O Mar de Ferro

George R. R. Martin · Capítulo 16 de 43

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O Mar de Ferro

Brienne

 

I sto é um sonho horrível, pensou. Mas se estava a sonhar, porque doía tanto?

A chuva parara de cair, mas o mundo inteiro estava molhado. Sentia o manto tão pesado como a cota de malha. As cordas que lhe prendiam os pulsos estavam empapadas, mas isso só as apertara mais. Virasse as mãos como virasse, não conseguia libertar-se. Não compreendia quem a atara ou porquê. Tentou perguntar às sombras, mas elas não responderam. Talvez não a ouvissem. Talvez não fossem reais. Sob as camadas de lã húmida e cota de malha enferrujada, tinha a pele corada e febril. Perguntou a si própria se tudo aquilo seria apenas um sonho de febre.

Tinha um cavalo por baixo de si, embora não se conseguisse lembrar de ter montado. Estava deitada de barriga para baixo sobre os quartos traseiros do animal como se fosse um saco de aveia. Os pulsos e os tornozelos tinham sido firmemente amarrados uns aos outros. O ar estava húmido, e o solo encontrava-se encoberto por névoas. A cabeça latejava-lhe a cada passo. Ouvia vozes, mas tudo o que via era a terra sob os cascos do cavalo. Havia coisas partidas dentro de si. Sentia a cara inchada, tinha a bochecha pegajosa de sangue, e cada oscilação e sacudidela provocava-lhe uma punhalada de dor no braço. Ouvia Podrick a chamá-la, como que de uma grande distância.

— Sor? — não parava ele de dizer. — Sor? Senhora? Sor? Senhora? — A voz era ténue e difícil de ouvir. Por fim, restou só o silêncio.

Sonhou que estava em Harrenhal, de novo na arena dos ursos. Daquela vez quem a enfrentava era o Dentadas, enorme, careca e branco como um verme, com chagas sangrentas nas faces. Aproximou-se, nu, afagando o membro, fazendo ranger os dentes aguçados. Brienne fugiu dele.

— A minha espada — gritou. — A Cumpridora de Promessas. Por favor. — A audiência não lhe deu resposta. Renly encontrava-se presente, com o Lesto Dick e Catelyn Stark. Shagwell, Pyg e Timeon tinham vindo, e os cadáveres das árvores também, com os seus rostos encovados, línguas inchadas e órbitas vazias. Brienne gemeu de horror ao vê-los, e o Dentadas pegou-lhe no braço, puxou-a para si e arrancou-lhe um bocado de carne da cara. — Jaime — ouviu-se gritar — Jaime.

Mesmo nas profundezas do sonho, a dor estava presente. A cara latejava. O ombro sangrava. Respirar doía-lhe. Dores estalavam no seu braço como relâmpagos. Gritou por um meistre.

— Nós não temos meistre — disse uma voz de rapariga. — Sou só eu.

Ando à procura de uma rapariga, recordou Brienne. Uma donzela bem-nascida de treze anos, com olhos azuis e cabelo ruivo.

— Senhora? — disse. — Senhora Sansa?

Um homem riu-se.

— Ela julga que tu és a Sansa Stark.

— Não pode continuar por muito tempo. Vai morrer.

— É um leão a menos. Não é coisa que me faça chorar.

Brienne ouviu o ruído de alguém a rezar. Pensou no Septão Meribald, mas as palavras estavam todas erradas. A noite é escura e cheia de terrores, e os sonhos também.

Estavam a atravessar um bosque sombrio, um lugar húmido, escuro e silencioso, onde os pinheiros cresciam muito juntos. O solo era mole sob os cascos do cavalo, e os trilhos que deixava atrás de si enchiam-se de sangue. A seu lado seguia o Lorde Renly, o Dick Crabb e Vargo Hoat. Sangue corria da garganta de Renly. A orelha rasgada do Bode escorria pus.

— Vamos para onde? — perguntou Brienne. — Para onde me levais? — Nenhum deles quis responder. Como poderiam responder? Estão todos mortos. Quereria isso dizer que ela também o estava?

Tinha à sua frente o Lorde Renly, o seu querido rei sorridente. Levava o cavalo por entre as árvores. Brienne chamou-o para lhe dizer como o amava, mas quando ele se virou para a olhar de cenho franzido, viu que afinal não se tratava de Renly. Renly nunca franzia o cenho. Ele sempre teve um sorriso para mim, pensou… excepto…

— Frio — disse o seu rei, confundido, e uma sombra moveu-se sem um homem que a deitasse, e o sangue do seu querido senhor derramou-se pelo aço verde do gorjal para lhe ir ensopar as mãos. Ele fora um homem quente, mas o sangue estava frio como gelo. Isto não é real, disse a si própria. Isto é outro pesadelo, e em breve acordarei.

