Merrick

Anne Rice · Capítulo 4 de 8 · parte 1/4

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Merrick

O incrível machado de obsidiana que eu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O incrível machado de obsidiana que eu tinha visto anos atrás recebera um posto de proeminência entre a Virgem Maria e o Arcanjo Miguel. À luz fraca, tinha um lindo lustro.

Mas talvez os integrantes mais surpreendentes do altar fossem os daguerreótipos e antigas fotografias da gente de Merrick, em densa organização como qualquer exposição de retratos sobre o piano de uma sala, a multidão de rostos perdida na penumbra.

Uma dupla fileira de velas estava acesa diante do arranjo inteiro, e havia grande quantidade de flores frescas em muitos vasos. Tudo parecia ter sido espanado e estar bem limpo. Isso, até eu perceber que a mão murcha tinha seu lugar em meio às oferendas. Ela sobressaía em contraste com o mármore branco, crispada e horrenda, exatamente com a mesma aparência que tinha quando a vi pela primeira vez muito tempo atrás.

— Pelos velhos tempos? — perguntei, indicando o altar com um gesto.

— Não seja ridículo — disse ela, baixinho. Levou um cigarro à boca. Vi pela caixa na mesinha que era Rothmans, a antiga marca de Matthew. Minha antiga marca também. Eu sabia que Merrick era uma fumante esporádica, assim como eu mesmo.

Mesmo assim, flagrei-me olhando fixamente para ela. Será que era mesmo minha querida Merrick? Minha pele tinha começado a formigar, como se diz, uma sensação que detesto.

— Merrick? — perguntei.

Quando ela olhou para mim, eu soube que era ela e mais ninguém que ocupava seu corpo jovem e belo. Soube também que não estava de modo algum embriagada.

— Sente-se, David, meu caro — disse, com sinceridade, quase com tristeza. — A poltrona é confortável. Estou feliz mesmo por você ter vindo.

Muito me aliviou a familiaridade no seu tom. Atravessei o quarto, passando pela frente dela e me acomodei na poltrona da qual podia facilmente ver seu rosto. O altar erguia-se acima do meu ombro direito, com todos aqueles pequenos rostos retratados olhando fixamente para mim, como tinham feito tanto tempo antes. Concluí que não gostava daquilo tudo, não gostava dos numerosos santos indiferentes e dos Reis Magos reprimidos, embora eu devesse admitir que o espetáculo me era deslumbrante.

— Por que precisamos partir para aquela selva, Merrick? — perguntei. — Afinal o que foi que a levou a decidir abandonar tudo por uma idéia dessas?

Ela não respondeu de imediato. Tomou um gole de rum do copo, com os olhos fixos no altar.

Isso me deu tempo para notar que um enorme retrato de Oncle Vervain estava pendurado na parede mais distante, ao lado da porta pela qual eu tinha entrado no quarto.

Reconheci de imediato que se tratava de uma caríssima ampliação da fotografia que Merrick nos mostrara anos antes. O processo de cópia tinha sido fiel aos tons de sépia do retrato, e Oncle Vervain, no apogeu da juventude, com o cotovelo pousado descontraidamente na coluna grega, parecia estar me encarando direto com os olhos claros, ousados, brilhantes.

Mesmo na penumbra trêmula, eu podia ver seu nariz largo e elegante e os lábios carnudos e bem formados. Quanto aos olhos claros, eles conferiam ao rosto um certo aspecto assustador, embora eu não tivesse certeza se deveria ou não ter tido esse tipo de sensação.

— Vejo que você veio para continuar a discussão — disse Merrick. — Para mim não pode haver o que discutir, David. Eu preciso ir, e é agora.

— Você não me convenceu. Sabe muito bem que não vou permitir que você viaje para aquela parte do mundo sem o apoio da Talamasca, mas quero entender...

— Oncle Vervain não vai me deixar em paz — disse ela, em voz baixa, os olhos grandes e vivazes, o rosto um pouco escuro em contraste com a luz fraca do hall distante. — São os sonhos, David. A verdade é que eu os tenho há anos, mas nunca do jeito de agora. Talvez eu não quisesse prestar atenção. Talvez eu estivesse fingindo, mesmo nos próprios sonhos, que não estava entendendo.

Parecia-me que ela estava três vezes mais fascinante do que eu me lembrava. O vestido simples de algodão roxo tinha a cintura bem marcada por um cinto, e a bainha mal lhe cobria os joelhos. Suas pernas eram esguias e delicadamente torneadas. Os pés, com as unhas pintadas de um roxo forte e brilhante que combinava com o vestido, estavam descalços.

— Exatamente quando foi que começou a investida dos sonhos?

— Na primavera — respondeu, com um pouco de enfado. — Não, logo depois do Natal. Nem mesmo sei ao certo. O inverno foi terrível aqui. Talvez Aaron lhe tenha contado. Tivemos uma geada forte. Todas as lindas bananeiras morreram. É claro que voltaram a crescer assim que chegou o calor da primavera. Você as viu do lado de fora?

— Não percebi, querida. Me perdoe — respondi. Ela prosseguiu como se eu não tivesse respondido.

— E foi aí que ele me apareceu com maior clareza — disse ela. — No sonho, não havia nem passado nem futuro, só Oncle Vervain e eu. Estávamos juntos nesta casa, ele e eu, e ele estava sentado à mesa da sala de jantar. — Ela fez um gesto para a porta aberta e os espaços mais adiante. — E eu estava com ele. E ele me disse: “Menina, eu já não lhe disse para voltar lá e apanhar aquelas coisas?” E ele começou uma história comprida. Era sobre espíritos, espíritos tremendos que o derrubaram por uma encosta abaixo de modo que ele fez um corte na cabeça. Acordei no meio da noite e escrevi tudo de que me lembrava, mas parte foi perdida e talvez fosse mesmo para ser assim.

