O Mar de Ferro

George R. R. Martin · Capítulo 9 de 43

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O Mar de Ferro

Samwell

 

O Vento de Canela era um navio cisne originário da Vila das Árvores Altas, nas Ilhas do Verão, onde os homens eram negros, as mulheres sensuais e até os deuses eram estranhos. Não tinha um septão a bordo que os liderasse nas orações de passagem para o outro mundo, e portanto a tarefa coube a Samwell Tarly, algures ao largo da costa meridional e ressequida pelo sol de Dorne.

Sam vestiu os seus panos negros para proferir as palavras, embora a tarde estivesse quente e húmida, quase sem uma aragem.

— Ele era um bom homem — começou… mas assim que articulou as palavras soube que estavam erradas. — Não. Ele era um grande homem. Um meistre da Cidadela, acorrentado e ajuramentado, e Irmão Ajuramentado da Patrulha da Noite, sempre fiel. Quando nasceu, deram-lhe o nome de um herói que morrera demasiado novo, mas embora tivesse vivido, muito, muito tempo, a sua vida não foi menos heróica. Não há homem mais sábio, mais gentil, mais bondoso. Na Muralha, uma dúzia de Senhores Comandantes chegou e partiu durante os seus anos de serviço, mas ele esteve sempre lá para lhes dar conselhos. Também aconselhou reis. Ele próprio podia ter sido rei, mas quando lhe ofereceram a coroa disse-lhes que a deviam dar ao irmão mais novo. Quantos homens o fariam? — Sam sentiu as lágrimas a subir-lhe aos olhos, e soube que não conseguiria prosseguir durante muito mais tempo. — Ele era do sangue do dragão, mas agora o seu fogo apagou-se. Ele era Aemon Targaryen. E agora a sua vigia terminou.

— E agora a sua vigia terminou — murmurou Gilly quando ele se calou, embalando o bebé nos braços. Kojja Mo serviu-lhe de eco no Idioma Comum de Westeros, e depois repetiu as palavras na língua do Verão para Xhondo e o pai e o resto da tripulação ali reunida. Sam deixou pender a cabeça e começou a chorar, com uns soluços tão sonoros e cheios de dor que lhe punham o corpo todo a tremer. Gilly veio pôr-se a seu lado e deixou-o chorar no seu ombro. Havia também lágrimas nos seus olhos.

O ar estava húmido, e quente, e calmo de morte, e o Vento de Canela encontrava-se à deriva num mar de um azul profundo, bem longe de vista de terra.

— Sam Preto disse boas palavras — disse Xhondo. — Agora bebemos a sua vida. — Gritou qualquer coisa na língua do Verão, e um casco de rum temperado foi rolado para o convés e aberto, para que aqueles que estavam de serviço pudessem emborcar uma taça em memória do velho dragão cego. A tripulação só o conhecera por pouco tempo, mas os ilhéus de Verão reverenciavam os idosos e celebravam os seus mortos.

Sam nunca tinha bebido rum. A bebida era estranha e subia à cabeça; a princípio doce, mas com um travo de fogo que lhe queimou a língua. Estava cansado, tão cansado. Doía-lhe cada músculo do corpo, e havia outras dores em lugares onde Sam nem sabia que tinha músculos. Tinha os joelhos rígidos, as mãos cobertas de bolhas acabadas de surgir e zonas de pele pegajosa, carne viva, onde as bolhas antigas tinham rebentado. Mas, entre ambos, o rum e a tristeza pareceram afastar as dores para longe.

— Se tivéssemos conseguido levá-lo para Vilavelha, os arquimeistres podiam tê-lo salvo — disse a Gilly enquanto bebiam rum no alto castelo de proa do Vento de Canela. — Os curandeiros da Cidadela são os melhores dos Sete Reinos. Durante algum tempo pensei… esperei…

Em Bravos a recuperação de Aemon parecera possível. A conversa de Xhondo sobre dragões quase parecera fazer com que o velho voltasse a ser quem fora. Naquela noite comera até ao fim aquilo que Sam lhe pusera na frente.

