O Faraó Negro
E a terra iluminou-se para um novo dia...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— E interviremos de que forma?
— Uma parte da corte está decidida a pôr em causa a legitimidade de Piankhi. Os mesmos que o elegeram sonham com um sucessor.
— Um sucessor que se chamaria... Tranan?
— Unicamente se o senhor Otokou aceitar tornar-se o novo diretor do Tesouro e ser honrado como merece.
— Receberei uma parte maior do ouro que a minha tribo extrai das entranhas da terra?
— É evidente!
O obeso personagem ronronou, o que nele era um sinal de profunda satisfação.
Tranan sabia que ia conseguir: nunca se aposta em vão sobre a cupidez. A partir de agora, os dias de Piankhi estavam contados.
Otokou esticou-se como um felino e agarrou Tranan pela nuca.
— Há já muito tempo que te considero um pequeno crápula, indigno da função que o Faraó te confiou. Esqueceste um pormenor, Tranan: Piankhi e eu somos amigos há mais de vinte anos e os verdadeiros amigos não se traem nunca.
Tranan não sairia da mina de ouro onde trabalharia até ao fim dos seus dias. Mas Otokou não se sentia mais sossegado por isso; apenas tinha esmagado uma vespa com o apetite maior do que o ferrão, enquanto que pesava sobre Piankhi uma ameaça séria.
Formado pelos Amigos e pelos Apoiantes do rei, pelos Anciãos e pelos Ritualistas, o grande conselho que tinha eleito Piankhi por unanimidade vinte anos antes parecia decidido a formular graves reservas sobre o comportamento do faraó negro.
Baseavam-se em relatórios falsificados de Tranan, boatos espalhados por uma das esposas secundárias de Piankhi, palavras insidiosas de sacerdotes acusando sem razão o faraó negro de ter falta de devoção por Amon. Se Otokou tivesse tomado consciência a tempo do perigo, teria de boa vontade estrangulado por suas próprias mãos todos aqueles mentirosos; mas o grande conselho, com o seu rigor habitual, desencadeara um mecanismo que já ninguém podia deter.
É evidente que Piankhi não teria qualquer dificuldade em refutar aquelas ignomínias, mas o seu bom nome seria afetado e, sobretudo, era capaz de renunciar à coroa para se retirar para o templo de Amon! Otokou conhecia bem o amigo e sabia que este não se agarraria ao poder se as circunstâncias lhe oferecessem uma ocasião para se afastar. Mas sabia também que ninguém estava preparado para substituir Piankhi e que a sua abdicação seria uma catástrofe para Napata, para a Núbia e para o Egito.
Em vez de preparar a sua defesa, o rei galopava no deserto para proporcionar a Valoroso, o seu cavalo preferido, os grandes espaços que o soberbo animal amava devorar. E o homem e a sua montada não estariam provavelmente de regresso antes do grande conselho.
A mais jovem das esposas secundárias de Piankhi, de dezessete anos, não havia meio de acalmar. É verdade que quando o pai a conduzira à corte de Napata lhe tinha explicado bem que nunca veria o faraó e que aquele casamento diplomático era indispensável para selar a unidade do monarca com a tribo do sul da quarta catarata de que ela era a herdeira.
Mas a jovem não entendia assim as coisas: pois não era a mais bela do palácio, não merecia partilhar o leito do soberano e expulsar dele as suas rivais?
Impulsivamente, tentara abrir à força as portas que a teriam conduzido até Piankhi, mas as suas tentativas desordenadas tinham-se saldado em fracassos. Os que rodeavam o rei, e particularmente o seu maldito escriba anão, impediam qualquer importuno de perturbar a sua serenidade.
Ela, filha de chefe de clã, esposa secundária, considerada como uma importuna! Furiosa por ter sido alvo de uma tal afronta, tinha decidido vingar-se daquele déspota incapaz de apreciar a sua beleza, revelando ao grande conselho que Piankhi era corrupto e que desviava riquezas em seu proveito.
Quando fosse nomeado um novo faraó, não deixaria de reparar nela e de lhe conceder o seu verdadeiro lugar.
De momento, experimentava um colar de pérolas azuis, jaspe vermelho e cornalina, separadas por finos discos de ouro.
Prende-o ordenou à serva.
— Este colar é digno de uma rainha... E tu não o és.
Irritada, a jovem voltou-se e ficou face a face com Abilé, a esposa principal de Piankhi!
— Este palácio recebeu-te, minha jovem, e tu traíste a sua confiança. Pior ainda, caluniaste o Faraó e tentaste tornar-te a alma de uma conspiração.
Assustada, a filha do chefe de clã ergueu-se e não conseguiu senão balbuciar um fraco protesto.
— Semelhante falta é passível de uma longa pena de prisão, mas não passas de uma criança já de coração azedo Não te lembres mais de sujar o nome de Piankhi, caso contrário a minha indulgência desaparecerá e tornar-me-ei mais feroz do que um tigre.
— Que ides fazer de mim?
— Vais voltar para a tua tribo onde as matronas te ensinarão a trabalhar e a cuidar de uma casa. Dá-te por muito feliz.
Aos noventa e sete anos, Kapa, o decano do grande conselho, mantinha o olhar vivo e a palavra clara. Muito magro, apenas fazia uma refeição frugal por dia no decurso de toda a sua existência, não bebia álcool de tâmaras e dava um passeio quotidiano. Os que o rodeavam receavam o seu caráter rabugento, acentuado pela idade O contraste que formava com Otokou, amador da boa carne, era surpreendente. O obeso não sabia como abordar aquele velho rezingão que recusava até uma taça de cerveja fresca.
