O Faraó Negro
E a terra iluminou-se para um novo dia...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Estela de Piankhi
EGITO, NÚBIA E SUDÃO
Quando viu o marido regressar do templo, a esposa do chefe da aldeia forçou-se a acreditar que trazia ao ombro um saco de trigo. Na véspera, o casal de camponeses tinha festejado o aniversário da filhinha, que estava encantada com o presente que recebera: uma boneca de pano que o pai lhe fizera. Com as amigas da sua idade, brincava no meio da estrada que atravessava a Colina dos Pássaros, uma aldeia da província de Heracleopólis, no Médio Egito.
O homem atirou o saco vazio ao chão.
— Não há mais nada. Os próprios sacerdotes se arriscam a morrer de fome e os deuses não tardarão a regressar ao céu, pois ninguém pensa em respeitar as leis dos nossos antepassados. Mentira, corrupção, egoísmo: eis os nossos novos senhores.
— Dirige-te ao vizir e depois ao faraó, se for preciso!
— Já não há faraó, apenas chefes de clã que se batem entre si e pretendem exercer o poder supremo. O norte do país está sob o jugo dos príncipes líbios que se comprazem na anarquia e nas suas querelas internas.
— E o faraó negro?
— Ora, esse! Deixou um exército em Tebas para proteger a cidade santa do deus Amon, onde reina a irmã, a Divina Adoradora, e encerrou-se na sua capital, Napata, nos confins da Núbia, tão longe do Egito que já o esqueceu há muito tempo!1
1 Os acontecimentos desenrolam-se cerca de 730 a 710a.C
— Tenho a certeza que nos ajudará!
— Desengana-te, é incapaz disso. Embora se afirme rei do Alto e do Baixo Egito, apenas controla a sua província lá dos confins e o sul do vale do Nilo. Abandona o resto do país à desordem e à confusão.
— Era necessário preveni-lo que estamos mergulhando na miséria, que...
— É inútil afirmou o chefe da aldeia. O faraó negro contenta-se com o seu falso reino. Para ele, nós não existimos.
—Ainda tenho peixe seco, mas apenas para alguns dias...
— Vão considerar-me responsável pela fome. Se não encontrar uma solução, morreremos todos. Não me resta mais do que suplicar ao príncipe de Heracleopólis que nos socorra.
— Mas ele é fiel ao faraó negro!
— Se também ele me falhar, irei até mais ao norte.
A mulher agarrou-se ao marido.
— Os caminhos não são seguros, as milícias líbias prender-te-iam e cortar-te-iam o pescoço! Não, não deves partir. Aqui, na Colina dos Pássaros, estamos em segurança. Os nortistas nunca ousariam aventurar-se tão longe.
— Então, morramos de fome...
— Não, pára de receber os impostos, racionemo-nos e partilhemos o que nos resta com as outras aldeias! Assim, aguentar-nos-emos até à cheia.
— Se for má, estamos condenados.
— Não desesperes, rezemos dia e noite à deusa das colheitas.
O homem olhou ao longe.
— Que futuro nos resta? Os tempos felizes desapareceram para sempre e viver tornou-se um fardo. Como podemos acreditar nas promessas dos homens de poder? Só têm como objetivo o enriquecimento pessoal e as suas belas palavras só a eles próprios seduzem.
As garotas brincavam com as bonecas, num universo maravilhoso de que só elas possuíam a chave. Ralhavam e tornavam a ralhar, porque as marotas das bonecas desobedeciam constantemente.
A camponesa sorriu.
Sim, a esperança existia. Existia nos risos das crianças e na sua instintiva recusa da tristeza. O vento do norte levantou-se, arrastando uma nuvem de pó que cobriu o limiar das casas. Com o olhar triste, o chefe da aldeia sentou-se num banco de pedra colocado em frente da parede da sua casa.
No instante em que a mulher agarrou numa vassoura, o solo tremeu.
Um ruído surdo, ainda distante, vinha da estrada de Mênfis, a cidade mais populosa do país e o seu principal centro econômico. Mênfis ignorava o medíocre reinado do faraó negro e adaptava-se cada dia mais à ocupação líbia.
Formando uma roda, as garotinhas explicavam às bonecas que tinham que ser muito obedientes para crescerem e usarem lindos vestidos.
Uma nova nuvem de pó subiu até ao céu e o ruído surdo transformou-se num estrépito semelhante ao que seria provocado pela carga de uma manada de touros enfurecidos.
A camponesa avançou, olhando para norte, mas ficou encandeada. Os raios do sol refletiam-se em superfícies metálicas que os transformava numa luz branca que cegava.
— Carros, constatou o chefe da aldeia,saindo do seu torpor. — Carros, soldados com capacetes e couraças, escudos, lanças...
Vindo do Delta, o exército nortista abatia-se sobre a Colina dos Pássaros.
A camponesa gritou, mas as miúdas não a ouviram, porque o galope dos cavalos e o chiar das rodas dos carros cobriram a sua voz.
Intrigadas por fim, as crianças voltaram a cabeça na direção dos invasores sem verem o chefe da aldeia e a esposa correrem para elas gritando-lhes que se refugiassem no palmar.
Fascinadas por aquela vaga furiosa, irreal, apertaram as bonecas ao peito.
E a vaga passou, esmagando crianças e adultos apanhados pelas rodas dos carros e as patas dos cavalos, primeiras vítimas de Tefnakhte, chefe da coligação líbia do Norte cujos soldados de infantaria massacraram o resto dos habitantes da Colina dos Pássaros e queimaram as pequenas casas brancas.
