O Faraó Negro
E a terra iluminou-se para um novo dia...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Piankhi bebeu um gole e a rainha imitou-o.
A festa podia começar.
Estar de guarda numa noite daquelas era deprimente. Mas o oficial e os seus homens, encarregados de garantir a segurança da capital, não tinham sido esquecidos pelo faraó: soldo e rações a dobrar e, a partir do dia seguinte, um cântaro de vinho tinto como bônus.
Mesmo sendo conveniente queixar-se a intervalos regulares para conseguir uma promoção e diminuir o tempo de trabalho, havia que reconhecer que a profissão de soldado, em Napata, não era demasiado exigente. Cidade rica e bem gerida, população feliz e serena, nada de conflitos internos, nenhuma guerra no horizonte... Antigamente, quando os núbios eram alistados no exército do Faraó para combater líbios e sírios em perigosas expedições, era preferível trazer consigo vários amuletos protetores e estar bem preparado para o combate.
Se fizesse o que lhe apetecia, o oficial ter-se-ia deixado mergulhar num sono reparador, sob a proteção da abóbada estrelada onde brilhavam as almas dos faraós reconhecidos «de voz justa» para a eternidade. Mas alguma das sentinelas não deixaria de notar e de o denunciar a um superior.
O oficial umedeceu os lábios e a testa com água morna e retomou a ronda, com os olhos fixos na pista do norte que ia dar ao primeiro posto de guarda fortificado da capital. Ali eram rigorosamente controlados os viajantes que desejavam entrar.
Graças a um primo que era cozinheiro no palácio, o oficial saborearia no dia seguinte alguns dos pratos que os convidados de Piankhi não tivessem consumido completamente. Falava-se, entre outras coisas, de um chamado «delícia de Ramsés», uma receita de marinada que tinha atravessado os séculos.
Uma luz no deserto.
O oficial julgou a princípio que se tratasse do cintilar de uma estrela, mas rapidamente se rendeu à evidência: tratava-se de um sinal de alarme de um vigia.
Um sinal que este repetiu várias vezes, insistindo na iminência do perigo.
O oficial hesitava.
Devia acordar o rei ou esperar pela manhã? Arrancar Piankhi ao sono poderia provocar a sua cólera, mas não o prevenir imediatamente podia ser ainda pior. Na dúvida, decidiu consultar Cabeça-fria.
O escriba, que acabava de adormecer depois de ter conseguido fazer reparar o sistema de evacuação das águas de consumo, soltou uma longa série de resmungos antes de se soerguer na cama.
— O que me queres?
— Um incidente grave... Talvez seja melhor prevenir Sua Majestade.
— Não me digas que tentaram invadir Napata!
— Bem...
Desta vez, Cabeça-fria acordou por completo.
— Tens a situação controlada?
— Sim, o homem foi detido.
O anão franziu as sobrancelhas.
— O homem... Estás a querer dizer-me que Napata foi atacada por um único homem?
— Alguém que viaja de noite é necessariamente suspeito! O nosso dispositivo de segurança revelou-se muito eficaz e espero que os meus méritos...
— Falarei disso ao rei.
Piankhi não estava a dormir.
Durante horas tinha sido alvo das lisonjas dos cortesãos que rivalizavam em entusiasmo na expressão dos seus louvores. Todos tinham elogiado a qualidade das iguarias e dos vinhos, e Otokou, em jeito de agradecimento pelos seus talentos de organizador, recebera o seu peso em cântaros de cerveja forte.
Nem por um instante o faraó negro apreciara os luxos daquele serão. Obcecava-o uma angústia que o impedia de saborear os prazeres de um banquete de que a corte falaria durante meses. Abilé pressentira a perturbação do marido, mas evitara interromper a sua meditação.
Do terraço do palácio, Piankhi contemplava o céu. Só as estrelas possuíam a sabedoria extrema, porque transmitiam o verdadeiro poder, o da origem da vida.
Um passo leve no terraço.
— Cabeça-fria... Tu outra vez!
— Perdão por vos importunar, Majestade, mas como estais acordado...
— A esta hora, habitualmente, dormes a sono solto.
— Um homem tentou introduzir-se na cidade e os arqueiros prenderam-no. O oficial que estava de serviço gostaria de ver os seus méritos reconhecidos e beneficiar de uma promoção.
— Que fique encarregado da segurança noturna no próximo mês. Depois veremos. Esse homem disse o nome?
— Segundo o oficial, faz afirmações incoerentes. Pretende ser um servidor de Amon e ter uma mensagem confidencial para o faraó legítimo.
— Interrogaste-o?
— Não, Majestade. Pensei que desejaríeis encontrar-vos o mais depressa possível com esse estranho viajante.
— Trá-lo para a sala de audiências.
No primeiro dia do primeiro mês da estação da cheia, no vigésimo primeiro ano do reinado de Piankhi, a alvorada criou uma paleta colorida de excepcional intensidade. A luz surgiu da montanha do Oriente sob a forma de um disco solar, imagem viva do Criador de quem o Faraó era o representante na terra.
A sala de audiências do palácio de Napata estava banhada pela claridade do levante quando o viajante se apresentou perante Piankhi com os pulsos presos em algemas de madeira e ladeado por dois soldados.
— Libertem-no e deixem-nos sós ordenou o rei.
Durante longos instantes, a visão do colosso com pele de um negro brilhante privou o visitante de voz.
— Majestade...
— Quem és tu?
— Um sacerdote de Amon.
— Qual é o teu lugar na hierarquia?
— Sou ritualista, encarregado da purificação dos vasos para o ritual da tarde.
— De que templo vens?