— À tua saúde
— Não te preocupas mais com a minha saúde, Otokou, do que eu me preocupo com a tua. Onde se esconde o teu amigo, o rei?
— Foi para longe, a cavalo
— Os membros do grande conselho comunicaram-me as suas conclusões e eu examinei-as com atenção
— Constataste então que não passavam de disparates!
— Atreves-te a criticar o trabalho de personalidades dignas de respeito?
— As informações que receberam são aberrantes e mentirosas! É evidente que alguns invejosos pretenderam prejudicar Piankhi e é conveniente que sejam castigados como merecem!
— Segundo ouvi dizer, ocupaste-te pessoalmente de Tranan, o ex-ministro das Finanças.
— Pu-lo a trabalhar. Piankhi é por vezes demasiado indulgente. Compete aos seus amigos livrá-lo das ovelhas ranhosas.
— Sou o superior do grande conselho e não me deixarei influenciar. Quer agrade ou não ao rei, tem de comparecer perante nós o mais depressa possível.
Com cinco anos, em plena força, capaz de lançar sem fadiga os seus quinhentos quilos de músculos em longas corridas, Valoroso era o melhor cavalo que Piankhi já tivera oportunidade de treinar. Entre o homem e o animal, a amizade brotara desde o primeiro olhar e o rei não tivera que fazer quaisquer esforços para se fazer compreender pelo corcel, altivo, mesmo bravio, mas desejoso de satisfazer aquele a quem tinha concedido a sua total confiança.
Valoroso era um cavalo baio de crina fulva, brilhante e sedosa, de patas altas, boca risonha, olhar direto e porte altivo. Os cavaleiros do exército de Piankhi olhavam-no com admiração e inveja, evitando aproximar-se muito perto. Todos sabiam que Valoroso apenas obedecia a Piankhi e que se tornava selvagem quando qualquer outro tentava montá-lo.
O rei levara-o a descobrir grande quantidade de pistas partindo de Napata e o cavalo tinha-as memorizado de forma surpreendente, sem nunca hesitar. Para regressar à sua cavalariça particular, onde o próprio Piankhi tratava dele, Valoroso seguia sempre pelo caminho mais curto. À força e à resistência, o cavalo aliava uma aguda inteligência.
Do cimo de uma alta duna, o faraó negro contemplava as vastidões desérticas.
— Estás a ver, Valoroso, nenhum imperador quereria um país como este. Mas é ele que tu e eu amamos porque nunca mente, porque nos obriga a ser implacáveis conosco próprios e a venerar a luz toda-poderosa. O deserto e a terra cultivada são estranhos um ao outro, não se casam e, no entanto, um faz compreender a necessidade do outro.
Grous coroados sobrevoaram o cavaleiro e a sua montada. Ao longe, no cimo de outra duna, um oryx de longos cornos observava-os, imóvel. Se Piankhi tivesse tido necessidade de uma nascente de água, bastar-lhe-ia segui-lo.
— Esperam-me na capital, Valoroso, e os que me desejam ver são-me hostis. Se perder tudo, dois seres seguir-me-ão até ao fundo do abismo: a minha esposa e tu. Não sou o mais feliz dos homens?
O cavalo apontou o focinho para Napata e lançou-se num veloz galope. Tal como o seu senhor, não receava a prova.
Tefnakhte sabia que apenas a guerra lhe permitiria alcançar o poder supremo, mas não gostava nem de combater nem de manejar as armas. Deixava para outros o treino intensivo no tiro ao arco ou no lançamento do dardo: todos os chefes líbios se orgulhavam da sua força física, o federador não se preocupava com isso.
Para enganar a angústia, Tefnakhte refizera cem vezes o plano de batalha e de reunificação das Duas Terras. Tinham-lhe trazido moças de prazer que recusara e não tocava no jarro de vinho nem no de cerveja. Aqueles prazeres lenificantes distraíam-no do seu único objetivo: ser reconhecido como o chefe supremo da coligação líbia, aniquilar as tropas de Piankhi, reduzir a Núbia à impotência e fazer-se coroar como faraó em Tebas, no Sul, e depois em Mênfis, no Norte.
A vitória estava ao alcance da mão desde que agisse depressa, antes de o faraó negro tomar consciência da determinação de Tefnakhte e da sua verdadeira ambição. Até agora, apenas o considerava como um príncipe líbio mais poderoso do que os seus congêneres, é verdade, mas tão medíocre e venal como eles.
Piankhi estava enganado.
De pai líbio mas de mãe egípcia, Tefnakhte estudara o glorioso passado do Egito e alcançara uma certeza: este só recuperaria a sua grandeza no momento em que as Duas Terras, o Alto e o Baixo Egito, estivessem de novo reunidas. Um projeto grandioso que Piankhi era incapaz de concretizar e do qual os reizinhos líbios faziam troça. Tefnakhte sentia-se capaz de ir até ao fim desse difícil caminho e de retomar a chama que os sucessores de Ramsés o Grande tinham deixado extinguir.
Infelizmente, dependia da boa vontade de uma cambada de pequenos tiranos de vistas curtas, agarrados aos seus medíocres privilégios. Quando tivesse alcançado o poder supremo, Tefnakhte poria fim à anarquia que esgotava o país. Todas as províncias, quer fossem do Norte ou do Sul, ficariam sob a autoridade única do Faraó.
