu a cinzas antes que o corpo de bombeiros da região conseguisse chegar ao local.
Cadence Sinclair Eastman estava presente na ilha no momento do incêndio, mas só percebeu o que estava acontecendo quando o fogo já estava bem avançado. A conflagração a impediu de entrar na instalação quando se deu conta de que havia pessoas e animais presos lá dentro. Ela teve queimaduras nas mãos e nos pés nas tentativas de resgate. Depois correu para outra casa da ilha e telefonou para os bombeiros.
Quando a ajuda finalmente chegou, a srta. Eastman foi encontrada na praia pequena, com metade do corpo dentro d’água, em posição fetal. Ela não foi capaz de responder perguntas a respeito do que havia acontecido e pareceu ter sofrido traumatismo cranioencefálico. Teve de receber sedação pesada durante vários dias após o acidente.
Harris Sinclair, dono da ilha, recusou qualquer investigação formal a respeito da origem do incêndio. Muitas árvores dos arredores foram dizimadas.
Foram realizados os funerais de
Gatwick Matthew Patil,
Mirren Sinclair Sheffield,
e
Jonathan Sinclair Dennis
nas cidades de Cambridge e Nova York, onde residiam.
Cadence Sinclair Eastman não estava bem o bastante para comparecer.
No verão seguinte, a família Sinclair voltou à ilha Beechwood. Ela se desintegrou. Eles ficaram de luto. Beberam muito.
Depois construíram uma nova casa sobre as cinzas da anterior.
Cadence Sinclair Eastman não tinha nenhuma lembrança dos fatos que cercaram o incêndio, nenhuma lembrança do ocorrido. Suas queimaduras se curaram rapidamente, mas ela passou a apresentar amnésia seletiva no que dizia respeito aos acontecimentos do verão anterior. Insistia em acreditar que havia batido a cabeça enquanto nadava. Os médicos presumiram que suas dores de cabeça debilitantes eram causadas por luto não reconhecido e culpa. Foi medicada com drogas pesadas e ficou extremamente frágil, tanto física quanto mentalmente.
Os mesmos médicos aconselharam a mãe de Cadence a parar de explicar a tragédia se ela não conseguisse lembrar sozinha. Era demais para ela receber notícias do trauma todos os dias, como se fosse novidade. Melhor deixar que lembre no seu próprio ritmo. Ela não deve voltar à ilha Beechwood antes de ter um tempo substancial para se curar. Na verdade, qualquer medida possível deve ser tomada para mantê-la longe da ilha no ano subsequente ao acidente.
Cadence começou a exibir um desejo inquietante de se livrar de todas as suas posses desnecessárias, até mesmo coisas de valor sentimental, quase como se pagasse por crimes do passado. Escureceu o cabelo e passou a se vestir com muita simplicidade. Sua mãe procurou ajuda profissional para explicar o comportamento de Cadence e foi informada de que parecia uma parte normal do processo de luto.
No segundo ano após o acidente, a família começou a se recuperar. Cadence voltou a frequentar a escola depois de longos períodos de ausência. Com o tempo, expressou o desejo de voltar à ilha Beechwood. Os médicos e os outros membros da família concordaram: podia ser bom para ela fazer exatamente isso.
Na ilha ela talvez conseguisse se curar.
81
LEMBREM-SE, não molhem os pés. Nem as roupas.
Encharquem os armários de roupa de cama, as toalhas, o piso, os livros e as camas.
Lembrem-se, deixem a lata de gasolina longe dos jornais, para conseguir pegá-la depois.
Vejam o fogo começar, vejam que está queimando. Depois corram. Usem a escadaria da cozinha e saiam pela porta do quartinho dos fundos.
Lembrem-se, peguem a lata de gasolina e levem de volta ao ancoradouro.
Vejo vocês em Cuddledown. Vamos colocar as roupas na máquina de lavar, vestir outras e ver as chamas antes de ligar para os bombeiros.
Foram as últimas palavras que eu disse a eles. Johnny e Mirren foram para os dois andares de cima de Clairmont levando latas de gasolina e sacos de jornais velhos para iniciar o fogo.
Antes de Gat descer para o porão, eu o beijei.
— Vejo você em um mundo melhor — ele me disse, e eu ri.
Estávamos meio bêbados. Ficamos bebendo as sobras de vinho das tias desde que elas saíram da ilha. O álcool me deu uma sensação de euforia e poder até eu me ver sozinha na cozinha. Então senti tontura e náuseas.
A casa estava fria. Parecia algo que merecia ser destruído. Estava cheia de objetos pelos quais as tias brigavam. Obras de arte valiosas, porcelana, fotografias. Tudo o que abastecia a raiva da família. Dei um soco no retrato de minha mãe, Carrie e Bess quando crianças, sorrindo para a câmera. O vidro quebrou e eu caí para trás.
