Merrick
Capítulo 25
NENHUMA QUANTIDADE DE SANGUE DE LESTAT PODERIA TORNAR MERRICK sua igual. Nenhuma quantidade poderia tornar qualquer um de nós seu igual. Mas, pela implacável troca de sangue, Merrick foi imensamente beneficiada.
E assim formamos um novo Conciliábulo, animados e felizes com a companhia uns dos outros, e perdoando-nos mutuamente todos os pecados anteriores. A cada hora que passava, Lestat voltava cada vez mais a ser a criatura de ação e impulso de outrora que eu havia amado por tanto tempo.
E eu acredito que Merrick me atraiu para si com um feitiço? Não. Não acredito que minha razão seja assim tão suscetível, mas como posso entender os desígnios de Oncle Vervain?
Com total determinação, afastei do meu pensamento essas questões e me dediquei a Merrick com a mesma sinceridade de sempre, muito embora precisasse suportar a visão do seu fascínio por Louis, e do fascínio que ele sentia por ela.
Eu tinha Lestat novamente, não é mesmo?
Foi duas noites depois — noites sem acontecimentos ou realizações notáveis, à exceção da experiência cada vez maior de Merrick — que eu fiz a Lestat a pergunta que tanto me havia perturbado durante seu longo sono.
Foi na sala de visitas da frente na Rue Royale, com sua decoração primorosa. Ele estava maravilhoso no paletó de veludo negro de corte impecável, com botões de camafeu, nada menos, e seu belo cabelo louro reluzia como deveria à luz familiar dos numerosos abajures.
— Seu longo sono me assustou — confessei. — Houve horas em que eu poderia ter jurado que você não estava mais no corpo. É claro que estou falando de uma forma de audição que me é vedada por ser sua cria. Mas falo de um instinto humano em mim que ainda é bem forte.
Passei ao relato de como fiquei totalmente perturbado de vê-lo desse jeito, de não conseguir despertá-lo, e de temer que sua alma tivesse se habituado a vagar e pudesse não retornar.
Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, e por um átimo acreditei ter visto uma sombra lhe encobrir o rosto. E então ele me deu um sorriso caloroso e fez um gesto para eu não me preocupar mais.
— Talvez uma noite dessas eu lhe fale a respeito disso, David. Por enquanto, devo dizer que há alguma verdade nas suas conjecturas. Nem sempre eu estava ali. — Calou-se, pensando, até mesmo murmurando algo que eu não conseguia ouvir. Depois, prosseguiu. — Quanto ao lugar onde eu estava, não posso explicar agora. Mas, da mesma forma, talvez uma noite dessas, a você, mais do que a todos os outros, eu tente explicar.
Minha curiosidade foi terrivelmente atiçada, e por um instante ele me deixou transtornado mas, quando começou a rir de mim, eu permaneci em silêncio.
— Não vou voltar ao meu sono — disse ele, por fim. Seu ar era perfeitamente sóbrio e convincente. — Quero que vocês todos tenham certeza disso. Já se passaram anos desde que Memnoch me procurou. Pode-se dizer que gastei toda a minha reserva para enfrentar aquela provação terrível. Quanto à ocasião em que fui despertado antes pela música de Sybelle, eu estava mais próximo de todos vocês ali do que vim a estar algum tempo depois.
— Você está me provocando com sugestões de que algo lhe aconteceu, Lestat.
— Talvez tenha acontecido — respondeu ele, com suas hesitações e seu tom brincalhão me deixando furioso. — Talvez não. David, como posso saber? Tenha paciência. Agora temos um ao outro novamente, e Louis deixou de ser o símbolo da nossa insatisfação. Acredite em mim, isso me deixa feliz.
Sorri e assenti, mas a simples recordação de Louis me trazia à mente a imagem horrenda dos seus restos carbonizados no caixão. Aquela era a prova inquestionável de que a tranqüila e onipotente glória do sol de todos os dias nunca mais voltaria a brilhar sobre mim. Era a prova cabal de que podemos perecer com tanta facilidade, de que todo o mundo mortal é um inimigo letal durante as horas entre o amanhecer e o entardecer.
— Perdi muito tempo — observou Lestat, no seu costumeiro estilo vigoroso, com os olhos percorrendo a sala. — São muitos os livros que pretendo ler e as coisas que pretendo ver. O mundo está novamente ao meu redor. Estou agora no meu chão.
