O Faraó Negro
No navio almirante, ao lado da cabina…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Os arqueiros de Puarma apoderaram-se das muralhas e abateram os últimos líbios suficientemente insensatos para resistirem.
O comandante e o filho de Tefnakhte teriam tido uma oportunidade de fugir se os seus cavalos não tivessem sido vítimas de um princípio de pânico provocado pelos berros dos soldados mortalmente feridos. Relinchando e escoucinhando, os quadrúpedes estavam incontroláveis.
— Segue-me, rapaz. Temos que correr muito depressa.
— Combater... Eu quero combater!
Com o olhar esgazeado, o filho de Tefnakhte já só ouvia os estertores dos moribundos e o silvo das flechas. O comandante puxou-o pelo braço, mas a acha de Lamerskény enterrou-se no seu ombro e obrigou-o a largá-lo.
— Não... o mateis... É o filho de Tefnakhte!
Julgando Lamerskény em dificuldades, Puarma disparou uma seta precisa e forte. O jovem, com a garganta trespassada, abateu-se sobre o cadáver do comandante.
O filho de Tefnakhte foi o último morto do breve e violento assalto da Falésia-das-grandes-vitórias.
— A festa começa bem declarou Lamerskény, com a respiração apenas ligeiramente acelerada.
Ao entregar a Piankhi o relatório redigido pelo capitão Puarma, Cabeça-fria esperava que o faraó ficasse satisfeito com o comportamento do seu corpo expedicionário. Ficou portanto espantado com a reação do soberano.
— Tinha-lhes ordenado que aniquilassem as tropas de Tefnakhte o revoltado e que se apoderassem desse ente desprezível... Em vez disso, contentam-se em reconquistar uma pequena praça forte e julgam que realizaram uma grande façanha!
— Majestade... O filho de Tefnakhte foi morto.
— Um dos filhos de Tefnakhte retificou Piankhi e essa morte não vai convencer o líbio a renunciar ao combate. Mesmo que todos os seus filhos fossem executados diante dos seus olhos, continuaria a perseguir o seu sonho de poder absoluto. É ele que se torna necessário abater e não qualquer outro. E os meus oficiais são incapazes disso.
— Quais são as vossas ordens, Majestade?
— Que Puarma e Lamerskény mantenham a sua posição e esperem. Chegou a hora de viver as festas sagradas e celebrar os deuses.
O sacerdote-leitor chefe, encarregado de verificar o bom andamento dos rituais, não podia acreditar naquilo que os seus olhos viam. Graças ao trabalho dedicado da nova Divina Adoradora, assistida eficazmente por Alfazema, tinha sido possível exumar um texto muito antigo da cerimônia do Ano Novo, que decorria em pleno Verão, e pô-lo em prática. O faraó negro oferecera inestimáveis tesouros, entre os quais vasos em bronze decorados com cavalos e ramos de papiros e, obras-primas ainda mais extraordinárias, cálices de vidro colorido de azul, com pé cônico, adornados com uma figura de Osíris e com um texto de convite para o banquete do além: «Bebe e viverás».
O faraó e a Divina Adoradora tinham repelido os demônios, os miasmas, as doenças e os outros mensageiros de morte enviados pela leoa Sakhmet durante os cinco últimos dias do ano que terminava, o período mais temível para o futuro do país. Tinham-na magicamente convencido a transformar a sua ira em energia positiva depositando oferendas diante das duas séries de trezentos e sessenta e cinco estátuas de Sakhmet dispostas no interior do recinto da deusa Mut.
Levada a cabo esta tarefa, os dignitários reunidos em Karnak num grande pátio a céu aberto, sob um sol escaldante, tinham apresentado ao faraó os presentes de Ano Novo: colares, cofres com tecidos, cadeirões, uma cadeira de transportadores, vasos cuja tampa tinha a forma de uma cabeça de carneiro, arcos, flechas e aljavas e até mesmo estátuas de divindades que passariam daí em diante a residir no templo. Os escultores tinham criado um baixo-relevo mostrando Thot preparado para inscrever o nome de Piankhi na «haste dos milhões de anos».
A rainha Abilé sentia um profundo sentimento de orgulho. Naquelas horas felizes, tomava consciência da mais alta missão do faraó: fazer viver as Duas Terras à imagem do céu e transformar o quotidiano numa festa do espírito.
Com o seu fluxo fertilizante, a cheia do Nilo saudava a vinda de Piankhi. Em cada aldeia eram postas mesas adornadas com abundância graças à generosidade do rei e o seu prestígio era celebrado no decurso de banquetes bem regados.
Nos vasos de ouro, prata e cobre, o monarca e a esposa recolheram a água do ano novo, quando o sol fazia brilhar as ondas e transformava o país em luz.
Perante o público, Piankhi bebeu o líquido contido num vaso de ouro e de prata, uma mistura de vinho, cerveja e joio e depois pronunciou a antiga fórmula: «Eis para ti, Deus oculto, a planície misteriosa, dotada de todas as virtudes! Sobre ela crescem os cabelos da terra, o trigo e a cevada que dão a vida, apesar de estarem rodeados pelo joio.»
Por instantes, Abilé sentiu-se angustiada. E se uma mão assassina tivesse envenenado a mistura? Mas imediatamente serenou: fora a sua própria filha, a Divina Adoradora, a dosear a beberagem pessoalmente. Em Tebas, Piankhi não corria qualquer perigo porque estava sob a proteção do deus Amon.
E chegou a hora dos rituais secretos, no interior do templo onde apenas eram admitidos os iniciados nos mistérios de Amon e de Osíris que formaram uma procissão de cerca de sessenta sacerdotes e sacerdotisas, transportando cada um objetos utilizados durante a celebração do culto quotidiano: um turíbulo, um vaso de purificação, um cetro de consagração. Esgotada a energia dos símbolos, competia ao par real regenerá-los apresentando ao poderoso sol do ano novo, no telhado do templo.