O vinho estava embaçando minha cabeça. Eu não estava acostumada a beber.
Lata de gasolina em uma mão, saco de jornal na outra, decidi fazer aquilo o mais rápido possível. Espalhei o líquido pela cozinha primeiro, depois na despensa. Joguei na sala de jantar e estava encharcando os sofás da sala de estar quando me dei conta de que devia ter começado pela ponta mais afastada do quartinho dos fundos. Era por ele que sairíamos. Eu devia ter jogado o combustível na cozinha por último, para poder correr sem molhar meus pés com gasolina.
Burra.
A porta principal, que abria para a varanda, já estava encharcada, mas havia outra porta pequena também. Ficava perto do escritório do meu avô e dava para a passagem que levava à casa dos empregados. Eu a usaria.
Molhei uma parte do corredor e depois a sala de artesanato, sentindo uma onda de tristeza por estragar os tecidos estampados e as linhas coloridas da minha avó. Ela teria odiado o que eu estava fazendo. Amava seus tecidos, sua antiga máquina de costura, seus lindos, lindos objetos.
Fui burra de novo. Ensopei de gasolina minhas sandálias com sola de corda.
Tudo bem. Fiquei calma. Eu as usaria até terminar e depois as jogaria no fogo, ao correr para fora.
No escritório do meu avô, subi na mesa, molhando as estantes até o teto, segurando a lata de gasolina bem longe de mim. Ainda havia uma boa quantidade de combustível e aquele era meu último cômodo, então encharquei bem os livros.
Depois molhei o piso, empilhei os jornais sobre ele e me afastei até um pequeno vestíbulo que levava à porta. Tirei as sandálias e as joguei sobre a pilha de revistas. Pisei em um quadrado de chão seco e coloquei a lata de gasolina no chão. Tirei um palito de fósforo do bolso da calça e acendi meu rolo de papel-toalha.
Arremessei o rolo em chamas na pilha de jornais e observei até pegar fogo. O fogo acendeu, cresceu e se espalhou. Pelas portas largas do escritório, vi uma linha de fogo atravessar o corredor de um lado e ir para a sala do outro. O sofá começou a queimar.
Então, diante de mim, as estantes irromperam em chamas, o papel encharcado de gasolina queimava mais rápido do que todo o resto. De repente, o teto pegou fogo. Eu não conseguia desviar os olhos. As chamas eram terríveis, extraordinárias.
Então alguém gritou.
E gritou de novo.
Vinha do cômodo exatamente acima do meu, um quarto. Johnny estava no segundo andar. Eu havia botado fogo no escritório, e ele estava queimando mais rápido do que o resto. O fogo estava subindo e Johnny não tinha saído.
Ah não, ah não, ah não. Eu me joguei para a porta dos fundos, mas ela estava trancada. Minhas mãos estavam escorregadias por causa da gasolina. O metal já estava quente. Virei as trancas — uma, duas, três —, mas algo deu errado e a porta ficou presa.
Outro grito.
Tentei as trancas novamente. Não consegui. Desisti.
Cobri a boca e o nariz com as mãos e saí correndo pelo escritório em chamas, depois pelas labaredas no corredor, até a cozinha. O cômodo ainda não estava queimando, ainda bem. Apressei-me pelo chão molhado até a porta do quartinho dos fundos.
Tropecei, deslizei e caí, ensopando-me nas poças de gasolina.
As barras da minha calça jeans estavam queimando devido à passagem pelo escritório. O fogo passou para a gasolina no chão da cozinha e correu para os armários de madeira e para os alegres panos de prato da minha avó. As chamas se alastraram rapidamente pela saída do quartinho à minha frente, e eu vi que minha calça estava pegando fogo do joelho ao tornozelo. Eu me atirei na direção da porta, correndo pelo meio das labaredas.
— Saiam! — gritei, embora duvidasse que alguém pudesse me ouvir. — Saiam agora!
Do lado de fora, atirei-me sobre a grama. Rolei até apagar o fogo da minha calça.
Já dava para ver que os dois andares de cima de Clairmont estavam brilhando com o calor, e o andar térreo estava totalmente incendiado. Quanto ao porão, não dava para saber.
— Gat? Johnny? Mirren? Onde vocês estão?
Nenhuma resposta.
Tentando conter o pânico, disse a mim mesma que eles já deviam ter saído.
Calma. Tudo ia ficar bem. Tinha que ficar.
— Onde vocês estão? — gritei novamente, começando a correr.
Novamente, nenhuma resposta.
Provavelmente estavam no ancoradouro, deixando as latas de gasolina. Não era longe, então corri, gritando o nome deles o mais alto que conseguia. Meus pés descalços batiam na madeira da passagem provocando um eco estranho.
A porta estava fechada. Abri com um empurrão.
