Merrick

Anne Rice · Capítulo 6 de 8

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Merrick

Capítulo 20

 

DEIXEI-A ENRODILHADA NA CAMA DE GRANDE NANANNE NO QUARTO DA frente.

Voltei ao jardim, recolhi os pedaços quebrados do perfurador de jade e encontrei a máscara partida ao meio. Como era frágil esse jade forte. Como tinham sido más minhas intenções! Como tinha sido terrível o resultado!

Esses objetos eu trouxe comigo para dentro de casa. Não consegui me forçar a pôr as mãos supersticiosas no crânio de Mel ao Sol.

Coloquei a coleção de fragmentos de jade no altar do quarto, em meio às velas protegidas por vidro, e então me acomodei perto dela, sentado ao seu lado e a enlacei com um braço.

Ela se virou e encostou a cabeça no meu ombro. Sua pele estava terna e febril. Senti vontade de cobri-la de beijos, mas não podia me entregar a esse impulso, da mesma forma que não podia me entregar ao impulso mais sinistro de, pelo sangue, harmonizar o ritmo do seu coração ao do meu.

Havia sangue seco por todo o seu vestido de seda branca e na parte interna do braço direito.

— Eu nunca deveria ter feito isso, nunca — disse ela, numa voz abafada e ansiosa, com os seios cedendo macios ao encostar em mim. — Foi loucura. Eu sabia o que iria acontecer. Eu sabia que o cérebro de Louis alimentaria o desastre. Eu sabia. E agora ele está perdido. Está ferido e perdido, fora do nosso alcance.

Levantei-a para poder olhar nos seus olhos. Como sempre, o brilho do seu verde me espantou e me fascinou, mas eu não podia me envolver com seus encantos agora.

— Mas você acredita mesmo que fosse Claudia? — perguntei.

— Acredito, sim — disse ela. Os olhos ainda estavam vermelhos em torno da borda por ter chorado. Eu via as lágrimas paradas ali. — Era Claudia — afirmou ela. — Ou essa coisa que agora se chama Claudia, mas as palavras que disse? Era tudo mentira.

— Como você pode saber isso?

— Do mesmo jeito que sei quando um ser humano está me mentindo. Do mesmo jeito que sei quando alguém leu o pensamento do outro e está se aproveitando da fraqueza do outro. O espírito foi hostil, uma vez chamado para nosso universo. O espírito estava confuso. Ele contou mentiras.

— Não tive a impressão de que estivesse mentindo — argumentei.

— Você não percebe? — disse ela. — O espírito tomou de Louis os piores temores e pensamentos mórbidos para usar como material. A mente de Louis estava repleta dos instrumentos verbais pelos quais ele poderia concretizar seu próprio desespero. Agora ele encontrou sua condenação. E seja lá ele o que for, ser fantástico, horror, monstro maldito, agora está perdido. Fora do nosso alcance.

— Por que o espírito não poderia estar dizendo a pura verdade? — perguntei.

— Nenhum espírito diz a pura verdade — insistiu ela. Enxugou os olhos avermelhados com as costas da mão. Dei-lhe meu lenço de cambraia. Ela o apertou contra os olhos. Depois, olhou para mim novamente.

— Não quando ele é chamado, não diz. Diz a verdade somente quando vem pela própria vontade.

Meditei sobre essa idéia. Eu a ouvira antes. Todos os membros da Talamasca a tinham ouvido. Espíritos que são chamados são traiçoeiros. Espíritos que surgem sozinhos possuem alguma vontade que os guia. Mas no fundo não se pode confiar em nenhum espírito. Tratava-se de conhecimento antigo. Não me proporcionava nem conforto nem clareza naquele exato momento.

— Quer dizer que a descrição da eternidade — disse eu — era falsa, é isso o que você está dizendo?

— É — disse ela —, é exatamente isso o que estou dizendo. — Ela limpou o nariz com o lenço. Começou a tremer. — Mas ele nunca vai admitir isso. — Ela abanou a cabeça. — As mentiras são muito parecidas com aquilo em que ele acredita piamente.

Não falei. As palavras do espírito estavam muito próximas daquilo em que eu no fundo acreditava também.

