Merrick

Anne Rice · Capítulo 3 de 8 · parte 1/4

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Merrick

Capítulo 7

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

NA NOITE SEGUINTE, ACORDEI PARA DESCOBRIR O CÉU EXTRAORDINARIAMENTE claro e cheio de estrelas visíveis. Um bom augúrio para todos aqueles em estado de graça. Isso não costuma acontecer em Nova Orleans, pois o ar é saturado de umidade e com freqüência o céu tem uma aparência velada com poucas manifestações de nuvens e luz.

Não tendo necessidade de me alimentar, fui direto ao Windsor Court Hotel, entrando mais uma vez no seu belo saguão moderno, um espaço que tem toda a elegância costumeira de um estabelecimento mais antigo, e subi até a suíte de Merrick.

Ela acabara de sair, segundo me informaram; e uma criada estava ocupada preparando os aposentos para um próximo hóspede.

Ah, Merrick havia permanecido mais tempo do que eu imaginara, mas menos do que eu tinha esperanças de que ficasse. No entanto, calculando que ela estivesse seguindo em segurança de volta a Oak Haven, verifiquei com a recepção se ela havia deixado algum recado para mim. Havia.

Esperei até me encontrar sozinho do lado de fora para ler o curto bilhete.

“Fui a Londres retirar dos cofres aqueles poucos itens que sabemos que estão associados à criança.”

Quer dizer que o assunto tinha avançado tanto assim!

É claro que ela estava se referindo a um rosário e um diário que nossa investigadora de campo Jesse Reeves havia encontrado no apartamento da Rue Royale mais de dez anos atrás. E, se a memória não me traía, havia outros itens que haviam sido recolhidos um século antes de um quarto de hotel abandonado em Paris, onde rumores nos levaram a acreditar que vampiros tinham se hospedado.

Fiquei assustado.

Mas o que era que eu esperava? Que Merrick resistisse ao meu pedido? Mesmo assim, eu nunca havia previsto que ela pudesse agir com tanta rapidez. É claro que eu sabia que ela poderia obter os itens em questão. Tinha muito poder dentro da Talamasca. Tinha acesso irrestrito aos cofres subterrâneos.

Ocorreu-me a idéia de tentar ligar para ela em Oak Haven, para lhe dizer que precisávamos conversar mais sobre o assunto. Mas eu não podia correr esse risco.

Havia apenas um punhado de membros da Talamasca por lá, mas cada um deles possuía poderes paranormais, cada um a seu modo. O telefone pode ser uma poderosa ligação entre almas, e eu simplesmente não podia permitir que alguém lá percebesse algo de “estranho” na voz do outro lado da linha.

Deixei isso de lado e me encaminhei para nosso apartamento na Rue Royale. Quando estava entrando pelo portão, alguma coisa macia passou roçando na minha perna. Parei e esquadrinhei a escuridão até discernir o formato de mais um gigantesco gato negro. Sem dúvida tinha de ser outro. Eu não conseguia imaginar que o animal que eu tinha visto na noite anterior teria nos acompanhado até nossa casa sem nenhum incentivo de alimento ou de leite.

O gato desapareceu no jardim do pátio dos fundos e não estava mais à vista quando cheguei à escada de ferro dos fundos. Mas eu não estava gostando daquilo. Não gostava daquele gato. Não, nem um pouco. Demorei-me no jardim. Andei em volta da fonte, que recentemente havia sido limpa e suprida de grandes peixes de aquário, e passei um bom tempo contemplando o rosto dos querubins de pedra, segurando alto suas conchas, agora totalmente recobertos com líquen, e depois dei uma olhada nos canteiros de flores exuberantes ao longo dos muros de tijolos.

O pátio recebia manutenção, mas sem controle. Suas lajes eram varridas, mas as plantas cresciam sem restrições. Era provável que Lestat quisesse que fosse assim, se é que se importava. E Louis o adorava.

De repente, quando eu tinha acabado de resolver subir a escada, voltei a ver o gato, um enorme monstro negro aos meus olhos, mas a verdade é que não gosto de gatos, andando sorrateiro no muro alto.

Uma infinidade de pensamentos invadiu minha cabeça. Eu sentia uma empolgação cada vez maior por esse projeto com Merrick e tinha um certo presságio que me parecia um preço necessário. Estava de repente apavorado com o fato de ela ter partido para Londres de modo tão abrupto, de eu tê-la perturbado ao ponto de ela ter abandonado quaisquer projetos com os quais pudesse estar envolvida.

Será que eu deveria contar a Louis o que ela tencionava fazer? Isso sem dúvida conferiria um caráter decisivo aos nossos planos.

Ao entrar no apartamento, liguei todas as lâmpadas elétricas em todos os aposentos, um detalhe que era nosso costume àquela altura, e do qual eu dependia muito para obter algum sentido de normalidade, por mais que se tratasse de mera ilusão. Mas na realidade talvez a normalidade seja sempre uma ilusão. Quem sou eu para afirmar?

Louis chegou quase imediatamente depois, subindo pela escada dos fundos com seu habitual passo macio. Foram as batidas do coração que ouvi naquele meu estado de alerta, não os passos de modo algum.

Louis encontrou-me na sala dos fundos, a que era mais afastada dos turistas da Rue Royale e cujas janelas se abriam para o pátio ali embaixo. Eu de fato estava olhando pela janela, procurando o gato de novo, embora não admitisse isso para mim mesmo, e observando como nossa buganvília tinha praticamente coberto os muros altos que nos cercavam e nos mantinham a salvo do resto do mundo. A glicínia também era voraz no crescimento, chegando mesmo a saltar dos muros de alvenaria para alcançar o gradil da sacada dos fundos e abrindo caminho até o telhado.

Nunca deixei de me espantar com as flores exuberantes de Nova Orleans.

Na realidade, elas me enchiam de felicidade sempre que eu parava para olhar bem para elas e me entregar à sua fragrância, como se eu ainda tivesse o direito a isso, como se eu ainda fizesse parte da natureza, como se eu ainda fosse um homem mortal.

