Mentirosos
Parte dois
Vermont
16
QUANDO EU TINHA OITO ANOS, meu pai me deu uma pilha de livros de contos de fadas de Natal. Eles tinham capas coloridas. O livro amarelo dos contos de fadas, O livro azul dos contos de fadas, O vermelho, O verde, O cinza, O marrom e O laranja. Neles, havia contos do mundo todo, variações e mais variações de histórias conhecidas.
Ao ler, ouvem-se ecos de uma história dentro da outra, depois ecos de outra dentro daquela. Muitas têm a mesma premissa: era uma vez, três.
Três alguma coisa:
três porquinhos,
três ursos,
três irmãos,
três soldados,
três cabritos.
Três princesas.
Desde que voltei da Europa, escrevo alguns contos de fadas. Variações.
Tenho tempo, então vou contar uma história. Quer dizer, uma variação de uma história que você já conhece.
ERA UMA VEZ um rei que tinha três lindas filhas.
Conforme envelhecia, ele começou a pensar quem deveria herdar o reino, uma vez que nenhuma delas havia se casado e ele não tinha sucessor. O rei decidiu pedir que as filhas demonstrassem seu amor por ele.
À princesa mais velha, perguntou: “Como define seu amor por mim?”.
Ela o amava na mesma extensão de todo o tesouro do reino.
À princesa do meio, ele perguntou: “Como define seu amor por mim?”.
Ela o amava com a força do ferro.
À princesa mais nova, ele perguntou: “Como define seu amor por mim?”.
A princesa mais nova pensou por um bom tempo antes de responder. Finalmente, disse que o amava da mesma forma que a carne ama o sal.
“Então não me ama nada”, o rei concluiu. Ele expulsou a filha do castelo e suspendeu a ponte para que ela não pudesse voltar.
Então a princesa mais nova vai para a floresta levando apenas um casaco e um filão de pão. Vagueia em meio a um rigoroso inverno, abrigando-se embaixo das árvores. Chega em uma pousada e é contratada como auxiliar de cozinha. Passam-se dias e semanas e a princesa vai aprendendo a cozinhar. Em certo ponto, supera sua empregadora em habilidade e sua comida fica conhecida em toda a região.
Anos se passam e a princesa mais velha se casa. A cozinheira da pousada prepara o banquete do casamento.
Finalmente, um enorme leitão assado é servido. É o prato preferido do rei, mas dessa vez foi preparado sem sal.
O rei prova a carne.
Prova novamente.
“Quem ousa servir um assado tão malfeito no casamento da futura rainha?”, ele grita.
A princesa-cozinheira aparece diante do pai, mas está tão mudada que ele não a reconhece. “Eu nunca serviria sal ao senhor, Vossa Majestade”, ela explica. “Pois não exilou sua filha mais nova por dizer que ele tinha valor?”
Ao ouvir essas palavras, o rei não apenas se dá conta de que aquela é sua filha, mas de que é, na verdade, a filha que o ama mais.
E agora?
A filha mais velha e a do meio viveram com o rei esse tempo todo. Uma era favorecida numa semana, a outra na seguinte. Elas haviam se afastado devido às constantes comparações feitas pelo pai. Agora que a mais nova voltou, o rei tira o reino da mais velha, que acabara de casar. Ela não será rainha, afinal, e fica enfurecida.
A princípio, a mais nova deleita-se com o amor paterno. Em pouco tempo, contudo, percebe que o rei é louco e tem sede de poder. Ela será rainha, mas ao mesmo tempo será obrigada a cuidar de um velho tirano pelo resto de seus dias. Não vai abandoná-lo, não importa o quanto fique doente.
Ela fica porque o ama como a carne ama o sal?
Ou fica porque ele lhe prometeu o reino?
É difícil para ela notar a diferença.
17
NO OUTONO SEGUINTE à viagem para a Europa, comecei um projeto. Dou algo meu todo dia.
