Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana

Sherrine Njaine Borges · Capítulo 5 de 6 · parte 2/2

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Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana

IV Ofício de viver: o corpo pulsão que é de morte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Se o eu é quem governa o acesso à consciência, assim como a passagem à ação sobre o mundo exterior, no recalque afirma seu poder em ambas as direções, demonstrando que ele é uma organização e que é este o traço que o destingue do isso, que não a

tem.48 Característica não desprezível, esta organização é solidária ao fato de que sua energia se dessexualizou e Freud dá conta disso ao mencionar a vulnerabilidade do eu que, quando se desorganiza,

desmorona.49

Por outro lado, sem dúvida de que muito no interior do eu é inconsciente, que o eu e o isso são partes de uma mesma organização, e não existências separadas como o lobo e a

criança,50 qualquer agir do eu que acolhe o recalcado forçosamente exercerá um efeito modificador sobre o processo pulsional. Assim, a compulsão à repetição pressupõe um eu recalcado, inconsciente e que só pode expressar-se depois que o trabalho analítico, como diz Freud, avançou ao seu encontro, depois que afrouxou o recalque e

o eu coerente suporta mais a aproximação do eu recalcado. 51 Isto nos permite dizer que se toda a força pulsional que põe cm movimento o barco, e ministrada pelo isso, o eu se encarrega por assim dizer do timão que, se faltar, não permitirá alcançar nenhuma

meta. 52

O eu é quem aprende, aprende a decidir como se pôr diante do que há, quando inclinar-se ao que há e quando lutar contra, tomando partido de suas paixões-pulsões para mudar lá fora. Decisão que, mais do que conhecimento, pressupõe sabedoria, aprendizagens do haver vivido para suportar a aproximação do esquecido no que dizemos, fazemos e em que nos transformamos e ainda podemos nos transformar. E isto não pode mais ser feito desde fora de um singular eu-corpo, numa relação inespecífica e de exterioridade quanto ao que é característico em cada sujeito e suas organizações diante da incessante exigência pulsional. A meta de aprendermos algo, o que quer que seja, de quem quer que seja, não está mais numa submissão a uma lei externa, independente de nossas experiências com nós mesmos e com os outros, a começar, dos outros de nós: o outro psíquico, o outro da pulsão não dominável, o outro da pulsão que é de morte, o outro que é o corpopulsão que é de morte.

O pensamento freudiano já havia assinalado, a propósito do que ocorre na dor, que, quanto mais complexo e diversificado o psiquismo e as cadeias associativas, maior o campo para nele ser retida a energia pulsional que a ele chega. Ela é mais bem distribuída, tolerada na sua ausência de significação ainda, sem que seja sentida como pressão intensa e insuportável de ser contida. A vida nos ensina que nem sempre podemos tomar pequenas

amostras do mundo externo, prová-lo cm quantidades pequenas; 53 ainda que seja um protótipo para todo o trabalho de pensar, à maneira do recém-nascido que sente a ausência do seio materno e o busca. Cheirar ou aspirar o ambiente são atos de pensar, já que permitem efetivamente que se obtenham amostras ainda menores e mais precisas. E a incorporação só tem vez se o resultado da prova fôr favorável, existindo então uma diferença intelectual muito importante entre aquele que tudo põe para dentro sem distinção, como um estômago de avestruz, e aquele que se interessa

unicamente pelas coisas cujo odor lhe agrada. 54

E se para o eu a percepção cumpre o papel que no isso

corresponde à pulsão,55 segundo o mandamento ético de Freud, o

eu 56 deve ir se constituindo a partir do isso, como um trabalho permanente, tal como a imagem a que se refere de novas terras

conquistadas à água57para cultivo.

O eu se desenvolve desde a percepção das pulsões até seu governo sobre estas, desde a obediência às pulsões até sua

inibição 58 e, como ser fronteiriço, nosso Hermes deve ir se organizando continuamente de modo a buscar pela mediação do objeto, do outro, uma ordenação libidinal às moções dispersas da pulsão que vão se imprimindo no isso. E como a pressão da pulsão é constante, indestrutível, o eu não poderá congelarse numa imagem e nas ordenações que já conseguira aprender: seu dever ético é o de ficar aberto para os movimentos pulsionais, que se fazem num contínuo vir-a-ser, e ir se transformando para incluir possibilidades pulsionais sempre novas e diferentes. Assim, a psicanálise não desprezaria

o eu, que se constitui como um conjunto de certezas e crenças com as quais o indivíduo se cega; por isso, lugar de desconhecimento e alienação. O que ela visa é a mobilidade da libido. Para que os movimentos pulsionais parem de se fixar nas imagens e para que se cubra a distância entre as imagens e os objetos do desejo, é preciso que o outro, o eu do outro reconheça-se um ser pulsional, presente libidinalmente na experiência inter-subjetiva. Já que o outro é pulsional, subsiste em seu domínio um furo, um branco ou uma mancha em sua imagem, onde algo que o signifique por inteiro em seu ser permanece impossível de dizer. Como bem disse uma bem-humorada analista de crianças:

Analista, se existisse, seria como um queijo suíço: quanto mais

esburacado melhor? os furos são a essência. Mas o pouco de

massa ainda "entre-furos" é necessária. E aquela, casquinha,

consistente, que permite que a massa seja massa e furo, furo,

também faz parte.59

Freud colocava a pulsão como força do interior do corpo, como nascente, um vir-a-ser, como a infância: Se conseguimos decompor um sintoma, livrar uma moção pulsional de certa trama, ela não

permanecerá isolada: cm seguida se introduzirá em uma nova. 60 A

força da pulsão, 61 ...um tipo de elasticidade orgânica..., nunca cessa de aspirar à sua satisfação plena, buscando reduzir ao máximo a diferença entre a satisfação achada e a pretendida, e não admitindo apegar-se a nenhuma das situações estabelecidas, fixadas, na verdade sem perspectiva de encerrar a marcha nem de alcançar a

meta. 62

O movimento pulsional encontra resistências no esforço de transformar o impossível em possível, resistências que tanto podem ser da ordem de uma estrutura neurótica particular como podem ser representações, sentidos, saberes que uma cultura determinada oferece. Ou seja, representações, sentidos, saberes que se constituem como resistências, como tentativas de fixar, encerra a marcha pulsional, congelando-a em representações dadas como definitivas, estáveis e duradouras, a serem copiadas e não descobertas e recriadas no vivido por cada sujeito.

