O Coração das Trevas

Joseph Conrad · Capítulo 2 de 9 · parte 2/3

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O Coração das Trevas

Capítulo I

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

criação arrancaria de suas bases e derrubaria a coisa toda”.

“Após esse encontro, fui abraçado, orientado a usar roupas quentes,

escrever frequentem ente e outras coisas m ais... e parti. Na rua, não sei bem o

porquê, um sentim ento estranho se apoderou de m im , com o se eu fosse um

im postor. Curiosam ente eu que m e acostum ara a estar preparado para partir para

qualquer parte do m undo vinte e quatro horas após o aviso, com m enos

preocupação que a m aioria dos hom ens ao atravessar um a rua, tive um

m om ento, não diria de hesitação, m as de um a pausa cheio de tem or diante

daquele assunto tão corriqueiro. A m elhor m aneira de lhes explicar isto é dizendo

que, por um segundo ou dois, eu m e senti com o se estivesse pronto para m e

dirigir para o centro da terra, ao invés de m e dirigir para o centro de um

continente”.

“Eu parti em um vapor francês e esse parou em cada porto

am aldiçoado que eles tinham por lá, pelo que pude ver, com o único propósito de

desem barcar soldados e oficiais alfandegários. Observei a costa. Observar a orla

enquanto esta desliza ao lado de um navio é com o refletir sobre um enigm a. Ela

perm anece diante de vocês, sorridente, carrancuda, convidativa, grandiosa,

perversa, insípida ou selvagem e, na m aioria das vezes, calada com um ar de

quem suspira, ‘venha e m e decifre’. Aquela era quase sem sinais particulares,

com o se estivesse em form ação, com um aspecto de um a crueldade m onótona.

As m argens de um a selva colossal, de um verde tão escuro que quase era negro,

debruadas com ondas brancas, corria reta, com o um a linha traçada por um a

régua, bem ao longo de um m ar azul, cuj o brilho era dim inuído por um a névoa

rasteira. O sol era violento, a terra parecia resplandecer e gotej ar com o vapor.

Aqui e acolá, pontos brancos e acinzentados surgiam , agrupados dentro das ondas

brancas, talvez com o um a bandeira que trem ulava do alto. Assentam entos com

alguns séculos de idade e que ainda não eram m aiores que um a cabeça de

alfinete colocados sobre a extensão intocável daquele pano de fundo. Nós éram os

sacudidos, parávam os, desem barcávam os soldados; continuávam os,

desem barcávam os oficiais alfandegários para cobrar im postos do que parecia

um a vastidão esquecida por Deus, apenas com um galpão de telhas de zinco e

um m astro de bandeira; desem barcávam os m ais soldados – para tom ar conta dos

funcionários das aduanas, provavelm ente. Alguns, pelo o que eu ouvi, se

afogavam na arrebentação; m as se era ou não verdade, ninguém parecia

realm ente se im portar. Eles sim plesm ente eram largados lá e depois

prosseguíam os. O litoral parecia o m esm o, dia após dia, com o se nós não

tivéssem os nos m ovido; entretanto, passam os por vários lugares – pontos de

com ércio – com nom es com o Gran’Bassam e Little Popo, nom es que pareciam

pertencer a algum a sórdida farsa, encenada diante de um a cortina sinistra. A

indolência de um passageiro, m eu isolam ento entre todos aqueles hom ens com os

quais não tive nenhum contato, o m ar lânguido e escorregadio, a uniform e

m elancolia do litoral, pareciam m e m anter afastado da verdade das coisas,

dentro do duro trabalho de um a ilusão estúpida e desolada. O barulho das ondas,

ouvido de vez em quando, era o único prazer positivo, com o o discurso de um irm ão. Era algo natural que tinha sua própria razão e significado. De vez em

quando, um escaler vindo do litoral nos trazia um contato m om entâneo com a

realidade. Era rem ado por nativos negros. Podia-se ver de longe a brancura de

seus olhos cintilando. Eles gritavam e cantavam ; de seus corpos corria

transpiração; os rostos desses cam aradas eram com o m áscaras grotescas,

entretanto, eles tinham ossos, m úsculos e vitalidade selvagens, um a intensa

energia de m ovim ento que era tão natural e verdadeira com o a arrebentação ao

longo da costa. Não precisavam de nenhum a desculpa por estarem ali. Era um a

grande satisfação olhar para eles. Por um m om ento, eu m e senti com o se ainda

pertencesse a um m undo verdadeiram ente j usto, entretanto, este sentim ento não