Enviei a Mirren pelo correio uma Barbie antiga com cabelo muito comprido, pela qual costumávamos brigar quando éramos crianças. Mandei para Johnny um cachecol listrado que costumava usar muito. Johnny gosta de listras.
Para os mais velhos da família — minha mãe, as tias, o vovô —, o acúmulo de belos objetos é uma meta de vida. Quem morrer com mais coisas ganha.
Ganha o quê? É o que eu gostaria de saber.
Eu era uma pessoa que gostava de coisas bonitas. Assim como minha mãe, como todos os Sinclair. Mas não sou mais assim.
Minha mãe encheu nossa casa em Burlington com prata e cristal, livros de arte e mantas de caxemira. Tapetes grossos cobrem todos os pisos, e quadros de vários artistas locais que ela apadrinha ocupam as paredes. Minha mãe gosta de porcelana antiga e expõe peças na sala de jantar. Trocou o Saab em perfeitas condições por uma BMW.
Nenhum desses símbolos de prosperidade e bom gosto tem utilidade.
— Beleza é uma utilidade válida — minha mãe argumenta. — Cria um senso de pertencimento, de história pessoal. Até mesmo prazer, Cadence. Já ouviu falar de prazer?
Mas eu acho que ela está mentindo, para mim e para si mesma, sobre o motivo de ter esses objetos. O impacto de uma nova compra faz minha mãe se sentir poderosa, mesmo que apenas por um instante. Acho que há status em ter uma casa cheia de coisas bonitas, em comprar caríssimas pinturas de conchas de seus amigos com pretensões artísticas e colheres da Tiffany. Antiguidades e tapetes orientais dizem às pessoas que minha mãe pode ser só uma criadora de cães que abandonou o curso de artes em Bryn Mawr, mas tem poder — porque tem dinheiro.
DOAÇÃO: meu travesseiro. Eu o levo quando saio.
Há uma menina encostada no muro da biblioteca. Ela tem um copo perto dos tornozelos, para os trocados. Não é muito mais velha do que eu.
— Quer esse travesseiro? — pergunto. — Lavei a fronha.
Ela pega e senta em cima dele.
Não fiquei confortável na minha cama aquela noite, mas foi por um bom motivo.
DOAÇÃO: exemplar de Rei Lear, que li quando estava no segundo ano, encontrado debaixo da cama.
Doado para a biblioteca pública.
Não preciso ler de novo.
DOAÇÃO: uma foto da vovó Tipper em uma festa do Instituto Agrícola, usando um vestido de festa e segurando um leitão.
Paro no Exército de Salvação a caminho de casa.
— Olá, Cadence — diz Patti do outro lado do balcão. — Veio trazer alguma coisa?
— Essa era minha avó.
— Ela era uma linda mulher — diz Patti, espiando. — Tem certeza de que não quer tirar a foto? Pode doar apenas a moldura.
— Tenho certeza.
Vovó morreu. Ter uma foto dela não vai mudar nada.
— VOCÊ FOI no Exército de Salvação de novo? — minha mãe pergunta quando chego em casa. Ela está fatiando pêssegos com uma faca especial para frutas.
— Fui.
— Do que se livrou?
— Só uma foto velha da vovó.
— Com o leitão? — Ela torce os lábios. — Ah, Cady.
— Era minha, eu podia fazer o que quisesse.
Minha mãe suspira.
— Se doar um dos cães, vai ouvir um sermão eterno.
Eu me agacho na altura dos cães. Bosh, Grendel e Poppy me cumprimentam com latidos baixos, adequados para o interior da casa. São os cães de nossa família, distintos e bem-educados. Golden retrievers de raça pura. Poppy deu várias crias para o canil da minha mãe, mas os filhotes e os outros cães reprodutores moram com seu sócio em uma fazenda perto de Burlington.
— Eu nunca faria isso — digo.
Sussurro o quanto os amo em suas orelhas macias de cachorro.
