Mentirosos

E. Lockhart · Capítulo 3 de 5 · parte 1/3

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Mentirosos

Parte três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Verão dos dezessete

23

EM WOODS HOLE, a cidade portuária, minha mãe e eu deixamos os cachorros saírem do carro e arrastamos as malas até o cais, onde tia Carrie nos espera.

Ela dá um abraço demorado na minha mãe antes de nos ajudar a colocar as malas e os cães no grande barco a motor.

— Você está mais linda do que nunca — tia Carrie diz. — E que bom que veio.

— Ah, fique quieta — diz minha mãe.

— Sei que andou doente — Carrie diz para mim. Ela é a mais alta das minhas tias, e a mais velha. Seu suéter de caxemira é comprido. As rugas nas laterais da boca são profundas. Está usando joias antigas de jade que pertenceram à minha avó.

— Não tem nada de errado comigo que oxicodona e uns goles de vodca não curem — respondo.

Carrie ri, mas minha mãe se aproxima dela e diz:

— Ela não está tomando oxicodona. Está usando um medicamento que não causa dependência, prescrito pelo médico.

Não é verdade. Os medicamentos que não causam dependência não funcionaram.

— Ela parece magra demais — diz Carrie.

— É por causa da vodca — eu digo. — Tira meu apetite.

— Ela não consegue comer muito quando está com dor — diz minha mãe. — Fica com náusea.

— Bess fez aquela torta de mirtilo que você gosta — me diz tia Carrie. Ela dá outro abraço na minha mãe.

— Vocês estão se abraçando tanto de uma hora para a outra — eu digo. — Nunca foram assim.

Tia Carrie me abraça também. Seu cheiro é de um perfume cítrico caro. Eu não a via fazia muito tempo.

A saída do porto é fria e lampejante. Eu sento na traseira do barco enquanto minha mãe fica ao lado da tia Carrie atrás do timão. Encosto a mão na água. Ela espirra na manga do meu casaco, ensopando a lona.

Logo verei Gat.

Gat, meu Gat, que não é meu Gat.

As casas. Os pequenos, as tias, os Mentirosos.

Ouvirei o som das gaivotas, comerei bolo invertido e torta e sorvete caseiro. Ouvirei o pongue das bolas de tênis, o latido dos cachorros, o eco da minha respiração no snorkel. Acenderemos fogueiras com cheiro de cinzas.

Ainda vou me sentir em casa?

Em pouco tempo, Beechwood está diante de nós. Seu contorno familiar se aproxima. A primeira casa que vejo é Windemere com seus telhados pontiagudos. Aquele quarto do lado direito é da minha mãe, com cortinas azul-claras. Minha janela dá para a parte interna da ilha.

Carrie vira o barco e consigo ver Cuddledown no ponto mais baixo do terreno, sua estrutura gorducha e quadrada. Uma minúscula baía arenosa — a praia pequena — fica no fim de uma longa escadaria de madeira.

A vista muda conforme damos a volta pelo leste da ilha. Não dá para ver Red Gate direito entre as árvores, mas vislumbro o acabamento vermelho. Depois a praia maior, acessada por meio de outra escadaria de madeira.

Clairmont fica no ponto mais alto, com vista para o mar em três direções. Estico o pescoço para olhar para sua simpática torre — mas ela não está lá. As árvores que costumavam fazer sombra no grande e íngreme pátio também se foram. No lugar da casa vitoriana de seis quartos, varanda cercada e cozinha de fazenda, no lugar da casa em que meu avô passou todos os verões desde sempre, vejo uma construção elegante e moderna sobre uma colina rochosa. Há um jardim japonês de um lado, pedras expostas do outro. A casa é vidro e ferro. Fria.

Carrie desliga o motor, facilitando a conversa.

— Aquela é a nova Clairmont — ela diz.

— Era apenas um esqueleto ano passado. Nunca pensei que ele fosse ficar sem um gramado — diz minha mãe.

— Espere até ver lá dentro. As paredes estão vazias e, quando chegamos aqui ontem, não tinha nada na geladeira além de umas maçãs e um pedaço de Havarti.

— Desde quando ele gosta de Havarti? — pergunta minha mãe. — Nem é um bom queijo.

— Ele não sabe fazer compras. Ginny e Lucille, a nova cozinheira, só fazem o que ele manda. Está comendo pão com queijo. Mas eu fiz uma lista enorme e elas foram ao mercado de Edgartown. Agora temos o bastante para alguns dias.

Minha mãe tem um calafrio.

— Que bom que estamos aqui.

Olho para a casa nova enquanto elas conversam. Sabia que meu avô havia reformado a casa, é claro. Ele e minha mãe conversaram sobre a nova cozinha quando foi nos visitar, alguns dias antes. A geladeira e o freezer extra, a estufa e as prateleiras de temperos.

Não havia me dado conta de que ele tinha derrubado a casa. Que o gramado já era. E as árvores, principalmente a velha e gigantesca acerácea com o balanço de pneu. Devia ter uns cem anos.

Uma onda surge, azul-escura, saltando no mar como uma baleia. Forma um arco sobre mim. Os músculos do meu pescoço se contraem, minha garganta fecha. Eu me curvo sob o peso dela. O sangue corre para minha cabeça. Estou me afogando.

Tudo parece tão triste, tão insuportavelmente triste por um instante, pensar na adorável acerácea com o balanço. Nunca dissemos à árvore o quanto a amávamos. Nunca lhe demos um nome, nunca fizemos nada por ela. Podia ter vivido muito mais.

