O discurso publicitário e as propagandas da Coca-Cola
1 Reflexões sobre gêneros do discurso
1 Reflexões sobre gêneros do
discurso
A língua penetra na vida através de enunciados concretos que
a realizam, e é também através dos enunciados concretos que
a vida penetra na língua.
Bakhtin, 2000, p.282
Origem e história dos gêneros literários
A palavra "gênero", da base indo-europeia gen-, carrega em seu sentido inicial a ideia de "gerar, produzir". Na origem latina, encontramos o substantivo genus, -eris,que tem como significado "linhagem, descendência, estirpe, raça" (Cunha, 1986). Ainda no campo etimológico, Cunha (1986, p.383) considera gêneros como "espécies com caracteres comuns, espécie, ordem, classe".
Ao buscarmos o sentido de gênero, no dicionário, encontramos em Houaiss & Villar (2001) inscrita a ideia de classificação e de estilo, em particular nas artes plásticas e na literatura:
4. art. plást. Cada uma das categorias em que são classificadas
as obras artísticas, segundo o estilo e a técnica usada. (g.
surrealista). 5. Lit. em teoria literária, cada uma das divisões
que englobam obras literárias de características similares
(inicialmente tripartite e já objeto de estudo de Platão e
Aristóteles, é com o Romantismo que os estudos sobre os
gêneros alcançam maior divulgação, sendo também divididos
em três: lírico, épico e dramático; no entanto, o problema de
classificação dos gêneros permanece com o aparecimento, por
exemplo, da narrativa, atualmente considerada como um
gênero proveniente, segundo alguns, do desenvolvimento do
gênero épico. 6. estilo próprio de um artista ou escritor (sua
pintura lembra o gênero de Matisse).
[...]
12. Ret. Divisão e classificação dos discursos segundo os fins
que se tem em vista e os meios empregados.
Embora, no campo da retórica, a definição apresente-se mais abrangente por se tratar da "divisão e classificação dos discursos" de acordo com a finalidade comunicativa e pelos meios empregados em sua constituição, aproximando-se da ideia de gênero como vínculo entre linguagem e atividades humanas, há ainda a prevalência da concepção de gênero como classificação.
A reiteração de termos como "categoria", "classificação", "divisão", "características", "estilo", denota que o conceito de gênero não ultrapassa a noção de espécie, ficando, portanto, inscrito como uma categoria de classificação em que traços comuns, ou seja, características são agrupadas em uma obra artística.
Em Ferreira (1986, p.844) também encontramos uma definição que confirma o exposto acima:
5. Nas obras de um artista, de uma escola, cada uma das
características que, por tradição, se definem e se classificam
segundo o estilo, a natureza ou a técnica: os gêneros literários,
musicais, pictóricos. 6. Classe ou natureza do assunto
abordado por um artista: gênero dramático; gênero romântico.
O conceito de gênero, concebido dessa maneira, traz em seu bojo questões como a tradição, a forma e a estabilidade. Da Antiguidade greco-latina, nos estudos de Platão e de Aristóteles, advém também a ideia de classificação com base em aspectos formais.
O mais antigo conceito de gênero advém de Platão, no livro III de A república,em que apresenta três divisões dentro da poesia, a saber: uma inteiramente imitativa como a tragédia e a comédia; a segunda, considerada não mimética, encontrada principalmente nos
ditirambos1 e que podemos aproximadamente chamar, hoje, de lírica; e, por último, a épica, composta pela mistura das duas primeiras. Nessa divisão, evidencia-se a concepção do gênero como imitação e representação, visto que, para Platão, pode ser constituído pela imitação do discurso de outra pessoa, aproximando-se o máximo possível do estilo imitado ou da narração do próprio poeta.
É importante observar também que essa divisão em três é abolida no livro X da referida obra, quando Platão passa a considerar toda a poesia como mimética. As razões dessa mudança não são esclarecidas pelo filósofo, mas acredita-se que, da redação do livro III para o X, tenha transcorrido um período de tempo durante o qual ele modificou suas concepções a respeito do gênero.
Com Aristóteles, há também uma tentativa de sistematização das "formas" literárias, mas sua Poética ficou incompleta. Desse modo, temos uma ideia aproximada do que seriam os gêneros. Aristóteles tratou da epopeia, da tragédia, da comédia e do ditirambo, mas ocupou-se principalmente da tragédia, seguida da epopeia e da comédia.
Aristóteles estudou os gêneros de acordo com as seguintes modalidades: os meios, os objetos e os modos. A mimese realiza-se de acordo com meios diversos, pois, para o filósofo, a imitação é o fundamento de todas as artes e sua diversificação ocorre segundo os meios utilizados. Por exemplo, na poesia ditirâmbica são utilizados ao mesmo tempo o ritmo, a melodia e o verso, ao passo que na tragédia e na comédia os meios são utilizados separadamente.
Quanto aos objetos diversos da mimese, é possível imitar pessoas nobres ou ignóbeis, virtuosas ou não virtuosas, de índoles elevadas ou inferiores, distinguindo, desse modo, a tragédia da comédia, pois a primeira tende a representar uma ação elevada de homens superiores, enquanto a segunda é a imitação de homens inferiores. Podemos dizer que, ao associar o gênero com as pessoas imitadas como de caráter superior ou inferior, transparecem, mesmo que de maneira tímida, valores sociais que refletem algumas concepções ideológicas da época. Todavia, os valores sociais são apresentados como forma de sistematizar um gênero, dar-lhe uma estrutura fixa.
Por último, os gêneros podem ser constituídos segundo os diversos modos de mimese, ou seja, "o poeta pode, pelos mesmos meios, imitar os mesmos objetos, seja narrando-os – quer assumindo a personalidade de outro personagem, como fez Homero, quer na primeira pessoa, sem mudá-la –, seja permitindo que as personagens ajam elas mesmas" (Aristóteles, 1999, p.39). Assim, Aristóteles considera dois modos fundamentais de mimese poética – um modo narrativo e um dramático.
A divisão apresentada por Aristóteles está fundamentada ora em elementos relativos ao conteúdo, como a distinção entre os objetos imitados na tragédia e na comédia, ora em elementos referentes à forma, como quando separa o processo narrativo usado, por exemplo, no poema épico e o processo dramático empregado na tragédia. Em outros momentos, também se preocupa com o emprego do que considera "adornos", como ritmo, versos, melodia. Entretanto, muitas vezes, verificamos uma preocupação maior com a forma.
Entre os romanos, a questão dos gêneros aparece na Epistola ad
Pisones 2 ,de Horácio, que concebe o gênero literário como uma tradição formal, na qual prevalece o metro, por uma determinada temática e pela relação entre os receptores, mediada por esses aspectos formais e temáticos. Segundo ele, os gêneros deveriam ter estrutura e função estabelecidas por uma lei, ou seja, cada assunto em diferentes gêneros deveria ocupar seu respectivo lugar. Assim, não se deve utilizar um metro próprio da tragédia em um conteúdo cômico, o que evidencia a separação absoluta entre os gêneros, negando qualquer possibilidade de hibridismo e fixando a regra da unidade de tom que prescreve a separação rígida entre os gêneros, como podemos observar nesse trecho:
Se não posso nem sei respeitar o domínio e o tom de cada
gênero literário, por que saudar em mim um poeta? Por que a
falsa modéstia de preferir a ignorância ao estudo? A um tema
cômico repugna ser desenvolvido em versos trágicos; doutro
lado, o 3Jantar dos Tiestesindigna-se de ser contado em
composições caseiras, dignas, por assim dizer, do soco. 4
Guarde cada gênero o lugar que lhe coube e lhe assenta.
(Horácio, 2005, p.57)
Vale ressaltar que, em Horácio, assim como em Aristóteles, não há classificação ternária dos gêneros literários, como Platão havia formulado.
Segundo Silva (1983), foi na Idade Média que a divisão triádica dos gêneros literários, elaborada por Diomedes no século IV, difundiu-se, e, apesar de algumas modificações, é uma cópia da classificação platônica. Desse modo, segundo Diomedes, os gêneros literários podem ser divididos em: genus actiuum uel imitatiuum,como a tragédia e a comédia, por apresentarem apenas aspectos enunciativos dos personagens, sem intervenção enunciativa do poeta; os genus enarratiuum, no qual apenas o poeta fala, representado, por exemplo, pelos livros I-III das Geórgicas,de Virgílio; genus commune uel mixtum, caracterizado pela mistura dos dois gêneros precedentes (os atos enunciativos do poeta e dos personagens), como a Odisseia,de Homero, e a Eneida,de Virgílio.
Como havia o princípio de que toda a poesia estava fundada na mimese, não se concebia a lírica como gênero literário. Porém, do Renascimento até o barroco, essa classificação tripartida dos gêneros, considerada uma verdade inquestionável, foi, progressivamente, sendo modificada pela inclusão da lírica, que, ao lado da tragédia e da epopeia, compõe a acepção moderna de gêneros literários.