durou m uito tem po. Algo surgiria para espantá-lo. Lem bro-m e um a vez que nos

encontram os com um a nau de guerra fundeada na costa. Não havia sequer um

barracão ali, m as ela bom bardeava a selva. Parecia que os franceses estavam

em guerra por aquelas paragens. Suas insígnias pendiam com o trapos de seus

m astros; as bocas dos grandes canhões de oito polegadas se lançavam por todo o

casco inferior; a m aré enlam eada e oleosa o erguia e o abaixava indolentem ente,

oscilando os seus finos m astros. Ele ficava ali, incom preensivelm ente disparando

contra o continente, diante da im ensidão vazia da terra, do céu e da água.

Disparando por um de seus canhões de oito polegadas; um a pequena labareda

era lançada e desaparecia, um a pequena nuvem branca se dissipava, um

pequeno proj étil lançava um chiado franzino – e nada acontecia. Nada poderia

acontecer. Havia um toque de insanidade naquele procedim ento, um sentim ento

côm ico e lúgubre naquela visão toda; e que não se dissipou quando alguém a

bordo m e assegurou seriam ente que lá havia um acam pam ento de nativos... ele

os cham ou de inim igos... escondidos ali em algum lugar fora de nossa visão”.

“Entregam os as cartas a eles destinadas (ouvi que os hom ens daquela

em barcação solitária estavam m orrendo de febre dentro de um a m édia de três por dia) e prosseguim os. Passam os por alguns outros lugares com nom es estranhos, aonde a alegre dança da m orte e do com ércio prosseguia sob um a atm osfera inerte e terrosa com o se fosse um a catacum ba escaldante; ao longo daquele litoral sem form a, em oldurado por ondas perigosas, com o se a própria Natureza tentasse repelir os intrusos; entrando e saindo de rios com correntezas m ortais, m esm o em vida, cuj as m argens apodreciam sob o lodo, cuj as águas, engrossadas com o lim o, invadiam m angues deform ados que pareciam se contorcer diante de nós ao cabo de um desespero im potente. Não param os tem po suficiente em lugar nenhum para obterm os algum a im pressão detalhada, m as o sentim ento geral de um espanto vago e opressivo crescia dentro de m im . Era com o um a peregrinação fatigante por entre cam inhos repletos de pesadelos”.

“Levou m ais de trinta dias antes de eu conseguir ver a foz do grande rio.

Fundeam os próxim o à sede do governo. Mas m eu trabalho não com eçaria senão a m ais de trezentos e vinte quilôm etros dali. Deste m odo e assim que eu pude, com ecei a j ornada até um a localidade 48 quilôm etros m ais acim a”.

“Eu tinha um a passagem em um pequeno navio a vapor de alto-m ar.

Seu capitão era um sueco e, ao descobrir que eu era um m arinheiro, convidou-m e à ponte de com ando. Ele era um hom em j ovem , m agro, belo e de poucas palavras, com cabelos ralos e um andar arrastado. Assim que deixam os aquele pequeno cais m iserável, fez um gesto cheio de desdém com a cabeça em direção ao litoral. ‘Esteve m orando ali?’, perguntou-m e. Respondi-lhe que sim . ‘Esses cam aradas do governo são gente boa, não são?’, prosseguiu ele, falando em um inglês com grande precisão e considerável am argura. ‘É engraçado o que alguns pessoas fazem por uns poucos francos por m ês. Im agino que tipo de pessoas se tornam quando vão para o interior’. Respondi-lhe que eu logo veria. ‘Éééé!’, ele exclam ou, enquanto se arrastava até o outro lado, sem pre vigilante. ‘Não estej a tão certo disso’, continuou. ‘Outro dia eu apanhei um hom em que se enforcou na estrada. Ele era sueco tam bém ’. ‘Enforcou-se! Mas por que, em nom e de Deus?’, exclam ei. Ele continuou a olhar para fora atentam ente. ‘Quem sabe? Talvez o sol tenha sido dem ais para ele ou quem sabe a região’”.