— Diga-me do que mais você se lembra agora.

— Ele disse que era o bisavô da mãe dele que sabia da existência da caverna — respondeu ela. — Disse que o velho o levou lá, embora ele próprio tivesse pavor da selva. Você sabe há quantos anos isso teria acontecido? Ele disse que jamais conseguiu voltar lá. Veio para Nova Orleans e ficou rico com o vodu, mais rico que qualquer um poderia ficar com o vodu. Disse que quanto mais se vive mais se renuncia aos próprios sonhos, até não restar nada.

Creio que recuei diante dessas palavras primorosas e verdadeiras.

— Eu estava com sete anos de idade — disse ela —, quando Oncle Vervain morreu debaixo deste teto. O avô da mãe dele era um brujo entre os maias. Você sabe, um curandeiro, uma espécie de sacerdote. Ainda me lembro de Oncle Vervain usando essa palavra.

— Por que ele quer que você volte? — perguntei-lhe eu.

Ela não havia tirado os olhos do altar. Olhei de relance naquela direção e percebi que um retrato de Oncle Vervain estava ali também. Era pequeno, sem moldura, apenas encostado nos pés da Virgem.

— Para apanhar o tesouro — disse ela, na sua voz baixa, perturbada. — Trazê-lo para cá. Ele diz que há algo lá que vai mudar meu destino. Mas não sei o que ele quer dizer. — Deu um daqueles seus suspiros característicos. — Parece que ele acha que vou precisar desse objeto, dessa coisa. Mas o que será que os espíritos sabem?

— O que eles sabem, Merrick? — perguntei.

— Não sei lhe dizer, David — foi sua resposta esfarrapada. — Só posso garantir que ele me atormenta. Ele quer que eu vá lá e traga para cá aquelas coisas.

— Você não quer fazer isso — disse eu. — Posso dizer por toda a sua atitude. Você está sob o efeito de uma assombração.

— E um espírito forte, David — disse ela, com os olhos passando pelas imagens distantes. — São sonhos fortes. — Ela abanou a cabeça. — São muito cheios da presença dele. Meu Deus, como sinto sua falta. — Deixou o olhar vagar. — Sabe, David, quando ele estava bem velhinho, sofria das pernas. O padre veio e disse que Oncle Vervain não precisava mais ir à missa de domingo. Foi muito duro para ele. Mesmo assim, todos os domingos, Oncle Vervain vestia seu melhor terno de colete, sempre com seu relógio de bolso, sabe, a correntinha de ouro na frente e o relógio no bolsinho, e se sentava na sala de jantar logo ali escutando a missa transmitida pelo rádio e murmurando suas preces. Era um perfeito cavalheiro. E à tarde o padre vinha e lhe trazia a Santa Comunhão.

“Por mais que suas pernas estivessem doloridas, Oncle Vervain se ajoelhava para a Santa Comunhão. Eu ficava parada na porta da frente até que o padre e o coroinha fossem embora. Oncle Vervain dizia que nossa igreja era mágica porque o Corpo e o Sangue de Cristo estavam na Santa Comunhão. Oncle Vervain disse que eu fui batizada: Merrick Marie Louise Mayfair, consagrada à Mãe Abençoada. Eles escreviam no estilo francês, sabe: M-e-r-r-i-q-u-e. Eu sei que fui batizada. Sei.”

Ela parou de falar. Eu não conseguia suportar o sofrimento na sua voz ou na sua expressão. Se ao menos tivéssemos localizado a certidão de batismo, pensei em desespero, poderíamos ter evitado essa obsessão.

— Não, David — disse ela, em voz alta, corrigindo-me com rispidez. — Eu sonho com ele, é o que estou dizendo. Eu o vejo segurando aquele relógio de ouro. — Ela voltou aos devaneios embora não lhe proporcionassem nenhum consolo. — Como eu adorava aquele relógio, aquele relógio de ouro. Era eu que queria ficar com ele, mas Oncle Vervain o deixou para Sandra Gelada. Eu pedia que me deixasse ver o relógio, que me deixasse girar os ponteiros para acertá-lo, que me deixasse abrir seu fecho, mas não, ele dizia: “Merrick, ele não bate para você, chérie. Bate para outras pessoas.” E Sandra Gelada ficou com ele. Sandra Gelada o levou quando foi embora.

— Merrick, esses são fantasmas de família. Todos nós não temos nossos fantasmas de família?

— Temos, David, mas é que essa é a minha família, e minha família nunca foi muito parecida com a família de mais ninguém, não é mesmo, David? Ele aparece nos meus sonhos e me fala da caverna.

— Não consigo suportar vê-la sofrer, minha querida — disse eu. — Em Londres, protegido pela mesa de trabalho, eu me isolo emocionalmente dos membros do mundo inteiro. Mas de você? Nunca.

Ela fez que sim.

— Eu também não quero lhe causar dor, chefe — disse ela —, mas preciso de você.

— Você não vai desistir disso, não é? — respondi, com a máxima ternura possível.

Ela não disse nada. E então falou.

— Estamos com um problema, David — disse ela, com os olhos fixos no altar, talvez evitando deliberadamente olhar para mim.

— E qual é esse problema, querida? — perguntei.

— Não sabemos exatamente aonde ir.

— Isso não me surpreende nem um pouco — respondi, tentando me lembrar do que podia das cartas imprecisas de Matthew. Procurei não parecer irritado nem arrogante. — Todas as cartas de Matthew foram remetidas num lote só a partir da Cidade do México, pelo que eu entendi, quando vocês estavam voltando para casa.

Ela fez que sim.