No Renascimento, houve um revigoramento dos gêneros advindos da Antiguidade Clássica. Nessa época, entendiam-se os gêneros como formas fixas, mantidas por regras inflexíveis às quais os escritores deveriam obedecer. Assim, cada gênero (dramático, épico e lírico) se subdividia em gêneros menores, mas que se distinguiam uns dos outros pelo rigor de regras que incidiam nos aspectos formais, estilísticos e temáticos. Essas regras seguiam os paradigmas das grandes obras da Antiguidade greco-romana ou as orientações de preceptistas autorizados como Aristóteles e Horácio.
Além da classificação dos gêneros, também havia a hierarquização de valores, colocando, por vezes, a epopeia como gênero maior, ora, seguindo as ideias aristotélicas, a tragédia. Assim, a tragédia, como expressão do estado emocional do homem, suas inquietudes e dores diante do mundo, e a epopeia, exposição do heroísmo de homens nobres, fortes e corajosos, traduzem interesses elevados. Nesse período, a tragicomédia entrou em declínio em virtude de a comédia ser considerada gênero menor, assim como pelo fato de a regra da unidade de tom impedir a mistura dos gêneros.
Entretanto, foi no período do barroco que a polêmica dos problemas do gênero e das regras intensificou-se. Nessa época, admitia-se a possibilidade de criação de novos gêneros ou o desenvolvimento dos já existentes, assim como a valorização dos gêneros mistos, fazendo com que a tragicomédia tornasse uma importante manifestação literária barroca.
Somente no período do romantismo, a noção de gênero sofreu modificações, principalmente com o advento do romance (Moisés, 1999). Da imposição de um modelo, de uma lei clássica, surgiu a liberdade; em lugar do absolutismo, prevaleceu o relativismo; da exigência da norma, emergiu o indivíduo. Nesse momento, aceitou-se a ideia de que os gêneros tradicionais pudessem misturar-se e produzir novos gêneros, como a tragicomédia. Victor Hugo, por exemplo, em Prefácio de Cromwell, condenou a regra da unidade de tom e a pureza dos gêneros em prol do princípio dos contrários presentes na vida, ou seja, o entrelaçamento do belo e do feio, do sublime e do grotesco:
um verso livre, franco, leal, que ousasse tudo dizer sem
hipocrisia, tudo exprimir sem rebuscamento e passasse com um
movimento natural da comédia à tragédia, do sublime ao
grotesco; alternadamente positivo e poético, ao mesmo tempo
artístico e inspirado, profundo e repentino, amplo e verdadeiro;
que soubesse quebrar o propósito e deslocar a cesura para
disfarçar sua monotonia de alexandrino [...]. (Hugo, 1988, p.68)
Nas últimas décadas do século XIX, Brunetière, crítico e professor universitário francês, influenciado pelas ideias evolucionistas de Darwin, defendeu o propósito de que o gênero literário é um organismo que nasce, se desenvolve, envelhece, morre ou se transforma devido ao domínio de outros gêneros mais fortes. Assim, como no processo evolutivo, os gêneros novos poderiam surgir a partir de transformações de gêneros antigos (Lima, 2002 ).
A concepção evolucionista e positivista de gênero foi combatida por Benedetto Croce, que defendia a ideia de que cada obra de arte deve ser vista isoladamente, porque cada obra é única, expressa um estado de espírito individual. É importante ressaltar que Croce denunciou o imperativo das leis clássicas do gênero, os preceitos rígidos da divisão tripartite e, em particular, a ideia de o estudo dos gêneros estar aliado a métodos das ciências naturais.
Ainda no âmbito literário, podemos verificar que o problema dos gêneros continua indefinido, embora no modernismo encontremos maior aceitação do hibridismo dos gêneros. Essa concepção está focada na ideia dos traços estilísticos recorrentes de cada gênero. Assim, em uma obra podemos verificar quais são os que se inter-relacionam por meio de traços que caracterizam a forma.
Novamente deparamo-nos com a concepção de gênero como categoria, classificação, ou seja, é a ideia de família, estirpe que está presente na origem da palavra. O homem, acostumado a classificar e a ordenar, seleciona por meio de características comuns e constantes nas obras literárias o que convencionalmente chamamos de gênero. Criam-se, assim, modelos, estruturas repetidas e repetíveis que se perpetuam ao longo dos tempos. Porém, sabemos que o enunciador também pode modificar essas estruturas, pode movimentar-se e construir enunciados, ora estáveis, ora moventes, mutáveis, modificados, híbridos.
Para a literatura, a tradição ainda é um pano de fundo pelo qual o autor se expressa, mesmo que seja possível imprimir seu estilo à obra criada. Nessa concepção, Moisés (1999, p.248) considera que os gêneros,
ao contrário de espartilhos sufocantes, são estruturas que a
experiência histórica ensina serem básicas para a expressão do
pensamento e de certas formas de encarar a realidade
circundante. Desempenham, assim, função orientadora e
simplificadora: cada escritor encontra à sua disposição um
arsenal de recursos expressivos que lhe facilitam enormemente
a tarefa da comunicação.
A comunicação, nesse contexto, é vista como a relação entre o escritor e seu leitor e, desse modo, o gênero é concebido como uma maneira de unir os dois sujeitos da comunicação, tendo em vista que são formas relativamente estabilizadas, ou seja, funcionam como um código. Ao seguir uma forma tradicional, o escritor pode ser "original" e criar sua obra artística.
Nesse levantamento da origem, dos questionamentos e do desenvolvimento dos estudos sobre gêneros, podemos observar que, de Platão e Aristóteles à teoria literária, a concepção de classificação permaneceu quase inalterada, não fosse a emergência do entendimento do discurso como prática social, como relação intersubjetiva em que os sujeitos da comunicação apresentam diferentes valores sociais, em momentos e espaços diversos. Segundo Bakhtin (2000, p.280), os gêneros literários foram estudados pelo "ângulo artístico-literário de sua especificidade, das distinções diferenciais intergenéricas (nos limites da literatura)" e não pelo contexto sócio-histórico-cultural e, muito menos, relaciona-se com os diferentes fazeres do homem.
É com esse novo olhar sobre o gênero que Bakhtin (1997, p.106) discute a possibilidade de permanência e de renovação dos gêneros, inclusive os literários:
Por sua natureza mesma, o gênero literário reflete as
tendências mais estáveis, "perenes" da evolução da literatura.
O gênero sempre conserva os elementos imorredouros da
archaica. É verdade que nele essa archaica só se conserva
graças à sua permanente renovação, vale dizer, graças à
atualização. O gênero sempre é e não é o mesmo, sempre é
novo e velho ao mesmo tempo. O gênero renasce e se renova
em cada nova etapa do desenvolvimento da literatura e em
cada obra individual de um dado gênero. Nisto consiste a vida
do gênero. Por isso, não é morta nem uma archaica com
capacidade de renovar-se. O gênero vive do presente mas
sempre recorda o seu passado, o seu começo. É o
representante da memória criativa no processo de
desenvolvimento literário. É precisamente por isto que tem a
capacidade de assegurar a unidade e a continuidade desse
desenvolvimento.
Ainda em relação à literatura, o círculo de Bakhtin discute, no texto Discurso na vida e discurso na arte, a correlação entre enunciado artístico e enunciado do cotidiano. Os estudos bakhtinianos referentes à literatura concebem as palavras carregadas de valores sociais, comprovando a ideia de que uma obra literária, assim como o discurso da vida diária, está orientado para os valores axiológicos de uma dada sociedade.
Segundo o filósofo russo, a forma é determinada por avaliações sociais feitas por meio de seleções de palavras que levam em conta a relação intersubjetiva de toda comunicação, ou seja,
julgamentos de valor, antes de tudo, determinam a seleção de
palavras do autor e a recepção desta seleção (a cosseleção)
pelo ouvinte. O poeta, afinal, seleciona palavras não do
dicionário, mas do contexto da vida onde as palavras foram
embebidas e se impregnaram de julgamentos de valor.
(Voloshinov & Bakhtin, [s.d.], p.12)
Por essa perspectiva, o estudo da obra de arte deve levar em conta os sujeitos da enunciação (o poeta e seu ouvinte) e o objeto do enunciado, o herói. Numa crítica aos estudos formalistas, nesse texto considera-se que a forma da obra de arte é privilegiada, sendo considerada a "forma do material". Assim, o conteúdo não é levado em conta e o enunciatário, por esse prisma, passivamente, sente o prazer apenas pela estética da arte. Afirma-se, desse modo, a necessidade de entender a literatura como uma forma de comunicação.
Bakhtin defende a ideia de que ambos os discursos – artístico e da vida – são produtos da interação verbal, sendo impossível dissociar os três elementos que os compõem: o autor/enunciador, o herói e o ouvinte/enunciatário.
Na proposição de um estudo da forma, Bakhtin apresenta dois aspectos relevantes: em primeiro lugar, a forma não deve ser dissociada do conteúdo sob a iminência de se tornar uma experiência esvaziada, e, em segundo lugar, em relação ao material, como a realização técnica dessa avaliação.
Também demonstra que os estudos da forma clássica são hierarquizados, considerando o estilo "alto" ou "baixo", pois, como afirma Bakhtin (Voloshinov & bakhtin, [s.d.], p.14), "os componentes estilísticos mais importantes do herói épico, da tragédia, da ode, e assim por diante, são determinados precisamente pelo status hierárquico do objeto do enunciado, com relação ao falante".