Louis estava trajado com cuidado e atenção, como na noite anterior. Usava um terno preto de linho, de corte primoroso em torno da cintura e dos quadris, algo incomum no linho, e mais uma camisa alvíssima com uma gravata escura de seda. O cabelo era a costumeira massa de ondas e cachos; e os olhos verdes tinham um brilho extraordinário.

Ele já se alimentara naquela noite. Era evidente. E sua pele clara estava mais uma vez impregnada da cor carnal do sangue.

Assombrei-me um pouco com essa sedutora atenção aos detalhes, mas ela me agradava. Parecia transmitir algum tipo de paz interior, esse modo meticuloso de vestir-se; ou pelo menos a cessação do desespero interior.

— Sente-se aqui no sofá, se quiser — disse eu.

Ocupei a poltrona que tinha sido dele na noite anterior.

A pequena sala nos cercava com suas lâmpadas antigas de vidro, o vermelho forte de seu tapete Kirman e o brilho do seu piso encerado. Eu vagamente me dava conta dos belos quadros de pintores franceses. Parecia que os menores detalhes eram um refúgio.

Ocorreu-me que essa era exatamente a sala na qual Claudia havia tentado assassinar Lestat mais de um século atrás. O próprio Lestat, entretanto, havia recentemente reivindicado aquele espaço, e por vários anos nós costumávamos nos reunir ali. Portanto, não parecia ser assim tão importante.

De súbito, dei-me conta de que precisava contar a Louis que Merrick tinha viajado à Inglaterra. Eu precisava lhe contar o que me deixava mais constrangido, que a Talamasca, no século XIX, havia recolhido seus pertences no Hotel Saint-Gabriel em Paris, pertences que ele próprio havia abandonado, como descrevera na noite anterior.

— Vocês sabiam da nossa presença em Paris? — perguntou ele. Vi o sangue corar seu rosto.

Refleti por algum tempo antes de responder.

— Na realidade, nós não sabíamos — disse eu. — Ah, sabíamos, sim, do Théâtre des Vampires, e sabíamos que os artistas não eram humanos. Quanto a você e Claudia, foi mais ou menos a suposição de um investigador solitário, de que vocês tivessem uma ligação. E, quando você abandonou tudo no hotel, quando foi visto deixando Paris numa noite na companhia de outro vampiro, com cautela nós tratamos de adquirir tudo o que foi deixado para trás.

Ele aceitou isso em silêncio. Depois, pronunciou-se.

— Por que vocês nunca tentaram atingir ou denunciar os vampiros do teatro? — perguntou ele.

— Teríamos sido ridicularizados se tivéssemos tentado denunciá-los — disse eu. — Além do mais, simplesmente não é isso o que fazemos. Louis, nunca chegamos a conversar de verdade sobre a Talamasca. Para mim, é como falar a respeito de um país para o qual eu passei a ser um traidor. Mas sem dúvida, você compreende. A Talamasca observa, realmente observa, e considera ser seu objetivo principal sua própria sobrevivência pelos séculos afora.

Houve um breve silêncio. Sua expressão estava controlada, e ele parecia só um pouco triste.

— Quer dizer que a roupa de Claudia, bem, Merrick estará com ela quando voltar.

— Desde que tenhamos posse dela, sim. Eu mesmo não tenho certeza do que está nos cofres subterrâneos. — Parei de falar. Uma vez tinha trazido a Lestat um presente retirado dos cofres. Mas na ocasião eu era um homem. Não conseguia me imaginar tentando roubar qualquer objeto da Talamasca nas circunstâncias atuais.

— Muitas vezes me perguntei como seriam os tais arquivos — disse Louis. E prosseguiu em voz terníssima. — Nunca tive vontade de pedir nada. E Claudia que eu quero ver, não os objetos que deixamos para trás.

— Entendo o que você quer dizer.

— Mas vai fazer diferença para a magia, não vai? — perguntou ele. — Vai. Você talvez entenda isso melhor quando eu lhe falar de Merrick. — O que você quer que eu saiba sobre ela? — perguntou Louis, sério.

— Estou ansioso por ouvir sua história. Ontem à noite você me falou do primeiro encontro. Contou-me que Merrick lhe mostrou os daguerreótipos...

— É, aquele foi nosso primeiro encontro. Mas tenho mais, muito mais a contar. Você se lembra do que eu disse ontem à noite? Merrick é uma espécie de maga, uma bruxa, uma verdadeira Medéia, e nós podemos ser confundidos pela magia como qualquer criatura terrena.

— Meus desejos são específicos e puros — disse Louis. — Só quero ver o espírito de Claudia.

Não pude deixar de sorrir. Creio que o magoei. Arrependi-me imediatamente.

— Sem dúvida, você deve reconhecer algum perigo em abrir o caminho para o sobrenatural — insisti. — Mas deixe-me lhe dizer o que sei sobre Merrick, o que acho que posso contar.

Comecei a lhe relatar minhas recordações pela ordem.

Apenas alguns dias depois da chegada de Merrick a Oak Haven, uns vinte anos atrás, Aaron e eu tínhamos saído com ela para um passeio de carro até Nova Orleans para uma visita à Grande Nananne.

Minhas lembranças eram nítidas.

Os últimos dias frescos da primavera tinham passado, e nós estávamos imersos num clima quente e úmido que, por eu adorar os trópicos como adorava, e adoro, me era muito agradável. Não me arrependia nem um pouco de ter deixado Londres.

Merrick ainda não nos tinha revelado o dia da morte de Grande Nananne, que lhe fora confiado pela velha. E, embora tivesse sido a personagem no sonho que transmitiu a data fatal a Grande Nananne, Aaron não tinha absolutamente nenhum conhecimento desse sonho.