— Mas e o mapa que Oncle Vervain lhe deu? Sei que ele não tem nenhum nome, mas, quando você o tocou, o que aconteceu?

— Não aconteceu nada quando o toquei — disse ela. Deu um sorriso irônico. E ficou muito tempo calada. Então fez um gesto para o altar.

Foi então que eu vi o pequeno pergaminho enrolado, amarrado com uma fita preta, ao lado do retratinho de Oncle Vervain.

— Matthew teve ajuda para chegar lá — disse ela numa voz estranha, quase abafada. — Ele não calculou tudo a partir daquele mapa, nem sozinho de modo algum.

— Você está se referindo a feitiçaria — disse eu.

— Você parece um Grão-inquisidor — retrucou ela, com os olhos ainda muito distantes, o rosto desprovido de sentimento, o tom neutro. — Matthew tinha Sandra Gelada para ajudá-lo. Sandra Gelada sabia coisas de Oncle Vervain que eu não sei. Sandra Gelada conhecia toda a disposição do terreno. Mel ao Sol também. Ela era seis anos mais velha que eu.

Parou de falar. Era óbvio que estava profundamente perturbada. Acho que nunca a vi tão perturbada em toda a sua vida adulta.

— O pessoal da mãe de Oncle Vervain conhecia os segredos. — disse ela. — Vejo tantos rostos nos meus sonhos. — Abanou a cabeça como se estivesse tentando desanuviar a mente. Sua voz continuou quase como um sussurro. — Oncle Vervain costumava conversar o tempo todo com Sandra Gelada. Se ele não tivesse morrido quando morreu, talvez Sandra Gelada tivesse sido melhor, mas a verdade é que ele era muito velho. Sua hora tinha chegado.

— E nos sonhos, Oncle Vervain não lhe diz onde se localiza a caverna?

— Ele tenta — respondeu ela, triste. — Vejo imagens, fragmentos. Vejo o brujo maia, o sacerdote, subindo por uma rocha junto à cachoeira. Vejo uma grande pedra, esculpida com feições. Vejo incenso e velas, plumas de aves silvestres, plumas de cores lindas e oferendas de alimentos.

— Entendo — respondi.

Merrick balançou um pouco na cadeira, com os olhos passeando lentamente de um lado para o outro. Então, tomou mais um gole do rum no copo.

— É claro que eu me lembro de alguma coisa da viagem — disse ela, com a voz preguiçosa.

— Você só tinha dez anos de idade — disse eu, solidário. — E não deve pensar que, por causa desses sonhos, você deveria agora voltar lá. Ela me ignorou. Bebia seu rum com os olhos fixos no altar.

— São tantas ruínas, tantas bacias em regiões montanhosas — disse ela. — Tantas cachoeiras, tantas florestas tropicais. Preciso de mais uma informação. Na realidade, duas. A cidade para a qual voamos a partir da Cidade do México, e o nome da aldeia onde acampamos. Tomamos dois vôos para chegar àquela cidade. Não consigo me lembrar dos nomes, se é que algum dia eu os soube. Acho que não estava prestando atenção. Estava brincando na selva. Estava num mundo só meu. Eu praticamente não sabia por que estávamos ali.

— Querida, preste atenção... — comecei a falar.

— Não. Pode esquecer. Eu preciso voltar lá — disse ela, em tom áspero.

— Bem, suponho que você tenha vasculhado todos os seus livros a respeito da região da selva. Fez listas de cidades e vilarejos? — Parei o que ia dizer. Eu precisava me lembrar de que não queria que essa viagem perigosa se concretizasse.

Ela não me respondeu de imediato, e então olhou para mim com muita determinação. Seu olhar parecia extraordinariamente duro e frio. A luz das velas e a dos abajures deixavam seus olhos de um verde fantástico. Percebi que as unhas da mão estavam pintadas do mesmo tom de roxo brilhante das unhas dos pés. Mais uma vez, ela me parecia a encarnação de tudo o que eu um dia desejara.

— Claro que já fiz isso — disse-me ela com delicadeza. — Mas agora preciso descobrir o nome daquela aldeia, o último posto avançado de verdade; além do nome da cidade para a qual viajamos de avião. Se eu tivesse essa informação, poderia ir. — Ela deu um suspiro. — Especialmente aquela aldeia com o brujo: ela está ali há séculos, inacessível e à nossa espera. Se eu tivesse esse nome, saberia como chegar lá.

— Exatamente como? — perguntei-lhe eu.

— Mel sabe — respondeu ela. — Mel ao Sol estava com dezesseis anos quando fizemos a viagem. Mel vai se lembrar. Mel vai me dizer.

— Merrick, você não pode tentar invocar Mel! Você sabe que é perigoso demais, que é uma irresponsabilidade total, você não pode...

— David, você está aqui.

— Não posso protegê-la se você invocar esse espírito, meu Deus.

— Mas você tem de me proteger. Tem de me proteger porque Mel vai ser apavorante como sempre foi. Ela vai tentar me destruir quando aparecer.

— Então não a chame.

— Eu preciso fazer isso. Preciso. E preciso voltar àquela caverna. Prometi a Matthew Kemp quando ele estava morrendo que eu divulgaria suas descobertas. Ele não sabia que estava falando comigo. Achava que estava conversando com Sandra Gelada, ou talvez até mesmo com Mel, ou talvez com sua mãe. Eu não conseguia saber. Mas prometi. Prometi que divulgaria ao mundo a notícia daquela caverna.

— O mundo não se importa com mais uma ruína olmeca! — disse eu. — Há uma quantidade de universidades trabalhando por toda parte na selva e nas florestas tropicais. Existem cidades antigas em toda a América Central! Que diferença isso faz agora?

