O Coração das Trevas
Capítulo I
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Ele com eçou a falar assim que pôs os olhos sobre m im . Eu tinha m e
dem orado dem ais e ele não poderia m ais esperar. Teve que com eçar sem m im . Os postos, rio acim a, tinham que ser substituídos. Havia atrasos dem ais j á que ele não sabia quem estava m orto ou quem estava vivo, e com o estavam sobrevivendo – e assim por diante, e assim por diante. Ele não prestou atenção em m inhas explicações, e, m anuseando entre os dedos um bastão de lacre, repetiu por várias vezes que a situação era ‘m uito grave, m uito grave’. Havia rum ores que um dos m ais im portantes postos estivesse em perigo e que o seu chefe, senhor Kurtz, estava doente. Esperava-se que não fosse verdade. ‘Senhor Kurtz era...’, senti-m e cansado e irritado. O que m e im porta o senhor Kurtz, pensei. Eu o interrom pi dizendo que j á ouvira falar do senhor Kurtz no litoral. ‘Ah! Então eles falam dele por aquelas bandas’, m urm urou consigo m esm o. Então, reiniciou, assegurando-m e que o senhor Kurtz era o m elhor dos agentes que ele tinha, um hom em excepcional, de grande im portância para a Com panhia; foi aí que eu pude entender a sua ansiedade. Ele disse que ele estava ‘m uito, m as m uito, apreensivo’. E aj eitando-se desconfortavelm ente em sua cadeira, com o se algo o incom odasse, exclam ou, ‘Ah, o senhor Kurtz!’, quebrando o bastão de lacre e parecendo espantado com o acontecido. Em seguida ele quis saber ‘quanto tem po levará para...’, sendo que eu o interrom pi novam ente. Estando com fom e, e com o vocês j á sabem , estando ainda de pé, com ecei a ficar irritado. ‘Com o eu posso lhe dizer isso’, disse, ‘se eu ainda nem pude ver o desastre ainda... alguns m eses, sem dúvida’. Toda essa conversa sem sentido parecia tão fútil para m im . ‘Alguns m eses...’, ele repetiu. ‘Bem , vam os dizer que três m eses, antes que possam os com eçar algo. Sim , deve ser o suficiente para resolver o assunto’. Eu corri daquele lugar (ele vivia sozinho em um a choupana de barro am assado com um a espécie de varanda), m urm urando com igo m esm o a opinião que tinha tido dele. Ele era um idiota falastrão. Mais tarde, acabei m udando m inha visão, quando descobri, de um a form a assustadora, a extrem a exatidão com que ele estim ara o tem po necessário para a solução do ‘negócio’”.
“Com ecei a trabalhar no dia seguinte, dando às costas aos assuntos do
entreposto, por assim dizer. Som ente daquele m odo, eu poderia m anter m inha atenção voltada para os fatos que redim em a vida. Ainda assim , às vezes devem os olhar ao redor; e, então, eu vi aquele entreposto, aqueles hom ens vagando pelo pátio, sem um obj etivo sob o sol. Perguntava-m e às vezes qual era o propósito daquilo tudo. Eles zanzavam de um lado para outro com suas varas absurdam ente grandes às suas m ãos, com o um bando de peregrinos incrédulos enfeitiçados dentro de um cercado apodrecido. A palavra ‘m arfim ’ vagava pelo ar, era m urm urada, era suspirada. Vocês poderiam pensar que eles estavam rezando diante dela. Um a m ácula de um a brutalidade im becil soprava através de tudo aquilo, com o o odor exalado de algum cadáver. Em nom e de Deus! Eu nunca havia visto algo tão irreal em toda m inha vida. E fora dali, o silêncio da floresta que cercava aquele entreponto perdido no m undo se abatia sobre m im com o algo grande e invencível, com o o m al ou a verdade, esperando pacientem ente pela m orte desta fantástica invasão”.
“Oh, m as que m eses! Bem , não im portam afinal. Diversas coisas
aconteceram . Em um a noite, um barracão feito de sapé, repleto de m orim , de algodão estam pado, colares de contas e sei m ais lá o que, irrom peu em cham as tão de repente que vocês pensariam que a terra teria se aberto para deixar que as labaredas vingadoras consum issem tudo que fosse desnecessário. Estava fum ando m eu cachim bo sossegadam ente, ao lado do m eu vapor desm antelado, e vendo todos aqueles saltos m ordazes contra a luz, com os braços levantados, quando o suj eito grandalhão bigodudo chegou até o rio, lacrim ej ando, com um balde de lata nas m ãos, e m e assegurando que todo m undo estava se ‘com portando esplendidam ente, esplendidam ente’, apanhando aproxim adam ente um quarto de água e correndo de volta novam ente. Notei que havia um furo no fundo de seu balde”.