— Gat! Johnny? Mirren!
Não havia ninguém lá, mas já podiam estar em Cuddledown, não podiam? Imaginando por que eu estava demorando tanto.
Uma passagem sai do ancoradouro, passa pelas quadras de tênis e leva a Cuddledown. Saí correndo de novo, a ilha estranhamente calma no escuro. Disse a mim mesma repetidas vezes: eles vão estar lá. Esperando por mim. Preocupados comigo.
Vamos rir porque estamos todos a salvo. Vamos cobrir minhas queimaduras com água gelada e achar que tivemos sorte.
Vamos.
Mas, ao chegar lá, vi que as luzes estavam apagadas.
Ninguém estava esperando.
Voltei às pressas para Clairmont e, quando pude vê-la, estava pegando fogo, de cima a baixo. A sala da torre estava queimando, os quartos estavam queimando, as janelas do porão brilhavam em laranja. Tudo quente.
Corri para a entrada do quartinho dos fundos e puxei a porta. A fumaça começou a sair. Tirei o suéter e a calça encharcados de gasolina, engasgando e tossindo. Entrei na cozinha e fui para a escadaria que levava ao porão.
No meio dos degraus havia uma parede de chamas. Uma parede.
Gat não tinha saído. Nem ia sair.
Virei e subi correndo na direção de Johnny e Mirren, mas a madeira queimava sob meus pés.
O corrimão pegou fogo. A escadaria à minha frente desabou, lançando fagulhas.
Cambaleei para trás.
Eu não tinha como subir.
Não tinha como salvá-los.
Não havia lugar nenhum
lugar nenhum
lugar nenhum
lugar nenhum para ir
exceto abaixo.
82
EU ME LEMBRO disso como se estivesse revivendo tudo, sentada nos degraus de Windemere, ainda olhando fixamente para o ponto em que Gat desapareceu na noite. A percepção do que fiz vem na forma de névoa em meu peito, fria, escura e dilatada. Faço cara de dor e me inclino para a frente. A névoa gelada corre do peito para as costas e sobe pelo pescoço. Atinge a cabeça e desce pela coluna.
Frio, frio, remorso.
Eu não devia ter jogado gasolina na cozinha primeiro. Eu não devia ter iniciado o fogo no escritório.
Que idiota eu fui ao encharcar tanto os livros. Qualquer um poderia ter previsto como eles queimariam rápido. Qualquer um.
Devíamos ter combinado o momento certo de atear fogo nos jornais.
Eu devia ter insistido para ficarmos juntos.
Eu nunca devia ter ido verificar o ancoradouro.
Não devia ter corrido para Cuddledown.
Se ao menos eu tivesse voltado mais rápido para Clairmont, talvez pudesse ter tirado Johnny de lá. Ou alertado Gat antes de o porão pegar fogo. Talvez pudesse ter encontrado os extintores de incêndio e dado um jeito de apagar as chamas.
Talvez, talvez.
Se ao menos, se ao menos.
Eu desejava tanta coisa para nós: uma vida livre de pressão e preconceito. Uma vida livre para amar e ser amada.
E, veja só, eu os matei.
Meus Mentirosos, meus queridos.
Eu os matei. Minha Mirren, meu Johnny, meu Gat.
Essa consciência passa da coluna para os ombros e para a ponta dos dedos. Transforma-os em gelo. Eles lascam e quebram, pequenos pedaços estilhaçados nos degraus de Windemere. Rachaduras fragmentam meus braços e sobem pelos ombros e pelo pescoço. Meu rosto está congelado num grunhido de dor de uma bruxa. Mas minha garganta está fechada. Não consigo produzir nenhum som.
Estou congelada, quando merecia queimar.
Eu devia ter me calado em vez de dizer que tínhamos de fazer algo com nossas próprias mãos. Devia ter ficado quieta. Cedido. Conversar por telefone seria o bastante. Logo teríamos carteira de motorista. Logo iríamos para a faculdade e as lindas casas dos Sinclair seriam algo distante e insignificante.
Podíamos ter sido pacientes.
Eu podia ter sido a voz da razão.
Assim, talvez, ao beber o vinho das tias, podíamos ter esquecido nossas ambições. A bebida nos daria sono. Dormiríamos na frente da televisão, zangados e impotentes, quem sabe, mas sem botar fogo em nada.
Não posso desfazer isso.
Arrasto-me para dentro e subo para o quarto apoiada em mãos de gelo rachado, deixando um rastro de cacos do meu corpo congelado. Meus calcanhares, meus joelhos. Debaixo dos cobertores, tremo convulsivamente. Pedaços de mim se partem sobre o travesseiro. Dedos. Dentes. Mandíbula. Clavícula.
Finalmente, finalmente, os tremores param. Começo a me aquecer e derreter.
Choro por minhas tias, que perderam seus primogênitos.