Apesar de Aaron ter me preparado para o velho setor de Nova Orleans ao qual nos dirigíamos, eu mesmo assim fiquei espantado com o bairro de casas prestes a desabar, de todos os tamanhos e estilos, enfurnadas era espirradeiras sem poda, que floriam exuberantes no calor úmido, e mais surpreso ainda ao dar com o velho chalé sobre pilares que pertencia à Grande Nananne.

Como já disse, o dia estava quente e abafado, com súbitos e violentos temporais; e, embora eu já seja um vampiro há cinco anos, consigo me lembrar com nitidez do sol que saía em meio à chuva e batia nas calçadas estreitas e irregulares. E por toda parte o mato crescia alto nas sarjetas, que no fundo não passavam de valas abertas; e os emaranhados de carvalho, feijão-cru e choupo, que subiam em toda a nossa volta enquanto nos encaminhávamos à residência que Merrick agora deveria deixar para trás.

Chegamos afinal a uma cerca alta de estacas de ferro, e uma casa muito maior que as outras ao redor, e de data muito anterior.

Era uma daquelas casas da Louisiana que se erguem a partir de colunas assentadas sobre alicerces de tijolos, com cerca de um metro e meio de altura, com uma escada de madeira central que leva à varanda da frente. Uma fileira de colunas quadradas simples sustentava o telhado da varanda em estilo neoclássico, e a porta central não era diferente das portas mais imponentes de Oak Haven por ter uma pequena bandeira semicircular intacta no alto.

Altas janelas iam do assoalho até o teto na frente da casa, mas estavam totalmente fechadas com jornal, o que dava à casa uma aparência de propriedade abandonada, desabitada. Os teixos, estendendo os galhos esqueléticos para os céus de cada lado da varanda da frente, acrescentavam uma nota sinistra, e o hall no qual entramos estava vazio e sombrio, embora atravessasse a casa direto até uma porta aberta nos fundos. Não havia nenhuma escada até o sótão, e devia haver um sótão, conjecturei, pois o corpo principal da casa tinha um telhado de grande inclinação. Para além daquela porta dos fundos aberta tudo era verde e emaranhado.

Da frente aos fundos, a casa tinha três aposentos de profundidade, o que perfazia seis cômodos no andar principal; e no primeiro deles, à esquerda do corredor, encontramos Grande Nananne, debaixo de uma camada de colchas de retalhos feitas a mão, numa velha cama de fazenda, com quatro colunas, sem dossel, de estilo simples em mogno. Digo cama de fazenda quando me refiro a esse tipo de mobília porque as peças são tão grandes e costumam estar tão apertadas em pequenos quartos de cidade que a gente logo visualiza o espaço maior no campo para o qual esse tipo de mobília deve ter sido projetado. Ademais, as colunas de mogno, embora elegantemente afiladas, eram simples sob outros aspectos.

Quando olhei para a velhinha, ressequida sobre o travesseiro muito manchado, com o corpo totalmente invisível sob as colchas gastas, por um instante pensei que estivesse morta.

De fato, eu poderia ter jurado por tudo o que sabia sobre espíritos e sobre seres humanos que o corpinho murcho em cima da cama estava desprovido de sua alma. Talvez ela estivesse sonhando com a morte e a desejasse tanto que, por uns momentos, tivesse abandonado seu invólucro mortal.

No entanto, quando a pequena Merrick apareceu no portal, Grande Nananne voltou, abrindo os olhinhos enrugados e amarelados. Sua pele velhíssima tinha um belo tom dourado, se bem que devesse estar desbotado. O nariz era pequeno e chato, e a boca estava fixa num sorriso. O cabelo, pinceladas cinzentas.

Abajures elétricos, muito desleixados e improvisados, eram a única iluminação além da grande quantidade de velas num imenso altar próximo. Eu não conseguia discernir bem o altar, pois ele parecia envolto em penumbra por estar encostado nas janelas tapadas da frente da casa. E as pessoas atraíram minha atenção primeiro.

Aaron trouxe uma velha cadeira de encosto de palhinha para se sentar ao lado da mulher acamada.

A cama fedia a doença e a urina.

Vi que jornais e grandes imagens sagradas em cores vivas empapelavam todas as paredes em ruínas. Não havia um pedacinho de reboco exposto a não ser no teto, que estava cheio de rachaduras e tinta descascada, parecendo ser uma ameaça a todos nós. Somente as janelas laterais tinham cortinas, mas uma boa parte das vidraças estava quebrada; e aqui e ali remendos de papel de jornal tinham sido aplicados. Lá fora crescia alta a eterna folhagem.

— Vamos trazer enfermeiras para você, Grande Nananne — disse Aaron, num tom carinhoso e sincero. — Perdoe-me por ter demorado tanto para vir. — Ele se inclinou para a frente. — Está implícito que você confia em mim. Vamos mandar enfermeiras assim que formos embora hoje.

— Vir? — perguntou a velha, afundada no travesseiro de plumas. — Eu alguma vez pedi a vocês, a qualquer um de vocês, que viesse? — Não tinha nenhum sotaque francês. Sua voz era espantosamente atemporal, grave no tom e forte.

— Merrick, venha se sentar aqui perto de mim um pouco, chérie — disse ela. — Tranqüilize-se, Sr. Lightner. Ninguém lhe pediu que viesse

Seu braço subia e descia como um galho com a brisa, tão sem vida no formato e na cor, os dedos retraídos enquanto arranhavam o vestido de Merrick.

— Viu o que o Sr. Lightner comprou para mim, Grande Nananne? — disse Merrick ao seu lado, com os braços abertos enquanto olhava para a roupa nova.

Não tinha percebido ainda que ela estava nos trinques, com um vestido de pique branco e sapatos pretos de verniz. As meias brancas curtinhas pareciam uma incongruência numa mocinha tão desenvolvida, mas o fato é que Aaron a via totalmente como uma criança inocente.

Merrick debruçou-se e beijou a cabeça pequena da velha.

— Não precisa mais ter nenhum receio por mim — disse ela. — Estou em casa agora com eles, Grande Nananne.