“Cam inhei devagar até lá em cim a. Não havia pressa. Vej am vocês que a coisa toda queim ou qual um a caixa de fósforos. Não havia nada a ser feito, desde o início. O fogo saltou a grande altura, pondo todo m undo para correr, e consum indo tudo – e, logo depois, se extinguiu. O barracão j á tinha se transform ado violentam ente em um m onte de brasas incandescentes. Um dos negros, perto dali, estava apanhando. Diziam que tinha sido ele que causara, de algum m odo, o incêndio; sej a com o for, dava gritos terríveis. Eu o vi m ais tarde, e por vários dias, sentado sob a som bra, aparentando estar m uito doente e tentando se recuperar: logo depois, ele se levantou e saiu – e a floresta, sem em itir um som sequer, o tom ou entre as suas entranhas novam ente. Aproxim ando-m e da claridade, vindo de um trecho m ais escuro, deparei-m e com dois hom ens conversando. Ouvi o nom e de Kurtz sendo pronunciado e, então, as palavras, ‘tom ar vantagem deste infeliz incidente’. Um dos hom ens era o gerente. Eu lhe desej ei boa noite. ‘Você por acaso j á viu algo com o isso antes, hein? É incrível’, disse ele e se afastou. O outro hom em ficou por ali. Ele era um agente de prim eira classe, j ovem , m uito distinto, um pouco reservado, com um a barba repartida ao m eio e um nariz aquilino. Ele se m antinha afastado dos dem ais agentes e, por causa disso, todos diziam que ele era um espião do gerente. De m inha parte, eu dificilm ente lhe dirigira a palavra antes. Com eçam os a conversar e, aos poucos, nos afastam os das ruínas sibilantes. Foi quando ele m e convidou para o seu quarto, que se localizava no edifício principal do entreposto. Ele acendeu um fósforo e foi quando eu percebi que este j ovem aristocrata não possuía apenas um estoj o de toucador com m oldura prateada, m as tam bém possuía um a vela com castiçal só para ele. Àquele tem po, o gerente era o único hom em que poderia ter o direito de ter velas. Esteiras feitas pelos nativos cobriam as paredes de barro; um a coleção de lanças, azagaias, escudos e facas estava pendurada com o troféus. A tarefa confiada àquele cam arada era a fabricação de tij olos – com o m e inform aram m ais tarde; m as não havia um só fragm ento de tij olo em nenhum a parte do entreposto e j á fazia m ais de um ano que ele estava ali – esperando. Parecia que ele não podia produzir os tij olos sem algum a coisa, não sei bem o que – palha talvez; De qualquer m odo, não se podia encontrar aquilo por lá e, com o parecia que não podia ser m andado da Europa, não era claro para m im o que ele estava esperando afinal. Por um ato da criação especial, talvez. Entretanto, todos eles estavam esperando por algo – todos os dezesseis ou vinte peregrinos; e, dou-lhes m inha palavra, não parecia ser um a ocupação das m ais desagradáveis do m odo que eles encaravam , se bem que a única coisa que chegou até eles, foi algum tipo de doença – pelo o que eu pude ver. Eles passavam o tem po fofocando e fazendo intriga uns contra os outros da m aneira m ais tola que pudesse existir. Havia um ar de conspiração por todo o entreposto, m as nada acontecia ali, é claro. Era tão irreal quanto tudo o m ais – com o a pretensa filantropia da em preitada, com o a conversa deles, com o o governo deles, com o o trabalho que faziam . O único sentim ento real era o desej o de ser indicado para um entreposto com ercial aonde houvesse m arfim , para que pudessem ganhar algum a porcentagem com isso. Eles faziam intriga, difam avam e odiavam uns aos outros apenas por causa disso – m as para se erguer efetivam ente um dedinho sequer... oh, não. Por céus! Deve haver algo m ais no m undo que perm ita um hom em roubar um cavalo enquanto outro sequer olha para o cabresto. Roubar um cavalo, com toda determ inação. Muito bem . Ele tinha feito isso. Talvez ele possa cavalgá-lo. Mas há um m eio de se olhar para um cabresto, de um m odo que fizesse com que o m ais caridoso dos santos desse um pontapé”.