No entanto, não se deve levar somente em consideração o valor hierárquico do material para a determinação da forma artística, mas também a relação entre autor e herói, assim como o fato de o ouvinte exercer influência sobre os outros dois, ou seja, a forma é um produto da vida social. Para Bakhtin, o estilo não é o homem, mas é pelo menos dois homens, isto é, o autor e seu grupo social representado na pessoa do ouvinte. Verificamos, assim, que, ao contrário dos estudos literários sobre os gêneros artísticos, Bakhtin não dissocia vida e arte, comunicação e literatura, embora haja diferenças entre os discursos da vida e os da arte.
Para nosso trabalho, uma questão relevante para o estudo dos gêneros diz respeito ao desenvolvimento de novos meios de comunicação, como os de massa, quando surgiram novas formas de interação e, consequentemente, foram criados novos gêneros, como os jornalísticos, os publicitários e, ainda, os gêneros oriundos do rádio, da televisão e da internet. Também ocorreram modificações, havendo, muitas vezes, um processo de hibridização, provocando instabilidades e novos olhares sobre a concepção de gênero discursivo.
Os gêneros do discurso: uso social da língua
Na esteira dos estudos de Mikhail Bakhtin a respeito dos gêneros do discurso e sua relação com a produção humana e a comunicação, a concepção de gênero já não está mais centrada na forma estática e rígida dos gêneros literários, mas na dinamicidade advinda das diversas possibilidades de atividade do homem.
Assim, o gênero, inserido em um contexto espaçotemporal, é concebido como produção em constante movimento, como diálogo não só entre os sujeitos da comunicação, mas também entre textos, entre discursos.
Bakhtin, ao problematizar a questão dos gêneros do discurso, evidencia justamente a oposição entre a concepção de língua como abstração gramatical e como meio de comunicação. Desse modo, entende que as diversas esferas da atividade humana estão relacionadas com a linguagem, ou seja, o enunciado na esfera do discurso é uma unidade da comunicação humana e não somente uma sentença inscrita na gramática.
Nas palavras de Bakhtin (2000, p.279),
A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais
e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes
duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado
reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma
dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu Entendemos, desse modo, que o gênero não deve ser abstraído da esfera que o cria e o usa, sendo importante conhecer o tipo de atividade, o contexto espaçotemporal e as relações intersubjetivas. Como o tempo é histórico e o espaço é social, os gêneros representam e refratam a realidade de acordo com as manifestações dos sujeitos da comunicação. Novamente, deparamo-nos com as es/instabilidades, pois a forma pode ser entendida como representação estética de uma determinada cultura contextualizada no tempo-espaço e como produto do processo dialógico entre os sujeitos da enunciação.
estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da
língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas
também, e sobretudo, por sua construção composicional.
Ao conceber o enunciado como concreto e único, Bakhtin acentua a noção de acontecimento, de evento, ou seja, cada enunciado só pode ocorrer uma única vez, pois sempre há um novo enunciado emitido em outra situação espaçotemporal, com outros valores sociais, o que caracteriza a linguagem como social.
O enunciado, ao refletir as condições do agir do homem, evidencia a especificidade de cada esfera da atividade humana e a elaboração desses enunciados relativamente estáveis, o que Bakhtin denomina gêneros do discurso.
Por essa concepção, há uma heterogeneidade das práticas da linguagem e, consequentemente, das atividades humanas, daí a dificuldade em traçar limites para os gêneros, visto que, muitas vezes, também há uma hibridização, uma mistura entre diferentes gêneros.
Os gêneros, assim, têm que estar abertos para a mudança, para a remodelação, pois a forma, na concepção bakhtiniana, passa a ser entendida, ao mesmo tempo, como estabilidade e instabilidade, como reiteração e abertura para o novo, pois um gênero novo traz recorrências de gêneros antigos, equilibrando-se entre o estático e o dinâmico.
Nesse processo contínuo de mudança, é possível reconhecer similaridades e recorrências da forma, entendendo, portanto, que os enunciados são relativamente estáveis, mas auxiliam na organização das mais diversas atividades humanas, orientando nosso agir e permitindo que nos adaptemos a novas circunstâncias que, porventura, possamos viver. Há, desse modo, estreito vínculo entre língua e vida, pois "a língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua" (Bakhtin, 2000, p.282).
De acordo com Bakhtin (2000), deve-se considerar também a "visão excedente" ou "exotópica", ou seja, um sujeito é contemplado e completado pelo olhar do outro. Por essa concepção, vemos e sabemos sempre algo que o outro não sabe, devido a sua posição espacial, pois, quando estamos nos olhando, dois mundos diferentes se refletem na pupila dos nossos olhos. Graças a posições apropriadas, é possível reduzir ao mínimo essa diferença dos horizontes, mas, para eliminá-la totalmente, seria preciso fundir-se em um, tornar-se um único homem. Esse excedente constante de minha visão e de meu conhecimento a respeito do outro é condicionado pelo lugar que sou o único a ocupar no mundo: neste lugar, neste instante preciso, num conjunto de dadas circunstâncias – todos os outros se situam fora de mim (Bakhtin, 2000, p.43).
Desse modo, compreender os mais diversos gêneros é também colocarmo-nos no lugar do outro, é identificarmo-nos com o outro a partir de seus valores sociais, de seu tempo, de sua posição no espaço e depois voltarmos para nosso lugar a fim de complementar seu horizonte de acordo com o excedente de nossa visão, de nosso conhecimento, de nosso lugar, de nossos desejos. Pela visão excedente, surge um espaço dialógico entre os sujeitos da comunicação e, como um elo de uma corrente, há atitudes responsivas ativas.
O enunciatário, ao compreender determinado enunciado, concorda, discorda, complementa, confronta, executa atividades ou ordens, deseja certo objeto, orienta sua vida, saindo de sua condição de ouvinte e entrando na condição de falante. Assim, na comunicação verbal, o enunciado é uma unidade real que se inter-relaciona com outros enunciados, em outros momentos, em outros lugares, ou seja, "é apenas através da enunciação que a língua toma contato com a comunicação, imbui-se do seu poder vital e torna-se uma realidade" (Bakhtin, 1999, p.154).
Pela perspectiva bakhtiniana do dialogismo como processo constante da comunicação, os gêneros podem ser caracterizados como heterogêneos, construídos pelos mais diferentes integrantes das atividades sociais e com as mais diversas finalidades.
É devido à extrema heterogeneidade dos gêneros discursivos que Bakhtin sugere a divisão entre gêneros primários e secundários, isto é, os primeiros são simples, do cotidiano, e os segundos são mais complexos, próprios da atividade escrita mais elaborada, como os gêneros artístico-literários, científicos e políticos.
Os gêneros primários, constituintes do diálogo oral, do cotidiano e da linguagem familiar, podem estar inseridos nos gêneros secundários como o romance, no âmbito literário, ou nos discursos publicitários e jornalísticos, no contexto da produção midiática atual. Essa absorção dos gêneros primários pelos secundários possibilita a aproximação destes últimos da comunicação verbal cotidiana. Mais uma vez, deparamo-nos com a possibilidade de mudanças, de transformações, de heterogeneidade dos gêneros.
Os gêneros do discurso: enunciados
relativamente estáveis?
Os gêneros discursivos são constituídos por enunciados relativamente estáveis, cujo objetivo é atender às necessidades da interação verbal. Em vista disso, os elementos componentes do enunciado – conteúdo temático, estilo e construção composicional – estão intrinsecamente ligados aos valores e funções sociais do processo de comunicação.
O estilo, por exemplo, constitui-se pela escolha dos recursos da língua, como as categorias lexicais, morfológicas e sintáticas, de acordo com as finalidades de comunicação e, portanto, com a relação intersubjetiva entre o querer dizer do enunciador e a imagem que ele concebe do enunciatário.
Conforme o gênero, há a possibilidade de maior ou menor individualização do estilo, ou seja, quando a forma é mais padronizada, pode limitar-se a escolha dos recursos linguísticos, e quando menos padronizada, como os gêneros literários, favorece a individualização do gênero.
Também vale ressaltar que o estilo está indissoluvelmente ligado ao conteúdo temático e, consequentemente, aos objetivos de uma dada interação verbal. Nessa ambiência, estilo, intuito discursivo, contexto sócio-histórico-econômico-cultural e a ambientação espaçotemporal não podem ser isolados. Devem, sim, ser considerados elementos importantes para a caracterização de um determinado gênero.
Cada esfera das atividades humanas exige uma construção composicional, a saber, o tipo de relação entre os parceiros da comunicação e, por conseguinte, o tipo de estruturação e de conclusão do todo do enunciado. Assim, ao associar esses elementos como constituintes da interação verbal, não é possível isolá-los, pelo contrário, é necessário pensar nas mudanças do gênero como mudanças no estilo, na estruturação do enunciado e nos temas constituintes dos sentidos dos enunciados.
A alteração do estilo também se relaciona a mudanças sociais e históricas, como o aparecimento de novos meios de comunicação e do desenvolvimento tecnológico que, ao empregar a língua em novas situações comunicativas e com a complementação de recursos audiovisuais e até virtuais, que extrapolam a capacidade humana de se comunicar face a face, renovam e reestruturam o gênero, que passa, assim, também por isso, a ser concebido como um produto mutável do contínuo processo de comunicação humana. Desse modo, o estilo não pode ser confundido com meros recursos gramaticais, ao contrário, deve ser concebido como possibilidades criativas, dinâmicas, inerentes ao processo de interação verbal de acordo com as finalidades de cada práxis humana.