“Por fim , chegam os a um braço aberto. Um penhasco rochoso

apareceu, m ontes de terra reviradas sobre o litoral, casas sobre um m orro, outras, com tetos de m etal, por entre os restos de um a escavação ou dependuradas em um declive. Um ruído contínuo das corredeiras acim a pairava sobre aquela cena de devastação habitada. Um grande núm ero de pessoas, a m aioria negras e nuas, m ovia-se com o form igas. Um ancoradouro se proj etava para dentro do rio. Um a luz do sol ofuscante m ergulhava tudo aquilo, de tem pos em tem pos, em um a repentina renovação de claridade. ‘Eis o seu entreposto da Com panhia’, disse o sueco, apontado para três barracões de estrutura de m adeira em um a inclinação rochosa. ‘Vou pedir para que descarreguem as suas coisas. Quatro caixas você disse? Muito bem então. Adeus’”.

“Deparei-m e com um a caldeira deleitando-se sobre a relva, até

encontrar um cam inho que m e conduziu m orro acim a. Ele contornava um m aciço de rochas, bem com o um vagão de estrada de ferro, de tam anho m enor que o habitual, que estava j ogado de lado com as rodas voltadas para o ar. Faltava um a roda ali. A coisa toda parecia tão m orta quanto um a carcaça de um anim al qualquer. Passei por m ais algum as peças de m aquinário deterioradas, um a pilha de trilhos enferruj ados. À esquerda, um a m assa de árvores produzia um a m ancha som bria, onde coisas enegrecidas pareciam se m over com fraqueza. Pisquei os olhos, pois a trilha era íngrem e. Um a sirene soou à direita e eu vi os negros correrem . Um a detonação pesada e entorpecente sacudiu o chão, um a fum arada saiu dos rochedos e isto foi tudo. Nenhum a m udança pode ser notada nas faces da rocha. Eles estavam construindo um a estrada de ferro. O rochedo não estava no cam inho da via ou de qualquer outra coisa, m as a explosão sem propósito era o único trabalho a ser feito”.

“Um leve tilintar atrás de m im fez com que eu virasse m inha cabeça.

Seis negros avançavam em fila, escalando a trilha. Eles cam inhavam eretos e devagar, equilibrando pequenos cestos cheios de terra em suas cabeças, e o tilintar m arcava o passo deles. Trapos pretos estavam enrolados em torno de seus quadris e as pontas caídas para trás, balançavam de um lado para o outro com o se fossem rabos. Eu podia ver cada um a das costelas, as j untas de seus m em bros pareciam nós de um a corda; cada um deles possuía um colar de ferro no pescoço e todos aqueles estavam unidos por m eio de um a corrente, cuj os elos balançavam entre eles, em um tilintar ritm ado. Outro aviso vindo do rochedo m e fez lem brar de repente do navio de guerra que eu vira disparar contra o continente. Era o m esm o tipo de voz am eaçadora, m as esses hom ens não possuíam o m ínim o de im aginação para serem classificados com o inim igos. Eram cham ados de crim inosos e a lei ultraj ante, com o m ariscos despedaçados, havia se abatido sobre eles, em um m istério insolúvel oriundo de além -m ar. Todos os peitos m agros arfavam ao m esm o tem po, as narinas violentam ente dilatadas trem iam , os olhos fitavam com dureza colina acim a. Eles passaram a m enos de quinze centím etros de m im , sem ao m enos, m e olhar, com aquela com pleta indiferença m oral dos selvagens infelizes. Por detrás daquela m atéria bruta, um dos regenerados, o produto das novas forças do trabalho, seguia indolentem ente, carregando um a espingarda pelo m eio. Usava um casaco de uniform e com um botão faltando e, ao ver um hom em branco pelo cam inho, colocava sua arm a em seu om bro com diligência. Era um a sim ples questão de prudência, pois os hom ens brancos eram todos parecidos à distância e ele não poderia afirm ar quem eu poderia ser. Ele rapidam ente se acalm ou e com um sorriso forçado, largo, branco e perverso e um olhar de relance para o seu fardo, pareceu tom ar-m e com o parceiro de sua exaltada confiança. Afinal, eu tam bém fazia parte da grande causa daqueles nobres e j ustos procedim entos”.