O que importavam alguns cadáveres, quando se preparava para se tornar senhor das Duas Terras, o Baixo e o Alto Egito? Para o general Tefnakhte, chegara a hora de esmagar o faraó negro. Tefnakhte e, reconhecido como o grande chefe dos líbios, soberano do oeste do Delta, administrador dos domínios do Baixo Egito, estendeu o mapa do Médio Egito desenhado num papiro de primeira qualidade.
— Mênfis é nossa declarou perante a assembléia dos confederados do Norte Conquistamos El-Lisht e aproximamo-nos da cidade de Heracleopólis. Meus amigos, o nosso avanço foi fulminante! Não vos tinha predito esta série de vitórias? Para ir mais longe, temos de reforçar a nossa aliança. É por isso que vos peço que me nomeiem chefe de todo o país.
Originário de Saís, no Delta, Tefnakhte era um homem robusto, de olhos negros muito vivos, profundamente enterrados nas órbitas. Pouco atraente e ossudo, o seu rosto traduzia uma vontade orgulhosa; uma profunda cicatriz, recordação de um combate feroz corpo a corpo, marcava-lhe a testa.
Tefnakhte infundia medo desde a adolescência. Habituado a comandar, não suportava nem os indecisos nem os medrosos, mas fora obrigado a aprender a ser menos inflexível com os que pretendiam ser seus aliados. No entanto, disfarçava mal a sua impaciência e tivera que mostrar-se ameaçador para arrastar os príncipes do Norte a uma guerra de reconquista do Sul.
Akanosh enfrentou Tefnakhte como porta-voz dos chefes das tribos líbias que reinavam nas províncias do Delta depois de as terem invadido. Tal como os seus compatriotas, tinha os cabelos de comprimento médio trançados, com uma pluma de avestruz espetada, e o queixo era adornado por uma fina barba pontiaguda. Pulseiras nos punhos, tatuagens guerreiras representando arcos e punhais nos braços e no peito. Akanosh envergava um longo manto vermelho preso no ombro esquerdo e adornado com motivos florais e cuidava da sua elegância. Com sessenta anos, ter-se-ia contentado de boa vontade com o poder que exercia sobre o seu território de Sebennytos, mas deixara-se convencer a participar na aventura militar defendida por Tefnakhte.
— Felicitamos-te por nos teres conduzido até aqui, disse Akanosh num tom calmo — mas a cidade de Heracleopólis é fiel ao nosso inimigo, o núbio Piankhi, que se considera o verdadeiro soberano do Egito. Até agora não reagiu porque o nosso ataque o apanhou de surpresa.
— O faraó negro vegeta no seu longínquo Sudão, a centenas de quilômetros daqui!
— É verdade, mas as suas tropas estacionadas em Tebas não tardarão a intervir.
Tefnakhte sorriu.
— Consideras-me um pobre de espírito, meu amigo? É evidente que, mais cedo ou mais tarde, receberão ordem para atacar. Mas não estamos preparados para as enfrentar?
Akanosh fez má cara.
— Alguns de nós consideram que a nossa aliança é frágil... És um verdadeiro chefe de guerra, Tefnakhte, mas somos vários a exercer uma forma de soberania que desejamos manter. Ir mais longe poderia conduzir-nos à ruína.
— Será o imobilismo que nos arruinará e privará de todo o poder! Tornar-se-á necessário descrever o caos em que nos encontrávamos antes de eu encabeçar esta coligação?
Quatro pseudo-faraós no Delta e uma boa dezena de pretendentes ao trono! O mais insignificante chefe de tribo considerava-se um monarca absoluto e todos se sentiam satisfeitos com essa anarquia entrecortada por confrontos sangrentos.
— É verdade reconheceu Akanosh e tu devolveste-nos a noção da honra... Mas é preciso saber manter a razão. Visto que presentemente possuímos metade do país, não será conveniente que repartamos os territórios conquistados em vez de corrermos riscos insensatos?
Tefnakhte sentiu desejos de estrangular o cobarde, mas conseguiu conter a sua fúria. Ainda não dispunha de forças armadas suficientes para agir sozinho e tinha que transigir com aquele bando de bárbaros de vistas curtas.
— Compreendo a tua prudência, Akanosh. Até hoje, mantínhamo-nos no norte do país e deixávamos o Sul para Piankhi, considerando o Médio Egito como uma zona neutra. Para gozar de felicidade e prosperidade, o Egito deve estar unido e governado por um autêntico faraó. Pensar que possamos continuar a viver divididos é um erro fatal. Perderemos o que possuímos! Não existe outra solução a não ser a conquista do Sul e a eliminação das tropas do faraó negro.
— É essa a tua opinião e respeito-a, Tefnakhte. Mas tens perante ti diversos soberanos independentes que dirigem os seus principados como muito bem entendem.
— Por que hão de contestar a minha a autoridade, quando estamos no caminho de uma grande vitória?
— Uniste-nos numa federação, admitiu Akanosh — mas não te foi concedido o poder supremo. Queríamos tentar uma experiência, sair do Delta, apoderarmo-nos de Mênfis que caiu nas nossas mãos como um fruto maduro e conquistar algumas províncias do Médio Egito. Tendo conseguido o resultado esperado, não deveremos contentar-nos com ele?
— Tefnakhte ordenou ao seu escanção que servisse cerveja forte aos príncipes líbios. A maior parte deles apreciaram essa diversão, mas Akanosh recusou-se a beber.