A essa altura, um padre entrou no quarto, um homem alto, arqueado tão velho quanto Grande Nananne, ao que me pareceu, vagaroso nos movimentos e descarnado na longa batina negra, com o grosso cinto de couro caído sobre ossos encolhidos, as contas do rosário batendo delicadas na sua coxa.

Pareceu cego à nossa presença. Apenas cumprimentou a velha e foi embora, discreto, sem dar uma palavra. Quais poderiam ser seus sentimentos acerca do altar à nossa esquerda, encostado na parede dianteira da casa, eu não poderia adivinhar.

Senti uma cautela instintiva e uma apreensão de que ele poderia tentar nos impedir, com boa justificativa, de levar embora a menina Merrick.

Nunca se sabia que padre poderia ter ouvido falar da Talamasca, que padre poderia ter medo da ordem ou desprezo por ela, sob a orientação de Roma. Para quem estava dentro da hierarquia da Igreja Católica, éramos estranhos e misteriosos. Éramos rebeldes e controversos. Alegando que éramos leigos, se bem que antiqüíssimos, nós nunca poderíamos esperar a cooperação ou a compreensão da Igreja de Roma.

Foi depois que esse homem sumiu, e enquanto Aaron continuava sua conversa cortês e discreta com a velha, que tive a oportunidade de examinar o oratório por inteiro.

Era uma construção de tijolos que subia a partir do assoalho até um altar alto e largo no qual talvez fossem postas oferendas especiais. Sua parte superior era repleta de grandes imagens de gesso dispostas em fileiras à esquerda e à direita.

De imediato vi são Pedro, o Papa Legba do vodu haitiano, e um santo a cavalo que parecia ser santa Bárbara, representando Sobô de Xangô no candomblé, para o qual sempre tínhamos usado são Jorge. A Virgem Maria estava ali na forma de Nossa Senhora do Carmelo, representando Ezilie, uma deusa do vodu, com montes de flores aos seus pés e talvez a maior quantidade de velas à sua frente, todas elas bruxuleando nos copos altos com a brisa que passava pelo quarto.

Ali estava são Martinho de Porres, o santo negro da América do Sul, com a vassoura na mão, e ao lado, são Patrício, olhando para baixo, com os pés cercados de serpentes em fuga. Todos eles tinham seu lugar nas religiões clandestinas que os escravos das Américas prestigiavam há tanto tempo.

Havia no altar diante dessas imagens todos os tipos de pequenas lembranças obscuras, e os degraus abaixo estavam cobertos com vários objetos, acompanhados de pratos com sementes para passarinho, cereais e alimentos cozidos que tinham começado a apodrecer e a cheirar mal.

Quanto mais eu examinava essa exposição por inteiro, mais eu via coisas, como a assombrosa figura da Madona Negra com o Menino Jesus branco no colo. Havia muitos saquinhos bem amarrados e mantidos ali, bem como charutos de aparência cara, ainda na embalagem, talvez para alguma futura oferenda, eu não tinha como saber direito. Numa das extremidades do altar, havia algumas garrafas de rum.

Era sem dúvida um dos maiores oratórios daquela natureza que eu já tinha visto, e não me surpreendia que as formigas tivessem invadido parte da comida estragada. Era uma visão perturbadora e assustadora, em grau infinitamente maior que a recente oferenda improvisada de Merrick no hotel. Mesmo minhas experiências com o candomblé no Brasil não me deixaram imune à impressão solene e selvagem daquilo tudo. Pelo contrário, creio que essas experiências sob todos os aspectos me tornavam mais temeroso.

Talvez sem me dar conta do que estava fazendo, entrei mais no quarto, aproximando-me do altar, de tal modo que a mulher e seu leito de enferma estavam fora do meu campo visual, às minhas costas.

De repente, meus estudos foram interrompidos pelo susto com a voz da mulher na cama.

Voltei-me para ver que ela estava sentada, o que parecia quase impossível em decorrência da sua fragilidade, e que Merrick lhe havia ajeitado os travesseiros para que ela pudesse permanecer nessa posição enquanto falava

— Pai-de-santo do candomblé — disse-me ela —, consagrado a Oxalá.

— Pronto, a própria menção à minha divindade.

Eu estava pasmo demais para responder.

— Não o vi no meu sonho, inglês — prosseguiu ela. — Você esteve na selva, você andou à caça de tesouros.

— Tesouros, minha senhora? — respondi, pensando rápido enquanto falava. — Na realidade, não tesouros no sentido convencional. Não, nunca isso de modo algum.

— Eu sigo meus sonhos — disse a velha, com os olhos fixos em mim de uma forma que sugeria ameaça — e por isso lhes dou essa criança. Mas cuidado com o sangue dela. Merrick descende de muitos magos bem mais fortes que vocês.

Mais uma vez eu estava perplexo. Fiquei parado diante dela. Aaron abandonara a cadeira para não atrapalhar.

— Invocou o Espírito Solitário, não foi? — perguntou-me ela. — Você se assustou nas matas do Brasil?

Era totalmente impossível que essa mulher pudesse ter essa informação secreta a meu respeito. Nem mesmo Aaron conhecia toda a minha história. Eu sempre dei a entender que minhas experiências com o candomblé tinham sido superficiais.

Quanto ao “Espírito Solitário”, é claro que eu sabia o que ela queria dizer. Quando se invoca o “Espírito Solitário”, o que se está invocando é alguma alma torturada, uma alma no purgatório ou apegada à terra em sofrimento, para pedir o auxílio dessa alma no esforço de entrar em contato com deuses ou espíritos que estão mais adiante. Era uma antiga lenda. Era velha como a magia designada por outros nomes e em outras terras.

— É mesmo, você é um estudioso e tanto — disse a velha, sorrindo para mim, de modo que eu via sua dentadura perfeita, embora ela mesma estivesse amarelada, com os olhos aparentemente mais animados que antes.

— Qual é o estado da sua alma?