18
SE EU PESQUISAR no Google “traumatismo cranioencefálico”, a maioria dos sites me diz que amnésia seletiva é uma consequência. Quando há dano cerebral, não é incomum um paciente esquecer coisas. Será incapaz de reconstituir um relato coerente do trauma.
Mas não quero que as pessoas saibam que sou assim. Que ainda sou assim, depois de todas as consultas, todas as tomografias e todos os medicamentos.
Não quero ser rotulada. Não quero mais remédios. Não quero médicos ou professores preocupados. Só Deus sabe como já tive médicos suficientes.
O que me lembro do verão do acidente:
Me apaixonar por Gat na porta da cozinha de Red Gate.
A rosa japonesa que ele pegou para Raquel e minha noite regada a vinho, girando de raiva.
Agir normalmente. Fazer sorvete. Jogar tênis.
Sanduíches de marshmallow de três andares e Gat zangado quando o mandamos calar a boca.
Nadar à noite.
Beijar Gat no sótão.
Ouvir a história da pipoca doce e ajudar meu avô a descer as escadas.
O balanço de pneu, a trilha da costa. Gat e eu abraçados.
Gat me vendo sangrar. Fazendo perguntas. Fazendo curativos nas minhas feridas.
Não me lembro de muito mais.
Posso ver a mão de Mirren, seu esmalte dourado descascado, segurando um galão de gasolina para os barcos.
Minha mãe com o rosto franzido, perguntando: “As pérolas negras?”.
Os pés de Johnny correndo pelas escadas de Clairmont até o ancoradouro.
Meu avô, segurando-se em uma árvore, o rosto iluminado pelo brilho de uma fogueira.
E nós, os quatro Mentirosos, rindo a ponto de ficarmos tontos e enjoados. Mas o que era tão engraçado?
O que era, e onde estávamos?
Não sei.
Costumava perguntar à minha mãe quando não me lembrava do resto do verão dos quinze. Meu esquecimento me assustava. Eu sugeria parar com os remédios, tentar outros, outro médico. Implorava para saber o que tinha esquecido. Então, um dia no fim do outono — o outono que passei fazendo exames para doenças fatais —, minha mãe começou a chorar.
— Você me pergunta sem parar. Nunca se lembra do que eu digo.
— Desculpe.
Ela se serviu de uma taça de vinho enquanto falava.
— Começou a perguntar no dia em que acordou no hospital. “O que aconteceu? O que aconteceu?” Contei a verdade, Cadence, sempre contei. E você repetia para mim. Mas, no dia seguinte, perguntava de novo.
— Desculpe — eu disse novamente.
— Você ainda me pergunta quase todos os dias.
É verdade, eu não tenho lembranças do acidente. Não me lembro do que aconteceu antes e depois. Não me lembro das consultas médicas. Sei que devem ter acontecido, porque é claro que aconteceram — e cá estou com um diagnóstico e medicamentos —, mas quase todo o meu tratamento médico é um vazio.
Olhei para minha mãe. Para seu rosto zangado e preocupado, seus olhos molhados, o relaxamento vacilante de sua boca.
— Você precisa parar de perguntar — ela disse. — Os médicos acham mesmo que é melhor você lembrar sozinha.
Obriguei-a a me contar uma última vez e anotei as respostas para poder consultar quando quisesse. É por isso que consigo contar sobre o acidente quando fui nadar à noite, as rochas, a hipotermia, dificuldade respiratória, e o não confirmado traumatismo cranioencefálico.
Nunca mais perguntei nada a ninguém. Tem muita coisa que não entendo, mas assim ela permanece sóbria.
19
MEU PAI PRETENDE ME LEVAR para a Austrália e para a Nova Zelândia durante todo o verão dos dezessete.
Não quero ir.
Quero voltar para Beechwood. Quero ver Mirren e deitar no sol, planejando nosso futuro. Quero brigar com Johnny, ir mergulhar e fazer sorvete. Quero acender fogueiras na praia pequena. Quero que a gente se empilhe na rede da varanda de Clairmont e volte a ser os Mentirosos, se possível.