Imagino que poderíamos ter passado uma noite tranqüila depois disso, nós dois lendo, nós dois apreciando o consolo daqueles quadros impressionistas exuberantemente domésticos, se Merrick e Louis não tivessem subido pela escadaria de ferro e chegado pelo corredor à sala da frente de modo tão súbito.
Merrick não tinha abdicado da sua queda por vestidos de cintura marcada e estava esplêndida numa seda verde-escura. Vinha na frente, com Louis, mais discreto, atrás dela. Os dois se sentaram no sofá de brocado em frente a nós, e de pronto Lestat perguntou.
— O que houve?
— A Talamasca — disse Merrick. — Acho prudente sairmos de Nova Orleans. Creio que deveríamos fazer isso imediatamente.
— Isso não faz o menor sentido — retrucou Lestat, direto. — Não quero saber disso. — No mesmo instante, seu rosto estava corado e expressivo. — Nunca tive medo de mortais na minha vida. Não tenho medo da Talamasca.
— Talvez devesse ter — disse Louis. — Você precisa ouvir a carta que Merrick recebeu.
— O que você quer dizer com “recebeu”? — perguntou Lestat, irritado. — Merrick, você não voltou para a casa matriz! Sem dúvida você sabia que não se pode fazer uma coisa dessas.
— É claro que não voltei, e minha lealdade a vocês todos é total. Não a questione — retrucou ela. — Mas deixaram esta carta na minha velha casa em Nova Orleans. Encontrei-a esta noite, não gostei dela e acho que é hora de reconsiderarmos tudo, muito embora vocês possam atribuir a culpa a mim.
— Não vou reconsiderar nada — disse Lestat. — Pode ler.
Assim que ela a tirou da bolsa de lona, vi que era uma missiva dos Anciãos, entregue em mão. Fora escrita em pergaminho verdadeiro destinado a sobreviver a séculos, muito embora uma máquina decerto a imprimira, pois quando foi que os Anciãos escreveram alguma coisa de próprio punho?
“Merrick,
Soubemos com grande consternação das suas recentes experiências na velha casa em que nasceu. Ordenamos que deixe Nova Orleans com a máxima rapidez possível. Não troque mais palavras com seus companheiros na Talamasca, nem com essa companhia exclusiva e perigosa que obviamente a seduziu, e venha direto a nós em Amsterdã.
Seu quarto já está arrumado para você na casa matriz, e esperamos que você obedeça a essas instruções.
Por favor, compreenda que, como sempre, queremos aprender com você acerca das suas recentes e imprudentes experiências, mas não pode haver nenhum equívoco quanto a nossas advertências. Você deverá romper relações com aqueles que nunca poderão ter nossa sanção e deverá vir nos procurar imediatamente.”
Ela pôs a carta no colo.
— Traz o sinete dos Anciãos — disse ela. Pude ver nitidamente o lacre de cera.
— Por que vamos nos importar com o fato de ter seu sinete? — perguntou Lestat. — Ou o sinete de qualquer outra pessoa? Eles não podem forçá-la a ir a Amsterdã. Por que você sequer cogita uma idéia dessas?
— Tenha paciência comigo — respondeu ela, de pronto. — Não estou cogitando nada semelhante. O que estou dizendo é que estivemos sendo observados meticulosamente.
Lestat abanou a cabeça.
— Nós sempre fomos meticulosamente vigiados. Eu me disfarcei como um dos meus próprios personagens por mais de uma década. De que me importa se sou vigiado? Desafio qualquer um a me atacar. Ao meu estilo, sempre desafiei. E raramente... raramente... me enganei.
— Mas, Lestat — disse Louis, inclinando-se para a frente e o encarando nos olhos. — Isso significa que a Talamasca acredita ter obtido uma visão de nós, de David e de mim, na casa de Merrick. E isso é perigoso, perigoso porque pode criar inimigos para nós entre aqueles que realmente acreditam no que somos.
— Eles não acreditam — declarou Lestat. — Ninguém acredita. É isso o que sempre nos protege. Ninguém, além de nós mesmos, acredita no que somos.
— Você está enganado — disse Merrick antes que eu pudesse me manifestar. — Eles realmente acreditam em você.
— E assim “eles observam e estão sempre presentes” — disse Lestat, zombando do velho lema da Ordem, o próprio lema impresso nos cartões de visita que eu portava no passado quando caminhava pela terra como um homem normal.