“Ao invés de continuar subindo, virei e desci pela esquerda. Minha ideia

era deixar aquele grupo de acorrentados fora de m inha visão antes de subir a colina. Vocês sabem que eu não sou particularm ente delicado com certas coisas: eu j á tive que bater e tive que m e defender. Eu resisti e ataquei algum as vezes – pois, às vezes, é o único m eio de se resistir – sem contar o custo exato de acordo com as exigências do tipo de vida em que eu m e m etera. Eu j á testem unhei o diabo da violência e o diabo da ganância, além do diabo do desej o ardente, m as, por todas as estrelas do céu, aqueles eram dem ônios de olhos verm elhos, fortes e robustos que governam e conduzem os hom ens... m as hom ens, isso posso lhes dizer. Mas, de pé ali naquela ribanceira, eu antevi que, sob a luz ofuscante do sol naquela terra, eu conheceria um dem ônio flácido, dissim ulado, de olhos débeis de um a estupidez opressora e cruel. O quão insidioso ele tam bém poderia ser, eu som ente descobriria alguns m eses m ais tarde e a m ilhares de quilôm etros dali. Por um m om ento, eu parei horrorizado, com o se tocado por um a advertência. Finalm ente, desci a colina, pela diagonal, em direção às árvores que eu havia visto”.

“Evitei passar por um grande buraco artificial que alguém havia cavado

na ladeira, cuj o propósito, j ulguei im possível de se adivinhar. De qualquer form a, não era nem um a pedreira nem um poço de areia. Era apenas um buraco. Poderia estar ligado ao desej o filantrópico de dar aos crim inosos algo para se fazer. Não sei bem . Logo depois, eu quase despenquei em um a ravina estreita, praticam ente um a cicatriz na encosta da colina. Descobri que m uitos dos canos de tubulação para drenagem im portados para o assentam ento tinham sido lançados lá. Não havia um sequer que não estivesse quebrado. Era um a destruição vergonhosa. Por fim , cheguei sob as árvores. Meu propósito era o de passear um pouco pela som bra, contudo, logo parecia que eu havia adentrado a algum dos círculos som brios do Inferno. As corredeiras estavam ali perto e um ruído ininterrupto, uniform e, rápido e precipitado preenchia a desoladora im obilidade do bosque, onde nenhum a brisa se agitava, nenhum a folha se m ovia, com um som m isterioso com o se o ritm o lacrim ej ante da terra rasgada de repente se tornasse audível”.

“Form as negras se agachavam , se recostavam e se sentavam entre as

árvores, recostando-se contra os troncos, agarrando-se à terra, m etades visíveis, m etades apagadas dentro da penum bra, todas elas em atitudes de dor, de abandono e de desespero. Outra m ina no penhasco explodiu, seguida por um leve trem or no solo sob m eus pés. O trabalho continuava. O trabalho! E este era o lugar onde alguns dos aj udantes tinham sido lançados para m orrer”.

“Eles estavam m orrendo lentam ente – isso era bem claro. Eles não eram inim igos, eles não eram crim inosos, eles não eram nada m ais na terra, além de som bras negras de doenças e fom e, lançados de m aneira confusa dentro de trevas esverdeadas. Trazidos de todos os recessos da costa, dentro de toda legalidade de contratos tem porários, perdidos nas cercanias incom patíveis, alim entados com um a com ida desconhecida, eles adoeciam , tornavam -se ineficientes e, então, lhes era perm itido rastej ar até ali e descansar. Essas form as m oribundas eram livres com o o ar e, tão transparentes quanto ele. Com ecei a distinguir o brilho dos olhos sob as árvores. Então, ao olhar para baixo, vi um rosto perto de m inha m ão. Os ossos negros se reclinavam por com pleto com um dos om bros apoiados contra a árvore e, lentam ente, as pálpebras se ergueram e os olhos fundos m e encararam , enorm es e vazios, iguais a um tipo de cegueira, um a leve centelha nas profundezas das órbitas que m orria lentam ente. O hom em parecia ser j ovem – quase um m enino – m as vocês sabem com o é difícil se determ inar isto. Não soube o que fazer além de lhe oferecer um dos biscoitos do navio do bom sueco que ainda m antinha em um dos m eus bolsos. Os dedos se fecharam lentam ente em torno do biscoito e o seguraram – não houve qualquer outro m ovim ento, nem qualquer outro olhar. Ele tinha atado um pedaço de lã branca em torno de seu pescoço – Por quê? Onde ele tinha conseguido isso? Era um sinal, um ornam ento, um am uleto, um ato propiciatório? Haveria algum propósito em tudo que estivesse ligado a ele? Era im pressionante aquele pedaço de lã branca vindo de além -m ar atado em torno de seu pescoço negro”.