Paul Klee nos ensinou que a arte não reproduz o visível, ela torna visível, tal como Freud nos ensinou que a mais profunda função da interpretação não é dizer o que foi, reproduzindo-o, mas fazer que, no espaço analítico, apareçam figuras que não estão visíveis em nenhuma outra existência que não aquela que lhes dá espaço, figuras que, tornando-se visíveis, ganham existência. Hegel

pressentia que teríamos que fabricar a verdade. 63

Esta fabricação nos impõe a tarefa permanente de renunciar aos nossos desejos narcísicos de formarmos uma vida segundo nossos ideais pessoais. Só assim poderemos oferecer suporte a um sujeito diante das provas por vir na vida e em seu corpo, segundo as

predisposições e possibilidades 64 dele e não as nossas. O paciente, o aluno, não é um patrimônio pessoal, com quem iremos nos satisfazer, com a arrogância de suposto criador, após havê-lo

formado à nossa imagem e semelhança. 65 Esta é a abstinência pedida ao psicanalista e, por analogia, ao educador, que não o exime de sofrer os efeitos do impacto de suas pulsões dramaticamente mobilizadas pela inevitável situação transferenciai. Tal como o peso da ciência ou do passado esmaga e esteriliza, a árvore morre sob o ávido peso da trepadeira que a abraça. O discurso parasitário alimenta-se da expressão viva. Como nas cadeias alimentares da microbiologia, o parasita, porém, acaba por se alimentar de si próprio.

Obstinar-se em qualquer saber constituído ou organização que se pretenda fechada é abrigar um sentimento de onipotência, onde o conceito do impossível desaparece para o indivíduo imerso na

massa. 66

O impossível, o não encerrar o movimento pulsional e nem alcançar sua meta, se traduz em garantia de nascimento, de recém-nascidos de um corpo que se afirma fértil, grávido de possíveis, de futuro em aberto.

Trata-se assim, na experiência que a psicanálise pode nos propiciar como a arte, de que aprendamos uma forma específica de demorarmonos no que acontece, aparece, há. Onde, de novo crianças e no corpo, precisamos aprender a reconhecer o alfabeto e a linguagem daquilo que nos diz algo, como se apresenta aí. Isso quer dizer: ela tem seu tempo próprio e quanto mais nos deixarmos entrar na experiência — demorando-nos — tanto mais expressiva, múltipla e rica ela nos parecerá. E um demorar, como o de uma criança investigando as palavras e se surpeendendo ao vê-las escritas, e que se caracteriza notoriamente pelo fato de não tornar-se monótono.

O apuramento de nossa percepção e das tendências criadoras do corpo pulsional aumenta gradualmente. Começamos a identificar o germe da novidade, a nos experienciar permanentemente naquilo que não se sabe se dizer adequadamente, nem (como ensinou Freud) se liga regularmente às representações e que especialmente se manifesta de modo incontrolável. E ainda que a receptividade seja tão individual como um grão de arroz, começamos a identificar o germe da novidade, da apropriação pessoal e da redefinição que um gesto, uma palavra, um som, um ritmo, um afeto, recebem do uso que um sujeito concreto e sua dinâmica de intenções dá.

Esta é uma grande dificuldade, pois trata-se de uma sensibilidade que, em larga medida, perdemos. Exige-se de nós ouvir e sentir os recursos do sentido que atuam por baixo da pele, a estrutura nervosa e óssea por baixo do verso e da frase, por baixo das relações espaciais e cromáticas da tela, ouvir as relações de tom e freqüência que formam a gramática dos nossos ritmos, arco-íris corporal.

Uma escuta, uma sensibilidade para tal, é precisamente o contrário de uma obediência cega, grosseira e ingênua das regras de um fantasma de imortalidade do eu. Representa, por contraste, uma percepção fascinada e informada daquilo que permanentemente muda na anatomia de um estilo, de um modo de ser. As gramáticas do trabalho do corpo pulsional mantêm-se rebeldemente vivas.

Tal como as invenções estéticas, nossas modelagens pulsionais são arcaicas. Trazem consigo o pulsar da nascente longínqua.

...O espaço escuro estendia-se à minha frente. Eu não estava

nesse escuro mas no limiar e, reconheço-o, ele é

pavoroso.Épavoroso porque há nele qualquer coisa que

despreza o homem e que o homem não pode su

portar sem se perder. Mas perder-se, é necessário;eaquele que

se atira para a frente, torna-se o próprio escuro, essa coisa fria

e morta e desprezível cm cujo seio o infinito habita. (...) é

preciso muita paciência

para que, repelido para o fundo do horrível, o pensamento

pouco a pouco se erga e nos reconheça e nos olhe. Um

olharemuito diferente do que se crê, não tem luz, nem

expressão, nem força, nem movimento, é silencioso, mas, do

seio da estranheza, e seu silêncio atravessa os mundos, e

aquele que o ouve torna-se outro...

(Maurice Blanchot, Morte Suspensa)