— Mesmo assim — disse eu, rápido —, deveríamos partir por enquanto. Não podemos voltar à casa de Merrick, nenhum de nós. E aqui na Rue Royale, não podemos permanecer.
— Eu me recuso a ceder a eles — disse Lestat. — Eles não vão me dar ordens nesta cidade que me pertence. Durante o dia, dormimos escondidos. Pelo menos, vocês três preferem dormir escondidos, mas a noite e a cidade nos pertencem.
— Como assim, a cidade nos pertence? — perguntou Louis com uma inocência quase comovente.
Lestat o interrompeu com um gesto de desdém.
— Há duzentos anos eu moro aqui — disse ele, numa voz baixa, eloqüente. — Não vou embora por causa de uma Ordem de estudiosos. David, quantos anos faz que eu fui visitá-lo na casa matriz em Londres? Nunca tive medo de você. E o desafiei com minhas perguntas. Exigi que você criasse uma pasta separada para mim nos seus arquivos volumosos.
— É, Lestat, mas acho que agora as coisas podem ser diferentes. — Eu olhava atentamente para Merrick. — Querida, você nos contou tudo? — perguntei.
— Contei — disse ela, olhando para a frente como se estivesse examinando as entranhas do problema. — Já lhes disse tudo, mas a verdade é que isso foi escrito há alguns dias. E agora tudo mudou. — Ela olhou finalmente para mim. — Se estamos sendo vigiados, como suspeito que estamos, então eles já sabem o quanto tudo mudou.
Lestat pôs-se de pé,
— Não tenho medo da Talamasca — afirmou ele, com forte ênfase. — Não tenho medo de ninguém. Se a Talamasca me quisesse, poderia ter vindo me apanhar durante todos os anos em que dormi na poeira no convento de St. Elizabeth.
— Mas, veja bem, é essa a questão — disse Merrick. — Eles não queriam você. Queriam observá-lo. Queriam estar por perto, como sempre, a par de conhecimentos que ninguém mais possuía, mas não queriam tocá-lo. Não queriam atrair seus poderes consideráveis, Lestat, contra eles mesmos.
— Ah, belas palavras — disse ele. — Disso eu gostei. Meus poderes consideráveis. Seria bom que eles pensassem nisso.
— Por favor, eu lhe imploro — disse eu. — Não ameace a Talamasca.
— E por que não ameaçá-los? — perguntou-me ele.
— Você não pode estar pensando a sério em fazer algum mal a membros da Talamasca — disse eu, num tom um pouco áspero, de tanta preocupação. — Você não pode fazer isso por respeito a Merrick e a mim.
— Vocês estão sendo ameaçados, não estão? — perguntou Lestat. — Todos nós estamos sendo ameaçados.
— Mas você não entende — disse Merrick. — É perigoso demais você fazer algo contra a Talamasca. Eles são uma organização enorme, uma organização antiga...
— Não me importo — disse Lestat.
— ... e realmente sabem o que você é — retrucou ela.
— Lestat, sente-se de novo, por favor — disse Louis. — Você não está vendo o ponto principal? Não se trata apenas da considerável idade e poder deles. Não se trata simplesmente dos seus recursos. Trata-se de quem eles realmente são. Eles têm conhecimento de nós, podem resolver interferir nos nossos assuntos. Podem resolver nos causar um mal enorme aonde quer que possamos ir, em qualquer parte do mundo.
— Você está sonhando, meu belo amigo — disse Lestat. — Pense no sangue que compartilhei com você. Pense nisso, Merrick. E pensem na Talamasca e nos seus métodos pesadões. O que a Ordem fez quando perdeu Jesse Reeves? Não houve ameaças naquela época.
— Eu penso mesmo nos métodos deles, Lestat — disse Merrick, com veemência. — E creio que deveríamos sair daqui. Deveríamos levar conosco todas as provas que seriam úteis para as investigações dele. Deveríamos ir.
Lestat olhou com raiva para cada um de nós e depois saiu furioso do apartamento.
Ao longo de toda aquela noite, não soubemos onde ele estava. Conhecíamos seus sentimentos, sim. Nós os entendíamos e os respeitávamos; e de algum modo resolvemos tacitamente fazer o que ele dissesse. Se tínhamos um líder, era Lestat. À medida que o amanhecer se aproximou, tomamos extremo cuidado para chegar aos nossos esconderijos. Compartilhávamos o sentimento de que não estávamos mais ocultos no meio da multidão.