— Não estamos aqui para tratar desse assunto — retruquei, bastante abalado. — Sabe que quero proteger sua afilhada. Sem dúvida vê isso no meu coração.

— É verdade, pai-de-santo — disse ela de novo —, e você viu seus antepassados quando olhou no cálice, não viu? — Ela sorria para mim. O tom grave da sua voz era ameaçador. — E eles lhe disseram que voltasse para casa na Inglaterra ou perderia sua alma inglesa.

Tudo isso era verdadeiro e falso. De repente, deixei escapar o que pensava.

— A senhora sabe alguma coisa, mas não sabe tudo — afirmei. — E preciso que se tenha um uso nobre para a magia. A senhora ensinou isso a Merrick? — Havia raiva na minha voz, que essa mulher de idade não merecia. Será que de repente eu estava com inveja do seu poder? Eu não conseguia controlar minha língua. — Como sua magia a trouxe a essa situação desastrosa? — disse eu, indicando o aposento ao meu redor. — Será que este é o lugar para uma linda criança?

Imediatamente Aaron implorou que eu me calasse.

Até mesmo o padre se adiantou e me encarou nos olhos. Como se estivesse lidando com uma criança, ele abanou a cabeça, franzindo o cenho com enorme tristeza e balançando o dedo no meu nariz.

A velha deu uma espécie de risadinha seca e curta.

— Você a considera linda, não é mesmo, inglês? — disse ela. — Vocês ingleses gostam de crianças.

— Nada poderia estar mais longe da verdade no que me diz respeito! — protestei, ofendido por sua insinuação. — A senhora não acredita no que está dizendo. Fala só para confundir os outros. A senhora mandou essa menina desacompanhada procurar Aaron. — Meu arrependimento foi imediato. O padre sem dúvida levantaria objeções quando chegasse a hora de levar Merrick embora.

Mas eu agora via que ele estava por demais escandalizado com minha audácia para fazer qualquer outro protesto.

Aaron, coitado, estava mortificado. Eu estava me comportando como um animal. Tinha perdido todo o meu controle e sentia raiva de uma velha que estava morrendo diante dos meus olhos.

No entanto, quando olhei para Merrick não vi nada além de uma expressão de divertimento inteligente, possivelmente até um pouco de orgulho ou de sensação de triunfo. E então ela e a velha olharam nos olhos uma da outra, e alguma mensagem muda foi trocada entre elas, para a quai todos os ali reunidos teriam de esperar.

— Você vai cuidar da minha afilhada, eu sei — disse a velha. As pálpebras enrugadas desceram encobrindo-lhe os olhos. Vi seu peito artar por baixo da camisola branca de flanela, e sua mão tremia relaxada na colcha.

— Você não terá medo do que ela pode fazer.

— Não, nunca terei medo — disse eu, em tom reverente, ansioso para fazer a paz. Aproximei-me mais da cama. — Conosco ela está segura e protegida, minha senhora — disse eu. — Por que a senhora quer me assustar?

Pareceu que ela não conseguia abrir os olhos. Finalmente, abriu e, mais uma vez, olhou direto para mim.

— Estou era paz aqui, David Talbot — disse ela. Não me recordava de ninguém ter lhe dado meu nome. — Estou como quero estar; e, quanto à menina, ela sempre foi feliz aqui. Há muitas moradas nesta casa.

— Perdoe-me pelo que lhe disse — respondi rápido. — Eu não tinha direito. — Falava do fundo do coração.

Ela deu um suspiro ruidoso enquanto olhava para o teto.

— Estou cheia de dor agora. Minha vontade é morrer. Sinto dor o tempo todo. Seria de se imaginar que eu pudesse acabar com ela, que eu tivesse feitiços capazes de acabar com ela. E tenho feitiços para os outros, mas para mim, quem consegue fazer a magia atuar? Além disso, chegou a hora, e chegou no seu próprio feitio. Já vivi cem anos.

— Não estou duvidando — disse eu, tremendamente perturbado por sua menção à dor e pela evidente veracidade. — Por favor, tenha certeza de que pode deixar Merrick comigo.

— Vamos trazer enfermeiras — disse Aaron. Era o jeito de Aaron de seguir o lado prático, de lidar com o que poderia ser feito. — Vamos nos encarregar de que um médico venha vê-la ainda nesta tarde. A senhora deve estar sofrendo, e isso não é necessário. Deixe-me ir agora para dar os devidos telefonemas. Não vou demorar.

— Não, nada de estranhos na minha casa — disse ela enquanto olhava para ele e depois para mim. — Levem minha afilhada, vocês dois. Podem levar a menina e tudo o que tenho nesta casa. Conte para eles, Merrick, tudo o que eu lhe disse. Conte para eles tudo o que seus tios ensinaram, suas tias e suas bisavós. Esse aí, esse alto de cabelo escuro — ela olhou para mim —, ele sabe dos tesouros que você recebeu de Sandra Gelada, você confie nele. Fale sobre Mel ao Sol. Às vezes, sinto maus espíritos à sua volta, Merrick... — Ela olhou para mim. — Você mantenha os maus espíritos afastados dela, inglês. Você conhece magia. Agora entendo o significado do meu sonho.

— Mel ao Sol, o que isso quer dizer? — perguntei-lhe. Ela fechou os olhos com força e comprimiu os lábios. Era uma expressão extraordinária de dor. Merrick pareceu estremecer e, pela primeira vez, estar a ponto de chorar.

— Não se preocupe, Merrick — disse a velha, finalmente. Ela apontou com o dedo, mas deixou cair a mão de novo como se estivesse fraca demais para prosseguir.

De repente procurei com todas as minhas forças penetrar nos pensamentos da velha. Mas não consegui nada, a não ser talvez assustá-la num momento em que deveria estar em paz.

Tentei rápido compensar meu pequeno deslize.

— Tenha fé em nós, minha senhora — disse eu novamente, em tom obstinado. — A senhora enviou Merrick pelo caminho acertado.