— De Karnak, do templo de Amon-Rá, o senhor dos deuses.
— Como te deslocaste?
— Equipei-me com um mapa e mudei diversas vezes de embarcação antes de fazer a pé a última etapa.
— Caminhar de noite é perigoso... Podias ter sido mordido por uma serpente.
— Tinha de correr esse risco para evitar a mordedura de um réptil mais perigoso que todas as cobras da Núbia, um réptil que se enrola em torno do Egito, não deixa os seus habitantes respirar e em breve os privará do sopro da vida.
— As tuas palavras são muito enigmáticas!
— O nome de Akanosh é-vos familiar?
— É um príncipe líbio do Delta.
— Com risco da própria vida, Akanosh fez chegar uma mensagem a Karnak. Fui o escolhido para vo-la transmitir.
— Dá-me o papiro de que és portador.
— A mensagem é oral.
— Então fala.
Tefnakhte, o príncipe de Saís, foi nomeado general-chefe de uma coligação que agrupa os outros chefes de tribo líbios. Apoderou-se primeiro do oeste do Delta, depois de todo o Delta. Graças a um exército numeroso, assumiu o controle de Mênfis e avançou para sul. Os príncipes locais, os chefes das localidades, os administradores são semelhantes a cães presos aos seus pés e já ninguém discute as suas ordens. Até Heracleopólis, todas as cidades lhe abriram as suas portas e tornou-se o seu senhor.
— Mas o príncipe Pefteu, meu fiel súbdito, resistiu-lhe e impediu-o de avançar. Esse fanfarrão do Tefnakhte voltou para trás e a coligação desfez-se.
— Lamento desiludir-vos, Majestade... Tefnakhte tomou de assalto a cidade de Heracleopólis e Pefteu não foi capaz de lhe resistir.
— Foi morto?
— Não, rendeu-se.
— E a população?
— Foi poupada. Mas os soldados de Pefteu ficaram sob o comando de Tefnakhte.
— Não houve qualquer movimento de revolta da sua parte?
— Ou obedeciam ou eram massacrados. Agora, são vossos inimigos.
— Afirmas que Tefnakhte controla Heracleopólis?
— Sim, Majestade, e deveis concordar que se encontra à cabeça de um verdadeiro exército que avança de vitória em vitória.
— Possuis informações sobre a estratégia que Tefnakhte pretende seguir?
— Está pronto para combater todos os dias e avançar mais para sul.
— Até Tebas?
— Com toda a certeza, Majestade.
O faraó negro ficou silencioso durante alguns segundos, como se estivesse esmagado por aquelas revelações. Depois, desatou a rir.
A reação de Piankhi desolou o sacerdote de Amon.
— Majestade... Não me haveis acreditado?
— És um homem de oração e de meditação e não entendes nada da guerra.
— Mas Akanosh...
— Será capaz de ter uma visão objetiva da situação? Akanosh é um chefe de guerra líbio, dominado por esse fanfarrão do Tefnakhte. Tais acontecimentos não têm qualquer caráter de gravidade.
— Mas, Majestade, todo o Médio Egito estará em breve sob o controle de Tefnakhte!
— Hermopólis, a cidade do deus Thot, permanecer-me-á fiel. Tefnakhte não ousará atacá-la.
O sacerdote de Amon estava consternado.
— Ides ficar sem reagir?
— Vou reunir o meu conselho de guerra. Descansa: vais ser bem alojado e alimentado. O templo de Amon está aberto para ti e poderás assim cumprir os teus deveres sagrados.
— Tenho um pedido a fazer-vos, Majestade.
— Estou a ouvir-te.
— Autorizais-me a residir na vossa capital? Afirmam que é possível encontrar nela as mais antigas tradições.
— Se é essa a tua escolha, será respeitada.
O conselho de guerra do faraó negro era composto pela sua esposa principal, Abilé, pelo escriba Cabeça-fria, pelo capitão dos arqueiros Puarma e pelo chefe da exploração das minas de ouro, Otokou. Piankhi confiava neles, sabendo que as suas palavras não seriam nem enganadoras nem mentirosas.
Ministros e cortesãos só eram bons para discorrer interminavelmente, tendo como única preocupação a salvaguarda dos seus interesses pessoais. Assim, mais valia tomar as decisões fundamentais em assembléia restrita e anunciá-las depois à corte.
Piankhi reunira os seus próximos na parte mais sombreada do jardim. No centro, um lago no qual o rei nadava muitas vezes. O calor do fim de Julho, sufocante mesmo para os núbios, alegrava Piankhi. Pois não libertava ele a força da terra, submetendo os organismos a rude prova? Dominá-lo fazia parte da condição humana.
Não era essa a opinião de Otokou, com os pés numa bacia de água fresca e a testa coberta por um pano úmido perfumado com mirra. Quanto a Cabeça-fria, bebia litros de cerveja doce para lutar contra a canícula com a qual não parecia sofrer a rainha Abilé, abrigada por um guarda-sol e simplesmente vestida com uma rede que nada ocultava das suas formas admiráveis. Puarma, o capitão dos arqueiros, estava nu, pouco apressado em cobrir-se com a couraça de treino.
— Desfazei-me uma dúvida, Majestade disse Otokou, que esfregava o corpo com um ungüento à base de incenso e de junca odorífica. Esta reunião é puramente amigável, não é verdade?
— Desengana-te. Tal como adivinhaste, trata-se realmente de um conselho de guerra.
O obeso enxugou a testa.
— Ter-se-á revoltado alguma tribo?
— O incidente parece mais sério. Um príncipe líbio, Tefnakhte, terá conseguido federar os seus aliados para formar um exército.