Ela encostou a cabeça no meu peito mais uma vez, com o braço frouxo em torno de mim. Eu a segurava, com os olhos fixos no altar menor diante de mim, entre as janelas da frente, fitando o rosto paciente dos vários santos.

Uma disposição de espírito tranqüila e perigosa abateu-se sobre mim, na qual eu via com bastante clareza todos os longos anos da minha vida. Um aspecto permanecia constante durante a jornada, quer eu fosse o rapaz nos templos do candomblé no Brasil, quer eu fosse o vampiro rondando as ruas de Nova York na companhia de Lestat. Esse aspecto constante era que, por mais que eu tivesse afirmado o contrário, eu suspeitava de não haver nada além desta vida terrena.

É claro que de vez em quando eu me dispunha a ter outro tipo de “crença”. Apresentava a mim mesmo argumentos com milagres aparentes — ventos de natureza espiritual e o jorro do sangue de vampiros. Mas em última análise meu temor era que não existisse nada, nada talvez além das “trevas incomensuráveis” que aquele espectro, aquele espectro perverso e encolerizado, tinha descrito.

É, estou dizendo que acredito que talvez possamos nos demorar. É claro. Demorar-se após a morte por algum tempo não é algo que esteja fora do alcance de explicação da ciência um dia — uma alma de substância definível, isolada da carne e presa em algum campo de energia que envolve o planeta. Não está além da capacidade da imaginação. Não, de modo algum. Mas não significa a imortalidade. Não significa que exista um Paraíso ou um Inferno. Não significa justiça ou reconhecimento. Não significa êxtase ou dor interminável.

Quanto aos vampiros, eles eram um milagre vistoso, mas considerem como esse milagre é implacavelmente materialista e como é restrito.

Imaginem a noite em que um de nós for capturado e fixado meticulosamente à mesa no laboratório, talvez alojado num tanque de plástico aeroespacial, protegido do sol, noite e dia sob a claridade oscilante de lâmpadas fluorescentes.

Ele ali permaneceria, esse indefeso espécime do Nosferatu, sangrando em seringas e provetas, enquanto médicos dariam à nossa longevidade, à nossa imutabilidade, à nossa ligação com algum espírito opressor e eterno um longo nome científico em latim.

Amel — aquele espírito antigo que os mais velhos entre nós dizem organizar nosso corpo e ligar um ao outro —, um dia ele seria classificado como alguma força muito semelhante àquela que organiza a minúscula formiga no seu vasto e complexo formigueiro, ou as maravilhosas abelhas em sua colméia delicada e de uma sofisticação impossível.

Se eu morresse, talvez não houvesse nada. Se eu morresse, talvez houvesse apego à terra. Se eu morresse, talvez nunca chegasse a saber o que aconteceria com minha alma. As luzes ao meu redor — cujo calor o espírito da criança tinha mencionado com tanto escárnio —, o calor simplesmente desapareceria.

Abaixei a cabeça. Apertei com força as têmporas com os dedos da mão esquerda, enquanto meu braço direito abraçava Merrick, que parecia tão preciosa, tão frágil.

Meu pensamento voltou acelerado ao feitiço sinistro e ao espírito luminoso da criança no seu meio. Voltou ao momento em que seu braço se ergueu, em que Merrick gritou e foi jogada para trás. Voltou aos olhos e lábios maravilhosamente realizados da criança, e a voz baixa e melodiosa que vinha dela. Voltou à aparente confirmação da própria visão.

Naturalmente, poderia ter sido o desespero de Louis que abasteceu sua fonte de desgraças. Poderia ter sido o meu próprio. Até que ponto eu mesmo queria acreditar nos eloqüentes anjos de Lestat ou no vislumbre que Armand teve do cristalino esplendor celestial? Até que ponto eu mesmo projetava sobre o aparente vazio minha própria consciência extinta e obviamente pranteada, esforçando-me repetidas vezes para verbalizar o amor pelo criador do vento, das marés, da Lua, das estrelas?

Eu não poderia terminar minha própria existência terrena. Tinha tanto medo quanto qualquer mortal de talvez estar abdicando para sempre da única experiência mágica que tinha tido o privilégio de conhecer. E que Louis ,pudesse perecer parecia puro horror, como ver uma flor exótica e venenosa, caída do seu poleiro secreto na selva para ser pisoteada.