Em pleno meio dia, a luz divina realizou a sua obra.
Um pouco antes da madrugada, no naos do templo, Piankhi abriu a boca e os olhos da estátua do deus Amon, vestiu-a com tecidos novos, perfumou-a e apresentou-lhe o ka dos alimentos sólidos e líquidos. Depois o rei abriu a boca de cada estátua, de cada baixo-relevo e de cada sala do templo de Karnak para devolver força e vigor a esse imenso ser vivo no qual circulava assim uma energia nova de que o santuário se alimentaria.
Enquanto os harpistas e flautistas faziam uma oferenda musical a Amon, Abilé viu que Piankhi estava prestes a ser absorvido por aquele universo sagrado ao qual acabava de devolver a sua intensidade plena. Como rainha com um título muito antigo, «A que vê Hórus e Seth», ou seja, os dois aspectos inconciliáveis da realidade, a força de construção e de destruição, constantemente em luta no universo e miraculosamente harmonizadas no ser do Faraó, tinha o dever de intervir.
— Esqueceste a guerra, Majestade?
— Tebas está em festa, Abilé.
— Não estás a deixar o teu pensamento errar nestes locais divinos a ponto de esquecer o amanhã?
— Porque te mostras tão cruel, tu que eu amo tanto?
— É esse o meu dever de rainha. Este Egito de que és o esposo, como todos os faraós que te precederam, este Egito sofre e está em risco de morrer, enquanto tu sonhas em permanecer aqui, em Karnak, sem te preocupares senão com o sagrado. Porque é esse o teu projeto, não é verdade?
O coração de Piankhi apertou-se. Abilé lera nele.
É verdade, sonhava em retirar-se para o domínio de Amon, contentar-se em celebrar aí diariamente os rituais e viver como um sacerdote de reclusão, longe das exigências e das torpezas do mundo exterior. Permanecendo ali, não seria o garante de uma paz, certamente relativa mas no entanto verdadeira e que consolidava pela força dos hinos e das orações? Se escolhesse aquela via, a situação militar estacionaria durante longos anos.
Mas Abilé tentava quebrar tal sonho forçando Piankhi a acusar-se a si próprio de egoísmo e a recordar a sorte cruel dos egípcios do Norte, dominados pela tirania de Tefnakhte.
Um país novamente unificado, uma terra liberta do mal que a corroía, um povo finalmente livre da guerra... Mas teria o faraó negro a capacidade de conseguir uma vitória de tal dimensão? Em vez de se embalar com ilusões e de derramar sangue, mais valia contentar-se em embelezar Tebas e contemplar a divindade.
Sentindo que o marido estava dominado por um conflito terrível, Abilé manteve-se em silêncio.
Da decisão que o faraó negro tomasse dependeria o destino de um país e de um povo.
Com as costas apoiadas num bloco de calcário sobre o qual tinha poisado as armas, o capitão Lamerskény comia cebolas ao mesmo tempo que untava com óleo de linhaça o braço de acácia. Outrora, tinha pensado em fazer tantos entalhes quantos inimigos ia matando, mas o seu número aumentara demasiado rapidamente.
Puarma sentou-se ao lado do colega.
— Então, vamos atacar outra praça forte? perguntou Lamerskény.
— Piankhi está furioso confessou o capitão dos arqueiros.
— Ah, essa é a melhor! Reconquistamos a Falésia-das-grandes-vitórias, matamos um dos rebentos de Tefnakhte, provamos que o adversário não pode avançar uma polegada, e o chefe fica descontente!
— O faraó ordena que mantenhamos as nossas posições.
— E o que fazemos nós há meses? Espero pelo menos que Piankhi chegue e nos mostre como devemos agir.
— Não sei nada.
— Como não sabes? Recebeste novas ordens!
— Sim, mas nada dizem sobre esse ponto. Piankhi vai celebrar a festa de Opet e...
— A festa, outra vez a festa! exclamou Lamerskény, que agarrou numa pedra e a atirou para longe. Mas para que servimos nós aqui? Aposto que o rei decidiu instalar-se em Tebas e que não irá mais longe.
— Queres dizer...
— Piankhi não tem qualquer intenção de desencadear uma guerra total contra Tefnakhte: é esta a verdade. E ficaremos aqui presos até ao fim dos nossos dias para guardar esta maldita fronteira.
Aurora não falhava qualquer treino dos arqueiros de elite cuja precisão era por vezes espantosa. Um jovem oficial acabava de cravar três flechas no centro de um alvo à distância de uma centena de metros, um pequeno escudo que vários veteranos tinham falhado. A postura do jovem guerreiro era elegante e o seu rosto ainda juvenil. Os gestos pareciam naturais, realizados sem esforço.
— Notável comentou Aurora, cujos olhos verdes tinham brilhado de excitação.
— Intimamente, dediquei-vos a terceira flecha... Perdoais-me esta insolência?
A jovem sorriu.
— Considero-a como uma delicada atenção... mesmo que se trate de um ato de guerra.
— Ainda não, princesa! De momento, não passa de um jogo. Em breve, espero, haverá um núbio no lugar daquele alvo, depois outro e outro ainda...
O olhar profundo do arqueiro perturbou Aurora.
— Tens assim tanta vontade de te bater contra Piankhi?
— É o meu mais profundo desejo, mas saberei ser paciente. Todos sabem que esta guerra será decisiva.
— E se não se verificar?
— Não é possível... O general Tefnakhte espera a sua hora. Há-de ser gloriosa, tenho a certeza!