— Isso é ridículo considerou Puarma. Não há pior inimigo de um líbio do que outro líbio! Nunca conseguirão escolher um chefe.
— Pois Tefnakhte conseguiu fazê-los dar ouvidos à razão e as províncias do Norte nomearam-no general-chefe. A partir de agora, estão submetidas à sua vontade.
— Isto tinha que acontecer admitiu Cabeça-fria. O Norte está submetido a condições econômicas terríveis: há milhares de pessoas sem trabalho, os deuses deixaram de ser venerados, a injustiça e a corrupção reinam como soberanas incontestadas... Não havia senão uma saída possível: o aparecimento de um tirano, suficientemente hábil para se apoiar num exército bem equipado.
— Bem equipado? É impossível! protestou o chefe dos arqueiros. O Norte tornou-se demasiado pobre para arranjar tropas capazes de combater.
— Tefnakhte controla Mênfis revelou Piankhi e apoderou-se de Heracleopólis.
As palavras do faraó negro mergulharam os seus interlocutores em profunda perturbação.
— Onde haveis obtido essas informações, Majestade? perguntou Otokou.
— Trouxe-mas um sacerdote de Amon, que fez uma longa viagem para nos avisar.
— Não o levaste a sério observou a rainha Abilé.
— É verdade admitiu Piankhi. Na minha opinião, esse Tefnakhte queria fazer um brilharete para solidificar o seu poder sobre os governadores das províncias do Norte. É já uma grande façanha que se tenha apoderado de Heracleopólis, mas não ousará ir mais longe, porque não tem capacidade para tal. Um chefe de bando não se transforma de um dia para outro em senhor de guerra.
O chefe dos arqueiros aprovou com um abanar de cabeça.
— No entanto, há que considerar represálias avançou Otokou.
— Deixar esse perturbador agir impunemente só serviria para o encorajar!
— Sou mais pessimista do que vós confessou Cabeça-fria.
A intervenção do anão fez perpassar um vento frio na assembléia. Todos apreciavam a sua notável inteligência e levavam a sério as suas opiniões.
— O que receias? perguntou Otokou, preocupado.
— Uma mudança radical na atitude dos nortistas. Até agora, as suas rivalidades tornavam-nos impotentes. Não vivemos a mesma anarquia na Núbia? A partir do momento em que aceitaram a soberania de um chefe e a sua estratégia, já não são os seus defeitos que se somam, mas as suas qualidades. Não é na ação que um condutor de homens se revela? Apesar da sua importância, Mênfis está há muito tempo privada de cabeça pensadora e não podia ter qualquer veleidade de resistência perante um conquistador, mesmo medíocre. Heracleopólis, em contrapartida, era um ferrolho, uma praça forte dotada de uma guarnição experiente e comandada por Pefteu, um notável fiel a Piankhi. Apoderar-se dela não era tarefa fácil e Tefnakhte pode orgulhar-se de um formidável êxito que reforça o seu prestígio.
— Procuras afligir-nos ou provocar-nos? - interrogou Piankhi.
— Nem uma coisa nem outra, Majestade. É este o meu pensamento.
— Não consigo acreditar que esse Tefnakhte ouse desafiar-nos! insurgiu-se Puarma. Essa vitória, se realmente se verificou, não terá seguimento. Como ousaria um simples chefe de bando provocar a cólera do faraó Piankhi?
— Ao ouvir o relato das suas façanhas, desatei a rir confessou o monarca mas as conclusões de Cabeça-fria fazem-me pensar que talvez tenha feito mal. Um aventureiro que sabe utilizar a miséria do povo pode arrastá-lo para qualquer loucura declarou a rainha. Se Tefnakhte se embriagar com o seu sucesso, perderá o controle de si próprio e não se preocupará com os cadáveres que irá deixando à sua passagem. Tal como Cabeça-fria, acredito que esta tentativa de invasão do Sul não deve ser considerada com leviandade.
— É impossível que ataque Hermopólis! objetou Puarma. O seu príncipe, Nemrod, jurou fidelidade a Piankhi e as suas tropas são capazes de repelir qualquer assalto.
— Era o que pensávamos de Heracleopólis lembrou o anão. Se Tefnakhte se tornar senhor de todo o Médio Egito, o caminho para Tebas estará aberto. E depois, quem sabe...
— Inverossímil! considerou Otokou. Ignoras que os nossos regimentos instalados em Tebas são uma perfeita força de dissuasão?
— Esperemos que sim.
De olhos baixos, o chefe dos arqueiros dirigiu-se a Piankhi.
— O que haveis decidido, Majestade?
— Preciso de refletir.
A esposa do príncipe líbio Akanosh estava tão perturbada que nem sequer se tinha maquilado.
— Anda disse ela ao marido vem já ver!
— Ainda não acabei o pequeno-almoço, não fui barbeado, não...
— Anda!
Akanosh espetou uma pluma de guerreiro nos cabelos entrançados e atou precipitadamente um longo manto sobre o ombro esquerdo. Fosse como fosse, não podia sair pelas ruas de Heracleopólis sem os atributos do seu poder.
— Onde me levas?
— À enfermaria onde são tratados os civis feridos durante o assalto.
— Não é o teu lugar nem o meu!
— Fazes ou não parte da coligação comandada por Tefnakhte?
— Sim, mas...
— Então, entra nessa enfermaria!
O edifício de tijolos crus era guardado por dois soldados de infantaria que impediram o acesso cruzando as lanças.
— Sou o príncipe Akanosh. Deixai-nos passar.
— Yegeb não autoriza qualquer visita.
— Como te atreves a opor-te à minha vontade, soldado? O teu Yegeb não passa de um inseto! Se teimares, tu e o teu camarada, mandar-vos-ei transferir para o pântano do Delta!