— Eu prometi a Oncle Vervain — disse ela, séria. — Prometi-lhe que apanharia todo o tesouro. Prometi que o traria para cá. “Quando você crescer”, ele me disse, e eu prometi.

— A mim parece mais que Sandra Gelada prometeu — disse eu, sem rodeios. — E talvez Mel ao Sol tenha prometido. Você estava com o quê? Sete anos, quando o velho morreu?

— Eu preciso cumprir a promessa — disse ela, em tom solene.

— Escute — insisti —, vamos parar com todo esse plano. Seja como for, é demasiado o perigo político de ir a essas selvas da América Central — protestei. — Não aprovarei a viagem. Sou o superior geral. Você não pode passar por cima da minha autoridade.

— E não pretendo — disse ela, suavizando o tom. — Preciso de você comigo. Preciso de você agora.

Ela parou e, inclinando-se para um lado, esmagou o cigarro antes de encher de novo o copo. Tomou um bom gole e voltou a se sentar na cadeira.

— Preciso chamar Mel — murmurou ela.

— Por que não chama Sandra Gelada? — perguntei em desespero.

— Você não entende, David. Mantive esse segredo trancado na minha alma todos esses anos, mas preciso chamar Mel. E Mel está perto de mim. Mel está sempre perto de mim! Eu já a senti perto de mim. Já a rechacei com meus poderes. Usei meus feitiços e minha força para me proteger. Mas na realidade ela nunca vai embora. — Tomou mais um bom gole do rum. — David, Oncle Vervain adorava Mel ao Sol. Mel também aparece nesses sonhos.

— Acho que é só sua imaginação horripilante! — afirmei.

Ela deu uma risada alta e cascateante ao ouvir isso, cheia de verdadeira diversão. Espantei-me.

— Ouça só suas palavras, David. Daqui a pouco vai querer me dizer que não existem fantasmas nem vampiros. E que a Talamasca é só uma lenda, que uma Ordem dessa natureza não existe.

— Por que você tem de invocar Mel?

Ela abanou a cabeça. Recostou-se na cadeira, e seus olhos se encheram de lágrimas visíveis. Dava para vê-las ao bruxuleio das velas. Eu estava ficando nervosíssimo.

Levantei-me, fui até a sala de jantar, encontrei a garrafa do uísque Macallan de vinte e cinco anos e os copos de cristal no aparador, e me servi uma boa dose. Retornei a ela. Então voltei à sala para apanhar a garrafa. Trouxe-a comigo, acomodei-me na poltrona e pus a garrafa na mesinha-de-cabeceira à minha esquerda.

O sabor do uísque escocês era maravilhoso. No avião não bebi nada pois queria estar alerta para minha reunião com Merrick, e agora ele abrandava meus nervos de um modo fantástico.

Ela ainda estava chorando.

— Muito bem, você vai invocar Mel e por algum motivo acha que Mel sabe o nome da cidade ou da aldeia.

— Mel gostava daqueles lugares — disse ela, sem se perturbar com a insistência na minha voz. — Mel gostava do nome da aldeia de onde fomos a pé até a caverna. — Voltou-se para mim. — Você não percebe? Esses nomes são como pedras preciosas engastadas no seu consciente; ela está ali com tudo o que chegou a saber um dia! Não precisa se lembrar como um ser humano. O conhecimento está nela e eu preciso fazer com que ela me passe esse conhecimento.

— Certo, percebi. Já estou entendendo tudo. Continuo afirmando que é perigoso. E, além do mais, por que o espírito de Mel não seguiu adiante?

— Ela não pode seguir enquanto eu não lhe contar o que ela quer saber. Isso me deixou totalmente perplexo. O que Mel poderia querer saber? De repente, Merrick levantou-se da cadeira, numa atitude parecida

com a de um gato sonolento que subitamente é levado à ação predatória, e fechou a porta que dava para o hall. Ouvi-a girar a chave.

Eu estava de pé. Mas recuei, sem ter certeza do que ela pretendia fazer. Sem dúvida, não estava bêbada o suficiente para que eu interferisse de modo autoritário e dramático; e não me surpreendi quando ela trocou o copo pela garrafa de rum e a levou para o centro do quarto.

Só então percebi que não havia nenhum tapete. Os pés descalços não faziam ruído no assoalho encerado; e, agarrando a garrafa com a mão direita junto ao peito, ela começou a girar, cantarolando e jogando a cabeça para trás.

Encostei-me ao máximo na parede.

Ela girava e girava sem parar, com a saia de algodão roxo abrindo-se em roda e a garrafa respingando rum no ar. Não deu nenhuma atenção à bebida derramada; e, girando mais devagar por um instante, tomou mais um grande gole antes de voltar a rodopiar tão veloz que a roupa batia com força nas suas pernas.

Estancou quando estava de frente para o altar e cuspiu o rum entre os dentes numa fina nuvem sobre os santos em espera.

Um uivo agudo saiu dos dentes cerrados, enquanto ela continuava a soprar o rum pela boca.

Mais uma vez começou a dançar, batendo os pés quase de propósito e murmurando. Eu não conseguia captar as palavras, nem em que língua falava. O cabelo estava caído emaranhado sobre o rosto. Mais um gole, mais borrifos de rum, as velas crepitando e bruxuleando quando eram atingidas pelas gotinhas e as inflamavam.

De repente, ela lançou um jorro de rum da garrafa por cima de todas as velas, e as chamas subiram diante dos santos numa perigosa labareda. Felizmente, o fogo se apagou.

Com a cabeça jogada para trás, ela gritou entre dentes em francês.

— Mel, fui eu! Mel, fui eu. Mel, fui eu!

O quarto pareceu tremer quando ela se curvou e continuou a girar, batendo forte com os pés numa dança ruidosa.