Pois bem, aqueles que pretendendo mudar algo nos homens e psicanalistas, que desejarem antes de tudo tranqüilidade e segurança, estarão inconformados por terem que retificar seus conhecimentos, a partir da teoria das pulsões e do que ela nos mostra: a reconciliação com o inimigo interno é, para o homem, a tarefa mais difícil de se cumprir. Seria um erro de graves proporções para cada indivíduo e sociedade, concebermos nossa inteligência criadora só em seu aspecto intelectual e como um poder autônomo e descuidarmos sua dependência de nossas histórias pulsionais. Isto seria equivalente a uma busca de satisfação pela via mais curta e, retomando uma formulação freudiana, uma das faces em que a pulsão, que é de morte, é mortífera. Aprender o governo possível a cada um de nós, através da mediação de um outro e de uma rede de significações, onde consigamos o mais possível e nos prejudiquemos o menos, é tarefa difícil, cheia de acidentes no percurso, como o daqueles destemidos navegantes do navio Argos, os argonautas, em busca da conquista do Tosão de Ouro. Em boa parte, as perigosas pulsões de morte seguem seu trabalho interior sem serem obstaculizadas, o que nos faz sublinhar que as pulsões de morte, longe de surgirem do nada, sem nenhum apoio das funções vitais, estão, ao contrário, numa relação ainda mais estreita e ligada ao apoio corporal que as pulsões libidinais. Quanto mais Freud avança na sua reflexão buscando o que obtaculiza o processo analítico, o que se opõe à cura, mais o eu se revela

dilacerado para responder às suas tarefas. Servidor de três amos com exigências contraditórias — isso, supereu e realidade — tem que levar em conta ainda a cegueira que apaga sua parte inconsciente, além do perigo que o espreita por dentro — a pulsão que é de morte, o masoquismo no interior do eu. Torna-se o palco de um conflito de grandes titãs, como nos diz Freud:

No ser vivo (pluricelular), a libido se enfrenta com a pulsão de

destruição ou de morte; esta, que impera dentro dele, quer

desagregá-lo e levar a cada um dos organismos elementares à

condição de estabilidade orgânica (embora tal estabilidade só

possa ser relativa). A tarefa da libido é tornar inócua esta

pulsão destruidora; a desempenha desviando-a em boa parte

— e muito com a ajuda de um sistema particular de órgão, a

musculatura — para fora, dirigindo-a para os objetos do mundo

exterior. Recebe então o nome de pulsão de destruição, pulsão

de domínio, vontade de poder. Um setor desta pulsão é posto

diretamente a serviço da função sexual, onde tem a seu cargo

uma importante operação. E o sadismo propriamente dito.

Outro setor não obedece a este translado para fora, permanece

no interior do organismo e ali é ligado libidinalmente com a

ajuda da coexcitação sexual antes mencionada; neste setor

temos que discernir o masoquismo erógeno, originário.67 No narcisismo primário, a libido quase se confunde com as forças biológicas, mas a pulsão de morte já ocupa o mesmo lugar. A libido pode investir num objeto exterior e transformar-se em desejo sexual e amor, a agressividade e o ódio a seguem como sombras. Finalmente, no narcisismo secundário, a libido investe no próprio eu. Mas a pulsão de morte apropria-se dele, acusa-o, condena-o, tortura-o. Freud confessanos: É assombroso que o ser humano, quanto mais limita sua agressão para fora, tanto mais severo — e portanto agressivo—se toma em seu ideal de eu... Quanto mais um ser humano sujeita sua agressão, tanto mais aumentará a inclinação

de seu ideal a agredir seu eu. 68

O realismo de Freud então nos leva a ter que reconhecer que só poderemos dominar melhor as pulsões agressivas, e todo o ideal iluminista de educar-nos se ocupa disso, pagando o preço de um crescimento dos terríveis sentimentos que alimentam a invencível e inesgotável pulsão de morte. A civilização está finalmente fundada no fortalecimento do sentimento de culpabilidade, o que significa uma grave e perigosa resistência e perigo para os propósitos de

tratar-nos e educar-nos. 69 Quanto mais nos tornamos inocentes, idealistas, isto é, quanto mais nos afastamos de nossas pulsões agressivas, mais elas passam ao serviço do supereu e este melhor se arma para nos torturar. Desse modo, os mais inocentes carregam o peso da maior culpabilidade: a reversão do sadismo para a própria pessoa ocorre, regularmente à raiz da sufocação cultural das pulsões, em virtude da qual a pessoa se abstém de aplicar cm sua

vida boa parte de seus componentes pulsionais destrutivos.70

É no corpo pulsão, que é de morte, que devemos procurar a explicação, em última instância, da contenção inibidora da realização das sínteses de que está incumbido eros. E por isso o eu reage com sentimentos de culpa ante a percepção de que não está à altura das exigências que lhe dirige seu ideal, seu supereu, herdeiro da progressiva separação dos pais e das imagos que restam deles e às quais se somam as influências de professores, autoridades, modelos que nós mesmos conhecemos e heróis socialmente reconhecidos. A última figura desta série que começa com os pais e o obscuro poder do destino, que somente poucos de

nós podemos conceber impessoalmente. 71 O supereu é assim uma espécie de paradoxo ou de impossibilidade, um enigma ou dilema cujas ordens são impossíveis de ser obedecidas por ser herdeiro da rede de relações com os pais, objetos grandiosos naquilo que os antecede e os ultrapassa, e ser também, segundo Freud, a expressão dos mais poderosos impulsos e das vicissitudes libidinais mais importantes do isso, ser hipermoral e então, (...) tão cruel como

unicamente pode sê-lo o isso.72 Numa ironia cruel, o supereu utilizará algo das forças raivosamente amorais do isso para uma campanha em favor do idealismo social e da pureza moral. Lutar contra o isso, reprimir pura e simplesmente a pulsão que é de morte, é tornar-se ainda mais vulnerável à sua destrutividade sob uma roupagem diferente, de forma que o eu é, desde o início, cercado de todos os lados por inimigos mortais, tirando o que pode de suas negociações desiguais com eles. Eis o tipo de fera com que nos defrontamos numa análise. Se o eu padece ou sucumbe sob a agressão do supereu, seu destino corresponde ao dos protistas, nos diz Freud, que perecem pelos produtos catabólicos que eles mesmos têm criado. No sentido econômico, a moral atuante no

