O Faraó Negro

Christian Jacq · Capítulo 3 de 4 · parte 3/3

Páginas do PDF

O Faraó Negro

No navio almirante, ao lado da cabina…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ao realizar este programa, Yegeb, futuro ministro da Economia e Nartreb, futuro chefe da Segurança do Estado, ficaram satisfeitos com o seu trabalho.

Um último pormenor, no entanto, perturbava ainda Yegeb: era necessário meter na ordem certos chefes de clã líbios que prezavam demasiado a sua independência e acreditavam ingenuamente que Tefnakhte tinha intenções de a respeitar. A maior parte dos casos seriam resolvidos quer pela autoridade do novo senhor do Egito, quer pela distribuição de presentes susceptíveis de fechar a boca aos recalcitrantes.

Restava o príncipe Akanosh, nem corrupto nem corruptível, e suficientemente teimoso para protestar abertamente contra a nova política. Em vez de pensar na sua eliminação súbita, que provocaria desagradáveis agitações no momento em que Tefnakhte instalaria ao seu poder, talvez fosse possível detectar uma falha nos que o rodeavam e desacreditá-lo definitivamente.

 

Nemrod, príncipe de Hermopólis, estava de excelente humor. Como tivera razão em trair Piankhi e apostar em Tefnakhte! De acordo com as previsões do general nortista, o faraó negro ia quebrar os dentes na praça forte de Heracleopólis e compreenderia tarde demais que tinha enfraquecido o seu exército a ponto de lhe retirar qualquer possibilidade de vencer.

Mais sedutor do que nunca, com os cabelos perfumados, manicurado com extremo cuidado, Nemrod estava tão contente consigo próprio que se recordara da existência da sua esposa Nézéta, esquecida há muito em benefício de uma corte de amantes mais ou menos hábeis nos jogos do amor.

Tendo ultrapassado os cinqüenta, não faltavam a Nézéta nem elegância nem encanto, mas não podia rivalizar com belas intriguistas de vinte anos que, erradamente, esperavam conquistar o senhor de Hermopólis. Sobriamente vestida, com uma peruca à antiga, Nézéta não manifestava qualquer indício de revolta.

— Porque me chamaste, Nemrod?

— Tefnakhte em breve será coroado Faraó e oferecer-me-á um lugar de destaque no seu governo. Para não chocar os cortesãos, deveria levar pelo braço uma esposa submissa e discreta. Aceitas desempenhar esse papel?

— E se eu recusar?

— Repudiar-te-ei com um pretexto qualquer, mas legal, e outra tomará o teu lugar. É evidente que perderás todos os teus privilégios e terás de viver de forma muito mais modesta.

— Quais serão as minhas obrigações?

— Simplesmente aparecer a meu lado, demonstrar ser feliz e falar apenas de banalidades. Há empregos mais desagradáveis, Nézéta. Contigo, pelo menos, não terei de suportar dramas nem censuras. Para exercer as nossas futuras responsabilidades tenho necessidade de calma. Estás de acordo?

— Estou.

— Perfeito!

Tudo sorria a Nemrod. Graças à intuição que o arrastara para o campo de Tefnakhte, a sua cidade tornar-se-ia uma das mais ricas do Egito e ele um dos personagens mais em evidência na corte do novo faraó.

Quando o príncipe, todo animado, se dirigia para o quarto de uma das suas últimas amantes, uma tocadora de alaúde síria com dedos de agilidade incomparável, o chefe da sua guarda barrou-lhe a passagem.

— Príncipe Nemrod...

— Mais tarde, tenho pressa.

— Príncipe Nemrod, estamos cercados!

— Cercados... Mas por quem?

— Por núbios... Milhares de núbios!

— Estás a divagar; o exército de Piankhi avança sobre Heracleopólis!

— Não, príncipe Nemrod! O faraó negro está aqui, com os seus soldados!

Correndo o perigo de ficar sem fôlego, Nemrod trepou até ao cimo da mais alta torre das fortificações.

E o que viu aterrou-o.

Cavalgando um magnífico corcel baio de crina fulva, o faraó negro avançava à cabeça das suas tropas.

De pele muito negra, faces escarificadas, pequenas argolas de ouro nas orelhas, a parte anterior do crânio rapada, cabelos curtos e encarapinhados, envergando saiotes curtos presos por um cinto vermelho, os guerreiros do Grande Sul pareciam invulneráveis. Esses que os nortistas designavam por «portadores de tranças» e por «caras queimadas», avançavam sem pressa para Hermopólis. Os oficiais eram identificáveis pela túnica branca e colar de pérolas multicores na peruca vermelha.

— São tantos, príncipe, tantos! gemeu o chefe da guarda. Petrificado, Nemrod tentou manter a aparência de calma.

— As nossas fortificações são sólidas.

Dizem que os núbios arrancam as entranhas das suas vítimas para as dar aos crocodilos, dizem que os seus assaltos são acompanhados por uma chuva de sangue, dizem que...

— Basta! Que cada um esteja no seu posto e defenda esta cidade como o seu bem mais precioso. Repeliremos os sulistas.

 

Então, Piankhi fizera crer que cairia sobre Heracleopólis como uma ave de rapina para melhor concentrar os seus esforços em Hermopólis, a cidade do deus Thot. Era a proteção deste que o faraó negro queria garantir Inserindo-se na tradição, como poderia Piankhi avançar sem o auxílio do senhor do conhecimento? Nem Tefnakhte nem Nemrod tinham detectado essa faceta da personalidade do núbio. Rebaixando-o ao nível de um simples conquistador, tinham esquecido a dimensão sagrada da sua função.

Mas não eram horas para recriminações. Nemrod tinha que salvar a sua cidade e salvá-la-ia: as suas fortificações não eram tão dissuasivas como as de Heracleopólis?

Mais mal arranjado do que os soldados colocados sob as suas ordens, o capitão Lamerskény tinha-se esquecido de fazer a barba. O seu único luxo era uma tira de linho grosseiro ocultando o braço de acácia.

