Merrick

Anne Rice · Capítulo 7 de 8

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Merrick

Capítulo 21

 

Louis ESTAVA EM CASA QUANDO CHEGUEI AO APARTAMENTO. EU PODIA sentir sua presença já enquanto subia a escada. Restavam apenas algumas horas da noite para nós dois, mas eu estava tão feliz em vê-lo que fui direto à sala de visitas da frente, onde ele estava à janela, olhando para a Rue Royale lá embaixo.

A sala estava repleta de abajures acesos, e os quadros de Matisse e Monet pareciam cantar nas paredes.

Louis havia tirado as roupas sujas de sangue e usava agora uma camisa preta de malha de algodão com a gola rente ao pescoço e calças pretas. Os sapatos estavam velhos e esfrangalhados, mas no passado tinham sido de excelente qualidade.

Ele se voltou quando entrei na sala, e eu lhe dei um abraço. Com ele, eu podia manifestar o afeto que mantinha sob controle tão ferrenho quando na presença de Merrick. Abracei-o forte e o beijei como os homens podem fazer com outros homens quando estão a sós. Beijei-lhe os cabelos negros, os olhos e depois sua boca.

Pela primeira vez no nosso convívio, senti uma grande explosão de afeto por ele, uma profunda afinidade, e no entanto alguma outra coisa de repente fez com que ele se crispasse, a contragosto.

Era a dor no peito, decorrente do ferimento.

— Eu deveria ter vindo com você — confessei. — Eu nunca deveria tê-lo deixado ir embora, mas achei que ela precisava de mim. E fiquei com ela. Era o que eu tinha de fazer.

— Claro que tinha — disse ele —, e eu não teria permitido que você a deixasse. Ela precisava de você muito mais que eu. Não se preocupe com esse ferimento. Ele já está sarando. Tenho atrás de mim uma quantidade suficiente de décadas na Estrada do Mal para fazer com que sare em algumas noites.

— Não mesmo, e você sabe disso — retruquei. — Deixe-me dar-lhe meu sangue. Meu sangue é infinitamente mais forte. Não me rejeite, homem, preste atenção ao que lhe digo. Se você não quiser bebê-lo de mim, deixe-me então derramar um pouco no ferimento.

Louis estava em profunda aflição. Sentou-se numa poltrona e pôs os cotovelos nos joelhos. Eu não conseguia ver seu rosto. Sentei-me na poltrona mais próxima e esperei.

— Vai sarar, eu lhe disse — insistiu ele, baixinho.

Deixei para lá. O que mais eu poderia fazer? No entanto, dava para eu ver que a dor do ferimento era tremenda. Isso eu podia notar pelos seus gestos mais simples — como começavam com perfeita harmonia de movimentos e de repente eram interrompidos.

— E o espírito, o que você mesmo achou dele? — perguntei. — Quero ouvir dos seus lábios antes de lhe dizer o que Merrick achou e o que eu vi.

— Eu sei o que vocês dois pensam — disse ele. Finalmente, ele levantou os olhos e se recostou hesitante na poltrona. Pela primeira vez, percebi a mancha escura do sangue na camisa. O ferimento era terrível. Eu não estava gostando daquilo. Não gostava de ver o sangue nele da mesma forma que não gostava de vê-lo em Merrick. Fiquei impressionado com o quanto eu amava os dois.

— Vocês dois acham que o espírito se aproveitou dos meus temores — disse ele, calmamente. — Eu sabia que era isso o que vocês iriam dizer mesmo antes de começarmos. Mas, veja bem, minhas lembranças dela são nítidas demais. Eu conheço seu francês, conheço sua melodia, conheço o próprio ritmo da sua fala. E era Claudia, e ela saíra das trevas exatamente como contou; tinha vindo de um local terrível no qual permanece em desassossego.

— Você conhece meus argumentos — disse eu, abanando a cabeça. — O que pretende fazer agora? Qualquer que seja seu plano, você não pode prosseguir sem me dizer do que se trata.

— Eu sei, mon ami, tenho consciência disso — respondeu ele. — E você deve saber agora que não vou continuar com vocês por muito tempo.

— Louis, eu lhe imploro...

— David, estou exausto — disse ele — e estaria trocando uma dor por outra. Houve uma coisa que ela disse que não consigo esquecer. Ela perguntou se eu renunciaria ao meu conforto por ela? Você se lembra?

— Não, meu velho amigo, você compreendeu mal. Ela perguntou se você renunciaria ao seu conforto pela morte, mas nunca prometeu que estaria lá! Essa é a questão. Ela não estará. Meu Deus, durante quantos anos na Talamasca eu estudei a história de aparições e de suas mensagens, quantos anos passei estudando a fundo relatos de primeira mão daqueles que tinham tido contato com fantasmas e que tinham registrado sua experiência! Você pode escolher aquilo em que quiser acreditar acerca do outro mundo. Não importa. Mas, uma vez que escolha a morte, Louis, não poderá voltar a escolher a vida. Não faça essa escolha, eu lhe imploro. Fique por mim, se não for por nenhuma outra razão. Fique por mim, porque preciso de você, e fique por Lestat, porque ele precisa de você também.

É claro que minhas palavras não o surpreenderam. Ele levou a mão esquerda ao peito e fez uma leve pressão no ferimento. Por um instante, uma careta deformou-lhe o rosto.

Abanou a cabeça.

— Por você e por Lestat, sim, já pensei nisso. E o que dizer dela? E nossa adorável Merrick? O que ela precisa de mim também?

Louis aparentemente tinha muito mais a dizer, mas de repente ele se calou, suas sobrancelhas se uniram, e ele pareceu jovem e de uma inocência impossível quando virou rápido a cabeça para o lado.

— David, você está ouvindo? — perguntou ele, com uma empolgação crescente. — David, escute!

Eu não ouvia nada, além dos ruídos da cidade.

— O que é, meu amigo? — perguntei.

— David, tente escutar. Está em toda a nossa volta. — Ele se pôs de pé, com a mão esquerda ainda pressionando a dor que sentia. — David, é Claudia, é a música, é o cravo. Eu o ouço ao nosso redor. David, ela quer que eu vá. Eu sei.

Eu fiquei em pé num segundo. E o dominei.

— Você não vai fazer isso, meu amigo, não pode fazer isso sem se despedir de Merrick, sem se despedir de Lestat, e não lhe resta tempo suficiente para isso nesta noite.

Seu olhar estava perdido. Ele estava fascinado e tranqüilizado. Os olhos, vidrados; e o rosto abrandado, com uma expressão desprovida de desafio.

— Conheço essa sonata. Eu me lembro dela. E é verdade, ela a adorava. Gostava dela porque Mozart a compôs quando era criança. Você não está ouvindo, está? Mas já a ouviu um dia, tente se lembrar. É tão linda, e como ela toca rápido, minha Claudia.

Deu um riso desnorteado. As lágrimas se adensaram; os olhos ficaram cobertos de sangue.

— Estou ouvindo o canto dos pássaros. Escute. Eu os estou ouvindo na gaiola. Os outros, todos os da nossa espécie que a conhecem, consideram

Claudia insensível, mas ela não era insensível. Apenas tinha consciência de coisas que só fui aprender depois da passagem de muitas décadas. Ela conhecia segredos que só o sofrimento pode ensinar...

Sua voz foi sumindo. Ele se livrou com elegância das minhas mãos e andou até o centro da sala. Deu voltas como se a música realmente o cercasse.

— Você não percebe a gentileza que ela fez? — murmurou ele. — A música continua sem parar, David, e está ficando cada vez mais rápida. Claudia, eu a estou escutando. — Parou de falar, deu mais uma volta, com os olhos passando por tudo, mas sem ver nada. — Claudia, vou estar com você em breve.

— Louis — disse eu —, está quase amanhecendo. Venha agora comigo. — Ele permaneceu imóvel, cabisbaixo. As mãos estavam caídas de cada lado do corpo. Parecia infinitamente triste e infinitamente derrotado.

— Parou? — perguntei.

— Parou — murmurou ele. Aos poucos, foi levantando o olhar, ainda meio perdido e depois voltando a se controlar. Olhou então para mim. — Duas noites não farão diferença, não é mesmo? E assim posso agradecer a Merrick. Posso dar-lhe o retrato. A Talamasca pode querer. — Ele fez um gesto na direção da mesa próxima, a pequena mesa oval que ficava diante do sofá.

Vi o daguerreótipo aberto sobre a mesa. A imagem de Claudia foi um choque para mim quando encarei seu olhar. Senti vontade de fechar o pequeno estojo, mas não importava. Eu sabia que jamais poderia permitir que o retrato caísse nas mãos da Talamasca. Nunca poderia permitir um contato desses, muito menos a posse de um objeto tão significativo por videntes tão poderosos quanto Merrick. Eu jamais poderia permitir que uma prova daquelas persistisse para que a Talamasca investigasse não importava o que todos nós tivéssemos visto naquela noite.

Mas não disse isso.

Quanto a Louis, ele estava em pé, como antes, elegante no traje preto desbotado, um homem em devaneio, o sangue seco nos olhos, conferindo-lhe um ar horrendo, enquanto ele voltava a olhar para a distância, afastado da minha compaixão exaltada, isolando-se de qualquer consolo que eu lhe pudesse proporcionar.

— Você virá me encontrar amanhã — disse eu. Ele fez que sim.

— Os pássaros sumiram agora — sussurrou. — Não consigo sequer cantarolar a melodia em imaginação. — Parecia sofrer uma aflição insuportável.

— Tudo é silêncio no lugar que ela descreveu — disse eu, com bastante desespero. — Pense nisso, Louis. E venha me encontrar amanhã à noite.

— Virei, meu amigo, já lhe prometi — disse ele, meio atordoado. Franziu o cenho como se estivesse tentando se lembrar de alguma coisa específica. — Preciso agradecer a Merrick, e a você, é claro, a você, meu velho amigo, que fez tudo o que lhe pedi.

Saímos juntos da casa geminada.

Ele partiu para o local onde se deita durante o dia, cuja localização eu desconhecia.

Eu tinha mais tempo que ele. Como Lestat, meu poderoso criador, eu não era escorraçado para o caixão pelos primeiros sinais da madrugada. O sol teria de surgir no horizonte para eu sentir o paralisante sono dos vampiros.

De fato, eu tinha uma hora, talvez mais, embora os pássaros da manhã estivessem cantando nas poucas árvores do Quarter; e, quando cheguei à cidade alta, o céu tinha passado de um profundo azul-escuro para um crepuscular roxo-claro, que me demorei a apreciar antes de entrar no prédio empoeirado e subir a escadaria.

Nenhum movimento no antigo convento. Até mesmo os ratos tinham fugido dali. As espessas paredes de tijolos eram geladas, embora estivéssemos na primavera. Meus passos ecoavam como sempre. Permiti que isso acontecesse. Era um sinal de respeito a Lestat, assinalar minha chegada antes de penetrar nos seus domínios vastos e simples.

O grande pátio escancarado estava vazio. Os pássaros cantavam alto nas árvores exuberantes da Napoleon Avenue. Parei para olhar de relance por uma das janelas do andar superior. Desejei que fosse possível dormir durante o dia no alto dos galhos do carvalho ali próximo. Que idéia maluca, mas talvez em algum lugar, longe de toda a dor pela qual tínhamos passado ali, houvesse alguma floresta densa e desabitada onde eu pudesse construir um casulo escuro e espesso para me esconder em meio aos galhos, como um inseto maligno, inativo, antes de despertar para trazer a morte à sua presa.