supereu nos aparece como um destes produtos catabólicos.73

A postulação freudiana do supereu, seu hipermoralismo, significa que nos gratificamos nessa luta moral e, como nosso desejo se satisfaz através da própria idealização e deserotização, passamos a exigir de nós mesmos seu sacrifício. Ela explica por que uma figura autoritária não é, fundamentalmente, alguém que dita a lei e diz não a nosso desejo, mas alguém que assume o papel idealizado ou deserotizado dessa autoridade, encarnando a lei mais básica de nosso desejo, que sempre nos obriga de antemão a obedecer: o prazer em obedecer que aprendemos com nossos pais é masoquista. A lei do supereu, de quem se pode dizer que salvaguarda o indivíduo mantendo as principais proibições ditadas pela sociedade, não passa de uma modalidade ou diferenciação do isso e, assim, não há mais condição de se contemplar, como o pensamento idealista tradicional faz, uma ordem transcendental de autoridade intocada pelo corpo libidinal. Ao contrário, esse poder eminentemente racional é desmascarado pelos escritos de Freud, como algo de loucamente irracional, cruel, vingativo, fútil, paranóide na sua autoridade, tirânico nas suas demandas, que mantém a fachada de imparcial. Esvaziada de qualquer realismo, essa lei é obtusamente cega ao que o eu possa suportar e ao que está para além de seus frágeis poderes, restando-nos muitas vezes somente o corpo como defesa ou a própria morte. É uma forma de coerção e terrorismo mental que simplesmente nos mostrará o quanto ainda estamos longe de acertar, que nos instruirá sobre o que não fazer, mas não nos dará nenhum apoio pedagógico para alcançar os ideais que ela estabelece para nós. A moral, sua educação iluminista, como nós a conhecemos, não passa de um estado de

autoalienação permanente, um quinta-coluna em nosso interior. 74 Na trama freudiana, tal como ele observa em O mal-estar na civilização, tal educação nos conduz a um estado de permanente infelicidade interior, fazendo-nos cúmplices voluntários da nossa própria miséria. A ilusão e a idealização, longe de poderem ajudar os homens, estariam entre os sintomas dos obstáculos da civilização e da educação iluminista.

O ideal estético tradicional de uma lei benigna, completamente internalizada e apropriada como fundamento da liberdade humana, é uma ilusão, tal pretendida adequação espontânea é driblada por nossas respostas corporais inteiramente ambivalentes. Freud anuncia-nos que podemos dizer adeus à nossa visão idealizada de uma educação, de uma ordem social total que tenha incorporado inteiramente os seus membros, identificando seus desejos completamente com as suas regras. Um tal prospecto recorda apenas nosso amor masoquista pela lei, mas não nosso ardente ódio por ela. Isso nos possibilita dizer que o espetacular desenvolvimento que se verifica na ciência, nos conceitos e paradigmas inovadores, assim como na técnica e no conhecimento da natureza, não se verifica do mesmo modo na regulação dos assuntos humanos.

Hoje não basta mais nos prepararmos com serenidade para a eventualidade da morte, pois a ciência do século XX não mais apenas conforma objetos, mas sobretudo desenvolve objetos que não são encontrados na natureza e tende a modificar o corpo humano. Os possíveis da biomedicina, da tecnociência, dão o poder de repensar a construção do corpo humano, na estrutura biológica, de modo a que Pigmaleão e Galactéia se tornem reais onde a ingenuidade do pragmatismo transforma-se em cinismo totalitário.

As pulsões libidinais designam uma geografia dos prazeres erógenos do corpo. As pulsões de morte têm uma missão corporal diferente: uma função de individualização. Elas agem sem alarde, invisível e incessantemente. Quando aparecem desprovidas de suas mesclas com a libido, nosso eros, elas se revelam initerruptamente ocupadas com o percurso de outras geografias do corpo, aquelas geografias dos limiares e dos graus de tolerância ao esforço, de sua provação por todos os tipos de excessos (excesso de privação, excesso de consumo).

A pulsão que é de morte trabalha em silêncio, diz Freud. Ela é o que não quer ser escrito e falado, e o clamor de eros encobre o barulho ensurdecido de sua ação deletéria. Um silêncio às vezes interrompido por algum alerta, que porta sua marca.

São as pulsões de morte os territórios dos fantasmas do corpo e seus limites biológicos, intransponíveis. É por esta razão que o registro da necessidade e o que ele impõe como trabalho ao psiquismo pertence à esfera das pulsões de morte. A pulsão de morte é o apelo de uma realidade biológica e a biologia ensinou a Freud que a vida não tem objetivo nem significação. Ele usa, para demonstrá-lo, um argumento sem réplica: Vejam os animais!

A partir das Novas conferências a conceituação do isso é melhor delineada, é a parte obscura, inacessível de nossa personalidade, tem caráter negativo e só pode ser descrito em contraste com o eu. Nos aproximando ao isso por comparações, o chamamos um caos, uma caldeira cheia de agitação fervilhante. Está, num de seus extremos, aberto às influências somáticas e contém dentro de si

moções pulsionais que nele encontram expressão psíquica.75 Está povoado de energias que lhe chegam das pulsões e nada nele nos faz pensar em algo como uma vontade coletiva. Sua finalidade é uma só: satisfazer as moções pulsionais, que estão submetidas irrestritamente ao princípio de prazer. As leis lógicas não funcionam no seu domínio nem nele está presente a idéia de tempo: impulsos plenos de desejos, que jamais passaram até do isso, e também impressões que foram nele mergulhadas pelo recalque, são virtualmente imortais e se comportam como se fossem

acontecimentos novos. 76 Não conhece julgamento de valores, está além do bem e do mal e nele predomina sobretudo o fator econômico, quantitativo.

Na verdade, o que Freud afirma é que a base do aparelho psíquico está em conexão direta com as forças somáticas, é aberta num de seus extremos ao corpo, exigindo uma transformação que Freud chama de psíquica, não sabendo contudo dizer em que substrato. Assim, entre o psíquico e o somático a fronteira fica menos delineada, o que nos permite dizer que há um momento onde o psíquico se enraíza no biológico.

Assim, para além do realismo de Freud e sua crítica da ilusão e idealização, que encobrem nosso resto terrestre e animal, há algo mais que a pulsão que é de morte introduz: ela é a exigência que o novo introduz à vida psíquica, o gasto psíquico que ele exige, a

insegurança que implica.77 E se estamos corretos, esta função de individualização e de singularidade da pulsão de morte é vital para nos mantermos vivos. Pressupondo a ruína de toda relação fixa a objetos, a saberes, configurações da cultura, pressupõe também a saída do nosso primeiro Egito, o complexo parental e seus herdeiros, seus corpos, seus ideais de imortalidade narcísica ainda que pareça nesta cultura muito difícil nos livrarmos dele; ainda que para realizar esta saída, isto se faça ao preço da função vital de autoconservação pender em direção a efeitos mortíferos, contrários à sua intenção.