Há longos minutos que o oficial fixava com atenção uma zona determinada das muralhas.

— Na tua opinião, devemos concentrar o nosso ataque naquele ponto? perguntou Piankhi.

— Pelo contrário, Majestade. É a parte das fortificações que foi voluntariamente destruída por Nemrod para atrair o corpo expedicionário a uma emboscada. Estou convencido que o príncipe de Hermopólis, constatando o fracasso da sua artimanha, fez consolidar aquele muro com um cuidado muito particular.

— Que estratégia preconizas?

— Se fizesse o que me apetecia, avançaria a direito à minha frente... Mas não se trata de uma pequena praça forte como a Falésia-das-grandes-vitórias! Reparai na altura das muralhas e na sua espessura! Lançarmo-nos de cabeça sobre Hermopólis traduzir-se-ia por um desastre. Perderíamos muitos homens sem termos a certeza de pôr o pé nas muralhas. Sinceramente, Majestade, estou pronto para combater, mas porque hei-de morrer no fim de uma carga tão heróica como estúpida?

— Não há mais nenhuma solução?

Despeitado, Lamerskény abanou a cabeça negativamente. Puarma teria gostado de lhe passar a perna e brilhar perante o soberano, mas também ele estava sem idéias. Apesar do seu número, os núbios não tinham qualquer hipótese de se apoderarem de Hermopólis. Com certeza que lhe infligiriam severos golpes, mas a que preço?

— Mandem erguer as tendas ordenou Piankhi. Lamerskény vigiou pessoalmente o trabalho dos cabouqueiros: molharam o chão para fazer baixar a poeira, traçaram áleas e instalaram as tendas de tamanhos diversos, desde a mais vasta moradia reservada ao casal real até ao pequeno abrigo dos oficiais de categoria inferior. Deram de comer aos cavalos, aos burros e aos bois, montaram os carros que tinham sido transportados em peças separadas nos barcos de carga, os médicos trataram dos doentes e jogaram aos dados com muitas discussões para esquecer os combates sangrentos do dia seguinte.

A rainha Abilé não ficou inativa. Na tenda real, espalhou taças de faiança, frascos de vidro com perfumes, vasos com a tampa em forma de cabeça de carneiro e pequenos leques lotiformes, sem esquecer os cofres de maquiagem contendo potes com cremes e ungüentos. Um corpo de baile de servas trouxe os indispensáveis cofres de roupa e de serviços de mesa de ouro e de alabastro.

Quando Piankhi entrou nos seus domínios privados, ficou deslumbrado.

— Recriaste o nosso palácio de Napata, Abilé!

— Apenas alguns compartimentos, e de forma muito imperfeita. Esta campanha militar contra a injustiça não implica que nos deixemos soçobrar na barbárie. Mas... pareces muito preocupado!

As doces mãos de Abilé pousaram nas faces de Piankhi.

— Como poderei ajudar-te?

— Hermopólis parece inexpugnável. Até mesmo Lamerskény está prestes a renunciar.

— Mas tu não!

— Assaltos repetidos teriam como único resultado pesadas perdas. Para nos apoderarmos de Hermopólis é necessário descobrir outra solução.

— Quando um obstáculo infranqueável se ergue, não é conveniente ou contorná-lo ou suprimir a própria natureza desse obstáculo?

— Fazer com que as muralhas deixem de ser muralhas... Sim, tens razão!

Os carpinteiros núbios tinham trabalhado dia e noite para montar catapultas gigantes, enquanto os soldados de infantaria erguiam plataformas elevadas montadas sobre rodas e os condutores de burros faziam com que os seus animais transportassem pesados cestos cheios de terra.

Encostado a uma palmeira e mastigando uma haste de papiro, o capitão Lamerskény assistia àquela agitação com cepticismo.

— Tem confiança recomendou Puarma. São ordens de Piankhi.

— Conquistar uma fortaleza com burros... Acreditas realmente nisso?

—Esqueces as catapultas!

— Não conheço o funcionamento desses engenhos.

— Entre os soldados vindos de Napata, há uma unidade especializada na utilização dessas máquinas de guerra.

— Poeira nos olhos, nada mais.

— Estás a ruminar porque os teus homens, uma vez mais, não estão na primeira linha!

Lamerskény resmungou como um urso sírio.

Do cimo da sua torre de vigia, Nemrod observava os preparativos dos núbios, dos quais não compreendia nada. O comandante da guarnição estava igualmente perplexo.

— Porque não se lançam ao assalto?

— É realmente surpreendente... No entanto, os hábitos dos guerreiros núbios são bem conhecidos!

— Para que servem essas estranhas máquinas?

— Nunca tinha visto outras semelhantes, príncipe Nemrod. Na minha opinião, não sabem como nos hão de atacar e procuram impressionar-nos.

Lançada por uma catapulta, uma enorme pedra destruiu várias ameias de tijolos crus, matou dois arqueiros líbios e feriu uma dezena. Desde o primeiro tiro, os atiradores núbios tinham conseguido a pontaria correta.

Vinte catapultas entraram então em ação e causaram graves estragos nas muralhas.

Piankhi fez sinal aos condutores de burros para avançarem, seguidos pelos bois que puxavam carroças carregadas de toneladas de terra. Para proteger o comboio e a descarga, os arqueiros de Puarma, em pé sobre as plataformas elevadas, abateram os líbios, dos quais muito poucos tiveram a possibilidade de se servir dos seus arcos. Apanhados sob o tiro intenso e exato das catapultas e dos arcos, muitos defensores de Hermopólis foram abatidos enquanto os cabouqueiros edificavam um talude que rodearia as muralhas e chegaria a três quartos da sua altura.

A muralha de Hermopólis já não era um obstáculo.