A sua montada parou de súbito. Mãos rudes pegaram nela. Viu feixes da luz vermelha da tarde a cair em diagonal por entre os ramos de um castanheiro. Um cavalo remexeu as folhas mortas em busca de castanhas, e homens deslocaram-se ali perto, falando em voz baixa. Dez, doze, talvez mais. Brienne não lhes reconheceu as caras. Estava estendida no chão, com as costas apoiadas a um tronco de árvore.

— Bebei isto, s’nhora — disse a voz da rapariga. Levou uma taça aos lábios de Brienne. O sabor era forte e amargo. Brienne cuspiu. — Água — arquejou. — Por favor. Água.

— Água não vos ajudará com a dor. Isto sim. Um pouco. — A rapariga voltou a encostar a taça aos lábios de Brienne.

Até beber doía. Vinho escorreu-lhe pelo queixo abaixo e pingou sobre o seu peito. Quando a taça ficou vazia, a rapariga encheu-a de um odre. Brienne foi bebendo até se engasgar.

— Basta.

— Não basta. Tendes um braço partido e algumas das vossas costelas estão rachadas. Duas, talvez três.

— Dentadas — disse Brienne, lembrando-se do peso dele, do modo como o joelho a atingira no peito.

— Pois. Um verdadeiro monstro, esse.

Recordou-se de tudo; os relâmpagos por cima e a lama por baixo, a chuva a pingar suavemente no aço escuro do elmo do Cão de Caça, a terrível força das mãos do Dentadas. De súbito deixou de conseguir suportar estar atada. Tentou libertar-se das cordas, mas tudo o que conseguiu foi piorar as escoriações. Os pulsos estavam demasiado apertados. Havia sangue seco no cânhamo.

— Ele está morto? — Estremeceu. — Dentadas. Ele está morto? — Lembrava-se dos dentes dele a enterrarem-se na carne da sua cara. A ideia de que ainda pudesse andar por aí, algures, respirando, fazia Brienne ter vontade de gritar.

— Está morto. O Gendry enfiou-lhe uma ponta de lança na nuca. Bebei, s’nhora, senão despejo-vos isto pela garganta abaixo.

Ela bebeu.

— Ando à procura de uma rapariga — sussurrou, entre tragos. Quase disse a minha irmã. — Uma donzela bem nascida de treze anos. Tem olhos azuis e cabelo ruivo.

— Não sou eu.

Pois não. Brienne conseguia vê-lo. A rapariga era magra ao ponto de parecer esfomeada. Usava o cabelo castanho numa trança, e tinha uns olhos que eram mais velhos do que a sua idade. Cabelo castanho, olhos castanhos, simples. Willow, seis anos mais velha.

— És a irmã. A estalajadeira.

— Se calhar sou. — A rapariga olhou-a de soslaio. — E se for?

— Tens nome? — perguntou Brienne. O seu estômago gorgolejou. Teve receio de vomitar.

— Heddle. Como a Willow. Jeyne Heddle.

— Jeyne. Desamarra-me as mãos. Por favor. Tem piedade. As cordas estão a deixar-me os pulsos em carne viva. Estou a sangrar.

— Não é permitido. Devereis ficar presa até…

— … até serdes levada à presença da s’nhora. — Renly estava atrás da rapariga, afastando o seu cabelo negro dos olhos. Renly não. Gendry. — A s’nhora quer que respondais pelos vossos crimes.

— S’nhora. — O vinho estava a dar-lhe volta à cabeça. Era difícil pensar. — Coração de Pedra. É dela que falas? — O Lorde Randyll falara dela, em Lagoa da Donzela. — A Senhora Coração de Pedra.

— Há quem lhe chame isso. Outros chamam-lhe outras coisas. A Irmã Silenciosa. A Mãe Impiedosa. A Carrasca.

A Carrasca. Quando Brienne fechou os olhos, viu os cadáveres a balançar sob os ramos nus e castanhos, com as caras negras e inchadas. De súbito, sentiu um medo desesperado.

— Podrick. O meu escudeiro. Onde está Podrick? E os outros… Sor Hyle, o Septão Meribald. O Cão. Que fizestes com o Cão?

Gendry e a rapariga trocaram um olhar. Brienne lutou por se pôr em pé, e conseguiu enfiar um joelho por baixo do seu corpo antes de o mundo começar a girar.

— Fostes vós quem matou o cão, s’nhora — ouviu Gendry a dizer, logo antes da escuridão voltar a engoli-la.

Então encontrou-se de volta aos Murmúrios, em pé no meio das ruí-nas e defrontando Clarence Crabb. Ele era enorme e feroz, montado num auroque mais peludo do que ele. O animal escavou o chão, furioso, fazendo profundos sulcos na terra. Os dentes de Crabb tinham sido aguçados até formar pontas. Quando Brienne tentou puxar pela espada encontrou a bainha vazia.