A frescura e o entusiasmo do jovem encantaram Aurora. Era da sua idade, acreditava que o mundo podia pertencer-lhe e não tinha qualquer dúvida sobre o seu empenhamento.
— Tens razão: a vitória do general será espantosa. Aurora afastou-se e ele seguiu-a com o olhar.
A festa da deusa Opet, que possuía o segredo da fecundidade espiritual, era o ponto culminante da estação da cheia. Durara pelo menos vinte e quatro dias e em breve o Nilo se retiraria depois de ter depositado sobre as terras o lodo fertilizador.
Durante esse período fasto, o ka do faraó tinha sido regenerado para lhe permitir exercer a sua função com o máximo de energia, uma energia que ele comunicava ao seu povo e à sua terra.
Piankhi tinha escoltado a estátua de Amon que saíra de Karnak para se dirigir a Luxor, onde o mistério da revelação divina se verificara. O visível tinha comunicado com o invisível no momento em que o rei e a rainha do Egito se tinham unido de novo, sob a proteção de Amon cuja grande barca de cedro, coberta de ouro e adornada de pedras preciosas, surgira aos olhos de uma multidão rejubilante. Mas nunca se levantaria o véu que cobria a cabina da barca onde se encontrava a efígie do deus e nunca a sua verdadeira forma seria conhecida pelos homens.
Ao longo do rio, como nas bordas da via que ligava os templos de Karnak e de Luxor, tinham sido edificadas pequenas capelas de madeira que constituiriam outras tantas etapas para a procissão acompanhada por cantores, cantoras, instrumentistas e dançarinas, enquanto as pessoas do povo se atafulhavam com vitualhas generosamente distribuídas pelos sacerdotes. Não ordenavam os deuses que os locais de restauração fossem preparados tanto para a equipagem que navegava como para aqueles que seguiam pelos caminhos de terra?
Celebrando a presença de Amon, o pai, da sua esposa Mut, a mãe, e do filho Khonsu, «o que atravessa o céu», Piankhi afirmava o caráter todo poderoso da divina trindade graças à qual renasceria um novo sol.
Piankhi compreendia que o segredo do governo do Egito residia na perfeita aplicação do calendário das festas, tal como fora revelado na origem. Viu, em paz, a realidade de Amon quando transportou a sua estátua ao naos do templo, durante a noite iluminada por uma luz que olhos humanos não podiam ver. Ao fazer penetrar a divindade na sua morada e ao colocá-la sobre o seu trono, o faraó privilegiava o animador da criação e recolocava todas as coisas no seu lugar correto.
Tebas saía dificilmente de várias semanas de folguedos aos quais Piankhi dera uma dimensão fora do vulgar. Qual o objetivo visado pelo faraó negro a não ser afirmar de forma bem evidente o seu domínio sobre o sul do Egito? Os notáveis estavam convencidos que o espectro da guerra se afastava e que o rei trocaria Napata por Tebas com a intenção de embelezar a cidade de Amon e de cobrir de ouro os seus templos.
Todos sentiam que Piankhi fora conquistado pela cidade santa onde celebrava os rituais quotidianos com fervor. Graças a ele, alguns sacerdotes haviam reencontrado o caminho da fé, e os salmos cantados no templo de Amon tinham brotado com a mesma grandeza que possuíam na época de Ramsés.
Quanto à Divina Adoradora, agradecia ao céu conceder-lhe a presença tão preciosa do pai. Sem ele, Chépéna ter-se-ia sentido abandonada a uma solidão que a teria esmagado, de tal forma a sua nova função lhe parecia pesada e múltipla. Gerir com eficácia o conjunto dos templos de Karnak parecia ultrapassar as possibilidades de uma jovem que, até então, se tinha consagrado à arte dos perfumes. Mas os conselhos da precedente Divina Adoradora, do rei e da rainha e o auxílio de Alfazema e de um intendente dedicado tinham permitido a Chépéna assumir o mais rapidamente possível as suas responsabilidades, esquecendo os seus receios. Como a maior parte dos membros do clero tebano, esperava que Piankhi escolhesse Tebas como residência definitiva e que a violência fosse abolida.
Quando a rainha Abilé despertou, o seu primeiro olhar foi para Piankhi que nessa noite a amara com o entusiasmo de um jovem amante partindo à descoberta de um país maravilhoso e inexplorado. Mas o rei abandonara o leito.
Abilé saiu do quarto do palácio para se dirigir ao terraço de onde se dominava um dos pátios do templo de Karnak. Estava convencida que o encontraria ali, com os olhos fixos no domínio sagrado de Amon.
Colocou-se a seu lado e enlaçou-o com um braço, no gesto de proteção mágica que os escultores encarnavam na pedra quando criavam as estátuas de um casal feliz para a eternidade.
— O Faraó tomou a sua decisão?
— Hoje iremos ao templo de Mut para cumprir os rituais de imprecação dos inimigos visíveis e invisíveis. Amanhã, colocar-me-ei à frente do meu exército para esmagar a desordem e restabelecer a harmonia.
Enraivecida, Aurora rasgou um delicado xale de linho que Tefnakhte lhe oferecera e dos seus olhos brotaram lágrimas de cólera. Durante alguns minutos, o seu passado invadira-a como o curso imperioso do Nilo durante a cheia. A morte do pai, a violação que lhe fora imposta por Nartreb, a arrogância do general nortista, a traição de que alguns não deixariam de a acusa... Abandonar Heracleopólis, fugir, desaparecer, não seria a melhor solução?
Não, encontrara o seu destino.
Mesmo que tivesse que espezinhar as recordações, admitir o olhar venenoso de Nartreb e a hipocrisia de Yegeb, lutar contra a cobardia de certos príncipes líbios, não abandonaria Tefnakhte e participaria com todas as suas forças na necessária reconquista do Egito.