Sem perderem um único dos seus, os arqueiros de Puarma tomaram posição nas muralhas. Quando Piankhi se lhes juntou, constatou que os defensores da cidade não estavam totalmente aniquilados. Os sobreviventes detinham ainda o palácio, o arsenal, a caserna e os celeiros. Mas um cheiro pútrido se elevava já das ruelas e das pracetas onde os cadáveres se tinham acumulado. Em breve Hermopólis não poderia respirar.

Lamerskény impacientava-se.

— Agora, Majestade, é comigo! Os meus soldados não demorarão muito tempo a desalojar esses medrosos!

— Desilude-te, capitão. Defenderão a sua vida com afinco... Porque havemos de arriscar a dos nossos?

— Então... quais são as vossas ordens?

— Esperar pela reação de Nemrod, o nosso antigo aliado.

 

— Vamos morrer todos previu o comandante da fortaleza. Poderemos resistir um mês, talvez dois, mas em seguida.,.

Todos os oficiais partilhavam a opinião do seu superior. Quanto aos notáveis, gemiam prevendo a sorte que lhes reservaria o faraó negro.

— É preciso resistir considerou Nemrod, cujo rosto se enchera de rugas. Melhor, é preciso contra-atacar! Visto que Piankhi já se considera vencedor, provemos-lhe que se engana!

— Hermopólis está cercada objetou o comandante e perdemos metade dos nossos homens, enquanto que o exército de Piankhi continua intacto. Se tentarmos uma saída, seremos aniquilados.

— O que propões?

O comandante baixou a cabeça.

— Negociemos, príncipe Nemrod.

— Queres dizer... rendermo-nos?

— É a melhor solução.

— Enlouqueceste? Piankhi massacrar-nos-á a todos.

Um notável tomou a palavra.

— Eras seu aliado, Nemrod, e traíste-o. É a ti que o faraó negro considerará responsável, não esta cidade. Não tem qualquer razão para atacar os seus habitantes se estes se submeterem humildemente à sua vontade.

— Sou o vosso príncipe e é a mim que deveis obedecer!

— O comandante tem razão: é preciso negociar.

Com os cabelos entrançados, a barba fina e talhada em ponta, envergando túnicas decoradas com motivos florais, os notáveis mais ricos de Hermopólis franquearam a porta da cerca do palácio de Nemrod.

Imediatamente os arcos núbios se retesaram.

— Não atirem ordenou Puarma. Não estão armados.

Com os braços carregados de cofres contendo ouro, pedras preciosas e tecidos de grande valor, os embaixadores atravessaram um largo juncado de cadáveres líbios e apresentaram-se à poterna onde se encontrava Lamerskény. O mais idoso dirigiu-se ao capitão.

— Concedei-nos o privilégio de depositar estes presentes aos pés de Piankhi.

— Primeiro vou revistar-vos.

Os notáveis sofreram a humilhação sem protestar. Depois, Lamerskény conduziu-os até ao centro do acampamento.

Piankhi estava sentado num trono de madeira dourada e os manejadores de leques proporcionavam-lhe um pouco de ar fresco.

O porta-voz dos notáveis inclinou-se perante o faraó negro.

— Majestade, aceitai os presentes da cidade de Hermopólis. Eis as riquezas que reunimos para vos oferecer. A nossa cidade deita-se de bruços para venerar a vossa grandeza e implorar a vossa clemência.

— É Nemrod que vos envia?

— Nós próprios tomamos a decisão que o príncipe aprovou.

— Porque não vos acompanha?

— Receia a vossa cólera e...

— Tem razão cortou Piankhi. Quando me abrirá as portas desta cidade que é minha e ele me roubou?

— Majestade, há que compreender os receios de Nemrod.

— O teu príncipe não passa de um revoltado e, pior ainda, um traidor! Que rei seria suficientemente fraco para lhe conceder o perdão que ele não merece?

O porta-voz dos embaixadores estava aterrado, mas tentou mesmo assim defender a causa da sua cidade.

— Nemrod cometeu uma falta grave, Majestade, e nós lamentamos que isso tenha acontecido. Mas deve Hermopólis sofrer as conseqüências da vossa justa cólera? As suas muralhas foram destruídas, metade da sua guarnição foi exterminada. Hoje, as nossas famílias têm medo e ninguém sabe o que lhe reserva o amanhã.

O faraó negro ergueu-se.

— Nemrod e Hermopólis violaram a lei de Maât e esqueceram o juramento de fidelidade que me fizeram. Semelhante traição não exige o mais severo dos castigos?

A amante de Nemrod massageava-lhe as costas com o raro e precioso óleo de moringa, mas não conseguia descontrair o príncipe de Hermopólis. Ternas carícias eram igualmente ineficazes e a jovem sentiu-se despeitada quando Nemrod a afastou com brusquidão.

 

No limiar da porta encontrava-se a sua esposa legítima, Nézéta.

— O que vens aqui fazer?

— Voltarei mais tarde, se perturbo os teus amores.

— Vai-te embora ordenou Nemrod à amante. Vexada, esta desapareceu.

— Vamos morrer todos disse o príncipe a Nézéta. Piankhi não terá piedade, nem de mim nem dos habitantes desta cidade. Lamento, minha querida. Nunca serás uma grande dama na corte de Tefnakhte.

— Visto que não há qualquer esperança de escapar à fúria do faraó negro, autorizas-me a tentar uma última negociação?

Nemrod ficou espantado.

— Como?

— Considerando que sou tua esposa, encabeçarei um cortejo de mulheres e crianças e implorarei a piedade de Piankhi.

— Não tens a mínima hipótese de conseguir qualquer coisa.

— Pelo menos, terei tentado.

Incrédulo, Lamerskény viu passar o estranho cortejo guiado por uma mulher orgulhosa, de cabeça erguida, vestida com simplicidade. O capitão de infantaria não ousou revistá-la, mas recomendou a Puarma que se mantivesse preparado para a abater com uma flecha se se mostrasse ameaçadora. Atrás de Nézéta marchavam cerca de cinqüenta mulheres e crianças, umas chorosas, outras quase satisfeitas por verem tão de perto os impressionantes guerreiros núbios. Uma garotinha tocou no escudo de um soldado de infantaria, que lhe pegou ao colo e se juntou à procissão contando-lhe uma história da sua longínqua Núbia.