Estou com tanto, tanto frio.

— Cadence? — Minha mãe está debruçada sobre mim.

Encontro sua mão e a agarro.

— Aja como uma pessoa normal — ela sussurra. — Agora mesmo.

— O quê?

— Porque você é. Porque você pode ser.

Está bem. Está bem. Era apenas uma árvore.

Apenas uma árvore com um balanço de pneu de que eu gostava muito.

— Não faça escândalo — sussurra minha mãe. — Respire e endireite-se.

Faço o que ela pede assim que consigo, como sempre.

Tia Carrie nos distrai, falando empolgada.

— O novo jardim é agradável depois que você se acostuma com ele — diz. — Tem uma área com assentos para os drinques. Taft e Will estão encontrando pedras especiais.

Ela vira o barco na direção da praia e de repente consigo ver meus Mentirosos esperando, não no cais, mas junto à cerca de madeira desgastada que acompanha a costa.

Mirren está com os pés na metade de baixo da barreira, acenando com alegria, o cabelo chicoteando ao vento.

Mirren. Ela é açúcar. Ela é curiosidade e chuva.

Johnny pula para cima e para baixo, de vez em quando virando uma estrela.

Johnny. Ele é estalo. Ele é iniciativa e sarcasmo.

Gat, meu Gat, era uma vez meu Gat — ele também saiu para me ver. Está afastado das ripas da cerca, sobre a colina rochosa que agora leva a Clairmont. Está fingindo que é um sinalizador, balançando os braços em padrões elaborados como se eu tivesse que entender algum tipo de código secreto. Ele é contemplação e entusiasmo. Ambição e café forte.

Bem-vinda ao lar, eles estão dizendo. Bem-vinda ao lar.

24

OS MENTIROSOS NÃO VÃO AO CAIS quando chegamos, nem tia Bess e meu avô. Ali estão apenas os pequenos: Will e Taft, Liberty e Bonnie.

Os meninos, ambos com dez anos, chutam um ao outro e brincam de luta. Taft vem correndo e agarra meu braço. Eu o pego e giro. Fico surpresa com sua leveza, como se seu corpo sardento fosse de um passarinho.

— Está se sentindo melhor? — pergunto.

— Tem picolé no freezer! — ele grita. — De três sabores diferentes!

— Estou falando sério, Taft. Você estava perturbado no telefone ontem à noite.

— Não estava.

— Estava, sim.

— Mirren leu uma história para mim. Depois eu dormi. Sem problemas.

Bagunço seu cabelo cor de mel.

— É só uma casa. Muitas casas parecem assustadoras à noite, mas de manhã voltam a ser agradáveis.

— Nem estamos mais ficando em Cuddledown mesmo — Taft diz. — Mudamos para a nova Clairmont, com o vovô.

— Ah, é?

— Temos que ficar comportados lá e não agir como idiotas. Já levamos nossas coisas. E Will pegou três águas-vivas na praia maior e também um caranguejo morto. Você vai lá ver?

— É claro.

— Ele está com o caranguejo no bolso, mas as águas-vivas estão em um balde com água — diz Taft, e depois sai correndo.

 

MINHA MÃE E EU caminhamos pela ilha até Windemere, uma curta distância pela passagem de madeira. As gêmeas ajudam com as malas.

Meu avô e tia Bess estão na cozinha. Há flores do campo em vasos sobre a bancada, e Bess esfrega a pia limpa com palha de aço enquanto meu avô lê o Martha’s Vineyard Times.

Bess é mais delicada que as irmãs, e mais loira, mas saiu do mesmo molde. Usa jeans branco, uma blusa de algodão azul-marinho e diamantes. Ela tira as luvas de borracha, beija minha mãe e me dá um abraço longo demais, apertado demais, como se estivesse tentando abraçar uma mensagem profunda e secreta. Ela tem cheiro de água sanitária e vinho.

Meu avô levanta, mas não atravessa o cômodo até Bess terminar o abraço.

— Olá, Mirren — ele diz com jovialidade. — Bom ver você.

— Ele está fazendo isso toda hora — Carrie diz para mim e para minha mãe. — Chama todo mundo de Mirren.

— Sei que ela não é Mirren — meu avô diz.

Os adultos ficam conversando e eu saio com as gêmeas. Elas estão esquisitas de Crocs e vestidos de verão. Já devem ter quase catorze anos. Têm as pernas fortes de Mirren e os olhos azuis, mas o rosto fino.

— Seu cabelo está preto — diz Bonnie. — Você parece uma vampira morta.

— Bonnie! — Liberty dá um tapa nela.

— Bom, é redundante, porque todos os vampiros estão mortos — diz Bonnie. — Mas eles têm olheiras escuras e pele branca, como você.

— Seja legal com a Cady — Liberty sussurra. — Mamãe mandou.

— Estou sendo legal — diz Bonnie. — Muitos vampiros são bonitos. É um fato comprovado.

— Eu disse que não queria que você ficasse falando sobre coisas mortas e assustadoras durante o verão — afirma Liberty. — Já foi ruim o bastante ontem à noite. — Ela se vira para mim. — Bonnie está obcecada com a morte. Fica lendo livros sobre isso o tempo todo e depois não consegue dormir. É irritante, porque dormimos no mesmo quarto. — Liberty diz tudo isso sem olhar nos meus olhos.

— Eu estava falando do cabelo da Cady — diz Bonnie.

— Mas não precisava falar que ela parece morta.

— Não faz mal — digo a Bonnie. — Na verdade, não me importo com o que você acha, então está tudo bem.