— Mel, fiz um feitiço contra você e Sandra Gelada! — gritou. — Mel, fui eu.

De repente, investiu contra o altar sem largar a garrafa e, agarrando com a mão esquerda o perfurador de jade verde, abriu um longo corte no braço direito.

Sufoquei um grito. O que eu poderia fazer para ajudá-la, pensei. O que eu poderia fazer que não a deixasse furiosa?

O sangue lhe escorria pelo braço, e ela abaixou a cabeça, lambeu-o, tomou o rum e borrifou mais uma vez a oferenda sobre os santos pacientes.

Eu via o sangue escorrendo pela sua mão, pelas articulações dos dedos. O ferimento era superficial, mas a quantidade de sangue era tremenda.

Ela ergueu a faca novamente.

— Mel, aquilo com você e Sandra Gelada, fui eu. Eu matei vocês. Eu fiz o feitiço contra vocês! — disse ela, aos berros.

Resolvi agarrá-la quando ela estava prestes a se cortar de novo. Mas não consegui me mexer.

Deus é testemunha de que eu não conseguia me mexer. Eu estava grudado no chão. Tentei de todos os modos superar a paralisia, mas em vão. Só consegui dar um grito.

— Pare com isso, Merrick!

Ela fez no braço um corte transversal ao primeiro, e novamente o sangue escorreu.

— Mel, venha a mim. Mel, me dê sua raiva, me dê seu ódio, Mel, eu matei você, Mel, eu fiz as bonecas de você e de Sandra Gelada, Mel, eu afoguei as bonecas na vala na noite em que vocês foram embora. Mel, eu matei vocês. Mel, eu mandei vocês para as águas do pântano. Mel, fui eu! — gritava ela, histérica.

— Pelo amor de Deus, Merrick, deixe disso! — exclamei. E então, de repente, não suportando vê-la cortar o braço mais uma vez, comecei a rezar em desespero para Oxalá.

— Dê-me o poder de fazer com que ela pare; dê-me o poder de distraí-la antes que ela se fira; dê-me o poder, eu lhe imploro, Oxalá, sou seu leal servidor, David, dê-me o poder. — Fechei os olhos. O assoalho tremia aos meus pés.

De repente o ruído dos seus gritos e dos pés descalços parou. Senti seu corpo contra o meu. Abri os olhos. Ela estava nos meus braços, nós dois voltados para a porta, inquestionavelmente aberta, e para a figura sombria que ali se postava de costas para a claridade do hall.

Era uma mocinha graciosa com o cabelo louro comprido muito crespo caindo como espuma sobre seus ombros, o rosto oculto na penumbra, os olhos amarelos, penetrantes à luz das velas.

— Fui eu! — murmurou Merrick. — Eu matei vocês.

Senti todo o corpo dócil de Merrick encostado no meu. Enlacei-a com firmeza. Mais uma vez, mas em silêncio, rezei a Oxalá.

Proteja-nos desse espírito se for malévola a intenção desse Espírito. Oxalá, você que fez o mundo, você que governa nas alturas, você que está entre as nuvens, proteja-nos. Não considere meus defeitos quando eu o invoco, mas dê-me seu perdão. Proteja-nos se esse espírito quiser nosso mal.

Merrick não estava trêmula. Ela trepidava, com o corpo suarento como durante aquela possessão tantos anos antes.

— Eu pus as bonecas na vala. Eu as afoguei na vala. Fui eu. Eu as afoguei. Eu mesma. Eu as amaldiçoei: “Que morram!” Eu sabia por Sandra Gelada que ela ia comprar o tal carro. E disse: “Que ele caia da ponte, que elas morram afogadas.” E disse: “Quando forem atravessar o lago, que morram.” Sandra Gelada tinha tanto medo daquele lago. Eu disse: “Que morram.”

A figura no vão da porta parecia tão sólida quanto qualquer coisa que eu já tivesse visto. O rosto sombrio não manifestava expressão, mas os olhos amarelos permaneciam fixos.

Saiu então dali uma voz, grave e cheia de ódio.

— Imbecil, não foi você a causa! — disse a voz. — Imbecil, você acha que provocou o que nos aconteceu? Você nunca provocou nada. Imbecil, você não saberia fazer um feitiço nem que fosse para salvar sua alma!

Pensei que Merrick fosse perder a consciência, mas de algum modo ela permaneceu em pé, embora meus braços estivessem prontos para segurá-la caso caísse. Ela fez que sim.

— Perdoe-me ter desejado que acontecesse — disse ela, num murmúrio rouco que parecia totalmente seu. — Perdoe-me, Mel, ter desejado que acontecesse. Eu queria ir com vocês, perdoe-me.

— Vá pedir perdão a Deus — disse a voz grave que provinha do semblante escurecido. — Não a mim.

Mais uma vez Merrick fez que sim. Dava para eu sentir o sangue derramado escorrendo pegajoso sobre meus dedos da mão direita. Fiz mais uma prece a Oxalá! Mas minhas palavras vinham automaticamente. Eu estava monopolizado de corpo e alma pela criatura no vão da porta que nem se mexia nem se dissolvia.

— Ajoelhe-se — disse a voz. — Escreva com sangue o que vou dizer.

— Não faça isso! — murmurei.

Merrick deu um salto adiante, caindo de joelhos no chão molhado e escorregadio do sangue e do rum derramado.

Mais uma vez, tentei me movimentar, mas não consegui. Era como se meus pés estivessem pregados às tábuas do assoalho.

Merrick estava de costas para mim, mas eu sabia que ela estava pressionando os ferimentos com os dedos da mão esquerda para fazê-los sangrar ainda mais. Ouvi então a criatura no vão da porta dizer dois nomes. O primeiro ouvi nitidamente.