— Vencemos sem combater lembrou. As aldeias que atravessamos não podiam opor-nos a menor resistência. Heracleopólis é uma cidade fortificada que será defendida por uma guarnição formada por soldados experientes. A quantos homens se elevarão as nossas perdas e estaremos todos de acordo para consentir em semelhante sacrifício?
— É esse o preço de uma conquista declarou Tefnakhte. Negá-lo seria mentir, mas recuar seria uma derrota.
— Desejamos refletir e discutir o assunto.
Tefnakhte ocultou a sua decepção. As reuniões dos chefes líbios perdiam-se sempre em palavreados intermináveis que não conduziam a nenhuma decisão concreta.
— Nesse caso, respondam claramente à minha pergunta: concedeis-me ou não plenos poderes para empreender a conquista de todo o Egito?
Akanosh ergueu-se e retirou-se para a sua tenda, seguido pelos outros chefes líbios. Iniciava-se para Tefnakhte uma longa espera.
Enraivecido, quebrou o ramo baixo de uma tamargueira cujos pedaços atirou para longe. Depois, seguiu em passo apressado até à sua própria tenda onde o esperavam os seus dois inseparáveis conselheiros, Yegeb e Nartreb, dois semitas que formavam um estranho par.
Yegeb era grande, tinha braços intermináveis, um rosto todo em comprimento e tornozelos inchados; Nartreb era pequeno, gorducho, tinha os dedos das mãos e dos pés gordinhos como os de um bebê, um rosto redondo e pescoço forte.
Astuto e calculista, mais velho do que Nartreb, Yegeb dava-lhe os conselhos de que necessitava para agir, visto que o seu cúmplice dispunha de uma energia inesgotável e não hesitava em utilizar fosse que meio fosse para enriquecer. Embora tão corrupto como Nartreb, Yegeb afirmava constantemente a sua perfeita honestidade; vestia-se com roupas velhas, comia pouco e pretendia ser muito desligado das coisas materiais. Uma única paixão o dominava: o gosto pela manipulação e pelo poder oculto. Com o apoio de Nartreb, incitava Tefnakhte a tornar-se o soberano incontestado das Duas Terras, convencido que os recompensaria se tal acontecesse.
— Corre tudo bem? perguntou Nartreb, ocupado a mastigar uma haste de papiro.
— Aqueles imbecis decidiram discutir revelou Tefnakhte.
— Não podia acontecer nada pior reconheceu Yegeb, coçando o nariz. O resultado das deliberações não oferece qualquer dúvida: a ofensiva será interrompida e regressaremos ao norte.
— Qual é a vossa proposta?
— Há muitos anos que aprendemos a conhecer esses medíocres déspotas líbios e não nos faltam meios de ação.
— Utilizem-nos ordenou Tefnakhte.
O jovem núbio mergulhou no Nilo em perseguição dos búfalos que brincavam na corrente e corriam o perigo de se afogar. Era pelo menos o que Puarma tinha declarado, com convicção, para as deslumbrar, a três lindíssimas moças, de pele acobreada. Nuas, preparavam-se para se deliciarem numa bacia natural, entre dois rochedos, quando os búfalos cheios de calor galoparam para o rio. Pertenciam a um primo de Puarma, decidido a apanhar os fugitivos sob o olhar das moças fascinadas.
Musculoso, excelente nadador, o rapaz tinha a intenção de conquistar todas três. Visto que não tinham fugido, isso não equivalia a dar o seu consentimento de forma implícita?
No entanto, a rude região da quarta catarata do Nilo não fazia sonhar com o amor. Correndo surpreendentemente de nordeste para sudoeste, o rio exibia a sua força selvagem, abrindo com dificuldade passagem por entre os blocos de granito ou de basalto e as ilhotas inóspitas que tentavam travar o seu curso. Nas margens hostis, a areia e as pedras concediam apenas um pequeno espaço para as fracas culturas; e os ueds2 que penetravam no deserto ficavam secos durante quase todo o ano. Vigorosas palmeiras-tamareiras agarravam-se a encostas abruptas que, aqui e além, se transformavam em falésias escuras.
Para os viajantes que passavam na região da quarta catarata, esta revelava-se como uma antecâmara do inferno. Mas Puarma vivera naquela solidão uma infância maravilhosa e conhecia o menor recanto daquele labirinto rochoso.
Com perfeito controle, atraiu os búfalos para uma espécie de canal onde poderiam refrescar-se em perfeita segurança.
— Venham!, -- disse ele às três beldades. Já não há perigo nenhum!
Elas consultaram-se com o olhar, trocaram algumas frases risonhas e depois saltaram com agilidade de rocha em rocha para se irem juntar ao rapaz.
A mais audaciosa saltou para o dorso de um búfalo e estendeu os braços em direção de Puarma. Quando ele tentou agarrá-la, recuou e deixou-se cair para trás. Nadando por baixo de água, as duas companheiras agarraram o rapaz pelas pernas e puxaram-no para si antes de voltarem à superfície.
Encantado por tornar-se seu prisioneiro, Puarma acariciou um seio admirável e beijou uns lábios ardentes. Nunca agradeceria suficientemente aos búfalos do seu primo por terem tido a idéia de fugir.
Entregar-se aos jogos do amor com uma jovem núbia flexível como uma liana era um momento de graça, mas tornar-se o brinquedo de três amantes ávidas e inventivas assemelhava-se a um impossível paraíso... Na água, Puarma fingiu lutar para conservar uma relativa autonomia mas, quando elas o arrastaram para a margem, cessou qualquer resistência e abandonou-se aos seus mais audaciosos beijos.