Tefnakhte não agia para sua glória pessoal mas para devolver ao Egito o seu esplendor de outrora e, melhor ainda, fazer dele o centro do novo mundo mediterrâneo que, sob a influência da Grécia e da Ásia Menor, começava a tomar forma.
Ninguém podia compreender aquela visão e o peso da solidão era difícil de suportar. Via-se mesmo obrigado a recorrer aos serviços de Yegeb e de Nartreb, dois seres sem fé nem lei, para atingir os seus fins. Mas se Tefnakhte vencesse, esses períodos de dúvidas e de sofrimento seriam rapidamente esquecidos.
Desenrolou um papiro de contabilidade datando da XIX dinastia, a de Ramsés, e recordando as riquezas de Mênfis naquela época: campos luxuriantes, canais cheios de peixes, armazéns regurgitando de mercadorias, visitas incessantes de numerosos embaixadores... Hoje, a grande cidade estava adormecida, na expectativa de um autêntico monarca que lhe devolvesse as forças necessárias para assumir o seu papel de «Balança das Duas Terras», isto é, o pólo de equilíbrio entre o Norte, aberto ao exterior, e o Sul, tradicionalista.
— Posso falar-vos, senhor? perguntou Nartreb com uma voz onde se detectava a excitação.
— Boas notícias?
— Excelentes... Mas estou a morrer de sede.
Com as mãos gorduchas, o semita serviu-se de uma taça de vinho branco mantido fresco num jarro que apenas os oleiros do Médio Egito sabiam fabricar.
— Os governadores de província votaram a meu favor?
— A situação é um pouco mais complicada, senhor... Para dizer a verdade, nestes últimos dias estava mais a evoluir no mau sentido e só tínheis opositores. Se eu e Yegeb não tivéssemos intervindo, o voto teria sido negativo e teríeis sido forçado a regressar ao vosso principado de Saís.
— Como os haveis convencido a mudar de opinião?
— Não foi fácil... Mas soubemos encontrar os argumentos certos.
— Quero saber quais foram, Nartreb.
— Será necessário, senhor? Pagais-nos para fazermos um trabalho e nós fazemos. Os pormenores pouco importam.
— Não é essa a minha opinião!
Sentindo crescer a cólera de Tefnakhte, Nartreb curvou-se.
— Há vários anos que Yegeb e eu reunimos mil e uma informações sobre os governadores das províncias do Norte, graças à cumplicidade de funcionários locais que vendem de boa vontade as suas confidências, com a condição do seu nome não ser pronunciado. Hoje, beneficiamos desse trabalho de formiga. Como esses reizinhos são todos mais ou menos corruptos e cometeram contra os seus próprios aliados faltas mais ou menos graves que cada um deles deseja ver mergulhadas num profundo esquecimento, não tivemos muita dificuldade em negociar a sua aprovação. Só subsiste um pequeno problema...
— Akanosh?
— Não, é um medroso... associou-se à opinião da maioria. Estou a falar do velho chefe que reina nos pântanos do Delta e controla as pescas. Um imbecil e um teimoso... Recusa qualquer conflito com o faraó negro. Infelizmente, a sua palavra ainda tem muito peso e impede o fim das conversações. Pode mesmo pôr a nossa vitória em causa.
Com o estômago vazio, Nartreb engoliu algumas tâmaras.
— Como tencionas resolver esse problema?
— Yegeb encarregou-se disso... Precisamente. Ei-lo que chega.
O rosto alongado de Yegeb parecia iluminado por uma profunda satisfação.
— Posso sentar-me, senhor? Tenho as pernas pesadas.
— Conseguiste?
— O destino é-vos favorável. O velho chefe dos pântanos acaba de entregar a alma.
Tefnakhte empalideceu.
— Tu...?
O vosso irredutível adversário morreu durante a sesta... Uma morte perfeitamente natural que prova a vossa sorte.
— A verdade, Yegeb!
— A verdade é que vai ser realizado um cortejo fúnebre e que em seguida os chefes líbios vos concederão plenos poderes.
Quando Akanosh regressou à sua tenda, a esposa, cinqüenta anos bem conservados, notou imediatamente que estava contrariado. Depois de trinta anos de casamento, detectava os sentimentos do marido sem que este pronunciasse uma palavra.
— É... a guerra?
— Mudaram todos de opinião e o nosso decano já cá não está para os convencer que cometem um erro fatal ao escolherem Tefnakhte como chefe supremo. Sim, é a guerra. Preparamo-nos para atacar Heracleopólis.
— Tens medo por mim, não é verdade? Akanosh apertou as mãos da mulher entre as suas.
— Somos os dois únicos a saber que és de origem núbia... E ninguém se atreverá a atacar a minha esposa.
Embora tivesse a pele branca, bronzeada pelo sol, das egípcias do Norte, a mulher de Akanosh tinha pai núbio. Durante muito tempo, o príncipe líbio sonhara com uma aliança com Piankhi que teria feito dele um negociador por excelência com os seus compatriotas do Delta.
— É Tefnakhte que me inquieta confessou Akanosh. É inteligente, manhoso e persistente... Para realizar o seu sonho, porá o Egito a ferro e fogo.
— Mas deves obedecer-lhe, como os outros, e ordenar aos teus soldados que o sigam.
— Não tenho outra alternativa, com efeito. A minha consciência impõe-me no entanto que previna Piankhi.
— Tem cuidado, meu querido! Se és acusado de traição...