— Nunca ninguém procurou uma rapariga — dissera. — Fora um príncipe a ser prometido, não uma princesa. Rhaegar, pensava eu… o fumo era o do incêndio que devorara Solarestival no dia do seu nascimento, o sal vinha das lágrimas derramadas por aqueles que morreram. Ele partilhou a minha crença quando era novo, mas mais tarde persuadiu-se de que seria o filho a cumprir a profecia, pois um cometa foi visto no céu de Porto Real na noite em que Aegon foi concebido, e Rhaegar tinha a certeza de que a estrela a sangrar tinha de ser um cometa. Que tolos fomos por nos julgarmos tão sábios! O erro teve origem na tradução. Os dragões não são nem machos nem fêmeas, Barth viu aí a verdade, mas ora uma coisa, ora a outra, tão mutáveis como chamas. A língua induziu-nos a todos em erro durante mil anos. A escolhida é Daenerys, nascida entre sal e fumo. Os dragões provam-no. — Bastara falar dela para parecer fortalecê-lo. — Tenho de ir ter com ela. Tenho de ir. Gostava de ser nem que fosse dez anos mais novo.

O velho estivera tão determinado que até subira a prancha de embarque no Vento de Canela pelo seu próprio pé, depois de Sam ter negociado o transporte do grupo. Já dera a Xhondo a espada e a bainha, para compensar o grande imediato pelo manto de penas que ele estragara ao salvar Sam de morrer afogado. A única coisa de valor que ainda lhes restava eram os livros que tinham trazido das caves de Castelo Negro. Sam separara-se deles com um humor sombrio.

— Destinavam-se à Citadela — dissera, quando Xhondo lhe perguntara o que se passava. Quando o imediato traduzira aquelas palavras, o capitão rira-se.

— Quhuru Mo diz que os homens cinzentos ainda vão tendo esses livros — disse-lhe Xhondo — só que irão comprando eles de Quhuru Mo. Os meistres dão boa prata por livros que não estão tendo, e às vezes ouro vermelho e amarelo.

O capitão também quisera a corrente de Aemon, mas isso Sam recusara. Ceder a corrente era uma grande vergonha para qualquer meistre, explicara. Xhondo teve de voltar três vezes a essa parte até que Quhuru Mo a aceitasse. Quando o acordo foi feito, Sam estava reduzido às botas, aos panos pretos, à roupa interior, e ao corno quebrado que Jon Snow encontrara no Punho dos Primeiros Homens. Não tive alternativa, disse a si próprio. Não podíamos ficar em Bravos e, além de roubar ou de mendigar, não havia outra maneira de pagar pela passagem. Teria considerado barato três vezes aquele preço, se tivessem conseguido levar o Meistre Aemon a salvo até Vilavelha.

Mas a viagem para sul fora tempestuosa, e cada pé de vento cobrava o seu preço nas forças e ânimo do velho. Em Pentos pedira para ser trazido para o convés, para que Sam pudesse pintar-lhe uma imagem da cidade com palavras, mas essa fora a última vez que saíra da cama do capitão. Pouco mais tarde, o seu espírito recomeçara a vaguear. Quando o Vento de Canela passara pela Torre que Sangra e entrara no porto de Tyrosh, Aemon já não falava de tentar encontrar um navio que o levasse para leste. Em vez disso, a sua conversa virara-se para Vilavelha e para os arquimeistres da Cidadela.

— Tens de lhes dizer, Sam — dissera. — Aos arquimeistres. Tens de fazer com que compreendam. Os homens que estavam na Cidadela nos meus tempos estão mortos há cinquenta anos. Estes outros não chegaram a conhecer-me. As minhas cartas… em Vilavelha devem ter parecido os delírios de um velho desmiolado. Tens de os convencer onde eu não consegui. Conta-lhes, Sam… conta-lhes como são as coisas na Muralha… as criaturas e os caminhantes brancos, o frio arrepiante…

— Contarei — prometera Sam. — Somarei a minha voz à vossa, meistre. Ambos lho diremos, os dois, juntos.