Também entendemos que, ao empregar um determinado estilo, constrói-se o todo do enunciado, que só ocorre por meio da possibilidade de resposta do enunciatário, ou seja, quando há efetivamente uma comunicação e não uma simples construção gramatical, característica da oração isolada, destituída da enunciação.
Cada esfera da comunicação humana tem uma finalidade comunicativa, por isso, há um "intuito discursivo" ou o "querer-dizer" (Bakhtin, 2000) que acaba determinando o todo do enunciado, limitando ou abrindo os caminhos da enunciação. Na relação dialógica entre os sujeitos da comunicação são feitas escolhas linguísticas e, nesse trabalho, consideraremos também as escolhas audiovisuais quando se tratar da linguagem sincrética. A comunicação passa, então, a se constituir como um processo vivo, dinâmico, em constantes mudanças e transformações de acordo com a sociedade em que está inserida. Do mesmo modo, os gêneros também são mutáveis, flexíveis, em contraposição às formas abstratas da língua em estado gramatical ou dicionarizado.
A estabilidade relativa dos gêneros evidencia a dificuldade de delimitar formalmente os gêneros do discurso. Em contrapartida, é a mesma relativa estabilidade que possibilita nossa participação nos mais diferentes campos de atividades humanas, pois podemos nos comunicar para a concretiza ção de nosso fazer. Assim, ao dominarmos um determinado gênero – por exemplo, um documento oficial –, conseguimos participar de certos grupos sociais, em atividades como solicitação, deferimento, indeferimento, comunicados, entre outras.
Caso não haja domínio dessa forma do gênero, não há participação, não há comunicação, não há o fazer humano. Portanto, não há como desvincular a práxis humana do ato comunicativo, não há como existir e se inter-relacionar com o outro sem o conhecimento dos gêneros e dos enunciados concretos que o constituem.
Para Bakhtin (2000), a compreensão ativa está indissoluvelmente ligada a três fatores, a saber: o tratamento exaustivo do tema, o intuito do enunciador e as formas típicas de estruturação do acabamento do gênero.
O tratamento exaustivo do tema depende do tipo de gênero caracterizado, como mencionado anteriormente, em primário ou secundário. A maleabilidade vai depender do contexto espaçotemporal, da criatividade do enunciador e das possibilidades ou impossibilidades de alteração do enunciado devido a coerções de ordem social. Daí vem a concepção de que o domínio da língua não pode estar estreitamente vinculado à forma estática gramatical, mas ao fluxo dinâmico e vivo da comunicação diária, como também do conhecimento dos gêneros, sem o qual é impossível modificá-los.
Já os enunciados que compõem os gêneros secundários exigem maior criatividade e elaboração da linguagem, mesmo porque também estão vinculados ao querer-dizer do enunciador. Um romance, uma carta, uma propaganda, por exemplo, não têm como objetivo único manter uma interação verbal, mas, muitas vezes, têm como princípio convencer, seduzir o outro, ou, até mesmo, proporcionar contemplação da estética, visto que há a possibilidade, nas artes literárias, de "manipular" as palavras para a criação do "belo".
Assim, o intuito discursivo vincula-se à forma do gênero escolhido, ou seja, ao todo do enunciado, à sua estruturação. Há a necessidade da relativa forma padrão para que possamos nos orientar quanto à nossa participação social. O enunciado reflete também a expressão de emoções, de valores axiológicos e de ideologias, pois, para Bakhtin (1999, p.41), "o signo reflete e refrata a realidade em transformação".
Como mencionado anteriormente, a comunicação só se efetiva quando adquire significação interindividual, isto é, quando há o diálogo intersubjetivo, a resposta ativa do enunciatário. Para isso, é importante a experiência individual associada ao processo constante de interação verbal, pois, dessa maneira, incorporamos a palavra do outro, modificando-a ou assimilando-a.
Ainda em relação ao intuito discursivo, há que se levar em consideração que o estilo e a composição estão ligados ao valor atribuído pelo enunciador a um determinado enunciado, ou seja, à expressividade, às entoações dadas, enfim, ao caráter emotivo, valorativo e expressivo desse enunciador que, preocupado com o destinatário e com sua reação-resposta, acaba por empregar ou não determinados recursos linguísticos. De acordo com Bakhtin (2000, p.321),
enquanto elaboro meu enunciado, tendo a determinar essa
resposta de modo ativo; por outro lado, tendo a presumi-la, e
essa resposta presumida, por sua vez, influi no meu enunciado
(precavenho-me das objeções que estou prevendo, assinalo
restrições, etc). Enquanto falo, sempre levo em conta o fundo
aperceptivo sobre o qual minha fala será recebida pelo
destinatário: o grau de informação que ele tem da situação,
seus conhecimentos especializados na área de determinada
comunicação cultural, suas opiniões e suas convicções, seus
preconceitos (de meu ponto de vista), suas simpatias e
antipatias, etc.; pois é isso que condicionará sua compreensão
responsiva de meu enunciado.
O enunciador, sob influência do enunciatário, seleciona os recursos linguísticos de que necessita para a constituição do todo do enunciado concreto. O estilo, nessa perspectiva, não é somente um recurso linguístico, gramatical, preso à forma, mas contribui para a construção dos mais diversos gêneros. Desse modo, de acordo com Bakhtin, a estilística tradicional ignora esses aspectos do enunciado, daí a exigência de um estudo do enunciado dentro de uma cadeia comunicacional.
O estilo: individual ou coletivo?
Como foi dito anteriormente, Bakhtin critica a estilística tradicional, que considera o estilo como uma atividade individual, centrada na pessoa do enunciador, ignorando, desse modo, a relação intersubjetiva, o coletivo, enfim, o dialogismo que configura um dos pontos centrais da teoria do Círculo de Bakhtin. Por essa razão, consideramos conveniente rever alguns estudos sobre estilo a fim de repensarmos sua concepção e importância na constituição do enunciado concreto.
Na Arte retórica,de Aristóteles, verificamos no capítulo II, "Das qualidades do estilo", que uma das qualidades sugeridas pelo autor, além da clareza e da resistência em utilizar nomes rasteiros ou empolados, é dar ao discurso um ar estrangeiro, "uma vez que os homens admiram o que vem de longe e que a admiração causa prazer" (Aristóteles, 1964, p.189).
Por essa perspectiva, compreende-se estilo como desvio do que é comum para a construção de um discurso individual, pessoal, devido às escolhas linguísticas realizadas. Também não se pode deixar de mencionar o caráter normativo presente nos estudos aristotélicos, visto que ele apresenta algumas condições para que o discurso tenha qualidades e consiga convencer seu ouvinte. Assim, há capítulos em que o filósofo grego trata da beleza, da frieza, da conveniência do estilo, além do estilo próprio de cada gênero. Há também o estudo sobre as figuras de retórica, consideradas expressões capazes de separar o bom estilo do mau. As metáforas, por exemplo, pela concepção aristotélica, podem ser um meio para dar "clareza, agrado e o ar estrangeiro" ao discurso e, assim, fugir do modo comum de se comunicar.
Já no contexto da retórica como crítica literária, partindo da etimologia, Tringali (1988, p.114) lembra que
estilo se origina da palavra latina "stilus" que significa estilete,
uma espécie de ponteiro que servia para escrever em tabuinhas
enceradas, equivalentes a um caderno de notas. A parte
posterior do estilete era achatada para apagar alisando a cera.
Do sentido de instrumento para escrever, caneta, passa a
significar modo individual de cada um escrever, modo peculiar
como cada um usa a língua.
O estilo aparece novamente como modo individual de escrever e, nessa concepção, Tringali entende que o estilo se realiza no plano da expressão, da atividade linguística, tendo em vista as escolhas feitas e as combinações linguísticas. Opõe-se à gramática, pois enquanto o estilo supõe essas escolhas e combinações, a gramática dita o que deve ser ou não ser enunciado, ou seja, as regras que compõem a norma padrão.
Ainda numa visão tradicional, podemos citar Mattoso Câmara Jr., que critica Saussure por privilegiar a langue e deixar de lado a parole, a função expressiva e a de apelo. A língua, nesse contexto, é entendida como um sistema organizado comum a todos, em oposição à fala, que é "um conglomerado de fatos assistemáticos" (Câmara Jr., 1977, p.9). Assim, Mattoso Câmara Jr. (1977, p.13) considera o estilo como "a definição de uma personalidade em termos linguísticos", ou seja, estilo é a exteriorização afetiva de um enunciador e o impulso de fazer com que o enunciatário partilhe da
emoção, o que caracteriza a função de apelo.5
Desse modo, Mattoso Câmara Jr. concebe a estilística como um complemento da gramática, pois o falante utiliza-se de um sistema linguístico de representação e, ao mesmo tempo, emprega-o para seus impulsos expressivos e de acordo com ele. Em vista disso, Mattoso expõe três tarefas da estilística, a saber: a caracterização de uma personalidade a partir dos estudos da linguagem, isolamento dos traços linguísticos individuais e interpretação dos dados expressivos que constroem o estilo individual.