De repente, a que se tinha estendido em cima dele soltou um grito de susto e levantou-se. As duas companheiras imitaram-na e todas três debandaram como gazelas.
— Mas o que é que vos deu?... Voltem!
Despeitado, Puarma levantou-se por sua vez e voltou-se.
2 Ueds - cursos de água temporários das regiões desérticas.
Em pé sobre um rochedo que dominava o ninho de amor estava um colosso de um metro e noventa, com a pele de um negro de ébano que brilhava sob o sol ardente. Com os braços cruzados, usando um saiote de linho branco imaculado, o pescoço adornado por um fino colar de ouro, o homem tinha um olhar de rara intensidade.
Puarma ajoelhou e tocou com a testa no solo.
— Vossa Majestade... Ignorava que estáveis de regresso.
— Veste-te, capitão dos arqueiros.
Puarma era um valente que não hesitava em bater-se a um contra dez, mas suportar o olhar do faraó negro ultrapassava as suas forças. Tal como os outros súbditos de Piankhi, sabia que uma força sobrenatural animava o soberano e que só ela lhe permitia reinar.
— Majestade... Estará prestes a rebentar algum conflito?
— Não, sossega. A caça foi excelente e decidi regressar mais cedo do que estava previsto.
— Piankhi tinha o costume de meditar naquele caos rochoso de onde contemplava o seu isolado país que tanto amava. Rude, hostil, secreta, aparentemente pobre, a Núbia profunda, tão distante do Egito, formava almas fortes e corpos vigorosos. Aqui se celebravam todos os dias as núpcias do sol e da água, aqui soprava um vento violento, ora glacial ora ardente, que modelava a vontade e tornava os seres capazes de enfrentar as provações quotidianas.
Embora tivesse o título de rei do Alto e do Baixo Egito, Piankhi não saía da sua capital, Napata. Coroado aos vinte e cinco anos, o faraó negro reinava há vinte anos, consciente das fraturas políticas e sociais que tornavam o Egito fraco como uma criança. No Norte, os ocupantes, os guerreiros líbios, digladiavam-se constantemente para conseguirem mais poder; no Sul, a cidade santa de Tebas, onde estavam instaladas as tropas núbias, encarregadas de proteger o domínio do deus Amon contra qualquer agressão. Entre o Norte e o Sul, o Médio Egito, com dois fiéis aliados do faraó negro, os príncipes de Heracleopólis e de Hermopólis. Bastava a sua presença para dissuadir os nortistas de saírem da sua zona de influência.
É verdade que esta situação não agradava a Piankhi. Mas contentava-se com o bem-estar de Tebas e com o embelezamento da sua própria capital onde mandara construir um soberbo templo em glória de Amon, verdadeira réplica do seu santuário de Karnak. Ser um construtor, seguindo o exemplo dos grandes monarcas do passado, era a única ambição de Piankhi. E os deuses tinham-lhe oferecido uma terra mágica onde a voz de Maât, a deusa da justiça e da verdade, continuava a fazer-se ouvir. Bater-se-ia até ao limite das suas forças para preservar esse tesouro.
— Tens treinado os teus homens ultimamente?
— Com certeza, Majestade! Os meus arqueiros estão sempre em pé de guerra. Caso contrário, amolecem. Ordena e combateremos!
Piankhi apreciava a coragem de Puarma. E este último estava convencido que aquele encontro nada tinha a ver com o acaso.
— Majestade... Devemos preparar-nos para um conflito?
— Não... Ou, pelo menos, não sob a forma que imaginas. O inimigo nem sempre ataca onde esperamos. Na minha própria capital, há quem deseje que eu me ocupe menos dos deuses e mais dos seus privilégios. Reúne os teus homens, Puarma, e coloca-os em estado de alerta.
O capitão dos arqueiros curvou-se perante o seu rei e partiu a correr para Napata, enquanto Piankhi continuava a contemplar a paisagem atormentada da catarata. Da fúria das águas e da eternidade implacável da rocha, o faraó negro absorvia a energia indispensável para cumprir a sua missão.
A felicidade... Sim, Piankhi tinha a sorte inestimável de saborear a felicidade. Uma família feliz, um povo que comia o que queria e se alimentava também dos dias tranqüilos que se escoavam ao ritmo das festas e dos rituais. E ele, o faraó negro, tinha o dever de preservar essa serenidade.
A pureza do ar tornava perceptível o menor ruído. E Piankhi conhecia bem aquele: o choque regular dos cascos de um burro no carreiro. Um burro que transportava Cabeça-fria, escriba de elite e conselheiro de Piankhi. Um burro que se alegrava por ter um dono leve, dado que Cabeça-fria era um anão de rosto severo e busto admiravelmente proporcionado.
O escriba habitualmente não se afastava do seu gabinete, o centro administrativo da capital. Se tinha empreendido aquela viagem, a razão devia ser séria.
— Até que enfim que vos encontro, Majestade!
— O que se passa?
— Um acidente no estaleiro, Majestade. Um acidente grave.
Dominando Napata, a capital do faraó negro, os mil metros da montanha pura, o Gebel Barkal, abrigavam o poder invisível do deus Amon, «o Oculto», que estava na origem de toda a criação.