— Não — dissera o velho. — Terás de ser tu. Conta-lhes. A profecia… o sonho do meu irmão… a Senhora Melisandre leu mal os sinais. Stannis… Stannis tem em si um pouco de sangue de dragão, é verdade. Os irmãos também tinham. Rhaelle, a filhinha do Ovo, foi através dela que o arranjaram… a mãe do pai deles… costumava chamar-me Tio Meistre quando era pequena. Lembrei-me disso, portanto permiti-me ter esperança… talvez quisesse… todos nos enganamos a nós próprios, quando queremos acreditar. Acima de todos Melisandre, acho eu. A espada é a errada, ela tem de saber disso… luz sem calor… um brilho vazio… a espada é errada, e a falsa luz só nos pode levar para uma escuridão mais funda, Sam. A nossa esperança é Daenerys. Diz-lhes isso, na Cidadela. Obriga-os a dar-te ouvidos. Têm de lhe mandar um meistre. Daenerys deve ser aconselhada, instruída, protegida. Deixei-me ficar todos estes anos, à espera, observando, e agora que o dia amanheceu sou velho demais. Estou a morrer, Sam. — Lágrimas correram-lhe dos alvos olhos cegos ao admiti-lo. — A morte não devia provocar medo a um homem tão velho como eu, mas provoca. Não é uma patetice? Está sempre escuro onde estou, portanto porque haveria eu de temer a escuridão? Mas não posso evitar interrogar-me sobre o que se seguirá, quando o último calor abandonar o meu corpo. Banquetear-me-ei para sempre no salão dourado do Pai, como dizem os septões? Voltarei a conversar com o Ovo, encontrarei Dareon inteiro e feliz, ouvirei as minhas irmãs a cantar aos filhos delas? E se forem os senhores dos cavalos quem tem razão? Cavalgarei para sempre pelo céu nocturno num garanhão feito de chamas? Ou deverei regressar a este vale de mágoas? Quem saberá dizê-lo, realmente? Quem esteve para lá da muralha da morte e viu? Só as criaturas, e nós sabemos como elas são. Nós sabemos.

Havia muito pouco que Sam pudesse responder àquilo, mas dera ao velho o pouco conforto que conseguira dar. E Gilly entrara mais tarde e cantara-lhe uma canção, uma cantigueta disparatada que aprendera com algumas das outras mulheres de Craster. A música fizera o velho sorrir e ajudara-o a adormecer.

Esse fora um dos seus últimos dias bons. Depois disso o velho passara mais tempo a dormir do que acordado, enrolado sob uma pilha de peles na cabina do capitão. Por vezes murmurava no sono. Quando acordava chamava por Sam, insistindo que tinha de lhe dizer uma coisa, mas o mais frequente era que já se tivesse esquecido do que queria dizer quando Sam chegava. Mesmo quando se lembrava, o seu discurso era uma confusão. Falava de sonhos sem nunca mencionar o sonhador, de uma vela de vidro que não podia ser acesa e de ovos que não eclodiam. Dizia que a esfinge era a adivinha, não o adivinho, fosse qual fosse o significado que isso tinha. Pedira a Sam para lhe ler passagens de um livro escrito pelo Septão Barth, cujos escritos tinham sido queimados durante o reinado de Baelor, o Abençoado. Uma vez acordara a chorar.

— O dragão tem de ter três cabeças — gemera — mas eu sou velho e fraco demais para ser uma delas. Devia estar com ela, mostrando-lhe o caminho, mas o corpo traiu-me.

Enquanto o Vento de Canela abria caminho entre os Degraus, era mais frequente o Meistre Aemon esquecer o nome de Sam do que recordar-se dele. Em certos dias tomava-o por um dos seus falecidos irmãos.