A primeira tarefa apresentada por Mattoso caracteriza os estudos de
Vossler e Leo Spitzer;6 na segunda há a presença das ideias de estilística de Marouzeau, que considera o estilo proveniente das escolhas dos usuários da língua de acordo com as possibilidades linguísticas colocadas à disposição de suas necessidades. Por fim, na terceira há a concepção de Charles Bally, que Mattoso considera cheia de "sugestões fecundas", visto que Bally volta-se para os aspectos afetivos da língua, ou seja, é função da estilística estudar os fatos de expressão da linguagem organizada do ponto de vista da afetividade.
Ainda, de acordo com Mattoso,
A personalidade linguística caracteriza-se pelos traços não
coletivos do seu sistema e pela manifestação psíquica que
funciona em sua linguagem. Por outro lado, os traços não-
coletivos do sistema são fáceis ou antes, inelutavelmente
transpostos para o plano da emoção e da vontade expressiva.
A liberdade que a língua faculta num ou noutro ponto permite-
nos ser originais continuando, pelo menos, inteligíveis; e essa
oportunidade o nosso espírito logo aproveita para o fim de suas
exigências expressivas. (Câmara Jr., 1977, p.16)
Ao levantar essas questões entre o individual e o coletivo, Mattoso concebe a ideia de que o individual está ligado ao mundo dos sentimentos, da expressão, mas o coletivo, que está na langue saussuriana, deixa marcas em nossa expressividade, pois "estamos por demais impregnados na atmosfera social por apresentar a esse respeito uma originalidade a cem por cento" (Câmara Jr., 1977, p.16). Ainda citando Mattoso Câmara Jr. (ibidem), "o estilo individual se esbate, assim, no estilo de uma época, de uma classe, de uma cidade, de um país".
Brandão (2005), ao discutir estilística e gêneros do discurso, aponta algumas ambiguidades presentes nas concepções de Mattoso, entre elas a posição assumida por ele de que o estilo está em qualquer tipo de manifestação de linguagem, mas seu corpus é a análise do texto literário (estudos machadianos) e não a linguagem comum. Também menciona a ideia de que o estilo, para Mattoso, é um desvio e que o texto literário é o mais propício à análise desses desvios. Mais uma vez, esse estudioso descarta o estudo do estilo em diferentes manifestações comunicativas. Desse modo, Brandão (2005, p.14) afirma que Mattoso, "embora tenha colocado a tensão entre o coletivo e o individual que a noção de estilo suscita, não aparece em suas preocupações a problemática do gênero [...]", uma questão importante para os estudos do discurso e a relação gênero/estilo.
Possenti, em seus estudos sobre o estilo na linguística, levanta um ponto importante: tanto os gramáticos como os linguistas têm como ponto de referência a dicotomia língua/fala ou os estudos das funções da linguagem, ou seja, são colocados como elementos opostos a gramática e o estilo. Possenti também menciona o fato de que alguns linguistas, entre eles Bally e Mattoso Câmara Jr., entendem o estilo como um fato da língua, mas acabam seguindo o mesmo raciocínio, pois, mesmo que estudem somente a langue ou a parole, utilizam as funções da linguagem para os estudos estilísticos.
Dessa maneira, para Possenti, a concepção de estilo de Mattoso não é adequada, visto que é compreendida como desvio da norma e
concorre para a individualização de uma personalidade,7 sendo, portanto, concebida como complemento da gramática. É justamente do conceito de estilo como desvio e sua colocação fora da gramática que Possenti discorda. Para ele, os estudos sobre estilo devem partir da ideia da variabilidade dos recursos da língua para a constituição de efeitos de sentidos de acordo com as necessidades e intenções do enunciador, pois
o falante tem um papel, não só o contexto ou a classe a que
pertence. Se não é verdade que ele não está livre das regras
linguísticas nem das sociais, também é verdade que as regras
linguísticas lhe permitem espaços e as regras sociais lhe
permitem pelo menos aspirações, representações e, mesmo,
rupturas de regras [...]. (Possenti, 1993, p.198)
Também não podemos deixar de mencionar os estudos sobre estilo dos formalistas russos, que exerceram grande influência nos anos 1920, como Chklóvski, Boris Eikhenbaum, Tinianov e Roman Jakobson. Este último, um grande propagador das ideias dos formalistas russos no Ocidente, desenvolveu um estudo sobre as funções da linguagem.
Para os formalistas, importa o binômio produtor-produção, com ênfase neste último elemento, ou seja, o importante é o processo da organização de uma obra literária, sua forma, em detrimento de qualquer análise extralinguística, contextual. Assim, a literariedade é o objeto de estudo dos formalistas, isto é, aquilo que transforma uma obra em literatura. É justamente nesse ponto, a rejeição de fatores externos à obra literária, que Bakhtin discorda dos formalistas. Enquanto, para Bakhtin, a linguagem está carregada de valores sociais e o enunciado, não acabado, depende de relações intersubjetivas, para os formalistas, o texto é a forma, relações entre elementos do texto.
Para o levantamento dos estudos sobre estilo, vale ressaltar os estudos de Roman Jakobson a respeito das funções da linguagem no texto Linguística e poética, publicado originalmente em Style in Language, organizado por Thomas A. Sebeok.
Jakobson prefere poética e função poética a estilística e estilo, por julgar estes últimos termos imprecisos e prejudicados pelo uso excessivo e indiscriminado. Inicia sua discussão associando Poética e Linguística e explicando que a "Poética trata dos problemas da estrutura verbal [...]" e, "como a Linguística é a ciência global da estrutura verbal, a Poética pode ser encarada como parte integrante da Linguística" (Jakobson, 2003, p.119).
Para esse estudioso, a linguagem deve ser estudada em todas as suas funções e, para isso, apresenta o sistema de comunicação e seus seis fatores (remetente, destinatário, contexto, mensagem,
contato e código). Cada fator representa uma função da linguagem. 8 As funções podem ocorrer simultaneamente, com prevalência de determinada função em relação a outras de acordo com cada enunciado.
Ao apresentar as seis funções da linguagem, Jakobson centra-se no estudo da função poética e sua relação com a Linguística, afirmando que
qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à
poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma
simplificação excessiva e enganadora. A função poética não é a
única função da arte verbal, mas tão somente a função
dominante, determinante, ao passo que, em todas as outras
atividades verbais ela funciona como um constituinte acessório,
subsidiário. (Jakobson, 2003, p.128).
Ao questionar o critério linguístico empírico da função poética, Jakobson diz que é necessário recordar os dois modos básicos de arranjos usados no comportamento verbal, a seleção e a combinação, ou seja, "a função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação" (2003, p.130). Em outras palavras, os dois eixos de organização da linguagem, o paradigmático e o sintagmático, são definidos pela seleção e pela combinação. Assim, a função poética se realiza como um "desvio" da normalidade, como um estranhamento, como uma novidade. É justamente essa concepção de que a função poética é efeito de sentidos diferentes da normalidade que pode ser relacionada com o estilo. Estilo, nessa perspectiva, é escolha, mas também é combinação, possibilidade de desvio da linguagem.
Sem a pretensão de apresentar todos os possíveis estudos sobre estilo, podemos, nesse momento, dizer que o estilo, nos estudos tradicionais, ora é concebido como subjetivação, visto ser entendido como escolha individual do enunciador, ora como desvio do sistema de uma língua. Também traz, na maioria das vezes, embutida a concepção da dicotomia saussuriana língua/fala e de que a estilística é complemento da gramática. Além do mais, o objeto dos estudos da estilística é o texto literário, embora, algumas vezes, estudiosos sobre o assunto admitam a existência de estilo em outros gêneros.
Antes de tratarmos da concepção de estilo de Bakhtin, apresentamos os estudos de Norma Discini, que, pela perspectiva da Semiótica de base greimasiana e utilizando o percurso gerativo de sentido, busca reconstruir o efeito de individuação de uma totalidade para níveis de reconstrução de sentido – fundamental, narrativo, discursivo. Diferentemente dos estudos tradicionais, Discini não se pauta por princípios norteadores da estilística clássica, como a manifestação textual em si mesma (preconizada pelos formalistas), amostras de sintagmas expressivos ou a psicologia de um escritor, nem somente na análise do discurso literário. Pelo contrário, busca depreender o estilo das imprensas ditas séria e sensacionalista.
Embora entenda que o estilo é um fenômeno da relação entre plano de expressão e plano de conteúdo, não pode se restringir somente a aspectos de textualização. Pelo contrário, a pesquisadora propõe "desfazer a dicotomia estilística linguística vs. estilística literária" (Discini, 2003, p.27), utilizando, como já mencionamos, os instrumentos da Semiótica greimasiana. Inicialmente, faz parte de sua proposta encontrar o resultado da individuação por meio da análise das recorrências formais das relações na construção do significado, depois refletir sobre o estilo como a construção de um sujeito para uma totalidade de discursos.