Quero me lembrar do acidente.
Quero saber por que Gat desapareceu. Não sei por que ele não estava nadando comigo. Não sei por que fui até a praia pequena sozinha. Por que nadei de calcinha e sutiã e não deixei nenhuma roupa na areia. E por que ele foi embora quando me machuquei.
Fico imaginando se ele me amava. Se amava Raquel.
Meu pai e eu vamos viajar para a Austrália em cinco dias.
Eu não devia ter concordado.
Fico lamentando, chorando. Digo à minha mãe que não preciso ver o mundo. Preciso ver minha família. Estou com saudade do meu avô.
Não.
Vou ficar doente se viajar para a Austrália. Minha cabeça vai explodir, eu não devia entrar no avião. Não devia comer nada estranho. Não devia sofrer com jet lag. E se perdermos meus medicamentos?
Pare de discutir. A viagem já está paga.
Saio para passear com os cachorros de manhã. Coloco a louça na máquina e depois guardo. Coloco um vestido e passo blush no rosto. Como tudo o que está no prato. Deixo minha mãe me envolver com os braços e acariciar meu cabelo. Digo que quero passar o verão com ela, não com meu pai.
Por favor.
No dia seguinte, meu avô vem a Burlington e fica no quarto de hóspedes. Estava na ilha desde meados de maio e teve que pegar um barco, um carro e um avião para vir até aqui. Ele não vinha nos visitar desde antes de minha avó Tipper morrer.
Minha mãe vai buscá-lo no aeroporto. Eu fico em casa e arrumo a mesa para o jantar. Ela comprou frango assado e acompanhamentos em uma rotisseria no centro.
Meu avô emagreceu desde a última vez que o vi. O cabelo branco sobressai como nuvens ao redor das orelhas; tufos. Ele parece um passarinho. Sua pele está solta ao redor de sua figura e ele está encurvado e barrigudo, diferente de como eu me lembrava dele. Sempre pareceu invencível, com ombros firmes e largos e muitos dentes.
Meu avô é do tipo de pessoa que tem lemas. “Não aceite não como resposta”, ele sempre nos dizia. E “Nunca sente nos fundos da sala. Vencedores sentam na frente”.
Nós, os Mentirosos, costumávamos revirar os olhos quando ele fazia essas declarações — “Seja resoluto, ninguém gosta de gente evasiva”; “Nunca reclame, nunca explique” —, mas ainda o víamos como alguém cheio de sabedoria em assuntos dos adultos.
Meu avô está de bermuda xadrez e mocassim. Suas pernas são pernas finas de velho. Ele dá um tapinha nas minhas costas e pede um uísque com refrigerante.
Comemos e ele fala sobre alguns de seus amigos de Boston. A nova cozinha de sua casa em Beechwood. Nada importante. Depois, minha mãe arruma tudo enquanto mostro a ele o jardim dos fundos. O sol de fim de tarde ainda está lá.
Meu avô pega uma peônia e a entrega a mim.
— Para minha primeira neta.
— Não arranque as flores, está bem?
— Penny não vai se importar.
— Vai, sim.
— Cadence foi a primeira — ele diz, olhando para o céu, não em meus olhos. — Eu me lembro de quando foi nos visitar em Boston. Vestia um macacão cor-de-rosa e seu cabelo estava arrepiado. Johnny só nasceu três semanas depois.
— Eu estou bem aqui, vô.
— Cadence foi a primeira e não importava que fosse menina. Eu lhe daria tudo. Assim como a um neto homem. Eu a peguei nos braços e dancei. Ela era o futuro da família.
Aceno com a cabeça.
— Dava para ver que ela era uma Sinclair. Tinha aquele cabelo, mas não era só isso. Era o queixo, as mãozinhas. Sabíamos que seria alta. Todos éramos altos até Bess se casar com aquele sujeito baixinho e Carrie cometer o mesmo erro.