Situada quinze quilômetros para jusante da quarta catarata e rodeada de desertos, Napata encontrava-se no entanto no meio de uma planície fértil à qual iam dar diversas pistas de caravanas. Desta forma, os súbditos de Piankhi não tinham falta nem de produtos de primeira necessidade, nem de iguarias requintadas, nem mesmo de artigos de luxo.
Mas os caravaneiros não estavam autorizados a instalar-se em Napata, a não ser que mudassem de profissão. Apenas eram admitidos para uma breve estadia, o tempo de vender as suas mercadorias e repousar um pouco. Todos sabiam que Piankhi dispunha de imensas riquezas, mas eram reservadas para o embelezamento dos templos e manutenção do bem-estar da população. Os raros casos de corrupção tinham sofrido pesadas penas, indo até à condenação à morte. O faraó negro não tolerava as faltas graves à regra de Maât e muito poucos imprudentes se arriscavam a sofrer a sua cólera.
Montanha isolada em pleno deserto, o Gebel Barkal fascinava Piankhi desde a infância. Quantas horas tinha passado junto das falésias abruptas que dominavam a margem direita do Nilo! Com o correr dos anos, formara-se no seu coração um projeto insensato: fazer falar a montanha pura, talhar o pico isolado, num dos seus ângulos, para fazer dele o símbolo da monarquia faraônica.
O empreendimento apresentava-se como perigoso, mas Piankhi entregava-se a ele há dois anos com a colaboração de voluntários. Como o pico estava separado da massa da montanha por uma ravina com a largura de doze metros e a profundidade de sessenta, fora necessário escavar buracos na rocha para enfiar traves e montar um gigantesco andaime com o auxílio de aparelhos de elevação rudimentares mas eficazes.
Seguindo as indicações do faraó mestre-de-obra, os escultores, sentados em estreitas plataformas, tinham talhado o pico do Gebel Barkal De leste, as pessoas julgavam ver um enorme uraeus3, a cobra fêmea erguida e adornada com a coroa branca; de oeste, a coroa vermelha e o disco solar.
3 Uraeus - representação da naja, símbolo, para os egípcios, da divindade e da realeza, bem como das divisões do céu, Oriente e Ocidente.
No extremo do cume tinha sido gravada uma inscrição hieroglífica em honra de Amon. Um ourives fixara também um painel coberto de folhas de ouro para refletir a luz da madrugada e evidenciar de forma deslumbrante, todas as manhãs, o triunfo da luz sobre as trevas. Por baixo do painel, um nicho guardava uma serpente uraeus em ouro.
Os trabalhos estavam a chegar ao fim e tinham sido içados os últimos cestos de pedras e argamassa destinados a modelar a montanha para lhe dar o aspecto pretendido.
— Conta-me o que se passou pediu Piankhi a Cabeça-fria.
— Um escultor quis contemplar a sua obra de perto e não respeitou as regras de segurança. A meia altura, escorregou numa viga.
— Queres dizer...?
— Morreu, Majestade. E o seu assistente não é melhor do que ele: lançando-se de forma estúpida em socorro do patrão, foi dominado pelas vertigens e não pôde fazer um gesto.
Piankhi ergueu os olhos e viu um rapaz encostado à parede, com as mãos agarradas a uma saliência e os pés apoiados num pedaço de rocha friável. Para avançar mais depressa, o rapaz não tinha seguido pelo caminho formado por escadas e cordas, julgando-se capaz de escalar a parede com as mãos nuas. Quando vira o escultor cair, fora invadido pelo pânico. Impotentes, com os braços caídos, os seus camaradas esperavam o desenlace fatal.
— Que idade tem esse rapaz? perguntou Piankhi.
— Dezessete anos.
— Quanto pesa?
— Não sei exatamente, confessou Cabeça-fria — mas é um magricela.
— Escolhe dois homens para me acompanharem.
— Majestade, não ides...
Por cima dele as paredes aproximam-se.
— Se conseguir arranjar uma posição estável e agarrar-lhe a mão, tem uma hipótese de sobreviver.
Cabeça-fria tremia.
— Majestade, em nome do reino, suplico-vos que não correis semelhante risco!
— Considero-me responsável pela vida desse rapaz. Vamos, não há um segundo a perder.
Dois talhadores de pedra de ombros fortes e pés seguros precederam Piankhi subindo a escada estreita que conduzia à primeira plataforma, formada por sólidas vigas de madeira de acácia.
— Aguenta-te disse Piankhi com uma voz forte que ressoou por toda a Montanha sagrada. Já aí vamos!
O pé esquerdo do assistente de escultor deslizou e ficou por instantes suspenso no vácuo. Com um esforço de que já não se julgava capaz, o rapaz reencontrou o equilíbrio e conseguiu encostar-se de novo à parede.
— Tenho que subir mais considerou o rei.
— Deveis utilizar esta corda com nós, Majestade disse um dos talhadores de pedra.
Piankhi trepou sem dificuldade e imobilizou-se numa saliência, por cima do infeliz cujos dedos começavam a ficar roxos à força de se agarrar ao rochedo.
O monarca estendeu o braço direito, mas faltava-lhe ainda cerca de um metro para atingir aquele que pretendia salvar de uma morte horrível.
— Uma escada! exigiu o monarca.
Os dois talhadores de pedra ergueram uma. Era tão pesada que todos os seus músculos se contraíram. Isso significava que aquilo que Piankhi tencionava fazer exigiria uma força hercúlea: colocar a escada em posição horizontal e encaixá-la entre as duas paredes.