Após o pôr-do-sol, na noite seguinte, Lestat voltou ao apartamento na Rue Royale.
Merrick tinha descido para receber mais uma carta de uma entrega especial, uma carta que eu temia. E Lestat apareceu na sala da frente do apartamento pouco antes de Merrick voltar.
Lestat estava despenteado, impetuoso e irritado, e caminhava com passos ruidosos, um pouco como se fosse um arcanjo à procura de uma espada perdida.
— Por favor, controle-se — disse-lhe eu, categórico. Ele me encarou, encolerizado, mas sentou-se numa poltrona e, olhando furioso de mim para Louis, esperou que Merrick entrasse na sala.
Afinal, Merrick apareceu, com o envelope aberto e o papel pergaminho na mão. Só posso descrever a expressão no seu rosto como perplexidade, e ela me procurou antes de olhar de relance para os outros e então voltou a procurar meus olhos.
Paciente, com um gesto para que Lestat se mantivesse quieto, observei-a tomar assento no sofá de damasco, ao lado de Louis. Não pude deixar de perceber que ele não tentou de modo algum ler a carta por cima do seu ombro. Apenas esperou, mas estava tão ansioso quanto eu.
— É tão extraordinário — disse ela, hesitante. — Nunca ouvi dizer que os Anciãos tomassem uma atitude dessas.’ Nunca soube de ninguém na nossa Ordem que fosse tão explícito. Conheço os estudos aprofundados. Conheço a observação. Conheço inúmeros relatos sobre fantasmas, bruxaria, vampiros, é, até mesmo vampiros. Mas nunca vi nada semelhante.
Ela abriu a página única e, com uma expressão atordoada, leu em voz alta.
“Sabemos o que vocês fizeram a Merrick Mayfair. Recomendamos agora que Merrick Mayfair nos seja devolvida. Não aceitaremos explicações, pretextos, nem desculpas. Não pretendemos ter entendimentos quanto a este assunto. Merrick Mayfair deve voltar, e não aceitaremos nada que não seja sua volta.”
Lestat riu baixinho.
— O que eles acham que você é, chérie, para virem nos dizer que devemos entregá-la a eles? Acham que você é uma pedra preciosa? Ora essa, esses estudiosos antiquados são uns misóginos. Eu mesmo nunca fui tão grosseiro.
— O que mais ela diz? — perguntei, rápido. — Você não leu tudo. — Ela pareceu despertar do atordoamento, e olhou novamente para o papel.
“Estamos dispostos a abandonar nossa postura passiva de séculos no que diz respeito à sua existência. Estamos dispostos a declará-los um inimigo que deve ser exterminado a qualquer preço. Estamos dispostos a usar nossos consideráveis recursos e poder para garantir que vocês sejam destruídos.
Atendam nosso pedido, e nós toleraremos sua presença em Nova Orleans e nas cercanias. Retornaremos a nossas observações inócuas. Porém, se Merrick Mayfair não voltar imediatamente à casa matriz chamada Oak Haven, tomaremos medidas para torná-los alvo de perseguição em qualquer parte do mundo aonde possam ir.”
Só agora o rosto de Lestat perdia a expressão de raiva e desdém. Só agora ele se acalmava, pensativo, o que não interpretei de modo algum como um bom sinal.
— Muito interessante mesmo — disse ele, erguendo as sobrancelhas. — No fundo, muitíssimo interessante.
Um longo silêncio dominou Merrick, e nesse meio tempo creio que Louis fez alguma pergunta sobre a idade dos Anciãos, sua identidade, tocando em pontos dos quais eu nada sabia e sobre os quais tinha sérias dúvidas. Creio que consegui lhe transmitir que ninguém dentro da Ordem sabia quem eram os Anciãos. Houve épocas em que a própria comunicação com eles havia sido fraudada, mas em geral eles comandavam a Ordem. Era um sistema autoritário e sempre havia sido desde suas origens nebulosas, sobre as quais sabíamos pouquíssimo, mesmo aqueles de nós que tinham passado a vida entre os muros da Ordem.
Finalmente Merrick falou.
— Você não percebe o que aconteceu? — disse ela. — Com todo o meu planejamento egoísta, acabei desafiando os Anciãos.
— Não foi você sozinha, minha querida — acrescentei, ligeiro.