— Guatemala, esta é a cidade onde se pousa — disse o espírito —, e Santa Cruz del Flores é o ponto mais próximo da caverna.

Merrick sentou-se nos calcanhares, arfando, com a respiração roncando rápida enquanto espremia o sangue sobre o chão, e começou a escrever com o indicador da mão direita os nomes que agora repetia com sua própria voz.

Eu não parava de rezar pedindo forças contra a figura, mas não posso alegar que minhas preces tenham feito a criatura começar a desaparecer.

Um berro horrendo escapou de Merrick.

— Mel, não me deixe! — gritou ela. — Mel, não vá. Mel, volte, por favor. Por favor, volte — disse ela, em soluços. — Mel ao Sol, eu amo você. Não me deixe sozinha.

Mas o espírito tinha sumido.

 

13

OS CORTES EM MERRICK NÃO ERAM FUNDOS, EMBORA O FLUXO DE SANGUE tivesse sido apavorante. Consegui até fazer um curativo razoável antes de levá-la ao hospital mais próximo, onde ela recebeu o tratamento correto para os ferimentos.

Não me lembro de qual absurdo dissemos ao médico atendente, mas sei que o convencemos de que, embora os ferimentos tivessem sido infligidos pela própria Merrick, ela estava em seu perfeito juízo. Insisti então que voltássemos para a casa matriz; e Merrick, que àquela altura estava meio zonza, concordou. Sinto vergonha de confessar que voltei para buscar o uísque escocês, mas a verdade é que a gente se lembra do sabor de um Highland Scotch de puro malte de vinte e cinco anos como Macallan.

Além do mais, eu não sabia ao certo se en estava em meu juízo perfeito. Lembro-me de ter bebido no carro, o que nunca faço, e de Merrick ter adormecido com a cabeça encostada no meu ombro, segurando firme meu pulso com a mão direita.

É bem possível entender meu estado mental.

O espírito visível de Mel ao Sol tinha sido uma das aparições mais ameaçadoras que eu jamais tinha visto. Estava acostumado a sombras, vozes interiores e até mesmo a episódios de possessão, mas ver a forma aparentemente sólida de Mel ao Sol em pé no vão da porta foi totalmente arrasador. Só a voz já tinha sido apavorante, mas a forma, sua aparente solidez e duração, o jogo da luz sobre ela, a extrema qualidade de reflexão dos olhos — tudo isso era um pouco mais do que eu poderia suportar sem esforço.

Havia ainda a questão da minha própria paralisia durante a experiência. Como Merrick tinha conseguido aquilo? Em suma; eu estava muito abalado mas profundamente impressionado.

Naturalmente, Merrick não ia dizer como tinha feito nenhuma parte daquilo tudo. Com efeito, Merrick não queria comentar a experiência de modo algum. Diante da mera menção do nome de Mel, ela começava a chorar. Como homem, considero essa atitude exasperante e injusta. No entanto, nada havia que eu pudesse fazer a respeito. Merrick enxugava as lágrimas e de imediato desviava o assunto para nossa aventura na selva.

Quanto à minha opinião sobre o ritual que utilizara para invocar Mel, eu o considerara simples, sendo seu principal componente a própria força pessoal de Merrick, e a súbita e terrível conexão com um espírito que aparentemente não descansava em paz.

Fosse como fosse, naquela noite e no dia seguinte, Merrick só queria falar sobre a viagem à selva. Tornara-se uma espécie de monomaníaca. Comprou os trajes de brim cáqui. Chegou a encomendar os mesmos trajes para mim! Devíamos ir direto para a América Central. Precisávamos do equipamento de fotografia mais sofisticado, bem como de todo o apoio que a Talamasca pudesse fornecer.

Ela queria voltar à caverna porque lá havia outros itens e porque queria conhecer a terra que tinha sido tão importante para seu velho Oncle Vervain. Oncle Vervain não a estaria atormentando se não houvesse um tesouro substancial por lá que ele queria que ela possuísse. Oncle Vervain não ia deixá-la em paz.

Durante os dois dias seguintes, enquanto bebia quantidades absurdas do delicioso e encorpado Macallan Scotch, do qual Merrick havia providenciado algumas garrafas, tentei controlá-la, para impedir a realização da viagem. Totalmente em vão. Eu não parava de me embebedar, e Merrick estava determinada. Se eu não desse o apoio e a autoridade da Talamasca, ela partiria por sua própria conta.

No entanto, embora meus conselhos fossem contrários a tudo aquilo, o fato era que eu me sentia jovem novamente graças a essas experiências. Sentia a empolgação cheia de curiosidade de alguém que viu um espírito com seus próprios olhos. E também eu não queria chegar ao fim da vida sem voltar a ver uma selva tropical. Mesmo as discussões com Merrick tinham um efeito loucamente estimulante. Que essa mulher jovem, forte e linda quisesse que eu a acompanhasse era algo que me subia à cabeça.

— Nós vamos — disse Merrick, examinando detidamente um mapa na biblioteca da Talamasca. — Veja bem, agora eu sei o caminho. Mel me deu as únicas pistas que me eram necessárias. Lembro-me dos pontos de referência; e sei que aquela parte da selva continua inexplorada. Li todos os livros recentes sobre a região.

— Mas nos seus livros você não encontrou nenhuma Santa Cruz del Flores, encontrou? — protestei.

— Não se preocupe. Ela está lá. É só pequena demais para aparecer nos mapas que compramos aqui. Tenho certeza de que as pessoas vão saber onde fica, quando chegarmos ao norte da Guatemala. Pode deixar essa parte comigo. Apenas não há dinheiro suficiente para o estudo de cada ruína isolada. E, nessa parte da selva, há um monte de ruínas, possivelmente um complexo de templos ou mesmo uma cidade. Foi você mesmo quem me disse isso.