— Tefnakhte matar-me-á com as suas próprias mãos, eu sei. Está descansada: sei como fazer as coisas permanecendo na sombra.
Sob a presidência do decano Kapa, o grande conselho tinha-se reunido em frente do primeiro pilone do templo de Amon de Napata, no lugar onde se «dizia Maât», a verdade e a justiça. Sentados de um lado e outro do decano, os Amigos do rei e os seus Apoiantes, os Anciãos e os Ritualistas apresentavam um semblante severo.
O faraó negro chegou a cavalo e desmontou a poucos metros de Kapa, que permaneceu impassível. Piankhi tinha a coroa característica dos reis núbios, uma espécie de boné acompanhando a forma do crânio e rodeado por um diadema de ouro de onde surgiam duas cobras erguidas, em postura de ataque. Nos pulsos e em redor dos bíceps, pulseiras de ouro com o seu nome. No saiote dourado, uma minúscula cabeça de pantera de onde brotavam raios de luz.
À vista do monarca, cujo aspecto físico era imponente, a maior parte dos membros do grande conselho sentiu desejo de desaparecer dali. Mas contentaram-se em inclinar-se respeitosamente, a exemplo do velho Kapa, que tomou imediatamente a palavra para evitar uma debandada.
— Majestade, o grande conselho elegeu-vos faraó do Alto e do Baixo Egito há vinte anos. Nenhum dos seus membros teve razão de queixa da vossa ação, mas dolorosos acontecimentos vieram perturbar a serenidade da corte. Examinamos as queixas que nos foram transmitidas por vias mais ou menos desviadas e...
— Por que não se mostram os meus acusadores de rosto descoberto? Aprovamos a condenação do diretor do Tesouro, Majestade, e a expulsão da esposa secundária que tentava fomentar uma conspiração. Por meu lado, considero mesmo essas medidas demasiado indulgentes.
— Nesse caso, o que me censuram ainda?
A maioria do grande conselho esperava que Kapa se contentasse com aquele breve confronto, mas o velho núbio tinha um sentido agudo da magia dos seres, dos lugares e dos momentos. Para ele, tratava-se de uma forma de governo mais importante do que a escolha dos ministros ou de uma política. Quem não estava em ressonância com a harmonia secreta do mundo não tinha qualquer hipótese de dirigir corretamente um país.
— Durante vinte anos lembrou o decano o vosso poder permaneceu intacto. Se indivíduos ignóbeis tentaram sujar o vosso nome, não existirá uma razão grave, por exemplo o enfraquecimento da vossa capacidade de reinar?
Diversos membros do grande conselho consideraram que o velho Kapa ia demasiado longe e recearam a cólera de Piankhi. Mas o faraó negro não perdeu a calma.
— A luz divina colocou o rei na terra dos vivos para julgar os seres humanos e satisfazer os deuses disse com voz grave, citando o texto da coroação para colocar a harmonia de Maât no lugar da desordem, da mentira e da injustiça, proteger o fraco do forte, fazer oferendas ao invisível e venerar a alma dos defuntos. Foi para essa tarefa que Amon me designou. «Sê coroado», ordenou, pois foi Amon que decidiu o meu destino. Deus faz o rei, o povo proclama-o. E adotei os nomes de coroação do meu glorioso antepassado Tutmósis 14: «o pacificador dos dois países», «o unificador das Duas Terras», «Poderosa é a harmonia da luz divina». Como ele, o filho de Thot, procuro a sabedoria e o conhecimento. Não está escrito no Livro de sair para a luz que é o conhecimento que afasta o mal e as trevas, vê o futuro e organiza o país? Mas tens razão, Kapa: talvez a minha capacidade de reinar tenha enfraquecido. Talvez tenha chegado o momento de me retirar. Não me compete a mim responder, mas a Amon. E ele manifestar-se-á por um sinal.
Do alto do terraço do seu palácio rodeado de palmeiras, hibiscos e loendros, Piankhi contemplava a sua cidade e, ao longe, o deserto. Como este parecia sereno na doçura da noite, quando vagueava por lá uma multidão de demônios prontos a devorar o viajante imprudente! Por diversas vezes, o faraó negro tivera de enfrentar os perigos do deserto, as suas cintilações enganadoras, as suas pistas ilusórias que não conduziam a parte nenhuma, as suas dunas tentadoras das quais o olhar nunca se saciava.
Estendida de encontro a ele, Abilé acariciou-lhe a face. Como amava aquela mulher que, por si só, encarnava a beleza e a nobreza da Núbia!
4 Faraó da XVIII dinastia, Tutmósis reinou de 1504 a 1450, ou seja, sete séculos antes de Piankhi.
Envergando um vestido feito apenas de uma fina malha semelhante à rede de um pescador e deixando a maior parte do corpo à vista, com o pescoço adornado por um colar de ouro com pérolas de turquesa, Abilé era a própria sedução. Dera a Piankhi um filho e uma filha e essas maternidades ainda tinham realçado mais o brilho da sua feminilidade.
— Estamos a viver as nossas últimas noites neste palácio? perguntou ela com voz clara, desprovida de inquietação.
— Sim, se o deus Amon me retirar a sua confiança.
Abilé abraçou o marido.
— Se não desses ouvidos senão ao meu amor por ti, suplicaria a Amon que permanecesse silencioso. Poderíamos retirar-nos para um palmar e viver lá calmamente com os nossos filhos. Mas não lhe dirigirei essa prece porque tu és o único garante da felicidade de todo um povo. Sacrificá-lo à nossa própria felicidade seria uma traição imperdoável.