— Ele estava demasiado fraco para uma viagem tão longa — disse Sam a Gilly no castelo de proa, após mais um trago de rum. — O Jon devia tê-lo compreendido. Aemon tinha cento e dois anos, nunca devia ter sido enviado para o mar. Se tivéssemos permanecido em Castelo Negro, ele podia ter vivido mais dez anos.

— Ou então ela talvez o queimasse. A mulher vermelha. — Até ali, a mil léguas da Muralha, Gilly sentia-se relutante em dizer o nome da Senhora Melisandre em voz alta. — Ela queria sangue de rei para os seus fogos. Val sabia que sim. O Lorde Snow também. Foi por isso que me obrigaram a levar o bebé de Dalla e a deixar o meu no lugar dele. O Meistre Aemon adormeceu e não acordou, mas se tivesse ficado, ela tê-lo-ia queimado.

Ele vai arder na mesma, pensou Sam, infeliz, só que agora serei eu a queimá-lo. Os Targaryen entregavam sempre os seus caídos às chamas. Quhuru Mo não autorizara uma pira funerária a bordo do Vento de Canela, por isso o cadáver de Aemon fora enfiado num barril de rum de pançapreta para ficar preservado até que o navio chegasse a Vilavelha.

— Na noite antes de morrer, ele perguntou se podia pegar no bebé — prosseguiu Gilly. — Eu tive medo que ele o deixasse cair, mas não deixou. Embalou-o e trauteou uma canção para ele, e o filho de Dalla estendeu a mãozinha e tocou-lhe a cara. Puxou-lhe o lábio duma tal maneira que eu pensei que podia estar a magoá-lo, mas só fez o velho rir-se. — Afagou a mão de Sam. — Podíamos chamar ao pequeno Meistre, se quiseres. Quando tiver idade, não agora. Podíamos.

— Meistre não é um nome. Mas podias chamar-lhe Aemon.

Gilly reflectiu naquilo.

— Dalla deu-o à luz durante a batalha, enquanto as espadas cantavam à sua volta. Deve ser esse o seu nome. Aemon Nascido-em-Batalha. Aemon Canção-d’Aço.

Um nome de que até o senhor meu pai poderia gostar. Um nome de guerreiro. O rapaz era filho de Mance Rayder e neto de Craster, afinal de contas. Não tinha nenhum do sangue de cobarde de Sam.

— Sim. Dá-lhe esse nome.

— Quando ele fizer dois anos — prometeu ela — antes não.

— Onde está o rapaz? — pensou Sam em perguntar. Entre o rum e a mágoa, levara todo aquele tempo a aperceber-se de que Gilly não tinha o bebé consigo.

— Está com Kojja. Pedi-lhe para tomar conta dele durante algum tempo.

— Oh. — Kojja Mo era a filha do capitão, mais alta do que Sam e esguia como uma lança, com uma pele tão negra e lisa como azeviche polido. Também capitaneava os arqueiros vermelhos do navio, e retesava um arco de amagodouro com dupla curvatura, que era capaz de disparar uma seta a quatrocentos metros. Quando os piratas os tinham atacado nos Degraus, as setas de Kojja mataram uma dúzia enquanto as de Sam caíam na água. As únicas coisas de que Kojja gostava mais do que do seu arco era de embalar o filho de Dalla sobre os joelhos e cantar-lhe na língua do Verão. O príncipe selvagem transformara-se no mais-que-tudo de todas as mulheres da tripulação, e Gilly parecia confiar-lho como nunca o confiara a nenhum homem.

— Isso foi gentil da parte de Kojja — disse Sam.

— A princípio tive medo dela — disse Gilly. — Era tão preta, e tinha uns dentes tão grandes e brancos, que tive medo que fosse cruzada de animal, ou um monstro, mas não é. É boa. Gosto dela.