Pensei em Merrick. Eu não tinha condições de saber como o dia seguinte seria para ela. Eu temia por ela. E me desprezava. E queria Merrick loucamente. Queria Louis. Queria os dois para serem meus companheiros, e isso era o mais puro egoísmo. No entanto, parecia que uma criatura não conseguiria viver sem o simples companheirismo que eu tinha em mente.

Entrei afinal na grande capela de paredes brancas. Todas as janelas de vitral ainda estavam cobertas com sarja negra, como era agora necessário, pois não se podia mover Lestat com facilidade para local abrigado quando nascia o sol.

Não havia velas acesas diante desses santos aleatórios e imponentes. Encontrei Lestat como sempre estava, deitado sobre o lado esquerdo, um homem em descanso, os olhos cor de violeta abertos, o delicioso piano derramando-se do equipamento negro que tinha sido regulado para repetir interminavelmente a pequena gravação em CD.

A poeira de costume tinha se acumulado sobre o cabelo e os ombros de Lestat. Eu ficava horrorizado de ver a poeira, até mesmo no seu rosto. Mas eu o perturbaria se procurasse espaná-la? Eu não sabia, e minha tristeza era pesada e terrível.

Sentei-me ao seu lado.

Sentei-me onde ele me pudesse ver. E então, com audácia, desliguei a música. Com a voz apressada, uma voz muito mais impregnada de agitação do que eu jamais imaginei que estivesse, contei minha história.

Contei-lhe tudo — do meu amor por Merrick e dos seus poderes. Falei-lhe do pedido de Louis. Do espectro que viera a nós. De Louis ter ouvido a música de Claudia. Da decisão de Louis de nos deixar dentro de algumas noites.

— O que pode fazê-lo parar agora, eu não sei — disse eu. — Ele não esperará que você desperte, meu caríssimo amigo. Ele vai embora. E não há nada que eu de fato possa fazer para convencê-lo do contrário. Posso implorar que ele espere até que você esteja recuperado, mas creio que ele não quer perder de novo a coragem. Esse é o ponto crucial de tudo isso, sabe, a coragem. Ele tem a coragem para acabar com a vida. E é isso o que esteve faltando durante tanto tempo.

Repassei os detalhes. Descrevi Louis enquanto ele escutava a música que eu não ouvia. Descrevi a sessão mais uma vez. Talvez nessa hora eu tenha falado de coisas que omiti antes.

— Será que era mesmo Claudia? — perguntei. — Quem poderá dizer se era ou não era?

E então debrucei-me, dei um beijo em Lestat e falei para ele.

— Preciso tanto de você agora. Preciso de você ao menos para dizer adeus a ele.

Recuei e examinei o corpo adormecido. Não havia nenhuma mudança que eu pudesse detectar na consciência ou na postura.

— Você acordou uma vez — protestei. — Acordou quando Sybelle tocou a música para você, mas depois, levando consigo a música, você retornou ao sono egoísta. É isso o que isso é, Lestat, egoísta, porque você deixou para trás os seres que criou, Louis e eu. Você nos abandonou, e não é justo que aja desse modo. Precisa sair desse estado, meu Mestre querido. Você precisa despertar por Louis e por mim.

Nenhuma alteração na expressão no rosto tranqüilo. Os grandes olhos cor de violeta estavam abertos demais para os de um morto. Mas o corpo não dava nenhum outro sinal de vida.

Abaixei-me. Colei a orelha no seu rosto frio. Embora não conseguisse ler seus pensamentos, por ser sua cria, sem dúvida eu poderia adivinhar algo do que lhe passava pela alma.

Mas não me veio nada. Liguei novamente a música. Beijei-o e o deixei ali, seguindo então até minha toca, talvez mais disposto ao esquecimento do que nunca antes.

 

22

NA NOITE SEGUINTE, FUI PROCURAR MERRICK.

Sua casa no bairro decrépito estava escura e vazia. Somente o zelador estava na propriedade. E para mim não foi nenhum problema escalar até a janela do sobrado acima do barracão para constatar que o camarada estava satisfeito ali dentro, bebendo cerveja diante da monstruosa televisão em cores.

Fiquei terrivelmente desnorteado. Minha impressão era que Merrick tinha praticamente prometido que se encontraria comigo, e em que outro lugar se não fosse na velha casa?

Eu precisava encontrá-la. Vasculhei incansável a cidade à sua procura, usando ao máximo a capacidade telepática que possuía.

Quanto a Louis, ele também estava ausente. Voltei ao apartamento na Rue Royale mais de quatro vezes durante minha busca por Merrick. E em nenhuma das vezes encontrei Louis ou a menor prova de que ele tivesse estado lá.

Finalmente, contrariando muito meu bom senso, mas em desespero, aproximei-me de Oak Haven, a casa matriz, para ver se poderia avistar Merrick lá dentro.

A descoberta foi em questão de minutos. Em pé no denso bosque de carvalhos ao norte do prédio, pude ver sua figura minúscula na biblioteca.

Na realidade, Merrick estava sentada na mesma poltrona de couro vinho que havia reivindicado para ser sua quando criança, na época em que nos conhecemos. Aninhada no couro velho e rachado, ela parecia estar dormindo; mas, quando me aproximei mais, meus refinados sentidos vampíricos confirmaram que estava bêbada. Pude discernir ao seu lado a garrafa do rum Flor de Cana e o copo. Os dois estavam vazios.

Quanto aos outros membros, um estava trabalhando no mesmo aposento, examinando as estantes em busca de algum assunto aparentemente rotineiro, e vários outros estavam em casa, no andar superior.

Não era concebível que eu me aproximasse de Merrick onde ela se encontrava. E tive a nítida percepção de que Merrick poderia ter planejado isso. E, se de fato havia planejado, talvez fosse para sua própria sanidade mental, um motivo que tinha grande aprovação minha.

Uma vez liberado daquela belezinha de espetáculo — Merrick fora de combate sem a mínima consideração pelo que os outros membros pudessem pensar —, retomei minha busca por Louis de uma ponta da cidade à outra, em vão.

As horas antes do amanhecer me encontraram andando de um lado para o outro diante da figura adormecida de Lestat na capela escura, explicando-lhe que Merrick resolvera se esconder e que Louis parecia ter sumido.

Sentei-me afinal no frio piso de mármore, como tinha feito na noite anterior.

— Eu saberia, não saberia — perguntei a meu mestre adormecido —, se Louis acabou com a própria vida, não é mesmo? Eu de algum modo sentiria, não? Se tivesse acontecido ontem ao amanhecer, eu teria sentido antes mesmo de fechar os olhos.

Lestat não deu resposta, e nem na sua postura nem na expressão facial havia a menor promessa de que um dia ele responderia.

Eu me sentia como se estivesse me dirigindo, com fervor, a uma das imagens dos santos.

Quando a segunda noite transcorreu exatamente da mesma forma, fiquei totalmente transtornado.

Eu não podia imaginar o que Merrick teria feito durante o dia, mas ela estava ainda mais uma vez bêbada na biblioteca, uma figura jogada, totalmente só agora, num dos seus esplêndidos vestidos de seda de cintura marcada, sendo esse de um vermelho vivo. Enquanto eu observava de uma distância segura, um dos membros, um velho que no passado eu conhecera e de quem gostava muito, entrou na biblioteca e cobriu Merrick com um cobertor branco de lã, que parecia ser de uma maciez perfeita.

Fugi às pressas para não ser detectado.

Quanto a Louis, enquanto rondava aquelas partes da cidade que sempre foram suas preferidas, eu me amaldiçoava por ter tido tanto respeito pela sua mente que nunca aprendi a ler seus pensamentos; tanto respeito pela sua privacidade que nunca aprendi a detectar sua presença. Amaldiçoei-me por não tê-lo feito prometer que viria se encontrar comigo no apartamento na Rue Royale a uma hora determinada.

Chegou afinal a terceira noite.

Tendo desistido da idéia de que Merrick fosse fazer outra coisa a não ser embriagar-se totalmente com rum, como era seu costume, fui direto ao apartamento na Rue Royale com o objetivo de escrever um bilhete a Louis, para a eventualidade de ele passar por lá quando eu não estivesse presente.

Eu estava dominado pela aflição. Agora parecia-me perfeitamente possível que ele tivesse deixado o sol da manhã cremá-lo exatamente como desejava, e que eu estava escrevendo no bilhete palavras que jamais seriam lidas.

Mesmo assim, sentei-me à bela escrivaninha de Lestat na sala de estar dos fundos, a escrivaninha voltada para a sala, e escrevi apressado.

“Você precisa falar comigo. Precisa me deixar conversar com você. É injusto que não permita que isso aconteça. Estou muito preocupado com você. Lembre-se, L., que eu fiz o que você me pediu. Cooperei em tudo com você. É claro que eu tinha meus motivos. Disponho-me a confessá-los abertamente. Eu sentia falta dela. Sofria do fundo do coração por ela. Mas você precisa me dizer como vão as coisas para seu lado.”

Eu mal tinha terminado de escrever a letra “D” quando olhei para cima e vi Louis parado no vão da porta do corredor.

Ileso, com o cabelo negro e encaracolado bem penteado, ele estava ali olhando para mim com ar de interrogação; e eu, agradavelmente surpreso, recostei-me e dei um grande suspiro.

— Você aí, e eu correndo de um lado para o outro como um ensandecido — disse eu. Inspecionei seu bonito terno de veludo cinza e a gravata de um roxo-escuro que usava com ele. Notei os anéis de pedras preciosas nos seus dedos.

— Por que toda essa atenção extraordinária para com sua pessoa? — perguntei. — Fale comigo, homem. Estou a ponto de perder o tino.

Ele abanou a cabeça, e fez um gesto rápido com a mão esguia e longa para que eu me calasse. Sentou-se no sofá do outro lado da sala e olhou para mim.

— Nunca o vi trajado com tanto esmero — disse eu. — Está positivamente elegante. O que aconteceu?

— Não sei o que houve — disse ele, quase com aspereza. — Você precisa me dizer. — Fez um gesto insistente. — Venha cá, David, venha para sua velha poltrona aqui, sente-se perto de mim.

Fiz o que me pediu.

Louis não estava apenas trajado com primor, também usava um leve perfume masculino.

Seus olhos faiscavam sobre mim com uma energia nervosa.

— Não consigo pensar em nada a não ser nela, David. Estou lhe dizendo, é como se eu nunca tivesse amado Claudia — confessou, com a voz embargada. — Quer dizer, é como se eu nunca tivesse sabido o que era o amor ou a dor antes de ter conhecido Merrick. É como se eu fosse o escravo de Merrick. Não importa aonde eu vá, não importa o que eu faça, penso em Merrick — afirmou. — Quando me alimento, a vítima transforma-se em Merrick nos meus próprios braços. Por favor, não diga nada enquanto eu não terminar. Penso em Merrick deitado no caixão antes que chegue a luz do Sol. Penso em Merrick quando acordo. Preciso ir ter com Merrick. E, assim que me alimentei, vou a algum lugar de onde possa vê-la. É, David, perto da casa matriz, o lugar que você muito tempo atrás proibiu que perturbássemos. Vou até lá. Eu estava lá ontem à noite quando você veio espiá-la. Eu o vi. Na noite anterior, eu estava lá também. Vivo para ela, e a visão dela através daquelas janelas altas só me incendeia, David. Eu a quero. Se ela não sair daquele lugar logo, estou lhe dizendo que vou entrar à sua procura, quer essa seja minha intenção quer não, se bem que eu não saiba dizer, eu lhe juro, o que desejo dela além de estar na sua companhia.

— Pare com isso, Louis, deixe-me explicar o que aconteceu...