— Os dois guardas baixaram as lanças.
Logo que deu o primeiro passo no interior do edifício, um cheiro horrível agrediu as narinas de Akanosh. O sangue, a gangrena, a morte... Dezenas de homens e mulheres jaziam por terra e elevavam-se queixumes no princípio da fila. Na outra extremidade, só havia cadáveres. Dois soldados puxavam um pelos pés.
— Para onde o levam? interrogou Akanosh.
— Vamos lançá-lo numa vala que Yegeb nos mandou cavar. Ficará mais um lugar livre... Quando tivermos tirado os mortos todos, traremos os feridos. E isto continuará até não haver mais...
— Que cuidados estão a ser prestados a estes infelizes?
— Nenhum. O melhor para eles é morrerem depressa.
O príncipe Pefteu oferecera a Tefnakhte o primeiro andar do seu palácio de Heracleopólis, onde o vencedor conferenciava com os seus aliados, um por um, para os convencer da justeza da sua estratégia e da dimensão que era necessário conferir à ofensiva.
Em frente da sala de audiências ficava o gabinete de Yegeb, que filtrava os visitantes.
Quero ver Tefnakhte imediatamente declarou Akanosh. Yegeb consultou um velho pedaço de papiro no qual escrevera a data daquele dia e nomes.
— Não haveis sido convocado. Solicitai uma audiência e esperai pela resposta do general.
A cólera de Akanosh explodiu, agarrou o semita pelo pescoço e, embora fosse mais baixo do que ele, levantou-o do chão.
— Não te metas no meu caminho, verme! És um criminoso e um carrasco e tenho que informar o teu senhor sobre a tua forma de agir. E hei de ser eu próprio a aplicar o castigo que ele decretar.
Akanosh largou Yegeb, que retomou o fôlego com dificuldade, enquanto o príncipe líbio entrava na sala de audiências de Tefnakhte.
O general escrevia numa tabuinha de escriba o relatório oficial da sua primeira grande vitória sobre o faraó negro. Seria copiado em numerosos exemplares, distribuído aos oficiais superiores e lido em voz alta e inteligível aos soldados. E a notícia difundir-se-ia por todo o Médio Egito e depois até Tebas. Espalharia o medo entre os partidários de Piankhi e incitá-los-ia a render-se.
Os olhos negros de Tefnakhte fitaram o intruso.
— Não te tinha convocado, parece-me.
— Devo informar-te sobre o que se passa nesta cidade!
— Está tudo tranqüilo, o nosso exército controla a situação, o príncipe Pefteu tornou-se meu vassalo: de que nos queixaríamos?
— Sabes que a enfermaria reservada aos civis é um lugar de morte e que não lhes são proporcionados nenhum cuidado? Os mumificadores contentam-se em esperar que morram e lançam os seus cadáveres numa vala comum, sem o menor ritual! E estes horrores são cometidos por ordem do teu dedicado Yegeb. Exijo que esses infelizes sejam bem tratados e que esse torcionário seja castigado.
Tefnakhte atirou a tabuinha de escriba de encontro à parede.
— Não tens nada que exigir, Akanosh! Esqueces que me deves obediência total?
— Mas aqueles civis...
— Tornar-se-á um chefe de clã líbio sensível como uma viúva abandonada? Bem sabes que o Norte é pobre e o nosso exército tem falta de remédios e de ungüentos. Tudo o que encontramos em Heracleopólis deve ser reservado para as nossas tropas. São essas as minhas ordens e quem as infringir será considerado traidor.
— Vamos deixar morrer esses feridos...
— Estamos em guerra, Akanosh, e temos de fazer certas opções. Não serão os bons sentimentos que vencerão os guerreiros de Piankhi.
— Tinhas prometido que a população desta cidade seria poupada!
— Estarás em desacordo com a minha maneira de agir?
Akanosh teria gostado de protestar mais, mas as palavras ficaram no fundo da sua garganta.
— Acalma-te, meu amigo, e esquece esses pormenores sem importância. Como todos nós, concentra o teu espírito num único objetivo: a reconquista do Egito. A nossa vitória trará a felicidade ao povo, podes ter a certeza.
— Esse Yegeb...
— É-me dedicado e não discute as minhas ordens. Imita-o, Akanosh, e terás uma velhice feliz.
O chefe de clã retirou-se e passou diante de Yegeb sem o olhar.
— Quando virão os médicos tratar dos doentes e dos feridos? perguntou a esposa de Akanosh ao marido.
O chefe de clã deixou-se cair nas almofadas.
— Não virão.
— Tu... tu não falaste com Tefnakhte?
— Falei.
— Ele... recusou?
— Temos de compreender, minha querida... É a guerra. Nem tu, nem eu, nem Tefnakhte podemos fazer nada.
— Tefnakhte é o chefe do nosso exército e mente ao afirmar que poupa a população!
— Tens razão, mas...
A núbia fitou o marido com tristeza.
— Já não tens vontade de lutar, Akanosh.
— Sinto-me velho e incapaz de resistir a Tefnakhte. Se me opuser a ele, mandar-me-á suprimir e serás arrastada na tormenta. Eu, tal como os outros chefes de clã, não passo já de um fantoche entre as suas mãos e sou o único a ter consciência disso. Tefnakhte está disposto a tudo para conquistar o Egito e é um verdadeiro guerreiro... Se Piankhi não reagir muito depressa, Tefnakhte conseguirá fazê-lo e imporá uma ditadura de que o país não se libertará.