Trazendo uma bandeja sobre a qual tinham sido dispostas uvas, romãs e tâmaras, um homem entrou no seu quarto.
Ela reconheceu-o imediatamente: era o jovem oficial do corpo dos arqueiros.
— Perdoai-me esta intrusão, princesa. Pensei que gostaríeis de saborear estes frutos frescos.
— Quem te deixou entrar?
— Os guardas conhecem-me... E desejava tanto fazer-vos esta surpresa!
Aurora apercebeu-se que estava quase nua. Um simples véu caindo até meio das coxas nada ocultava das suas formas opulentas.
— Poisa a bandeja e vai-te embora.
— Até hoje, o tiro ao arco era a minha única paixão... Autorizais-me a abandonar o exército para me tornar vosso servidor?
A voz do jovem tremia. Comovida, Aurora voltou-lhe as costas.
— Não cometas essa loucura! És um arqueiro de elite.
— O que me interessa, se não posso continuar a ver-vos, a falar-vos, a respirar o vosso perfume, a vos... a vos tocar.
A sua mão hesitante pousou sobre o ombro da jovem. Ela deveria ter-se afastado, ordenado que se retirasse, mas a sua carícia era tão doce...
— Amo-vos murmurou ele, beijando-lhe a face com delicadeza. O coração de Aurora bateu com mais força e um estranho calor invadiu-lhe o corpo.
— Não... aqui não...
Como se não tivesse ouvido, o oficial acariciou os cabelos de Aurora. Se o deixasse continuar, não conseguiria opor-lhe a mínima resistência.
— Se Tefnakhte nos surpreender, será a morte, tanto para ti como para mim.
Aurora voltou-se e encarou o jovem cujos olhos estavam plenos de desejo.
— Quando... quando voltarei a ver-vos?
— Amanhã, ao princípio da tarde, na sala do palácio onde se arrumam os tecidos. Tefnakhte estará na caserna principal para inspecionar o material de infantaria... Não, é uma loucura!
Ele beijou-lhe as mãos.
— Amo-vos, Aurora. Amo-vos como um louco! E juro-vos que guardarei este segredo, porque é a chave da nossa felicidade...
— Vai-te... Vai-te embora depressa!
Ele deu-lhe um beijo tão febril que ela sentiu o desejo de o reter e de se lhe oferecer, mas o perigo era demasiado grande. Logo que ele desapareceu, a jovem sentiu apenas uma urgência: desfrutar aquele corpo apaixonado e partilhar o seu fogo.
O oficial saiu do palácio e meteu por uma ruela que conduzia à caserna. Ali o esperava Yegeb.
— Satisfeito, meu jovem?
— Nem uma só mulher me resiste, já vos tinha dito. Aurora não constitui exceção à regra.
— Tendes a certeza de a ter seduzido?
— Conheço as mulheres, Yegeb. Podem disfarçar até um certo ponto mas, no caso presente, Aurora é sincera. Aliás, é uma potra soberba! E se eu tivesse insistido um pouco, teríamos dormido juntos já esta noite.
— Teria sido prematuro... É preciso que Tefnakhte vos surpreenda e não tenha qualquer dúvida sobre a infidelidade crônica daquela que ele considerava como a futura rainha do Egito.
— Ela arrisca muito...
— O problema não é vosso.
— Garantis-me a impunidade?
— Direi toda a verdade a Tefnakhte: fui eu que vos paguei para seduzir esta prostituta e provar ao general que se enganava concedendo-lhe a sua confiança. Sereis considerado como um servidor fiel e elevado a um posto superior.
— Entretanto, pagai-me o que me deveis.
Yegeb entregou ao oficial uma pequena bolsa de cabedal contendo pepitas de ouro. O jovem verificou o conteúdo.
— Eis-vos um homem rico.
— É normal, Yegeb, corro grandes riscos! E isto é apenas a primeira parte da soma.
— Recebereis o resto quando Tefnakhte se tiver desembaraçado dessa mulher mentirosa e viciosa.
— Porque a odiais desta forma?
— Fazei corretamente o vosso trabalho, senhor oficial, e não façais perguntas inúteis.
Tomando o peso ao seu tesouro, o oficial seguiu a caminho da caserna.
É evidente que Yegeb recuperaria o seu ouro do cadáver daquele imbecil que seria executado por ofensa ao general, em companhia da mulher adúltera.
E Tefnakhte nunca saberia a verdade.
Ao cair da noite, os astrólogos de Karnak subiam lentamente a escada que conduzia ao telhado do templo. Cada um ocupava um lugar exato para observar o percurso dos planetas, «as estrelas infatigáveis», e a ronda dos trinta e seis decanos, as trinta e seis candeias que brilhavam no firmamento. Os especialistas questionavam constantemente os seus conhecimentos dos fenômenos celestes e tentavam ler neles a mensagem dos deuses.
Antes de iniciar o seu trabalho, o astrónomo-chefe encheu uma taça de água límpida e colocou-a sobre uma laje achatada e lisa. Habitualmente, a superfície líquida formava um espelho perfeito, símbolo de Hátor, senhora das estrelas, e ligava o espírito do observador ao da deusa.
O astronomo-chefe julgou que os seus olhos o traíam. Um fenômeno assim, na ausência de vento... Olhou de mais perto teve que admitir a terrível realidade: a água estava turva!
Assustado, o sábio desceu a correr a escada de pedra e dirigiu-se ao palácio real cuja porta estava guardada por dois soldados núbios que lhe barraram a passagem.
— Tenho de falar ao rei... Vão preveni-lo!
Piankhi aceitou receber o astrônomo, que dominava com dificuldade a sua emoção.