— Você quer dizer Brody e William.
— Que bom que nos livramos deles, não é? — Meu avô sorri. — Todo o nosso pessoal era alto. Você sabia que o lado da minha mãe veio no Mayflower? Para fazer a vida nos Estados Unidos.
Sei que não é importante nossa família ter vindo no Mayflower. Não é importante ser alto. Ou loiro. Foi por isso que tingi o cabelo. Não quero ser a mais velha. Herdeira da ilha, da fortuna e das expectativas.
Mas, também, talvez eu queira.
Meu avô bebeu demais depois de um longo dia de viagem.
— Vamos entrar? — perguntei. — Quer se sentar?
Ele pega uma segunda peônia e a entrega a mim.
— Perdão, minha querida.
Dou um tapinha em suas costas arqueadas.
— Não arranque mais nenhuma, está bem?
Meu avô se abaixa e toca em algumas tulipas brancas.
— Sério, não faça isso — eu digo.
Ele pega uma terceira peônia, de forma abrupta, provocativa. Entrega-a para mim.
— Você é minha Cadence. A primeira.
— Sim.
— O que aconteceu com seu cabelo?
— Eu pintei.
— Nem te reconheci.
— Não faz mal.
Meu avô aponta para as peônias, agora todas na minha mão.
— Três flores para você. Você devia ter três.
Ele parece patético. Parece poderoso.
Eu o amo, mas não sei ao certo se gosto dele. Pego em sua mão e o levo para dentro.
20
ERA UMA VEZ um rei que tinha três lindas filhas. Ele amava muito todas elas. Um dia, quando as jovens estavam em idade de se casar, um terrível dragão de três cabeças dominou o reino, incendiando vilas com seu sopro ardente. Destruiu plantações e queimou igrejas. Matou bebês, idosos e todos que estavam entre um e outro.
O rei prometeu a mão de uma princesa em casamento a quem matasse o dragão. Heróis e guerreiros se apresentaram usando armaduras, montando cavalos corajosos e carregando espadas e flechas.
Um por um, esses homens foram massacrados e devorados.
Finalmente, o rei considerou que uma donzela talvez pudesse derreter o coração do dragão e ser bem-sucedida na missão em que guerreiros haviam fracassado. Ele enviou sua filha mais velha para implorar misericórdia ao dragão, que não escutou nem uma palavra de seus apelos. Engoliu-a inteira.
Então o rei enviou sua segunda filha para implorar misericórdia ao dragão, mas a criatura fez o mesmo. Engoliu-a antes que dissesse uma palavra.
O rei enviou sua filha mais nova para implorar misericórdia ao dragão, e ela era tão adorável e esperta que ele tinha certeza de que seria bem-sucedida, embora as outras tivessem perecido.
De jeito nenhum. O dragão simplesmente a devorou.
O rei ficou sofrendo, arrependido. Estava sozinho no mundo.
Agora, deixe-me perguntar uma coisa: quem matou as garotas?
O dragão? Ou o rei?
DEPOIS QUE MEU AVÔ vai embora, no dia seguinte, minha mãe liga para meu pai e cancela a viagem para a Austrália. Há gritaria. Há negociação.
No fim, resolvem que vou passar quatro semanas em Beechwood no verão, depois vou visitar meu pai em sua casa no Colorado, onde nunca estive. Ele insiste. Não vai perder o verão inteiro que passaria comigo, ou vai acionar o advogado.
Minha mãe liga para minhas tias. Tem uma conversa longa e privada com elas na varanda de nossa casa. Não consigo ouvir nada além de algumas frases: Está tão frágil, precisa descansar muito. Só quatro semanas, não o verão inteiro. Nada deve incomodar Cadence, a cura é muito gradual.
E também pinot grigio, Sancerre, talvez um pouco de riesling; nada de chardonnay.
21
MEU QUARTO AGORA está quase vazio. Há lençóis e um edredom na minha cama. Um laptop na escrivaninha, algumas canetas. Uma cadeira.