Por Will, que perdeu o irmão.
Por Liberty, Bonnie e Taft, que perderam a irmã.
Por meu avô, que não apenas viu seu castelo se reduzir a cinzas, mas perdeu os netos.
Pelos cães, os pobres cães desobedientes.
Choro pelas reclamações vãs que fiz o verão todo. Por minha vergonhosa autopiedade. Por meus planos para o futuro.
Choro por todas as coisas que doei. Sinto falta do meu travesseiro, dos meus livros, das minhas fotos. Estremeço diante das minhas ilusões de caridade, da minha vergonha mascarada de virtude, das mentiras que contei a mim mesma, dos castigos que impus a mim mesma e à minha mãe.
Choro horrorizada por toda a família ter sido queimada por mim, e por ter sido a causa de tanto sofrimento.
No fim, nós não salvamos o idílio. Ele se foi para sempre, se é que algum dia existiu. Acabamos com a inocência do lugar, daqueles dias em que ainda não conhecíamos a extensão da raiva das tias, antes da morte da minha avó e da deterioração do meu avô.
Antes de virarmos criminosos. Antes de virarmos fantasmas.
As tias se abraçam não por estarem livres do peso de Clairmont e de tudo o que ela simbolizava, mas em decorrência da tragédia, por empatia. Não porque as libertamos, mas porque as destruímos, e elas se uniram diante do horror.
Johnny. Johnny queria correr uma maratona. Queria percorrer quilômetro a quilômetro, provando que seus pulmões não se esgotavam. Provando que ele era o homem que meu avô queria que fosse, provando sua força, apesar de ser tão pequeno.
Seus pulmões se encheram de fumaça. Ele não tem mais nada a provar. Nenhum motivo para correr.
Ele queria ter um carro e comer bolos elaborados que via na vitrine das confeitarias. Queria rir muito, comprar obras de arte e usar roupas elegantes. Suéteres, cachecóis e coisas de lã com listras. Queria fazer um atum de Lego e pendurar como se fosse um animal empalhado. Recusava-se a ser sério, era o extremo oposto, mas era uma pessoa muito comprometida com as coisas que importavam a ele. A corrida. Will e Carrie. Os Mentirosos. Seu senso do que era correto. Ele abriu mão da poupança para a faculdade sem hesitar nem por um segundo para defender seus princípios.
Penso nos braços fortes de Johnny, na listra de protetor solar branco em seu nariz, em quando ficamos mal juntos por causa de hera venenosa e deitamos um do lado do outro na rede, com coceira. Em quando ele fez para mim e para Mirren uma casa de bonecas com papelão e pedras que havia encontrado na praia.
Jonathan Sinclair Dennis, você teria sido uma luz no escuro para tanta gente.
Você foi uma luz. Você foi.
E eu te decepcionei da pior forma possível.
Choro por Mirren, que queria conhecer o Congo. Ela ainda não sabia como queria viver e no que acreditava; estava pesquisando e descobriu que se sentia atraída por aquele lugar. Agora nunca será real para ela, nunca será nada além de fotografias e filmes e histórias publicadas para o entretenimento das pessoas.
Mirren falava muito sobre relação sexual, mas nunca teve uma. Quando éramos mais novas, ficávamos acordadas até tarde, dormindo juntas na varanda de Windemere, em sacos de dormir, rindo e comendo doce. Brigávamos por bonecas Barbie, maquiávamos uma à outra e sonhávamos com o amor. Mirren nunca terá um casamento com rosas amarelas, nem um noivo que a ame o bastante para usar uma faixa amarela ridícula na cintura.
Ela se irritava com facilidade. Era mandona. Mas sempre achava graça disso. Era fácil deixá-la brava, e ela quase sempre estava zangada com Bess e irritada com as gêmeas, mas logo se enchia de arrependimento, resmungando angustiada sobre sua língua afiada. Ela amava sua família, amava a todos, e lia para os irmãos, ajudava-os a fazer sorvete ou lhes dava conchas bonitas que havia encontrado.
Ela não pode mais consertar as coisas.
Ela não queria ser como a mãe. Não queria ser uma princesa. Mas uma exploradora, uma executiva, uma boa samaritana, uma sorveteira… alguma coisa.
Alguma coisa que nunca vai ser, por minha causa.
Mirren, não posso nem pedir desculpas. Não existe uma palavra no Scrabble para descrever como me sinto mal.
E Gat, meu Gat.
Ele nunca irá para a faculdade. Tinha aquela mente ávida, estava constantemente revirando as coisas, não em busca de respostas, mas de compreensão. Ele nunca irá satisfazer sua curiosidade, nunca terminará de ler os cem melhores romances já escritos, nunca será o grande homem que poderia ser.