— Majestade, acabo de ser testemunha de um grave acontecimento: o espelho de água que utilizamos no telhado do templo turvou-se.
— Como interpretas esse sinal?
— Como o anúncio de uma grande desgraça, Majestade! Um fenômeno tão inexplicável é a tradução de uma desgraça iminente que ferirá o coração do reino. Era por isso que tinha de vos alertar sem perder um momento.
— Que precauções aconselhas?
— Que os mágicos recitem durante toda a noite fórmulas de esconjuro para impedir a morte raptora de se apoderar da sua presa.
— Podes precisar os teus receios? O astronomo-chefe hesitou.
— A vossa vida está ameaçada, Majestade.
A simples visão do rosto grave de Tefnakhte fez os membros do seu conselho de guerra compreenderem que a situação havia evoluído bruscamente e que o general, acompanhado por Aurora, tinha informações capitais a comunicar-lhes.
— Piankhi vai sair de Tebas revelou Tefnakhte.
— Regressa à Núbia? interrogou o príncipe Akanosh.
—Não, prepara-se para nos atacar.
Tefnakhte omitiu a informação de que o chefe da rede de espionagem tebana não conseguira eliminar o faraó negro e que esse fracasso não o entristecia. É verdade que teria sido mais fácil vencer o exército sulista privado do seu chefe, mas o confronto não assustava de forma alguma o general nortista. Derrotando pessoalmente o seu adversário, provaria de forma definitiva a sua supremacia.
— Vamos esperar pelo ataque ou tomar a iniciativa? inquietou-se o príncipe Pefteu.
Não há qualquer razão para modificarmos a nossa estratégia: deixemos Piankhi quebrar os dentes na fortaleza de Heracleopólis. Quando tiver perdido suficientes homens, lançaremos uma série de ataques que culminarão com a destruição total do inimigo.
— Concederás o perdão aos eventuais sobreviventes?
— Não, respondeu Tefnakhte. — É necessário exterminar essa gentalha núbia sem qualquer piedade. Esse é o preço do futuro do país.
Piankhi tinha retirado água do lago sagrado do templo de Mut, em forma de crescente lunar. Conservada em jarros, serviria de proteção mágica para o exército sulista que terminava os seus preparativos de partida. Oferecida pelo rio celeste, essa energia vinda do além tornaria inesgotáveis as forças dos combatentes decididos a reconquistar o Norte.
Soberba no seu longo vestido vermelho deixando os seios nus, a rainha Abilé não conseguia dominar a sua angústia.
— O astrônomo constatou que os astros não te eram favoráveis, não é verdade?
— O espelho turvou-se lembrou-lhe Piankhi. Isso anuncia portanto uma morte. Talvez a minha... Mas porque não se referirá ao fim de uma época?
Abilé encarou o marido.
— Desejei esta guerra, depois ela horrorizou-me, senti-a de novo como uma necessidade para fazer reflorir a felicidade e afastei-a do meu pensamento... Atualmente, sinto-me perdida. Tudo o que sei é que tenho medo por ti. Se renunciasses para permanecer neste templo, compreender-te-ia, fossem quais fossem as críticas. Tu és a vida com que eu sonhava e no entanto, meu amor, és bem real. Quero guardar-te a meu lado.
Piankhi apertou Abilé a si com força.
— Talvez a morte se encontre no fim da aventura... Mas temos uma hipótese de vencer. Se eu não cumprir a minha função, se não tentar fazer respeitar a lei de Maât em todo o país, será a segunda morte e o aniquilamento que me serão justamente infligidos pelo tribunal do outro mundo. Não temos opção, Abilé; é por isso que temos liberdade de agir.
Convencida que não conseguiria modificar a decisão de Piankhi, Abilé acompanhou-o até ao templo da temível Sekhet, onde seriam realizados os indispensáveis rituais de esconjuro destinados a reduzir a capacidade de fazer mal dos inimigos. Durante toda a noite, os mágicos de Karnak tinham salmodiado as fórmulas de proteção do rei, na esperança de que a morte raptora não tivesse inventado uma nova artimanha para se apoderar da alma de Piankhi.
Como estava combinado, a Divina Adoradora celebraria o nascimento do novo sol enquanto o par real, assistido por Alfazema e pelas sacerdotisas de Serket, a deusa-escorpião, travaria a primeira grande batalha mágica contra Tefnakhte e os seus aliados, simbolizados por grosseiras estatuetas de alabastro e calcário.
«Alguns decênios antes», pensou Piankhi, «os núbios é que eram assim amaldiçoados; mas hoje, vindos das profundezas do Grande Sul, lutarão e morrerão para salvar o país detentor dos valores essenciais da civilização e da espiritualidade. Estranha reviravolta da chama, na realidade: esquecendo agravos e legítimos rancores, os perseguidos de ontem tornam-se os libertadores de hoje.”
Sobre as estatuetas, os escribas tinham escrito com tinta vermelha um curto texto descrevendo o caráter destruidor dos rebeldes e dos criadores de perturbações, os inimigos de Maât, ajoelhados ou deitados de barriga para baixo, com as mãos atadas atrás das costas. Alfazema dirigiu-se a Piankhi.
— Faraó do Alto e do Baixo Egito, possam os deuses proteger-te contra aqueles que pronunciam más palavras e executam gestos perniciosos! Que o teu poder seja mais forte do que o deles, que fiquem aterrorizados pela tua força, que sejam pisados pelas tuas sandálias! Que aqueles que tentam travar a viagem do sol sejam para sempre privados de luz, que os seus lábios sejam selados e os seus braços cortados.
Uma sacerdotisa fechou a boca das estatuetas com o selo de Piankhi e quebrou-lhes os membros, Depois, Alfazema lançou-os num braseiro de onde pareceram brotar gemidos que impressionaram os participantes na cerimônia.