25

TODO MUNDO VAI para a nova Clairmont, me deixando sozinha com minha mãe em Windemere para desfazer as malas. Deixo a minha de lado e vou procurar os Mentirosos.

De repente, eles estão em cima de mim como cachorrinhos. Mirren me abraça e me gira. Johnny abraça Mirren, Gat abraça Johnny. Estamos todos abraçados, pulando. Depois estamos separados novamente, indo para Cuddledown.

Mirren fala sem parar sobre como está feliz porque Bess e os pequenos vão passar o verão com o vovô. Ele agora precisa ficar com alguém. Fora isso, é impossível ficar perto de Bess e sua compulsão por limpeza. E ainda mais importante: os Mentirosos vão ter Cuddledown só para si. Gat diz que vai fazer um chá, porque é seu novo vício. Johnny o chama de idiota arrogante. Acompanhamos Gat até a cozinha. Ele coloca água para ferver.

É um redemoinho, todos falando ao mesmo tempo, discutindo com alegria, exatamente como nos velhos tempos. Gat quase não olhou para mim, no entanto.

Não consigo parar de olhar para ele.

Ele é tão lindo. Tão Gat. Conheço o arco de seu lábio inferior, a força de seus ombros. O modo como enfia a camisa mais ou menos dentro da calça jeans, como seus sapatos são desgastados no calcanhar, como ele toca a cicatriz que tem na sobrancelha sem nem perceber.

Estou tão zangada. E tão feliz em vê-los.

Ele deve ter seguido com a vida, como qualquer pessoa equilibrada faria. Gat não tinha passado os últimos dois anos em uma carapaça de dor de cabeça e autopiedade. Está saindo com meninas de Nova York que usam sapatilha, levando-as para comer comida chinesa e assistir shows. Se não estiver com Raquel, provavelmente tem uma namorada, ou até mais, no lugar onde mora.

— Seu cabelo mudou — Johnny me diz.

— É.

— Mas você ficou bonita — diz Mirren, com doçura.

— Ela está tão alta — diz Gat, ocupando-se com caixas de chá preto e de jasmim, entre outros. — Você não era tão alta, era, Cady?

— A gente cresce — eu digo. — Não é culpa minha. — Há dois verões, Gat era vários centímetros mais alto do que eu. Agora estamos quase da mesma altura.

— Sou a favor do crescimento — diz Gat, ainda sem olhar na minha cara. — Só não fique mais alta do que eu.

Ele está me paquerando?

Está.

— Johnny sempre me deixa ser o mais alto — Gat continua. — Nunca reclama disso.

— Como se eu tivesse outra opção — resmunga Johnny.

— Ela ainda é nossa Cady — diz Mirren com devoção. — Também devemos estar diferentes para ela.

Mas não estão. Estão iguais. Gat usando uma camiseta verde desbotada de dois verões atrás. Com seu sorriso espontâneo, o modo como se inclina para a frente, o nariz grande.

Johnny com seus ombros largos, vestindo jeans e uma camisa xadrez cor-de-rosa tão velha que as bordas estão esfiapadas; unhas roídas, cabelo curto.

Mirren, como uma pintura pré-rafaelita, aquele queixo quadrado dos Sinclair. Cabelo longo e fios grossos enrolados no alto da cabeça, usando a parte de cima de um biquíni e shorts.

É reconfortante. Eu os amo.

Será que vão se importar com o fato de eu não conseguir me lembrar nem de acontecimentos básicos envolvendo o acidente? Perdi tanta coisa do que fizemos juntos no verão dos quinze. Fico me perguntando se as tias ficaram falando a meu respeito.

Não quero que olhem para mim como se eu estivesse doente. Ou como se minha cabeça não estivesse funcionando.

— Conte da faculdade — diz Johnny. Ele está sentado sobre a bancada da cozinha. — Em qual você vai estudar?

— Nenhuma ainda. — Essa é uma verdade que não posso evitar. Estou surpresa por eles não estarem sabendo.

— O quê?

— Por quê?

— Não terminei a escola. Perdi muita aula depois do acidente.

— Ah, que droga! — grita Johnny. — Isso é terrível. Não pode fazer aulas de recuperação?

— Só se eu não viesse para cá. Além disso, terei mais chances de entrar na faculdade depois de cursar todas as matérias direito.

— O que você vai estudar? — Gat pergunta.

— Vamos falar sobre outra coisa.

— Mas nós queremos saber — diz Mirren. — Todos queremos.

— É sério — eu digo. — Vamos mudar de assunto. Como anda sua vida amorosa, Johnny?

— Uma droga.

Ergo as sobrancelhas.

— Quando se é tão lindo como eu, nunca é tranquilo — ele ironiza.

— Tenho um namorado chamado Drake Loggerhead — afirma Mirren. — Ele entrou na faculdade de Pomona, assim como eu. Tivemos relações sexuais várias vezes, mas sempre com proteção. Ele me dá rosas amarelas toda semana e tem belos músculos.

Johnny cospe o chá. Gat e eu rimos.

— É sério? — Johnny pergunta.

— Sim — responde Mirren. — Qual é a graça?

— Nenhuma. — Johnny sacode a cabeça.

— Estamos saindo há cinco meses — diz Mirren. — Ele está passando o verão em um programa de treinamento ao ar livre, assim vai ter mais músculos da próxima vez que nos encontrarmos!

— Você só pode estar brincando — diz Gat.

— Só um pouco — diz Mirren. — Mas eu o amo.

Aperto a mão dela. Estou feliz porque tem alguém para amar.