— Eu sei que gostas. — Ao longo da maior parte da sua vida, o único homem que Gilly conhecera fora o aterrorizador Craster. O resto do seu mundo fora feminino. Os homens assustam-na, mas as mulheres não, compreendeu Sam. Conseguia compreender porquê. Em Monte Chifre também ele preferira a companhia das raparigas. As irmãs eram boas para ele, e embora as outras raparigas o arreliassem, por vezes, era mais fácil ignorar palavras cruéis do que os socos e bofetadas que recebia dos outros rapazes do castelo. Até agora, no Vento de Canela, Sam sentia-se mais confortável com Kojja Mo do que com o seu pai, embora isso pudesse ser porque ela falava o Idioma Comum e ele não.

— Também gosto de ti, Sam — murmurou Gilly. — E gosto desta bebida. Sabe a fogo.

Sim, pensou Sam, uma bebida para dragões. Tinham as taças vazias, por isso dirigiu-se ao barril e voltou a enchê-las. Viu que o Sol se encontrava baixo a oeste, inchado até ficar com o triplo do tamanho habitual. A sua luz avermelhada fazia com que a cara de Gilly parecesse corada e rubra. Beberam uma taça a Kojja Mo, e outra ao filho de Dalla, e uma ao bebé de Gilly, que se encontrava na Muralha. E depois disso não podiam deixar de beber duas taças por Aemon, da Casa Targaryen.

— Que o Pai o julgue com justiça — disse Sam, fungando. O Sol já quase desaparecera quando acabaram com o Meistre Aemon. Só uma longa e fina linha de vermelho ainda brilhava no horizonte ocidental, como uma fenda no céu. Gilly disse que a bebida estava a fazer o navio rodopiar, por isso Sam ajudou-a a descer a escada que levava aos aposentos das mulheres à proa do navio.

Uma lanterna estava pendurada junto à porta da cabina, e ele conseguiu bater nela com a cabeça ao entrar.

— Au — disse, e Gilly perguntou:

— Magoaste-te? Deixa-me ver. — Inclinou-se para ele…

… e beijou-o na boca.

Sam deu por si a responder ao beijo. Eu proferi as palavras, pensou, mas as mãos estavam a puxar os panos negros, a puxar as ataduras das bragas. Interrompeu o beijo durante tempo suficiente para dizer:

— Não podemos — mas Gilly disse:

— Podemos — e voltou a cobrir-lhe a boca com a sua. O Vento de Canela estava a girar à volta deles, e Sam sentia o sabor do rum na língua de Gilly, e de repente os seios dela ficaram nus e ele estava a tocá-los. Eu proferi as palavras, voltou Sam a pensar, mas um dos mamilos de Gilly descobriu o caminho até aos seus lábios. Era rosado e estava duro e quando o chupou o leite dela encheu-lhe a boca, misturando-se com o sabor do rum, e ele nunca saboreara nada tão saudável, doce e bom. Se eu fizer isto, não sou melhor do que Dareon, pensou Sam, mas era bom demais para parar. E de súbito tinha a picha de fora, projectando-se das suas bragas como um gordo mastro cor-de-rosa. Tinha um aspecto tão pateta ali em pé que ele se poderia ter rido, mas Gilly empurrou-o para a sua cama de rede, ergueu as saias em volta das coxas e baixou-se sobre ele com um pequeno som lamurioso. Aquilo sabia ainda melhor do que os mamilos. Ela é tão húmida, pensou ele, arquejando. Não sabia que uma mulher podia ficar tão húmida lá em baixo.

— Agora sou tua mulher — sussurrou ela, deslizando por ele, para cima e para baixo. E Sam gemeu e pensou: não, não podes ser, eu proferi as palavras, mas a única palavra que proferiu foi:

— Sim.

Quando terminaram, Gilly adormeceu com os braços em volta de Sam e a cara pousada no seu peito. Sam também precisava de dormir, mas estava embriagado de rum, leite materno e Gilly. Sabia que devia voltar para a sua cama de rede na cabina dos homens, mas estava a gostar tanto de a sentir enrolada contra si que não era capaz de se mover.

Outros entraram, quer homens, quer mulheres, e Sam ouviu-os beijar-se e rir e copular uns com os outros. Ilhéus do Verão. É assim que fazem luto. Respondem à morte com a vida. Sam lera isso algures, há muito tempo. Perguntou a si próprio se Gilly saberia, se Kojja Mo lhe teria dito o que fazer.