— Como você poderia explicar uma coisa dessas? Deixe-me desabafar, meu amigo — disse ele. — Deixe-me confessar que tudo começou quando bati os olhos nela. Você soube. Você percebeu. Tentou me avisar. Mas eu não fazia nenhuma idéia de que os sentimentos fossem se tornar tão fortes. Eu tinha certeza de que poderia controlá-los. Meu Deus, a quantos mortais resisti ao longo desses dois séculos? Quantas vezes dei as costas a alguma criatura perdida que me atraía de modo tão doloroso que eu era forçado a chorar?

— Pare com isso, Louis, escute o que digo.

— Não vou feri-la, David, eu juro. Não quero feri-la. Não suporto a idéia de me alimentar dela como no passado fiz com Claudia. Ai, aquele erro terrível, tremendo, a criação de Claudia. Não vou feri-la, eu juro, mas preciso vê-la. Preciso estar com ela. Preciso ouvir sua voz. David, você tem como tirá-la de Oak Haven? Você tem como fazê-la vir ao meu encontro? Você tem como fazer com que ela pare esse caso de amor com o rum e volte à sua velha casa? Disso você deve ser capaz. Ouça o que lhe digo, estou ficando louco.

Ele mal havia parado quando me intrometi, recusando-me a calar a boca.

— Ela o enfeitiçou, Louis! — afirmei. — Isso é um feitiço. Agora, você tem de ficar quieto e prestar atenção ao que eu vou dizer. Conheço os truques de Merrick. E conheço magia. E a dela é antiga como o Egito, antiga como Roma e a Grécia. Ela o amarrou, meu amigo; fez com que você se apaixonasse por ela, por meio da bruxaria. Droga, eu nunca deveria ter permitido que ela ficasse com aquele vestido manchado de sangue. Não é de admirar que ela se recusasse a me deixar tocar nele. Seu sangue estava no vestido. Ai, como fui idiota de não perceber o que ela estava fazendo. Nós chegamos a falar desses feitiços juntos. Ai, ela acabou com a minha paciência. Deixei que ela ficasse com o vestido de seda manchado de sangue, e ela o usou para lançar um feitiço antiqüíssimo.

— Não, isso não é possível — disse ele, em tom cáustico. — Simplesmente não vou aceitar isso. Eu a amo, David. Você me força a usar palavras que irão feri-lo ao máximo. Eu a amo e a quero. Quero sua companhia, quero a sabedoria e a bondade que vi nela. Não se trata de nenhum feitiço.

— Mas é, meu amigo, acredite em mim — disse eu. — Conheço Merrick e conheço magia. Ela usou seu sangue. Você não percebe? Essa mulher não só acredita em magia, ela a compreende. Talvez um milhão de magos mortais tenham vivido e morrido durante o último milênio, mas quantos deles eram autênticos? Ela sabe o que está fazendo! Seu sangue, Louis, estava na trama de uma peça de vestuário dela. Merrick lançou-lhe um feitiço que eu não sei desfazer!

Ele ficou em silêncio, mas não por muito tempo.

— Não acredito em você — disse ele. — Não, não pode ser verdade. O que eu sinto é forte demais.

— Tente se lembrar, Louis, do que lhe falei sobre ela, das visões que tive dela depois do nosso primeiro contato apenas algumas noites atrás. Você se lembra, eu lhe disse que a via por toda parte...

— Não é a mesma coisa. Estou falando do meu coração, David...

— É a mesma coisa, Louis — insisti. — Eu a via em toda parte; e, depois da aparição de Claudia, Merrick admitiu para mim que aquelas minhas visões dela eram parte de um feitiço. Eu lhe falei sobre tudo isso, Louis. Eu lhe falei sobre o pequeno altar no quarto do hotel, de como ela conseguiu meu lenço com o sangue do suor na minha testa. Louis, preste atenção.

— Você a está caluniando — disse ele com a máxima delicadeza possível —, e eu não vou tolerar. Não a vejo dessa maneira. Penso nela e a desejo. Quero a mulher que vi naquela sala. O que você vai querer me dizer agora? Que Merrick não era linda? Que Merrick não era plena de uma doçura inata? Que Merrick não era a única mortal em milhares que eu poderia vir a amar?

— Louis, você confia em si mesmo na presença dela? — indaguei.

— Confio, confio em mim mesmo — respondeu ele, em tom virtuoso.

— Acha que eu lhe faria mal?

— Acho que você aprendeu o significado da palavra “desejo”.

— O desejo é de estar na sua companhia, David. De estar perto dela. De falar com ela sobre o que vi. É... — Sua voz foi sumindo. Ele fechou os olhos com força por um instante. — E insuportável, essa necessidade dela, esse anseio por ela. E ela se esconde naquela casa enorme no campo, e eu não posso me aproximar dela sem prejudicar a Talamasca, sem romper a delicada privacidade da qual nossa própria existência depende.

— Ainda bem que você tem pelo menos algum juízo — disse eu, com veemência. — Estou lhe dizendo que se trata de um feitiço. E, se você confia em si mesmo, assim que ela deixar aquela casa, iremos juntos perguntar a ela! Vamos exigir dela a verdade. Exigir que ela diga se isso é ou não é nada mais que um feitiço.

— Nada — ele repetiu a palavra com desdém —, você diz nada mais que um feitiço? — Ele olhou no fundo dos meus olhos, com ar de acusação. Nunca eu o havia visto tão hostil. Na realidade, eu nunca o havia visto hostil, ponto final. — Você não quer que eu a ame, quer? É só isso.

— Não, não é. Sinceramente, não é. Mas digamos, por exemplo, que você esteja com a razão, que não haja nenhum feitiço, e que só seu coração está se expressando, será que eu quero que esse seu amor por ela cresça dentro de você? Não, decididamente não. Nós fizemos um voto, você e eu, de que essa mulher não seria ferida por nós, que não destruiríamos seu frágil mundo mortal com nossos desejos! Cumpra esse voto se você a ama tanto assim, Louis. E isso o que o amor significa, você percebe? Significa deixá-la em paz.

— Isso eu não posso fazer — murmurou ele. E abanou a cabeça. — Ela merece saber o que meu coração está me dizendo. Ela merece essa verdade. Não vai dar em nada, não pode dar em nada, mas ela deveria saber. Deveria saber que a adoro, que ela conseguiu suplantar em mim uma dor que poderia ter me destruído, que ainda pode me destruir.

— Isso é intolerável — disse eu. Como eu estava furioso com Merrick.

— Proponho que nos aproximemos de Oak Haven. Mas você deverá permitir que eu comande nossa atuação lá. Se for possível, chegarei perto da janela e tentarei despertá-la. E possível que, de madrugada, ela esteja só no andar principal. Talvez eu até conseguisse entrar. Há algumas noites, eu teria considerado uma idéia dessas inconcebível. Lembre-se, porém, de que você deverá deixar que eu tome essa atitude. Ele fez que sim.

— Quero estar perto dela. Mas preciso me alimentar primeiro. Não posso estar sedento quando a vir. Seria tolice. Venha comigo caçar. E então, depois da meia-noite, bem depois da meia-noite, vamos nos aproximar.

Não demorou muito para que encontrássemos nossas vítimas.

Eram duas da manhã quando chegamos às proximidades de Oak Haven. E, como eu esperava, a casa estava totalmente às escuras. Ninguém estava acordado. Demorei alguns instantes para examinar a biblioteca.

Merrick não estava lá. Seu rum e seu copo também não estavam lá. E, quando percorri as varandas do andar superior, com o máximo silêncio possível, não a encontrei no quarto.

Voltei a Louis, que esperava no denso bosque de carvalhos.

— Ela não está em Oak Haven. Creio que nos enganamos. Ela deve estar em casa, em Nova Orleans. É provável que esteja lá esperando, esperando que seu feitiço surta efeito.

— Você não pode continuar a desprezá-la por tudo isso — disse Louis, irado. — David, pelo amor de Deus, deixe-me ir vê-la sozinho.

— Nem pense nisso — respondi. Seguimos na direção da cidade.

— Você não pode se aproximar dela com todo esse desdém — disse Louis. — Deixe-me conversar com ela. Você não pode impedir. Não tem nenhum direito.

— Estarei presente quando você falar com ela — disse eu, com frieza. E eu pretendia cumprir minha palavra.

Quando chegamos à velha casa em Nova Orleans, eu soube imediatamente que Merrick estava lá.

Pedindo a Louis que esperasse, dei a volta na propriedade, como tinha feito algumas noites antes. Certifiquei-me de que o zelador tinha sido dispensado, o que na realidade acontecera, e então voltei a Louis, dizendo que podíamos nos dirigir à porta.

Quanto a Merrick, eu sabia que ela estava no quarto da frente. A sala de visitas não tinha grande significado para ela. Era o quarto de Grande Nananne que ela adorava.

— Quero entrar sozinho — disse Louis. — Você pode esperar aqui se quiser.

Antes que eu me mexesse, ele já estava na varanda da frente, mas consegui alcançá-lo rapidamente. Ele abriu a porta destrancada, com os vitrais coruscando à luz.

Uma vez dentro da casa, ele entrou no espaçoso quarto da frente. Entrei logo atrás.

Vi Merrick, linda como sempre num vestido vermelho de seda, levantar-se da cadeira de balanço e voar para os braços de Louis.

Cada partícula do meu ser estava alerta para o perigo, e a cena me partia o coração. O quarto tinha um ar sonhador e ameno, com suas velas vigilantes.

E os dois se amavam, aqueles dois seres, Louis e Merrick. Não havia como negar isso. Fiquei observando calado enquanto Louis a beijava inúmeras vezes, enquanto passava os dedos brancos pelos seus cabelos. Fiquei olhando enquanto ele lhe beijava o pescoço esguio.

Ele recuou e deu um longo suspiro.

— Um feitiço, não é? — perguntou ele a Merrick, mas a pergunta era de fato dirigida a mim. — O fato de eu não conseguir pensar em nada a não ser em você, não importa aonde eu vá ou o que faça? De em cada vítima que faço só encontrar você? Ah, sim, pense nisso, Merrick, pense no que faço para sobreviver. Por favor, não viva em sonhos. Pense no terrível preço por este poder. Pense no Purgatório em que vivo.

— E eu estou com você nesse Purgatório? — perguntou Merrick. — Eu lhe dou algum conforto no meio das próprias chamas? Meus dias e noites sem você foram um Purgatório. Entendo seu sofrimento. Já entendia antes que olhássemos um nos olhos do outro.

— Diga-lhe a verdade, Merrick — recomendei. Eu estava em pé, um pouco afastado deles, perto da porta. — Seja sincera, Merrick. Ele saberá se você mentiu. Foi um feitiço que você lançou sobre ele? Não minta para mim tampouco, Merrick.

Ela se afastou dele por um instante. E olhou para mim.

— O que eu lhe dei com meu feitiço, David? — disse ela. — O que foi, além de visões aleatórias? Você sentiu desejo? — Voltou a olhar para Louis. — O que você quer de mim, Louis? Ouvir que minha alma é sua escrava exatamente como a sua é minha? Se isso for um feitiço, nós o lançamos um sobre o outro, Louis. David sabe que estou dizendo a verdade.

Por mais que eu tentasse, não consegui descobrir falsidade nela. O que descobri eram segredos. E esses eu não conseguia decifrar. Seus pensamentos estavam muitíssimo bem protegidos.

— Isso tudo é um jogo — disse eu. — O que você quer?