“Eu não tinha ideia do porquê de tanta sociabilidade por parte dele, m as na m edida em que conversávam os, ocorreu-m e que o cam arada estivesse
tentando conseguir algum a coisa – de fato, estava m e sondando com pletam ente.
Constantem ente ele se referia à Europa e às pessoas que eu poderia conhecer lá
– fazendo perguntas diretas sobre os m eus contatos na cidade sepulcral, e por ai
em diante. Seus olhos m iúdos brilhavam com o discos de m ica – cheios de
curiosidade – em bora ele tentasse m anter um pouco de superioridade. A
princípio, fiquei surpreso, m as logo em seguida fui tom ado de um a curiosidade
sem tam anho para ver o que ele descobriria de m im . Não podia sequer im aginar
o que haveria em m im que valesse a pena por sua vez. Era bonito de se ver com o
ele ficava desnorteado com tudo isso, pois na verdade a única coisa que ele
descobriria é que m eu corpo estava tom ado de calafrios e, em m inha m ente, não
havia nada além dos assuntos relacionados com o acidente do m eu vapor. Era
evidente que ele m e tom ava por um perfeito e desavergonhado prevaricador. Por
fim , acabou se irritando e para disfarçar um m ovim ento de irritação furiosa,
bocej ou. Levantei-m e. Foi quando eu notei um pequeno desenho a óleo sobre
tela, representando um a m ulher vendada e envolta em drapeados, carregando
um archote aceso. O fundo era som brio, quase preto. A postura da m ulher era
grandiosa e o efeito da ilum inação do archote sobre o rosto era sinistro”.
“Detive-m e por causa do quadro e ele, por educação, pôs-se ao lado,
segurando um a garrafa de um quarto de litro de cham panhe (um agrado
m edicinal, sem dúvida) com um a vela enfiada nela. À m inha pergunta, ele
respondeu que o senhor Kurtz havia pintado o quadro – naquele m esm o
entreposto há m ais de um ano – enquanto esperava por um m eio de prosseguir
para o seu entreposto com ercial. ‘Diga-m e, por obséquio’, disse, ‘quem é este
senhor Kurtz?’”
“‘O chefe do entreposto do interior’, respondeu-m e quase sussurrando e
desviando o olhar. ‘Muito obrigado’, disse, sorrindo. ‘E você é o oleiro do
entreposto central. Todo m undo sabe disso’. Ele ficou em silêncio, por um
m om ento. ‘Ele é um prodígio’, disse afinal. ‘Ele é um em issário da m isericórdia,
da ciência, do progresso e quem sabe m ais do quê. Precisam os’, com eçou a
declam ar de repente, ‘para nos guiar para a causa a qual fom os confiados pela
Europa, por assim dizer, de um a inteligência superior, am pla com preensão e
um a sim plicidade de propósitos’. ‘Quem disse isso?’, perguntei. ‘Muitos deles’, ele
respondeu. ‘Alguns chegam m esm o a escrever sobre isso; então ele veio para cá,
um ser especial, com o você deve bem saber’. ‘Por que eu deveria?’, eu o
interrom pi, cheio de surpresa. Ele não prestou atenção no que eu dissera. ‘Sim .
Hoj e ele é o chefe do m elhor entreposto, no próxim o ano ele será o gerente-
assistente, m ais dois anos e ele será... bem , eu ouso dizer o que você j á deve
saber sobre o que ele será daqui a dois anos. Você é novo no grupo – em nosso
grupo da virtude. As m esm as pessoas que o recom endaram para cá tam bém
enviaram o senhor Kurtz. Oh, não diga que não. Confio no que m e m ostram os
m eus olhos’. Foi nesse m om ento que com preendi tudo. Os conhecidos influentes
de m inha querida tia estavam produzindo um efeito inesperado sobre aquele
j ovem hom em . Não consegui segurar a risada. ‘Você leu a correspondência
confidencial da Com panhia?’, perguntei-lhe. Ele não disse um a palavra sequer. Tudo era m uito divertido. ‘Quando o senhor Kurtz’, continuei cruelm ente, ‘for o
gerente geral, você não terá m ais oportunidade de fazê-lo’”.