Uma das idéias-chave da série de figurações possíveis da pulsão de morte (como por exemplo nossas sensibilidades couraçadas e metálicas) é a de só poder estabelecer um laço duradouro sob o signo de uma ruptura iminente. E preciso, pois, criar uma situação em que não se exija do sujeito o abandono dessa idéia enquanto esta lhe fôr necessária. Se o privarmos desta idéia recorrente só lhe restará pô-la em prática e desaparecer.

O corpo não é apenas um fantasma. Possui limites próprios, intransponíveis, que se furtam à dominação mental de um outro, dominação potencialmente mortífera. Muitos de nós não precisamos verificar isto na repetição, mas outros devem sempre percorrer novamente o traçado de seu corpo para verificarem que estão vivos por sua própria vontade, e não pela de um outro arbitrário. A dimensão psíquica de sobrevivência, a urgência na demonstração de que se está vivo, através do ato de expô-lo à morte, tomou o lugar na dimensão do respeito pela realidade biológica. Esta

urgência constitui o que Zaltman chamou de a experiência-limite. 78

Esta originalidade das formas de trabalho psíquico da pulsão de morte é o que leva a representação onipotente e narcísica primária à morte, o que arruina a fixidez de qualquer relação com um poder mortífero, o que destrói a tentação da identidade única e estável e o que, enfim, possibilita a travessia da experiência-limite da dispersão e indiferenciação do caos pulsional e a criação, a partir dele, de um novo.

Poder resistir à morte é antes de mais nada reconhecer sua presença, suas marcas silenciosas e renunciar aos subterfúgios. Esta forma de lucidez é o traço comum a toda a experiência-limite. A autoconservação depende da rapidez pela qual um ser humano, submetido ao risco da destruição, é capaz de captar que esta

destruição obedece a leis próprias, que somente a ela pertencem. 79

Porque psicanálise significa desintegração e decomposição. Como diz Freud numa analogia com o trabalho do químico, isolamos na análise a composição dos elementos pulsionais, substância básica como o sal, que se tornou irreconhecível pela combinação com

outros elementos.80 E no que diz respeito às novas composições, o analista nada tem a dizer: seu ofício é a análise e não a síntese. Nesse sentido, a pulsão de morte, sua ação pulsional é sinal de vida, de fertilidade, de gravidez de conseqüências. Isto seria devolver à pulsão de morte suas formas de vida psíquica, deixando de reduzi-las a um negativo das pulsões libidinais, sexuais e narcísicas, possibilitando a abertura de novas configurações para os impasses terapêuticos.

A pretensão de viver sem coabitar com o corpo pulsão que é de morte emerge assim como uma arrogante desmesura. Os gregos antigos designavam como hybris a pretensão de elevar-se por sobre todas as medidas humanas, como o duplo imortal do eu-corpo narcísico. Um desejo de viver sem nunca ter que reconhecer as presenças reais do Anjo da Morte delega nossas existências aos aparelhos de poder no interior de nós mesmos e nos conduz à violência pulsional desmedida, para além do que o corpo que é de morte pode suportar. Ainda que reconheçamos que há em nosso corpo um processo permanente de morte e de nascimento celular, continuamos a crer que a morte está sempre excluída de nossa existência.

Quem sou eu-corpo então?

Para Freud, o eu é essencialmente pré-consciente (consciente

virtualmente), porém setores do eu são inconscientes. 81 Sou então, na realidade, todos aqueles que sou dentro e através dos relacionamentos sucessivos ou justapostos nos quais me vejo embarcado. Com isso, o discurso freudiano representa o sujeito como fundamentalmente dividido, rompendo assim com a concepção clássica, na qual este era figurado como uma totalidade una e indivisível. O sujeito da psicanálise não consiste numa ordem de um eu estabelecido, que o representa. Ele não pode conter nenhuma certeza enquanto corpo organizado, material ou psíquico, na sua relação com o mundo. Aí se instala o desejo de algo definitivo, derradeiro, fechado.

Então o eu é um corpo mesclado: constelado, manchado, zebrado, tigrado, ocelado, mourisco, ao qual a vida vai se ajustar (...) Eis que

volta o casaco de Arlequim. 82 Essa diversidade fundamental remete em última instância à multiplicidade pulsional, que o constitui como sujeito. Cada composição será local e temporal, portanto provisória, e não uma verdade definitiva e inquestionável, pois que poderá ser desfeita sob a pressão de novas verdades. E isto seria acompanhar a vontade de metamorfose da pulsão que é de morte, das formas mudadas em novos corpos, como queria Ovídio, que convoca-nos a pensar em uma morada sem lugar, na verdade do exílio e na ruína de toda relação fixa: marca fecunda da pulsão que é de morte no destino humano. Não há arranjo social algum capaz de eliminar a realidade do inconsciente e da pulsão.

Nosso corpo pulsional sempre deseja o novo, o diferente, o movimento e nosso eu é obrigado a reestruturar-se diante de novas exigências que lhe são colocadas pela pulsão, numa permanente educação para o real do corpo-pulsão que é de morte. Isto significa: abandona tudo o que dá segurança, como um código racional de interpretações, uma técnica codificada que oriente os seus procedimentos, teorias redondas e sem lacunas, modelos ideais de acabamento, moralismos pedagógicos e arrisque-se ao máximo, de modo a chegar a reconhecer e nomear seus impulsos pulsionais, suas paixões no que faz e em como e o que aprende do que vive e experiência ao lidar com a diferença e o inesperado.