Ele queria acabar com o mal. Queria expressar sua raiva. Vivia com intensidade, meu corajoso Gat. Não se calava quando as pessoas queriam que se calasse, fazia com que ouvissem, e depois as ouvia também. Recusava-se a levar as coisas na brincadeira, embora sempre tivesse muita facilidade para rir.
Ah, ele me fazia rir. E me fazia pensar, mesmo quando eu não estava com vontade, mesmo quando tinha muita preguiça de prestar atenção.
Gat me deixou sangrar sobre ele e sangrar sobre ele e sangrar sobre ele. Nunca se importou. Queria saber por que eu estava sangrando. Pensava no que podia fazer para curar a ferida.
Ele nunca mais comerá chocolate.
Eu o amava. Eu o amava. Da melhor forma que podia. Mas ele estava certo. Eu não o conhecia direito. Nunca visitarei seu apartamento, nem experimentarei a comida de sua mãe, nem conhecerei seus amigos da escola. Nunca verei a colcha de sua cama nem os pôsteres da parede. Nunca entrarei na lanchonete onde ele comia sanduíche de ovo pela manhã ou a esquina onde prendia a bicicleta com duas correntes.
Nem sei se ele comia sanduíche de ovo e tinha pôsteres. Nem sei se ele tinha bicicleta ou uma colcha sobre a cama. Estou apenas imaginando os suportes para bicicleta na esquina, porque nunca fui para casa com ele, nunca vi sua vida, nunca conheci aquela pessoa que Gat era quando não estava na ilha Beechwood.
Seu quarto agora deve estar vazio. Ele está morto há dois anos.
Nós deveríamos estar.
Nós deveríamos estar.
Eu te perdi, Gat, porque me apaixonei desesperadamente, desesperadamente.
Penso em meus Mentirosos queimando, nos últimos minutos deles, inalando fumaça, a pele em chamas. Como deve ter sido doloroso.
O cabelo de Mirren em chamas. O corpo de Johnny no chão. As mãos de Gat, a ponta dos dedos queimadas, os braços enrugando com o fogo.
No dorso de suas mãos, palavras. Esquerda: Gat. Direita: Cadence.
Minha caligrafia.
Choro por ser a única de nós que ainda está viva. Porque terei de passar pela vida sem os Mentirosos. Porque eles terão de seguir para o que os espera, seja o que for, sem mim.
Eu, Gat, Johnny e Mirren.
Mirren, Gat, Johnny e eu.
Estivemos aqui, este verão.
E não estivemos aqui.
Sim e não.
É minha culpa, minha culpa, minha culpa — e ainda assim eles me amam. Apesar dos pobres cães, apesar da minha tolice e grandiosidade, apesar do nosso crime. Apesar do meu egoísmo, apesar dos meus lamentos, apesar da sorte idiota de ter sido a única que sobrou e da incapacidade de dar valor a isso, quando eles — eles não têm nada. Nada, mais nada, além desse último verão juntos.
Eles disseram que me amavam.
Eu senti no beijo de Gat.
Na risada de Johnny.
Mirren até mesmo gritou para o mar.
ACHO QUE FOI POR ISSO que vieram.
Eu precisava deles.
83
MINHA MÃE bate na porta do meu quarto e chama meu nome.
Não respondo.
Uma hora depois, ela bate de novo.
— Me deixa entrar?
— Vá embora.
— Está com enxaqueca? Só responda isso.
— Não é enxaqueca — digo. — É outra coisa.
— Eu te amo, Cady — ela diz.
Ela diz isso o tempo todo desde que fiquei doente, mas só agora percebo o que ela realmente quer dizer:
Eu te amo apesar do meu luto. Apesar de você ser louca.
Eu te amo apesar do que suspeito que você fez.
— Você sabe que todos nós te amamos, não é? — ela fala do outro lado da porta. — Tia Bess, tia Carrie, vovô e todo mundo? Bess está fazendo a torta de mirtilo que você gosta. Sai do forno em meia hora. Você pode comer no café da manhã. Eu pedi para ela fazer.
Eu me levanto. Vou até a porta e abro uma fresta.
— Diga a Bess que eu agradeço. Só não posso sair agora.
— Você estava chorando — minha mãe diz.
— Um pouco.
— Entendo.
— Desculpe. Sei que quer que eu tome café na casa.
— Não precisa pedir desculpas — minha mãe me diz. — De verdade, você nunca precisa dizer isso, Cady.
84
COMO SEMPRE, não vejo ninguém em Cuddledown até meus pés começarem a fazer barulho nos degraus. Então Johnny aparece na porta, pisando com cuidado sobre o vidro quebrado. Quando vê minha cara, ele para.
— Você lembrou — ele diz.
Confirmo com a cabeça.
— Você lembrou tudo?
— Não sabia se vocês ainda estariam aqui — digo.