— Não, claro que não — disse ela, ainda com a expressão de pasmo —, mas só na medida em que fui responsável pelos feitiços. Só que nestas últimas noites, avançamos tanto que eles não podem mais nos ignorar. Há muito tempo, foi Jesse. Depois, David, e agora é Merrick. Vocês não estão vendo? Sua longa atenção intelectual dedicada aos vampiros levou a tragédias, e agora eles se sentem desafiados a fazer alguma coisa que, ao que nos seja dado saber, nunca fizeram antes.
— Não vai dar em nada — disse Lestat. — Podem escrever o que digo.
— E os outros vampiros? — perguntou Merrick, baixinho, olhando para ele enquanto falava. — O que nossos próprios anciãos dirão quando descobrirem o que foi feito aqui? Romances com capa bonita, filmes de vampiros, música assustadora, nada disso desperta um inimigo humano. Na realidade, eles proporcionam um disfarce flexível e reconfortante. Mas o que fizemos aqui incitou a Talamasca, e ela não está declarando guerra somente contra nós; está declarando guerra contra nossa espécie, e isso significa outros vampiros, será que você não entende?
Lestat parecia enfurecido e encurralado. Eu quase conseguia ver as pequenas engrenagens em funcionamento no seu cérebro. Sua expressão foi devagar adquirindo um ar totalmente hostil e malévolo, que eu sem dúvida tinha visto em anos passados.
— É claro que, se eu for até eles — disse Merrick —, se eu me entregar...
— Isso é inconcebível — disse Louis. — Até mesmo eles devem saber.
— Seria a pior atitude que você poderia tomar — aparteei.
— Colocar-se nas mãos deles? — perguntou Lestat, com sarcasmo. — Nestes nossos tempos de uma tecnologia que poderia provavelmente reproduzir suas células no seu próprio sangue num laboratório? Não. Inconcebível é a palavra.
— Não quero estar nas mãos deles — disse Merrick. — Não quero estar cercada por aqueles que levam uma vida que perdi totalmente. Isso nunca, nunca fez parte do meu plano.
— E isso não vai acontecer — disse Louis. — Você estará conosco, e nós vamos embora daqui. Deveríamos estar nos preparando, destruindo toda e qualquer prova que lhes permita defender seus desígnios junto aos subordinados.
— Será que os mais velhos vão entender por que eu não os procurei — perguntou ela —, quando descobrirem sua paz e solidão invadidas por um novo tipo de estudioso? Vocês não vêem o que está implícito?
— Você está subestimando a todos nós — disse eu, com calma. — Mas creio que estamos passando nossa última noite neste apartamento. E de todos esses objetos que nos proporcionaram tanto conforto estou me despedindo, como todos deveríamos nos despedir.
Olhamos para Lestat, cada um de nós, examinando seu rosto contraído, irado. Finalmente, ele falou.
— Você se dá conta, não é mesmo — perguntou-me, direto —, de que posso facilmente eliminar os próprios membros que fizeram as observações que agora nos estão ameaçando?
De imediato, Merrick protestou, e eu também. Era só uma questão de gestos desesperados, e então eu me permiti uma rápida súplica.
— Não faça isso, Lestat. Vamos embora daqui. Vamos matar-lhes a fé, não a eles. Como um pequeno exército em retirada, vamos incinerar todas as provas que poderiam se transformar em troféus para eles. Não posso suportar a idéia de me voltar contra a Talamasca. Não posso. O que mais posso dizer?
Merrick fez que sim, embora permanecesse calada.
Finalmente, Lestat manifestou-se.
— Muito bem — disse ele, com uma determinação vingativa. — Cedo diante de vocês todos porque os amo. Vamos embora. Vamos deixar esta casa que foi meu lar por tantos anos. Vamos deixar esta cidade que todos adoramos. Vamos deixar tudo isso e encontrar algum lugar onde ninguém consiga nos detectar no meio da multidão. Vamos fazer isso, mas eu lhes digo que essa decisão não me agrada, e que para mim os membros da Ordem, com essas mesmas comunicações perderam qualquer escudo protetor especial que um dia possam ter possuído.
Estava resolvido.
Começamos a trabalhar, velozes, em silêncio, certificando-nos de que nada restasse que pudesse conter o poderoso sangue que a Talamasca procuraria examinar assim que possível.