Lentamente, com uma concentração extrema, os dedos crispados no degrau central, o rei fê-la girar. Quando uma das extremidades tocou na rocha, soltaram-se alguns fragmentos que passaram a raspar a cabeça do rapaz, o qual soltou um grito abafado.
— Aguenta-te, rapaz!
A escada estava encaixada.
Piankhi avançou pela passarela improvisada; a madeira gemeu. Um dos degraus teve um rangido sinistro, mas suportou o peso do atleta negro. Com agilidade, este estendeu-se sobre a escada.
Estou muito perto de ti, meu rapaz. Vou estender o braço, tu vais agarrar o meu pulso e vou içar-te para esta escada.
— Não... não agüento mais!
— Tens de voltar-te para veres o meu braço.
— É impossível... Impossível!
— Respira calmamente, concentrando-te na respiração, apenas na respiração, e gira sobre ti mesmo.
— Vou esmagar-me no chão, vou morrer!
— Principalmente, não olhes para baixo mas apenas para cima, para o meu braço estendido! Está mesmo por cima da tua cabeça.
A escada gemeu de novo.
— Gira sobre ti mesmo e volta-te! ordenou Piankhi em tom imperioso.
Tetanizado, sem respiração, o assistente do escultor obedeceu. Desajeitados e incertos, os pés deslizaram contra sua vontade.
No instante em que ia encontrar-se face ao vácuo, o jovem escorregou.
De olhos esbugalhados, oscilou no abismo.
Estendendo-se até quase deslocar o ombro, Piankhi conseguiu agarrar o pulso esquerdo do rapaz.
O choque foi violento, mas o rei conseguiu içá-lo para escada.
— Majestade... murmurou ele com dificuldade, desfazendo-se em lágrimas.
— Se fosses mais pesado, meu filho, estaríamos os dois mortos. Condeno-te a trabalhar um mês com as lavadeiras por teres violado as regras de segurança.
Na base do pico, os camaradas do rapaz que acabara de ser salvo felicitaram-no, depois de terem aclamado o rei.
Cabeça-fria continuava a parecer pouco satisfeito.
— O rapaz está vivo, não é o essencial?
— Não vos disse tudo, Majestade.
— O que há mais?
— Devo confirmar-vos os meus receios; alguns membros da vossa corte, e não dos menos importantes, põem em causa a vossa legitimidade.
O faraó negro ergueu os olhos para o pico do Gebel Barkal.
— Como vês, Cabeça-fria, esta obra sobreviver-me-á. Só o que está gravado numa pedra viva atravessará os anos.
Convencido que o rei não detectara a gravidade das suas informações, o escriba julgou seu dever insistir.
— Não se trata de recriminações vulgares, Majestade, mas de um verdadeiro ataque contra a vossa pessoa. Para ser franco, julgo mesmo que uma das vossas esposas secundárias está metida nisto.
— Temos de nos preocupar com tanta mediocridade?
— O caso é sério, Majestade.
Cabeça-fria merecia o seu nome. A sua perseverança provava que não tinha investigado superficialmente.
— Perder o meu trono... Será assim tão catastrófico?
— Para o vosso povo e para o vosso país, sim! O que se prepara para vos suceder não tem as mesmas preocupações que o vosso pai e vós mesmo. Só sonha apoderar-se do ouro da Núbia e gozar a sua fortuna.
O argumento tocou Piankhi. Importava-lhe pouco retirar-se, mas ver destruir a obra de várias gerações era-lhe insuportável.
— Vou ao templo. O meu pai Amon guiar-me-á.
Cabeça-fria teria preferido que o monarca reunisse a corte o mais rapidamente possível e cortasse a direito com a sua autoridade habitual. Mas sabia que o soberano não voltaria atrás na sua decisão.
Construído no sopé da Montanha Pura e sob a sua proteção, o templo de Amon era o orgulho do faraó negro. Longe de Tebas, tinha reconstituído o domínio do senhor dos deuses: uma álea de carneiros, incarnação de Amon, um primeiro pilone cujos dois maciços simbolizavam o Ocidente e o Oriente, um primeiro pátio de colunas onde eram recebidos os dignitários na altura das festas, um segundo pilone, uma segunda sala de colunas, depois o templo coberto rodeado de capelas e terminando no santuário onde apenas o faraó podia penetrar para abrir de madrugada as portas do naos que continha a estátua divina, expressão concreta do seu poder imaterial. Piankhi saudava-a, perfumava-a, renovava os tecidos que a cobriam, oferecia-lhe a essência dos alimentos e tornava a colocá-la no interior da pedra primordial, no coração do mistério da origem.
Durante a tarde, o templo estava mergulhado em silêncio. Os ritualistas limpavam os objetos de culto nos gabinetes que lhes eram reservados e as figuras divinas gravadas nas paredes dialogavam entre si.
Um sacerdote de Karnak ter-se-ia julgado em casa se tivesse penetrado no domínio sagrado pacientemente construído por Piankhi e que este embelezava constantemente a fim de honrar a memória dos prestigiosos faraós que tinham trabalhado aqui, em Napata, para fazer brilhar a mensagem de Amon. No interior do templo estavam conservadas as esteias de Tutmósis m, o modelo do faraó negro, e de dois outros reis do Egito que ele venerava, Seti I e Ramsés II. Para ele, esses três monarcas encarnavam a grandeza das Duas Terras, em harmonia com a vontade divina, e tinham exercido a função suprema com um rigor e um amor incomparáveis. E o pequeno santuário de Tutankhamon tinha sido piedosamente conservado, tal como as estátuas dos deuses cuja presença era garante da transmissão do espírito.
