Necessidades formativas de professores de redes municipais
1 A escola hoje e os desafios docentes: o professor crítico-reflexivo
1 A escola hoje e os desafios
docentes: o professor crítico-reflexivo
Para situar a questão do papel do professor hoje, é necessário inicialmente enfatizar o fato de que a expansão quantitativa de vagas e de alunos matriculados representou realmente uma conquista importante para a maioria da população brasileira.
De fato, só é possível compreender a qualidade da educação na perspectiva popular e democrática, a partir da problematização da histórica exclusão escolar dos setores populares, de sua luta pelo acesso à escola e do momento atual em que o debate sobre a qualidade da educação para os setores populares ganha destaque como uma nova etapa dessa luta. Apenas como exemplo da citada exclusão, o Censo de 1920, segundo Paiva (1987), registra 1.030.752 alunos matriculados, com frequência efetiva de 678.684 discentes, para um total de quase 30 milhões de habitantes no País, o que significava, à época, menos de 15% da população em idade escolar.
De 1991 a 1998, a taxa de escolarização líquida da população de 7 a 14 anos saltou de 86% para 95,3% (Vieira, Farias, 2007). Ainda conforme dados coletados pela Pesquisa Nacional por Amostras de
Domicílios (PNAD),1 realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa taxa evoluiu de 95,7%, em 1999, para 97,6%, em 2006, o que mostra um crescimento de 1,9% no período em questão.
O crescimento do número de matrículas de alunos em todos os níveis e a expansão do acesso educacional a um maior número de cidadãos se inserem, segundo Beisiegel (2006), no processo de democratização de ensino. Afirma o autor que é necessário não emitir uma crítica, seja "radical", seja conservadora, de que, atualmente, a escola perdeu a qualidade, deteriorou-se, como se aquela do passado, seletiva e propedêutica, é que fosse boa, de qualidade. Para ele, não se pode falar de perda da qualidade quando a escolarização se estendeu aos setores mais amplos da população. A escola mudou radicalmente, porque mudou a população que a frequenta, tornou-se local de encontro de todos os setores da sociedade e campo de repercussão de todas as tensões que conturbam a vida coletiva moderna.
Cabe assim descartar, na discussão sobre a qualidade necessária para a escola pública de hoje, qualquer saudosismo da "boa" escola pública do passado. É preciso reiterar que a presença das classes populares na escola é um enorme avanço do ponto de vista de uma democratização efetiva de nosso país e que os dilemas que se colocam para os educadores frente a essa nova situação não podem ser resolvidos pela retomada de formas de organização escolar e trabalho pedagógico de uma pretensa escola pública de qualidade do passado. Os grandes desafios atuais decorrem da necessária e desejável abertura da escola a setores mais amplos da população.
Sabe-se que os novos desafios que a escola é chamada a responder têm sua origem em vários fatores, entre os quais se incluem o fato, historicamente inédito, de quase todas as crianças em idade escolar terem acesso ao ensino fundamental, ou ao menos aos anos iniciais dele e, também, o fato de que à escola cabe desempenhar um papel mais amplo do que aquele que lhe foi atribuído até hoje na história, sendo-lhe direcionada uma série de novas funções. Perrenoud (1999) aponta algumas dessas novas atribuições, dizendo que mais que oferecer a escolarização formal, também cabe à instituição escolar respeitar as idiossincrasias de seus atores, despertar a curiosidade, desenvolver a autonomia e estimular o rigor intelectual.
O relatório da Unesco, Educação: um tesouro a descobrir (Delors, 1999) também afirma que a educação necessária, hoje, deve se apoiar em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser.
Assim, a escola é levada a repensar-se, e ocorre um intenso processo de reformas educacionais que procuram dar conta dos novos desafios, buscando, dessa forma, conferir qualidade à escola pública.
O tema "qualidade da educação" tem ocupado espaço no debate público no Brasil, não apenas entre educadores, mas na sociedade em geral, envolvendo políticos, jornalistas, empresários e representantes de movimentos sociais. Sem dúvida, essa preocupação brasileira se insere num movimento internacional em torno da qualidade da educação.
No entanto, esse movimento está marcado por ambiguidades, cuja razão se deve ao fato de não apenas o tema da qualidade, mas o debate educacional como um todo estar marcado por duas posições antagônicas, como assinala agudamente Singer (1999, p.5):
Vamos chamar a primeira posição de civil democrática, porque
ela encara a educação em geral e a escolar em particular como
processo de formação cidadã, tendo em vista o exercício de
direitos e obrigações típicos da democracia. [...]