Foi a rainha Abilé que recebeu a surpreendente embaixada.

Nézéta ajoelhou.

— Sou a esposa de Nemrod e vim suplicar-vos que nos concedeis a salvação da nossa vida.

— Levanta-te.

— Não antes de ter obtido a palavra do faraó.

— Achas que ele é acessível à clemência?

— Um rei do Egito não governa com o coração?

— Segue-me.

A rainha Abilé introduziu Nézéta na tenda onde Piankhi, sentado num banco de sicômoro cujos pés tinham a forma de cascos de touro, se refrescava bebendo uma taça de leite fresco.

A nobreza da sua visitante impressionou-o.

— O meu nome é Nézéta, Majestade. Por minha desgraça, casei com Nemrod porque o amava. Tornou-me tão infeliz que perdi o gosto pela vida... Hoje, quero defender a causa da minha cidade e dos seus habitantes. Foram colocados sob o jugo de um traidor e obrigados a obedecer-lhe. Porque hão de sofrer um injusto castigo? Nemrod, e só ele, deve responder pelos seus atos.

— Nesse caso considerou Piankhi que ele compareça perante mim.

— Nemrod ouvira a esposa com atenção, sem se atrever a interrompê-la. O que ela lhe propunha não era uma condenação à morte? Comparecer perante Piankhi equivalia a um suicídio. Sem a sombra de um sorriso, Nézéta fizera apelo à coragem do príncipe graças à qual salvaria milhares de vidas, pouparia horríveis sofrimentos à sua cidade e provaria a dedicação aos seus súbditos.

Nunca uma mulher tinha troçado dele como aquela, nunca ninguém o tinha colocado em semelhante posição de inferioridade sem sequer elevar o tom de voz.

Nézéta eclipsara-se para deixar Nemrod frente a frente consigo próprio e face às suas responsabilidades.

Nemrod amava a sua cidade, mas não tanto como a si próprio. Só lhe restava portanto uma única saída: tentar fugir e reunir-se a Tefnakhte.

O render da guarda realizava-se logo ao raiar da aurora. Durante alguns minutos, o acesso a uma porta baixa estaria livre. Vestido como um camponês, Nemrod seguiria rente aos celeiros, passaria pelo campo de manobras, franquearia a muralha exterior e atravessaria as linhas inimigas. Um empreendimento arriscado, mas já nada tinha a perder.

Nemrod abriu a porta do quarto.

Esperavam-no a esposa e vários guardas.

— Os notáveis, os oficiais e a população são unânimes disse Nézéta: o príncipe de Hermopólis deve comparecer perante o seu rei.

O medo.

Um medo terrível que colava a pele à túnica de cerimônia e libertava suores acres, um medo contra o qual a vontade de Nemrod nada podia... Se, pelo menos, tivesse desmaiado e mergulhado no nada! Mas continuava a avançar como um homem embriagado que, infelizmente, mantinha plena consciência ao penetrar no campo núbio sob os olhares de ódio de milhares de guerreiros.

Se Lamerskény não tivesse recebido ordem para conduzir até junto do faraó um Nemrod são e salvo, ter-lhe-ia de boa vontade esmagado a cabeça com o seu braço de acácia. Mas o capitão tinha que aceitar que Piankhi desejasse dar pessoalmente largas à sua cólera... Talvez o monarca oferecesse às suas tropas um soberbo suplício que faria lembrar a Nemrod que a palavra tinha um valor sagrado.

Puarma ergueu um pano da tenda real para deixar passar o príncipe de Hermopólis, que estacou no limiar.

— Entra! disse Lamerskény empurrando o prisioneiro pelas costas.

Nemrod fechou os olhos, na esperança de que aquele pesadelo se dissipasse. Quando os reabriu, o faraó negro estava na sua frente e dominava-o com toda a sua estatura de atleta.

— Continuas sempre elegante, Nemrod. A tua reputação é justificada.

— Majestade... Podeis admitir que o coração é um leme que por vezes faz naufragar o seu possuidor, porque está nas mãos de Deus? É ele que decide o nosso destino e faz de nós aquilo que somos. O meu coração traiu-me, arrastou-me por um mau caminho... Graças a vós, tomo consciência das minhas faltas e venho implorar o vosso perdão.

Piankhi tirou a adaga da bainha e contemplou a lâmina.

— Tens razão, Nemrod. O coração concebe, pensa, dá ordens aos membros, comanda a língua e cria a capacidade de conhecer. «Segue o teu desejo durante a tua existência, escrevia o sábio Ptahotep, nada faças de excessivo mas não reduzas o tempo de seguir o coração, porque o ka, o poder criador, detesta que seja destruído um instante.» Aquele cujo coração é poderoso e estável, o que não é escravo das exigências do seu ventre, esse pode esperar acolher o divino e ouvir a sua voz. Trata-se do teu caso, Nemrod?

— Não, Majestade.

— Os anciãos afirmam que os nossos quatro inimigos são a avidez, a surdez, a negligência e a teimosia. Não foste vencido por todos eles, um a seguir ao outro?

— Sois hoje o único vencedor e desejo voltar a ser vosso súbdito.

— A vida é comparável a um tabuleiro de xadrez formado por casas brancas e pretas. Umas são-nos favoráveis, as outras não. E depois surge a morte... Não é ela que é importante, mas o estado de espírito no qual nos surpreende. Estás preparado para morrer, Nemrod?

Com os olhos fixos na lâmina da adaga, o príncipe de Hermopólis ajoelhou.

— Não, Majestade, não estou preparado! A morte aterra-me e nem mesmo a velhice me tirará o gosto de viver.

— O que pode oferecer-me um traidor?

— Todos os tesouros de Hermopólis vos pertencem, o ouro, a prata, o lápis-lazúli, a turquesa, o bronze... Os impostos ser-vos-ão pagos com regularidade e todos vos obedecerão cegamente, comigo à frente!