Atordoamo-nos com teorias redondas e sem lacunas, omitindo suas imperfeições, falhas, com ideais altamente exigentes que nos obrigam a recorrer aos limites do corpo, como forma de resistir a uma coerção mental potencialmente mortífera de um Outro. Em tal atordoar, as categorias são definidas antes de serem vividas e os juízos são precipitados sobre o que nos acontece, indicando que a atmosfera que vivemos nesta cultura está saturada, o que nos revela sua paixão—a do saber/poder que leva a razão à paixão pelo conhecimento, ao abuso da razão e ao recalque do desejo, do corpo pulsão que é de morte. Nesta paixão pelo conhecimento e em sua cegueira, os discursos da consciência e do eu se baseiam na relação de causa e efeito entre os acontecimentos que se inserem numa cronologia e se regulam pelos princípios da lógica formal, revelando, portanto, o que Freud denominou processo secundário, opondo-se ao processo primário, que regularia o fundamental da

realidade psíquica.83

O pensamento freudiano pretende transcender os registros da consciência e do eu, inserindo o sentido das expriências vividas e o que nelas se aprendeu num mais além que seriam as trajetórias pulsionais diversificadas. Estas desenham percursos históricos possíveis do sujeito, onde a consciência e o eu são instâncias psíquicas que representam as certezas da realizada material na ordem subjetiva e a totalidade do sujeito ao relacionar-se às exigências da realidade material.

Quando Freud denominou o novo território que mapeava de metapsicologia, assinalava com isso uma forma de saber que pretendia ir além da psicologia, que se centrava na consciência e no eu. Indicava também o que seria o fundamento da realidade psíquica, isto é, inicialmente o inconsciente e, posteriormente, o isso, e neste o que nele impera, a pulsão que é de morte, um caldeirão fervilhante de possíveis em aberto. Nessa perspectiva, as fendas do eu, suas rachaduras, nos permitem apreender a realidade psíquica nas pulsões, que transcendem a consciência e o eu. Uma versão pulsional que insiste por baixo ou através das vacilações e das hesitações da nossa história oficial: o eu.

Insistência pulsional que obriga a história oficial do eu a se modificar para incluir as emergências desse sujeito na busca de sentido e que nunca se fecha, se completa. E porque ela não se dá como acabada, o sentido insiste e prolifera pela sua impossibilidade de se completar, pela sua indestrutibilidade inconsciente, ainda que a inércia não nos deixe pensar fora do já visto e já sabido.

Assim, o eu é engrossado às expensas desse inconsciente; por obra desse ensino (...) e seu horror ante as exigências da libido se reduz

pela possibilidade dc neutralizar uma parte dela.84 O eu educado no inconsciente. Se a história oficial do eu persiste e não se modifica para incluir as emergências do sujeito, o eu se põe na defensiva, denega às pulsões a satisfação desejada e as constrange aos rodeios de uma satisfação, rodeios que se dão a conhecer como

sintomas neuróticos. 85

A intervenção do analista nos impulsiona a ousar ir até os limites do saber dado sobre o que quer que seja que nos ocorra de diabólico ou celestial, para descobrir suas causas determinantes e assim dominá-lo subjetivamente, arriscando a vida, o estabelecido, o convencionado, o dado como possível e que se pretende único e soberano. É a esse poder de interferência subjetiva que visa o ato psicanalítico. Nada mais radicalmente diverso do que circularmos dentro dos limites do saber dado, limites substitutivos das mentes e dos corpos dos pais dos começos, obedecendo servilmente, ao que lá e cá está escrito. O neurótico é escravo do seu saber, não se reconhece neste outro psíquico corpo-pulsão que é ele próprio, repete-o compulsivamente sem poder interferir nesta repetição ou isolar seus elementos pulsionais para liberá-los, para novas composições, sem poder interferir para dar-lhe novos sentidos, viver a experiência da primavera e da infância.

Isso evidencia de maneira radical a função decisiva do analista e, por analogia, do educador, a partir da teoria das pulsões, que não é mais a função de interpretação de um texto dado como existente, pois a chegada a estes limites e a ultrapassagem das provas além é o que é visado pelo processo de cura. Por isso liberdade em psicanálise quer dizer aumento de possibilidades para o sujeito se expressar e aprender com a experiência de ter um corpo pulsão de morte, convivendo com o já sabido, o estabelecido, o conhecido, vivendo como um andarilho, um errante, cuja morada não tem lugar definitivo. O ético em psicanálise é a relação de um vir-a-ser da singularidade com a cultura, da verdade com o saber, da pulsão com o inconsciente, do corpo irredutível a qualquer realidade que pretenda fixá-lo.

Freud recorda-nos que o recalque fracassado, que não consegue impedir que nasçam sensações de desprazer e angústia, é o que nos interessa, ainda que haja alcançado sua meta no outro

componente, o da representação. 86 O recalque bem-sucedido quase sempre se subtrairá ao nosso estudo e muitas vezes, mas do que gostaríamos de crer, se realiza enquanto ambiente mental individual, político-social, com uma pessoa ou uma comunidade, numa relação de forças em que a vida de cada um, anulada em sua alteridade única, torna-se puro refém de uma potência arbitrária. E numa relação de forças sem saída, só uma resistência nascida das próprias fontes pulsionais de morte pode afrontar a ameaça de

perigo mortal.87

O fracasso do recalque é o ruído de vida pulsional, pedido endereçado a alguém de passagem à luz simbólica do dia, buscando transposição, outras composições possíveis. O corpo pulsão, assim como a língua, como a terra, se vinga quando não é trabalhado, cultivado. Reserva de frescor matinal de primavera e de infância, ele nos reserva o inesperado e não reage como previsto, tolerando mal o enclausuramento numa configuração dada como definitiva, num jargão estéril de coisas mortas, porque não se querem mortais. É este eu-corpo e suas fronteiras permanentemente em mudança como corpo representado, corpo erógeno, corpo narcísico, corpo pulsão que é de morte que

encontra-se na confluência de rios semânticos inumeráveis.88 Pois se todas as verdades são mortais, viajam como os rios e como os saberes, cabe à psicanálise atestar a instabilidade, a impulsividade e o caráter falacioso da coincidência consigo no pensamento desincorpado, escondendo sua falta, seu em aberto pulsional, seu vir-a-ser por trás de um logocentrismo. Logocentrismo mortífero, porque não se crê mortal, se pretende fixo, estável, definitivo; nos torna covardes perante uma dor necessária desde nossos começos, uma coragem da errância para pagar para ver a novidade, o mundo, terra estrangeira de fora e de dentro. Ver o circo que chegou de nossas infâncias, os visitantes diurnos e noturnos que entram pelas janelas abertas do corpo e da imaginação da criança, ainda que não se saiba nunca de antemão quem vai entrar, quem vai chegar.