Com o crânio rapado, envergando uma túnica de linho branco de primeira qualidade, descalço, o sacerdote vindo de Tebas desceu lentamente a escada que conduzia ao lago sagrado, situado na proximidade do grande templo, e encheu de água santa um vaso de ouro.
Aquela água provinha do Noun, o oceano de energia primordial onde tinha surgido a criação e no qual continuava a banhar-se. A terra não passava de uma ilha emersa desde «a primeira vez», desde aquele instante em que o pensamento divino tomara forma e se manifestara; e se o Faraó não voltasse a ressuscitar aquela primeira vez por meio dos rituais, a ilha da terra seria submersa pelas vagas da origem. Como estava escrito, o destino da humanidade cumprir-se-ia: tinha nascido das lágrimas de Deus e acabaria por desaparecer sob o peso das suas próprias infâmias.
O papel dos servidores das divindades consistia em retardar o fim oferecendo-lhes uma morada e venerando a sua presença para que ela iluminasse o coração dos seres que tentavam seguir pela via de Maât, preferindo a verdade à mentira e a justiça à injustiça.
Napata deslumbrava o sacerdote tebano. Reencontrava um fervor que julgava perdido para sempre e um rigor na celebração dos rituais que já se não sentia em certos santuários de Karnak. Aqui, perto da quarta catarata, Amon era honrado como devia ser.
Transportando o precioso vaso cheio de água pura, o sacerdote seguiu para a sala de oferendas. Um colosso surgiu à sua passagem.
— Estás satisfeito com a tua estadia entre nós?
— Majestade... Vivo dias de encantamento!
— Surpreendes-me... Não tens saudades de Karnak?
— Como traduzir-vos a minha admiração...
— Termina o teu serviço e vem ter comigo à biblioteca do templo.
Textos das Pirâmides, Livros dos Mortos, Rituais de abertura da boca, Cerimonial do Ano Novo, Lista dos dias fastos e nefastos, e todos os outros escritos concebidos e transmitidos desde a idade das pirâmides... O sacerdote tebano estava estupefato pela riqueza da biblioteca de Napata. O faraó negro dispunha da totalidade dos elementos da ciência sagrada.
— Quando compreendi que o Norte se afastava cada vez mais das nossas tradições explicou Piankhi decidi reunir aqui os escritos que permitiram à nossa civilização desenvolver-se.
O sacerdote tebano ia de uma estante para outra, acariciando com uma mão emocionada os cofres de papiros arrumados com cuidado.
— Será que Karnak já não honra Amon como é conveniente? interrogou o rei.
— Os sacerdotes permanentes adormecem um pouco, os temporários encaram por vezes os seus deveres com leviandade... E a Divina Adoradora, encarregada por vós de reinar sobre os templos de Tebas e de velar pelo seu bom funcionamento, está cansada e doente. Surgiram facções, pois alguns sacerdotes pensam mais em enriquecer do que em celebrar os rituais.
— As tuas palavras refletem bem a realidade?
O olhar do faraó negro trespassou a alma do tebano. Para convencer o monarca, só lhe restava uma solução: o juramento.
— Pela vida do Faraó declarou com solenidade juro que digo a verdade. Se mentir, que a minha alma seja destruída e que as portas da vida eterna me sejam vedadas.
Tebas, a cidade sagrada, Tebas, a capital de Amon, Tebas a das cem portas povoada de templos grandiosos, de santuários e de capelas, Tebas onde fora revelado o segredo da criação... Uma profunda tristeza apertou o coração do faraó negro. Tendo vindo ao templo para meditar e pedir a Amon que o orientasse na sua ação, descobria que o seu modelo estava a ficar decrépito.
— Quem redigiu esta tabuinha? perguntou Cabeça-fria, furioso, aos seus vinte alunos sentados de forma correta como escribas, uma perna dobrada e a outra cruzada por cima.
Usavam um saiote curto, tinham um pincel preso atrás da orelha e baixavam a cabeça, assustados com a cólera do seu mestre.
Uma vez por semana, o anão dava uma aula de formação superior àqueles que, amanhã, ocupariam os postos chave da administração. Entre os felizes beneficiários desses ensinamentos havia quatro moças.
Repito a minha pergunta: quem redigiu este texto? Cabeça-fria brandiu a tabuinha. Os estudantes e as estudantes fitaram os joelhos.
— Não há um delator entre vós... Tanto melhor! Se alguém tivesse denunciado o seu camarada, tê-lo-ia imediatamente expulso. E não preciso de ninguém para identificar esta escrita.
O anão avançou pela álea central e parou em frente de um rapaz que fechava os olhos.
Arrancou-lhe o pincel e partiu-o.
— Levanta-te, malandro!
O aluno era o filho de um ministro que possuía várias casas na capital e dois palmares. Mas isso não preocupava Cabeça-fria.
— Admiti-te nesta escola porque me parecias dotado para a profissão de escriba, mas vejo agora que me enganei redondamente!
— Mestre, mas eu tive cuidado...
— Cala-te, pretensioso! Ah, os teus hieróglifos estão perfeitamente desenhados, não há um único erro de gramática e cada termo foi rigorosamente escolhido... Mas redigiste um imposto de propriedade sem pensares por um instante em visitar a exploração agrícola em questão e encontrares o seu proprietário para lhe perguntar se tinha dificuldades familiares ou profissionais. Continua assim, meu rapaz, e tornar-te-ás o pior dos funcionários: uma máquina inumana, unicamente preocupada em aplicar um regulamento, sem qualquer contacto com os teus administrados. Mais um erro deste calibre e expulso-te definitivamente do meu curso! No dia em que os funcionários ficarem confinados nos seus gabinetes e renegarem qualquer responsabilidade, este país será ingovernável!