Eu temia por ele? Não tinha certeza. Eu o amava e o queria agora conosco neste quarto. Isso sim. Mas não tinha certeza se eu possuía a energia moral para convencê-lo a permanecer neste mundo mais vinte e quatro horas. Não tinha certeza de absolutamente nada. Eu o queria para meu companheiro, espelho das minhas emoções, testemunha do meu progresso estético, é, para tudo isso. Eu queria que ele fosse o Louis tranqüilo e delicado que eu conhecia. E, se ele decidisse não prosseguir conosco, se de fato acabasse com a própria vida ao entrar na luz do Sol, para mim seria ainda mais difícil continuar, mesmo com meu medo.

Merrick tinha começado a tremer por inteiro. As lágrimas não paravam. Cedi ao desejo de beijá-la, de respirar a fragrância da sua carne quente.

— Pronto, pronto, querida — murmurei.

O lenço preso na sua mão direita estava pequeno e molhado.

Levantei-a quando me pus de pé. Afastei a pesada colcha branca de chenille e a deitei nos lençóis limpos. De que importava seu vestido sujo. Ela estava assustada e com frio. O cabelo estava emaranhado por baixo dela. Ergui um pouco sua cabeça e trouxe o cabelo para cima, sobre a roupa de cama. Vi que ela se deixava afundar nos travesseiros de pluma, e eu beijei suas pálpebras para que ela as fechasse.

— Descanse agora, minha querida — disse eu. — Você só fez o que ele pediu.

— Não me deixe por enquanto — disse ela, com a voz ferida —, a menos que você ache que pode encontrá-lo. Se você souber onde ele está, vá procurá-lo. Em caso contrário, fique aqui comigo só mais um pouquinho.

Segui pelo corredor à procura de um banheiro e o encontrei bem nos fundos da casa, um aposento espaçoso e um tanto suntuoso, com uma pequena lareira para carvão assim como uma enorme banheira com pés em forma de garra. Havia a costumeira pilha de toalhas brancas felpudas que se espera encontrar em meio a tanto luxo. Umedeci a ponta de uma dessas toalhas e a levei de volta ao quarto da frente.

Merrick estava de lado, com os joelhos encolhidos, as mãos unidas. Eu ouvia um murmúrio baixo que lhe saía dos lábios.

— Olhe, deixe-me limpar seu rosto — disse eu. Passei à limpeza sem qualquer outra concessão e depois retirei o sangue coagulado da parte interna do seu braço. Os arranhões seguiam direto da palma da mão até o lado oposto ao cotovelo. Mas eram muito superficiais. Um começou a sangrar quando eu o esfregava, mas fiz um pouco de pressão e estanquei o sangue.

Apanhei a ponta limpa e seca da toalha e fui secando com ela o rosto de Merrick e depois os ferimentos, que agora já estavam totalmente limpos e fechados.

— Não posso ficar aqui desse jeito — disse Merrick. Sua cabeça ia de um lado para o outro. — Preciso tirar os ossos do pátio dos fundos. Foi uma atitude terrível a de derrubar os altares.

— Acalme-se agora — disse eu. — Vou trazê-los para dentro de casa. Isso era algo que me enchia de repugnância. Mas cumpri o prometido.

Voltei à cena do crime. O escuro pátio dos fundos estava extraordinaria- mente calmo. As velas apagadas diante dos santos sugeriam negligência e pareciam ser prova de graves pecados.

Do meio dos detritos caídos das mesas de ferro, recolhi o crânio de Mel ao Sol. Senti um súbito calafrio percorrer minhas mãos, mas o atribuí à minha imaginação. Apanhei o osso de costela e vi mais uma vez que os dois tinham todo tipo de escrita gravada em profundidade. Recusei-me a ler o que estava escrito. Trouxe-os comigo para dentro de casa e até o quarto da frente.

— Deixe-os no altar — disse ela. Sentou-se, afastando as cobertas pesadas.

Vi que tinha tirado o vestido de seda branca, encharcado de sangue, e que ele estava jogado no assoalho.

Usava apenas a combinação de seda, e através dela eu podia ver os grandes mamilos rosados. Havia sangue também na combinação. Seus ombros eram muito retos, os seios altos, e os braços eram arredondados o suficiente para me parecerem deliciosos.