— Não — gritou, no momento em que Sor Clarence carregava. Não era justo. Não podia lutar sem a sua espada mágica. Sor Jaime dera-lha. A ideia de lhe falhar como falhara ao Lorde Renly dava-lhe vontade de chorar. — A minha espada. Por favor, tenho de encontrar a minha espada.

— A rapariga quer a espada de volta — declarou uma voz.

— E eu quero que Cersei Lannister me faça um broche. E daí?

— Jaime chamou-lhe Cumpridora de Promessas. Por favor. — Mas as vozes não lhe deram ouvidos, e Clarence Crabb caiu sobre ela como um trovão e cortou-lhe a cabeça. Brienne caiu em espiral numa escuridão mais profunda.

Sonhou que estava deitada num barco, com a cabeça apoiada no colo de alguém. Havia sombras a toda a volta, homens encapuzados vestidos de cota de malha e couro, que os levavam à força de remos abafados através de um rio nevoento. Estava ensopada em suor, a arder em febre, mas ao mesmo tempo também tremia. O nevoeiro estava cheio de caras.

— Beleza — murmuravam os salgueiros na margem, mas os juncos diziam: — monstro, monstro. — Brienne estremecia.

— Parai — disse. — Alguém que os faça parar.

Da vez seguinte que acordou Jeyne levava-lhe uma taça de sopa quente aos lábios. Caldo de cebolas, pensou Brienne. Bebeu tanto quanto foi capaz, até que um bocado de cenoura ficou-lhe preso na garganta e fê-la engasgar-se. Tossir era uma agonia.

— Calma — disse a rapariga.

— Gendry — arquejou. — Tenho de falar com Gendry.

— Ele voltou para trás no rio, s’nhora. Vai voltar para a sua forja, para Willow e os pequenos, para os manter a salvo.

Ninguém os pode manter a salvo. Recomeçou a tossir.

— Ah, deixa-a sufocar. Poupa-nos uma corda. — Um dos homens ensombrados empurrou a rapariga para o lado. Estava coberto com cota de malha enferrujada e trazia um cinto com tachões. Da sua anca pendia espada e punhal. Um manto amarelo estava colado aos seus ombros, encharcado e imundo. Dos ombros erguia-se uma cabeça de cão em aço, com os dentes desnudados num rosnido.

— Não — gemeu Brienne. — Não, tu estás morto, eu matei-te.

O Cão de Caça soltou uma gargalhada.

— Tens as coisas ao contrário. Vou ser eu que te vou matar a ti. Matava-te já, mas a s’nhora quer ver-te enforcada.

Enforcada. A palavra trespassou-a com um solavanco de medo. Olhou para a rapariga, Jeyne. Ela é nova demais para ser tão dura.

— Pão e sal — arquejou Brienne. — A estalagem… o Septão Meribald alimentou as crianças… nós quebrámos o pão com a tua irmã…

— O direito de hóspede já não tem tanto significado como tinha — disse a rapariga. — Já não o tem desde que a s’nhora voltou do casamento. Alguns daqueles que baloiçam junto ao rio também achavam que eram hóspedes.

— Nós achamos outras coisas — disse o Cão de Caça. — Eles queriam camas. Nós demos-lhes árvores.

— Mas temos mais árvores — interveio outra sombra, com um só olho atrás de um elmo redondo coberto de ferrugem. — Temos sempre mais árvores.

Quando chegou o momento de voltar a montar, enfiaram-lhe um capuz de couro na cabeça. Não havia buracos para os olhos. O couro abafava os sons à sua volta. O sabor a cebolas permaneceu-lhe na boca, penetrante como a noção do seu falhanço. Eles querem enforcar-me. Pensou em Jaime, em Sansa, no seu pai em Tarth, e sentiu-se contente pelo capuz. Ajudava a esconder as lágrimas que lhe subiam aos olhos. De vez em quando, ouvia os outros a conversar, mas não conseguia distinguir as palavras. Após algum tempo, entregou-se ao cansaço e aos lentos e regulares movimentos do cavalo.

Daquela vez sonhou que estava de novo em casa, no Entardecer. Através das altas janelas arqueadas do salão do senhor seu pai, via o Sol a pôr-se. Aqui estava a salvo. Estava a salvo.

Estava vestida de brocado de seda, um vestido esquartelado de azul e vermelho decorado com sóis dourados e crescentes prateados. Noutra rapariga, podia ter sido um vestido bonito, mas nela não. Tinha doze anos, e sentia-se desajeitada e desconfortável, enquanto esperava para conhecer o jovem cavaleiro com quem o pai combinara que se casaria, um rapaz seis anos mais velho, que certamente seria um dia um famoso campeão. Temia a sua chegada. Tinha o peito pequeno demais, as mãos e os pés grandes demais. O cabelo não parava de se lhe pôr em pé, e estava uma borbulha aninhada na dobra ao lado do nariz.