Subitamente, a cólera do anão desfez-se e a atmosfera mudou.
Ninguém tinha visto entrar Piankhi na sala de aula, mas a sua simples presença era perceptível. Cabeça-fria ergueu a cabeça e descobriu o faraó negro com os braços cruzados.
— Acabou por hoje disse o escriba. Para a próxima vez, preparem um modelo de carta destinada a um chefe de povoação. Não estraguem papiro, utilizem pedaços de calcário e tinta velha.
Os alunos saíram em silêncio.
— Estás satisfeito com os teus alunos, Cabeça-fria?
— Não serão piores ministros do que aqueles que compõem o vosso governo atual.
O escriba lavou os pincéis e raspou a tabuinha para obter de novo uma superfície lisa, própria para a escrita. Maníaco, Cabeça-fria não gostava de desperdiçar. Tinham-lhe confiado um material de Estado e devia ter com ele o maior dos cuidados.
— Tens notícias recentes de Tebas?
— Relatórios redigidos pelo escriba da administração.
— Que informações te deram?
— Nada de novo, Majestade. Tebas é uma cidade calma que vive ao ritmo dos rituais.
— Nenhum incidente?
— Segundo os relatórios, não.
— Esse escriba da administração é um homem de confiança?
— O que me aborrece é a repetição constante das mesmas fórmulas... Tencionava precisamente falar-vos nisso, se o próximo relatório fosse outra vez uma cópia do anterior.
— Procuram sossegar-nos e adormecer a nossa vigilância, não é verdade?
— É possível, Majestade.
Do seu trabalho como contabilista numa exploração agrícola do Delta, Nartreb guardara uma lição fundamental: um bom técnico pode fazer com que os números digam o que ele quiser. É um fato que as maquilagens grosseiras de um principiante ou de um financeiro com demasiada pressa em enriquecer não enganariam muita gente, mas Nartreb não cometia esse gênero de passo em falso.
Uma rápida visita a Heracleopólis tinha-lhe provado que a cidade era rica e que abrigava, especialmente, várias famílias de proprietários de terrenos que tinham acumulado jeitosas fortunas. Como a cidade ia passar para o domínio de Tefnakhte, era necessário modificar as leis impostas por Piankhi. Assim Nartreb, encarregado de executar essa delicada missão, convidara para almoçar o diretor do Tesouro de Heracleopólis, um notável de setenta anos, viúvo, e cuja reputação de escrupulosa honestidade estava de há muito firmada.
— Cordeiro assado, purê de figos, feijões com natas e vinho tinto de Imaou: a ementa agrada-vos, meu caro colega?
— Colega? admirou-se o egípcio, a quem desagradava o rosto lunar do semita.
— Tefnakhte nomeou-me responsável pelo financiamento da sua campanha. Com o meu amigo Yegeb, um excelente especialista em contas, poupamos-lhe todas as preocupações materiais para que se concentre na reconquista do Egito.
— Quais são os vossos projetos para a minha cidade?
— Gostaria de conhecer o sistema de impostos adotado por Piankhi, maldito seja ele!
— Está de acordo com a tradição. Os agricultores, por exemplo, devem à cidade metade da sua colheita, uma parte da qual é consumida no mesmo ano e a outra guardada nos celeiros em previsão de uma má cheia. Em troca, a administração fornece-lhes o material de que têm necessidade para irrigar e cultivar. Além disso, se um agricultor ultrapassar o rendimento previsto, pode adquirir terras e alargar os seus domínios.
Nartreb fez uma careta.
— Isso é tão arcaico... Há muitos lucros que escapam ao Estado.
O diretor do Tesouro insurgiu-se.
— Os agricultores estão satisfeitos e...
— Numa economia de guerra, devemos controlar a totalidade da produção. Os nossos soldados devem ser bem alimentados e dispor das melhores condições de existência para serem capazes de vencer. Faço requisição portanto de todas as explorações.
— É uma injustiça inaceitável!
— Moderai as vossas maneiras, meu caro colega! É esta a decisão de Tefnakhte.
— O que restará aos camponeses?
— Estabeleceremos quotas de alimentos suficientes para essa casta inferior e virão buscar as suas rações à caserna central.
— A maior parte deles recusarão trabalhar para vós.
— Nesse caso, execução imediata por alta traição. Quando alguns tiverem sido queimados vivos na presença da população, os recalcitrantes entrarão rapidamente na linha. Quanto aos artesãos, deverão trabalhar para o exército a fim de que os nossos soldados sejam corretamente equipados. Não tem objeções, meu caro colega?
— De que serviriam?
Nartreb exibiu um amplo sorriso e esfregou as mãos gorduchas. O velho notável começava a curvar a espinha.
— Abordemos agora a questão das grandes fortunas de Heracleopólis. Os notáveis, entre os quais vós mesmo, dispõem de bens importantes que é conveniente explorar da melhor forma. Tefnakhte deve ser rico... e eu também.
— Vós sois... um ladrão!
— Vamos, vamos, meu querido colega, não vos irriteis! Tenho uma proposta que deverá seduzir-vos. Como conheceis bem as personalidades desta cidade, confio-vos a tarefa de negociar com elas. Transmitir-lhes-eis as minhas ordens, centralizareis os seus bens e recebereis em troca... digamos, dez por cento. Servir Tefnakhte fará de vós um homem muito rico.
Enquanto Nartreb se empanturrava, o idoso diretor do Tesouro afastou os pratos em que nem sequer tinha tocado.
— Por quem me tomais? Fazei vós mesmo a vossa suja tarefa! Não despojarei os meus compatriotas nem vos ajudarei de maneira nenhuma. Pelo contrário, direi por toda a parte que gênero de bandidos vós sois!