Ao validar a importância do sujeito na construção de um estilo como efeito de sentido produzido no e pelo discurso, emerge daí tanto o sujeito da enunciação, concebido como ator da enunciação, quanto o enunciatário com seu fazer interpretativo. Desse modo, valores sociais são colocados em discurso, assim como se delineia a imagem do ator da enunciação construída de si-mesmo e também do outro, isto é, há um simulacro reflexivo (a imagem construída do ator sobre si-mesmo) e um simulacro construído (suposição da visão que se tem do outro, assim como o que se pensa que o outro tem de mim).
Para Discini (2003, p.30), "estilo é ethos, é corpo, é voz, é caráter" que, depreendido de uma totalidade enunciada, acaba por remeter ao corpo do ator da enunciação, criando um efeito de identidade, ou seja, "construir um estilo na enunciação é [...] dar um corpo a uma totalidade e tomar o corpo dessa totalidade; assumir, enfim, o ethos de uma totalidade" (Discini, 2003, p.58).
Para descrever o estilo como efeito de individuação dado por uma totalidade de discursos enunciados, Discini emprega as grandezas unus, totus, nemo, propostas por Brøndal e concebidas como homologações dos universais quantitativos. Assim, parte do unus, unidade integral de uma totalidade, que, recortada pela leitura, evidencia a relação intersubjetiva entre enunciador e enunciatário e, consequentemente, cria-se o efeito de individuação. Por meio desses procedimentos, Discini verifica que, no estilo, o todo está nas partes – o unus pressupõe o nemo, unidade partitiva, e ambos relacionam-se com o totus, totalidade integral, ou seja, ao tratar de estilo, recorre-se à unidade, ao efeito de individuação, mas também à totalidade, visto que há um conjunto de discursos, pressupostos à unidade. Como afirma Discini (2003, p.35):
O totus, 'onde as partes são indistintas ou dominadas', é
unificado, em estilo, por uma recorrência de um modo de dizer,
que emerge da recorrência de um dito. Desse eixo totus/unus
desponta o efeito de individuação, base do estilo. Desse eixo
desponta o ethos constituinte do efeito de sujeito de uma
totalidade.
Com o objetivo de verificar a recorrência de procedimentos na construção de um estilo como efeito de sentido, ou seja, de que modo as relações sintáticas e semânticas do plano de expressão, em conjunto com o plano de conteúdo, determinam o sentido de cada texto e, por extensão, o sentido de vários textos, torna-se necessária a presença de uma norma, não como prescrição, como obrigatoriedade, mas como uma "abstração dada pela recorrência de um modo 'único' de fazer e de ser, inerente a uma totalidade" (Discini, 2003, p.37).
Interessa, assim, a norma, nos estudos estilísticos, como "abstração tirada do uso" (Discini, 2003), o que evidencia o fazer de um sujeito, assim como seu modo de ser. São instalados, em um enunciado, valores e crenças dos dois sujeitos da enunciação – enunciador e enunciatário – ou, ainda, um corpo que, colocado implicitamente num enunciado, apresenta a relação intersubjetiva. Instauram-se, então, narrador e narratário, concebidos como subjacentes ao ator e definidos pela totalidade de seus discursos. O ator da enunciação não é um "eu", pois só se concretiza na relação enunciador/narrador vs. narratário/enunciatário, todos implícitos no discurso.
Por essa perspectiva, a individuação do estilo se realiza na interação com o outro, o que se aproxima da concepção bakhtiniana, que, além de conceber a ideia de que o estilo está nos mais diferentes gêneros, de acordo com cada esfera da atividade humana, também entende que ele está fundado na relação
intersubjetiva.9
Para o filósofo russo, estudar o estilo não é mera busca de traços estilísticos presentes em discursos literários. Pelo contrário, o estilo é entendido como a possibilidade de escolhas para a construção de enunciados que, inseridos no fluxo da comunicação verbal, respondem a outros enunciados, são inacabados, carregam as mais diversas axiologias e vozes sociais.
O enunciador não somente escolhe as palavras que, na concepção aristotélica, dão um "ar estrangeiro" ao discurso, ou, como Mattoso e Jakobson assinalam, são uma possibilidade de desvio da língua, mas escolhe-as e constrói seus discursos em relação direta com a vida. Nas palavras de Bakhtin (2000, p.208-9), o estilo, na perspectiva da arte,
não trabalha com as palavras, mas com os componentes do
mundo, com os valores do mundo e da vida; podemos defini-lo
como o conjunto dos procedimentos de formação e de
acabamento do homem e do seu mundo, e esse estilo
determina também a relação com o material, com a palavra,
cuja natureza deve, naturalmente, ser conhecida para se
compreender essa própria relação.
Podemos transpor essa concepção de estilo artístico para outras esferas da atividade humana, ou seja, para outros gêneros. Assim, um estilo pode marcar uma determinada posição do enunciador diante do mundo e de seus acontecimentos. O enunciador faz, portanto, escolhas linguísticas que constroem um efeito de sentido caracterizador de valores sociais e ideologias. Nesse contexto, não podemos descartar as relações intersubjetivas, visto que, por meio de constantes e repetidas interações, o homem marca sua relação com o mundo e com o outro, ou seja, a ideologia se constitui. Miotello (in Brait, 2005, p.175), a respeito das reflexões bakhtinianas sobre ideologia, afirma:
o meio social envolve, então, por completo o indivíduo. O
sujeito é uma função das forças sociais. O eu individualizado e
biográfico é quebrado pela função do outro social. Os índices
de valor, adequados a cada nova situação social, negociados
nas relações interpessoais, preenchem por completo as
relações Homem ×Mundo e as relações Eu ×Outro.
A partir da concepção de que há os mais diversos gêneros discursivos, de acordo com as diferentes esferas das atividades humanas, o estilo está presente nesses diferentes gêneros. Assim, o objeto da estilística não podem ser somente os gêneros do discurso literário, mas qualquer outro gênero, desde que se conceba a ideia de que estilo não apresenta somente a relação do enunciador com a língua, mas também sua relação dialógica com o mundo, com o outro, ou seja, com os valores sociais.
De acordo com Brait (2005, p.96), a perspectiva do estudo do estilo nos mais diferentes gêneros se justifica porque:
justamente pelo seu alcance discursivo, pode ser trabalhada em
textos produzidos nas mais variadas esferas, nas diferentes
atividades englobadas por essas esferas, como condição para
compreender tanto a atividade em suas invariáveis quanto os
sujeitos que nela atuam e que, apesar de todas as coerções,
interferem, atuam estilisticamente na movimentação dessa
esfera, de suas atividades, de seus gêneros.
Dessa maneira, adotamos a perspectiva bakhtiniana de estilo por considerarmos ser possível estudar os gêneros publicitários, nosso objeto de estudo, para além de seus recursos linguísticos, ou seja, podemos analisar a linguagem sincrética que configura esse discurso, como as imagens, os movimentos da câmera, os sons, etc. e, ainda, responder, entre outras, às seguintes questões: Como são articuladas as diferentes linguagens que compõem os gêneros publicitários? Até que ponto a imagem interfere na linguagem verbal? Quais são os sentidos construídos, por meio de diferentes linguagens (verbais e não verbais), dos gêneros publicitários, em especial as propagandas da Coca-Cola?
Entendemos que esse estudo é possível somente porque o estilo não está fundado na individualidade, mas no coletivo, nas relações intersubjetivas, enfim, no diálogo. O diálogo que nos faz responder a outros enunciados, que nos faz enxergar o outro, que nos auxilia no acabamento dos enunciados, que nos contextualiza no tempo e no espaço.
Os gêneros do discurso publicitário
Como vimos anteriormente, a concepção de Mikhail Bakhtin sobre gêneros do discurso está centrada na ideia da comunicação, da relação intersubjetiva, ou seja, todo discurso é dialógico porque pressupõe a presença do outro que pode ser a figura do enunciatário para quem o enunciador ajusta seu enunciado ou, ainda, outro discurso. Dessa perspectiva, o discurso é social e está sempre associado a um contexto e a categorias espaçotemporais.
Assim, as mais diversas atividades humanas estão sempre relacionadas com a utilização da linguagem, daí a necessidade de enunciados relativamente estáveis, que compõem os gêneros do discurso, para a concretização do agir humano. Desse modo, os gêneros do discurso e as atividades humanas são mutuamente constitutivos, já que, por essa concepção, é impossível conceber qualquer atividade desvinculada da linguagem, do fluxo ininterrupto da comunicação.
Por essa perspectiva, podemos pensar nos gêneros do discurso publicitário, embora Bakhtin não os tenha estudado. Além do mais,
devido às ideias de heteroglossia10 e heterogeneidade, é possível considerar, como objeto de análise, não somente a linguagem verbal, mas também a não verbal, assim como os mais diversos meios existentes nos últimos tempos, como a televisão, o rádio, a internet.
Os gêneros do discurso publicitário fazem parte do que hoje chamamos de comunicação de massa e estão constantemente presentes em nosso cotidiano: ao folhearmos uma revista, ao lermos um jornal, no momento em que passamos por ruas e avenidas e nos deparamos com outdoors anunciando os mais diversos produtos ou, ainda, quando ligamos a televisão e os comerciais televisivos invadem nossas casas.