— Não, David, você não pode falar com ela dessa maneira — disse Louis. — Isso não vou tolerar. Vá agora e deixe-me conversar com ela. Merrick está mais segura comigo do que Claudia ou qualquer outro mortal que eu um dia toquei jamais esteve. Vá agora, David. Deixe-me a sós com ela. Ou eu juro, meu amigo, haverá uma batalha entre nós.

— David, por favor — disse Merrick. — Conceda-me algumas horas com ele. Depois, o resto será como você quiser. Quero Louis aqui comigo. Quero conversar com ele. Quero lhe dizer que o espírito mentia. Isso eu preciso fazer sem pressa. Preciso de uma atmosfera de intimidade e confiança.

Ela veio na minha direção, com a seda vermelha farfalhando com seus passos. Senti seu perfume. Ela me abraçou, e eu senti o calor dos seus seios por baixo do tecido fino.

— Vá agora, David, por favor — disse ela, com a voz impregnada de uma emoção delicada, o rosto cheio de compaixão enquanto ela me encarava nos olhos.

Nunca em todos os anos em que a conheci, em que a desejei, em que senti sua falta, nada me magoara tanto quanto esse simples pedido.

— Vá? — repeti a palavra, com a voz sumida. — Deixar vocês dois juntos? Quer que eu me vá?

Olhei nos seus olhos por um bom tempo. Como parecia sofrer, como parecia me implorar. Voltei-me então para Louis, que observava com uma expressão ansiosa e inocente, como se seu destino estivesse nas minhas mãos.

— Faça-lhe algum mal, Louis, e eu lhe juro que seu desejo pela morte será concedido. — Minha voz era baixa e rancorosa. — Digo-lhe que tenho força suficiente para destruí-lo exatamente da forma que você teme.

Vi a terrível consternação na sua expressão.

— Será pelo fogo — disse eu — e será devagar, se você lhe fizer algum mal. — Fiz uma pausa. — Dou-lhe minha palavra.

Vi que ele engoliu em seco e fez que sim. Parecia que tinha muito a me dizer, e seus olhos estavam tristes e eloqüentes na expressão de uma dor mais profunda. Afinal, murmurou em resposta.

— Confie em mim, meu irmão. Você não precisa fazer ameaças tão terríveis a um ente querido; e eu não preciso ouvi-las, não quando nós dois amamos tanto essa mortal.

Voltei-me para ela. Seu olhos estavam em Louis. Nesses momentos, ela estava distante de mim como nunca antes. Beijei-a com ternura. Ela mal olhou para mim, retribuindo meus beijos como se fosse uma obrigação lembrar-se disso, tão apaixonada estava por Louis quanto ele por ela.

— Adeus por enquanto, caríssima — murmurei e saí da casa.

Por um instante, cogitei permanecer escondido nos arbustos, espiando os dois enquanto conversavam no quarto da frente. Parecia a atitude prudente, ficar por perto para proteção de Merrick. E parecia exatamente o que ela detestaria.

Ela saberia que eu estava ali com mais certeza do que Louis jamais poderia ter — saberia da mesma forma que tinha sabido naquela noite em que cheguei à sua janela em Oak Haven, saberia com a sensibilidade de bruxa, que era mais forte que os poderes vampíricos de Louis. Saberia e me condenaria totalmente pelo que eu estava tentando fazer.

Quando pensei na possibilidade de ela sair para me denunciar; quando pensei na humilhação à qual poderia me arriscar com uma escolha dessas, deixei a casa para trás e segui veloz, sozinho, na direção dos bairros residenciais.

Mais uma vez, na capela desolada do orfanato de St. Elizabeth, Lestat foi meu confidente.

E mais uma vez, tive certeza de que nenhum espírito habitava seu corpo. À minha aflição, ele não dava ouvidos.

Somente rezei para que Merrick estivesse em segurança, para que Louis não incorresse na minha ira, e para que a alma de Lestat retornasse ao seu corpo, porque eu precisava dele. Eu precisava desesperadamente dele. Sentia-me só, com todos os meus anos de vida e todas as minhas lições, com todas as minhas experiências e toda a minha dor.

O céu estava clareando perigosamente quando deixei Lestat e me encaminhei ao meu esconderijo secreto, no subsolo de um prédio abandonado, onde ficava guardado o caixão de ferro no qual me deito.

Não se trata de uma configuração incomum entre os da nossa espécie: o edifício triste e velho, de minha propriedade, ou o subsolo isolado do mundo lá em cima por portas de aço que nenhum mortal conseguiria tentar levantar por si só.

Eu já estava deitado na escuridão gelada, com a tampa do ataúde no lugar, quando de repente fui dominado por um pânico estranhíssimo. Era como se alguém estivesse falando comigo, exigindo que eu escutasse com atenção, procurando me dizer que eu cometera um erro terrível e que pagaria por ele com minha consciência, que eu agira com vaidade e insensatez.

Era tarde demais para eu reagir a essa enérgica associação de emoções. A manhã já me invadia, roubando-me todo o calor e a vida. E o último pensamento de que me lembro foi que eu havia deixado aqueles dois a sós por vaidade, apenas porque eles me haviam excluído. Comportei-me com a infantilidade de um garoto por pura vaidade, e pagaria por isso.

Indefectivelmente à alvorada seguiu-se o pôr-do-sol. E, depois de um sono sem medida, acordei para a nova noite, de olhos abertos, as mãos estendidas de pronto para abrir a tampa do caixão e depois recuando para cair ao lado do corpo.

Algo me impedia por enquanto de abrir o caixão. Muito embora detestasse a atmosfera sufocante, permaneci ali, nas únicas trevas verdadeiras um dia concedidas aos meus poderosos olhos de vampiro.

Fiquei ali porque o pânico da noite passada voltara a mim, aquela nítida consciência de que eu tinha sido de um orgulho insensato ao deixar Merrick e Louis a sós. Parecia que alguma turbulência no próprio ar me cercava, na realidade penetrava pelo ferro do caixão, de tal modo que eu a inspirava para o interior dos pulmões.

Algo tinha dado muito errado, e no entanto tinha sido inevitável, pensei entristecido. E permaneci imóvel como se estivesse paralisado por um dos cruéis feitiços de Merrick. Mas não se tratava de obra de Merrick. Era dor e remorso — um remorso terrível e excruciante.

Eu a perdera para Louis. É claro que a encontraria incólume pois nada neste mundo poderia fazer Louis lhe dar o Sangue Negro, ponderei, nada, nem mesmo os pedidos insistentes da própria Merrick. Quanto a Merrick, ela nunca faria esse pedido, nunca seria tola o suficiente para renunciar à sua alma brilhante e singular. Não, minha dor era causada pelo amor entre aqueles dois, por ter sido eu quem os unira e porque agora eles teriam tudo o que poderia ter pertencido a Merrick e a mim.

Bem, eu não podia chorar pelo ocorrido. O que estava feito estava feito; e eu precisava ir encontrá-los agora, concluí. Precisava ir encontrá-los juntos. Ver como olhavam um para o outro, extrair mais promessas deles, o que não passava de um meio de eu me interpor entre eles. E então precisaria aceitar que Louis tinha se tornado para Merrick o astro deslumbrante à luz do qual eu não mais brilhava.

Só depois de muito tempo abri o caixão, com a tampa dando um rangido forte, saí dele e comecei a subir pela escada do velho e úmido subsolo, na direção dos lúgubres aposentos acima.

Afinal, parei num enorme salão sem uso, com paredes de alvenaria, que um dia, muitos anos atrás, servira como loja de departamentos. Nada restava agora da sua glória passada além de alguns mostruários sujos e prateleiras quebradas, bem como uma espessa camada de terra acumulada sobre o velho piso irregular de madeira.

Fiquei parado naquele calor de primavera, na poeira suave, respirando o cheiro do mofo e dos tijolos vermelhos ao meu redor, e olhando na direção das vitrines imundas, do outro lado das quais a rua, agora muito descuidada, lançava suas luzes persistentes e entristecidas. Por que eu estava parado ali?

Por que eu não tinha saído direto para encontrar Louis e Merrick? Por que não tinha ido me alimentar, se era sangue o que eu queria? E na realidade estava mesmo sedento, disso eu tinha certeza. Por que eu permanecia sozinho nas sombras, à espera como se quisesse que minha dor se duplicasse, que minha solidão se acentuasse, para que eu saísse à caça com os sentidos aguçados de uma fera?

Então, aos poucos, fui sendo dominado pela conscientização que me isolou totalmente do ambiente em que estava, de tal modo que comecei a formigar em cada célula do meu ser quando meus olhos viram o que minha mente tentava negar em desespero.

Merrick estava diante de mim, na mesma seda vermelha, do nosso breve encontro da noite anterior, e toda a sua fisionomia estava transformada pelo Dom das Trevas.

A pele macia estava quase luminosa com os poderes vampíricos. Os olhos verdes haviam adquirido o aspecto iridescente tão comum a Lestat, Armand, Marius, sim, sei, e a todos os outros. Sua longa cabeleira castanha tinha o resplendor profano; e os belos lábios, o brilho sobrenatural, indefectível, eterno e perfeito.

— David — exclamou, com até mesmo a voz inconfundível afetada pelo sangue nas suas veias. E correu para meus braços.

— Ai, meu Deus do céu, como pude permitir que isso acontecesse! — Eu não conseguia tocá-la. Minhas mãos pairavam acima dos seus ombros; e de repente dei-me por vencido e a abracei com toda a paixão. — Que Deus me perdoe! Que Deus me perdoe! — gritei mesmo apertando-a com força suficiente para machucá-la, segurando-a junto ao meu corpo como se ninguém jamais pudesse arrancá-la de mim. Não me importava se algum mortal me ouvisse. Não me importava se todo o mundo soubesse.

— Não, David, espere — implorou ela, quando eu começava a falar novamente. — Você não sabe o que aconteceu. Ele se foi, David, ele se expôs ao sol. Foi ao amanhecer, depois que ele me levou para me esconder; depois de me ensinar tudo o que pôde e de me prometer que me encontraria hoje à noite. Ele se foi, David. Foi embora, e dele não sobrou nada que não esteja negro como carvão.

As lágrimas terríveis escorrendo pelo rosto dela cintilavam com o sangue malsão.

— David, você não pode fazer nada para salvá-lo? Você não pode trazê-lo de volta? Foi por culpa só minha, que isso aconteceu. David, eu sabia o que estava fazendo. Eu o induzi. Consegui manobrá-lo com tanta habilidade. Usei, sim, o sangue dele e a seda do meu vestido. Usei todo o poder natural e sobrenatural. Tenho mais a confessar quando tivermos tempo. Não lhe esconderei nada. É minha a culpa de ele ter ido, eu juro, mas você não pode trazê-lo de volta?

 

23

LOUIS TINHA SIDO EXTREMAMENTE METICULOSO.

Tinha levado o caixão, uma relíquia de idade e lustre veneráveis, até o pátio dos fundos da casa na Rue Royale, um local extremamente isolado e de muros altos.

Deixou sua última carta na escrivaninha no andar superior, uma escrivaninha que todos nós — eu, Lestat e Louis — tínhamos usado em alguma ocasião para redigir textos importantes para nós. Então, tinha descido ao pátio, retirado a tampa do caixão e se deitado ali dentro para receber o sol da manhã.

Tinha dirigido a mim sua despedida cheia de franqueza.

Se eu estiver certo, serei cremado pela luz do sol. Não tenho idade suficiente para continuar como um ser gravemente queimado, ou jovem o suficiente para deixar carne sangrenta para que quem vier possa levar o que restar. Serei cinzas, como Claudia um dia foi cinzas; e você, meu querido David, deverá espalhar essas cinzas por mim.