Em 1937, o ensaio de Freud Análise Terminável e Interminável tenta enfrentar o dilema das conseqüências que representam para o ser humano, para qualquer propósito de educá-lo, ignorar sua sexualidade, o corpo que tem e a fragilidade dos vínculos do sujeito com a realidade exterior.

Aqui, diz Freud, 89 o rigoroso resguardo das crianças é impotente

frente à 90 força constitucional das pulsões. E toda educação iluminista de esclarecimento das crianças só nos emocionará naquelas passagens em que nos sintamos tocados, por afetarem conflitos em ação em nosso interior, naquele momento. Tudo o mais nos deixará frios e indiferentes; nos assemelhando ...aos primitivos aos quais se impôs o cristianismo e que seguiram venerando em

segredo a seus velhos ídolos.91

Ao reconhecer que os sintomas e manifestações neuróticas podem ressurgir muito depois de concluído o tratamento, Freud concede especial atenção ao que está para além de qualquer possibilidade de controle — a pulsão de morte que é a causa suprema do conflito psíquico, expressando seu ceticismo quanto ao descompasso entre um saber demasiadamente grande do analista e as dificuldades técnicas, daí advindas, tal como formulou Ferenczi, seu interlocutor

privilegiado neste texto fundamental. 92

Se antes acreditava que a terapia psicanalítica que suprime o recalque teria eficácia para toda a vida do paciente, agora, nos últimos anos, esse já não era mais o objetivo terapêutico. Agora são igualmente decisivos para a cura psicanalítica as condições de receptividade do eu coerente do analisando para incluir o eu recalcado e o pulsional puro e que os analistas alcancem neles mesmos, por terem aprendido de seus próprios erros e experiências vividas, a medida de normalidade psíquica com a qual pretendem

transformações em seus analisandos.93

A psicanálise é incompatível com a solução unitária e que pretende durar para sempre. Ela segue a técnica de fazer-nos dizer a solução

de nossos próprios enigmas.94 No próprio problema encontramos sua solução, tornando-o um campo de aprendizagens.

Assim sendo, o corpo pulsional é quem introduz, a cada vez, a cada situação e sempre, nova energia na organização estabelecida da vida, do convencionado, do explicado, e a obriga a não se fixar, se fechar como definitiva. A pulsão é de morte porque vem interferir na organização estabelecida da vida. Se a vida é lugar, na medida em que é ordem que funciona como instinto que resiste à morte, pode-se dizer que a pulsão é tempo que tende à morte, pois a vida resiste às diferenças que a pulsão impõe e à pressão do tempo que a

corrói.95 Se a pulsão é de morte, implica num aprendizado essencialmente variável, contingencial e irredutível a matrizes invariantes ou leis permanentes e universais. Diante dela e de sua ética centrada no desejo do sujeito e na pulsão real que o sustenta, a razão humana não deve capitular mas, ao contrário, multiplicar seus esforços, impondo-se a si própria a flexibilidade e o desassossego característico da pulsão, que é de morte.

Como nos diz Freud, se são muitos os caminhos que podem levar à felicidade tal como é acessível ao homem, não há nenhum que o

guie com segurança até ela.96 E ainda que fossem realizáveis mudanças que permitissem inventar um novo sistema de conviver com os outros, a começar do nosso outro psíquico onde o recalcado é para o eu terra estrangeira, uma terra estrangeira interior, assim

como a realidade (...) é terra estrangeira exterior,97 algo é certo, seja qual fôr a direção socialmente tomada — não parece possível impulsionar os seres humanos, mediante algum tipo de estímulo, a transmutar sua natureza na de um térmita; defenderá sempre sua

demanda de liberdade individual contra a vontade da massa.98 A luta entre eros e as pulsões de morte organiza as relações entre o indivíduo e a sociedade. Às vezes, a vitória de eros se volta para a autoconservação da civilização; às vezes, a pulsão de morte trabalha em prol do mais individual levante libertário contra as formas sociais. O corpo-pulsão que é de morte trabalha contra as formas de vida estabelecidas e contribui para renová-las, sempre.

Notas

1. FREUD, S., El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 27.

2. ______. Pulsiones y destinos de pulsion, ed. cit. Vol. SIV, p. 117.

3. ______. Lo inconsciente, ed. cit., Vol. XIV, p. 173.

4. ______. El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 25.

5. GREEN, Α., 1988. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta, p. 177.

6. FREUD, S., Lo ominoso. ed. cit., Vol. XVII, p. 235.

7. ______. Análises de la fobia de um niño de cinco anos. ed. cit., Vol. X, p. 99.

8. ______. El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIV, p. 47.

9. Ibidem, p. 32.

10. Ibidem, p. 46.

11. FREUD, S., Análisis terminable e interminable, ed. cit., Vol. XXIII, p. 239.

12. ______. Sobre la dinámica dc la transferencia, ed. cit., Vol. XII, p. 102.

13. ______. Lo ominoso. ed. cit., Vol. XVII. p. 238.

14. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 23.

15. ______., Lo inconciente. ed. cit., Vol. XIV, p. 170.

16. ______. El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 19.

17. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 29.

18. ______. La represión. ed. cit., XIV, p. 141.

19. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 29-30.

20. Ibidem, p. 30.

21. FREUD, S., Inhibition, sintoma y angustia, ed. cit. Vol. XX, p. 159-160.

22. ______. Mas allá del principio dc placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 28.

23. ______. El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 46.

24. PONTALIS, J. B., 1977. Entre le rêve et la douleur. Paris: Gallimard.

25. FREUD, S., Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit.. Vol. VII, p. 183.

26. BLANK, Ν., 1985. Ο raciocínio clínico e os equipamentos médicos. IMS/UERJ, Rio de Janeiro: (Dissertação de mestrado) — p. 11.