À medida que se avançava para o interior do templo, o espaço reduzia-se e a luz diminuía, até se concentrar no naos cuja claridade secreta só era visível para os olhos do coração. O mistério da vida nunca seria explicado, mas podia ser vivido e partilhado.
Piankhi imobilizou-se em frente de um enorme leão de calcário, cujos traços eram de uma extrema delicadeza. Na Núbia, Amon gostava de tomar a forma dessa fera, porque o nome do leão em hieróglifos era mai, «aquele que vê». E nem o homem que se escondia no canto de um compartimento escuro escapava ao olhar do Criador. Na base da estátua, uma inscrição: «O deus que reconhece o seu fiel, Aquele cuja aproximação é doce e vem ao encontro do que a implorou».
Por cima da fera de pedra, um baixo-relevo evocava a oferenda do arco.
O senhor divino abrira o caminho: era necessário continuar a lutar.
O fim da tarde era de uma inefável doçura. Era o momento em que os pastores tocavam flauta, em que os escribas pousavam os pincéis, em que as donas de casa concediam finalmente repouso a si próprias, contemplando o sol poente. A faina terminava, as fadigas do dia eram esquecidas durante esses instantes mágicos que os velhos sábios consideravam a expressão da plenitude.
Quando Piankhi penetrou no quarto da sua esposa principal, mergulhado na obscuridade, julgou a princípio que ela estava ausente; depois viu-a na varanda, absorvida pelo espetáculo único e sempre renovado que lhe ofereciam os últimos clarões do astro da vida.
Com trinta e cinco anos, Abilé estava no auge do seu esplendor. Alta, esguia, de rosto ovalado semelhante ao de Nefertiti e pele acobreada, tinha um porte real. Piankhi afastara as pretendentes oficiais para desposar aquela filha de um sacerdote sem fortuna mas especialista dos rituais egípcios e que soubera transmitir-lhe os seus conhecimentos.
O tempo não tinha qualquer efeito sobre a suntuosa núbia. Pelo contrário, a maturidade embelezara-a e aperfeiçoara-a e as mais belas sedutoras de Napata tinham renunciado a desafiá-la.
Como única indumentária, Abilé envergava uma longa camisa de linho transparente. Soltara os cabelos perfumados e deixava que os últimos fulgores do poente dançassem sobre o seu corpo de deusa.
Quando a noite se estendeu sobre o reino de Piankhi, voltou-se para vestir mais qualquer coisa. Foi então que o viu.
— Estás aqui há muito tempo?
— Não ousei interromper a tua meditação.
Tomou-a apaixonadamente nos braços, como se tivessem estado separados há longos meses. Mesmo que estivesse furiosa com ele, Abilé não teria conseguido resistir à sua magia. Sentir-se protegida, amada por aquele rei simultaneamente forte e sensível, enchia-a de uma alegria que as palavras não eram capazes de descrever.
— A caçada foi boa?
— A corte não terá falta de carne... Mas isso não a impedirá de murmurar.
— Tens receio dela?
— Quem negligenciar uma conspiração não merecerá reinar.
Abilé pousou a face no ombro de Piankhi.
— Uma conspiração... É assim tão grave?
— Estará a rainha do Egito mal informada?
— Julgava que esses rumores não tinham fundamento.
— Não é a opinião de Cabeça-fria.
— Cabeça-fria... Dás sempre ouvidos aos conselhos desse escriba?
— Censuras-me por isso?
Abilé afastou-se de Piankhi.
— Tens razão, meu amor. Cabeça-fria não te trairá. Uma das tuas esposas secundárias, alguns sacerdotes invejosos, uma dezena de cortesãos estúpidos e um ministro demasiado ambicioso... Como levá-los a sério, quando reinas há vinte anos e o mais humilde dos teus súditos se deixaria matar por ti!
— A vaidade é um veneno incurável, Abilé. Conduz à pior das mortes, a da consciência.
— O que tencionas fazer?
— Implorei a Amon que iluminasse o meu caminho e ele respondeu-me.
A noite estava amena e Tranan, o diretor do Tesouro, saboreava a sua boa sorte. Sentado por baixo da palmeira mais alta do seu jardim, via aproximar-se o triunfo. Aos cinqüenta e quatro anos, ocupava um dos postos mais em evidência do governo de Piankhi e vivia numa magnífica Villa no centro da cidade que um rico nobre tebano não teria desdenhado. Esposo feliz, pai de cinco filhos, tinha feito toda a sua carreira na administração de Napata e deveria satisfazer-se com a sua confortável situação.
Mas era um dos raros dignitários a conhecer os verdadeiros recursos do reino de Piankhi, cuja pobreza era apenas aparente. Modestas culturas ao longo do Nilo, produtos da pesca e da caça, tâmaras... O inventário das riquezas naturais fazia-se depressa e podia-se concluir que Napata era a capital de uma região miserável.
Seria esquecer a maravilha que o país núbio oferecia ao seu soberano: o ouro. Um ouro abundante e de bela qualidade. Se outrora os reis do Egito tinham colonizado a Núbia, fora com a intenção de se apoderarem do precioso metal.
Atualmente, era o soberano negro que exercia a sua soberania sobre a exploração mineira e que possuía a totalidade da produção: assim eram suprimidas rivalidades e cobiças. Mas como utilizava Piankhi essa fortuna colossal? Dava-a ao templo de Amon e servia-se dela para prover ao bem-estar da população.