Inspirou a fragrância do seu cabelo e prendeu os olhos na lanterna que baloiçava sobre a sua cabeça. Nem mesmo a própria Velha me tiraria disto em segurança. A melhor coisa a fazer seria sair dali à socapa e atirar-se ao mar. Se me afogasse, nunca ninguém precisaria de saber que me envergonhei e quebrei os votos, e Gilly pode arranjar um homem melhor para si, um homem que não seja um grande cobarde gordo.

Acordou na manhã seguinte na sua cama de rede na cabina dos homens, com Xhondo a berrar acerca do vento.

— Há vento — não parava o imediato de gritar. — Acorda e trabalha, Sam Preto. Há vento. — O que faltava a Xhondo em vocabulário, ele compensava com volume. Sam rolou de dentro da sua cama de rede e pôs-se em pé, arrependendo-se de imediato. Tinha a cabeça a ponto de rachar-se, uma das bolhas na palma da mão abrira-se durante a noite, e sentia-se prestes a vomitar.

Mas Xhondo não tinha misericórdia, de modo que tudo o que Sam pôde fazer foi lutar por voltar a vestir os seus panos negros. Encontrou-os nas tábuas por baixo da sua cama de rede, todos enrolados numa pilha húmida. Cheirou-os, para ver se estariam muito sujos, e inalou o cheiro do sal, do mar e do piche, de tela húmida e de bolor, de fruta, peixe e rum de pançapreta, estranhas especiarias e madeiras exóticas, e um entontecedor aroma ao seu próprio suor. Mas o cheiro de Gilly também se encontrava neles, o cheiro limpo do seu cabelo e o cheiro doce do seu leite, e isso deixou-o contente por vesti-los. Teria dado mais que muito por umas meias quentes e secas, contudo. Uma espécie qualquer de fungos começara a crescer-lhe entre os dedos dos pés.

A arca de livros nem chegara perto de pagar passagem para quatro desde Bravos até Vilavelha. Mas o Vento de Canela tinha falta de braços, e Quhuru Mo concordara levá-los, desde que trabalhassem durante a viagem. Quando Sam protestara que o Meistre Aemon estava fraco demais, que o rapaz era um bebé de peito e que Gilly tinha terror do mar, Xhondo limitara-se a rir:

— Sam Preto é grande homem gordo. Sam Preto trabalha por quatro.

Em boa verdade, Sam era tão desajeitado que duvidava de estar a fazer sequer o trabalho de um bom homem, mas tentava. Lavava conveses à escova e deixava-os lisos com pedras, puxava as correntes da âncora, enrolava cordas e caçava ratos, cosia velas rasgadas, remendava rombos com piche a ferver, amanhava peixe e cortava fruta para o cozinheiro. Gilly também tentava. Era melhor nas enxárcias do que Sam, embora de tempos a tempos a visão de tanta água vazia ainda a fizesse fechar os olhos.

Gilly, pensou Sam, o que vou eu fazer com Gilly?

Foi um longo dia peganhento, tornado ainda mais longo pelo latejar na sua cabeça. Sam atarefou-se com cordas, velas e as outras obrigações que Xhondo lhe atribuíra, e tentou evitar que os olhos se desviassem para o barril de rum que continha o corpo do velho Meistre Aemon… ou para Gilly. Não podia encarar a rapariga selvagem naquele momento, não podia encará-la depois do que tinham feito na noite anterior. Quando ela subia ao convés, ele descia ao porão. Quando ela vinha para a proa ele ia para a popa. Quando ela lhe sorria, ele virava-lhe as costas, sentindo-se desprezível. Devia ter-me atirado ao mar enquanto ela ainda estava a dormir, pensou. Sempre fui um poltrão, mas nunca fui perjuro até agora.