27. CLAVREUL, J., 1983. A ordem médica (Poder e Impotência do discurso médico). São Paulo: Brasiliense.

28. REVEL, J. e PETER, J. E 1976.0 corpo (O homem doente e sua história). In: História: novos objetos, Rio de Janeiro: Francisco Alves, p. 146.

29. Ibidem, p. 152.

30. Ibidem, p. 152-153.

31. ROSOLATO, G., 1988. Elementos da interpretação. São Paulo: Escuta, p. 229.

32. FREUD, S., Introducción del narcisismo. ed. cit., Vol. XIV, p. 79.

33. Ibidem, p. 71.

34. BIRMAN, J., 1994. Psicanálise, Ciência e Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 123.

35. FREUD, S., Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 35.

36. ______. Lo inconciente. ed. cit., Vol. XIV, p. 161.

37. GREEN, Α., 1988. Op. cit., p: 181-182.

38. SCHNEIDER, M., 1994. Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud. São Paulo: Escuta,p. 26-27.

39. Ibidem, p. 49.

40. FREUD, S., Inhibition, sintonia y angustia, ed. cit., Vol. XX, p. 127.

41. Ibidem, p. 123.

42. FREUD, S., Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 36.

43. ______. Psicologia de las massas y análisis del yo. ed. cit., Vol. XVIII, p. 85.

44. ______. El yo el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 25.'

45. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 9.

46. ______. Inhibition, sintoma y angustia, ed. cit., Vol. XX, p. 88.

47. BIRMAN, J., 1991. Freudea interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p. 237.

48. FREUD, S., Inhibition, sintoma y angustia, ed. cit., Vol. XX, p. 91-93.

49. ______. Tipos libidinais. ed. cit., Vol. XXI, p. 221-222.

50. ______. Inhibition, sintoma y angustia, ed. cit., Vol. XX, p. 138.

51. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 19.

52. ______. Pueden los legos ejercer el análisis? ed. cit., Vol. XX, p. 188.

53. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 27.

54. FERENCZI, S., "O problema da afirmação do desprazer". In: Escritos Psicanalíticos (1909-1933). Rio de Janeiro: Timbre/Taurus, s.d. p. 284.

55. FREUD, S., El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 27.

56. ______. Nuevas conferencias de introducción al psicanálisis. ed. cit., Vol. XXII, p. 74.

57. Ibidem, p. 74.

58. FREUD, S., El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX. p. 56.

59. MOTTA, S., 1993. A direção de cura com crianças — E os pais? In: Jacques Lacan, a psicanálise e suas conexões. Rio de Janeiro: Imago, p. 155.

60. FREUD, S., Nuevos caminos de la terapia psicanalítica. ed. cit., Vol. XVII, p. 157.

61. ______. Mas allá del principio de placer, ed. cit., Vol. XVIII, p. 36.

62. Ibidem, p. 42.

63. VIDERMAN, S., 1990. A construção do espaço analítico. São Paulo: Escuta, p. 320-321.

64. FREUD, S., Introducción a Oskar Pfister. ed. cit., Vol. XII, p. 351.

65. ______. Nuevos caminos de la terapia psicanalítica. ed. cit., Vol. XVII, p. 160.

66. ______. Psicologia de las masas y análisis del yo. ed. cit., Vol. XVIII, p. 74.

67. ______. El problema económico del masoquismo. ed. cit., Vol. XIX, p. 169.

68. ______. El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 55.

69. ______. El problema económico del masoquismo. ed. cit., Vol. XIX, p. 171.

70. Ibidem, p. 175.

71. Ibidem, p. 173-174.

72. FREUD, S., El yo y el ello. ed. cit., Vol. XIX, p. 54-55.

73. Ibidem, p. 57.

74. EAGLETON, T., 1993. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 199.

75. FREUD, S., Nuevas conferencias de introducción al psicoanálisis. ed. cit., Vol. XXII, p. 68.

76. Ibidem, p. 69.

77. FREUD, S., Las resistenciascontra el psicanálisis. ed. cit., Vol. XIX, p. 227.

78. ZALTMAN, N. 1994. A pulsão anarquista. São Paulo: Escuta, p. 51.

79. Ibidem, p. 87.

80. FREUD, S., Nuevos caminos de la terapia psicoanalitíca. ed. cit., Vol. XVII, p. 156.

81. ______. Moisés y la religion monoteísta. ed. cit., Vol. XXIII, p. 92.

82. SERRES, Μ. 1993. Filosofia mestiça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 167.

83. FREUD, S., Lo inconciente. ed. cit., Vol. XIV, p. 183.

84. ______. Conferencias de introducciónal psicoanálisis (Parte III), ed. cit. Vol. XVI, p. 414.

85. ______. Una dificultad del psicoanálisis. ed. cit., Vol. XVII, p. 130.

86. ______. La represión. ed. cit., Vol. XIV, p. 148.

87. LEVI, Ρ, 1990. Os afogados e os sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 32.

88. LÉVINAS, E., 1993. Humanismo do outro homem. Rio de Janeiro: Vozes, p. 25.

89. FREUD, S., Conferenciasde introducción al psicoanálisis (Parte III). Ed. cit., Vol. XVI, p. 323.

90. ______. Análisis terminable e interminable, ed. cit., Vol. XXIII, p. 227.

91. Ibidem, p. 236.

92. FERENCZI, S., Perspectivas da psicanálise (Sobre a interdependência da teoria e da prática). In: Escritos Psicanalíticos (1909-1933)) Rio de Janeiro, Timbre/Taurus, s.d., p. 221.

93. FREUD, S., Análisis terminable e interminable, ed. cit., Vol. XXIII, p. 249.

94. ______. Conferencias de introducción al psicoanálisis (Partes I e II) ed. cit., Vol. XV, p. 92.

95. WINE, Ν., 1992. Pulsão e inconsciente (A sublimação e o advento do sujeito). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 154.

96. FREUD, S., El malestar en la cultura, ed. cit.. Vol. XXI, p. 84.

97. ______. Nuevas conferências de introducción al psicoanálisis. ed. cit., Vol. XXII, p. 53.

98. ______. El malestar en la cultura, ed. cit., Vol. XXI, p. 95.