O que se contrapõe a essa visão é a que denominarei
produtivista. Esta concebe a educação sobretudo escolar como
preparação dos indivíduos para o ingresso, da melhor forma
possível, na divisão social do trabalho. [...] Educar seria
primordialmente isto: instruir e desenvolver faculdades que
habilitem o educando a integrar o mercado de trabalho de modo
mais vantajoso possível.
Dessa forma, é necessário mudar, porque os desafios são novos. Mas para os que se colocam numa perspectiva popular e democrática, não é qualquer mudança, qualquer reforma que interessa, mas aquelas que se inserem na perspectiva civil-democrática. Nesse mesmo quadro, insere-se o papel do professor, que deve ser redefinido.
Almeida (1999) afirma que os professores constituem elementos responsáveis pelo sucesso ou fracasso de uma reforma educativa e mostra que eles assumem papel importante no alcance das mudanças, porque são os que decidem se querem mudar ou não.
Uma enorme literatura tem demonstrado que o ensino só pode responder aos desafios atuais se o professor for efetivamente um profissional crítico-reflexivo (Alarcão, 2001; Contreras, 2002; Pérez Gómez, 1995; Pimenta; Ghedin 2002; Zeichner, 1992), superando o modelo da racionalidade técnica segundo o qual a função docente é reduzida à atuação meramente técnica, mecânica e burocrática, em que investigação e prática são concebidas de maneira dicotômica. Enfim, "a idéia básica do modelo de racionalidade técnica é que a prática profissional consiste na solução instrumental de problemas mediante a aplicação de um conhecimento teórico e técnico, previamente disponível, que procede da pesquisa científica" (Contreras, 2002, p.90).
Ainda conforme Contreras (idem), três são as características por meio das quais a ideia de ciência aplicada afeta o desempenho do professor:
1. A relação entre a prática e o conhecimento é hierárquica: as
habilidades práticas, no ponto mais baixo desta hierarquia, são
necessárias para a realização de técnicas que derivam da
ciência aplicada que, por sua vez, se fundamenta na ciência
básica, situada no ponto hierarquicamente mais alto.
2. O tipo de conhecimento valorizado é o que Habermas chama
de empírico-analítico, próprio das ciências físico-naturais, e cujo
interesse constitutivo é técnico, ou seja, a ação sobre objetos
para obter deles os resultados desejados. Contreras ressalta
que o problema está em estender o uso deste conhecimento
para além da ação sobre a natureza, alcançando também o da
ação humana.
3. A elaboração desse conhecimento técnico é possível na
medida em que se considera que os fins pretendidos são fixos e Schön (1983) valoriza a experiência, que gera o "conhecimento na ação", e a reflexão na ação, propondo uma "epistemologia da prática", a qual se baseia na ideia de que o professor (ou qualquer outro profissional) reflexivo é o que não depende de teorias e/ou técnicas preestabelecidas, mas o que cria uma nova maneira de compreender o problema e que lhe permita dar conta de suas especificidades. Assim, os práticos demonstram sua "arte profissional", ao serem capazes, de forma aparentemente simples, de manipular um grande número de dados e informações, selecionando o que é relevante para encontrar os melhores caminhos para lidar com cada situação; isto adquire mesmo o caráter de uma nova forma de conhecer, configurando-se uma mudança epistemológica, daí a denominação "epistemologia da prática".ter de uma nova forma de conhecer, configurando-se como uma mudança epistemolermita dar conta de suas especificidades.
bem definidos.