“Ele assoprou a vela de repente e seguiu para fora. A lua estava se
elevando. Figuras negras peram bulavam com indiferença, j ogando água no braseiro o que produzia o som de um assobio; o vapor subia contra a luz da lua, enquanto se ouvia os gritos do negro espancado vindos de algum lugar. ‘Que alarde aquele selvagem faz’, disse o infatigável hom em com bigodes, surgindo de repente j unto de nós. ‘Fez-lhe bem . Transgressão – punição – pauladas! Sem piedade, sem piedade. É o único j eito. Isto irá prevenir todas as tentativas sem elhantes no futuro. Eu estava j ustam ente dizendo isso ao gerente...’ Foi quando ele notou o m eu com panheiro e tornou-se desapontado de repente. ‘Ninguém ainda para a cam a’, disse ele, com um tipo de cordialidade servil; ‘isso é tão natural. Há! Perigo – agitação’. Ele desapareceu. Segui pela m argem do rio e o outro veio m e seguir. Ouvi um m urm úrio lastim ador perto de m eu ouvido, ‘Montes de fracassados – vej a só’. Os peregrinos podiam ser vistos, em bandos, gesticulando, discutindo. Muitos deles ainda portavam suas varas nas m ãos. Eu realm ente acreditava que eles levavam aqueles bastões j unto com eles para a cam a. Além do cercado, a floresta perm anecia com um ar fantasm agórico à luz do luar e, no m eio de todo aquele tum ulto som brio, no m eio de todos os sons distantes oriundos do pátio lastim ável, o silêncio da terra penetrava fundo no coração de cada um – o seus m istérios, a sua grandeza, a fantástica realidade de sua vida oculta. O negro ferido gem ia com fraqueza em algum lugar próxim o dali e, produzindo um profundo suspiro, fez-m e apertar o passo e m e retirar logo de lá. Senti um a m ão tom ando o m eu braço. ‘Meu caro senhor’, disse o cam arada, ‘Não quero ser m al interpretado, especialm ente por você, que se encontrará com o senhor Kurtz antes que eu tenha esta satisfação. Não desej aria que ele tivesse um a falsa ideia de m eu caráter...’”.
“Deixei-o continuar, aquele Mefistófeles de papel m achê, e pareceu
para m im que, se eu tentasse atravessá-lo com o m eu polegar, talvez não encontrasse nada dentro dele além de um pouco de terra frouxa. Ele, não sei se vocês perceberam , planej ava ser gerente-assistente, ainda sobre o com ando do atual gerente, e pude ver que a chegada daquele Kurtz tinha m uito aborrecido a am bos. Ele havia se precipitado ao falar e procurei não interrom pê-lo. Eu estava recostado contra os destroços do m eu vapor, rebocado m argem acim a com o a carcaça de algum grande anim al fluvial. O cheiro de lodo, de um lodo prim ordial – em nom e de Deus! – tom ava as m inhas narinas e a grande im obilidade da floresta prim itiva preenchia os m eus olhos; havia m anchas lum inosas no m anguezal escuro. A lua derram ava, sobre tudo que havia ali, um a fina cam ada prateada – sobre o capim espesso, sobre o lodo, sobre a m uralha de vegetação desbotada, m ais alta do que a parede de um tem plo, sobre o grande rio que eu podia ver através de um a brecha som bria, resplandecendo, resplandecendo, enquanto fluía de um m odo geral sem um ruído sequer. Tudo isso era grandioso, expectante, quieto, enquanto que o hom em não parava de dizer coisas sem sentido sobre si m esm o. Cheguei a im aginar se a im obilidade sobre a face da im ensidão que olhava para nós dois significava um apelo ou um a am eaça. O que era que nós tínham os enganado ali? Poderíam os tocar aquela coisa taciturna ou ela que nos tocaria? Senti o quão im enso, o quão confuso e im enso, era aquilo que não podia falar