Fui apanhar o vestido. Eu queria deixá-la totalmente limpa. Queria que ficasse bem.

— É de uma injustiça monstruosa que você esteja tão apavorada — disse eu.

— Não, deixe o vestido — respondeu ela, estendendo-se para segurar meu pulso. — Deixe-o para lá e venha se sentar aqui, ao meu lado. Segure minha mão e converse comigo. O espírito mentiu, eu juro. Você precisa acreditar no que eu digo.

Voltei a me sentar na cama. Queria estar perto dela. Inclinei-me e beijei sua cabeça baixa. Preferia que seus seios não estivessem tão expostos, e me perguntei se vampiros mais jovens, aqueles transformados no início da idade adulta, sabiam o quanto esses detalhes carnais ainda me perturbavam. É claro que o desejo pelo sangue se exacerbava com essa perturbação. Não era fácil amá-la com tanta intensidade e não provar da sua alma por meio do sangue.

— Por que tenho de acreditar em você? — perguntei, com delicadeza. Ela enfiou os dedos no cabelo e o puxou para trás dos ombros.

— Porque é o que precisa fazer — disse ela, com insistência, porém com calma. — Você precisa entender que eu sabia o que estava fazendo; precisa acreditar que eu posso discernir um espírito que diz a verdade de outro que mente. Foi algo de se ver, mesmo, aquele ser que fingiu ser Claudia, uma criatura muito poderosa por conseguir erguer o perfurador e enfiá-lo na carne de Louis. Aposto que era um espírito que o odiava por sua própria natureza, pelo fato de ele poder estar morto e ainda pisar na terra. Foi alguma criatura profundamente agredida pela própria existência de Louis. Mas sei que estava tirando suas falas dos próprios pensamentos dele.

— Como pode ter tanta certeza? — perguntei, dando de ombros. — Deus sabe como eu gostaria que você estivesse com a razão. Mas você mesma chamou Mel. Mel não está perdida na mesma esfera que Claudia descreveu? A presença de Mel não prova que não existe nada melhor para nenhuma das duas? Você viu a forma de Mel lá fora diante do altar...

Ela fez que sim.

— ... e então chamou Claudia dessa mesma esfera.

— Mel quer ser chamada — afirmou Merrick, olhando para mim, com os dedos enfiados no cabelo, puxando-o para trás com crueldade, afastando-o do rosto atormentado. — Mel está sempre presente. Mel está me esperando. É por isso que eu tinha certeza de que podia invocar Mel. Mas e Sandra Gelada? E Grande Nananne? E Aaron Lightner? Quando eu abri a porta, nenhum desses espíritos apareceu. Há muito tempo eles seguiram para a Luz, David. Se não tivessem seguido, há muito tempo eles teriam se comunicado comigo. Eu os teria sentido como sinto Mel. Teria dicas deles, como Jesse Reeves teve de Claudia quando ouviu a música na Rue Royale.

Fiquei intrigado com essa última afirmação. Muito intrigado. Abanei a cabeça numa negação eloqüente.

— Merrick, você está me escondendo alguma coisa — disse eu, decidido a tratar direto do assunto. — Você invocou Grande Nananne. Você acha que eu não me lembro do que aconteceu há apenas algumas noites, quando me encontrei com você no café na Rue St. Anne?

— Sim? O que houve naquela noite? — perguntou ela. — O que você está querendo dizer?

— Talvez você não saiba o que aconteceu — disse eu. — Isso é possível? Que você tenha lançado um feitiço sem que você mesma soubesse o quanto ele era forte?

— David, seja direto — respondeu ela. Os olhos estavam se desanuviando, e ela estava parando de tremer. Com isso eu estava satisfeito.

— Naquela noite — disse eu —, depois que nos encontramos e nos falamos, você me lançou um feitiço, Merrick. No caminho de volta à Rue Royale, eu não parava de ver você por toda parte, à minha direita e à minha esquerda. E depois vi Grande Nananne.

— Grande Nananne? — perguntou ela, com a voz comedida, mas num tom que não conseguia esconder sua descrença. — O que você quer dizer com ter visto Grande Nananne?