— Ele vai trazer-te uma rosa — prometeu-lhe o pai, mas uma rosa não servia, uma rosa não podia mantê-la em segurança. Era uma espada que queria. A Cumpridora de Promessas. Tenho de encontrar a rapariga. Tenho de encontrar a honra dele.

Finalmente as portas abriram-se, e o seu prometido entrou a passos largos no salão do pai. Tentou saudá-lo como fora instruída a fazer, mas apenas conseguiu que sangue lhe jorrasse da boca. Cortara a língua com os dentes enquanto esperava. Cuspiu-a aos pés do jovem cavaleiro, e viu a repugnância no seu rosto.

— Brienne, a Beleza — disse ele em tom trocista. — Já vi porcas mais belas do que vós. — Atirou-lhe a rosa à cara. Enquanto se afastava, os grifos no seu manto ondularam, perderam nitidez e transformaram-se em leões. Jaime!, quis gritar. Jaime, voltai para mim! Mas a sua língua jazia no chão ao lado da rosa, afogada em sangue.

Brienne acordou de súbito, ofegando.

Não sabia onde se encontrava. O ar estava frio e pesado, e cheirava a terra, vermes e bolor. Estava estendida numa enxerga, sob uma pilha de peles de ovelha, com rocha por cima da cabeça e raízes a perfurar as paredes. A única luz provinha de uma vela alta, que fumegava num charco de cera derretida.

Afastou as peles de ovelha para o lado. Viu que alguém a despira de roupas e armadura. Estava vestida com uma combinação de lã castanha, pouco espessa, mas lavada. Mas fora posta uma tala no seu antebraço, e ele fora ligado com linho. Sentia um lado da cara húmido e rígido. Quando se tocou, descobriu uma espécie qualquer de cataplasma húmido que lhe cobria a bochecha, maxilar e orelha. Dentadas…

Brienne pôs-se em pé. Sentia as pernas fracas como água, e a cabeça leve como ar.

— Está aí alguém?

Algo se moveu numa das alcovas sombrias por trás da vela; um velho grisalho vestido de farrapos. As mantas que o cobriam deslizaram para o chão. Sentou-se e esfregou os olhos.

— Senhora Brienne? Assustastes-me. Estava a sonhar.

Não, pensou ela, quem estava a sonhar era eu.

— Que lugar é este? É uma masmorra?

— Uma gruta. Como ratazanas, temos de correr de volta aos nossos buracos quando os cães vêm farejar-nos o rasto, e há mais cães todos os dias. — Ele trazia os restos esfarrapados de uma velha veste, cor-de-rosa e branca. O cabelo era longo, grisalho e emaranhado, e a pele solta das suas bochechas e queixo estava coberta por uma barba hirsuta. — Tendes fome? Conseguireis manter no estômago uma taça de leite? Talvez um pouco de pão e mel?

— Quero a minha roupa. A minha espada. — Sentia-se nua sem a sua cota de malha, e queria a Cumpridora de Promessas a seu lado. — O caminho de saída. Mostra-me o caminho de saída. — O chão da gruta era de terra e pedra, áspero sob as solas dos seus pés. Ainda sentia a cabeça leve, como se estivesse a flutuar. A luz tremeluzente deitava estranhas sombras. Espíritos dos mortos, pensou, a dançar à minha volta, escondendo-se quando me viro para os olhar. Viu buracos, rachas e fendas por todo o lado, mas não havia maneira de saber quais das passagens levavam ao exterior, quais a levariam a penetrar mais profundamente na gruta, e quais não iam dar a lado nenhum. Todas estavam negras como breu.

— Posso sentir a temperatura da vossa testa, senhora? — A mão do carcereiro estava coberta de cicatrizes e era dura, cheia de calos, mas estranhamente gentil. — A febre baixou — anunciou, numa voz temperada pelo sotaque das Cidades Livres. — Óptimo. Ainda ontem parecia que tínheis a carne em fogo. Jeyne temeu que pudéssemos perder-vos.

— Jeyne. A rapariga alta?

— Essa mesma. Embora não seja tão alta como vós, senhora. Os homens chamam-lhe Jeyne Longa. Foi ela quem vos pôs o braço na posição correcta e lhe colocou a tala, tão bem como qualquer meistre. Fez também o que pôde pela vossa cara, lavando os ferimentos com cerveja fervida para parar a necrose. Mesmo assim… uma dentada humana é uma coisa nojenta. Foi daí que veio a febre, estou certo. — O homem grisalho tocou-lhe a cara ligada. — Tivemos de cortar alguma carne. Temo que a vossa cara não fique bonita.

Ela nunca foi bonita.

— Falais de cicatrizes?

— Senhora, aquela criatura arrancou-vos metade da bochecha.