e que, provavelm ente, tam bém era surda. O que era aquilo que estava ali? Eu podia ver um pouco de m arfim chegando de lá e cheguei a ouvir que o senhor Kurtz estava lá. Eu j á ouvira o suficiente sobre tudo aquilo, bem sabe Deus! Ainda que, de algum a form a, nenhum a im agem viesse acom panhada com isso – m esm o que se m e dissessem que um anj o ou um dem ônio estivesse lá. Eu acreditei do m esm o m odo que qualquer um de vocês pudesse acreditar que havia habitantes no planeta Marte. Conheci um a vez um m arinheiro escocês que tinha certeza, um a certeza m ortal, que existiam pessoas em Marte. Se vocês lhe perguntassem se ele tinha algum a ideia de com o eles se pareciam e com o se com portavam , ele se acanhava e m urm urava algo com o ‘eles cam inham de quatro’. Se vocês por acaso esboçassem algum sorriso, ele brigaria com vocês, m esm o sendo um hom em de seus sessenta anos. Eu não iria tão longe na defesa de Kurtz, m as quase cheguei a m entir por ele. Vocês sabem o quanto eu odeio isso, detesto, e não m antenho um a m entira, não por eu ser um hom em m ais correto que os dem ais, m as sim plesm ente porque isso m e aterroriza. Há um a m ancha m ortal, um sabor de m ortalidade nas m entiras que é exatam ente o que eu m ais detesto e odeio no m undo – o que eu gostaria de esquecer. A m entira m e torna m iserável e doente, com o se m ordêssem os algum a coisa podre. Suponho que sej a algo do m eu tem peram ento. Bem , eu cheguei bem próxim o de m entir ao deixar que aquele j ovem tolo acreditasse em qualquer coisa que ele gostaria de im aginar referente à m inha influência na Europa. Tornei-m e num instante tão pretensioso quanto o restante dos peregrinos enfeitiçados. Assim sim plesm ente, porque acreditava que de algum m odo isto seria útil ao tal do Kurtz que à época não conhecia ainda – vocês com preendem ? Ele era apenas um nom e para m im . Eu não conhecia o hom em por detrás do nom e m ais do que vocês. Vocês entendem ? Estão acom panhando a história? Estão acom panhando algum a coisa? Parece que estou tentando contar-lhes um sonho – fazendo um a vã tentativa, porque nenhum relato de sonho pode transportar-nos à sensação do sonho, aquela m istura de absurdo, surpresa e atordoam ento em m eio a um trem or de incontida revolta, aquela noção de ser capturado pelo incrível que não é nada m ais do que a precisa essência dos sonhos...”.
Ele perm aneceu em silêncio por um m om ento.
“...Não, é im possível; é im possível transportar-nos à sensação vital de
qualquer época determ inada da existência de alguém – com a qual se produz a sua verdade e o seu significado, seu tem a e sua essência penetrante. É im possível. Nós vivem os do m esm o m odo que sonham os... sozinhos...”
Ele parou novam ente com o se estivesse refletindo, logo depois,
com plem entou, “Claro que com relação a isto, vocês, m eus cam aradas, veem m ais do que eu podia então. Vocês podem m e ver e vocês m e conhecem ...”.
A noite havia se tornado tão escura que nós, os ouvintes, dificilm ente
víam os uns aos outros. Já há m uito tem po que ele, sentando-se à parte, j á era para nós nada m ais do que um a voz. Não se ouvia um a só palavra de ninguém . Os outros podiam m esm o estar dorm indo, m as eu estava acordado. Eu escutava e escutava, atento a cada sentença, a cada palavra que pudesse m e fornecer a ponta do novelo para aquele débil m al-estar, inspirado por esta narrativa que parecia se m oldar por si m esm a, sem lábios hum anos, no pesado ar noturno j unto ao rio.