Nartreb levantou-se.
— Compreendemo-nos mal... Só quero o vosso bem, respeitando as ordens que me foram dadas. Um homem com a vossa experiência deveria compreender a dificuldade da minha tarefa.
Os vossos lábios estão marcados pela mentira.
— Não desejais refletir?
— Serei vosso adversário declarado, custe-me o que me custar.
— Desculpai-me por um instante, por favor.
Nartreb passou por trás do diretor do Tesouro e fingiu dirigir-se para a cozinha. Mas voltou para trás, apertou o pescoço do velho com as suas mãos raivosas e quebrou-lhe as vértebras cervicais.
— Custa-te a vida, imbecil, e passarei bem sem ti.
— Todos os obstáculos foram afastados, meu senhor disse Nartreb com untuosidade, inclinando-se perante Tefnakhte.
— Os notáveis aceitaram o teu novo sistema de impostos?
— Por unanimidade, sem refilar e com a alegria de servir a vossa causa.
Nartreb tinha-os feito interpelar pelo exército e desfilar em frente do cadáver do diretor do Tesouro, acusado de recusa de obediência e de colaboração com o inimigo. O semita não necessitara de longos discursos e constatara que o seu método favorito, a brutalidade aliada à chantagem, dava excelentes resultados.80 E pela tua parte, Yegeb?
— A cidade está limpa, senhor; já não resta nem boca inútil nem elemento indesejável.
— Heracleopólis é tão rica como supunhas?
— Muitas provisões, menos armas do que previra.
Tefnakhte ficou aborrecido.
— Tragam-me a filha do capitão dos arqueiros.
Yegeb pareceu pouco à vontade.
— Não sei se ainda está viva...
— Traz-ma!
Apesar dos cabelos em desalinho, da pele suja e marcada pelas pancadas, Aurora estava lindíssima e nada perdera do seu orgulho.
— Os meus soldados maltrataram-te?
— Que outra coisa seria de esperar?
— O que eu quero, consigo. E o que eu quero saber é o lugar onde o teu pai escondeu as armas.
— Como hei-de eu saber?
— Conheço as pessoas... És orgulhosa e corajosa. Estou convencido que eras a sua confidente.
— Enganais-vos.
— Preciso dessas armas, Aurora. Ou falas ou mando decapitar uma criança de hora a hora.
— Ela era jovem, bela e ardente. Tinha dezoito anos e fazia amor como uma mulher experiente, com ingenuidades comovedoras.
Lamerskény observou-a a dormir; tinha menos vinte anos do que ele e tentara seduzi-lo com tanta convicção que acabara por ceder. Barbudo, com o crânio rapado e o corpo coberto de cicatrizes, Lamerskény não procurava as mulheres, mas as mulheres procuravam-no e ele não lhes sabia resistir.
Com a mão esquerda, acariciou-lhe a curva dos rins. «Por todos os deuses do céu e da terra», pensou, «que fêmea!”
A mão áspera desceu um pouco mais abaixo. Tornou-se indiscreta e despertou a jovem beldade.
— O que queres, meu amor? murmurou ela, ainda ensonada.
— Não devíamos parar por aqui... Tenho a certeza ainda não me mostraste tudo.
Ela enrolou-se em volta dele como uma liana e beijou-o com ardor; depois, pousou os lábios sobre o braço direito do amante, um braço de madeira articulado que a fascinava.
— Como perdeste o teu braço de carne?
— Um machado que não consegui evitar porque hesitei um instante antes de cortar o pescoço do meu adversário. A partir daí, nunca mais hesitei.
— É de acácia?
— Um velho pedaço de acácia de primeira qualidade, indeformável e imputrescível, que paguei muito caro... Mas há que reconhecer que o carpinteiro realizou uma obra-prima. As articulações são perfeitas e, pelo menos, não serei vítima do reumatismo neste braço.
A amante de Lamerskény endireitou-se bruscamente e ocultou os seios com as mãos.
— Há alguém a olhar para nós... Um gigante! Lamerskény agarrou na sua espada curta e levantou-se.
— Tu...
Largou a arma.
— Veste-te, pequena, e desaparece.
— Aquele gigante...
— O faraó do Egito não te quer mal. Agora deixa-nos. Assustada, a jovem desapareceu sem sequer apanhar a sua roupa.
— Uma nova conquista constatou Piankhi. É deslumbrante.
— Antes uma nova derrota lamentou Lamerskény, que se serviu de uma taça de cerveja. Não consigo resistir a este gênero de tentadoras, apesar dos meus desesperados esforços. Espero pelo menos que não seja casada. Tendes sede, Majestade?
— Preciso de um conselho.
— Vós, Majestade? É uma brincadeira de mau gosto! Tendes o hábito de decidir sozinho e não vejo como poderei ajudar-vos a governar.
— Não és um perito em matéria de combates?
Os olhos azuis claros do capitão de infantaria estreitaram-se.
— Um combate... Não estais a falar de uma verdadeira batalha, com verdadeiros soldados, com verdadeiros confrontos, com muitos mortos e feridos?
— Ainda não sei.
— Ah, eu bem desconfiava! Afinal, não é nada de sério. O reino continua tão tranqüilo como sempre e verificou-se uma medíocre desavença entre duas tribos. Vou dormir.
Piankhi empurrou as persianas de madeira para deixar entrar a luz.
— Majestade, bem sabeis que prefiro a penumbra!
— Sei que, mesmo permanecendo encerrado neste reduto para fazer amor com as mais belas moças de Napata, te manténs ao corrente de tudo e que continuas a ser o meu único perito militar digno de confiança.