Logo o apartamento estava limpo de tudo o que pudesse ter sido usado como prova; e então nós quatro fomos à casa de Merrick para realizar a mesma limpeza meticulosa, queimando o vestido branco de seda da terrível sessão e destruindo também seus altares.
Precisei então voltar ao meu antigo escritório no convento de St. Elizabeth para queimar o conteúdo dos meus numerosos diários e ensaios, tarefa para a qual eu não tinha a menor disposição.
Foi cansativo, foi uma derrota, foi desmoralizante. Mas foi feito.
E assim, na noite seguinte, saímos de Nova Orleans. E muito antes do amanhecer, os três — Louis, Merrick e Lestat — foram na frente.
Fiquei na Rue Royale, na escrivaninha da sala dos fundos, para escrever uma carta àqueles em que no passado eu tanto confiara, aqueles que no passado eu amara com tanto carinho.
De próprio punho eu a escrevi, para que eles pudessem reconhecer que escrevê-la havia tido um significado especial para mim, se não para ninguém mais.
A meus queridos Anciãos, quem quer que realmente sejam,
Não foi uma atitude prudente sua enviar-nos cartas tão cáusticas e belicosas, e temo que uma noite dessas vocês possam — alguns de vocês
— ter de pagar caro pelo que fizeram.
Por favor, entendam, não se trata de um desafio. Estou partindo daqui. E, quando vocês tiverem obtido esta carta por meio dos seus procedimentos questionáveis, já estarei fora do seu alcance.
Mas saibam o seguinte. Suas ameaças instigaram tremendamente o orgulho suscetível do mais forte de nós, aquele que já há algum tempo os considerava seres fora do alcance da sua sofreguidão.
Com suas ameaças e palavras infelizes, vocês perderam o direito ao admirável santuário em que eram venerados. Agora, como qualquer outro mortal, homem ou mulher, vocês passam a ser terrivelmente vulneráveis diante daqueles que pretendiam aterrorizar.
Na realidade, vocês cometeram mais um erro deplorável, e eu os aconselho a refletir muito a respeito, antes de planejar qualquer ação futura no tocante aos segredos que compartilhamos.
Vocês se transformaram num interessante adversário para alguém que adora desafios, e será necessário que eu recorra a toda a minha considerável influência para protegê-los, individual e coletivamente, do desejo voraz que despertaram com tanta insensatez.
Reli tudo com atenção e estava apondo minha assinatura quando senti a mão fria de Lestat no meu ombro, apertando minha carne com firmeza.
Ele repetiu as palavras “um interessante adversário” e deu um risinho matreiro.
— Não lhes faça mal, por favor — murmurei.
— Ora, David — disse ele, cheio de confiança —, está na hora de ir embora daqui. Venha. Faça-me relatar meus passeios etéreos, ou quem sabe lhe contar alguma outra história.
Debrucei-me sobre o papel, terminando minha assinatura com cuidado, e me ocorreu que era incontável a quantidade de documentos que eu tinha escrito para a Talamasca, e dentro dela; e que mais uma vez, num documento desses, um documento que seria guardado nos seus arquivos, eu punha meu nome.
— Certo, amigo, estou pronto — disse eu. — Mas quero que me dê sua palavra. — Seguimos juntos pelo longo corredor até os fundos do apartamento, sua mão pesada mas bem-vinda no meu ombro, seus trajes e seu cabelo cheirando a vento.
— Temos histórias a escrever, David — disse ele. — Você não vai nos privar disso, não é mesmo? Sem dúvida, podemos prosseguir com nossas confissões e manter nosso novo esconderijo também.
— Ah, sim — respondi. — Isso se pode fazer. A palavra escrita nos pertence, Lestat. Isso não basta?
— Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo — disse ele, parando na sacada dos fundos e lançando um olhar de relance pelo apartamento que tanto amara. — Vamos deixar nas mãos da Talamasca, está bem? Por você, vou me tornar a própria encarnação da paciência, prometo, a menos que eles se comprometam ainda mais. Não é justo?
— Bastante justo — respondi.
E assim encerro este relato de como Merrick Mayfair veio a ser uma de nós. Assim encerro o relato de como deixamos Nova Orleans e fomos nos perder no mundo lá fora.
E para vocês, meus irmãos e irmãs na Talamasca, bem como para uma multidão de outras pessoas, redigi esta narrativa.
16:30
domingo
25 de julho de 1999
Você terminou Merrick
Anne Rice