“Eu me lembro de ter visto um templo espetacular. Você não quer vê-lo com seus próprios olhos?” Ela estava zangada e despretensiosa como uma criança. “David, por favor, retome seu ímpeto como superior geral, ou seja lá como for, e providencie tudo para nós de uma vez.”

— Mas por que você acha que Mel ao Sol lhe deu as respostas para essas perguntas com tanta facilidade? — perguntei. — Isso não lhe despertou nenhuma suspeita?

— David, é simples — disse Merrick. — Mel quis me dizer algo de valor porque quer que eu a invoque de novo.

A evidente verdade dessa afirmação abalou-me até certo ponto.

— Deus é testemunha de que você, Merrick, está fortalecendo esse espírito. Ele sem dúvida deveria ser aconselhado a seguir adiante na direção da Luz.

— É claro que eu recomendo que ela vá — respondeu Merrick —, mas Mel não quer me deixar. Eu lhe disse naquela noite. Eu lhe disse que venho sentindo a presença de Mel há anos. Todo esse tempo fingi que não havia Mel nenhuma, selva nenhuma, que eu não precisava retornar a essas lembranças dolorosas, que poderia mergulhar em estudos acadêmicos. Você sabe disso.

“Mas completei a parte acadêmica básica da minha vida. E agora preciso voltar. Agora pare de mencionar Mel, pelo amor de Deus. Você acha que eu quero pensar no que eu fiz?” E voltou então aos mapas, mandando pedir mais uma garrafa de Macallan para mim e me dizendo que íamos precisar de equipamento para acampar e que eu deveria começar a tomar providências imediatamente.

Afinal, aleguei que aquela era a estação chuvosa na região da selva e que deveríamos esperar até o Natal, quando as chuvas parassem. Ela estava preparada para essa objeção. As chuvas tinham terminado; vinha acompanhando os boletins diariamente. Agora podíamos ir.

Não restava nada a fazer a não ser seguir viagem. Se eu tivesse condenado o plano na qualidade de superior geral, Merrick teria partido para a América Central sozinha. Como membro pleno da Ordem, durante anos ela havia sacado uma boa remuneração e havia depositado no banco até o último centavo. Tinha condições de partir sozinha, e foi isso o que me disse.

— Veja bem — disse ela —, para mim vai ser uma grande mágoa viajar contra sua vontade, mas, se for preciso, eu viajo.

E foi assim que providenciamos a companhia de quatro auxiliares de campo da Talamasca, tanto para lidar com o equipamento de acampamento quanto para portar armas de fogo caso nos deparássemos com malfeitores nos lugares aonde pretendíamos ir.

Agora permitam-me dar uma explicação sucinta sobre esses auxiliares de campo a qualquer um que esteja lendo esta história e possa sentir alguma curiosidade a seu respeito. A Talamasca dispõe de muitos desses auxiliares de campo no mundo inteiro. Não se trata de membros plenos da Ordem, não têm acesso aos arquivos e sem dúvida não têm nenhum acesso ou conhecimento das caixas-fortes da Talamasca. Eles não prestam juramento como prestam os membros verdadeiros da Ordem. Não têm, nem precisam ter, capacidade paranormal. Não têm um prazo de compromisso por número de anos nem pela vida inteira.

Na realidade, são funcionários da Talamasca sob suas diversas razões sociais, e seu objetivo principal consiste em acompanhar os membros da Ordem em expedições exploratórias ou arqueológicas, ajudar-nos em cidades e países estrangeiros e, em geral, fazer o que lhes for solicitado. São peritos na obtenção de passaportes, vistos e portes de armas em outros países. Muitos têm alguma experiência jurídica, bem como nas forças armadas de diferentes nações. São extraordinariamente confiáveis.

Caso encontrássemos essa caverna e seu tesouro, seriam os auxiliares de campo que providenciariam a remessa dos artefatos, de modo seguro e legítimo, para fora do país, com a obtenção de todas as devidas licenças e pagamento dos encargos pertinentes. Ora, se esse último tipo de atividade envolveria algo que não fosse lícito, eu francamente não sabia. Isso era assunto dos auxiliares de campo, por assim dizer.

Essas pessoas têm, sim, algum vago conhecimento de que a Talamasca é uma Ordem de organização muito fechada de investigadores da paranormalidade, mas em geral gostam do que fazem, recebem salários enormes e nunca procuram invadir ou sondar a Ordem de modo algum. Muitos deles são mercenários experientes. Seu trabalho para nós quase nunca envolve violência proposital. E eles valorizam a oportunidade de receber uma boa remuneração de uma fonte relativamente inócua.

Finalmente chegou o dia da nossa partida. Nós já tínhamos ultrapassado todos os limites da paciência de Aaron e ele, nunca tendo viajado na selva, estava extremamente agitado, mas foi amável ao nos acompanhar até o avião.

Voamos para o sul, até a capital da Guatemala, onde confirmamos a existência e a localização da aldeia maia de Santa Cruz del Flores na direção nordeste. O entusiasmo de Merrick era fantástico.

Um pequeno avião levou-nos a uma agradável cidade do norte, mais próxima do nosso destino. E de lá partimos com os auxiliares de campo em dois jipes bem supridos.

Adorei o calor, o som da chuva delicada, a música das vozes espanholas e ameríndias. E a visão de tantos ameríndios em seus belos trajes brancos, com a suavidade de sua expressão, fez com que eu me sentisse maravilhosamente imerso na riqueza cultural de um lugar estrangeiro e ainda intacto.

Na realidade, há muitos problemas naquela parte do mundo, mas nós conseguimos nos manter longe deles. E meus olhos procuravam os detalhes amenos.