— Depois vou perguntar sobre as relações sexuais — eu a alerto.

— Quando os meninos não estiverem aqui eu conto tudo — ela diz.

Deixamos as xícaras de chá na cozinha e descemos para a praia pequena. Tiramos os sapatos e afundamos os dedos na areia. Há conchas minúsculas e afiadas.

— Não vou jantar na nova Clairmont — diz Mirren de maneira conclusiva. — Nem tomar café da manhã. Este ano não.

— Por que não? — pergunto.

— Eu não aguento — ela diz. — As tias. Os pequenos. Vovô. Ele está meio lelé, sabia?

Confirmo com a cabeça.

— É muita gente junta. Só quero ser feliz com vocês, aqui — diz Mirren. — Não vou ficar naquela casa nova e fria. Eles estão bem sem mim.

— Digo o mesmo — diz Johnny.

— Eu também — diz Gat.

Percebo que eles discutiram a ideia antes de eu chegar.

26

MIRREN E JOHNNY entram na água com snorkels e nadadeiras. Nadam à procura de lagostas. Provavelmente só vão encontrar águas-vivas e pequenos caranguejos, mas, mesmo com pouca opção, sempre mergulhamos na praia pequena. Sempre.

Gat fica sentado comigo sobre um cobertor de batique. Observamos os outros em silêncio.

Não sei como falar com ele.

Eu o amo.

Ele se provou um idiota.

Eu não devia amá-lo. Sou burra por ainda amá-lo. Tenho que esquecer isso.

Talvez ele ainda me ache bonita. Mesmo com meu cabelo e as olheiras. Talvez.

Os músculos de suas costas se movimentam sob a camiseta. A curvatura de seu pescoço, o arco suave de sua orelha. Uma pintinha marrom do lado do pescoço. As lúnulas nas unhas. Eu o absorvo depois de tanto tempo longe.

— Não olhe meus pés de ogro — Gat diz de repente.

— O quê?

— São horrorosos. Um ogro entrou no meu quarto à noite, pegou meus pés normais e me deixou com esses pés horrendos de ogro. — Gat escondeu os pés sob uma toalha para que eu não pudesse vê-los. — Agora você sabe a verdade.

Fico aliviada por conversar sobre banalidades.

— Use sapatos.

— Não vou usar sapatos na praia. — Ele descobre os pés. Parecem normais. — Tenho que agir como se estivesse tudo bem até encontrar aquele ogro. Depois vou matar a criatura e pegar meus pés de volta. Você tem alguma arma?

— Não.

— Fala sério.

— Hum. Tem um atiçador de lareira em Windemere.

— Certo. Assim que o vir, vamos matar o ogro com seu atiçador de lareira.

— Já que insiste.

Eu me deito sobre o cobertor e coloco o braço sobre os olhos. Ficamos em silêncio por um momento.

— Ogros são noturnos — acrescento.

— Cady? — Gat sussurra.

Eu me viro e olho em seus olhos.

— O que foi?

— Achei que não fosse te ver nunca mais.

— O quê?

Ele está tão perto que poderíamos nos beijar.

— Achei que não fosse te ver nunca mais. Depois de tudo o que aconteceu, e quando você não veio no verão passado.

Por que não me escreveu?, sinto vontade de dizer. Por que não me ligou esse tempo todo?

Ele toca meu rosto.

— Estou tão feliz por você estar aqui — Gat diz. — Estou tão feliz por ter essa chance.

Não sei o que acontece entre a gente. Não sei mesmo. Ele é tão idiota.

— Me dê a mão — Gat diz.

Não sei se quero.

Mas, ao mesmo tempo, é claro que quero.

Sua pele é quente e arenosa. Entrelaçamos os dedos e fechamos os olhos contra o sol.

Só ficamos ali deitados. De mãos dadas. Ele esfrega o polegar na palma da minha mão, como fez dois verões antes sob as estrelas.

E eu derreto.

27

MEU QUARTO EM WINDEMERE é coberto de painéis de madeira pintados de creme. Há uma colcha verde de retalhos sobre a cama. O tapete é como aqueles feitos de trapo que se vê em pousadas do interior.

Você esteve aqui há dois verões, digo a mim mesma. Neste quarto, todas as noites. Neste quarto, todas as manhãs.

É provável que estivesse lendo, jogando no iPad, escolhendo roupas. Do que se lembra?

Nada.

Belas gravuras de botânica ocupam as paredes, além de algumas obras de minha autoria: uma aquarela da acerácea que costumava ocupar o gramado de Clairmont e dois desenhos feitos com lápis de cor, um da vovó Tipper com seus cachorros, Príncipe Philip e Fatima, e outro do meu pai. Arrasto o cesto de roupas de vime para fora do armário, tiro todas as imagens e as enfio no cesto.

Há uma prateleira cheia de livros, infantojuvenis e de fantasia, que eu gostava de ler alguns anos atrás. Histórias de criança que li centenas de vezes. Pego todos e empilho no corredor.

— Vai doar os livros? Você ama livros — minha mãe diz. Ela está saindo do quarto, usando roupas limpas para o jantar. Batom.

— Podemos doar para alguma biblioteca — eu digo. — Ou para o Exército de Salvação.

Minha mãe se abaixa e folheia os livros.

— Lemos Vida encantada juntas, você lembra?

Faço que sim com a cabeça.

— E esse também: As vidas de Christopher Chant. Você tinha oito anos. Queria ler tudo, mas ainda não sabia direito, então eu lia para você e para Gat durante horas e horas.

— E Johnny e Mirren?