“…Sim , deixei-o m atraquear”, Marlow com eçou novam ente, “e
lucubrar à vontade sobre os poderes que estavam ocultos por detrás de m im . Deixei-o de fato! E não havia nada por detrás de m im ! Não havia nada além daquele navio a vapor arruinado, velho e m utilado, no qual eu estava recostado, enquanto ele tagarelava fluentem ente sobre a ‘necessidade de cada hom em em evoluir’. ‘E quando alguém é enviado para cá, você bem sabe, não é para ficar adm irando a lua’. O senhor Kurtz era um ‘gênio universal’, m as m esm o um gênio sabe que é m uito m ais fácil se trabalhar com as ‘ferram entas adequadas e com hom ens de inteligência’. Ele não produzia nenhum tij olo, porque havia um a im possibilidade física no processo – com o eu m esm o pude constatar; e se ele fizera trabalho de secretário para o gerente era porque ‘nenhum hom em sensível pode rej eitar de form a petulante a confiança depositada por seus superiores’. Se eu entendi? Sim , entendi. O que m ais eu precisava? Por Deus, o que eu realm ente precisava era de rebites! Rebites. Para continuar com o m eu trabalho, para consertar o buraco. Rebites era o que eu queria. Havia caixas deles lá em baixo no litoral – caixas – pilhas deles – estouradas – transbordando! Vocês chutavam um rebite perdido a cada dois passos no pátio daquele entreposto j unto à colina. Rebites rolavam para dentro do bosque da m orte. Vocês podiam encher os seus bolsos com rebites apenas se abaixando para pegá-los – e lá não havia um rebite sequer quando m ais precisávam os deles. Tínham os as placas necessárias, m as nada para fixá-las. E cada sem ana, o m ensageiro, um negro solitário, sacola de cartas nos om bros e vara à m ão, deixava nosso entreposto em direção ao litoral. E m uitas vezes ao longo da sem ana, um a caravana oriunda do litoral chegava carregada com m ercadorias para com ercialização – um m orim , um encerado m edonho que nos fazia estrem ecer só de se olhar, contas de vidros no valor aproxim ado de quatro centavos o quilo, uns m alditos lenços de algodão estam pado. Mas nenhum rebite. Três carregam entos poderiam trazer tudo o que m e era necessário para fazer aquele vapor flutuar”.
“Ele estava se tornando m ais íntim o agora, m as eu im agino que a m inha
atitude indiferente deva tê-lo irritado ainda m ais, pois j ulgou que fosse necessário inform ar-m e que ele não tem ia nem a Deus nem ao Diabo, m uito m enos a qualquer sim ples hom em . Respondi-lhe que podia ver isso perfeitam ente bem , m as o que eu desej ava de verdade era certa quantidade de rebites – e rebites era o que realm ente o senhor Kurtz desej ava, com o se fosse possível para ele saber disso. A partir daquilo, cartas e m ais cartas seguiam para o litoral toda a sem ana... ‘Meu caro senhor’, ele exclam ava, ‘Escrevo-lhe por ditado. Exij o rebites’. Havia um m odo, para um hom em inteligente. Ele m odificou as suas m aneiras; tornou-se m uito distante e de repente com eçou a falar sobre um hipopótam o; im aginou que se eu dorm isse a bordo do vapor (apeguei-m e ao m eu salvam ento noite e dia) não seria perturbado. Havia apenas um velho hipopótam o que tinha o m au hábito de sair para as m argens e peram bular noite a fora pelo terreno do entreposto. Os peregrinos costum avam surgir todos j untos e descarregar cada espingarda disponível que lhes havia a m ão sobre o pobre coitado. Alguns chegaram m esm o a espreitá-lo durante várias noites. Contudo, toda aquela energia era usada à toa. ‘Aquele anim al tinha um a vida protegida por encantam ento’, ele m e disse; ‘m as você pode dizer isso apenas com relação às feras deste país. Nenhum hom em – você está m e entendendo? – nenhum hom em aqui possui um a vida protegida por encantam ento’. Ele perm aneceu ali, de pé, por um m om ento sob a luz da lua com seu delicado nariz aquilino, um pouco torto para o lado, e com seus olhos brilhantes com o a m ica, sem nem ao m enos piscar; e, logo depois, com um breve ‘boa-noite’, se retirou. Pude perceber que ele estava perturbado e consideravelm ente intrigado, o que fez com que eu m e sentisse m ais esperançoso do que j á havia m e sentido durante vários dias. Era m uito reconfortante poder deixar aquele cam arada de lado e poder retornar ao m eu influente am igo, o m eu espancado, deform ado e arruinado vapor feito de lata. Em poleirei-m e a bordo. Ele rangia sob os m eus pés com o um a lata de
biscoitos Huntley & Palm er vazia[4] chutada para um bueiro; sua estrutura não
era nada sólida e m uito m enos bonito ainda com relação ao seu form ato, m as eu j á havia trabalhado duro o suficiente nele, o que m e fez am á-lo. Nenhum am igo, por m ais influente que fosse, m e serviria m elhor. Ele tinha m e fornecido a oportunidade de m e expor um pouco – de descobrir o que eu poderia fazer. Não, eu não gostava de trabalhar – nenhum hom em gosta – m as eu gosto do que existe no trabalho em si – a oportunidade de m e descobrir. A sua própria realidade – aquela destinada a você e não aos outros – o que nenhum outro hom em pode sequer descobrir. Outros podem som ente ver um sim ples espetáculo sem , contudo, perceber o que realm ente ele significa”.