— Já escolhi o teu sucessor, Nemrod.

Lentamente, o príncipe ergueu-se, hipnotizado pela adaga. Queria pelo menos morrer de pé e, apesar do seu terror, fez a pergunta que lhe queimava os lábios.

— Quem... quem é, Majestade?

—Tu próprio, Nemrod. Quem melhor do que tu saberia governar Hermopólis com prudência?

Cabeça-fria estava de mau humor enquanto redigia o relatório que entraria nos arquivos reais.

— Qual a razão desse descontentamento? perguntou Piankhi.

— Não me obrigueis a criticar as vossas decisões, Majestade. Sempre vos servi com fidelidade e continuarei a fazê-lo.

— Deixa-me adivinhar, Cabeça-fria: desejavas que Nemrod fosse supliciado perante todo o exército, não é verdade?

— Não tenho qualquer gosto pela crueldade... Mas deveis compreender que confirmar um traidor no seu posto pode ferir muitas consciências!

— A minha verdadeira decisão ainda não foi apreciada na sua justa medida. A rainha está pronta?

— Espera-vos, Majestade.

Sentados no seu trono, Piankhi e Abilé viram dirigir-se para eles Nemrod, o príncipe de Hermopólis, e a sua esposa Nézéta, que segurava um sistro de ouro na mão direita e outro de lápis-lazúli na esquerda. As hastes metálicas desses dois instrumentos de música vibravam docemente e espalhavam ondas que afastavam as influências nocivas.

Por trás dos soldados núbios comprimia-se a população de Hermopólis, ansiosa por ouvir as palavras do faraó negro.

— Esta cidade sofreu graves ferimentos por causa da atitude de Nemrod declarou Piankhi. É portanto a ele que compete tratá-los e tornar Hermopólis próspera graças à paz que acabo de restabelecer. Todo o homem que reconhece as suas faltas pode emendar-se, desde que não mais saia do caminho de Maât. Comprometes-te finalmente a cumprir os teus deveres, Nemrod?

Comprometo-me pelo nome do faraó e pela minha vida!

— Tendo em consideração os graves erros que cometeste, não é conveniente que governes sozinho. Por isso a tua esposa será a tua delegada particular e prestar-me-á contas das tuas ações e gestos. Em caso de litígio, será a sua opinião que prevalecerá. À cabeça do conselho dos anciãos, gerirá as riquezas da cidade e velará pelo bem-estar dos seus habitantes que, a partir de agora, será a tua única preocupação.

Nenhuma emoção transpareceu no nobre rosto de Nézéta. Como se tivesse sido vergastado pelo cetro do faraó, Nemrod cambaleou.

— Controla-te recomendou-lhe a esposa em voz baixa. Não esqueças que o príncipe de Hermopólis deve dar o exemplo.

Um cântico brotou do peito dos cidadãos: «Como a tua ação é perfeita, Piankhi, Filho da Luz! Tu que nos ofereces a paz, protege a província de Liévre e a nossa cidade e permite-nos celebrar uma festa!”

Sob a vigilância de Cabeça-fria, um sacrificador abateu ritualmente um boi considerado puro pelo veterinário. Cortou-lhe a pata anterior direita, símbolo da força, depois mergulhou a sua mão no sangue do animal e estendeu-a a um sacerdote da deusa Sekhet, que a cheirou e deu imediatamente o seu veredicto: a energia do animal estava sã e forneceria ka aos comedores de carne.

Tranqüilizada, liberta e feliz, Hermopólis abriu as suas portas de par em par ao faraó negro, que seguiu por uma álea de tamargueiras para se dirigir ao templo de Amon. Em frente do pilone de acesso, dois colossos de Ramsés o Grande.

Depois de ali ter venerado o deus oculto, Piankhi avançou até ao grande templo de Thot. Junto de um babuíno de pedra com a altura de cinco metros, foi acolhido pelo grande sacerdote, um velho sorridente iniciado aos dezoito anos nos mistérios do deus do conhecimento. Viu que a sombra de Deus protegia o faraó negro e que o ka celeste guiava as suas ações.

Maravilhado, Piankhi descobriu o parque onde se encontrava o lago dos lótus, local de nascimento do primeiro sol, a ilha do clarão e o lago das duas facas, locais do seu combate vitorioso contra as trevas, e o santuário do ovo primordial que continha todos os elementos da criação.

Nemrod tentava ser razoável.

Embora tivesse sido humilhado diante de todos os habitantes de Hermopólis, tinha a vida salva e conservava certos privilégios nada negligenciáveis. É verdade que teria de obedecer à esposa, mas conservava o título de príncipe de Hermopólis. Não teria ainda uma hipótese de convencer Piankhi de que só ele, Nemrod, seria um bom governante como no passado e que Nézéta não teria nem força nem competência para governar uma cidade tão grande?

Para isso era preciso que o faraó negro saísse do templo de Thot onde, há vários dias, estudava os antigos textos mitológicos e conversava durante longas horas com os sacerdotes para apreciar a vastidão da sua ciência.

Finalmente, o rei reapareceu e consentiu em visitar o palácio.

— Majestade declarou Nemrod com entusiasmo vou mostrar-vos maravilhas! Se vos conseguir deslumbrar, permitis que defenda melhor a minha causa?

O rosto de Piankhi permaneceu indecifrável.

Efervescente, Nemrod precedeu-o em cada uma das cento e cinqüenta divisões do palácio, todas floridas e perfumadas. Na sala de audiências, nos salões de recepção, nos quartos, tinham sido colocados cofres abertos contendo ouro, jóias, tecidos e ungüentos.

 

Mas Piankhi não manifestava qualquer sinal de admiração. Passava, indiferente, como se aqueles esplendores não lhe interessassem.

Desiludido, Nemrod não se desencorajava. Talvez o monarca ocultasse os seus verdadeiros sentimentos... E depois, faltava um último tesouro que enfeitiçaria o mais austero dos homens.