— Eles não aguentavam ficar parados — disse minha mãe. — Não quer guardar esses?

Ela estica o braço e toca meu rosto. Eu recuo.

— Quero que tudo tenha um lar melhor — digo a ela.

— Esperava que você se sentisse diferente quando voltássemos para a ilha. Só isso.

— Você se livrou de todas as coisas do papai. Comprou um sofá novo, louça nova, joias novas.

— Cady.

— Não tem nada na casa inteira que diga que ele já morou com a gente, exceto eu. Por que você pode apagar meu pai e eu não posso…?

— Apagar você mesma? — minha mãe diz.

— Outras pessoas podem usar isso — respondo, apontando para a pilha de livros. — Pessoas que realmente precisem. Você não pensa em fazer o bem?

Naquele momento, Poppy, Bosh e Grendel sobem as escadas correndo e ocupam todo o corredor em que estamos, fuçando nossas mãos, abanando os rabos peludos na altura de nossos joelhos.

Minha mãe e eu ficamos em silêncio.

Finalmente, ela diz:

— Não tem problema se você ficar vagando pela praia pequena, ou seja lá o que fez essa tarde. Não tem problema se doar seus livros, já que sente tanta necessidade. Mas eu te espero em Clairmont para o jantar em uma hora, com um sorriso no rosto para seu avô. Sem discussão. Sem desculpa. Entendeu?

Faço que sim.

28

SOBROU UM BLOCO de vários verões atrás, quando eu e Gat ficamos obcecados com papel quadriculado. Fazíamos um desenho atrás do outro, preenchendo os quadradinhos com lápis de cor para fazer retratos pixelados.

Encontro uma caneta e anoto todas as lembranças que tenho do verão dos quinze.

Sanduíches de marshmallow, nadar. O sótão, a interrupção.

A mão de Mirren, com esmalte dourado descascado, segurando um galão de gasolina para os barcos.

Minha mãe com o rosto franzido, perguntando: “As pérolas negras?”.

Os pés de Johnny correndo pelas escadas de Clairmont até o ancoradouro.

Meu avô, segurando-se em uma árvore, o rosto iluminado pelo brilho de uma fogueira.

E nós, os quatro Mentirosos, rindo tanto a ponto de ficarmos tontos e enjoados.

Pego uma página separada para o acidente em si. O que minha mãe me disse e o que imagino. Devo ter ido nadar sozinha na praia pequena. Bati a cabeça em uma pedra. Devo ter lutado para voltar à costa. Tia Bess e minha mãe me deram chá. Fui diagnosticada com hipotermia, problemas respiratórios e um traumatismo cranioencefálico que nunca apareceu nas tomografias.

Colo as páginas na parede, acima da minha cama. Acrescento post-its com perguntas.

Por que entrei na água sozinha à noite?

Onde estavam minhas roupas?

Realmente tive traumatismo cranioencefálico nadando, ou aconteceu alguma outra coisa? Alguém poderia ter me golpeado antes? Fui vítima de algum crime?

E o que aconteceu entre mim e Gat? Nós brigamos? Eu o ofendi?

Ele deixou de me amar e voltou para Raquel?

Decido que tudo o que descobrir nas quatro semanas seguintes vai ficar sobre minha cama em Windemere. Vou dormir sob as anotações e as analisar todas as manhãs.

Talvez uma imagem se forme nos quadradinhos.

 

UMA BRUXA ESTÁ PARADA atrás de mim há algum tempo, esperando um momento de fraqueza. Ela segura a estátua de um ganso em marfim. É minuciosamente esculpida. Eu me viro e a admiro por um instante até que ela balança o objeto com uma força chocante. Ela me acerta, abrindo um buraco na minha testa. Posso sentir o osso se soltar. A bruxa ataca com a estátua mais uma vez e me atinge sobre a orelha direita, esmagando meu crânio. Desfere um golpe atrás do outro, até pequenos flocos de osso espalharem-se sobre a cama e se misturarem com pedacinhos lascados da estátua, antes tão bela.

Encontro meus remédios e apago a luz.

— Cadence? — minha mãe grita do corredor. — O jantar está servido na nova Clairmont.

Não posso ir.

Não posso. Não vou.

Minha mãe promete café para me ajudar a ficar acordada enquanto os medicamentos estão em meu corpo. Diz que faz tempo que as tias não me veem, que os pequenos também são meus primos, afinal. Eu tenho obrigações familiares.

Só consigo sentir a fratura em meu crânio e a dor no meu cérebro. Todo o resto é um pano de fundo desbotado.

Finalmente, ela sai sem mim.

29

TARDE DA NOITE, a casa produz ruídos — exatamente o que estava assustando Taft em Cuddledown. Todas as casas fazem isso por aqui. São antigas, e a ilha é golpeada por ventos marítimos.

Tento voltar a dormir.

Não.

Desço as escadas e vou até a varanda. Minha cabeça parece bem agora.

Tia Carrie está na passagem, na direção contrária de onde estou, usando camisola e um par de botas forradas de pelo. Parece muito magra, com os ossos do peito expostos e as maçãs do rosto fundas.

Vira na passagem de madeira que leva a Red Gate.

Eu me sento, olhando fixamente para ela. Respirando o ar da noite e escutando as ondas. Alguns minutos depois ela aparece no acesso a Cuddledown novamente.

— Cady — ela diz, parando e cruzando os braços diante do peito. — Está se sentindo melhor?

— Sinto muito por ter perdido o jantar — digo. — Estava com dor de cabeça.

— Tem jantar toda noite, o verão inteiro.