Na maioria dos casos, os anúncios publicitários que compõem esse universo são comerciais, ou seja, têm como objetivo comum vender um produto, promover uma marca com a finalidade de aumentar o faturamento de determinada empresa ou de criar um clima de fidelidade do consumidor com esse produto. Há outros tipos de propagandas, as chamadas propagandas não comerciais ou de ideias, como as propagandas institucionais ou governamentais.
Segundo Brown (1971, p.12), a palavra propaganda "origina-se do latim propagare, que significa a técnica do jardineiro de cravar no solo os rebentos novos das plantas a fim de reproduzir novas plantas que depois passarão a ter vida própria". Depois, o termo foi utilizado pela Igreja Católica no sentido de propagação da fé católica a povos pagãos, pois, em 1633, o papa Urbano VIII instituiu uma comissão de cardeais, chamada Congregatio de Propaganda Fide, conhecida também como Congregação da Propaganda.
Briggs e Burke (2004) entendem que a propaganda pode ser concebida como a mobilização consciente da mídia cujo objetivo é mudar atitudes. Também relatam que, no fim do século XVIII, o termo propaganda ganhou um sentido pejorativo, pois, na época da Contra-Reforma, os protestantes o empregavam para descrever as formas de propagação da fé católica.
Na concepção de propagar ideias e informações para a venda de determinado produto, há também a prerrogativa de criar necessidades no consumidor. Assim como existem as necessidades materiais, caracterizadas pela urgência em nos alimentar, proteger-nos ou vestirmo-nos, há também as sociais, ou seja, aquelas que envolvem o desejo de felicidade, de amor, de bem-estar, etc.
Dessa maneira, consumir determinado produto não é só satisfazer as necessidades materiais, mas também satisfazer nossas vontades sociais, é ter a "certeza" de que estamos inseridos num grupo social, de que somos aceitos ou admirados por esse grupo.
Para Baudrillard (2002, p.174), "a publicidade tem como tarefa divulgar as características desse ou daquele produto e promover-lhe a venda. Essa função 'objetiva' permanece em princípio sua função primordial". Entretanto, e por causa dessa função, a publicidade também promete, cria desejos, aproxima o enunciatário do meio social no qual deseja estar inserido.
Podemos dizer que os enunciados que compõem os gêneros do discurso publicitário estão intrinsecamente ligados a seu(s) enunciatário(s) e, assim, as escolhas linguísticas ou audiovisuais são importantes para a construção do estilo. O estilo, desse modo, contribui para que determinado produto apresente alguns valores sociais considerados positivos. Ainda nos estudos sociológicos, Baudrillard diz que há a "lógica do Papai Noel", ou seja, a lógica da fábula e da adesão, pois não mais acreditamos nela, mas ainda mantemos tal fábula. É a concepção de que a sociedade é maternal para com todos os indivíduos, visto que aparenta adaptar-se a nossos desejos, a nossos sonhos, a nossas aspirações.
Assim sendo, os gêneros do discurso publicitário buscam "declarar o produto como parte integral de grandes processos e objetivos sociais" (McLuhan, 1969, p.255), aproximando-se do consumidor e esperando dele uma resposta. E, ainda nas palavras de McLuhan (idem, p.260), a propaganda, "em lugar de apresentar um argumento ou uma visão particular, [...] oferece um modo de vida que é para todos ou para ninguém".
Os gêneros do discurso publicitário, nessa perspectiva, podem ser considerados "democráticos", pois, como menciona Baudrillard, podem ser ofertados a todos, mesmo sabendo que o produto anunciado é para ser vendido. Assim, a publicidade, por meio de imagens, busca satisfazer os anseios de grande número de pessoas ou, em relação a determinados produtos, de um grupo social específico.
A imagem é um elemento importante na constituição da construção composicional de um enunciado dos gêneros publicitários, pois, por meio dessa linguagem não verbal, é possível evocar o vazio provocado pelos anseios das necessidades sociais. Para Baudrillard (2002, p.186):
O olhar é a presunção do contato, a imagem e sua leitura são
presunção de posse. A publicidade assim não oferece nem uma
satisfação alucinatória, nem uma mediação prática para o
mundo: a atitude que suscita é a de veleidade enganada –
empresa inacabada, ressurreição contínua, defecção contínua,
auroras de objetos, auroras de desejos. Todo um rápido
psicodrama se desenrola na leitura da imagem. Ela, em
princípio, permite ao leitor assumir sua passividade e
transformar-se em consumidor. De fato, a profusão de imagens
é sempre usada para, ao mesmo tempo, elidir a conversão para
o real, para alimentar sutilmente a culpabilidade por uma
frustração contínua, para bloquear a consciência mediante uma
satisfação de sonho.
Desse modo, a imagem, uma linguagem não verbal, própria da comunicação mediada, sendo elemento importante para a construção de sentido de uma propaganda, auxilia na interação entre os sujeitos da enunciação. Mais do que "ilustrar" determinada cena enunciativa, ela provoca desejos que levam à associação da realização dos sonhos com o produto anunciado. É importante ressaltar que a evocação do vazio advinda das necessidades sociais não é exclusiva da imagem, como aborda Baudrillard, mas também da linguagem verbal, que, por meio de uma construção discursiva, leva aos sonhos e provoca desejos.
Mas se a propaganda impressa, por meio de imagens estáticas, já provoca "atitudes responsivas" do enunciatário, seja por meio da compra do produto, seja pela constante lembrança da marca, ou ainda pela polêmica que certo enunciado publicitário pode provocar, como é o "diálogo" da propaganda televisiva, em seu jogo sinestésico acentuado, com o interlocutor?
O anúncio televisivo diferencia-se da propaganda impressa11 pelas diversas linguagens sincréticas que o compõem, a saber: a imagem em movimento, as cores, os sons, a fala, as músicas. Essa pluralidade de linguagens transforma os gêneros do discurso, alterando também as relações intersubjetivas. Todos os jogos de imagens em movimento aliados aos recursos sonoros seduzem o enunciatário por meio dos sentidos, das sensações provocadas.
McLuhan considera a televisão como um meio frio 12 que envolve o enunciatário, pois, como bombardeia impulsos luminosos, apresenta baixo teor de informação, daí a necessidade da participação do telespectador. É uma "trama em mosaico", por isso,
a imagem da TV exige que, a cada instante, "fechemos" os
espaços da trama por meio de uma participação convulsiva e
sensorial, que é profundamente cinética e tátil, porque a
tatilidade é a inter-relação dos sentidos, mais do que o contato
isolado da pele e do objeto. (McLuhan, 1969, p.352)
Essa relação da imagem televisiva com os sentidos está embasada na concepção de McLuhan de que o meio é a mensagem, ou seja, não é a mensagem a produtora dos efeitos sobre o homem, mas, sim, o meio técnico que é a fonte básica dos efeitos e uma extensão dos sentidos do ser humano.
Não podemos deixar de mencionar que essa concepção de que o meio é a mensagem revela a preocupação de McLuhan a respeito do avanço tecnológico e de como esses novos meios, como extensões de um de nossos sentidos, provocam mudanças em nossas ações e em nossa forma de interagir com a sociedade. Vivendo na época do aparecimento da televisão e de várias mudanças tecnológicas, a questão da linguagem verbal não desaparece na perspectiva de McLuhan. Pelo contrário, o autor compara o meio impresso com outros meios, como a fotografia, o cinema e a televisão.
Sem deslocar nosso foco do estudo da linguagem verbal nesta pesquisa, importa conceber que um meio pode modificar nossas relações sociais, além de criar novas formas de interação entre os homens, visto que a tecnologia auxilia na construção de enunciados, como é o caso da televisão e, mais recentemente, da internet.
As interações humanas saíram do âmbito direto, do diálogo face a face, para um diálogo que pode ocorrer à distância, entretanto continua a ideia de que qualquer enunciado é "prenhe de resposta" (Bakhtin, 2000), pois a interação, e por extensão a compreensão, só ocorre a partir da intersubjetividade, da resposta do outro.
O importante é observar que nenhum meio será capaz de substituir outro, mas é possível haver transformações. Segundo Santaella (2003, p.135),
a história não tem cessado de nos mostrar que qualquer novo
meio de produção de linguagem e de processos comunicativos
também produz novas formas de conteúdos de linguagem,
produzindo simultaneamente novas estruturas de pensamento,
outras modalidades de apreensão e intelecção do mundo, ao
mesmo tempo que tende a provocar fundas modificações nos
modos de ver e viver e nas interações sociais.
O que observamos é que essa concepção de que um novo meio produz outras formas de linguagem e, consequentemente, novos modos de vida e de interações sociais, pode ser associada à reflexão de Mikhail Bakhtin a respeito da heterogeneidade dos gêneros do discurso e de suas alterações ao longo dos tempos.