— Com ostentação, o príncipe de Hermopólis ergueu um reposteiro.

— Majestade, eis o meu bem mais precioso... Pertence-vos.

Dez deslumbrantes mulheres, nuas e maquiadas com esmero, recostavam-se em almofadas multicores. Umas liam poemas e outras tocavam doces melodias em alaúdes e pequenas harpas.

— Conduz-me aos estábulos, Nemrod.

— Aos estábulos... Se desejais um cavalo, mando trazê-lo imediatamente!

— Detesto repetir as minhas ordens.

— Muito bem, muito bem...

Nem uma só vez Nemrod se aventurara naquele lugar mal-cheiroso reservado aos palafreneiros. Com certeza que Piankhi o queria pôr à prova... E lá o guiou, jovial e volúvel.

O faraó imobilizou-se em frente das reservas de forragem e de cereais. Agarrou num punhado e deixou-o cair sobre uma laje.

— Ficam pegados constatou.

— Isso é... importante?

— Se os grãos estivessem perfeitamente secos, como deve ser, teriam saltado. Este alimento é de má qualidade.

— Tratarei disso, Majestade.

Piankhi aproximou-se de um cavalo com um olho inchado por um edema. Na cabeça e nas patas tinha manchas escuras. De início receoso, o animal deixou-se acariciar.

— Tem febre... Porque não está tratado?

— Vai ser, garanto-vos!

O rei entrou num estábulo onde descobriu um cavalo que sofria de uma entorse da anca e cujos músculos estavam magoados.

— Tragam-me ungüento!

O rei massageou pessoalmente o quadrúpede cujo dorso era tão frágil que não deveria ter sido montado. Os olhos reconhecidos do doente comoveram Piankhi.

— Cavalos feridos, esfomeados, mal tratados... Tão certo como eu estar vivo e o deus Ra me amar, é-me mais doloroso ver maltratar estes animais do que enumerar os crimes que cometeste! Todos os teus tesouros, Nemrod, serão levados para o templo de Karnak. E tu, príncipe indigno, congratula-te com a minha clemência.

Os núbios tinham festejado até alta noite, empanturrando-se com as suas iguarias preferidas: ovos, leite coalhado e cabrito. Razoavelmente embriagado, Lamerskény mantinha no entanto a lucidez suficiente para arengar aos seus soldados semi-adormecidos e prometer-lhes um fabuloso combate por altura da tomada de Heracleopólis. Dessa vez, provariam a sua coragem realizando façanhas de que as futuras gerações guardariam memória.

Do terraço do palácio de Hermopólis, Piankhi contemplava a cidade em festa. A sua esposa, Abilé, pendurou-se-lhe ternamente do braço esquerdo.

— Evitaste um massacre, Piankhi.

— E os cavalos foram tratados... Mas tivemos sorte. Nemrod gosta tanto de si próprio e tem um tal gosto pelos compromissos que não se atreveu a arriscar a destruição desta cidade magnífica. Não é esse o caso de Tefnakhte: tem em mente um verdadeiro objetivo e preferirá sacrificar todos os seus homens a renunciar.

— Pensei muito em Nemrod...

— Censuras-me por não lhe ter infligido um castigo suficientemente severo?

— A sua evidente propensão para a traição poderia ser útil à causa da paz, não achas?

— O que queres dizer, Abilé?

— À medida que a rainha expunha o seu plano, Piankhi agradecia aos deuses por lhe terem permitido casar com uma mulher tão excepcional.

Tefnakhte estava furioso.

— Graças a mim disse ele a Nartreb e Yegeb vocês tornaram-se homens ricos e influentes e aumentais constantemente a vossa fortuna por meios que prefiro ignorar! Mas exijo ser informado sobre os movimentos do exército de Piankhi.

A voz de Yegeb tornou-se melosa.

— Senhor, não temos o direito de vos iludir... Não dispomos de nenhuma certeza, de tal forma são contraditórias as indicações que chegam até nós! Segundo uns, o faraó negro já teria regressado à Núbia; mas segundo outros, cerca Hermopólis há vários dias.

— Esta incerteza é-me insuportável! Arranjem-se como quiserem, mas quero saber!

Radiosa, Aurora entrou no gabinete do general e lançou um olhar desdenhoso aos dois conselheiros.

— Em vez de dares ouvidos a discursos inúteis, meu querido, desejas conhecer a sorte de Hermopólis?

As narinas de Nartreb contraíram-se.

— Salvo o devido respeito, estamos a tratar de assuntos sérios e...

— O pedido de audiência do príncipe Nemrod parece-vos suficientemente sério?

A notícia circulou em Heracleopólis à velocidade de um chacal em plena corrida. Tefnakhte considerou portanto conveniente convocar a sua corte para a grande sala de colunas do palácio onde surgiu um Nemrod elegante e descontraído, cuja atitude tranqüilizou a assistência.

— Que alegria rever-vos, general Tefnakhte!

— A tua presença enche-nos de júbilo, príncipe Nemrod. Significa que Hermopólis está livre e que Piankhi levantou o cerco?

— O faraó negro fez uma grande demonstração de força, os seus homens lançaram-se ao assalto das minhas muralhas e fracassaram de forma lamentável. Face à dimensão das suas perdas, o núbio bateu em retirada. A partir de agora, é de Tebas que será necessário expulsá-lo!

Fortes aclamações saudaram o discurso marcial do príncipe de Hermopólis. Tefnakhte avançou para ele, cumprimentou-o e prometeu-lhe um banquete inesquecível.

Numa Heracleopólis em festa, rapazes e moças, coroados com grinaldas de flores, perseguiam-se, encontravam-se e voltavam a fugir uns dos outros sob o olhar divertido dos que esvaziavam sem interrupção ânforas de cerveja generosamente distribuídas pela população.