Até mesmo o mangusto ficou nervoso e se refugiou aos pés do seu dono. A rainha Abilé sentiu que aquela antiga magia de Estado não era uma ilusão mas desencadeava realmente ondas de força que atuariam simultaneamente sobre o Faraó e sobre os inimigos de Maât. E compreendeu por que razão, desde a primeira dinastia, nenhum rei do Egito se eximira às suas obrigações rituais antes de partir para a guerra.
Enquanto o fogo crepitava, Alfazema apresentou a Piankhi um soberbo vaso de alabastro com o seu nome inscrito.
— Majestade, antes que este vaso seja depositado no tesouro do templo para comemorar o vosso nome, bebei esta cerveja criada pelo deus Ra para fazer brilhar a vossa valentia em todas as províncias do reino.
No instante em que o faraó estendia os braços para receber o vaso, o mangusto trepou pelo seu corpo, imobilizou-se um breve instante e saltou sobre o pulso de Alfazema, que mordeu até fazer sangue.
Dando um grito de dor, a assistente da Divina Adoradora largou o recipiente que caiu no pavimento. Dele saiu um líquido amarelado que provocou o furor do mangusto. Com os pêlos eriçados, os bigodes espetados, girou em redor dele como se se tratasse de um réptil.
— Matem esse animal, enlouqueceu! exigiu Alfazema. Observando o comportamento do animal, a rainha Abilé compreendeu imediatamente.
— Tu, Alfazema, tentaste envenenar o rei com o veneno de serpente que te forneceu a tua cúmplice, uma das sacerdotisas de Serket! És uma partidária de Tefnakhte, não é verdade?
Segurando com a mão esquerda o pulso ensangüentado, incapaz de suportar o olhar acusador da rainha, Alfazema recuou.
Preparava-se para negar quando duas sacerdotisas de Serket, assustadas, tentaram em vão fugir. Os soldados de Piankhi detiveram-nas com rudeza.
— Porque agiste assim, tu que tão fielmente tinhas servido a minha irmã, a Divina Adoradora falecida? interrogou o rei com uma voz tão severa que fez tremer Alfazema.
— A nova Divina Adoradora é núbia, como a anterior... Não vos basta governar Tebas por seu intermédio? A causa de Tefnakhte é justa! A sua vitória devolver-nos-á a unidade perdida.
A jovem ajoelhou e lambeu o líquido mortal.
— Falhei, mas o Norte vencerá!
Os olhos de Alfazema tornaram-se fixos, os seus membros inteiriçaram-se, vomitou bílis e morreu com as mãos crispadas na garganta.
Com a sua morte e a detenção das suas cúmplices, desaparecia a rede de informações de Tefnakhte em Tebas.
Nas fileiras líbias, o entusiasmo misturava-se com o receio. Por um lado, sonhavam vencer; por outro, receavam a ferocidade do faraó negro. Mas Tefnakhte sabia infundir confiança e manter acesa uma chama por vezes vacilante; obrigando os seus homens a treinar durante todo o dia, evitava que se perdessem em divagações mais ou menos angustiantes.
Uma coisa era certa: Piankhi não conseguiria apoderar-se de Heracleopólis. Restava saber como iria reagir: ou insistiria, perdendo milhares de homens, ou bateria em retirada. Competia a Tefnakhte descobrir o momento certo para lançar uma poderosa ofensiva que quebrasse a coluna vertebral dos núbios.
A inspeção do arsenal sossegou o general. As armas eram numerosas e em bom estado, as reservas de alimentos permitiam suportar um longo cerco, tanto mais que as províncias do Norte enviavam mantimentos sem dificuldade.
— Senhor...
— O que é, Yegeb?
— Tenho duas dolorosas notícias a dar-vos. Mas talvez o momento seja mal escolhido.
— Fala ordenou Tefnakhte.
— Alfazema morreu e os membros da sua rede foram presos. Já não temos mais ninguém para nos informar sobre as decisões de Piankhi.
— Não é assim tão grave, pois já não temos necessidade desse gênero de informações. Conhecemos as forças do faraó negro e não precisaremos de alterar a nossa estratégia. Qual é a outra má notícia?
Yegeb assumiu um ar contristado.
— É delicado, senhor, de tal forma delicado...
— Não me faças impacientar.
— Trata-se de Aurora...
— Alguém tentou fazer-lhe mal?
— Na verdade, senhor, ela é que pode vir a prejudicar-vos gravemente.
— Mede as tuas palavras, Yegeb!
— Senhor, imploro-vos que me escuteis! Foi por acaso que os nossos serviços de segurança julgaram surpreender uma... uma ligação de Aurora com um oficial dos arqueiros.
Os olhos negros de Tefnakhte ensombraram-se.
— Tens provas daquilo que afirmas?
— Infelizmente, tenho. Se me quiserdes seguir...
Aurora continuava a achar extremamente sedutor o arqueiro que ia tornar-se seu amante. Na sala dos tecidos onde flutuavam deliciosos perfumes e um agradável aroma de roupa lavada, o jovem avançava para ela, louco de desejo.
— Vieste... É um sonho, um sonho tão maravilhoso!
Ela sorriu.
— Não, não sou um sonho. Ele fechou os olhos.
— Deixa-me imaginar-te para depois te contemplar tal como tu és... Serás a minha mais bela conquista!
— Foram assim tão numerosas?
— Perante ti, nenhuma mulher existe!
Fez deslizar lentamente a alça esquerda do vestido e depois, ainda mais lentamente, a alça direita, descobrindo o busto maravilhoso de Aurora.