“Próxim o da m esm a árvore, m ais dois m ontes de ângulos agudos se

sentavam com suas pernas encolhidas. Um deles, com o queixo apoiado sobre os seus j oelhos, olhava para o vazio de um m odo intolerável e pavoroso; seu irm ão fantasm agórico descansava sua testa com o se tom ado por um a grande fraqueza; e todos os dem ais estavam espalhados na m esm a posição de um colapso contorcido, com o em um a im agem atingida por um m assacre ou por um a peste. Enquanto eu perm anecia ali, horrorizado, um a daquelas criaturas se ergueu, e apoiado-se sobre suas m ãos e j oelhos, prosseguiu de quatro até o rio para beber de suas águas. Ele lam beu a água de suas m ãos e, então, sentou-se sob o sol, cruzando suas pernas diante do corpo; depois de um tem po, deixou sua cabeça de carrapicho cair sobre seu peito”.

“Não quis m ais m e dem orar ali nas som bras e segui apressadam ente

para o entreposto. Próxim o dos edifícios, eu encontrei um hom em branco, com um a elegância no se vestir tão inesperada que, em um prim eiro m om ento, j ulguei-m e tom ado por um a visão. Eu vi um colarinho alto e engom ado, punhos brancos, um casaco de alpaca leve, calças brancas com o a neve, um a gravata lim pa e botas engraxadas. Sem chapéu. Cabelos divididos ao m eio, escovados e untados, sob um a som brinha com alinhavados verdes, segurada por um a grande m ão branca. Ele era im pressionante e tinha um portacanetas atrás de sua orelha”.

“Cum prim entei aquela m aravilha e descobri que ele era o contador-

chefe da Com panhia e que toda a contabilidade era feita nesse entreposto. Ele havia acabado de sair por um m om ento, com o m e afirm ou, ‘para tom ar um pouco de ar fresco’. A expressão pareceu-m e m aravilhosam ente curiosa, por sugerir um a vida sedentária por detrás de um a escrivaninha. Eu nem sequer m encionaria a presença daquele suj eito a vocês se não fosse dos lábios deles que eu ouviria pela prim eira vez o nom e do hom em que está tão indissoluvelm ente associado às lem branças daquele tem po. Além disso, eu respeitava aquele suj eito. Sim , eu respeitava aqueles colarinhos, seus punhos largos, seu cabelo escovado. Sua aparência era certam ente a de um m anequim de cabeleireiros, m as diante da grande degradação da terra, ele m antinha um a aparência alinhada. Dem onstrava determ inação. Seu colarinho engom ado e o peitilho elegante eram dem onstrações de caráter. Já fazia três anos que ele estava ali, aproxim adam ente; e, m ais tarde, não pude m e conter e lhe perguntei com o ele conseguia se m anter tão alinhado. Ele ficou por um m om ento um pouco encabulado e disse, m odestam ente, ‘eu tenho ensinado um a das nativas que trabalha no entreposto. Foi difícil, pois ela tinha certo desgosto pelo trabalho’. Este hom em verdadeiram ente havia conseguido algo. E era devotado aos seus livros, m antidos na m ais perfeita organização”.

“Tudo o m ais no entreposto estava em um a bagunça – hom ens, coisas e

instalações. Filas de negros em poeirados com seus pés chatos chegavam e partiam ; um a série de produtos m anufaturados, peças de algodão cru, colares de contas e pulseiras de latão que seguiam para as profundezas das trevas e, em troca, se obtinha preciosos filetes de m arfim ”.

“Tive que esperar no entreposto por dez dias – um a eternidade. Morei

em um barracão no pátio, m as para fugir do caos, m uitas vezes m e refugiava no escritório do contador. Este era construído com pranchas horizontais de m adeira, tão porcam ente encaixadas, que o contador, ao se inclinar sobre o balcão, ficava m arcado da cabeça aos pés com finas linhas form adas pela luz do sol. Não havia necessidade de se abrir a grande persiana. Lá tam bém era m uito quente; grandes m osquitos voavam zunindo satanicam ente e esses não picavam , apunhalavam . Costum ava m e sentar no chão, enquanto que ele, com um a aparência im pecável (e m esm o levem ente perfum ado), se em poleirava no alto de um a banqueta, escrevendo, escrevendo sem parar. Às vezes, ele se levantava para se esticar. Quando um a m aca, com um doente (algum agente inválido oriundo de algum lugar do interior) foi colocada lá, ele dem onstrou certo aborrecim ento m oderado. ‘Os gem idos desta pessoa doente’, dizia ele, ‘distraem a m inha atenção. E sem esta, é extrem am ente difícil evitar algum erro na contabilidade com este clim a’”.