— É verdade, e deveríeis ter-me nomeado general há muito tempo!
— A hierarquia não aprecia nem o teu gosto exagerado pelas bebidas fortes, nem a tua paixão pelas mulheres, nem mesmo a tua forma de comandar. A um oficial superior é exigida boa conduta.
— A única boa conduta de um guerreiro é a vitória!
Era evidente que o capitão Lamerskény não sentia qualquer gosto pelo arranjo da casa. Os seus saiotes jaziam por aqui e por ali, num caos que excluía qualquer tentativa de arrumação.
— Consideras possível uma coligação das províncias do Norte?
— Inevitável.
— Porquê essa certeza?
—Mesmo num ninho de vespas, acaba por impor-se um chefe.
— Quem desempenharia esse papel, na tua opinião?
— Não vejo senão Tefnakhte, o príncipe de Saís. É ele que dispõe do território mais vasto e do melhor exército. Mais cedo ou mais tarde, tomará posse de todo o Delta e Mênfis também lhe abrirá as portas.
— E depois?
— Depois, Tefnakhte embriagar-se-á com essa vitória fácil e considerar-se-á um chefe de guerra, capaz de ir mais longe e de travar uma verdadeira batalha. Então endurecerá o seu comando, eliminará os contestatários e aventurar-se-á no Médio Egito.
— És um vidente, capitão Lamerskény.
— Tudo isto ainda não aconteceu, pois não?
— Infelizmente, já. E, na tua opinião, até onde irá Tefnakhte? Hesitante, Lamerskény coçou o braço de madeira.
— Se quiser continuar o seu avanço, tem de fazer saltar vários ferrolhos. Atacará primeiro... Heracleopólis.
— Porquê essa escolha?
— Porque o príncipe Pefteu tem sessenta anos e já não possui o vigor de outrora. Porque não saberá com certeza resistir a um ataque violento e massivo.
— No entanto, as muralhas de Heracleopólis são sólidas.
— Apenas na aparência... A vigilância dos defensores enfraqueceu e julgam que basta o nome de Piankhi para garantir a sua proteção. Salvo o devido respeito, Majestade, estais muito longe do teatro das operações e um louco de guerra não se deterá com essas considerações.
— Consideras então Tefnakhte capaz de se apoderar de Heracleopólis?
— Se o conseguir, o seu sonho de conquista começará a tornar-se realidade. Tefnakhte o conquistador... Eis o que ele espera vir a ser e utilizará não importa que meios, mesmo os mais bárbaros, para atingir os seus fins.
— Heracleopólis caiu nas mãos de Tefnakhte confessou Piankhi.
Lamerskény pousou a sua taça de cerveja sobre uma mesa baixa.
— Troçais de mim, Majestade?
—- Não. Tefnakhte conseguiu-o, como previas.
— Continuou?
— Parece que está a consolidar a sua posição. Mas duvido das informações que recebo.
— Pois, consolida-a... A partir de uma boa base na retaguarda, lançará outros assaltos. A próxima etapa será Hermopólis.
— O príncipe Nemrod repeli-lo-á.
— Nemrod tem alguma capacidade, com efeito. Mas o confronto promete ser duro. E se Tefnakhte está desembestado, se conseguir uma nova vitória, o caminho para Tebas está aberto.
— O que preconizas?
— É necessário alertar as nossas tropas estacionadas em Tebas e, de acordo com a evolução da situação, enviar reforços.
— Vais partir para Tebas com Puarma, o chefe dos arqueiros, e tomareis o comando dessas tropas. O vosso objetivo é deter Tefnakhte.
— Majestade... Não suporto esse Puarma e sou apenas capitão... Os oficiais superiores de Tebas não aceitarão a minha autoridade!
— Terás uma ordem de missão, Lamerskény. Estarás com medo de combater?
— O braço de madeira articulado abateu-se com violência sobre a mesa baixa e partiu-a em duas.
— Parto amanhã, Majestade.
Nartreb arrancou a criança à mãe. O rapazito desatou a chorar e tentou resistir, o semita esbofeteou-o e afastou a mulher com um murro. Dois homens que tentaram interpor-se foram espancados pelos membros da milícia instalada por Yegeb.
Nartreb obrigou a criança a colocar a cabeça sobre um cepo e tirou a sua espada da bainha.
— Se te recusares a responder-me disse Tefnakhte a Aurora cortarei a cabeça a esta criança. E outras se lhe seguirão.
— Sois um monstro!
— Enganas-te, quero a felicidade do Egito. Para a conseguir, devo vencer Piankhi. E, para o conseguir, preciso de armas. Fala, Aurora, ou este rapaz morrerá por tua culpa.
A jovem olhou Tefnakhte de forma estranha.
— E se estiverdes a mentir?
— O que queres dizer?
— Seja o que for que eu vos diga, matareis essa criança e matar-me-eis em seguida.
Tefnakhte sorriu.
— Compreendes-me mal, Aurora. E, afinal, não tens escolha: aposta no futuro.
— Qual é o futuro que quereis construir?
— Este país está dividido, impotente, cada vez mais pobre por causa desse faraó negro que pretende governá-lo permanecendo lá nos confins da sua Núbia! Como podem, tu e os teus, suportar esta tirania? Já conquistei o Delta e a grande cidade de Mênfis... Amanhã, apoderar-me-ei do Sul. Então, as duas terras ficarão de novo reunidas e o povo reconhecer-me-á como Faraó.
Nos olhos verdes da moça a dúvida sucedeu à cólera.
— Estais a ser sincero?
— Conheces agora a minha única ambição.
— Vinde comigo. Só.