Enquanto Tefnakhte e Aurora, triunfantes, se iam desembaraçando uma a uma das inúmeras pessoas que os abordavam com pedidos, Nemrod gozava o fresco sob uma grande palmeira em companhia de Akanosh e de Pefteu, o príncipe de Heracleopólis.

Pefteu tinha engordado e o seu rosto vermelhusco exprimia intensa satisfação.

— Que maravilhosa noite, meus amigos! E como tivemos razão em seguir Tefnakhte que nos conduziu a esta bela vitória! Que será seguida por muitas outras. Hoje, tenho a certeza que muito em breve entraremos em Tebas e que ali seremos acolhidos como libertadores.

— Esta campanha militar cansa-me confessou Akanosh. Apetece-me voltar para minha casa, para o Delta, e esquecer este conflito.

— Não fales assim objetou Pefteu. Nenhum de nós pode abandonar Tefnakhte no momento em que as nossas tropas se preparam para infligir uma pesada derrota ao faraó negro!

— Não te entusiasmes recomendou Nemrod.

— Sinto que a minha atitude te causa espanto, mas receava tanto que as muralhas de Hermopólis fossem insuficientes para deter os soldados de Piankhi! Agora estou descansado e...

— Fazes mal.

O rosto de Pefteu congestionou-se.

— Não compreendo.

— Ouve-me bem, príncipe de Heracleopólis, e tu também, Akanosh. O vosso bem mais precioso não é a vida?

— Com certeza, Nemrod, mas qual a razão dessa pergunta?

— Porque ireis perdê-la em breve se tomardes a decisão errada.

— É Tefnakhte que toma as decisões lembrou Akanosh não somos nós.

— Nas presentes circunstâncias, enganas-te.

— Vais finalmente aceder a dar-nos explicações?

— Menti.

— Akanosh e Pefteu entreolharam-se, interditos.

— Mentiste... A respeito de quê?

— O faraó negro apoderou-se de Hermopólis.

— Estás a fazer troça de nós, Nemrod!

—Tentei resistir, mas Piankhi dispõe de um armamento contra o qual as nossas defesas são inoperantes, em especial catapultas que lançam pedras enormes e destroem as muralhas ao mesmo tempo que matam os soldados que se encontram nas ameias. E o que dizer então da intervenção da engenharia e dos arqueiros?

— Isso significa que nenhuma praça forte poderá resistir a Piankhi? inquietou-se o príncipe Pefteu.

— Nenhuma das nossas praças fortes, podes ter a certeza. As muralhas da tua cidade, Pefteu, não serão mais eficazes do que as minhas.

— O que... o que se passará quando o faraó negro atacar?

— Milhares de líbios e de homens da tua província morrerão; Heracleopólis sofrerá graves danos e cairá nas mãos de Piankhi.

— Temos que evitar esse desastre!

— Foi essa a razão pela qual vim revelar-vos uma verdade que Tefnakhte não seria capaz de admitir. Esta mesma noite regresso a Hermopólis a fim de prestar contas da minha missão a Piankhi, o único senhor do Egito.

O príncipe Pefteu estava desnorteado.

— Mas... o que devemos fazer?

— Tu mesmo o disseste: evitar um desastre.

 

Depois de uma noite de amor durante a qual Aurora tocara todos os registros do desejo, Tefnakhte tomara uma decisão: atacar Tebas com o grosso das suas tropas, às quais se juntariam as guarnições das cidades de Heracleopólis e Hermopólis. Em plena retirada, Piankhi não esperaria uma ofensiva brutal e massiva. Ou continuaria a fugir, deixando o campo livre aos nortistas, ou o choque seria de uma extrema violência e causaria numerosas vítimas. Mas a derrota dos sulistas era inevitável, desde que a ofensiva fosse organizada a partir de Mênfis.

— Vou contigo disse Aurora. Lá, tratarei dos preparativos para a coroação.

O general acariciou-lhe um seio.

— Desejas realmente ser rainha do Egito?

— Faz de mim o que quiseres, mas ganha esta guerra!

— És muito mais nova do que eu, Aurora... Supõe que te apaixonas por outro homem?

Os olhos verdes brilharam de cólera.

— Achas que uma rainha do Egito possa ser suficientemente estúpida para se tornar escrava dos seus sentidos? Apenas pensará em reconstruir este país e uma longa vida talvez não baste para isso.

Tefnakhte afastou-se e contemplou-a.

— Sei o que quero fazer de ti, Aurora, e sei também que desempenharás o teu lugar melhor do que qualquer outra mulher.

 

Nartreb e Yegeb tinham dois inimigos fundamentais, particularmente difíceis de combater: as mulheres e o calor. Este último fazia inchar os tornozelos e os dedos dos pés e tornava mesmo o seu pensamento mais lento. Partir para o Norte, mesmo apenas por alguns dias, parecia-lhes um presente maravilhoso, embora ainda não tivessem conseguido desembaraçar-se de Aurora, cuja influência continuava a ser incomodativa.

Nartreb e Yegeb arrumavam pessoalmente os potes com ungüentos refrescantes numa caixa de madeira quando um homenzinho com cara de rato lhes trouxe o seu relatório.

— Descobriste finalmente elementos susceptíveis de comprometer o príncipe Akanosh? perguntou Nartreb, enervado.

— Infelizmente não, mas...

— Partimos daqui a uma hora e não temos tempo para discutir. Continua e trata de te mostrar mais eficaz!

O investigador insistiu.

— A existência do príncipe Akanosh parece sem mácula, mas há um pormenor que me intriga.

— Qual? perguntou Yegeb.

— É a propósito da mulher... Ninguém me consegue falar das suas atividades antes do casamento.

— Isso não tem interesse considerou Nartreb.

— Talvez não, - interveio Yegeb. — Suponhamos que a esposa de Akanosh tenha qualquer coisa a ocultar... Continua a investigar ordenou ao homem com cara de rato. Quando voltarmos do Norte, vê se tens um resultado em condições, se queres uma boa recompensa.