Ele estende o braço para segurar minha mão. Parece quente e substancial, embora esteja pálido, desbotado, com bolsas sob os olhos. E jovem.
Ele só tem quinze anos.
— Não podemos ficar por muito mais tempo — Johnny diz. — Está ficando cada vez mais difícil.
Faço um gesto positivo com a cabeça.
— Mirren é quem está pior, mas Gat e eu estamos sentindo também.
— Para onde vocês vão?
— Quando formos embora?
— Ahã.
— Para o mesmo lugar que vamos quando não estamos aqui. O mesmo lugar em que estávamos. É como… — Johnny para, coça a cabeça. — É como um descanso. É como um nada, de certo modo. E, sinceramente, Cady, eu te amo, mas estou cansado pra caralho. Só quero me deitar e acabar com isso. Tudo aconteceu muito tempo atrás, pra mim.
Olho para ele.
— Sinto muito, muito, meu querido Johnny — digo, sentindo as lágrimas bem no fundo dos olhos.
— Não foi culpa sua — diz Johnny. — Quer dizer… nós todos fizemos aquilo, todos enlouquecemos, temos que assumir a responsabilidade. Você não devia carregar todo o peso — ele diz. — Fique triste, sinta pesar, mas não carregue isso nos ombros.
Entramos na casa e Mirren sai do quarto. Eu me dou conta de que ela provavelmente não estava ali até pouco antes de eu passar pela porta. Ela me abraça. Seu cabelo cor de mel está turvo e os cantos da boca parecem secos e rachados.
— Desculpe não ter feito melhor, Cady — ela diz. — Eu tive uma chance de estar aqui e, sei lá, eu adiei as coisas, contei tantas mentiras.
— Está tudo bem.
— Quero ser uma pessoa tolerante, mas ainda sobrou tanta raiva. Imaginei que seria piedosa e sábia, mas acabei com inveja de você, zangada com o resto da família. Estraguei tudo e agora já foi — ela diz, enterrando o rosto em meu ombro.
Coloco meus braços em volta dela.
— Você foi você mesma, Mirren — digo. — Não quero nada além disso.
— Preciso ir agora — ela diz. — Não posso mais ficar aqui. Vou descer para o mar.
Não. Por favor.
Não vá. Não vá embora, Mirren, Mirren.
Preciso de você.
É o que quero dizer, gritar. Mas não faço isso.
E parte de mim quer sangrar pelo chão da sala ou derreter e virar uma poça de tristeza.
Mas também não faço isso. Não reclamo nem peço que tenham pena.
Em vez disso, choro. Choro e aperto Mirren e beijo seu rosto quente e tento memorizar sua fisionomia.
Damos as mãos e nós três caminhamos até a praia pequena.
Gat está lá, esperando por nós. Seu perfil contrasta com o céu iluminado. Eu o verei para sempre desse jeito. Ele se vira e sorri para mim. Corre e me levanta, balançando-me como se houvesse algo para celebrar. Como se fôssemos um casal feliz e apaixonado na praia.
Não estou mais soluçando, mas lágrimas escorrem pelos meus olhos sem cessar. Johnny tira a camisa e me entrega.
— Limpe sua cara melequenta — ele diz com delicadeza.
Mirren tira o vestido de verão e fica ali parada, de biquíni.
— Não acredito que você vestiu um biquíni para isso — diz Gat, ainda me abraçando.
— Louca — acrescenta Johnny.
— Eu amo esse biquíni — diz Mirren. — Comprei em Edgartown no verão dos quinze. Lembra, Cady?
E eu descubro que lembro.
Estávamos extremamente entediadas; os pequenos haviam alugado bicicletas para participar de um passeio em Oak Bluffs e não tínhamos ideia de quando voltariam. Precisávamos esperar para levá-los de volta de barco. Então, sei lá, compramos doces, ficamos olhando o vento agitar as birutas, e finalmente entramos em uma loja para turistas e experimentamos os biquínis mais cafonas que encontramos.
— Está escrito “Vineyard é para os amantes” na bunda — digo a Johnny.
Mirren se vira e mostra.
— Um último momento de glória e tudo mais — ela diz com um quê de amargura.
Mirren se aproxima, dá um beijo no meu rosto e diz:
— Seja um pouco mais gentil do que precisa ser, Cady, e tudo vai ficar bem.
— E nunca coma nada maior do que sua bunda! — grita Johnny. Ele me dá um abraço rápido e chuta os sapatos para longe. Os dois caminham na direção do mar.
Eu me viro para Gat.
— Você também vai?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Sinto muito, Gat — eu digo. — Sinto tanto, tanto, e nunca serei capaz de compensar você.
Ele me beija, posso sentir seu corpo tremendo e o envolvo com os braços como se eu fosse capaz de impedir que desapareça, como se eu pudesse fazer esse momento durar, mas sua pele está fria e molhada de lágrimas e eu sei que ele está partindo.