A velha abanou a cabeça.

— Você acha que a magia é simples — murmurou a velha. — Acha que é alguma coisa que se pode deixar para trás quando se cruza um oceano. Acha que les mystères não são reais.

— Não é verdade.

Mais uma vez ela riu, um riso baixo de zombaria.

— Você jamais presenciou seu pleno poder, inglês — disse ela. — Você fez coisas chocalhar e tremer, mas só isso. Você era um estranho em terra estranha com seu candomblé. Você se esqueceu de Oxalá, mas ele nunca se esqueceu de você.

Eu estava perdendo rapidamente o controle.

Ela fechou os olhos, e seus dedos se enrascaram no fino pulso de Merrick. Ouvi os estalidos do rosário do padre, e depois veio o aroma de café recém-passado mesclado com o cheiro gostoso da chuva que acaba de cair.

Foi um momento irresistível e tranqüilizador — o ar úmido e abafado da primavera em Nova Orleans, o frescor da chuva a cair em toda a nossa volta e o leve murmúrio do trovão muito ao longe à direita. Eu sentia o cheiro da cera das velas e das flores no oratório, bem como os cheiros humanos da cama. Parecia de repente uma perfeita harmonia, mesmo aqueles odores que condenamos por serem ácidos ou desagradáveis.

A velha chegara de fato à sua hora final, e era apenas natural, esse buquê de fragrâncias. Precisamos penetrar nele para vê-la e amá-la. Era isso o que precisava ser feito.

— Ah, você está ouvindo, esse trovão? — perguntou Grande Nananne. Mais uma vez, seus olhos chisparam sobre mim. — Vou para casa — disse ela.

Agora Merrick estava realmente apavorada. Seus olhos estavam desvairados, e eu via que ela estava tremendo. De fato, enquanto perscrutava o rosto da velha, Merrick parecia aterrorizada.

Os olhos da velha rolaram para cima e ela pareceu arquear as costas contra o travesseiro, mas as colchas eram demasiado pesadas para ela ganhar o espaço que desejava.

O que deveríamos fazer? Uma pessoa pode levar uma eternidade para morrer, ou pode morrer em um segundo. Eu estava com medo também.

O padre entrou e passou adiante de nós para poder examinar-lhe o rosto. Era fácil ver que sua mão era tão mirrada quanto a dela.

— Talamasca — murmurou a velha. — Talamasca, levem minha menina. Talamasca, protejam minha menina.

Achei que até mesmo eu me renderia às lágrimas. Já estivera junto a muitos leitos de morte. Nunca é fácil, mas há algo de enlouquecedoramente empolgante nisso, algum modo pelo qual o medo total da morte aguça a emoção, como se fosse o início de uma batalha, quando na realidade se trata do fim.

— Talamasca — disse ela novamente.

Sem dúvida o padre a ouviu. Mas o padre não prestou absolutamente nenhuma atenção. Sua mente não era difícil de penetrar. Ele estava ali apenas para dar a extrema-unção a uma mulher que ele conhecia e respeitava. O oratório não era nenhum choque para ele.

— Deus está esperando por você, Grande Nananne — disse o padre, baixinho, com um forte sotaque sulino, quase parecendo rural. — Deus está esperando, e talvez Mel ao Sol e Sandra Gelada estejam lá também.

— Sandra Gelada — disse a velha com um longo suspiro e depois um silvo involuntário. — Sandra Gelada — repetiu ela, como se estivesse orando. — Mel ao Sol... nas mãos de Deus.

Isso causou violenta perturbação em Merrick. Estava claro no seu rosto. Merrick começou a chorar. Essa menina, que o tempo todo parecia tão forte, agora se demonstrava totalmente frágil, como se seu coração tivesse sido esmagado.

A velha não tinha terminado.

— Você que não perca seu tempo procurando Sandra Gelada — disse ela — nem Mel ao Sol. — Agarrou o pulso de Merrick ainda com mais força. — Deixe que eu cuido daquelas duas. Sandra Gelada é uma mulher que largou seu filhinho por um homem. Não vá chorar por Sandra Gelada. Guarde suas energias para os outros. Chore por mim.

Merrick estava fora de si. Chorava sem fazer ruído. Curvou-se e pôs a cabeça no travesseiro ao lado da cabeça da velha, e a velha passou o braço mirrado em torno dos ombros da menina, que pareceu desanimar.

— Pronto, minha querida — disse ela —, minha querida. Não chore por Sandra Gelada. Sandra levou Mel ao Sol junto no caminho até o inferno.

O padre afastou-se da cama. Tinha começado a rezar em voz baixa a Ave-Maria em inglês e, quando chegou às palavras “rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte”, ergueu a voz com timidez e delicadeza.

— Eu lhe aviso se encontrar aquelas duas — murmurou Grande Nananne. — São Pedro, deixe-me passar pelos portões. São Pedro, deixe-me passar. — Eu sabia que ela estava chamando Papa Legba. Era possível que fossem um e o mesmo para ela, Papa Legba e são Pedro. Era provável que o padre também soubesse isso.

O padre voltou a se aproximar. Aaron recuou em atitude de respeito. Merrick continuava com a cabeça no travesseiro, com o rosto enfiado no travesseiro, a mão direita encostada na face da velha.

O padre ergueu as mãos para dar a bênção em latim, In nomine Patris, et Filli, et Spiritus Sancti, Amen.

Achei que deveria sair por uma questão de decoro, mas Aaron não me deu nenhum sinal. Que direito tinha eu de ficar ali?

Voltei a olhar para o altar medonho e para a enorme imagem de são Pedro com as chaves do Paraíso, muito parecida com a que eu veria anos mais tarde, na noite de ontem, na suíte de Merrick no hotel.

Dei um passo atrás e saí para o corredor. Olhei pela porta dos fundos lá para fora, embora não soubesse ao certo por que motivo, talvez para ver a ramagem escurecida sob a chuva que caía. Meu coração batia forte. As grandes gotas molhadas e ruidosas entravam pela porta da frente e pela dos fundos, deixando sua marca no velho assoalho de madeira encardida.