Tenho algumas calças jeans e alguns shorts. Tenho camisetas e camisas de flanela, alguns suéteres quentes; um biquíni, um par de tênis, um par de Crocs e um par de botas. Dois vestidos e sapatos de salto. Casaco quente, jaqueta de náilon e casaco de lona.
As prateleiras estão vazias. Nenhuma foto, nenhum pôster. Nenhum brinquedo antigo.
*
DOAÇÃO: um kit de escovar os dentes para viagem que minha mãe comprou ontem.
Eu já tenho escova de dentes. Não sei por que ela comprou outra. Essa mulher compra coisas apenas por comprar. É revoltante.
Caminho até a biblioteca e encontro a menina que ficou com meu travesseiro. Ela ainda está encostada no muro. Coloco o kit em seu copo.
DOAÇÃO: jaqueta verde-oliva de Gat. Aquela que usei na noite em que ficamos de mãos dadas olhando as estrelas e conversando sobre Deus. Nunca devolvi.
Devia ter sido a primeira coisa doada. Sei disso. Mas não consegui. Era tudo o que me restava dele.
Fui fraca e idiota. Gat não me ama.
Também não o amo, talvez nunca tenha amado.
Vou vê-lo depois de amanhã e não o amo nem quero sua jaqueta.
22
O TELEFONE TOCA às dez da noite antes de irmos para Beechwood. Minha mãe está no banho. Eu atendo.
Respiração pesada. Depois uma risada.
— Quem é?
— Cady?
É uma criança, eu percebo.
— Sim.
— Aqui é o Taft. — O irmão da Mirren. Ele é mal-educado.
— Por que está acordado a essa hora?
— É verdade que você é viciada em drogas? — Taft me pergunta.
— Não.
— Tem certeza?
— Está ligando para perguntar se sou viciada em drogas? — Eu não falava com Taft desde o acidente.
— Estamos em Beechwood — ele diz. — Chegamos hoje de manhã.
Fico feliz por ele mudar de assunto. Coloco animação na voz.
— Nós vamos amanhã. O tempo está bom? Vocês já foram nadar?
— Não.
— Brincaram no balanço de pneu?
— Não — disse Taft. — Tem certeza de que não é viciada em drogas?
— De onde você tirou essa ideia?
— Bonnie. Ela disse que eu tinha que tomar cuidado com você.
— Não dê ouvidos a Bonnie — eu disse. — Ouça Mirren.
— É isso que estou dizendo. Bonnie é a única que acredita no que eu falo sobre Cuddledown — ele diz. — Então eu quis ligar para você. Mas não se você for viciada em drogas, porque os viciados em drogas não sabem o que está acontecendo.
— Não sou viciada em drogas, seu pestinha — eu digo, embora talvez estivesse mentindo.
— Cuddledown é mal-assombrada — diz Taft. — Posso ir dormir com você em Windemere?
Eu gosto de Taft. Gosto mesmo. Ele é meio doido e coberto de sardas, e Mirren o ama mais do que ama as gêmeas.
— A casa não é mal-assombrada. É que tem bastante corrente de ar — expliquei. — Em Windemere também. As janelas batem.
— Então Windemere também é mal-assombrada — Taft diz. — Minha mãe não acredita em mim, nem Liberty.
Quando ele era mais novo, era aquele que sempre achava que havia monstros dentro do armário. Mais tarde, convenceu-se de que havia um monstro marinho no cais.
— Peça para Mirren te ajudar — eu digo a ele. — Ela vai ler uma história ou cantar para você na hora de dormir.
— Você acha?
— Claro que sim. E quando eu chegar aí te levo para brincar de esqui-boia e mergulhar. Vai ser um belo verão, Taft.
— Tá bom — ele diz.
— Não fique com medo da velha e idiota Cuddledown — eu digo a ele. — Mostre quem manda e eu te vejo amanhã.
Ele desliga sem se despedir.