É bom ser amada, mesmo que não dure.
Era uma vez Gat e eu, e é bom saber disso.
Então ele vai embora, e eu não consigo suportar ficar longe dele, e penso que esse não pode ser o fim. Não pode ser verdade que nunca mais ficaremos juntos, não quando nosso amor é tão real. A história devia ter um final feliz.
Mas não.
Ele está me deixando.
Ele já está morto, é claro.
A história terminou há muito tempo.
Gat corre para o mar sem olhar para trás, mergulhando, de roupa e tudo, passando por baixo das pequenas ondas.
Os Mentirosos saem nadando, passam pela borda da enseada e entram em mar aberto. O sol está a pino e reflete sobre a água, tão brilhante, tão brilhante. E então eles afundam…
ou algo assim…
ou algo assim…
e desaparecem.
Eu fico, lá, na parte sul da ilha Beechwood. Estou na praia pequena, sozinha.
85
DURMO POR UM PERÍODO que pode ter durado dias. Não consigo levantar.
Abro os olhos, está claro.
Abro os olhos, está escuro.
Finalmente me levanto. No espelho do banheiro, meu cabelo não é mais preto. Desbotou e parece um marrom enferrujado, com raízes loiras. Estou com sardas na pele e os lábios queimados de sol.
Não sei ao certo quem é aquela garota no espelho.
Bosh, Grendel e Poppy me seguem para fora de casa, arfando e balançando o rabo. Na cozinha da nova Clairmont, as tias estão fazendo sanduíches para um piquenique. Ginny está limpando a geladeira. Ed está colocando garrafas de limonada e refrigerante em um isopor.
Ed.
Oi, Ed.
Ele acena para mim. Abre uma garrafa de refrigerante e entrega a Carrie. Vasculha o freezer em busca de outro saco de gelo.
Bonnie está lendo e Liberty está cortando tomates. Dois bolos, um marcado como chocolate e o outro como baunilha, estão em caixas de padaria sobre a bancada. Desejo feliz aniversário às gêmeas.
Bonnie levanta os olhos de seu livro Aparições coletivas.
— Está se sentindo melhor? — ela me pergunta.
— Estou.
— Você não parece muito melhor.
— Cala a boca.
— Bonnie é uma cretina e não se pode fazer nada a respeito — diz Liberty. — Mas nós vamos andar de esqui-boia amanhã de manhã, caso queira vir…
— Tudo bem — digo.
— Você não pode dirigir. Nós vamos dirigir.
— Tudo bem.
Minha mãe me abraça, um de seus abraços longos e cheios de preocupação, mas não falo nada para ela.
Ainda não. Talvez não por um tempo.
De qualquer modo, ela sabe que lembrei.
Já sabia quando bateu na minha porta, dava para notar.
Deixo que ela me dê um bolinho que guardou do café da manhã e pego um pouco de suco de laranja na geladeira.
Encontro uma caneta e escrevo nas mãos.
Esquerda: Seja um pouco. Direita: mais gentil.
Do lado de fora, Taft e Will estão brincando no jardim japonês. Estão procurando pedras diferentes. Procuro junto. Eles me dizem para procurar pedras brilhantes e outras que possam ser pontas de flecha.
Quando Taft me dá uma pedra roxa que encontrou, porque se lembra de que eu gosto de pedras roxas, eu a guardo no bolso.
86
MEU AVÔ E EU vamos para Edgartown naquela tarde. Bess insiste em nos levar, mas vai passear sozinha enquanto vamos fazer compras. Encontro lindas bolsas de tecido para as gêmeas e meu avô insiste em comprar um livro de contos de fadas para mim na livraria de Edgartown.
— Então Ed chegou — digo enquanto esperamos para pagar.
— Ahã.
— Você não gosta dele.
— Não muito.
— Mas ele está aqui.
— Está.
— Com Carrie.
— Sim. — Meu avô franze a testa. — Agora pare de me incomodar. Vamos até a loja de doces — ele diz. Então vamos.
É um bom passeio. Ele só me chama de Mirren uma vez.
O ANIVERSÁRIO É COMEMORADO na hora do jantar com bolo e presentes. Taft fica agitado de tanto comer açúcar e rala o joelho caindo de uma pedra grande no jardim. Levo-o até o banheiro para encontrar um curativo.
— Era a Mirren que colocava curativo em mim — ele me diz. — Bem, quando eu era pequeno.
Aperto seu braço.
— Quer que eu coloque o curativo em você agora?
— Cala a boca — ele diz. — Eu já tenho dez anos.
NO DIA SEGUINTE, vou para Cuddledown e olho embaixo da pia da cozinha.
Há esponjas lá e produtos de limpeza com cheiro de limão. Rolos de papel-toalha. Um galão de água sanitária.