“Certo dia, sem sequer levantar a cabeça, com entou, ‘Com certeza,

você encontrará o senhor Kurtz no interior’. Ao perguntar-lhe quem era o senhor Kurtz, ele m e respondeu que se tratava de um agente de prim eira-classe; e percebendo o m eu desapontam ento quanto àquela inform ação, com plem entou, vagarosam ente, enquanto deitava sua pena, ‘Ele é um a pessoa notável’. Perguntas posteriores extraíram dele que o senhor Kurtz estava atualm ente a cargo de um entreposto com ercial, um dos m ais relevantes, na im portante região do m arfim , bem ‘nos confins do território. Ele despacha tanto m arfim quanto todos os dem ais j untos...’ Ele voltou a escrever. O hom em doente estava enferm o dem ais para gem er. As m oscas zum biam em grande paz”.

“De repente, ouvim os um grande e crescente m urm urar de vozes e um

grande bater de pés. Um a caravana havia chegado. Um violento balbuciar de sons grosseiros oriundos do outro lado das pranchas de m adeira. Todos os carregadores estavam falando ao m esm o tem po e, em m eio à baderna, ouvia-se a voz lam uriosa do chefe dos agentes ‘entregando os pontos’ dolorosam ente pela vigésim a vez naquele dia... Ele levantou-se devagar. ‘Que discussão assustadora’, disse ele, cruzando a sala e olhando gentilm ente para o hom em doente e, ao retornar, disse para m im , ‘Ele não ouve’. ‘O quê? Morreu?’, perguntei aterrorizado. ‘Não, ainda não’, respondeu com grande com postura. E, indicando com um m eneio de cabeça o tum ulto no pátio do entreposto, disse ‘Quando alguém tem que fazer os lançam entos corretos na contabilidade, com certeza deve odiar esses selvagens – odiar a ponto de m atá-los’. Ele perm aneceu pensativo por um m om ento. ‘Quando você se encontrar com o senhor Kurtz’, continuou, ‘diga-lhe de m inha parte que tudo aqui’, olhando para o balcão, ‘continua m uito satisfatório. Eu não gosto de lhe escrever – pois, com m ensageiros com o os nossos, nunca sabem os o que se pode acontecer com as nossas cartas... ao chegar ao entreposto central’. Ele ficou m e encarando por um m om ento com seus olhos suaves e arregalados. ‘Oh, ele irá longe, m uito longe’, com eçou novam ente. ‘Ele será alguém na adm inistração logo, logo. Eles, lá, no Conselho, na Europa, com o você bem sabe, pretendem que ele sej a’”.

“Ele retornou para o seu trabalho. O barulho do lado de fora havia

term inado e, naquele instante, ao sair, detive-m e à porta. No constante zum bido das m oscas, o agente que se dirigia de volta à pátria estava deitado, corado e insensível; o outro, inclinado sobre seus livros, estava produzindo alguns registros corretos de algum as transações perfeitam ente corretas; e uns quinze m etros abaixo dos degraus da porta eu pude ver os tranquilos topos das árvores do bosque da m orte”.

“No dia seguinte, eu afinal deixei aquele entreposto, com um a caravana

de sessenta hom ens para um a viagem de uns 320 quilôm etros”.