— Quando cheguei à entrada de veículos da minha casa geminada — disse eu —, vi dois espíritos por trás das barras de ferro: um, sua imagem aos dez anos de idade, como você era quando eu a conheci; e o outro, Grande Nananne de camisola, como estava no único dia em que eu jamais a vi, o dia da sua morte. Esses dois espíritos estavam parados na entrada para veículos e falavam juntos, com intimidade, num tête à tête, com os olhos fixos em mim. E quando me aproximei, eles desapareceram.

Por um instante, ela não disse nada. Estava com os olhos semicerrados e os lábios ligeiramente separados, como se estivesse refletindo sobre o assunto com extrema concentração.

— Grande Nananne — repetiu ela.

— Exatamente como lhe contei, Merrick — disse eu. — Devo eu agora supor que você mesma não a chamou? Você sabe o que aconteceu em seguida, não sabe? Voltei ao Windsor Court, à suíte onde eu a deixara. Encontrei-a bêbada como um gambá na cama.

— Não use uma expressão tão encantadora — murmurou ela, irritada. — Você voltou, sim, e me escreveu um bilhete.

— Mas, depois de escrever o bilhete, Merrick, vi Grande Nananne ali no hotel, parada no vão da porta do seu quarto. Ela me desafiava, Merrick. Estava me desafiando com sua simples presença e postura. Era uma aparição densa e inegável. Durou alguns instantes, instantes apavorantes, Merrick. Devo então entender que isso não fazia parte do seu feitiço?

Merrick permaneceu em silêncio por um bom tempo, com os dedos abertos no meio do cabelo. Encolheu os joelhos e os trouxe para junto do peito. Seu olhar penetrante não se desviava de mim.

— Grande Nananne — murmurou. — Você está me contando a verdade. Claro que está. E achou que eu tinha chamado minha madrinha? Achou que eu poderia chamá-la e fazer com que aparecesse com tanta facilidade?

— Merrick, eu vi a imagem de são Pedro. Vi meu próprio lenço abaixo da imagem com as gotas de sangue nele. Vi a vela que você acendeu. Vi as oferendas. Você tinha lançado um feitiço.

— É verdade, meu querido — disse ela rapidamente, com a mão direita agarrando a minha para me acalmar. — Fiz um feitiço para atraí-lo, sim. Fiz um feiticinho para fazer você me querer, para torná-lo incapaz de pensar em qualquer coisa além de mim, para fazê-lo voltar se houvesse a mínima chance de você decidir nunca mais me ver. Só um feiticinho para atraí-lo, David, você sabe do que eu estou falando. Eu queria ver se ainda conseguiria agora que você é um vampiro. E está vendo o que aconteceu? Você não sentiu amor ou obsessão, David; em vez disso, viu imagens de mim. Sua força se manifestou, David, foi só isso o que ocorreu. E você me escreveu aquele seu bilhetinho áspero e, quando eu o li, acho até que posso ter rido.

Parou de falar, profundamente perturbada, com os olhos arregalados enquanto olhava à sua frente, talvez examinando seus próprios pensamentos.

— E Grande Nananne? — insisti. — Você não a chamou?

— Não consigo chamar minha madrinha — disse ela, com o tom sério, os olhos semicerrados ao olhar de novo para mim. — Eu rezo para minha madrinha, David; isso você não percebe, como rezo para Sandra Gelada, como rezo para Oncle Vervain. Eles não estão mais perto de nós, nenhum deles, meus antepassados. Rezo para eles no Céu, como para os anjos e os santos.

— Estou lhe dizendo que vi uma aparição dela.

— E eu estou lhe dizendo que nunca a vi — murmurou ela. — Estou dizendo que daria qualquer coisa que possuo se ao menos conseguisse isso.

Olhou para a minha mão, a que estava segurando na sua, apertou-a então com carinho e a soltou. Voltou a levar as duas mãos às têmporas, e os dedos foram abrindo caminho pelo cabelo adentro.

— Grande Nananne está na Luz — disse ela, como se estivesse argumentando comigo, e talvez estivesse mesmo. Mas seu olhar estava fora do meu alcance. — Grande Nananne está na Luz, David — repetiu. — Estou lhe dizendo que sei que está. — Olhou para cima para a penumbra tênue e então seus olhos acabaram chegando ao altar e às velas nas longas fileiras bruxuleantes.