Varro os cacos de vidro e as fitas penduradas. Encho sacos com garrafas vazias. Aspiro batatinhas esmagadas. Esfrego o chão grudento da cozinha. Lavo as colchas.
Limpo a sujeira das janelas, guardo os jogos de tabuleiro no armário e limpo o lixo dos quartos.
Deixo os móveis do jeito que Mirren gostava.
Por impulso, pego um bloco de papel quadriculado e uma caneta esferográfica do quarto de Taft e começo a desenhar. Não passam de bonequinhos, mas dá para ver que são meus Mentirosos.
Gat, com seu nariz grande, está sentado de pernas cruzadas, lendo um livro.
Mirren está de biquíni, dançando.
Johnny usa uma máscara de mergulho e segura um caranguejo.
Quando termino, coloco o desenho na geladeira, ao lado dos antigos desenhos de lápis de cor retratando meu pai, minha avó e os cachorros.
87
ERA UMA VEZ um rei que tinha três lindas filhas. Essas filhas cresceram e se tornaram mulheres, e as mulheres tiveram filhos, lindas crianças, muitas, muitas crianças, só que algo ruim aconteceu,
algo idiota,
criminoso,
terrível,
algo que podia ter sido evitado,
algo que nunca deveria ter acontecido,
e ainda assim algo que pôde, com o tempo, ser perdoado.
As crianças morreram em um incêndio — todas menos uma.
Só sobrou uma, e ela…
Não, não está certo.
As crianças morreram em um incêndio, todas exceto três meninas e dois meninos.
Restaram três meninas e dois meninos.
Cadence, Liberty, Bonnie, Taft e Will.
E as três princesas, as mães, desmoronaram de raiva e desespero. Beberam e fizeram compras, jejuaram, limparam e obcecaram. Uniram-se em luto, perdoaram umas às outras e choraram. Os pais também ficaram irados, embora estivessem bem longe; e o rei, ele sucumbiu a uma frágil loucura da qual sua antiga personalidade emergia só de vez em quando.
As crianças eram malucas e tristes. Eram assoladas pela culpa de estarem vivas, por dores de cabeça e medo de fantasmas, assoladas por pesadelos e estranhas compulsões, castigo por estarem vivas quando as outras haviam morrido.
As princesas, os pais, o rei e as crianças esfarelaram-se como casca de ovo, quebradiços e belos, pois sempre foram belos. Era
como se
como se
essa tragédia tivesse marcado o fim da família.
E talvez tenha sido isso.
Mas talvez não.
Eles formavam uma bela família. Ainda.
E sabiam disso. Na verdade, a marca da tragédia tornou-se, com o tempo, uma marca de glamour. Uma marca de mistério e fonte de fascínio para aqueles que viam a família de longe.
“As crianças mais velhas morreram em um incêndio”, dizem os moradores de Burlington, os vizinhos de Cambridge, os pais dos alunos de uma escola particular em Manhattan e os velhinhos de Boston. “A ilha pegou fogo”, dizem. “Lembram o que aconteceu alguns verões atrás?”
As três lindas filhas ficaram ainda mais lindas aos olhos de seus observadores.
E esse fato nunca foi esquecido por elas. Nem por seu pai, mesmo em seu declínio.
E, ainda assim, as crianças que restaram,
Cadence, Liberty, Bonnie, Taft e Will,
sabem que a tragédia não é algo glamoroso.
Sabem que ela não acontece na vida do mesmo modo como no palco ou nas páginas de um livro. Não é um castigo infligido nem uma lição aprendida. Seus horrores não são atribuíveis a uma única pessoa.
A tragédia é feia e complicada, idiota e confusa.
É isso que as crianças sabem.
E elas sabem que as histórias
sobre sua família
são ao mesmo tempo verdade e mentira.
Existem infinitas variações.
E as pessoas continuarão a contá-las.
MEU NOME COMPLETO é Cadence Sinclair Eastman.
Moro em Burlington, Vermont, com minha mãe e três cães.
Tenho quase dezoito anos.
Tenho um cartão de biblioteca bem gasto, um envelope cheio de rosas desidratadas, um livro de contos de fadas e um punhado de lindas pedras roxas. E pouco mais que isso.
Eu sou
a culpada
de um crime tolo e ilusório
que se transformou
em tragédia.
Sim, é verdade que me apaixonei por alguém e que ele morreu, com as duas outras pessoas que eu mais amava no mundo. É o principal a se saber a meu respeito,
a única coisa a se saber a meu respeito por um bom tempo,
embora nem eu soubesse.
Mas deve haver mais.
Haverá mais.
MEU NOME COMPLETO é Cadence Sinclair Eastman.
Aguento enxaquecas. Não aguento idiotas
Gosto de distorcer significados.
Eu suporto.
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