— Não estás a conceder-me demasiada importância?
— Podes duvidar do teu poder, mas compete-me a mim reconhecê-lo como tal. Não é o primeiro dever de uma rainha do Egito?
— Amon enviou-me a mensagem do arco.
— Não é a Núbia «a terra do arco»? Revela-te assim que deves continuar a reinar.
— O arco também é o símbolo da guerra... Mas não há nenhum conflito iminente.
— Não receias as turbulências provocadas pelos do Norte?
— Estão demasiado ocupados a entreatacar-se e nenhum príncipe líbio é capaz de se impor aos outros.
Há já muito tempo que o velho Kapa não dormia mais de duas ou três horas por noite. A existência tinha-se escoado demasiado depressa, na sua opinião, e, antes de ir reunir-se com a deusa do Belo Ocidente, que adornava a morte com um sorriso encantador, queria aproveitar cada momento.
Kapa nunca saíra do seu país natal, aquela terra ardente e áspera cujos atrativos conhecia melhor do que ninguém. Ela só se oferecia a amantes apaixonados, de desejo inesgotável: por isso Piankhi era um excelente soberano. Mas o velho agira de acordo com a sua consciência e não o lamentava. Privado de magia, mesmo um colosso se tornava uma presa fácil para as forças das trevas.
Se os deuses desaprovassem Piankhi, a Núbia e o Egito do Sul sofreriam uma grave crise de desenlace incerto. Só medíocres sonhavam suceder-lhe e transformariam em desastre uma situação difícil.
No coração da noite, num céu de lápis-lazúli, as estrelas exibiam os seus fulgores. Portas que se abriam para deixar passar a luz que nascia a cada instante nos confins do universo, ensinavam ao homem que o olhar criador é o que se eleva e não o que desce.
De repente, uma estrela abandonou a comunidade e atravessou o céu à velocidade de um galgo em plena corrida. Como se fosse irresistivelmente atraída pela terra, precipitava-se para ela, seguida de um rasto de fogo.
Não, Kapa não era vítima de uma alucinação! A estrela dirigia-se para a Núbia, para a capital, para o palácio real que desapareceu num clarão. Os insones tinham visto uma bola de fogo abater-se sobre o terraço do palácio real e todos pensaram que a cólera do céu tinha aniquilado o faraó negro. A resposta de Amon tinha sido terrível.
Tão depressa quanto lhe permitiam as suas velhas pernas, Kapa dirigiu-se para o local do drama em torno do qual começava a agrupar-se a população da capital, despertada pelos gritos das testemunhas da catástrofe.
O capitão dos arqueiros, Puarma, ordenara à guarda pessoal do rei que proibisse o acesso aos seus aposentos.
— Não será necessário socorrer Sua Majestade? inquietou-se Kapa.
— Não sei confessou o oficial, incapaz de tomar uma decisão, de tal forma estava perturbado.
— Eu vou lá afirmou Cabeça-fria, com os olhos ainda inchados de sono.
— Acompanho-te decidiu o decano do grande conselho.
A um sinal de Puarma, os arqueiros deixaram passar o anão e o velho, que subiram uma escadaria decorada com ornamentos florais e se aventuraram nos domínios privados de Piankhi.
— Majestade... Sou eu, Cabeça-fria! Podeis falar? Ninguém respondeu.
O quarto, a ampla sala da água, a sala de massagens, o gabinete, a sala de recepção para os visitantes privilegiados, a biblioteca... Tudo... compartimentos vazios.
— Falta o terraço observou Kapa.
Cabeça-fria sentiu vontade de chorar. No interior, Piankhi poderia ter escapado aos efeitos devastadores da estrela caída do céu. Mas no terraço...
— As minhas velhas pernas já não me levam confessou o decano do grande conselho.
— Descansa, eu vou lá sozinho.
Com o coração apertado, o anão subiu lentamente o lance de degraus que iam dar ao terraço. E viu-os à luz da lua.
Piankhi e a esposa estavam deitados lado a lado e Abilé pousara a cabeça no peito do marido.
Tinham portanto morrido no mesmo instante, unidos no seu amor.
— O que fazes aqui, Cabeça-fria?
O anão sobressaltou-se, tremendo com todos os seus membros. Era a voz grave do deus Amon, a voz celeste que ia castigar a sua audácia!
— Ter-se-á verificado algum acontecimento grave na minha capital? perguntou Piankhi, erguendo-se.
Cabeça-fria julgou contemplar um fantasma.
— Sois vós, Majestade?... Sois bem vós?
— Terei mudado assim tanto?
A estrela caída do céu, a bola de fogo...
— Onde vês vestígios de incêndio? A rainha acordou.
— Sonhei com um fogo celeste... Rodeava-nos como um halo protetor. Estávamos no centro de um sol que brilhava na noite.
— Milagre! gritou Cabeça-fria precipitando-se para a escada. Milagre, o deus Amon transformou em luz o par real!
A decisão do grande conselho, a opinião dos sacerdotes e o sentimento do povo eram unânimes: fora Amon que escolhera manifestar-se sob a forma do fogo celeste, Amon que habitava a Montanha Pura e reconhecia Piankhi como seu filho e legítimo faraó.
Quando o sol se erguia sobre o Gebel Barkal cujo cume tomava a forma de uma coroa, os Amigos do rei, os seus Apoiantes, os Ritualistas e os Anciãos, pela voz do seu decano, confirmaram Piankhi na sua função de chefe de Estado.