Não importa. Eu me sentia extraordinariamente feliz. Era como se fosse jovem de novo; e a imagem de Merrick de saia-calça curta e blusão safári cáqui era um estimulante tão assombroso quanto seu ar de autoridade era tranqüilizante para meus nervos.

Merrick dirigia nosso jipe como uma louca furiosa; mas, contanto que o segundo carro em nosso pequeno comboio conseguisse acompanhar nosso ritmo, eu não me queixava. Preferi não pensar nos galões de combustível que estávamos carregando e em como tudo explodiria se colidíssemos com um sapotizeiro. Eu apenas confiava em que qualquer mulher que conseguia invocar um espírito conseguiria dirigir um jipe por uma estrada perigosa.

A floresta era assombrosa. Bananeiras e pés de frutos cítricos praticamente bloqueavam o caminho, fechando ambos os lados da ladeira sinuosa, aqui e ali mognos gigantescos alcançavam cinqüenta metros de altura e do alto da copa vinha a algazarra inconfundível mas assustadora dos guaribas, bem como os gritos de incontáveis espécies de aves exóticas.

Nosso pequeno mundo estava impregnado de verde, mas repetidamente nos encontrávamos num alto promontório do qual podíamos apreciar a copa da floresta que se espalhava pelas encostas vulcânicas abaixo de nós.

Logo tornou-se evidente que tínhamos penetrado numa floresta de nuvens; e muitas vezes passamos por aquela sensação maravilhosa em que as nuvens realmente nos envolviam e a umidade agradável entrava pelas janelas descobertas do jipe para pousar na nossa pele.

Merrick sabia que eu estava adorando a viagem.

— Eu lhe garanto, David, a parte final não vai ser difícil — disse ela.

Finalmente, chegamos a Santa Cruz del Flores, um lugarejo na mata, tão pequeno e tão remoto que a recente luta política no país não havia chegado a tocá-lo.

Merrick afirmou que o lugar era muito semelhante às suas lembranças — um pequeno agrupamento de prédios de cores vivas, cobertos com sapê, e uma antiga igreja espanhola de pedra, pequena mas de uma beleza notável. Porcos, galinhas e perus passeavam por toda parte. E avistei alguns milharais em áreas desmaiadas, mas não muitos. A praça central da aldeia era de terra batida.

Quando nossos dois jipes chegaram, os moradores do local vieram nos receber com muita simpatia, reforçando minha opinião de que os indígenas de origem maia estão entre os povos mais simpáticos do mundo. Eram em sua maioria mulheres, vestidas em trajes brancos, enfeitados com bordados extraordinários. Vi ao meu redor rostos que me lembraram de pronto os semblantes antigos da América Central preservados na arte maia e possivelmente na olmeca.

Disseram-me que a maior parte dos homens do lugarejo tinha ido trabalhar em canaviais distantes ou na fazenda de extração de chicle mais próxima. Ocorreu-me que poderia ser trabalho forçado, mas resolvi que era melhor não perguntar. Quanto às mulheres, elas costumavam andar muitos quilômetros num dia para oferecer seus primorosos artigos de cestaria e tecidos bordados para venda numa grande feira indígena. Estavam gratas pela oportunidade de expor seus produtos em casa.

Não havia absolutamente nenhum tipo de hotel, na realidade nem correio, telefone, nem telégrafo — mas algumas velhas se dispuseram a nos oferecer acomodações em suas casas. Nossos dólares eram bem-vindos. Havia belas peças de artesanato à venda, e nós compramos à vontade. Também não faltavam alimentos.

Eu logo quis ver a igreja e fui informado em espanhol por um dos moradores que não poderia entrar pela porta da frente sem primeiro pedir permissão à divindade que dominava aquela entrada. Naturalmente, eu poderia entrar pelo lado, se desejasse.

Sem querer ofender ninguém, optei pela entrada lateral e me encontrei num prédio simples de paredes brancas em meio a antigas imagens espanholas de madeira e ao costumeiro bruxuleio das velas, um local realmente reconfortante.

Creio que rezei como nos velhos tempos no Brasil. Rezei para que todas aquelas invisíveis divindades benévolas estivessem conosco e nos protegessem de qualquer tipo de mal.

Alguns momentos depois, Merrick juntou-se a mim, fazendo o sinal-da-cruz e se ajoelhando diante da mesa de comunhão para rezar por um bom tempo. Acabei saindo para esperar lá fora.

Ali avistei um velho meio enrugado, de estatura baixa e com os cabelos negros compridos até o ombro. Estava trajado com simplicidade em calças e camisa costuradas a máquina. Soube de imediato que ele era o xamã do local. Fiz-lhe um cumprimento respeitoso e, embora seus olhos se detivessem em mim sem nenhum sinal de ameaça, segui caminho.

Eu estava com calor, mas extremamente feliz. O lugarejo era cercado de coqueiros e havia até mesmo pinheiros, graças à altitude; e, pela primeira vez na minha vida, enquanto perambulava pelas matas das redondezas, vi muitas borboletas delicadas na penumbra entrecortada de sol.

Havia momentos em que minha felicidade era tão absoluta que eu poderia ter chorado. Em segredo estava grato a Merrick pela viagem. E concluí no fundo do meu coração que para mim a experiência tinha sido muito valiosa, não importava o que fosse acontecer dali em diante.

No que dizia respeito às acomodações, escolhemos um meio-termo. Merrick determinou que os quatro auxiliares de campo se alojassem nas casas do lugarejo, depois que eles armaram e abasteceram uma barraca para nós logo atrás da casa mais afastada do lugarejo. Tudo isso me parecia perfeitamente razoável até eu me dar conta de que éramos um homem e uma mulher solteiros que residiriam na barraca, o que não era correto de modo algum.

Continuar: parte 2 de 4