Brienne não conseguiu evitar um estremecimento. Todos os cavaleiros têm cicatrizes de batalha, prevenira-a Sor Goodwin, quando lhe pedira que lhe ensinasse a manejar a espada. É isso o que quereis, pequena? Mas o seu velho mestre de armas falava de golpes de espada; nunca poderia ter previsto os dentes pontiagudos do Dentadas.

— Para quê colocar-me os ossos em posição e lavar-me os ferimentos, se apenas pretendeis enforcar-me?

— Realmente, para quê? — Ele relanceou os olhos pela vela, como se já não conseguisse suportar olhá-la. — Disseram-me que lutastes valentemente na estalagem. O Limo não devia ter saído da encruzilhada. Foi-lhe dito que ficasse por perto, escondido, para vir imediatamente se visse fumo a sair da chaminé… mas quando lhe chegou uma mensagem dizendo que o Cão Louco de Salinas fora visto a dirigir-se para norte ao longo do Ramo Verde, mordeu o isco. Andávamos há tanto tempo à caça daquele grupo… mesmo assim, ele devia ter pensado melhor. Acabou por gastar meio dia até se aperceber de que os saltimbancos tinham usado um ribeiro para esconder o rasto e tinham voltado para trás, nas suas costas, e então perdeu mais tempo a rodear uma coluna de cavaleiros Frey. Se não fôsseis vós, podia só haver cadáveres na estalagem quando o Limo e os seus homens regressassem. Foi por isso que Jeyne vos ligou as feridas, talvez. Fosse o que fosse que tenhais feito também, ganhastes esses ferimentos de forma honrada, na melhor das causas.

Fosse o que fosse que tenhais feito também.

— O que pensais que eu fiz? — disse. — Quem sois vós?

— Éramos homens do rei quando começámos — disse-lhe o homem — mas homens do rei têm de ter um rei, e nós não temos. Também éramos irmãos, mas agora a nossa irmandade quebrou-se. Não sei quem somos, em boa verdade, nem sei para onde nos dirigimos. Só sei que a estrada é escura. Os fogos não me mostraram o que está no fim.

Eu sei onde ela termina. Vi os cadáveres nas árvores.

— Fogos — repetiu Brienne. E de súbito, compreendeu. — Sois o sacerdote de Myr. O feiticeiro vermelho.

Ele baixou os olhos para a roupa esfarrapada, e fez um sorriso triste.

— O fingidor cor-de-rosa, talvez. Sou Thoros, em tempos de Myr, sim… um mau sacerdote e um feiticeiro pior.

— Acompanhais Dondarrion. O senhor do relâmpago.

— O relâmpago aparece e desaparece, e depois não volta a ser visto. Acontece o mesmo com os homens. Temo que o fogo do Lorde Beric tenha desaparecido deste mundo. Em seu lugar lidera-nos uma sombra mais ameaçadora.

— O Cão de Caça?

O sacerdote enrugou os lábios.

— O Cão de Caça está morto e enterrado.

— Eu vi-o. Na floresta.

— Um sonho febril, senhora.

— Ele disse que queria enforcar-me.

— Até os sonhos podem mentir. Senhora, há quanto tempo não comeis? Decerto que estais faminta.

Compreendeu que estava. Sentia a barriga oca.

— Comida… comida seria bem-vinda, obrigada.

— Uma refeição, nesse caso. Sentai-vos. Falaremos mais, mas primeiro uma refeição. Esperai aqui. — Thoros acendeu um círio na vela inclinada, e desapareceu num buraco negro por trás de uma saliência de rocha. Brienne deu por si sozinha na pequena gruta. Mas por quanto tempo?

Percorreu o aposento, em busca de uma arma. Qualquer tipo de arma teria servido; um bastão, uma moca, um punhal. Só encontrou pedras. Uma ajustava-se-lhe bem ao punho… mas recordou os Murmúrios, e o que acontecera quando Shagwell tentara opor uma pedra a uma faca. Quando ouviu os passos do sacerdote a regressar, deixou a pedra cair ao chão da gruta e regressou ao sítio onde estivera sentada.

Thoros tinha pão, queijo e uma tigela de guisado.

— Lamento — disse. — O resto do leite azedou, e já não temos mel. A comida faz-se escassa. Seja como for, isto irá encher-vos a barriga.

O guisado estava frio e gorduroso, o pão duro, o queijo mais duro ainda. Brienne nunca comera nada tão delicioso.

— Os meus companheiros estão aqui? — perguntou ao sacerdote, enquanto enchia colheradas com os últimos restos do guisado.

— O septão foi libertado e seguiu o seu caminho. Não havia nele qualquer mal. Os outros estão aqui, a aguardar julgamento.

— Julgamento? — Franziu o sobrolho. — Podrick Payne não passa de um rapaz.

— Ele diz que é um escudeiro.

— Sabeis como os rapazes gostam de gabar-se.

— O escudeiro do Duende. Lutou em batalhas, ele próprio o admitiu. Até chegou a matar, a acreditar no que diz.