O autor reitera a insuficiência do modelo de racionalidade técnica para uma prática adequada aos desafios postos à prática docente:
O que o modelo de racionalidade técnica como concepção da
atuação profissional revela é sua incapacidade para resolver e
tratar tudo o que é imprevisível, tudo o que não pode ser
interpretado como um processo de decisão e atuação regulado
segundo um sistema de raciocínio, a partir de um conjunto de
premissas. A rigidez com que se entende a razão da
perspectiva positivista é o que provoca essa incapacidade para
atender todo o processo de atuação que não se proponha à
aplicação de regras definidas para alcançar os resultados já
previstos. Por isso, deixa fora de toda consideração aqueles
aspectos da prática que têm a ver com o imprevisto, a
incerteza, os dilemas e as situações de conflito. Ou seja, com
todas aquelas situações das quais as regras técnicas e os
cálculos não são capazes de dar conta e para as quais se
requerem outras capacidades humanas que têm de ser
entendidas e não desprezadas. (Contreras, 2002, p.105)
Portanto, é necessário resgatar a base reflexiva da atuação profissional com o objetivo de entender a forma como realmente se abordam as situações problemáticas da prática. Assim, o professor terá mais condições de compreender o contexto social no qual ocorre o processo de ensino/aprendizagem, permeado por diferentes interesses e valores, bem como de examinar criticamente a natureza e o desenvolvimento da educação instalada no país.
Cabe aqui aprofundar o debate sobre o conceito de professor crítico-reflexivo.
O primeiro autor a contribuir para a construção do conceito foi Donald Schön, professor de Estudos Urbanos no Massachusetts Institute of Technology.
Dentro dessa epistemologia, há espaço também para a "reflexão sobre a reflexão na ação", colocando-se as bases para a ideia do "professor pesquisador da sua prática".
Outros autores, como Stenhouse (1983) e Elliot (1991), também caminham nessa direção, apesar de algumas divergências com Schön. A partir da contribuição desses estudiosos, nasce um movimento internacional centrado na ideia de "professor reflexivo", o que representou um enorme e inestimável avanço em relação ao modelo da racionalidade técnica, pois
Uma das conseqüências mais evidentes da proposta reflexiva,
a partir da visão de Schön, de Schwab, de Stenhouse e Elliott,
incluídas as deduções que podem ser tiradas diretamente do
pensamento de Aristóteles, é que a deliberação ou a reflexão
sobre a relação entre as exigências de uma situação particular
e o que é adequado para ela é algo que não pode vir decidido
por nenhuma instância alheia aos que a praticam. Ser sensível
às características do caso e atuar em relação ao mais
apropriado para o mesmo é algo que requer processos
reflexivos, os quais não podem manipular elementos que não
estiverem assimilados por seus protagonistas, seja a partir de
sua própria experiência ou da proposição de uma tradição. [...]
É muito difícil para aqueles que estão fora das escolas melhorar
a qualidade do que estas proporcionam [...]. É a qualidade dos
próprios professores e a natureza de seu compromisso para
mudar o que determina a qualidade do ensino e da melhoria da
escola. Os professores são, em geral, pobres realizadores das
idéias de outros. O desenvolvimento dos professores é, por
conseguinte [...] uma precondição para o desenvolvimento do
currículo. Sua compreensão, seu sentido de responsabilidade,
seu compromisso para proporcionar de maneira efetiva
experiência educativa para seus alunos, aumentam
significativamente quando eles são os proprietários da idéias e
os autores dos meios pelos quais estas idéias se traduzem em
prática na sala de aula. (Contreras, 2002, p.128)
Sobre a prática da reflexão, o autor afirma:
1) Os professores reflexivos elaboram compreensões
específicas dos casos problemáticos no próprio processo de
atuação.
2) Trata-se de um processo que inclui: a) a deliberação sobre o
sentido e valor educativo das situações; b) a meditação sobre
as finalidades; c) a realização de ações práticas consistente
com as finalidades e valores educativos; e d) a valorização
argumentada de processos e conseqüências.
3) Isto conduz ao desenvolvimento de qualidades profissionais
que supõem: a) a construção de um conhecimento profissional
específico; e b) a capacidade para desenvolver-se nessas
situações de conflito e incertezas que constituem uma parte
importante do exercício de sua profissão.
4) Em termos aristotélicos, a perspectiva reflexiva, aplicada a
docentes, refere-se à capacidade de deliberação moral sobre o
ensino, ou seja, a busca de práticas concretas para cada caso
que sejam consistentes com as pretensões educacionais.
(Contreras, 2002, p.137)
No entanto, no entender de muitos autores, a concepção de Schön é ainda insuficiente para uma prática docente consciente e crítica.
Pimenta & Ghedin (2002) apontam os dois pontos essenciais dessa lacuna: uma compreensão restrita do que se entende por teoria e a desconsideração do fato de que a reflexão é necessariamente um processo coletivo. Para ela, a teoria, entendida como cultura objetivada, é fundamental na formação docente, dado que, além de seu poder formativo, ela possibilita aos professores a apropriação de diversos instrumentos conceituais, abrangendo diversos pontos de vista, para uma ação adequada a cada contexto específico. E os saberes teóricos não se opõem aos saberes da prática; ao contrário, com eles se articulam.