Trêmula, a jovem baixou os olhos enquanto ele lhe beijava os bicos dos seios. Inebriada, fixou o olhar no dele.
O que descobriu aterrorizou-a.
Havia nele o mesmo desprezo, a mesma arrogância, a mesma brutalidade do seu violador Nartreb. O oficial não a amava, desejava apenas possuí-la da forma mais bestial.
De repente, compreendeu.
— Volta-te disse-lhe para eu tirar o vestido.
— Não te julgava tão pudica.
— Por favor...
Divertido, obedeceu.
Aurora apoderou-se de uma tira de cabedal que atava os tecidos e, com essa arma improvisada, estrangulou o arqueiro.
O rapaz debateu-se, mas o pulso de Aurora foi implacável. E a sua força aumentou ainda mais quando viu Tefnakhte que, de braços cruzados, observava a cena.
Com a laringe esmagada, o arqueiro deixou de resistir e morreu sufocado.
— Este homem ameaçou-me, trouxe-me até aqui e tentou violar-me. Humilhando-me, era a ti que queria atingir, pois este traidor confessou-me que estava a soldo de Piankhi.
Aurora cuspiu sobre o cadáver antes de desfalecer em lágrimas nos braços de Tefnakhte.
Com a cabeça envolta numa toalha úmida e o torso coberto por um ungüento que descontraía os seus músculos tensos, Yegeb sofria de uma crise de fígado que o fazia produzir uma bílis dolorosa.
— Aquela peste da Aurora obrigou-me a apresentar-lhe desculpas e o general ordenou-me que verificasse melhor as minhas informações antes de macular a reputação da futura rainha do Egito! Receei mesmo cair em desgraça...
Nartreb encolheu os ombros e continuou a massagear os tornozelos doridos.
— Tefnakhte não pode passar sem nós, porque nos confia o trabalho sujo... Mas como conseguiu essa moça voltar a situação em seu favor?
— Aurora é uma assassina.
— Terás medo dela?
— Não estou habituado a falhar... Atualmente, Aurora odeia-nos.
— Mas que novidade! Se julga que Tefnakhte levará realmente em consideração as suas opiniões, engana-se redondamente. A única amante do general é a sua ambição. E nós estamos a seu lado para o satisfazer. O grande confronto aproxima-se, Yegeb, e vamos tirar dele o máximo de benefícios!
Otokou perdera pelo menos dois quilos e as iguarias já não tinham o mesmo sabor. Consciencioso, o obeso geria a capital da Núbia com uma atenção de todos os instantes. Notáveis e funcionários sentiam a falta de Piankhi que, apesar da sua severidade, se mostrava menos exigente do que Otokou.
Não seriam as notícias provenientes de Tebas que devolveriam ao obeso o apetite de outrora. E não era a visita do velho Kapa que iria torná-lo mais otimista.
Otokou pousou o prato de alabastro no qual o desafiava uma coxa de pato assada.
— Se tens censuras a fazer-me, Kapa, o momento é mal escolhido! Estou esmagado de trabalho.
— Porque está o governador de Napata tão nervoso? Tanto a tua administração como eu podemos estar orgulhosos de ti. Vinha simplesmente felicitar-te.
Otokou não queria acreditar nos seus ouvidos. Não se trataria de uma provocação? No entanto, o velho tinha posto de parte a sua ironia habitual. Não, não estava a fazer troça do novo governador e, além disso, estava tão triste como ele.
— Também tu, Kapa, pensas que Piankhi não voltará.
— Por que nos havemos de iludir? Ou perde a guerra e será morto, ou reinará em Tebas de onde nunca mais partirá.
— Nunca mais...
— É verdade, Otokou, eis-te governador de Napata até ao fim dos teus dias! Confiando-te essa tarefa, Piankhi teve uma mão certeira.
— Ainda haverá felicidade para esta cidade? Sem o faraó negro, não passa de um amontoado de casas perdido num oásis.
—Faz como eu, Otokou: envelhece e aceitarás o inaceitável.
À proa do navio almirante, em forma de serpente com cabeça de carneiro coberta de ouro e fazendo lembrar o pico da Montanha Pura, o faraó e a sua grande esposa real olhavam para norte, para o Médio Egito e para a província de Liévre que atingiriam dentro de cerca de dez dias.
O rei tinha a sua coroa branca, símbolo do Alto Egito, encastrada na coroa vermelha, símbolo do Baixo Egito; nelas estavam presas duas cobras fêmeas, os uraeus, cuja fúria dispersaria os adversários do monarca, vestido com um colete de plumas com alças atadas nos ombros e um saiote de linho. Nos pulsos, pulseiras de ouro e de pasta de vidro, tendo na charneira uma representação de Nut, a deusa do céu. Por baixo do seu colar de ouro, formado por uraeus em miniatura, um amuleto de faiança azul-verde, com cerca de dez centímetros de altura, representava uma cabeça de carneiro encimada por um disco solar. Assim eram evocados o segredo do divino e a sua luminosa revelação.
Ao lado do esposo, cujo braço esquerdo enlaçava com dignidade, a rainha Abilé envergava um longo vestido vermelho preso na cintura por um cinto branco com longas pontas. Nas orelhas, brincos de ouro em forma de chave da vida, recordando que o nome hieroglífico das orelhas era «as vivas»; adornando o pescoço, um colar de pérolas de vidro, faiança e cornalina, entre as quais tinham sido dispostos pequenos escaravelhos encarnado a idéia da mutação e pilares a da estabilidade. Quanto ao seu pingente, era um lótus enquadrado por dois olhos de falcão contendo todas as medidas do universo.
— Amon vem no vento disse Piankhi mas os olhos não o vêem. A noite está cheia da sua presença e o dia glorifica-o. O que está no alto é como o que está em baixo e é ele que o faz funcionar.