— Não consegue dormir?

— Ah, você sabe. — Carrie coça o pescoço. — Não consigo dormir sem Ed. Não é bobo?

— Não.

— Comecei a caminhar. É um bom exercício. Você viu Johnny?

— Não no meio da noite.

— Às vezes ele levanta junto comigo. Está vendo ele?

— Você pode ver se a luz do quarto dele está acesa.

— Will tem uns pesadelos terríveis — Carrie diz. — Ele acorda gritando e depois não consigo voltar a dormir.

Estremeço em meu moletom.

— Quer uma lanterna? — pergunto. — Tem uma lá dentro.

— Ah, não. Gosto do escuro.

Ela sobe o monte novamente com passos pesados.

30

MINHA MÃE ESTÁ NA COZINHA da nova Clairmont com meu avô. Eu os vejo pelas portas de vidro.

— Acordou cedo — ela diz quando entro. — Está se sentindo melhor?

Meu avô está vestindo um roupão xadrez. Minha mãe usa um vestido de verão decorado com pequenas lagostas. Ela está fazendo café expresso.

— Quer um bolinho? A cozinheira fez bacon também. — Ela atravessa a cozinha e deixa os cães entrarem em casa. Bosh, Grendel e Poppy abanam o rabo e babam. Minha mãe se abaixa e limpa a pata deles com um pano úmido, depois, distraidamente, limpa o chão onde suas patas enlameadas deixaram marcas. Eles sentam de um jeito desajeitado, gracioso.

— Onde está Fatima? — pergunto. — Onde está Príncipe Philip?

— Eles se foram — diz minha mãe.

— O quê?

— Seja gentil com ela — diz meu avô. Ele se vira para mim. — Eles morreram há algum tempo.

— Os dois?

Meu avô faz que sim com a cabeça.

— Sinto muito. — Eu me sento ao lado dele na mesa. — Eles sofreram?

— Não por muito tempo.

Minha mãe traz um prato de bolinhos de framboesa e um prato de bacon para a mesa. Pego um bolinho e passo manteiga e mel.

— Ela costumava ser loirinha. Uma Sinclair dos pés à cabeça. — Meu avô reclama para minha mãe.

— Falamos sobre meu cabelo quando foi nos visitar — lembro a ele. — Não espero que goste. Avôs nunca gostam de cabelo tingido.

— Você é a mãe. Devia obrigar Mirren a voltar ao cabelo de antes — meu avô diz para minha mãe. — O que aconteceu com as loirinhas que corriam por essa casa?

Minha mãe suspira.

— Nós crescemos, pai — ela diz. — Nós crescemos.

31

DOAÇÕES: desenhos da infância, gravuras de botânica.

Pego meu cesto de roupa suja em Windemere e vou até Cuddledown. Mirren me encontra na varanda, saltitando.

— É tão incrível estar na ilha! — ela diz. — Nem acredito que estou aqui de novo.

— Você esteve aqui no verão passado.

— Não foi a mesma coisa. Não foi o idílio de verão que costumávamos ter. A nova Clairmont estava em obras. Todo mundo estava agindo de forma deprimente e eu fiquei te esperando, mas você não veio.

— Eu te falei que estava indo para a Europa.

— Ah, eu sei.

— Escrevi várias vezes — digo. A frase sai em tom de reprovação.

— Odeio e-mail! — diz Mirren. — Li todos, mas não pode ficar brava comigo por não responder. Parece lição de casa, ficar digitando e olhando para a tela idiota do telefone ou do computador.

— Você recebeu a boneca que eu te mandei?

Mirren me abraça.

— Senti tanto sua falta. Você nem consegue imaginar.

— Eu te mandei aquela Barbie. Aquela de cabelo comprido pela qual costumávamos brigar.

— Princesa Caramelo?

— É.

— Eu era louca pela Princesa Caramelo.

— Você me bateu com ela uma vez.

— Você mereceu! — Mirren saltita alegremente. — Ela está em Windemere?

— O quê? Não. Eu te mandei pelo correio — digo. — Durante o inverno.

Mirren olha para mim com a testa franzida.

— Eu não recebi, Cadence.

— Alguém assinou o recebimento do pacote. O que sua mãe fez? Enfiou em um armário sem abrir?

Estou brincando, mas Mirren faz um gesto de confirmação.

— Talvez. Ela é compulsiva. Tipo, lava as mãos várias vezes. E obriga Taft e as gêmeas a fazer o mesmo. Limpa como se houvesse um lugar especial no céu para pessoas com o piso da cozinha impecável. Ela também bebe muito.

— Minha mãe também.

Mirren concorda.

— Não suporto nem olhar.

— Perdi alguma coisa durante o jantar de ontem?

— Eu não fui. — Mirren segue para a passagem de madeira que vai de Cuddledown à praia pequena. Eu vou atrás. — Falei que nesse verão não iria. Por que você não veio para cá?

— Estava me sentindo mal.

— Sabemos que você tem enxaqueca — diz Mirren. — As tias andaram falando.

Eu me contorço.

— Não sinta pena de mim, está bem? Nunca. Isso me dá arrepios.

— Você não tomou seus remédios ontem à noite?

— Eles me derrubaram.

Chegamos à praia pequena. Nós duas estamos descalças sobre a areia úmida. Mirren toca a concha de um caranguejo morto há tempos.

Quero contar a ela que tenho problemas de memória, que tenho traumatismo cranioencefálico. Quero perguntar tudo que aconteceu no verão dos quinze, obrigá-la a me contar as histórias que minha mãe não quer contar, ou não sabe. Mas lá está Mirren, radiante. Não quero que ela sinta ainda mais pena de mim.