— Um rapaz — voltou ela a dizer. — Tende piedade.

— Senhora — disse Thoros — não duvido de que a gentileza, a misericórdia e o perdão ainda possam ser encontrados algures nestes Sete Reinos, mas não os procureis aqui. Isto é uma gruta, não um templo. Quando os homens são obrigados a viver como ratazanas na escuridão subterrânea, em breve se lhes esgota a piedade, tal como acontece com o leite e o mel.

— E a justiça? Poderá isso encontrar-se em grutas?

— Justiça. — Thoros fez um sorriso tristonho. — Lembro-me da justiça. Tinha um sabor agradável. Era a justiça que pretendíamos quando Beric nos liderava, ou pelo menos era isso que dizíamos a nós próprios. Éramos homens do rei, cavaleiros e heróis… mas alguns cavaleiros são escuros e cheios de terror, senhora. A guerra transforma-nos a todos em monstros.

— Estais a dizer que sois monstros?

— Estou a dizer que somos humanos. Não sois a única pessoa com ferimentos, Senhora Brienne. Alguns dos meus irmãos eram bons homens quando isto começou. Alguns eram… menos bons, digamos. Embora haja quem diga que não importa como um homem começa, mas apenas como termina. Suponho que com as mulheres é igual. — O sacerdote pôs-se em pé. — Temo que o nosso tempo juntos esteja no fim. Estou a ouvir os meus irmãos a chegar. A nossa senhora manda-vos buscar.

Brienne ouviu os passos e viu a luz do archote a tremeluzir na passagem.

— Dissestes-me que ela tinha ido a Feirajusta.

— E foi. Regressou enquanto dormíeis. Ela nunca dorme.

Não terei medo, disse a si própria, mas era tarde demais para isso. Substituiu essa promessa com outra: não permitirei que vejam o meu medo. Eles eram quatro, homens duros com rostos macilentos, vestidos de cota de malha, escamas e couro. Reconheceu um deles; o homem com um olho, dos seus sonhos.

O maior dos quatro usava um manto amarelo manchado e esfarrapado.

— Gostastes da comida? — perguntou. — Espero que sim. Deve ser a última que havereis de comer. — Tinha cabelo castanho e barba, era musculoso e possuía um nariz partido que sarara mal. Conheço este homem, pensou Brienne.

— És o Cão de Caça.

Ele fez um sorriso. Os seus dentes eram horríveis; tortos, e manchados de castanho devido à cárie.

— Suponho que seja. Visto que a s’nhora tratou de matar o último. — Virou a cabeça e escarrou.

Brienne recordou o relâmpago a estalar, a lama sob os seus pés.

— Quem matei foi Rorge. Ele tirou o elmo da tumba de Clegane, e tu roubaste-o do seu cadáver.

— Não estou a ouvi-lo a protestar.

Thoros prendeu a respiração, consternado.

— Isto é verdade? O elmo de um morto? Caímos assim tão baixo?

O grandalhão deitou-lhe um olhar carrancudo.

— É bom aço.

— Não há nada de bom nesse elmo, nem nos homens que o usaram — disse o sacerdote vermelho. — Sandor Clegane era um homem atormentado, e Rorge um animal em pele humana.

— Eu não sou nem um nem outro.

— Então para quê mostrar ao mundo a cara deles? Selvagem, a rosnar, retorcida… é isso o que queres ser, Limo?

— Vê-la vai encher de medo os meus inimigos.

— Vê-la enche-me a mim de medo.

— Então fecha os olhos. — O homem do manto amarelo fez um gesto brusco. — Trazei a rameira.

Brienne não resistiu. Eles eram quatro, e ela estava fraca e ferida, nua sob a combinação de lã. Tinha de dobrar o pescoço para evitar bater com a cabeça enquanto a levavam pela sinuosa passagem. O caminho em frente ergueu-se bruscamente, virando duas vezes antes de emergir numa caverna muito maior, cheia de foras-da-lei.

Um buraco de fogueira fora escavado no centro da caverna, e o ar estava azul de fumo. Homens aglomeravam-se junto às chamas, aquecendo-se contra o frio da gruta. Outros estavam em pé ao longo das paredes, ou sentavam-se de pedras cruzadas em enxergas de palha. Também havia mulheres, e até algumas crianças que espreitavam de detrás das saias das mães. A única cara que Brienne reconheceu pertencia à Jayne Longa Heddle.

Uma mesa de montar fora erguida do outro lado da gruta, numa fenda da rocha. Por trás dela encontrava-se sentada uma mulher toda vestida de cinzento, com um manto e um capuz. Tinha nas mãos uma coroa, um aro de bronze rodeado por espadas de ferro. Estava a estudá-la, afagando as lâminas com os dedos, como que para verificar se estavam afiadas. Os olhos cintilavam sob o capuz.