— Tu, a grande alma do Egito, suplicou a rainha Abilé — dá o sopro da vida a todos os que vão combater para que as Duas Terras sejam reunidas.
De um estojo de prata dourada, Piankhi tirou uma adaga. No punho da lâmina, um leão devorava um núbio! Mas a arma datava da gloriosa XVIII dinastia e fora piedosamente conservada no templo de Amon de Napata.
E o sol fez cintilar a longa e grossa lâmina, dando o sinal de partida.
Os campos de cevada dourados, as garças-reais sobrevoando os maciços de papiros, os falcões deixando-se planar ao vento, a doçura das margens... A beleza da paisagem incitava ao sonho, mas nenhum dos soldados núbios sentia disposição para se entregar a ele. Cada um deles tinha em mente o terrível confronto que se aproximava, cada um pensava numa esposa, numa mãe, num pai, num filho que talvez nunca mais voltasse a ver.
Antes do desembarque, Piankhi falou longamente com o seu cavalo, cujos olhos brilhantes de inteligência estavam nublados de inquietação. Não lhe escondeu a verdade e preveniu-o que ia enfrentar terríveis perigos. Valoroso acalmou-se e ergueu a cabeça com orgulho. Também ele estava preparado para combater.
Na margem, na fronteira sul da província de Liévre, os capitães Lamerskény e Puarma estavam simultaneamente emocionados e inquietos. Emocionados por verem aparecer o faraó negro que tinha pessoalmente arreado o seu cavalo; inquietos por terem de escutar as suas censuras.
— Tefnakhte continua a ser um homem livre? perguntou este, visivelmente enraivecido.
— Sim, Majestade respondeu Puarma.
— Não vos tinha já conferido uma missão e ordenado que acabassem com esta revolta? Confiava em vós porque tinha a certeza que haveríeis de dispersar esses nortistas! Mas hoje, as cidades de Hermopólis e Heracleopólis estão ocupadas pelo inimigo e a fama do Faraó ofuscada por causa da vossa incapacidade!
Puarma baixou a cabeça, mas Lamerskény protestou.
— Não poupamos esforços, Majestade. Mas Tefnakhte não é um insignificante chefe de clã à frente de um bando de rebeldes desorganizados. Trata-se de um verdadeiro exército que temos perante nós.
— Achas que não tenho consciência disso?
— O cerco de Heracleopólis será longo e difícil afirmou o capitão de infantaria. Perderemos muitos homens, mas espero descobrir a forma de vergar essa cidade rebelde. Quando nos apoderarmos dela, Tefnakhte será obrigado a render-se.
— Pesadas perdas em perspectiva...
— Sim, Majestade! As muralhas de Heracleopólis são grossas e os arqueiros líbios hábeis.
— Manda imediatamente batedores. Acima de tudo, eles que se mostrem bem para que os vigias notem a sua presença.
Lamerskény ficou espantado.
— Mas, Majestade, era preferível...
— Amanhã, quero que um pequeno batalhão ruidoso se instale a boa distância da cidade.
— Um pequeno batalhão... Para nos apoderarmos de Heracleopólis vamos precisar de todas as nossas forças!
— Os soldados de infantaria que ergam muitas tendas criando um amplo acampamento, como se a totalidade do meu exército se preparasse para atacar.
— Nós... nós não atacamos?
— Claro que sim, capitão Lamerskény. Mas não no lugar onde o inimigo nos espera.
Nervoso, irritável, Nartreb passeava pelas muralhas de Heracleopólis quando um vigia detectou dois batedores núbios que se dissimulavam desajeitadamente por trás de um maciço de espinheiros. Avisou imediatamente o conselheiro de Tefnakhte.
— Há mais dois, lá em baixo... E mais dois, na orla dos campos.
Nartreb desceu das muralhas e correu até à caserna principal onde Tefnakhte e Aurora faziam preleções aos soldados.
— Ei-los! anunciou o semita. Um grande número de batedores... Por outras palavras, o exército de Piankhi estará aqui a partir de amanhã ou nos próximos dias.
Aurora sorriu, Tefnakhte controlou a sua alegria.
— Esta noite - declarou o general - carne e vinho tinto para todos, tanto oficiais como simples soldados! Piankhi caiu na nossa armadilha. A vaidade do faraó negro fá-lo-á lançar-se contra esta fortaleza inexpugnável. Massacraremos milhares de núbios e o Norte será vencedor!
Depois de ter sido aclamado pelos seus homens, Tefnakhte retirou-se para os seus aposentos com Aurora. Ambos estavam no auge da excitação e a jovem tremia apesar do calor.
— O teu sonho vai realizar-se, Tefnakhte, esse sonho que se tornou meu também...
Aurora despiu o general, desatou as alças do seu próprio vestido e fez amor apaixonadamente com o homem que ia vencer Piankhi e impor a sua lei ao Egito reunificado.
Yegeb dava os últimos ajustes ao projeto de governo desejado por Tefnakhte: coroação do faraó em Tebas e em Mênfis, eliminação da totalidade dos núbios, incluindo os civis, destruição de Napata, reapropriação das minas de ouro, desenvolvimento do exército e da polícia, estabelecimento de um estado civil rigoroso que permitiria controlar bem a população, supressão das liberdades individuais e do direito de propriedade, abolição dos privilégios concedidos a demasiados templos, a maior parte dos quais seriam transformados em casernas, proibição de sair do Egito exceto para os militares devidamente mandatados por Tefnakhte, aumento dos impostos e das taxas para facilitar a existência dos funcionários inteiramente dedicados ao rei, intensificação da produção de armas defensivas e ofensivas, construção de fortalezas e prisões, condenação imediata de qualquer contestatário.