— Somos os teus servidores declarou o velho Kapa. Ordena e obedecer-te-emos, pois é o pensamento do Criador que guia o teu.
O rosto de Otokou exibia um grande sorriso. O obeso personagem pensava já no faustoso banquete que tinha organizado para celebrar a segunda coroação do faraó negro. Tendo em consideração a abundância e a qualidade dos pratos, marcaria uma data na história da gastronomia núbia.
— Não há nada mais urgente do que honrar os antepassados decretou Piankhi. Sem eles, não existiríamos. Não estão atrás de nós mas à nossa frente, pois conhecem simultaneamente a vida e a morte.
Piankhi subiu para a barca real cuja proa tinha a forma de uma cabeça de carneiro, o animal sagrado de Amon. Sentou-se no seu trono, a rainha Abilé tomou lugar a seu lado, e o faraó deu o sinal de partida em direção a El-Kurru, a jusante de Napata. Seguiu-o uma imponente frota onde não faltava um único dignitário.
El-Kurru era o cemitério dos soberanos núbios onde repousava o pai de Piankhi. Modestos túmulos, dotados de um nicho de oferendas, encontravam-se lado a lado com os poços funerários e sepulturas semelhantes às moradas de eternidade do Antigo Império, com as paredes de belo calcário brilhante e a capela aberta na fachada para permitir aos vivos dialogar com os defuntos por intermédio da oferenda.
Piankhi, cujo nome significava «o Vivo», constatou que o seu próprio túmulo estava quase terminado. Tinha escolhido a forma de pirâmide, no interior da qual fora preparada uma galeria conducente a uma câmara funerária coberta por uma cúpula em corbelha. Perto, a última residência da sua esposa, que continuaria a ser a sua companheira no Além.
Na pirâmide de Piankhi encontravam-se já dois amigos fiéis: os seus dois primeiros cavalos que tinham sido mumificados e colocados de pé, em fossas profundas, depois de terem beneficiado dos rituais de abertura da boca, dos olhos e das orelhas, e da substituição do seu coração mortal por um coração imorredouro.
Piankhi ofereceu aos seus antepassados flores, perfumes, pão fresco, vinho, leite, cerveja, óleo de festa, tecidos e colares de ouro.
—Os vossos nomes estão gravados na pedra declarou e nunca serão esquecidos. Dou-lhes a vida e assim fará o filho do meu filho. Em verdade, é um homem digno desse nome aquele que perpetua a memória dos seus antepassados e adorna as suas tábuas de oferendas.
Abilé estava deslumbrante. Tal como o seu esposo, considerava que os egípcios das Duas Terras esqueciam cada vez mais a sua tradição e se desviavam da lei de Maât. Em breve, até mesmo a cidade santa de Tebas negligenciaria os seus deveres sagrados para se deixar enfeitiçar pelas miragens do lucro e da ambição individual.
Era aqui, em Napata, nesta terra longínqua e selvagem, que o faraó negro continuava a fazer viver os rituais autênticos, a ler os antigos textos, a prolongar a sabedoria do tempo das pirâmides e a obra de Tutmósis, de Seti I e de Ramsés.
Um dos participantes na cerimônia sentia um grande orgulho: Cabeça-fria, o escriba rigoroso que defendia a utilização de uma escrita hieroglífica conforme com os modelos das primeiras eras e exigia a prática de uma língua clássica, desprovida de qualquer barbarismo e de palavras estrangeiras, que invadiam a linguagem abastardada dos do Norte. Ver ressuscitar a forma piramidal, raio de luz inscrito na pedra, recordava-lhe a idade de ouro dos faraós.
Piankhi plantou uma tamargueira no jardim que precedia a capela funerária de seu pai. E nesse instante de comunhão com o invisível, uma visão continuava a assaltá-lo: a do arco que Amon lhe indicara. De que ameaças seria portador?
Tefnakhte tinha lançado a totalidade das suas tropas contra a cidade de Heracleopólis, «a cidade do filho real», antigo aglomerado populacional fiel ao faraó negro. O novo general-chefe do exército nortista ficara surpreendido com a obediência dos chefes de clã, executando o seu plano sem protestar.
Os líbios tinham atacado em quatro pontos ao mesmo tempo, provocando surpresa e pânico entre os defensores. O príncipe Pefteu, um escriba sexagenário herdeiro de uma grande família local e rico terratenente, não soubera reagir perante tanta violência. Apesar de bem treinados, os seus soldados não estavam habituados a travar um combate de tal importância.
Bastara meia hora para o exército nortista se apoderar de uma poterna, abrir uma porta fortificada e penetrar no interior da cidade. Do alto das muralhas, os arqueiros de Pefteu tinham tentado travar o fluxo devastador, mas os manejadores de fundas líbios haviam-nos exterminado rapidamente.
Alguns civis tinham-se lançado corajosamente na batalha, mas os nortistas, superexcitados pela sensação de triunfo, aniquilaram-nos.
Receando que o prosseguimento da luta se traduzisse por um massacre da população, Pefteu saiu do palácio, rodeado da sua guarda pessoal, e pediu aos seus homens que depusessem no chão espadas e escudos.
Tefnakhte avançou para o vencido.
— Aceitas render-te sem condições?
— Somos teus prisioneiros, mas poupa os habitantes desta cidade!
— Concedido, se todas as armas, sem qualquer exceção, forem depositadas na praça principal.
— Tens a minha palavra.