Se o Meistre Aemon não tivesse morrido, Sam poderia ter-lhe perguntado o que fazer. Se Jon estivesse a bordo, ou até Pyp e Grenn, podia ter recorrido a eles. Em vez deles, tinha Xhondo. Xhondo não compreenderia o que eu dissesse. Ou se compreendesse, dir-me-ia apenas para voltar a foder a rapariga. “Foder” fora a primeira palavra no Idioma Comum que Xhondo aprendera, e gostava muito dela.

Tinha a sorte do Vento de Canela ser tão grande. A bordo do Melro, Gilly tê-lo-ia encurralado em dois tempos. As grandes embarcações das Ilhas do Verão eram conhecidas como “navios cisne” nos Sete Reinos, devido às suas encapeladas velas brancas e às suas figuras de proa, a maior parte das quais representava aves. Grandes como eram, cavalgavam as ondas com uma graça que era só sua. Com um bom vento fresco de popa, o Vento de Canela podia ultrapassar qualquer galé, embora ficasse impotente numa calmaria. E oferecia bastantes sítios onde um cobarde se podia esconder.

Perto do fim do turno de Sam, foi finalmente encurralado. Estava a descer uma escada quando Xhondo o agarrou pelo colarinho.

— Sam Preto vem com Xhondo — disse, arrastando-o pelo convés e largando-o aos pés de Kojja Mo.

Muito para norte, via-se uma neblina baixa no horizonte. Kojja apontou para lá.

— Ali fica a costa de Dorne. Areia, pedras e escorpiões, e nenhum bom ancoradouro ao longo de centenas de léguas. Podes nadar para lá se quiseres, e ir a pé até Vilavelha. Vais ter de atravessar as profundezas do deserto, escalar algumas montanhas e atravessas o Torentine a nado. Ou então podes ir ter com Gilly.

— Não compreendeis. Na noite passada, nós…

— … honrastes os vossos mortos, e os deuses que vos fizeram a ambos. Xhondo fez o mesmo. Eu tinha a criança, mas se não tivesse teria estado com ele. Vós, os de Westeros, transformais o amor em vergonha. Não há vergonha em amar. Se os vossos septões dizem que há, os vossos sete deuses devem ser demónios. Nas ilhas sabemos melhor das coisas. Os nossos deuses deram-nos pernas para correr, narizes para cheirar, mãos para tocar e sentir. Que deus louco e cruel daria a um homem olhos e depois lhe diria que tinha de os manter fechados para sempre, e nunca olhar toda a beleza do mundo? Só um deus monstruoso, um demónio das trevas. — Kojja pôs a mão entre as pernas de Sam. — Os deuses também te deram isto por uma razão, para… qual é a vossa palavra de Westeros?

— Foder — sugeriu prestavelmente Xhondo.

— Sim, para foder. Para dar prazer e fazer filhos. Não há vergonha nisso.

Sam afastou-se dela.

— Eu fiz um juramento. Não tomarei esposa, e não gerarei filhos. Proferi as palavras.

— Ela conhece as palavras que disseste. É uma criança nalgumas coisas, mas não é cega. Sabe porque é que usas o negro, porque é que vais para Vilavelha. Sabe que não pode ficar contigo. Quer-te durante algum tempo, nada mais. Perdeu o pai e o marido, a mãe e as irmãs, e casa, o seu mundo. Tudo o que tem és tu e o bebé. De modo que ou vais ter com ela, ou nadas.

Sam olhou desesperado a neblina que assinalava a costa distante. Sabia que nunca conseguiria nadar até tão longe.

Foi ter com Gilly.

— O que fizemos… se eu pudesse tomar uma esposa, preferia ter-te a ti do que a qualquer princesa ou donzela bem nascida, mas não posso. Continuo a ser um corvo. Proferi as palavras, Gilly. Fui com Jon para a floresta e disse as palavras perante uma árvore coração.

— As árvores vigiam-nos — sussurrou Gilly, limpando as lágrimas do rosto de Sam. — Na floresta, elas vêem tudo… mas aqui não há árvores. Só há água, Sam. Só há água.

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