Quanto à reflexão coletiva, Pimenta & Ghedin (idem) se remetem à ideia de Zeichner (1992), de que é preciso transformar as escolas em comunidades de aprendizagem, nas quais os professores se apoiem e se estimulem mutuamente, o que possibilitaria criar as condições que permitem a mudança institucional e social.
Entendida dessa forma, a prática da reflexão pelo professor adquire um sentido mais amplo, coerente com a perspectiva que nos traz Pimenta & Ghedin (op. cit., p.149):
Assim sendo, a reflexão sistemática, rigorosa e de conjunto
(Saviani, 1986), atuante no ensino, propõe-se como reflexão
radical de nosso ser no mundo, como alternativa, juntamente
com todo o processo educativo, que amplia a compreensão de
si e permite-se o descortínio da humanidade comprometida
ética e politicamente com sua construção. Isto quer nos dizer
que o horizonte da reflexão no ensino é a potencialidade ou
deve ser potencializador do questionamento radical de si
mesmo e da educação como possibilidade de rompimento da
exploração, reproduzida ideologicamente por meio da escola.
Tal situação não se dá de forma mecânica, mas é um processo
de luta que começa com a reflexão e se traduz em ação
concreta, imprimindo nova reflexão e um novo fazer diferencial.
Outros autores alertam ainda que o uso indiscriminado e acrítico da concepção de docentes como profissionais reflexivos "[...] não obedece a uma mera moda passageira, senão que cumpre uma função expressa de legitimação nas atuais reformas educacionais" (Smith, 1992 apud Contreras, 2002, p.137).
Assim, Giroux (1997) enfatiza a necessidade de se considerar o professor como intelectual crítico, capaz de ajudar os estudantes a adquirir um conhecimento real e uma postura questionadora sobre a sociedade, abrangendo todas as suas instâncias, de modo a abrir o caminho para uma transformação dirigida à progressiva humanização da ordem social.
Zeichner (1992) realça a existência, na literatura, de cinco variedades da prática reflexiva, dentre as quais ele próprio, obviamente, defende a versão de reconstrução social:
1. A versão acadêmica, que enfatiza a reflexão sobre as
disciplinas e a representação e tradução do conhecimento
disciplinar em matérias para promover a compreensão dos
estudantes. Nesta versão, a reflexão se limitaria
essencialmente à transposição didática.
2. A versão de eficiência social, que ressalta a aplicação
minuciosa de estratégias particulares de ensino que vêm
sugeridas por um "conhecimento básico" externo à prática e
que se deduz da pesquisa sobre o ensino. Esta aplicação de
conhecimento externo pode ser encontrada em sua modalidade
mais puramente tecnológica, de uso de habilidades e
estratégias concretas, ou como um processo mais próximo à
solução de problemas, fazendo um uso inteligente de
estratégias genéricas sugeridas pela pesquisa de casos
concretos. Aqui, tem-se essencialmente a racionalidade técnica,
apenas com outra roupagem.
3. A versão evolutiva, que prioriza um ensino sensível ao
pensamento, aos interesses e às pautas do desenvolvimento
evolutivo dos estudantes, bem como da própria evolução do
professor como docente e como pessoa.
4. A versão de reconstrução social, que acentua a reflexão
sobre os contextos institucionais, sociais e políticos, bem como
a valorização das atuações em sala de aula, em relação à
capacidade de contribuírem para uma igualdade maior, justiça e
condições humanas, tanto no ensino como na sociedade.
5. A versão genérica, na qual se defende a reflexão em geral,
sem especificar grande coisa em relação aos propósitos
desejados ou ao conteúdo da reflexão.
Giroux (1997) afirma ainda que o essencial para o professor é a necessidade de tornar o pedagógico mais político e o político mais pedagógico. Tornar o pedagógico mais político significa considerar a educação escolarizada sob o enfoque político, possibilitando que a escola se torne parte do projeto social mais amplo, com o objetivo de ajudar os alunos a desenvolverem-se para que as injustiças econômicas, políticas
1 Disponível em:
<http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf_release/18Pnad_Primeiras_
Analises_2006.pdf>. Acesso em: 4 jan. 2010.