“Nem vou lhes dar m uitos detalhes sobre a viagem . Trilhas e m ais

trilhas por toda parte; um a rede de trilhas estam padas e espalhadas na terra vazia, através da relva alta, através da relva queim ada, através dos bosques cerrados, subindo e descendo ravinas assustadoras, subindo e descendo colinas pedregosas, incandescentes com o calor; e, um a solidão, um a solidão... ninguém ... nem um a casinha sequer. A população havia se retirado dali j á há m uito tem po. Bem , se um grupo de negros m isteriosos arm ados com todo tipo de arm as aterrorizadoras, de repente decidisse viaj ar pela estrada entre Deal e Gravesend, obrigando os cam pesinos a torto e a direito a carregarem fardos pesados para eles, tam bém im agino que cada fazenda e cabana por aquelas paradas ficariam desertas rapidam ente. Só que ali m esm o as habitações tinham desaparecido tam bém . Tam bém passei por diversos vilarej os abandonados. Havia certa infantilidade patética nas ruínas daquelas paredes de palha. Dia após dia, com o trote e o arrastar de sessenta pares de pés descalços atrás de m im , cada par sob trinta quilos de carga. Acam par, cozinhar, dorm ir, levantar acam pam ento, m archar. De vez em quando, um carregador m orto pelo excesso de trabalho, j azendo na relva alta próxim a da trilha, com um a cabaça vazia e sua longa vara estendida ao seu lado. Um grande silêncio por todos os lados. Talvez em algum a noite m ais tranquila o bater de tam bores distantes, dim inuindo, crescendo, grandes e pequenas batidas; um som estranho, suplicante, sugestivo e selvagem – e talvez com um a profundidade tão significativa quanto o som de sinos em um a região cristã. Vez ou outra, um hom em branco revestido com seu uniform e desabotoado, acam pava ao longo da trilha com um a escolta arm ada de zanzibaris altos, m uito hospitaleiros e festivos, para não dizer bêbados. Estava ali para cuidar da m anutenção da estrada, assim ele declarou. Não posso dizer que tenha visto algum a estrada ou m esm o algum a m anutenção, a não ser que o corpo de um negro de m eia-idade, com um buraco de bala bem no m eio da testa, com o qual tropecei literalm ente uns quatro quilôm etros m ais à frente, possa ser considerada com o um a m elhoria perm anente. Eu tam bém tinha um com panheiro branco nessa em preitada, um bom cam arada de qualquer m odo, um tanto gorducho e com o hábito irritante de desm aiar nos barrancos ensolarados, a quilôm etros de qualquer som bra ou água. Vocês sabem o quanto é irritante ficar segurando o nosso próprio casaco, com o um a som brinha, sobre a cabeça de um hom em enquanto ele não se recupera. Não pude deixar de lhe perguntar, um a das vezes, o que diabos ele estava fazendo ali afinal. ‘Para se ganhar dinheiro, certam ente. O que m ais poderia ser?’, disse ele, com grande desdém . Foi quando ele teve febre e precisou ser carregado em um a rede presa a um a vara. Com o ele pesava m ais que dezesseis pedras, m inhas discussões com os carregadores não tinham fim . Eles se afastavam , fugiam , se evadiam com os seus carregam entos no m eio da noite – praticam ente um m otim . Então, num a noite, fiz um discurso em inglês recheado com gestos que não passaram despercebidos pelos sessenta pares de olhos diante de m im , e na m anhã seguinte ordenei que a rede seguisse à nossa frente. Um a hora m ais tarde, encontrei toda a com posição lançada no m eio dos arbustos – o cidadão, a rede, os gem idos, os cobertores... um horror. A vara pesada havia despelado o nariz do coitado. Ele estava ansioso para que eu m atasse alguém , m as não havia nem som bra dos carregadores por ali. Lem brei-m e do velho doutor, ‘Seria interessante para a ciência observar as m udanças m entais dos indivíduos, frente às situações difíceis’. Senti que estava m e tornando cientificam ente interessante. Entretanto, tudo isso na verdade não im portava. Quinze dias depois do início de nossa j ornada, avistei novam ente o grande rio e cam baleei até o entreposto central. Ele ficava j unto a um pequeno m anguezal, cercado por caniços e pela floresta, com um a bela m argem de lodo m alcheiroso de um dos lados e os dem ais três lados cercados por um a cerca m al-construída feita de j uncos. Um a brecha m al cuidada era o único acesso que ele possuía e olhando o lugar pela prim eira vez pude ver que o diabo daquele gorducho estava a cargo de tudo aquilo. Hom ens brancos com longas varas em suas m ãos apareceram languidam ente entre os edifícios, surgindo para dar um a boa olhada em m im e, então, se retiraram para algum lugar fora de vista. Um deles, um suj eito grandalhão, um cam arada agitado com bigodes pretos, inform ou-m e com grande tagarelice e m uitas evasivas, tão longo eu lhe contei quem era eu, que o m eu vapor se encontrava no fundo do rio. Fiquei estupefato. O que, com o, por quê? Oh, m as estava ‘tudo bem ’. O ‘gerente em pessoa’ estava ali. Tudo m uito correto. ‘Todos se com portaram esplendidam ente! Esplendidam ente!’ Ele ainda m e disse, do alto de sua agitação, ‘você precisa seguir e se encontrar com o gerente geral, o quanto antes. Ele está lhe esperando!’”.