Não tenho dúvida de que será você quem coordenará minha liberação final pois, na hora em que se deparar com o que restar de mim, já terá visto Merrick e terá conhecido as dimensões da minha traição e as dimensões do meu amor.

Sim, eu alego amor na questão do que fiz ao transformar Merrick em vampiro. Não posso lhe mentir a esse respeito. Mas, se tem alguma importância, permita-me assegurar-lhe que imaginei pretender apenas assustá-la, levá-la tão perto da morte ao ponto de dissuadi-la, forçá-la a me implorar pela salvação.

No entanto, uma vez começado, o processo foi concluído por mim rapidamente, com a mais pura ambição e o mais puro anseio que jamais conheci. E agora, sendo eu o louco romântico que sempre fui, sendo eu o paladino de atos questionáveis e de pouca tolerância, sendo eu totalmente incapaz como sempre de conviver com o preço da minha vontade e dos meus desejos, deixo-lhe de herança, essa linda cria, Merrick, que eu sei que você há de amar com um coração experiente.

Não importa o quanto você me odeie, peço-lhe que dê a Merrick as poucas jóias e antigüidades que possuo. Peço-lhe que também dê a ela todos aqueles quadros que fui colecionando de forma tão aleatória ao longo dos séculos, quadros que se tornaram obras-primas aos meus olhos e aos olhos do mundo. Qualquer objeto de valor deverá ser dela se você estiver de acordo.

Quanto ao meu doce Mestre, Lestat, quando ele acordar, diga-lhe que parti para as trevas sem esperanças de encontrar seus anjos aterrorizantes, que entrei nas trevas, esperando encontrar apenas o turbilhão ou o nada, duas perspectivas que ele descreveu tantas vezes com suas próprias palavras. Peça-lhe que me perdoe não ter podido esperar para me despedir dele.

O que me traz agora a você, meu amigo. Não tenho esperança de merecer seu perdão. Na realidade, nem mesmo o peço.

Acredito que você não seja capaz de me trazer de volta das cinzas para me atormentar; mas, se achar que é capaz, e conseguir realizar isso, que seja feita a sua vontade. Não resta a menor dúvida de que traí sua confiança. Nada que Merrick diga acerca de seus poderosos feitiços pode servir de desculpa para meus atos, embora com efeito ela alegue que recorreu à magia que não consigo entender para me atrair a ela.

O que compreendo é que eu a amo e não consigo pensar na existência sem ela. A existência é, no entanto, algo que não posso mais contemplar de modo algum.

Parto agora para aquilo que considero uma certeza, a forma de morte que levou minha Claudia — implacável, inevitável, absoluta.

Essa era a carta, escrita com sua letra arcaica em papel pergaminho novo, as letras altas mas gravadas com força.

E o corpo?

Ele teria acertado na suposição e estaria reduzido a cinzas como a criança que perdera para um destino cruel tanto tempo atrás?

Para resumir, não.

No caixão sem tampa, aberto ao ar da noite, jazia uma réplica carbonizada do ser que eu conhecera como Louis, aparentemente tão sólido quanto qualquer múmia antiga, depois de arrancadas as faixas, com a carne bem presa a todos os ossos visíveis. As roupas estavam seriamente chamuscadas, porém intactas. O caixão, enegrecido em torno da figura medonha. O rosto e as mãos, na realidade, a forma inteira não estava tocada pelo vento e mantinha os mínimos detalhes.

E ali, ao seu lado, ajoelhada no frio calçamento de pedras, estava Merrick, contemplando o corpo carbonizado, com as mãos unidas em dor profunda.

Devagar, muitíssimo devagar, ela estendeu a mão e, com o indicador tocou de leve o dorso da mão queimada de Louis. Recuou, de imediato, horrorizada. Não vi nenhuma impressão na carne enegrecida.

— Está duro como carvão, David — exclamou. — Como poderá o vento espalhar seus restos, a não ser que você os retire do caixão e os pisoteie? Isso você não pode fazer, David. Diga-me que não pode.

— Não, não posso! — declarei, começando a andar de um lado para o outro, nervosíssimo. — Ai, que herança infeliz e ingrata — murmurei. — Louis, como eu preferia enterrá-lo como você era.

— Essa poderia ser a pior crueldade — disse ela, em tom de súplica. — David, será que ele pode ainda estar vivo nessa forma? David, você conhece as histórias dos vampiros melhor que eu. Será que ele ainda está vivo nessa forma?

Eu passava por ela, de um lado para o outro, sem lhe dar resposta.

Passava pela efígie sem vida nos seus trajes torrados e olhava sem ânimo, infeliz, para as estrelas distantes.

Atrás de mim, eu a ouvia chorando baixinho, dando plena expressão às emoções que agora a assolavam com um novo vigor, paixões que a devastariam tão completamente que nenhum ser humano poderia avaliar o que ela sentia.

— David — chamou Merrick. Eu ouvia seu choro. Lentamente, virei-me para olhar para ela, ali embaixo, ajoelhada ao lado de Louis, recorrendo a mim como se eu fosse um dos seus santos.

— David, se você cortar seu pulso, se deixar seu sangue escorrer para cima dele, o que vai acontecer? Será que ele vai voltar?

— Essa é a questão, minha querida. Eu não sei. Sei apenas que ele fez o que queria fazer, e que me disse o que queria que eu fizesse.

— Mas você não pode deixá-lo ir embora assim sem luta — protestou ela. — David, por favor... — Inconsolável, sua voz foi sumindo.

Uma leve movimentação do ar passou pelas bananeiras. Voltei-me e olhei aterrorizado para o corpo. Todo o jardim ao nosso redor sussurrava e suspirava de encontro aos muros de alvenaria. Mas o corpo permanecia intacto, imóvel, seguro no seu santuário queimado.

Viria, porém, mais uma brisa, algo mais forte. Talvez até mesmo viesse a chuva, como costumava cair nessas noites quentes de primavera, e ela faria desaparecer o rosto, com os olhos fechados, que ainda era tão visível.

Eu não conseguia encontrar palavras para fazê-la parar de chorar. Não encontrava palavras para confessar o que passava pelo meu coração. Ele já se fora, ou ainda estava por aqui? E o que ele ia querer que eu fizesse agora, não na noite passada, quando na segurança da penumbra da madrugada havia escrito sua carta cheia de coragem; mas agora, agora, se estivesse preso naquela forma no caixão queimado de madeira?

Quais tinham sido seus pensamentos quando o sol nasceu, quando sentiu a fraqueza fatal e depois o fogo inevitável? Ele não tinha a força dos grandes para sair do caixão e se enterrar sob a terra fresca. Teria ele se arrependido dos seus atos? Teria sentido uma dor intolerável? Será que eu não poderia descobrir alguma coisa apenas a partir de um exame do rosto queimado e imóvel ou das suas mãos?

Voltei para o lado do caixão. Vi que sua cabeça estava disposta corretamente como a de qualquer corpo a ser enterrado de modo formal. Vi que suas mãos estavam unidas, descontraídas sobre o tórax, como se um encarregado de funerária as tivesse disposto naquela posição. Ele não as levantara para proteger os olhos. Não tentara dar as costas à morte.

Mas o que realmente significavam esses aspectos da questão?

Talvez ele não tivesse tido forças para tomar essas atitudes nos momentos finais. Talvez tivesse ficado entorpecido com a chegada da luz até ela tomar conta dos seus olhos e fazer com que ele os fechasse. Será que eu ousaria tocar na carne frágil e enegrecida? Eu ousaria ver se seus olhos ainda estavam no lugar?

Eu estava perdido nesses pensamentos medonhos, perdido e querendo somente ouvir algum outro som que não fossem as lágrimas delicadas de Merrick.

Fui até a escadaria de ferro, que descia em curva da sacada do sobrado. E me sentei no degrau que me proporcionava o melhor descanso. Escondi o rosto nas mãos.

— Espalhar os restos — murmurei. — Se ao menos os outros estivessem aqui. — De imediato, como em resposta à minha prece comovente, ouvi o rangido do portão da entrada de veículos. Ouvi o lamento grave das velhas dobradiças enquanto ele era aberto, e depois o estalido quando voltou a ser fechado, ferro contra ferro.

Nenhum cheiro de um mortal indicava que se tratasse de um intruso. Na realidade, eu conhecia o passo de quem se aproximava. Já o ouvira tantas vezes na minha vida tanto mortal quanto sobrenatural. Mesmo assim, eu não ousava acreditar numa salvação semelhante que me tirasse daquela desgraça, até aparecer no pátio a figura que não se fez anunciar, com o paletó de veludo empoeirado, os cabelos louros desgrenhados, os olhos cor de violeta voltados de imediato para o rosto sinistro e estarrecedor de Louis.

Era Lestat.

Com um passo desajeitado, como se seu corpo, sem uso havia tanto tempo, estivesse se revoltando contra ele, Lestat aproximou-se de Merrick, que voltou para ele o rosto manchado de lágrimas como se ela também estivesse vendo um Salvador chegar em resposta às suas preces aleatórias.

Ela se recostou, suspirando baixinho.

— Quer dizer que acabou nisso? — perguntou Lestat. Sua voz estava rouca, como estivera quando ele foi despertado pela música de Sybelle, exatamente da última vez que ele abandonara o sono interminável.

Voltou-se e me encarou, com o rosto sereno desprovido de calor ou expressão, a luz fraca da rua distante iluminando seus olhos ferozes enquanto ele direcionava o olhar de volta para o corpo no caixão sobre as pedras. Creio que seus olhos estremeceram. Creio que seu corpo inteiro tremeu muito de leve como se os movimentos mais simples o estivessem deixando exausto, como se ansiasse por esfregar a parte de trás dos próprios braços e bater rapidamente em retirada.

Mas ele não iria nos abandonar.

— Venha cá, David — disse ele, recorrendo a mim com delicadeza no mesmo murmúrio rouco. — Venha e escute. Não consigo ouvi-lo. Ele é minha cria. Escute e me diga se ele está aí.

Obedeci. Postei-me ao seu lado.

— Ele parece de carvão, Lestat — respondi logo. — Não tive coragem de tocá-lo. Será que deveríamos?

Sem pressa, lânguido, Lestat voltou-se para contemplar de novo a imagem lamentável.

— Posso lhe dizer que a pele está firme — disse Merrick, rapidamente. Pôs-se de pé e se afastou do caixão, convidando Lestat a ocupar seu lugar. — Teste você mesmo, Lestat. Vamos, toque nele. — Sua voz estava impregnada de dor reprimida.

— E você? — perguntou Lestat, estendendo-se até ela e segurando seu ombro com a mão direita. — O que você ouve, chérie? — perguntou, com aquele seu sussurro embargado.

Ela abanou a cabeça.

— O silêncio — disse ela, com os lábios trêmulos, as lágrimas de sangue tendo deixado marcas no seu rosto pálido. — Mas na realidade foi ele quem me transformou. Eu lhe lancei um feitiço. Eu o seduzi. Ele não tinha a menor chance diante do meu plano. E agora isso, isso por minha interferência, isso. E consigo ouvir o murmúrio dos mortais nas casas por perto, mas não ouço nada que venha dele.

— Merrick — insistiu Lestat. — Escute, como você sempre foi capaz de escutar. Seja a bruxa agora, ainda, se não consegue ser o vampiro. É, eu sei, foi ele quem a fez. Mas você era bruxa antes disso. — Passou os olhos de um de nós para o outro, com pouca emoção visível brotando nele. — Diga-me se ele quer voltar.

As lágrimas voltaram aos olhos de Merrick. Chorosa, transtornada, ela olhou para o que parecia ser um cadáver.