— Não acredito que tenha vindo — murmurou ela. — Não acredito que estejam todos em alguma “esfera insubstancial”! Não, não acredito, é o que lhe digo. — Ela pôs as mãos nos joelhos. — Não acredito em algo tão absolutamente horrível: que todas as almas dos que “partiram na fé” estejam perdidas nas trevas. Não, não posso acreditar numa coisa dessas.

— Muito bem, então — disse eu, esperando o momento apenas para consolá-la, e me lembrando com excesso de nitidez dos espíritos junto ao portão mais uma vez, a velha e a menina. — Grande Nananne veio por sua própria conta. E como você indicou mais cedo: você disse que os espíritos somente dizem a verdade se vêm por sua própria vontade. Grande Nananne não me queria perto de você, Merrick. Grande Nananne já me disse isso. E talvez ela volte ainda uma vez se eu não corrigir de algum modo o mal que lhe fiz e se não a deixar em paz.

Ela pareceu refletir sobre tudo isso.

Seguiu-se um longo intervalo durante o qual eu a observei atentamente, e ela não me deu nenhuma pista dos seus sentimentos ou das suas intenções; e, finalmente, segurou de novo minha mão. Levou-a até os lábios e a beijou. Era de uma suavidade que doía.

— David, meu querido David — disse ela, mas seus olhos guardavam algum segredo. — Deixe-me agora.

— Não, não vou nem pensar nisso enquanto não for preciso que eu o faça.

— Não, eu quero que você vá — disse ela. — Ficarei muito bem aqui sozinha.

— Chame o zelador — disse eu. — Quero que ele esteja aqui antes que eu saia da propriedade ao amanhecer.

Ela estendeu a mão até a mesinha-de-cabeceira e apanhou um desses telefones celulares modernos que não é maior que uma carteira de homem. Teclou uma série de números. Ouvi a voz apropriada na outra ponta: “Sim, senhora, estou indo direto para aí.”

Fiquei satisfeito.

Levantei-me. Dei alguns passos até o centro do quarto, e então uma sensação de máxima desolação caiu sobre mim.

Dei meia-volta e olhei para ela, ali sentada, com os joelhos junto aos seios, a cabeça pousada nos joelhos, os braços prendendo as pernas.

— Será que eu agora estou sob o efeito de um feitiço, Merrick? — perguntei-lhe, com a voz ainda mais mansa do que eu pretendia. — Não quero deixá-la, minha querida — disse eu. — Não consigo suportar essa idéia, mas sei que teremos de nos separar um do outro, você e eu. Mais um encontro, talvez dois. Não mais que dois.

Ela olhou para mim, espantada, e sua expressão tinha um toque de medo.

— Traga-o de volta a mim, David — disse ela, implorando. — Pelo amor de Deus, você tem de fazer isso. Eu preciso ver Louis e conversar de novo com ele. — Ela esperou um momento, período durante o qual eu não lhe dei resposta. — Quanto a você e a mim, não fale como se nós simplesmente pudéssemos dizer adeus um ao outro. David, não posso suportar essa idéia neste momento. Você precisa me garantir...

— Não será abrupto — disse eu, interrompendo-a — e não vai ser sem seu conhecimento. Mas não podemos continuar, Merrick. Se tentarmos continuar, você perderá a fé em si mesma e em tudo o que é importante para você. Pode acreditar em mim, eu sei.

— Mas, meu querido, isso nunca lhe aconteceu — disse ela, com muita confiança como se tivesse pensado exaustivamente no assunto. — Você era feliz e independente quando o vampiro Lestat o transformou. Foi você quem me disse. Será que não pode me dar crédito por isso, David? Cada um de nós é diferente.

— Saiba que eu a amo, Merrick — disse eu, baixinho.

— Nem tente se despedir, David. Venha cá e me dê um beijo; e volte de novo amanhã à noite.

Fui até a cama e a tomei nos braços. Beijei-a nas bochechas. E depois, numa atitude pecaminosa e com uma determinação desgraçada, beijei seus seios complacentes, beijei-lhe os dois mamilos, e recuei, repleto do seu perfume e furioso comigo mesmo.

— Por ora, querida — disse eu.

E saí dali para voltar para casa na Rue Royale.