“Não m e surpreendi ao ver alguém sentado, em direção à popa, sobre o
convés, com as pernas balançando sobre o lodo. Vocês sabem que eu preferiria fazer am izade com os poucos m ecânicos que houvesse ali naquele entreposto, os quais eram naturalm ente desprezados pelos outros peregrinos – talvez pelas suas m aneiras im perfeitas, eu suponho. Era o contram estre – um caldeireiro por ofício – um bom trabalhador. Era um hom em alto, ossudo, de tez am arelada, com grandes e intensos olhos. Sua feição era de estar sem pre preocupado e sua cabeça era tão sem pelos quanto a palm a de m inha m ão; m as o seu cabelo ao cair parece que se prendera ao queixo e prosperado fartam ente ali naquela nova posição, pois sua barba crescia até a sua cintura. Ele era viúvo, pai de seis j ovens filhos que havia deixado sob os cuidados de um a irm ã sua antes de partir para lá, e, a grande paixão de sua vida eram as corridas de pom bos. Ele era um entusiasta e um grande expertise. Ele se em polgava com pom bos. Após horas de trabalho, ele costum ava sair de sua cabana para um a longa conversa sobre os seus filhos e sobre os seus pom bos; no trabalho, quando ele tinha que rastej ar no lodo sob o casco do navio, ele prendia aquela sua barba com um tipo de guardanapo branco que ele sem pre trazia para este fim . O pano tinha alças que eram presas atrás de suas orelhas. Ao anoitecer, podia ser visto agachado j unto das m argens, enxaguando aquele invólucro no riacho com grande cuidado e, depois, estendendo-o com grande solenidade sobre um arbusto para secar”.
“Bati-lhe às costas e gritei, ‘Nós agora terem os rebites!’. Ele saltou,
ficando de pé, exclam ando, ‘Não! Rebites! Quase não acredito no que acabo de ouvir’. Então, quase sussurrando, ‘Você... eh?’ Eu não sei por que estávam os nos com portando com o loucos. Coloquei o dedo sobre o nariz, acenei a cabeça m isteriosam ente. ‘Muito bem !’, ele gritou, batendo com os dedos sobre sua cabeça e levantando um dos pés. Com ecei a dançar. Nós saltávam os sobre o convés de ferro. Um horripilante barulho saiu de dentro daquele casco e a floresta virgem na outra m argem do riacho o ecoou com o se fosse um cilindro enorm e sobre o entreposto adorm ecido. Ele deve ter feito com que alguns dos peregrinos saltassem dentro de suas barracas. Um a figura som bria obscureceu o vão da porta ilum inada da choupana do gerente, desaparecendo então, um segundo ou m ais depois; o próprio vão da porta desapareceu tam bém . Param os e o silêncio que fugira do estam pido de nossos pés retornou rapidam ente dos recantos daquela terra. A grande m uralha de vegetação, um a exuberante e confusa m assa de troncos, galhos, folhas, ram os, grinaldas, im óveis sob a luz do luar, era com o a invasão am otinada da vida insondável, um ondulante vagalhão de plantas, em pilhadas, encrespadas, prontas a desm oronar sobre o riacho, a varrer cada um de nós de sua parca existência. No entanto, ela não se m ovia. Um estrondo am ortecido de poderosos passos sobre a água e respingos nos chegava, vindo de longe, com o se um ictiossauro estivesse tom ando um banho reluzente no grande rio. ‘Afinal’, disse o caldeireiro em um tom lógico, ‘por que não deveríam os conseguir esses rebites?’ Verdade, por que não? Eu não conhecia nenhum a razão que j ustificasse tal coisa. ‘Eles chegarão em três sem anas’, disse-lhe confidencialm ente”.
“Mas eles não chegaram . Ao invés dos rebites, chegou um a invasão,
um a punição, um a visitação. Chegou aos poucos durante as próxim as três sem anas, cada leva encabeçada por um asno, carregando um hom em branco vestindo roupas novas e sapatos engraxados, cheio de rapapés, à direita e à esquerda, destinados aos im pressionados peregrinos. Um bando de barulhentos negros, com os pés feridos, seguia de perto os asnos; um m onte de tendas, banquetas de arm ar, caixas de latas, m alas brancas, fardos m arrons foram descarregados no pátio e o ar de m istério aprofundou-se aos poucos sobre o caos do entreposto. Cinco desses deslocam entos chegaram , com o absurdo ar de um a fuga desordenada com os despoj os de inúm eros entrepostos e loj as de provisões, de tal m odo que qualquer um poderia pensar que estavam sendo levados, após o assalto, para a floresta para ser feita um a divisão equitativa. Era um a m assa insolúvel de coisas, decentes por si só, m as que a tolice hum ana poderia j ulgar com o o produto de algum roubo”.