Pouco a pouco, a fúria extinguiu-se. Heracleopólis obedeceu ao seu príncipe, as mulheres e as crianças comprimiram-se umas de encontro às outras, assustadas pelos olhares cruéis dos vencedores. Um soldado que tentava fugir foi apanhado por quatro invasores que o espezinharam antes de lhe cravarem uma lança nas costas.
A cena, de uma inaudita brutalidade, desfez as últimas veleidades dos defensores de Heracleopólis. As armas foram depostas em todos os bairros.
— Não és o príncipe de Saís? interrogou Pefteu, estupefato.
— Hoje sou o chefe da coligação do Norte. Amanhã, reunificarei as Duas Terras afirmou Tefnakhte.
— Ignoras que o único faraó legítimo é Piankhi e que esta cidade lhe pertence?
— Escolhe, Pefteu: ou te tornas meu vassalo ou morres.
O príncipe de Heracleopólis compreendeu que Tefnakhte não estava a brincar. O seu olhar era o de um conquistador implacável. Pefteu curvou-se.
— Reconheço-te como soberano.
— Renuncias a servir Piankhi?
— Renuncio... Mas quais são os teus projetos?
— Heracleopólis era apenas uma etapa.
— Uma etapa... Não pensas avançar mais profundamente pelo Sul? Tefnakhte olhou em seu redor.
— Um terço dos teus soldados foi morto ou ferido... Portanto, restam dois terços de combatentes experimentados que se vão juntar às minhas tropas para atacar e conquistar outra cidade controlada por Piankhi.
— Heracleopólis é uma magnífica conquista fez notar Pefteu e a tua nova fama bastará para aterrorizar os núbios... Porque queres mais?
— Não passas de um medíocre, Pefteu, e não vês para além das muralhas da tua cidade. Contenta-te em obedecer-me cegamente e conservarás os teus privilégios.
Tefnakhte abandonou o vencido e reuniu os chefes de clã líbios na sala de audiências do palácio. Alguns já estavam bêbados, outros cobertos do sangue das suas vítimas, e todos gritavam o nome do seu general que os conduzira a uma vitória brilhante e rápida, quando a maior parte receara uma resistência feroz da parte da milícia de Heracleopólis e da sua população. Tefnakhte acabava de lhes demonstrar as suas capacidades de chefe de guerra e abrir caminho para um futuro inesperado. Acordara neles o desejo de combater e exterminar os egípcios, os inimigos hereditários que, durante séculos, tinham humilhado a Líbia.
Tefnakhte tinha intenção de tirar as conclusões daquela primeira intervenção militar, mas o estado dos seus subordinados dissuadiu-o disso.
Aborrecido com tanta mediocridade, o general abandonou os chefes de clã à sua embriaguez. Ao sair do palácio, esbarrou com Akanosh, envergando uma longa túnica vermelha de riscas.
— Porque não participaste no assalto? perguntou Tefnakhte.
— Sou o porta-voz das tribos e não um soldado encarregado de forçar as linhas inimigas.
— Desaprovas a minha ação?
— Conseguiste uma brilhante vitória, Tefnakhte, e a tua autoridade já não pode ser contestada. Transmitirei pois as tuas ordens com o maior rigor.
— Aqui tens uma, Akanosh: manda reforçar as fortificações de Heracleopólis e organizar turnos de guarda.
Tefnakhte partiu em busca de Nartreb e Yegeb. Encontrou este último entre os que saqueavam a casa do capitão dos arqueiros de Heracleopólis, abatido durante o assalto. Apesar dos seus tornozelos dolorosos e da dificuldade em deslocar-se, o semita mostrava-se o mais ativo de todos e enchia um grande saco com taças de ouro.
Sobressaltou-se quando viu Tefnakhte.
— Senhor... Estou a vigiar esta gente, não vos preocupeis! Só levarão o que lhes é devido.
— Confio em ti. Onde está Nartreb?
— Lá em cima respondeu Yegeb com um estranho sorriso. Mas creio que está ocupado...
Tefnakhte subiu a escada. Do andar de cima chegavam os gritos de uma mulher que Nartreb violava com ferocidade, esbofeteando-a ao mesmo tempo.
— Basta, Nartreb!
O bruto continuou.
— Não passa da filha de um oficial a soldo de Piankhi e estou convencido que nunca conheceu um homem como eu!
Tefnakhte deu um pontapé no flanco de Nartreb.
— Magoaste-me, senhor!
— Vai ter com Yegeb e informem-se sobre Pefteu, o príncipe de Heracleopólis.
Nartreb atou o saiote, indiferente à jovem que o fitava com um olhar de ódio.
— Duvidais da fidelidade dele, senhor?
— Quero saber tudo a seu respeito e depressa.
O violador voltou-se para a sua vítima antes de descer a escada.
— Voltaremos a ver-nos, pequena.
A egípcia tapou o ventre e os seios com os farrapos do vestido.
—Como te chamas? perguntou Tefnakhte.
— Aurora. Sois vós o general líbio?
— Sou o novo senhor desta cidade.
— Haveis morto o meu pai; hei de matar-vos.
Na proximidade do templo de Amon, o palácio do faraó negro era construído sobre um soco de dois metros de altura e rodeado de um muro de cerca. Os dois batentes da grande porta de acesso tinham sido abertos para deixar entrar Napata em peso, convidada para um banquete oferecido em honra de Piankhi. Como o mestre de cerimônias era Otokou, bom garfo e guloso, todos esperavam um serão extraordinário.