Para Bakhtin, há alteração dos gêneros de acordo com a época em que está inserido, acarretando também mudanças no diálogo intersubjetivo. Desse modo, Bakhtin considera que
A ampliação popular acarreta em todos os gêneros (literários,
científicos, ideológicos, familiares, etc.) a ampliação de um novo
procedimento na organização e na conclusão do todo verbal e
uma modificação do lugar que será reservado ao ouvinte e ao
parceiro, etc., o que leva a uma maior ou menor reestruturação
e renovação dos gêneros do discurso. (Bakhtin, 2000, p.286)
Assim, podemos afirmar que as alterações ocorridas na organização do todo enunciativo de um gênero do discurso midiático, em particular os gêneros publicitários, estão intrinsecamente relacionadas aos novos meios. Sabemos que cada meio estabelece uma relação diferente com o público; por exemplo, jornais e revistas, por exigirem uma leitura com maior concentração e isolamento, provocam uma relação mais individual, ao contrário da televisão, que pode ser vista por várias pessoas ao mesmo tempo. Ao folhear uma revista ou um jornal, o leitor pode evitar a leitura, como pode parar para analisar determinada propaganda, enquanto o anúncio televisivo, mais incisivo e invasivo, ocupa a tela da TV com sua profusão de imagens e sons. No entanto, o desafio dos comerciais televisivos é manter a atenção do enunciatário, pois podemos nos distrair e, sobretudo hoje, com a facilidade e a comodidade do controle remoto, é possível "zapear" para outro canal e assistir fragmentariamente à programação da TV.
Além do mais, a televisão tem um alcance muito maior do que o meio impresso, pois, não só atinge mais pessoas ao mesmo tempo, como também lança suas imagens em qualquer parte do mundo a qualquer momento.
Thompson (1999) apresenta outra característica da televisão em relação ao campo de visão, ao contrapor esse meio com o que ele
chama de tradicional publicidade de copresença.13 Como já mencionamos, além de o campo televisivo ser mais extenso em alcance, atingindo espaços muito maiores, e da facilidade do controle remoto, Thompson alega que o espectador não tem domínio sobre ele, pois "não está livre para escolher o ângulo de visão, e tem relativamente pouco controle sobre a seleção do material visível".
Assim, nas mais remotas partes do mundo, há propagandas dos mais diversos produtos, desde materiais de limpeza, comidas e bebidas até serviços e produtos que não fazem parte do rol das necessidades básicas. Apoiada em recursos audiovisuais, a TV acaba por introduzir um padrão de vida, levando o espectador a viver em profundidade as imagens que são veiculadas nos comerciais. Desse modo, somos invadidos por imagens em que marcas de carros e seus acessórios auxiliam a construção da personalidade das pessoas, bebidas são importantes elos de ligação na vida social, a cozinha internacional está ao alcance de todos, roupas individualizam os seres humanos. São imagens produzidas pela velocidade elétrica, que nos tateiam e incitam à compra.
Embora as propagandas possam ser dirigidas para determinados grupos sociais, o anúncio televisivo pode atingir a todos, letrados e não letrados. Assim, os produtos passam a configurar necessidades que antes eram de determinado grupo social, mas que, ofertados a grande número de pessoas, caracterizam um consumo de massa.
Como atesta Baudrillard (2002, p.199), o objeto de consumo é "o amálgama espetacular das necessidades, das satisfações, a profusão da escolha, toda esta feira da oferta e da procura cuja efervescência pode dar a ilusão de uma cultura". Entretanto, afirma que não devemos nos iludir porque, por meio da publicidade de um produto, toda uma ordem social é materializada de forma coerente e arbitrária. Cada marca veiculada não só indica um determinado produto, como mobiliza "conotações afetivas" (Baudrillard, 2002), pois, numa sociedade capitalista e competitiva, associar à marca uma individualidade, um fator diferenciador, é uma forma de manter o produto no mercado, assim como mantê-lo vivo na memória das pessoas.
Quanto à linguagem verbal nos anúncios televisivos, esta pode aparecer na fala dos atores e dos narradores, assim como nos jingles. Desse modo, a linguagem verbal associa-se a outras linguagens compondo o todo do enunciado que se insere num contexto sócio-histórico-econômico e configura uma realidade social. Realidade que apresenta modos de vida, práticas humanas referentes às atividades voltadas para o comércio, para o consumo; enfim, para o marketing de produtos. Os gêneros publicitários estão envolvidos com os modos sociais do fazer, mas também com os modos de dizer.
Um modo de dizer que envolve vozes sociais e temáticas diversas, muitas vezes relacionadas com o tempo e o espaço em que está inserida a propaganda, com uma construção composicional que, numa mescla de linguagens e com um texto mais ágil, seduz o enunciatário, com apelo emocional mais evidenciado.
Em relação à intenção do enunciador, a escolha dos recursos linguísticos, assim como dos recursos inerentes à linguagem não verbal, constitui uma forma de comunicação com o enunciatário. Comunicar, nesse contexto, representa não só apresentar certo produto, mas convencer seu ouvinte de que a aquisição desse produto é relevante, pois pode se tornar uma necessidade material ou social, ou, ainda, modificar suas interações com os mais diversos sujeitos inseridos na sociedade.
Os gêneros do discurso, constituídos por "enunciados relativamente estáveis", estão intimamente ligados aos processos interativos que também não são imutáveis. Portanto, há uma relativa liberdade nas escolhas dos recursos audiovisuais e linguageiros, o que configura uma postura ativa do usuário de determinada linguagem em detrimento da ideia de que o gênero é uma forma estática, um modelo a ser seguido. Dependendo das necessidades culturais, um gênero modifica-se e transpõe suas fronteiras. Assim, observamos que, nos gêneros publicitários, outros textos ou gêneros podem estar entrelaçados, como uma narrativa, um conto, um desenho animado, etc. Os deslocamentos, seja no tempo ou no espaço, seja no diálogo entre linguagens diversas, apontam para novas possibilidades de construção dos gêneros midiáticos.
A partir das considerações de Bakhtin de que a linguagem é dialógica e de que os gêneros do discurso não são formas estáveis e atendem às mais diversas esferas da atividade humana, entendemos ser possível atender nosso objetivo principal: estudar o percurso dos gêneros publicitários, que são constituídos não só pelo diálogo verbal, mas também por recursos tecnológicos que constituem as diversas linguagens da comunicação mediada. Comunicação que, por ser móvel, dinâmica, modifica padrões culturais e sociais, e também é modificada por esses padrões, expandindo, portanto, as possibilidades de interação humana.
Desse modo, o discurso, que caracteriza a grande capacidade do homem em expor opiniões, sentimentos, ideias e, acima de tudo, em possibilitar as formas de agir, hoje é alterado por esses novos meios, frutos de uma sociedade industrial, científica e tecnológica.
1 De acordo com Moisés (1999), ditirambo, por volta do século VII a.C., era um canto em louvor a Baco. Nos séculos VII e VI a.C., o poeta Arion, de Corinto, introduziu o coro de cinquenta participantes, destacando o líder do coro (corifeu) e implantando, assim, o diálogo, que contribuiu para a constituição da tragédia. No século V a.C., ao ser introduzido em Atenas pelo poeta Laso, sofreu alterações em sua forma e passou a focalizar, além de Dioniso, outros deuses e mitos até tornar-se completamente profano.
2 Epistula ad Pisones é uma carta dirigida pelo poeta a seus amigos, os Pisões.
3 Tema de tragédias gregas e latinas.
4 Soco é um calçado utilizado na comédia e o coturno, na tragédia.
5 Mattoso Câmara Jr. utiliza as três funções de linguagem de Karl Buhler: representativa, expressiva e de apelo. A representação corresponde à linguagem intelectiva, a expressiva é a manifestação psíquica e o apelo é a função centrada no enunciatário.
6 Os estudos estilísticos de Leo Spitzer partem da reflexão, de cunho psicologista, sobre os desvios da linguagem em relação ao uso comum. Segundo sua concepção, uma emoção, por exemplo, provoca um desvio da linguagem usual.
7 Apesar da concepção de individuação, Mattoso relata que é impossível conceituar uma língua como individual.
8 As seis funções da linguagem apresentadas por Jakobson são: referencial, relativa ao contexto; emotiva, centrada no remetente; conativa, relacionada ao destinatário; fática, que testa o contato; metalinguística, que remete ao código; e, finalmente, a poética, referente à mensagem.
9 Embora haja essa aproximação entre as concepções estilísticas de Bakhtin e Discini, neste trabalho, optamos por utilizar como referencial teórico os estudos bakhtinianos, tendo em vista que não trabalhamos com a teoria semiótica de base greimasiana utilizada por Discini.
10 Bakhtin concebe a heteroglossia como sendo o diálogo entre linguagens, visto que uma linguagem é sempre uma criação a partir de outra linguagem.
11 Na propaganda impressa também há linguagem sincrética, como as fotografias e desenhos, que constituem a linguagem não verbal, e a linguagem verbal presente nos slogans e textos explicativos.
12 Como sabemos, McLuhan (1969) divide os meios em quentes e frios. Os quentes são aqueles que, por terem alta definição de dados, permitem uma menor participação do enunciatário, ao passo que os meios frios são de baixa definição e exigem uma participação maior do enunciatário. No entanto, não podemos deixar de mencionar que essa concepção da televisão como meio frio não é pertinente para os dias atuais, tendo em vista que a TV de LCD ou de plasma é de alta resolução, sobretudo quando a transmissão também é digital.
13 Thompson (1999, p.114) explica que, na Europa medieval, "antes do desenvolvimento da mídia, a publicidade dos indivíduos e dos acontecimentos era ligada ao compartilhamento de um lugar comum. Um evento se tornava público quando representado diante de uma pluralidade de indivíduos fisicamente presentes à sua ocorrência", como uma execução em praça pública.