— Ele poderia estar pedindo a vida aos gritos — disse ela —, mas não estou ouvindo nada. A bruxa em mim não ouve nada a não ser o silêncio. E o ser humano em mim só sente o remorso. Lestat, dê-lhe seu sangue. Traga-o de volta.

Lestat voltou-se então para mim.

Ela estendeu a mão para pegar seu braço e o forçou a olhar de novo para ela.

— Faça sua magia — disse ela, num tom grave, acalorado e insistente. — Faça sua magia, acreditando nela, como eu fiz a minha.

Lestat assentiu, cobrindo-lhe a mão com delicadeza, como se quisesse tranqüilizá-la, com toda a certeza para tranqüilizá-la.

— Diga-me, David — pediu ele, com sua voz áspera. — O que ele quer, David? Ele fez isso por ter criado Merrick, e por achar que deveria pagar com a própria vida?

Como eu poderia responder? Como eu poderia ser fiel agora a tudo o que meu companheiro me havia confiado ao longo de tantas noites?

— Não ouço nada — disse eu. — Mas na realidade é um velho hábito, o de não espionar seus pensamentos, não devastar sua alma. É um velho hábito o de deixá-lo fazer o que deseja, só de vez em quando lhe oferecendo o sangue forte, nunca desafiando suas fraquezas. Não ouço nada. Não ouço nada, mas qual é o significado de eu não ouvir nada? Caminho pelos cemitérios desta cidade à noite e não ouço nada. Caminho em meio a mortais e às vezes não ouço nada. Ando sozinho e não ouço nada, como se eu mesmo não tivesse nenhuma voz interior.

Voltei a olhar para seu rosto enegrecido. Dava para ver o perfeito desenho da sua boca ali. E agora eu me dava conta de que até mesmo o cabelo na sua cabeça permanecia intacto.

— Não ouço nada — disse eu — e no entanto eu vejo espíritos. Já vi aparições muitas vezes. Será que existe um espírito escondido aí nesses restos mortais? Não sei.

Lestat pareceu cambalear, como se estivesse com alguma fraqueza física, mas então se forçou a permanecer em pé. Senti vergonha quando vi a poeira cinza que encobria o veludo das suas mangas compridas. Senti vergonha quando vi os nós e a sujeira na cabeleira densa e ondulada. Mas essas coisas não faziam diferença para ele.

Nada fazia diferença para ele a não ser a figura no caixão. E enquanto Merrick chorava, ele estendeu o braço direito, quase distraído, e a enlaçou, trazendo-a para junto do seu corpo poderoso, e murmurando com a voz rouca.

— Pronto, pronto, chérie. Ele fez o que queria.

— Mas deu errado! — respondeu ela, sem conter as palavras. — Ele é muito velho para que só um dia de fogo acabe com sua vida. E pode ser que esteja preso no interior desse cadáver carbonizado, com medo do que esteja por vir. Como um moribundo, ele poderia estar nos ouvindo no seu estupor final, sem conseguir reagir. — Ela gemia, chorosa, enquanto continuava a falar. — Pode ser que esteja gritando para que o socorramos; e nós, aqui parados, discutindo e rezando.

— E, se eu derramar meu sangue nesse caixão agora — perguntou Lestat a ela —, o que você acha que vai ressurgir? Você acha que vai ser o nosso Louis que se erguerá desses farrapos queimados? E se não for, chérie, e se for algum ressurgido dos mortos, cheio de mágoa que nós precisemos destruir?

— Escolha a vida, Lestat — disse ela, voltando-se para ele, soltando-se do seu abraço e lhe implorando. — Escolha a vida não importa em que forma. Escolha a vida e traga Louis de volta. Se ele quiser morrer, será possível fazer isso mais tarde.

— Meu sangue agora é forte demais, chérie — disse Lestat. Ele pigarreou e limpou a poeira das próprias pálpebras. Passou a mão pelo cabelo e o afastou com força do rosto. — Meu sangue fará um monstro do que está aí.

— Então faça o monstro! — disse ela. — E se ele quiser morrer, se ele pedir a morte novamente, então eu serei sua auxiliar nessa sua provação, eu lhe prometo. — Como sua voz, seus olhos eram sedutores. — Farei um caldo que ele possa engolir, com venenos no sangue de animais, no sangue de criaturas selvagens. Eu lhe darei essa poção de modo que ele adormeça assim que o Sol nascer. — Seu tom de voz foi ficando mais cheio de paixão. — Ele dormirá. E, caso ainda esteja vivo ao pôr-do-sol, eu serei sua guardiã a noite inteira até que o Sol volte a nascer.

Por muito tempo, os brilhantes olhos cor de violeta de Lestat ficaram fixos nela, como se estivesse refletindo sobre sua vontade, seu plano, seu próprio compromisso, e então devagar ele voltou os olhos para mim.

— E você, meu querido? O que você quer que eu faça? — perguntou ele. Seu rosto agora tinha um aspecto mais animado, apesar de toda a sua tristeza.

— Não posso lhe dizer — disse eu, abanando a cabeça. — Você veio, e a decisão é sua, sua de direito, porque você é o mais velho, e eu estou grato por você estar aqui. — Em seguida, descobri-me presa das considerações mais terríveis e tenebrosas. Olhei novamente para a figura escura ali embaixo e depois, mais uma vez, para Lestat.

— Se eu tivesse tentado e fracassado — disse eu —, ia ter vontade de voltar. — O que foi que me fez verbalizar um sentimento desses? Foi o medo? Eu não saberia dizer. Mas era um sentimento verdadeiro, e eu sabia, como se meus lábios tivessem procurado instruir meu coração.

— É, se eu tivesse visto o nascer do sol — disse eu — e tivesse sobrevivido a ele, eu bem poderia ter perdido a coragem, e de coragem ele era muito necessitado,

Lestat parecia estar considerando esses argumentos. Como poderia ignorá-los? No passado, ele próprio tinha se exposto à luz do sol num local distante e deserto e, tendo sido queimado repetidamente, sem trégua, ele voltou. Sua pele ainda era dourada em decorrência desse doloroso e terrível malogro. Ele carregaria a marca do poder do sol por muitos anos ainda.

De imediato, ele passou à frente de Merrick e, enquanto nós dois observávamos, ajoelhou-se ao lado do caixão, aproximando-se muito do corpo, para então recuar. Com os dedos, exatamente com a mesma delicadeza de Merrick, Lestat tocou as mãos enegrecidas e não deixou nenhuma marca. Devagar, de leve, tocou a testa e, mais uma vez, não deixou marcas.

Endireitou-se ainda ajoelhado e, levando a mão direita à boca, rasgou o pulso com os próprios dentes antes que Merrick ou eu soubéssemos o que ele pretendia fazer.

Imediatamente, um espesso jorro de sangue derramou-se sobre o rosto perfeitamente modelado da figura no caixão; e, enquanto a veia começava a se fechar sozinha, Lestat novamente a rasgou e deixou o sangue correr.

— Ajude-me, Merrick. Ajude-me, David! — gritou ele. — Pagarei pelo que comecei, mas não deixem que não dê certo. Preciso de vocês agora.

De pronto, fui me juntar a ele, arregaçando o punho desajeitado de algodão e rasgando a carne do pulso com meus caninos. Merrick estava ajoelhada bem aos pés do caixão; e, do seu delicado pulso de cria nova, o sangue tinha começado a correr.

Uma fumaça penetrante subia dos restos mortais diante de nós. O sangue parecia infiltrar-se em cada poro da figura. As roupas queimadas estavam encharcadas. E, afastando esse tecido, Lestat deu mais um jorro de sangue à sua obra frenética.

A fumaça formava agora uma espessa camada acima dos restos sangrentos diante de nós. Eu não conseguia ver através dela. Mas conseguia ouvir um leve murmúrio, um gemido em terrível agonia. E eu não parava de deixar meu sangue correr, com minha pele sobrenatural procurando fechar-se e interromper a operação enquanto meus dentes vinham em meu socorro a toda hora.

De repente, um grito de Merrick. Vi diante de mim em meio à névoa a figura de Louis sentando-se no caixão, seu rosto um monte de rugas e linhas minúsculas. Vi Lestat estender as mãos até ele, segurar-lhe a cabeça e pressioná-la junto ao seu pescoço.

— Beba agora, Louis — ordenou.

— Não pare, David — disse Merrick. — O sangue, é disso que ele precisa. Todas as partes do seu corpo estão se embebendo com ele.

Obedeci, só então percebendo que estava ficando cada vez mais fraco, que não conseguia continuar em pé, e que a própria Merrick estava caindo para a frente, embora ainda estivesse determinada a prosseguir.

Vi abaixo de mim um pé descalço, depois o contorno da perna de um homem e então, perfeitamente visível na penumbra, os músculos fortes do tórax de um homem.

— Mais, isso, sugue mais — era a ordem baixa e insistente de Lestat. Ele agora falava em francês. — Sugue mais, mais. Sugue tudo o que eu tenho a dar.

Minha visão estava totalmente comprometida. Parecia que o pátio inteiro estava permeado de um vapor penetrante; e as duas formas — de Louis e de Lestat — tremeluziram por um instante antes que eu me sentisse cair deitado nas pedras frescas e bem-vindas, antes que eu sentisse o corpo macio de Merrick se aconchegar ao lado do meu, antes que eu sentisse o perfume doce e delicado do cabelo de Merrick. Minha cabeça rolou nas pedras quando tentei erguer minhas mãos, mas não consegui.

Fechei os olhos. Não via nada, e então, quando os abri, Louis estava ali, nu e refeito, olhando para mim, com o corpo recoberto por uma fina película de sangue, como se fosse um recém-nascido, e vi o verde dos seus olhos e o branco dos seus dentes.

Ouvi a voz rouca de Lestat novamente.

— Mais, Louis — disse ele. — Tome mais.

— Mas e David e Merrick? — perguntou Louis. E Lestat respondeu:

— Está tudo bem com David e Merrick.

 

24

NÓS LHE DEMOS UM BANHO E O VESTIMOS, TODOS JUNTOS, NOS APOSENTOS do sobrado.

Sua pele tinha agora um brilho branco, graças ao sangue quase onipotente de Lestat que o havia restaurado de forma tão notável; e ficou claro, quando o estávamos ajudando com as menores peças de vestuário, que ele não era o mesmo Louis de quem tantas vezes nos acostumáramos a sentir pena com base no nosso amor.

Afinal, quando ele estava vestido confortavelmente numa camisa preta de malha de gola alta, solta do corpo, e calças de algodão, com os sapatos amarrados e a basta cabeleira negra penteada, Louis sentou-se conosco na sala de estar dos fundos — aquele local de reunião que tinha testemunhado tantas conversas agradáveis na minha breve vida sobrenatural.

Seus olhos agora teriam de ser protegidos por óculos de sol, pois tinham adquirido aquela qualidade iridescente que sempre fora um embaraço para Lestat. Mas e o ser interior? O que tinha ele a nos dizer enquanto olhávamos para ele, enquanto nós todos esperávamos que ele compartilhasse conosco seus pensamentos?

Ele se acomodou mais fundo na poltrona de veludo escuro e olhou ao redor como se fosse um monstro recém-nascido, lançado na vida pronto e inteiro, por mito ou lenda. E só aos poucos seus penetrantes olhos verdes se voltaram para nós.

Àquela altura Lestat já tinha espanado de si a desagradável cobertura de poeira e tinha apanhado no seu próprio guarda-roupa um paletó novo de veludo marrom-escuro e camisa limpa, de modo que estava usando sua costumeira renda antiga, pesada e ligeiramente desbotada. Tinha arejado e penteado o cabelo, e calçara botas novas.