Além disso, ainda estou zangada pelos e-mails que não respondeu — e pela perda daquela Barbie idiota, embora não tenha certeza de que a culpa tenha sido dela.

— Johnny e Gat estão em Red Gate ou dormiram em Cuddledown? — pergunto.

— Cuddledown. Minha nossa, como eles são relaxados. É como morar com duendes.

— Obrigue os dois a voltar para Red Gate, então.

— De jeito nenhum. — Mirren ri. — E quanto a você, nada de Windemere, está bem? Vai ficar com a gente?

Faço que não com a cabeça.

— Minha mãe não deixou. Pedi hoje de manhã.

— Como assim? Ela precisa deixar!

— Ela não sai do meu pé desde que fiquei doente.

— Mas já se passaram quase dois anos.

— É. Ela fica me olhando enquanto durmo. Além disso, me deu um sermão sobre passar um tempo com vovô e com os pequenos. Tenho que me conectar com a família. Colocar um sorriso no rosto.

— Quanta bobagem. — Mirren me mostra um punhado de pedrinhas roxas que coletou. — Pegue.

— Não, obrigada. — Não quero nada de que não precise.

— Por favor, fique com elas — diz Mirren. — Eu lembro que você sempre procurava pedras roxas quando éramos pequenas. — Ela estica a mão na minha direção, com a palma para cima. — Quero compensar pela Princesa Caramelo. — Há lágrimas em seus olhos. — E pelos e-mails — acrescenta. — Quero te dar alguma coisa, Cady.

— Então tudo bem — digo. Faço uma concha com as mãos e deixo Mirren despejar as pedras. Guardo-as no bolso da frente do moletom.

— Eu te amo! — ela grita, depois se vira e grita para o mar. — Eu amo minha prima Cadence Sinclair Eastman!

— Não está exagerando? — É Johnny, descendo os degraus com os pés descalços, vestindo pijamas velhos de flanela com listras grossas. Está usando óculos escuros e protetor solar branco no nariz, como um salva-vidas.

Mirren fecha a cara, mas apenas por um instante.

— Estou expressando meus sentimentos, Johnny. É assim que fazem os seres humanos que vivem e respiram. Não sabia?

— Está bem, ser humano que vive e respira — ele diz, batendo de leve no ombro dela. — Mas não precisa ser tão barulhenta a essa hora da manhã. Temos o verão inteiro pela frente.

Ela faz beicinho.

— Cady só vai ficar quatro semanas.

— Não posso brigar com vocês tão cedo — diz Johnny. — Ainda não tomei meu chá arrogante. — Ele se abaixa e olha dentro do cesto de roupa suja que está aos meus pés. — O que tem aí?

— Gravuras de botânica e uns desenhos antigos.

— Por quê?

Johnny senta sobre uma pedra e eu me acomodo ao lado dele.

— Estou doando minhas coisas — digo. — Desde setembro. Lembra que eu te mandei o cachecol listrado?

— Ah, sim.

Falo sobre dar as coisas para pessoas que possam usá-las, encontrando o lar certo para elas. Falo sobre caridade e sobre questionar o materialismo da minha mãe.

Quero que Johnny e Mirren me entendam. Não sou alguém digna de pena, com uma mente instável e estranhas crises de dor. Estou assumindo o controle da minha vida. Vivo de acordo com meus princípios. Tomo atitudes e faço sacrifícios.

— Você não quer, sei lá, ter coisas? — Johnny me pergunta.

— Como o quê?

— Ah, eu quero coisas o tempo todo — diz Johnny, abrindo bem os braços. — Um carro. Jogos de videogame. Casacos de lã caros. Gosto de relógios, eles são tão retrô. Quero arte de verdade para as paredes, obras de pessoas famosas que nunca poderia ter, nem em um milhão de anos. Bolos elaborados que vejo na vitrine das confeitarias. Suéteres, cachecóis. Coisas de lã com listras, em geral.

— Ou você poderia querer lindos desenhos que fez quando era criança — afirma Mirren, ajoelhando ao lado do cesto de roupa suja. — Recordações. — Ela pega o desenho da minha vó com os cachorros feito com lápis de cor. — Veja, essa é a Fatima e esse é Príncipe Philip.

— Você sabe a diferença?

— É claro. Fatima tinha o focinho gorducho e a cara mais larga.

— Minha nossa, Mirren. Você é tão sentimental — Johnny diz.

32

GAT CHAMA MEU NOME quando estou subindo para a passagem que leva à nova Clairmont. Eu me viro e ele está correndo na minha direção, usando calça de pijama azul, sem camisa.

Gat. Meu Gat.

Ele vai ser meu Gat?

Para na minha frente, ofegante. O cabelo está arrepiado, amassado do travesseiro. Os músculos do abdome são torneados e ele parece muito mais nu do que se estivesse de sunga.

— Johnny disse que você estava na praia pequena — ele ofega. — Fui te procurar lá primeiro.

— Você acabou de acordar?

Gat esfrega a nuca. Olha para o que está vestindo.

— Mais ou menos. Queria alcançar você.

— Para quê?

— Vamos até a costa.

Andamos até lá como fazíamos quando crianças. Gat na minha frente e eu atrás. Subimos um morro baixo, depois fazemos a curva na casa dos empregados, seguindo para onde o porto de Vineyard fica visível, perto do ancoradouro.