Cinzento era a cor das irmãs silenciosas, as criadas do Estranho. Brienne sentiu um arrepio subir-lhe a espinha. Coração de Pedra.

— S’nhora — disse o grandalhão. — Aqui está ela.

— Pois — disse o zarolho. — A rameira do Regicida.

Brienne vacilou.

— Porque me haveríeis de chamar isso?

— Se eu tivesse um veado de prata por cada vez que dissestes o nome dele, estava tão rico como os vossos amigos Lannister.

— Isso foi só… não compreendeis…

— Será que não? — O grandalhão soltou uma gargalhada. — Eu acho que se calhar entendemos. Há um fedor a leão em vós, senhora.

— Não é verdade.

Outro dos foras-da-lei deu um passo em frente, um homem mais novo com um justilho gorduroso de pele de ovelha. Na mão trazia a Cumpridora de Promessas.

— Isto diz que é. — A voz dele era carregada com o sotaque do norte. Tirou a espada da bainha e pousou-a à frente da Senhora Coração de Pedra. À luz vinda da fogueira, as ondulações vermelhas e negras da lâmina quase pareciam mover-se, mas a mulher de cinzento só tinha olhos para o botão do punho: uma cabeça de leão em ouro, com olhos de rubi que brilhavam como duas estrelas vermelhas.

— E também há isto. — Thoros de Myr tirou um pergaminho da manga e pousou-o junto à espada. — Ostenta o selo do rei rapaz e diz que o portador está a tratar dos seus assuntos.

A Senhora Coração de Pedra pôs a espada de lado para ler a carta.

— A espada foi-me dada para um bom propósito — disse Brienne. — Sor Jaime prestou um juramento a Catelyn Stark…

— … antes dos seus amigos lhe cortarem a garganta, com certeza — disse o homem grande com o manto amarelo. — Todos conhecemos o Regicida e os seus juramentos.

Não adianta, compreendeu Brienne. Nada que eu diga irá fazê-los mudar de ideias. Apesar disso, mergulhou em frente.

— Ele prometeu as filhas à Senhora Catelyn, mas quando chegámos a Porto Real elas tinham desaparecido. Jaime mandou-me em busca da Senhora Sansa…

— … e se tivésseis achado a rapariga — perguntou o jovem nortenho — o que devíeis fazer com ela?

— Protegê-la. Levá-la para algum sítio seguro.

O grandalhão soltou uma gargalhada.

— Onde fica isso? Na masmorra de Cersei?

— Não.

— Negai o que quiserdes. Aquela espada diz que sois uma mentirosa. Será que quereis que a gente acredite que os Lannister andam a entregar espadas de ouro e rubis a inimigos? Que o Regicida queria que escondêsseis a rapariga da sua própria irmã gémea? Suponho que o papel com o selo do rei rapaz fosse só para o caso de precisardes de limpar o cu, não? E depois há a companhia em que andais… — O grandalhão virou-se e fez um gesto, as fileiras de foras-da-lei abriram-se, e outros dois cativos foram trazidos. — O rapaz era o escudeiro do próprio Duende, s’nhora — disse ele à Senhora Coração de Pedra. — O outro é um dos malditos cavaleiros domésticos do Maldito Randyll Tarly.

Hyle Hunt fora espancado com tanta violência que o seu rosto estava inchado quase até deixar de ser reconhecível. Tropeçou quando o empurraram, e quase caiu. Podrick agarrou-lhe no braço.

— Sor — disse o rapaz com ar infeliz quando viu Brienne. — Quero dizer, senhora. Lamento.

— Não tens nada a lamentar. — Brienne virou-se para a Senhora Coração de Pedra. — Seja qual for a traição que julgais que eu cometi, senhora, Podrick e Sor Hyle não participaram nela.

— São leões — disse o zarolho. — Isso basta. Que sejam enforcados, digo eu. O Tarly enforcou uma vintena dos nossos, já é mais que tempo que a gente pendure uns quantos dos dele.

Sor Hyle dirigiu a Brienne um ténue sorriso.

— Senhora — disse — devíeis ter-vos casado comigo quando me ofereci. Agora, temo que estejais condenada a morrer donzela e eu pobre.

— Libertai-os — suplicou Brienne.

A mulher de cinzento não deu resposta. Estudou a espada, o pergaminho, a coroa de bronze e ferro. Por fim ergueu a mão até à garganta e agarrou o pescoço, como se pretendesse esganar-se a si própria. Em vez disso, falou… A sua voz era hesitante, irregular, torturada. O som parecia vir-lhe da garganta, em parte um coaxo, em parte um arquejo de asmático, em parte um matraquear de morte. A língua dos danados, pensou Brienne.

— Não compreendo. O que foi que ela disse?

— Perguntou como se chamava esta vossa lâmina — disse o jovem nortenho com o justilho de pele de ovelha.

— Cumpridora de Promessas — respondeu Brienne.