“Aquela trupe devotada se autodenom inava com o a Expedição
Exploradora Eldorado e acredito que tivessem algum segredo entre eles. Seu discurso, entretanto, era o discurso de sórdidos bucaneiros: eram tem erários sem audácia, insaciáveis sem ousadia e cruéis sem coragem ; não havia um átom o sequer de perspicácia ou de intenções sérias em todo grupo e eles não pareciam cientes de que estas coisas são necessárias para se trabalhar o m undo. Arrancar tesouros das entranhas da terra era o seu desej o, com nenhum propósito m oral por detrás daquilo que não aquele que ladrões possuem ao arrom bar um cofre. Quem financiava as despesas de tão nobre em preitada, não sei dizer, m as o tio de nosso gerente era o líder daquele grupo”.
“Sua aparência era a de um açougueiro de um a vizinhança pobre e os
seus olhos possuíam um a aparência de esperteza sonolenta. Ele portava a sua grande barriga com ostentação, apoiada sobre suas pernas curtas e, durante o tem po em que sua trupe infestou o entreposto, som ente conversava com o seu sobrinho. Vocês podiam vê-los, aqueles dois, rum inando o dia todo, com as suas cabeças próxim as um a das outras em um a confabulação interm inável”.
“Eu havia desistido de m e preocupar com os rebites. A capacidade que
alguém tem com relação a um a loucura com o esta é m ais lim itada do que vocês podem supor. Sim plesm ente disse, ‘O que m e im porta!’ e deixei as coisas de lado. Eu tinha tem po de sobra para m editar e, de vez em quando, dedicava alguns dos m eus pensam entos a Kurtz. Eu não estava m uito interessado nele. Não. Ainda que eu estivesse curioso para ver se aquele hom em , que partira equipado com princípios m orais de algum tipo, atingiria o topo depois de tudo isso e com o ele realizaria seu trabalho quando estivesse lá”.
[1] O Golden Hind era um galeão inglês com o qual sir Francis Drake realizou a circum -navegação do globo, saqueando em barcações espanholas e portuguesas durante sua j ornada; foi lançado às águas em 1577 e partiu com 100 hom ens, retornando em 1580 com apenas 56 tripulantes a bordo; apesar de seus saques e botins, a rainha Elizabeth I foi a bordo em sua chegada à Londres e sagrou Drake com o cavaleiro no próprio tom badilho do navio. O Erebus e o Terror foram dois navios científicos que conduziram expedições britânicas à Antártica e m ais tarde ao Ártico; desapareceram em sua viagem de exploração ao Ártico, em agosto de 1845, ocasionando a m orte de toda sua tripulação, inclusive do líder da expedição, sir John Franklin.
[2] “Aqueles que vão m orrer o saúdam ”: conhecida e tradicional frase proferida
pelos gladiadores diante do Im perador de Rom a, durante os com bates realizados nas arenas dos j ogos da cidade; a origem da frase é incerta, sendo que a prim eira m enção da m esm a aparece na obra do historiador Suetônio, em sua obra A Vida dos Doze Césares, no volum e dedicado ao Im perador Cláudio.
[3] No século 19, um alienista seria um m édico m ais próxim o do que
consideraríam os hoj e um psiquiatra, um a vez que não havia sido constituída definitivam ente a psiquiatria com o um a especialidade determ inada. Os estudos de Philippe Pinel, Jean-Martin Charcot, Theodor Mey nert, Alois Alzheirm er e Sigm und Freud contribuíram para a consolidação da especialidade.
[4] A em presa de biscoitos Huntley & Palm er foi um a das pioneiras na
fabricação de biscoitos; eram exportados para o m undo todo em belas e resistentes latas decoradas. Fundada em 1822, Huntley & Palm er ganhou tanto prestígio na Inglaterra que a cidade de Reading, localizada a 65 quilôm etros a oeste de Londres, ficou conhecida com o a “cidade do biscoito”.