Para o capitão dos arqueiros Puarma, o mais difícil fora escolher uma acompanhante entre a dezena de soberbas moças que lhe tinham suplicado que as levasse. Só um tirar à sorte e longas e confusas explicações, acompanhadas de presentes que aumentavam as suas dívidas, lhe permitira sair daquele impasse.
Por sorte, era a menos faladora que se pendurava no seu braço e devorava com os olhos o espetáculo que ia descobrindo. Tochas espetadas nos jardins iluminavam as palmeiras, as tamargueiras e os sicômoros, bem como os espelhos de água onde desabrochavam lótus brancos e azuis e que as luzes faziam cintilar. Servos ofereciam aos convidados toalhas perfumadas e uma taça de vinho branco fresco, enquanto estes admiravam as colunas do palácio em forma de haste de papiro.
O par subiu a escada de honra em granito rosa cujos lados eram decorados com figuras de inimigos deitados e vencidos. A grande sala de recepções com colunas, já invadida por numerosos cortesãos, era um novo deslumbramento: placas de cerâmica esmaltadas de amarelo, verde, azul e violeta, cornijas de estuque dourado, baixos-relevos representando touros selvagens, panteras e elefantes.
No fundo da sala estava erguido um dossel ladeado por dois leões de calcário. Protegia dois tronos de madeira dourada nos quais se instalavam Piankhi e Abilé nas audiências oficiais. Vendo o estado de pasmo da sua companheira, estupefata por tantas maravilhas, o capitão dos arqueiros nem sequer lhe revelou que, por baixo da zona central do palácio, tinha sido embutido um gigantesco bloco de ouro nativo, símbolo da luz oculta nas trevas.
Alguém empurrou Puarma.
— Mas quem... Ah, és tu, Cabeça-fria! Mas não envergaste o teu traje de festa.
— Tenho preocupações demais replicou o escriba, visivelmente à beira de uma crise de nervos.
— O que se passa?
— É a evacuação das águas de consumo! Apesar das indicações que lhes dei, os operários fizeram as coisas não sei como. E, no entanto, é simples... É necessário forrar com cobre as bacias de pedra, abrir uma abertura suficientemente grande que se tapa com um tampão metálico e calcular corretamente o diâmetro dos canos feitos com folhas de cobre marteladas e enroladas em cilindro. Bem lhes mostrei os planos e lhes dei as medidas corretas, mas a rede que serve a ala esquerda do palácio está outra vez entupida... Resultado, não há festa para mim e tenho que ir acordar um bando de incapazes!
O anão desapareceu resmungando, ao mesmo tempo que a orquestra entrava na grande sala. Duas tocadoras de harpa dedilharam uma melodia encantadora, acompanhadas depois por um flautista, dois tocadores de oboé e um clarinetista.
No fim do concerto, um mordomo pediu aos convidados que passassem à sala do banquete. A companheira do capitão dos arqueiros quase desmaiou em frente das soberbas mesas baixas de madeira de ébano, das toalhas com acianos e mandrágoras, das lâmpadas de óleo colocadas em pilares altos de madeira dourada, mas, sobretudo, perante a loiça... Travessas, copos, pratos, taças, lava-dedos, era tudo de ouro!
Manejadores de leques, uns em forma de lótus e feitos de vimes e outros de plumas de avestruz, proporcionavam uma agradável frescura aos convivas, confortavelmente sentados no amplo compartimento onde pairavam perfumes subtis.
Com os seus colares de seis fiadas, de ouro e de pedras semi-preciosas, as belas mulheres faziam uma parada de elegância. A amante de Puarma nunca tinha visto semelhante exibição de cornalina, jaspe, turquesa e lápis-lazúli. E que dizer dos brincos de ouro a que os ourives tinham dado as mais variadas formas!
— Estou suficientemente bem arranjada? inquietou-se a jovem.
— Estás perfeita afirmou o capitão dos arqueiros, que não possuía meios para cobrir de jóias aquela companheira de uma noite.
Quando Piankhi e Abilé apareceram, as gargantas contraíram-se de admiração. Aliança do poder e da beleza, o par real eclipsava aqueles e aquelas que tinham esperado rivalizar com ele. O contraste entre o fulgor do ouro dos colares e pulseiras, a pele negra de Piankhi e a acobreada de Abilé traduzia uma harmonia quase sobrenatural. As jóias que os soberanos tinham escolhido eram de tal perfeição que poderiam ter sido oferecidas aos deuses. Todos foram novamente tocados pela colossal força que emanava de Piankhi e pela nobreza inata da sua esposa. Era necessário que ela também possuísse força para ocupar o seu lugar ao lado de um monarca tão imponente!
Piankhi elevou uma enorme pérola sobre a qual se concentraram os olhares dos convidados.
— Contemplem esta obra-prima da natureza. Não é o símbolo visível da esfera da criação, do ventre transparente da mãe celeste na qual renasce todas as manhãs um novo sol? Venerem esta luz que se vos oferece com profusão, esta vida generosa que assume por vezes o aspecto da morte para melhor nos despertar para a eternidade.
O rei pegou numa taça de ouro, cujas gravuras evocavam um lótus com as pontas das pétalas arredondadas. Assim era ilustrado o processo da ressurreição, o renascimento da alma inscrita no lótus que surge do oceano primordial. E o vinho contido na taça não era uma homenagem a Hátor, a deusa das estrelas e do amor criador, a que fazia dançar de alegria as constelações quando a embriaguez divina enchia o coração do ser?