Gat se vira tão de repente que quase trombo com ele. Antes que eu consiga recuar, seus braços estão ao meu redor. Ele me puxa para junto de seu peito e enterra o rosto em meu pescoço. Passo meus braços descobertos em volta de seu torso, a parte interna dos pulsos contra sua coluna. Ele está quente.

— Não pude te abraçar ontem — Gat sussurra. — Todo mundo te abraçou, menos eu.

Tocá-lo é algo conhecido e desconhecido.

Já estivemos aqui antes.

E também nunca estivemos aqui antes.

Por um instante,

ou por minutos,

por horas, possivelmente,

estou simplesmente feliz, aqui, com o corpo de Gat sob minhas mãos. O som das ondas e de sua respiração em meu ouvido. Contente por ele querer estar perto de mim.

— Você se lembra de quando viemos aqui juntos? — ele pergunta com a boca em meu pescoço. — Quando fomos até aquela pedra lisa?

Eu me afasto. Porque não lembro.

Odeio a porra da minha mente retalhada, o fato de estar doente o tempo todo, o quanto fiquei debilitada. Odeio ter perdido minha beleza, repetido de ano na escola, deixado de praticar esportes e passado a ser cruel com minha mãe. Odeio o quanto ainda o quero depois de dois anos.

Talvez Gat queira ficar comigo. Talvez. Mas é mais provável que só esteja me procurando para dizer que não fez nada de errado quando me deixou há dois verões. Ele quer que eu diga que não estou brava. Que ele é um cara ótimo.

Mas como posso perdoá-lo se nem sei exatamente o que ele fez?

— Não — respondo. — Devo ter apagado da minha mente.

— Nós, você e eu, nós. Foi um momento importante.

— De qualquer jeito, não lembro — digo. — E, é claro, nada que tenha acontecido entre nós foi muito importante no fim das contas, não é?

Ele olha para as próprias mãos.

— Certo. Sinto muito. Isso foi bem abaixo do padrão. Você está zangada?

— É claro que estou zangada — eu digo. — Dois anos sumido. Sem ligar nem escrever de volta e piorando tudo me ignorando. Agora você vem com essa de “Oh, achei que nunca mais fosse te ver”, e fica pegando na minha mão, e “Todo mundo te abraça menos eu”, e caminhadas seminuas pela costa. É abaixo do padrão demais, Gat. Se você quer falar nesses termos.

Ele fecha a cara.

— Parece terrível quando você diz dessa forma.

— É, bem, é assim que eu vejo.

Ele passa a mão no cabelo.

— Estou fazendo tudo errado — ele diz. — O que me diria se eu pedisse para começar de novo?

— Minha nossa, Gat.

— O quê?

— Peça de uma vez. Não pergunte o que eu diria se você pedisse.

— Está bem, estou pedindo. Podemos começar de novo? Por favor, Cady? Vamos começar de novo depois do almoço. Vai ser incrível. Vou fazer comentários divertidos e você vai rir. Vamos sair para caçar ogros. Vamos ficar felizes quando nos encontrarmos. Você vai achar que sou ótimo, prometo.

— É uma promessa e tanto.

— Certo, talvez não ótimo, mas pelo menos não abaixo do padrão.

— Por que falar assim? Por que não dizer o que você realmente é? Insensível, enganador, manipulador?

— Meu deus. — Gat fica pulando de agitação. — Cadence! Eu realmente preciso recomeçar do zero. Isso está passando de “abaixo do padrão” a “uma completa droga”. — Ele pula e fica chutando como um garotinho zangado. Os pulos me fazem sorrir.

— Está bem — digo a ele. — Vamos começar de novo. Depois do almoço.

— Certo — ele diz, e para de pular. — Depois do almoço.

Ficamos nos encarando por um instante.

— Vou sair correndo agora — diz Gat. — Não leve para o lado pessoal.

— Tudo bem.

— É melhor para o recomeço se eu correr. Porque andar vai ser estranho.

— Eu disse que tudo bem.

— Tudo bem então.

E ele sai correndo.

33

VOU ALMOÇAR na nova Clairmont uma hora depois. Sei que minha mãe não vai tolerar minha ausência depois de ter perdido o jantar da noite anterior. Meu avô me mostra a casa enquanto a cozinheira prepara a comida e as tias reúnem os pequenos.

É um lugar elegante. Piso de madeira brilhante, janelas enormes, tudo em linhas retas. Os corredores de Clairmont costumavam ser decorados do chão ao teto com fotografias de família em banco e preto, pinturas de cachorros, estantes, e a coleção de cartuns da New Yorker do meu avô. Os corredores da nova Clairmont são vidro de um lado e vazio do outro.

Meu avô abre as portas dos quatro quartos de hóspedes no andar de cima. Todos estão mobiliados apenas com camas e cômodas baixas e largas. As janelas têm cortinas brancas que deixam entrar um pouco de luz. Não há estampa nas colchas; são apenas em tons refinados de azul ou marrom.

O quarto dos pequenos tem alguma vida. Taft tem jogos no chão, uma bola de futebol, livros sobre bruxos e órfãos. Liberty e Bonnie trouxeram revistas e um tocador de MP3. Tem pilhas dos livros de Bonnie sobre caçadores de fantasmas, médiuns e anjos perigosos. A cômoda está lotada de maquiagem e frascos de perfume. Há raquetes de tênis no canto.

O quarto do meu avô é maior que os outros e tem a melhor vista. Ele me leva até lá e me mostra o banheiro, cujo chuveiro tem barras de apoio. Barras para velhos, para ele não cair.

Continuar: parte 2 de 3