Em suma, formávamos um belo quadro, nós quatro, se bem que Merrick, no seu habitual vestido de seda de cintura marcada, tivesse algumas leves manchas de sangue. O vestido era vermelho, porém, e revelava pouquíssimo ou nada a quem olhasse. E, naturalmente, em torno do pescoço usava, como tinha usado a noite inteira, meu presente de tantos anos antes, o colar de pérolas de três voltas.

Suponho que eu tenha encontrado algum lenitivo nesses detalhes, e por isso os registro. Mas o detalhe que teve o efeito mais benéfico em mim foi a calma expressão de assombro no rosto de Louis.

Devo acrescentar que Merrick foi tremendamente enfraquecida pelo sangue que doou ao nosso esforço comum, e eu podia ver que ela logo precisaria sair para ser o vampiro nas ruas mais escuras e perigosas da cidade. E era meu voto solene que eu estaria ao seu lado.

Em pensamento, eu tinha ensaiado até bem demais o que poderia significar ter Merrick conosco, para agora alegar algum conflito moral rígido. Quanto à sua beleza, o sangue delicado de Louis de noites atrás a havia aprimorado em muito, e seus olhos verdes eram ainda mais intensos, muito embora ela ainda pudesse passar por humana com relativa facilidade.

A ressurreição de Louis parecia ter esgotado toda a reserva do seu coração, e ela estava acomodada no sofá ao lado da bela figura de Lestat, como se não pudesse querer mais nada na vida além de ir dormir.

Como escondia bem a sede que devia estar sentindo, pensei, só para vê-la erguer a cabeça e olhar de relance. Merrick tinha lido meu pensamento.

— Só um vislumbre — disse ela. — Não quero saber mais do que isso. — Fiz um esforço consciente para ocultar o que eu pudesse estar sentindo, considerando que seria melhor para todos nós seguir uma norma semelhante, como Louis, Lestat e eu tínhamos seguido no passado.

Afinal, foi Lestat quem rompeu o silêncio.

— Não está terminado — disse ele, com um olhar penetrante na direção de Louis. — E preciso mais sangue. — Sua voz estava forte agora e me soava maravilhosamente familiar. Lestat estava falando no seu habitual inglês norte-americano. — E preciso que você beba de mim, Louis, e que eu devolva o sangue. E preciso nada menos que isso para lhe dar toda a força que tenho para dar e não para perder. Quero que você aceite isso agora sem discussão, tanto pelo meu bem, talvez, quanto pelo seu.

Por apenas um instante, o rosto de Lestat pareceu novamente fatigado como se ele fosse o sonâmbulo que tinha sido na última vez em que se levantou. Mas num átimo sua vitalidade se recuperou, e ele prosseguiu, dirigindo-se a mim.

— E você, David, leve Merrick e saia agora para se alimentar e repor o que tiverem perdido. Ensine-lhe, David, o que ela precisar aprender, embora eu creia que ela já esteja bem familiarizada com tudo. Acho que Louis, no pouco tempo que teve na noite de ontem, a instruiu muito bem. Eu tinha certeza de que Louis se ergueria do seu silêncio solene para protestar contra a atitude dominadora de Lestat, mas ele não fez nada que se assemelhasse. Com efeito, detectei nele uma autoconfiança visível que não possuía no passado.

— E, faça isso, dê-me tudo o que puder — disse ele num tom grave e vigoroso. — E Merrick? Você vai querer dar seu sangue poderoso também a ela?

Lestat ficou até mesmo surpreso com uma vitória tão fácil. Levantou-se. Eu peguei Merrick pela mão e me preparei para sair.

— Vou — respondeu Lestat, afastando o cabelo louro do rosto. — Vou dar meu sangue a Merrick, se Merrick quiser. Merrick, é isso o que eu quero mais que qualquer outra coisa, eu lhe garanto. Mas a escolha é sua se vai aceitar ou não o Dom das Trevas de mim mais uma vez. Uma vez que você beba do meu sangue, passará a ser tão forte quanto David e Louis. Uma vez que você beba de mim, nós todos estaremos à altura uns dos outros. E é esse exatamente meu desejo.

— E, e eu vou querer — respondeu ela. — Mas preciso caçar primeiro, não é mesmo? — Ele fez que sim e, com um gesto discreto e eloqüente, indicou que deveríamos sair para deixá-lo a sós com Louis.

Rapidamente levei-a comigo pela escada de ferro abaixo, saímos e nos afastamos do Quarter.

Caminhávamos em silêncio a não ser pelo estalido sedutor dos saltos altos na calçada. Logo chegamos ao bairro depauperado e aviltado onde ficava sua antiga casa.

No entanto, não fomos para sua casa. Seguimos adiante.

Finalmente, uma risada agradável escapou dos seus lábios, e ela me fez parar tempo suficiente para me dar um beijo no rosto. Merrick tinha algo a dizer, mas foi interrompida.

Um grande automóvel americano vinha se aproximando de nós lentamente, e podíamos ouvir por trás das janelas de vidro espesso o baixo profundo do rádio e as palavras antipáticas de uma música cheia de ódio. Lembrava grande parte da música moderna, uma barulhada destinada a enlouquecer seres humanos.

O automóvel parou apenas alguns metros adiante, e nós continuamos a andar. Eu sabia que os dois mortais no veículo pretendiam nos ferir. Entoei seu canto fúnebre. Talvez eu tenha sorrido. É sinistro, mas acho que sorri.

O que eu não esperava era o súbito estalo de uma arma e a trajetória luminosa de uma bala diante dos meus olhos. O riso de Merrick soou novamente, pois ela também tinha visto o arco brilhante à nossa frente.

Abriu-se a porta do carro, e uma forma escura saiu na direção de Merrick. Ela se voltou, estendendo os braços finos para acolhê-lo, e apanhou a vítima ainda em movimento. Vi o homem ficar paralisado quando ela fincou os dentes. Vi-o perder as forças. Vi que os braços dela sustentavam o peso do homem com facilidade. Senti o cheiro do sangue, e eu não era nada a não ser o vampiro.

O motorista desceu do carro, abandonando o motor ligado e indignado com o malogro do esqueminha de estupro ou assalto. Mais uma vez, o forte disparo da arma, mas a bala se perdeu na escuridão.

Corri para o assaltante e o apanhei com a mesma simplicidade com que ela apanhara sua presa. Meus dentes foram rápidos; e o sabor do sangue, magnífico. Nunca bebi com tanta voracidade, com tanta pressão. Nunca me demorei, nadando em busca de momentos elásticos nos sonhos e lembranças desesperadas desse indivíduo infeliz antes de em silêncio lançar seu corpo para longe de mim, para onde não fosse visto, no meio do capim alto de um terreno baldio.

Ligeira, Merrick depositou sua vítima moribunda no mesmo trecho coberto de mato alto.

— Você curou as marcas das picadas? — indaguei. — E o fez de um modo que não deixasse vestígios de como ele morreu?

— Claro que sim — respondeu ela.

— Por que você não o matou? — perguntei. — Deveria tê-lo deixado morto.

— Depois que eu beber de Lestat, vou poder matá-los — respondeu ela. — Além do mais, ele não tem como sobreviver. Já estará morto quando nós dois chegarmos ao apartamento.

Voltamos para casa.

Ela caminhava ao meu lado. Eu me perguntava se ela sabia o que eu estava sentindo. Sentia que a havia traído e destruído. Achava que lhe havia feito todo mal concebível que jurara evitar. Quando examinei em retrospectiva nosso plano de que ela invocasse um espírito para mim e para Louis, vi ali a origem de tudo o que acabara ocorrendo. Eu estava alquebrado, um homem humilhado pelo seu próprio fracasso e entregue a ele com a fria submissão de um vampiro, que consegue coexistir de modo tão terrível com a dor humana.

Quis lhe dizer como eu lamentava que ela não tivesse vivido a plena medida da sua vida mortal. Quis lhe dizer que o destino a designara para grandes realizações, talvez, e que eu tinha interrompido esse destino com meu egoísmo imprudente, com um ego que não pôde ser refreado.

Mas por que eu iria estragar aqueles momentos preciosos para ela? Por que encobrir com uma mortalha todo o esplendor que ela via ao redor, seus olhos de vampiro banqueteando-se com tudo o que víamos, da mesma forma que ela mesma se havia banqueteado? Por que privá-la das poucas noites de virgindade nas quais a força e a ameaça pareceriam sagradas e justas? Por que tentar mudar aquilo com tristeza e dor? Em breve chegaria a vez delas.

Talvez ela tenha lido meus pensamentos. Eu sem dúvida nada fiz para impedi-la. Mas, quando falou, nas suas palavras não havia sinal disso.

— A vida inteira — disse ela, com uma voz terna, de confidências — senti medo como a criança e a mulher devem sentir. Naturalmente, eu mentia a respeito. Eu me imaginava uma bruxa e caminhava pelas ruas escuras para me punir por essas dúvidas. Mas eu sabia o que significava sentir medo.

“E agora, nesta escuridão, não temo nada. Se você me deixasse aqui, eu não sentiria nada. Caminharia como estou caminhando agora. Como homem, você não pode saber o que estou querendo dizer com essas palavras. Não tem como conhecer a vulnerabilidade de uma mulher. Não tem como avaliar a sensação do poder que agora me pertence.”

— Acho que tenho uma noção disso — respondi em tom conciliador. — Eu fui velho, você deve se lembrar. E, quando eu era velho, conheci um medo que nunca tinha sentido quando jovem.

— É, então você talvez entenda mesmo a desconfiança que a mulher sempre traz no coração. Então, você conhece mesmo a força que me parece tão maravilhosa agora.

Passei meu braço em torno dela. Fiz com que se virasse delicadamente para me beijar e senti nos meus lábios sua fria pele sobrenatural. Seu perfume agora parecia algo estranho a ela, que no fundo não lhe pertencia, embora ainda fosse doce e permeasse as longas madeixas escuras que eu afagava com tanto carinho, com as duas mãos.

— Saiba que a amo — disse eu, e na minha voz eu ouvia o terrível remorso, a terrível súplica por uma penitência.

— Você não entende que vou estar ao seu lado para sempre? — perguntou ela. — Por que qualquer um de nós haveria de se separar dos outros?

— Acontece. Com o tempo, acontece — respondi. — Não me pergunte o porquê.

Aos poucos, nossas perambulações nos levaram à casa de Merrick.

Ela entrou sozinha, pedindo-me que esperasse com paciência; e saiu carregando sua velha e conhecida bolsa de lona. Meus sentidos aguçados detectaram um cheiro estranho que provinha da bolsa, algo acre e químico, algo completamente diferente de tudo o que eu conhecia.

Esse cheiro realmente não me importava. E, enquanto nós dois continuávamos a andar, eu me esqueci dele, me acostumei a ele ou simplesmente parei de percebê-lo. Não me interessavam mistérios menores. Minha aflição e minha felicidade eram por demais imensas.

Quando voltamos ao apartamento, encontramos Louis ainda mais uma vez dramaticamente transformado.

Sentado novamente tranqüilo na sala de estar dos fundos, com Lestat ao seu lado, ele agora estava tão descorado e esculpido pelo aumento de sangue que parecia, como seu criador, um objeto de mármore, não de carne e osso. Seria obrigado a pulverizar cinzas nas palmas das mãos se quisesse freqüentar locais iluminados.

Seus olhos tinham um brilho ainda maior do que o que eu tinha observado antes. Mas e sua alma? O que ele teria a nos dizer? Será que ele era o mesmo ser no íntimo?