 

Tefnakhte e a sua corte, à qual pertencia Akanosh, abandonaram Heracleopólis às primeiras horas do dia com uma escolta formada por carros e arqueiros. Dentro em pouco, o poderoso exército líbio sairia da sua base recuada para atravessar o Médio Egito e conquistar o Sul.

Piankhi deixara em Hermopólis apenas uma centena de soldados colocados sob o comando da esposa de Nemrod que, desde que assumira as suas funções, demonstrara autoridade e rigor. Entre as suas mãos, o marido não pesaria mais do que um pincel de escriba, mesmo continuando a ser o árbitro das elegâncias.

De regresso de Heracleopólis, Nemrod mostrara-se duvidoso. É um fato que tinha cumprido a sua missão mentindo a Tefnakhte e revelando a verdade a Akanosh e ao príncipe Pefteu; mas como reagiria este último? Pefteu estava fascinado por Tefnakhte e acreditava na vitória final dos nortistas. Segundo Nemrod, o general fingiria sair da cidade para melhor preparar uma emboscada.

Apesar do desprezo que sentia pelo príncipe de Hermopólis, o capitão Lamerskény partilhava a sua opinião. Pefteu, outro traidor, era obrigado a prevenir Tefnakhte que, como é evidente, deixara partir Nemrod para o fazer crer no êxito da sua missão.

Quando os núbios fizessem o cerco a Heracleopólis com as suas catapultas e as suas plataformas elevadas, os carros de Tefnakhte atravessariam os flancos das tropas de Piankhi e tentariam destruir as máquinas de guerra. Lamerskény imaginara portanto uma grande atuação.

Abilé recusara permanecer em Hermopólis e Piankhi não tentara convencê-la. Uma vez mais, a esposa confirmara a sua intenção de permanecer a seu lado durante toda aquela perigosa viagem para norte. E há muito que o faraó sabia que a magia da grande esposa real era uma das armas mais eficazes.

A estadia em Hermopólis dera a Cabeça-fria tempo para pôr em dia o seu diário de campanha e os seus relatórios. Um Estado cujos arquivos não estavam corretamente organizados não tinha qualquer hipótese de perdurar. Infelizmente, era já preciso partir para Heracleopólis e verificar os mil e um pormenores de administração aos quais, erradamente, os guerreiros não davam a mínima atenção. E Cabeça-fria sentia saudades da família que ficara em Napata. Quantos dias ainda passariam antes de beijar a mulher e os filhos?

Piankhi cavalgava Valoroso, o seu magnífico cavalo baio, feliz por devorar grandes espaços. A boca sorridente e os olhos brilhantes exprimiam uma alegria de viver comunicativa. Quem via passar a sua brilhante crina fulva sentia-se cheio de uma nova energia.

Heracleopólis estava à vista.

As muralhas não pareciam menos sólidas do que as de Hermopólis, mas não impressionavam os soldados de Piankhi. A técnica utilizada durante o cerco anterior não daria os mesmos resultados? O fato de o faraó tomar a seu cargo a vida dos seus homens tranqüilizava todos. Nas fileiras sulistas, a confiança era elevada.

— Não avancemos mais, Majestade recomendou o capitão Lamerskény. Temos de primeiro assegurar-nos do controle do canal e da planície e depois barrar o caminho aos carros de Tefnakhte, que só podem surgir do oeste. Só depois instalaremos as catapultas e as plataformas móveis.

Piankhi admirava Heracleopólis, «a cidade do filho real», construída no seio de uma região próspera, compreendendo vastas zonas agrícolas mas também milhares de quintas de diferentes tamanhos que pequenos proprietários cultivavam há várias gerações. O monarca apreciava a doçura daquela paisagem que ia ter de transformar em campo de batalha.

— Os meus homens estão prontos afirmou o capitão Puarma.

— Os meus também reforçou Lamerskény.

— Ergam as tendas e organizem o acampamento.

Lamerskény lamentava aquela perda de tempo. Uma «limpeza» imediata, do lado das colinas onde deviam estar emboscados os carros de Tefnakhte, teria sido um excelente aperitivo para a tomada de Heracleopólis. Mas o rei preocupava-se com o bem-estar dos seus homens.

— Majestade exclamou Puarma, estupefato a grande porta da cidade acaba de abrir-se!

A rainha Abilé sorriu. Estava convencida que o seu plano resultaria e que Heracleopólis se ofereceria a Piankhi sem que fosse vertida uma gota de sangue.

O príncipe Pefteu, cujo nome significava «o Ventoso», optara abertamente por mudar de ares. Foi o primeiro a sair da sua cidade, à cabeça de uma procissão de notáveis e de soldados sem armas, com os braços carregados de ouro, prata e pedras preciosas. Traziam também dez magníficos cavalos jovens e de perfeita saúde.

 

— E se fosse uma artimanha? sugeriu Lamerskény, desconfiado.

Em passo regular, com uma rara nobreza, Valoroso avançou pela zona plana que precedia a cidade e imobilizou-se a dois metros de Pefteu que, imediatamente, se prostrou por terra.

— Saudações a vós, poderoso soberano! disse o mais forte que lhe permitia a sua voz, sufocada e trêmula. As trevas tinham-se apoderado do meu coração, a obscuridade invadira-me, mas compreendi o meu erro! Possa o fulgor do vosso rosto conceder-me a luz de que tanto necessito! A partir de agora, serei o vosso fiel servidor, pois vós sois o deus longínquo à frente das estrelas imortais.

Desdenhando os presentes, o faraó negro penetrou numa Heracleopólis reconquistada onde os habitantes lhe tinham preparado um tapete de íris.

A guarnição de Heracleopólis tinha confraternizado com os núbios. Durante o banquete, a que assistiam todos os dignitários da cidade, vestidos com túnicas de mangas largas e as suas encantadoras esposas com um lótus nos cabelos, Pefteu não cessara de entoar louvores a Piankhi. Apesar de estar com a barriga cheia, o mangusto do faraó dormia com um olho entreaberto.