Ouvi Merrick chorando alto. O tempo pareceu parar, como pode acontecer numa tarde de calor em Nova Orleans. De repente, Merrick gritou ainda com maior desespero, e Aaron pôs o braço em torno dela.

Foi uma conscientização perceber que a velha na cama tinha morrido.

Eu me sentia atordoado. Como a conheci por menos de uma hora, e ouvi suas revelações, eu estava atordoado. Não conseguia extrair nenhum sentido dos seus poderes, a não ser o de que uma parte excessiva da minha experiência com a Talamasca tinha sido acadêmica e, diante de magia verdadeira, eu ficava abalado com tanta facilidade quanto qualquer outra pessoa.

Permanecemos perto da porta do quarto por uns três quartos de hora. Parecia que os vizinhos queriam entrar.

Merrick de início foi contrária a isso, abraçada com Aaron e se queixando de que nunca encontraria Sandra Gelada, e de que Sandra Gelada devia ter voltado para casa.

O desespero palpável da criança era terrível para todos nós, e o padre repetidamente vinha até Merrick para beijá-la e afagá-la.

Afinal, duas moças de cor, as duas muito bonitas e com sinais óbvios de sangue africano, entraram para cuidar do corpo na cama. Uma mulher pegou a mão de Merrick e lhe disse que fechasse os olhos de sua madrinha. Eu estava maravilhado com essas mulheres. Não era só a incrível cor da pele ou os olhos claros. Era sua atitude formal e antiquada, como estavam trajando vestidos de seda de cintura marcada e usavam jóias, como se tivessem vindo fazer uma visita, e a importância dessa pequena cerimônia na sua opinião.

Merrick foi à cama e cumpriu seu dever, com dois dedos da mão direita. Aaron veio postar-se ao meu lado no corredor.

Merrick saiu e perguntou a Aaron, em meio a soluços, se ele esperaria enquanto as mulheres limpavam Grande Nananne e trocavam a roupa de cama. E Aaron naturalmente disse que faríamos o que ela quisesse.

Entramos numa sala de estar bastante formal do outro lado do corredor. As orgulhosas declarações da velha voltaram à minha lembrança. Aquela sala de estar, por meio de um arco, dava para uma grande sala de jantar, e as duas salas continham muitos objetos finos e caros.

Havia espelhos enormes acima das lareiras, e estas tinham consolos de mármore branco muito trabalhado. A mobília de mogno sólido alcançaria um bom preço.

Aqui e ali havia quadros escurecidos de santos. O enorme guarda-louça estava lotado de porcelana finíssima com desenhos antigos; e havia alguns abajures enormes com lâmpadas fracas dentro das cúpulas empoeiradas.

Teria sido confortável se o calor não fosse tão sufocante. E, embora houvesse vidraças quebradas, parecia que só a umidade penetrava na penumbra empoeirada onde nos sentamos.

Logo, uma moça, mais uma criatura de cor exótica, linda e vestida com tanto esmero quanto as outras, entrou para cobrir os espelhos. Trazia uma boa quantidade de tecido preto dobrado e uma pequena escada. Aaron e eu fizemos o que pudemos para ajudar.

Depois, ela fechou o teclado de um piano de armário que eu nem tinha percebido. Dirigiu-se então a um grande relógio de abrir, no canto, abriu o vidro e parou os ponteiros. Ouvi o tique-taque pela primeira vez somente quando ele de fato parou.

Uma grande multidão, negros, brancos e gente com diferentes graus de miscigenação, estava reunida diante da casa.

Afinal, foi permitido que as pessoas entrassem, e a passagem da procissão demorou muito. Durante esse período, Aaron e eu nos retiramos para a calçada, já que estava perfeitamente claro que Merrick, que havia assumido uma posição à cabeceira da cama, não estava mais tão abalada, só numa terrível tristeza.

As pessoas entravam no quarto, até os pés da cama e depois saíam pela porta dos fundos da casa, voltando a surgir do lado da casa quando abriam um pequeno portão de serviço que dava para a rua.

Lembro-me de ter ficado muito impressionado com a sobriedade e o silêncio reinantes, e de ter sentido certa surpresa quando automóveis começaram a chegar e pessoas vestidas com elegância — novamente de ambas as raças e de óbvia miscigenação — subiam a escada da frente.

Minhas roupas começavam a me incomodar, moles e pegajosas com o calor entorpecedor, e algumas vezes eu entrei na casa para me certificar de que tudo estava bem com Merrick. Alguns aparelhos de ar condicionado instalados em janelas no quarto, na sala de estar e na sala de jantar tinham sido ligados, e os aposentos agora estavam começando a ficar mais frescos.

Foi na minha terceira entrada na casa que percebi que estava sendo feita uma coleta para o enterro de Grande Nananne. Com efeito, uma tigela de porcelana no altar estava transbordando com notas de vinte dólares.

Quanto a Merrick, seu rosto demonstrava pouca ou nenhuma emoção quando ela fazia um pequeno cumprimento de cabeça a cada pessoa que chegava. E, no entanto, ela estava nitidamente entorpecida e desconsolada.

Passaram-se horas e mais horas. E ainda chegava gente, entrando e saindo discretamente, no mesmo silêncio respeitoso, somente iniciando a conversa quando estavam bem longe da casa.

Ouvi as mulheres de cor trajadas com maior formalidade falando entre si com sotaques sulinos educadíssimos, muito distantes dos africanos que ouvi.

Aaron garantiu-me sussurrando que aquela atitude não era típica de cerimônias fúnebres em Nova Orleans. As pessoas estavam totalmente diferentes. Tudo estava muito quieto.