“Em um prim eiro m om ento, não com preendi m uito bem qual o

verdadeiro significado daquele naufrágio. Talvez agora eu perceba, m as, m esm o assim , não com tanta certeza. Certam ente o ocorrido deveria ter sido algo estúpido dem ais – quando se pensa nele – para ter sido algo natural. Mesm o assim ... m as naquele m om ento, parecia sim plesm ente que era um inconveniente em baraçoso. O vapor havia afundado. Dois dias antes, eles tinham zarpado, rio acim a, com o gerente a bordo, sob m ando de um com andante voluntário e, antes que se passassem três horas, rasgaram o fundo da nave em algum as pedras e o afundaram próxim o da m argem sul do rio. Cheguei a m e perguntar o que eu estava fazendo ali, um a vez que agora o m eu barco estava perdido. Na realidade, tinha m uito a ser feito para pescar o obj eto do m eu com ando do fundo do rio. Tinha que com eçar j á no dia seguinte. Tudo aquilo e os reparos, quando consegui trazer as partes para o entreposto, levaram alguns m eses”.

“Minha prim eira entrevista com o gerente foi bem curiosa. Ele não

pediu para que eu m e sentasse m esm o após um a cam inhada de quase trinta quilôm etros àquela m anhã. Possuía aparência, gestos, m aneiras e voz bem norm ais. Sua altura era m ediana e sua constituição bem com um . Seus olhos, de um azul sem nada especial, eram consideravelm ente frios e, com certeza, ele era capaz de lançar um olhar tão penetrante e pesado quanto um m achado. Mas m esm o naqueles tem pos, o restante de sua pessoa parecia rechaçar tal intenção. Por outro lado, havia som ente um a expressão débil e indefinível sobre os seus lábios, algo furtivo – um sorriso – não, um sorriso não – lem bro-m e agora, m as não sei bem explicar. Era algo inconsciente, tal sorriso, em bora se intensificasse por uns instantes logo após ele dizer algo. Ele surgia sem pre ao final de seus com entários, com o um selo aplicado sobre as palavras de m odo a produzir, no significado da m ais com um das frases, um a aparência absolutam ente inescrutável. Ele era um com erciante com um , trabalhando naquelas paragens desde a j uventude – nada m ais. Ele era obedecido, ainda que não inspirasse nem am or, nem tem or, nem m esm o respeito. Ele inspirava constrangim entos. Era isso! Constrangim entos. Não um a desconfiança definitiva – apenas constrangim entos – nada m ais. Vocês não têm ideia de com o um a... um a... qualidade com o esta pode ser. Ele não era nenhum gênio na organização, em iniciativas ou m esm o em dar ordens. O que era evidente pelo estado deplorável do entreposto. Ele não possuía nem estudo, nem inteligência. Seu cargo fora dado a ele, não conquistado... e por quê? Talvez porque ele nunca tivesse ficado doente... Ele tinha servido três tem poradas de três anos cada bem ali naquele lugar... Porque um a saúde triunfante, entre a m iríade geral de constituições, talvez sej a um tipo de poder, afinal. Quando ele se dirigia para casa, ao desem barcar, criava grande confusão – pom posam ente. Um m arinheiro em terra – com um a diferença apenas – em sua aparência. Podia se notar por sua conversa inform al. Ele não conseguia criar absolutam ente nada, m antendo apenas a rotina funcionando – isso era tudo. Mas de qualquer form a, era grandioso. Era grandioso por apenas um detalhe, ou sej a, era im possível descobrir o que era capaz de controlar aquele hom em . Ele nunca chegou a divulgar aquele segredo. Talvez não houvesse nada por dentro dele... vazio. Tal suspeita era o que nos intrigava – um a vez que ali não havia qualquer sinal exterior. Quando, num a ocasião, várias doenças tropicais se abateram sobre quase todos os agentes do entreposto, podia-se ouvi-lo dizer, ‘Os hom ens que vêm para cá não deveriam ter entranhas’. E selava a expressão com aquele seu sorriso peculiar, com o se tivesse aberto um a porta para a escuridão que habitava dentro do seu ser. Vocês poderiam pensar que estivessem vendo coisas – m as a m arca estava lá. Quando se irritou com as constantes discussões dos brancos à hora das refeições sobre quem se serviria prim eiro, ordenou que um a im ensa m esa redonda fosse feita, para qual um a construção especial tam bém teve que ser construída. Era o refeitório do entreposto. Aonde ele se sentasse era o lugar principal – os restantes não possuíam lugar determ inado. Percebia-se que aquela era um a de suas convicções inabaláveis. Não era nem gentil, nem descortês. Era sim plesm ente calado. Ele perm itia que o seu ‘m enino’ – um j ovem negro e gorducho trazido do litoral – se relacionasse com os hom ens brancos, bem diante de seus olhos, com um a insolência provocadora”.

Continuar: parte 3 de 3