O diretor do Tesouro já não suportava aquela política. Um soberano que se esquecia de enriquecer era um fraco que, mais cedo ou mais tarde, merecia ser eliminado. No seu lugar, Tranan teria dado ao povo o mínimo e levado uma grande vida em companhia dos seus próximos. Como a mulher começava a envelhecer, proporcionaria a si próprio jovens cortesãs e viajaria muito para ser admirado por príncipes estrangeiros durante faustosos banquetes.
Com Piankhi, o futuro estava bloqueado. Agarrado à sua Montanha Pura, ao seu templo de Amon e à sua capital, o faraó negro não tinha espírito empreendedor nem qualquer sentido comercial. Chegara a hora de proceder a uma mudança radical de política.
O mordomo de Tranan trouxe-lhe uma taça de vinho fresco e bolos de mel.
— A vossa esposa espera-vos para o jantar, senhor.
— Ela que jante com as crianças e não me aborreça. Quando o meu visitante chegar, trá-lo para a sala de massagens e que ninguém nos interrompa.
Tranan não podia agir só. É verdade que tinha o apoio de alguns cortesãos, mas farejariam o chão em frente de Piankhi se este elevasse a voz. Em contrapartida, uma das esposas secundárias, posta de parte pelo seu real esposo, sonhava vingar-se e estava suficientemente enraivecida para querer satisfazer a sua paixão destruidora. E Tranan disporia de um apoio ainda mais precioso: o do obeso personagem que acabava de entrar na sala de massagens.
Coberto de colares e de anéis de ouro maciço, Otokou pesava cento e sessenta quilos e mesmo mais depois das suas orgias de carnes, molhos espessos e pastéis de creme. Até a sua túnica era bordada de ouro e ninguém tinha o direito de lhe tocar sob pena de receber uma pancada fatal da sua maça de ouro. É que Otokou era o chefe da mais longínqua tribo da Núbia a maior parte de cujos membros se ocupava da extração de ouro de primeira qualidade de uma gigantesca mina. Há já muito tempo que jurara felicidade ao faraó negro. Com o tempo, o seu juramento perdera o brilho.
Tendo em consideração o caráter colérico de Otokou, o diretor do Tesouro tinha-o abordado por meio de pequenos toques, com a mais extrema prudência, para conquistar progressivamente a sua confiança. Felizmente, o obeso apreciava presentes, em particular os cofres de madeira de ébano e as echarpes de lã que enrolava no pescoço de touro quando as noites refrescavam. A verdadeira tentação de Otokou eram as massagens. Durante várias horas por dia, entregava o corpo rotundo a mãos hábeis que o faziam estremecer de bem-estar. Quando Tranan lhe contara que tinha acabado de contratar uma massagista de notável talento, o obeso não descansara enquanto não a conhecera.
O costume da sua tribo exigia que Otokou não pousasse o pé em terra na presença de um inferior. Como o seu único superior era o faraó negro, o obeso foi introduzido em casa de Tranan numa cadeira de madeira dourada transportada com dificuldade por quatro robustos rapagões.
— A vossa visita honra-me ao mais alto ponto, senhor Otokou declarou Tranan, que sabia a importância que o seu visitante dava aos sinais de consideração.
— Tanto melhor, tanto melhor... Tenho dores nas costas. Ocupem-se de mim imediatamente.
Era necessário subir três degraus que exigiram um rude esforço dos transportadores. Foi com uma certa graça, comparável à de um elefante a ajoelhar-se, que o seu senhor conseguiu deitar-se de barriga para baixo, enquanto um servidor lhe colocava uma almofada dourada por baixo do estômago.
— Onde está essa massagista que me prometeste?
— Ei-la, senhor.
Uma frágil síria, de cabelos curtos alourados, trepou para os rins do obeso e, com mão ágil, espalhou sobre a massa de carne um óleo morno e perfumado.
— O que é esta delícia? perguntou Otokou, agradavelmente surpreendido.
— Óleo de festa proveniente de Tebas, senhor. Disseram-me que acalmou as dores de Ramsés o Grande em pessoa.
Ágeis e precisas, as pequenas mãos da massagista desfizeram uma a uma as contrações musculares do gordo, que resmungou de contentamento.
Tranan não quis interromper o tratamento. Não ficava Otokou a ser seu devedor?
— Perfeito, pequena, perfeito. Vão dar-te um saco de ouro em pó.
Enquanto a síria se eclipsava, o chefe de tribo retomou o seu lugar na cadeira.
— Então, meu amigo Tranan, por que me fizeste vir à capital?
— Esta pequena massagista...
— A tua síria é muito dotada, mas falemos de coisas sérias. Sabes que tenho horror às viagens e que detesto afastar-me da minha aldeia.
Nervoso, Tranan andou de um lado para outro.
— O caso é grave, senhor. És o principal produtor de ouro do reino e eu o diretor do Tesouro. Juntamente com Piankhi, somos os únicos a saber a extensão da fortuna que a Núbia oferece. Devo ser-te sincero: na minha opinião, Piankhi faz mau uso dele.
— Estás a acusar o faraó de desonestidade?
— Não, mas de conformismo! A nossa capital adormece na sua riqueza porque Piankhi teima em respeitar tradições ultrapassadas. Muitos dignitários pensam como eu... Há vinte anos que ele reina e esquece exigências do futuro. Se tu e eu não interviermos, Napata corre para a sua ruína.
Os olhos de Otokou tornaram-se minúsculos.