Pude captar o problema sem nenhuma dificuldade. As pessoas tinham sentido medo de Grande Nananne. As pessoas sentiam medo de Merrick. Queriam certificar-se de que Merrick as via. Deixavam montes de notas de vinte dólares. Não deveria haver missa fúnebre, e as pessoas não sabiam como interpretar isso. Achavam que deveria haver uma missa, mas Merrick informou que a própria Grande Nananne tinha dito que não.

Afinal, quando estávamos mais uma vez parados no beco, fumando com prazer, vi uma expressão de preocupação no rosto de Aaron. Ele me fez um gesto muito sutil, para que eu olhasse para um automóvel caríssimo que acabara de parar junto ao meio-fio.

Desceram do carro pessoas obviamente brancas — um rapaz bem bonito e uma mulher austera com óculos de armação fina de metal. Subiram direto a escada da frente, evitando deliberadamente o olhar dos que estavam por ali.

— São da família Mayfair branca — disse Aaron, baixinho. — Não podem perceber minha presença aqui. — Juntos enveredamos pelo beco na direção dos fundos da casa. Finalmente, quando era impossível prosseguir em virtude da exuberância das glicínias, paramos.

— Mas o que isso significa? — perguntei. — A família Mayfair branca. Por que vieram?

— E evidente que sentem alguma obrigação — murmurou Aaron. — Realmente, David, você precisa ficar quieto. Não há um membro da família que não tenha algum poder paranormal. Você sabe que tentei em vão fazer contato. Não quero que nos vejam aqui.

— Mas quem são essas pessoas? — insisti. Eu sabia da existência de um volumoso arquivo sobre os Bruxos Mayfair. Sabia que Aaron estava designado para essa caso havia anos. E, eu sabia, mas para mim, na qualidade de superior geral, era só mais uma história em meio a milhares.

E o clima exótico, a estranha casa antiga, a clarividência da velha, o mato alto e a chuva ensolarada, tudo isso tinha me subido à cabeça. Eu estava tão empolgado como se estivéssemos vendo fantasmas.

— Os advogados da família — disse ele, com a voz abafada, tentando disfarçar sua irritação comigo. — Eles não sabem de nada, não sobre o vodu ou sobre bruxas, aqui ou nos bairros elegantes, mas está claro que sabem que a mulher tem parentesco com eles. Não são de fugir a uma responsabilidade de família, os Mayfair, mas nunca esperei vê-los aqui.

Nesse instante, quando ele me alertava mais uma vez para me calar e me manter afastado, ouvi Merrick falando lá dentro. Aproximei-me das janelas quebradas da sala de visitas. Não consegui entender o que estava sendo dito.

Também Aaron estava escutando. Pouco depois, os Mayfair brancos surgiram da casa e foram embora em seu automóvel novo.

Só então Aaron subiu a escada. O último dos que vieram ver a morta acabava de sair. Os que estavam lá fora na calçada já tinham prestado sua última homenagem. Entrei no quarto de Grande Nananne, acompanhando Aaron.

— Aqueles Mayfair ricos — disse Merrick em voz baixa. — Vocês os viram? Queriam pagar todas as despesas. Eu disse que já tínhamos o bastante. Olhem só, temos milhares de dólares, e o encarregado da funerária já está vindo para cá. O velório vai ser hoje à noite, e amanhã fazemos o enterro. Estou com fome. Preciso comer alguma coisa.

Na realidade, o idoso encarregado da funerária era também um homem de cor, bastante alto e totalmente careca. Chegou trazendo a cesta retangular na qual poria o corpo de Grande Nananne.

Quanto à casa, ela agora estava sendo deixada nas mãos do pai do encarregado da funerária, um velho muito idoso, praticamente do mesmo tom de cor de Merrick, mas com o cabelo totalmente crespo e branco. Os dois velhos recém-mencionados tinham um ar distinto e usavam trajes bastante formais se levarmos em consideração o calor monstruoso.

Também eles eram da opinião de que deveria ser rezada uma missa católica romana na igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, mas Merrick explicou mais uma vez que isso não era preciso para Grande Nananne.

Foi espantoso como isso encerrou bem toda a questão.

Merrick então foi à cômoda no quarto de Grande Nananne, retirou da gaveta superior um embrulho envolto em tecido branco de lençol e fez um gesto para que saíssemos da casa.

Lá fomos nós a um restaurante, onde Merrick sem dizer nada e mantendo o embrulho no colo, devorou um enorme sanduíche de camarão frito e duas Diet Cokes. Estava claro que não agüentava mais chorar, e tinha aquele olhar entristecido e exausto de quem sofreu uma dor profunda e irreparável.

O pequeno restaurante pareceu-me exótico, com seu piso imundo e as mesas obviamente sujas, mas os garçons e garçonetes estavam felicíssimos assim como a clientela.

Eu estava fascinado por Nova Orleans, fascinado por Merrick, muito embora ela não dissesse nada, mas eu mal imaginava que fatos ainda mais estranhos estavam por acontecer.

Como em sonho, voltamos a Oak Haven, para tomar banho e mudar de roupa para o velório. Havia uma moça lá, uma boa integrante da Talamasca cujo nome não revelarei por motivos óbvios, que ajudou Merrick e se encarregou de vesti-la com perfeição num vestido novo azul-marinho e chapéu de palha de abas largas. O próprio Aaron deu um rápido polimento nos sapatos de verniz. Merrick trazia nas mãos um rosário e um livro de orações católicas com a capa de madrepérola.

No entanto, antes de voltarmos a Nova Orleans, ela quis nos mostrar o conteúdo do embrulho que tinha tirado do quarto da velha.

Estávamos na biblioteca, onde eu havia conhecido Merrick pouco tempo antes. A casa matriz estava fazendo a ceia, de modo que estávamos totalmente sós no salão, sem necessidade de nenhum pedido especial.

Quando ela retirou o tecido que o envolvia, fiquei surpreso de ver um livro ou códice antigo, com ilustrações brilhantes na capa de madeira, um objeto que estava se desfazendo, e que Merrick manuseava com o máximo cuidado.

Continuar: parte 2 de 4