Apanhei uma cadeira, como fez Merrick, deixando a bolsa de lona junto aos pés. E acho que nós dois concordamos em esperar que Louis falasse.

Depois de um bom tempo, ainda estávamos juntos, ainda esperando. Os olhos de Lestat a toda hora voltando a Merrick, com uma fascinação compreensível. E então Louis finalmente começou a falar.

— Do fundo do coração agradeço a todos vocês terem me trazido de volta. — Era a velha cadência, a velha sinceridade. Talvez houvesse um pouco da velha timidez também. — Em toda a minha longa vida entre os mortos-vivos, procurei por algo que cheguei a acreditar que nunca viria a possuir. Há mais de um século, fui ao Velho Mundo, em busca disso. E depois de uma década eu me encontrava em Paris, ainda procurando.

Ele prosseguiu, com o tom da voz imbuído de sentimento.

— O que eu procurava era um lugar, algum lugar em que eu fizesse parte de algo maior do que eu. Tratava-se de ser diferente de um perfeito proscrito. Tratava-se de estar com outros que me incluíssem num grupo ao qual eu realmente pertencesse. Mas em parte alguma encontrei isso, até agora.

Ele lançou para mim um olhar expressivo, e depois para Merrick; e eu vi o amor subir aquecendo-lhe o rosto.

— Agora sou tão forte quanto você, David. E logo Merrick também será. — Ele voltou os olhos firmes para Lestat. — Estou quase tão forte quanto você, meu querido Criador. Para o que der e vier, sinto que agora sou um de vocês.

Do seu rosto de um branco reluzente, veio então um longo suspiro, que era bem característico dele e sempre tinha sido.

— Pensamentos — disse ele —, eu os ouço. Música ao longe, eu ouço. O ir e vir das pessoas nas ruas lá fora, eu ouço. Capto seu cheiro, e ele é agradável e bem-vindo. Olho para a noite lá fora, e vejo longe.

Um enorme alívio, cheio de assombro, me dominou. Esforcei-me por expressá-lo nos meus gestos e na expressão amorosa no meu rosto.

Senti que Merrick compartilhava dele. Seu amor por Louis era palpável. Era infinitamente mais agressivo e exigente que o amor que ela sentia por mim.

Lestat, talvez um pouco enfraquecido por tudo o que havia suportado, pelo longo jejum dos meses anteriores, apenas fez que sim diante dessas palavras.

Olhou na direção de Merrick como se tivesse uma tarefa a cumprir, e eu mesmo esperava ansioso que ela se realizasse. Seria difícil ver Lestat tomar Merrick nos braços. Talvez fosse em particular, como tinha sido a troca de sangue com Louis. Eu estava pronto para ser despachado de novo a passear, entregue apenas aos meus pensamentos, pela noite afora.

Mas percebi que nosso pequeno grupo não estava de modo algum pronto para se dispersar.

Merrick inclinou-se para a frente na sua poltrona. Deixou bem claro que pretendia se dirigir a todos nós.

— Tenho algo que precisa ser dito — começou ela, com os olhos em mim em respeitosa hesitação por um bom tempo antes de olhar para os outros dois. — Louis e David estão se sentindo muito culpados por eu agora ser uma de vocês. E talvez também na sua mente, Lestat, haja algumas perguntas.

“Ouçam o que tenho a dizer, portanto, pelo bem de todos vocês, e decidam quais sentimentos desejam ter depois de conhecer as partes principais da história. Estou aqui porque assim resolvi há muito tempo.

“Faz anos que David Talbot, nosso amado superior geral, desapareceu do abraço protetor da Talamasca, e eu de modo algum fui apaziguada por mentiras sobre como ele teria chegado ao final de sua vida mortal.

“Como David sabe, descobri os segredos da troca de corpos que tirara David do seu corpo idoso, no qual eu sempre o amara de todo o coração. Mas eu não precisava de uma narrativa secreta escrita pelo meu amigo Aaron Lightner para me dizer o que havia acontecido com a alma de David.

“Eu soube a verdade quando tomei um vôo até Londres, após a morte daquele corpo idoso, aquele corpo que chamávamos de David Talbot, para prestar minha última homenagem, sozinha com o corpo no caixão antes que ele fosse lacrado para sempre. No momento em que toquei o corpo, eu soube que David não tinha morrido nele, e naquele instante singular minhas ambições tiveram início.

“Pouquíssimo tempo depois, encontrei os documentos de Aaron Lightner, que deixavam claro que David de fato tinha sido a feliz vítima de uma Troca Faustiana; e que algo imperdoável aos olhos de Aaron levara David, no corpo jovem, para fora deste mundo.

“É claro que eu sabia que tinham sido os vampiros. Não precisava de lendas populares que mascaram os fatos para imaginar como Lestat afinal impusera sua vontade a David.

“Mas, na ocasião em que li aquelas páginas curiosas, com todos os seus eufemismos e iniciais, eu já tinha lançado um feitiço poderoso e antiqüíssimo. E o fizera para trazer David Talbot, fosse ele o que fosse — rapaz, vampiro, até mesmo fantasma — de volta a mim, de volta ao carinho do meu afeto, de volta ao seu antigo senso de responsabilidade por mim, de volta ao amor que um dia havíamos compartilhado.”

Ela parou de falar, enfiou a mão na bolsa e extraiu dela um pequeno embrulho envolto em tecido. Veio então novamente o cheiro acre, que eu não conseguia identificar; e ela abriu o pano para revelar o que parecia ser uma mão humana amarelada e algo embolorada.

Não se tratava daquela velha mão enegrecida que eu mais de uma vez tinha visto no seu altar. Era algo sem dúvida de morte mais recente, e eu me dei conta daquilo que minhas narinas não tinham conseguido me dizer. Antes de ser decepada, a mão tinha sido embalsamada. Era o fluido que causava o leve odor fétido. Mas o fluido já havia muito tempo tinha secado, deixando a mão como estava, sólida, encolhida e encarquilhada.

— Você a reconhece, David? — perguntou-me ela, em tom grave. Senti um calafrio enquanto olhava fixamente para ela.

— Retirei-a do seu corpo, David — disse ela. — Retirei-a porque não queria deixá-lo ir embora.

Lestat deu um risinho terno e cheio de prazer descontraído. Acho que Louis estava estupefato demais para falar.

Quanto a mim, eu não podia dizer nada. Só olhava fixamente para a mão.

Na palma estava inscrita toda uma série de pequenas palavras. Eu sabia que o idioma era o copta, que eu não sabia ler.

— É um antigo feitiço, David. Ele o obriga a voltar para mim e obriga os espíritos que me dão ouvidos a trazê-lo na minha direção. Eles são forçados a encher seus sonhos e suas horas despertas com pensamentos sobre mim. À medida que o feitiço vai se fortalecendo, ele expulsa todas as outras considerações, restando finalmente uma única obsessão, a de vir a mim, e nada mais interessa.

Agora era a vez de Louis virar-se para um pequeno sorriso de reconhecimento. Lestat recostou-se, apenas contemplando o extraordinário objeto com uma sobrancelha erguida e um sorriso pesaroso.

Abanei a cabeça.

— Isso eu não aceito! — murmurei.

— Você não tinha a menor chance contra o feitiço, David — insistiu ela. — Você não tem culpa, nenhuma culpa, da mesma forma que Louis não tem culpa pelo que acabou me acontecendo.

— Não, Merrick — disse Louis, com delicadeza. — Conheci muito amor genuíno na minha vida para duvidar do que sinto por você.

— E o que dizem essas garatujas? — perguntei, zangado.

— O que dizem é um trecho do que recitei inúmeras vezes enquanto invocava meus espíritos, os próprios espíritos que invoquei para você e para Louis no outro dia. O que dizem é:

“Eu lhes ordeno que lhe inundem a alma, a mente, o coração, com desejo por mim; que assolem seus dias e suas noites com um anseio implacável e torturante por mim; que invadam seus sonhos com imagens de mim; que façam com que nada que ele coma ou beba o satisfaça enquanto ele pensar em mim, até que ele retorne a mim, até que esteja na minha presença, até que eu possa usar nele todos os poderes de que disponho quando estivermos falando um com o outro. Que nem por um momento ele fique tranqüilo, que nem por um momento ele se volte em outra direção.”

— Não foi assim — insisti.

Ela prosseguiu, com a voz mais baixa, mais gentil.

— Que ele seja um escravo para mim; que ele seja o servo fiel dos meus desígnios; que ele não tenha nenhum poder para renegar o que confiei a vocês, meus espíritos poderosos e fiéis. Que ele realize o destino que eu escolho por minha própria vontade.

Ela deixou o silêncio encher de novo a sala. Eu não ouvia nada por enquanto, a não ser um riso baixo e discreto de Lestat.

Mas não era de zombaria, esse riso. Era uma simples manifestação de espanto; e depois Lestat falou.

— Quer dizer que vocês estão absolvidos, cavalheiros — disse ele. — Por que não aceitam isso? Não aceitam esse fato como um presente perfeitamente inestimável que Merrick tem o direito de dar?

— Nada jamais poderá me absolver — disse Louis.

— Que a escolha seja sua, então, de vocês dois — respondeu Merrick — se quiserem acreditar que são responsáveis. E isto aqui, este resto do seu corpo, David, vou devolver à terra. Mas, antes de encerrar o assunto, para o coração de vocês dois, permitam-me dizer que o futuro foi previsto.

— Por quem? Como? — perguntei.

— Por um velho — disse ela, dirigindo-se a mim especificamente — que costumava ficar sentado na sala de jantar da minha casa, escutando a missa de domingo pelo rádio, um velho com um relógio de bolso de ouro, que eu cobiçava, um relógio que ele me disse simplesmente não estar batendo para mim.

Estremeci.

— Oncle Vervain — murmurei.

— Essas foram as únicas palavras dele a esse respeito — disse ela, com uma doce humildade. — Mas ele me mandou para as selvas da América Central para encontrar a máscara que eu usaria para despertar Claudia. Antes ele me enviara, com minha mãe e minha irmã, para encontrar o perfurador com o qual eu rasgaria o pulso de Louis para obter seu sangue, não só para eu despertar um espírito, mas para o feitiço com o qual eu traria Louis a mim.

Os outros nada disseram. Mas Louis e Lestat a compreenderam. E foi o desenho, o desenho emaranhado que me convenceu a aceitá-la totalmente, em vez de mantê-la à distância, a comprovação da minha terrível culpa.

Agora estava quase amanhecendo. Restavam-nos apenas umas duas horas. Lestat queria esse tempo para transmitir seu poder a Merrick.

Mas, antes de nos dispersarmos, Lestat voltou-se para Louis e fez uma pergunta que interessava a todos nós.

— Quando o sol nasceu — disse ele —, quando você o viu, quando ele o queimou, antes de perder a consciência, o que você viu?

Louis olhou para Lestat por alguns minutos, com o rosto sem expressão, como sempre fica quando está num estado de emoção exacerbada; e então suas feições se suavizaram, as sobrancelhas se uniram e vieram as temidas lágrimas aos olhos.

— Nada — disse ele. Baixou a cabeça, mas voltou a olhar para cima, em desamparo. — Nada. Não vi nada e senti que não havia nada. Foi o que senti: vazio, incolor, atemporal. Nada. Parecia irreal que eu um dia tivesse vivido sob qualquer forma que fosse. — Seus olhos estavam bem fechados, e ele ergueu a mão para esconder o rosto de nós. Estava chorando. — Nada — repetiu. — Absolutamente nada.