A mulher de cinzento silvou por entre os dedos. Os seus olhos eram dois poços rubros ardendo nas sombras. Voltou a falar.

— Não, diz ela. Chamai-lhe Quebradora de Promessas, diz ela. Foi feita para a traição e o assassínio. Ela baptiza-a como Falsa Amiga. Como vós.

— Para quem fui eu falsa?

— Para ela — disse o nortenho. — Poderá ser que a senhora se tenha esquecido de que um dia jurou pôr-se ao seu serviço?

Só havia uma mulher a quem a Donzela de Tarth jurara servir.

— Isso não pode ser — disse. — Ela está morta.

— A morte e o direito de hóspede — resmungou a Jeyne Longa Heddle. — Não têm tanto significado como tinham dantes, nem uma coisa nem outra.

A Senhora Coração de Pedra baixou o capuz e desenrolou o cachecol de lã cinzenta que lhe cobria o rosto. O seu cabelo estava seco e quebradiço, branco como osso. A testa estava pintalgada de verde e cinzento, manchada com os rebentos castanhos da putrefacção. A pele do seu rosto quebrava-se em fitas rasgadas, dos olhos até ao maxilar. Alguns dos rasgões estavam cobertos por crostas de sangue seco, mas outros escancaravam-se para revelar o crânio, por baixo.

A cara dela, pensou Brienne. A cara dela era tão forte e bem parecida, a sua pele tão lisa e suave.

— Senhora Catelyn? — Lágrimas encheram-lhe os olhos. — Disseram… disseram que estáveis morta.

— E está. — Disse Thoros de Myr. — Os Frey rasgaram-lhe a garganta de orelha a orelha. Quando a encontrámos junto ao rio, estava morta havia três dias. Harwin suplicou-me que lhe desse o beijo da vida, mas tinha-se passado tempo demais. Não o quis fazer, e por isso o Lorde Beric pôs os lábios sobre os dela, e a chama da vida passou dele para ela. E… ela ergueu-se. Que o Senhor da Luz nos proteja. Ela ergueu-se.

Ainda estou a sonhar?, perguntou Brienne a si própria. Será isto outro pesadelo nascido dos dentes do Dentadas?

— Nunca a traí. Dizei-lhe isso. Juro pelos Sete. Juro pela minha espada.

A coisa que fora Catelyn Stark voltou a agarrar na garganta, com dedos que apertavam o pavoroso e longo corte no pescoço, e estrangulou mais sons.

— Palavras são vento, diz ela — disse o nortenho a Brienne. — Ela diz que deveis demonstrar a vossa fidelidade.

— Como? — perguntou Brienne.

— Com a vossa espada. Chamais-lhe Cumpridora de Promessas? Então cumpri a promessa que lhe fizestes, diz a senhora.

— Que quer ela de mim?

— Quer o filho vivo, ou os homens que o mataram mortos — disse o grandalhão. — Quer alimentar os corvos, como fizeram no Casamento Vermelho. Os Frey e os Bolton, sim. Nós dar-lhos-emos, tantos quantos queira. Tudo o que vos pede é Jaime Lannister.

Jaime. O nome era uma faca, retorcendo-se na sua barriga.

— Senhora Catelyn, eu… vós não compreendeis, Jaime… ele salvou-me de ser violada quando os Saltimbancos Sangrentos nos capturaram, e mais tarde voltou para trás para me vir buscar, saltou de mãos nuas para a arena dos ursos… juro-vos, ele não é o homem que era. Mandou-me em busca de Sansa para a manter a salvo, não podia ter participado no Casamento Vermelho.

Os dedos da Senhora Catelyn enterraram-se-lhe profundamente na garganta, e as palavras saíram num matraquear, sufocadas e entrecortadas, um fluxo tão frio como gelo. O nortenho disse:

— Ela diz que tendes de escolher. Tomai a espada e matai o Regicida, ou sede enforcada como traidora. A espada ou a corda, diz ela. Escolhei, diz ela. Escolhei.

Brienne recordou o sonho, a espera no salão do pai pelo rapaz com quem deveria casar. No sonho cortara a língua com os dentes. Tinha a boca cheia de sangue. Inspirou entrecortadamente, e disse:

— Não farei tal escolha.

Houve um longo silêncio. Então a Senhora Coração de Pedra voltou a falar. Daquela vez, Brienne compreendeu o que ela disse. Foi só uma palavra.

— Enforcai-os — crocitou.

— Às vossas ordens, s’nhora — disse o grandalhão.

Voltaram a atar os pulsos de Brienne com cordas e levaram-na para fora da caverna, por um caminho sinuoso de pedra que subia à superfície. Ficou surpreendida por ver que lá fora era manhã. Feixes da pálida luz da aurora penetravam em diagonal por entre as árvores. Tantas árvores por onde escolher, pensou. Não terão de nos levar até longe.

E não levaram. Sob um salgueiro torto, os foras-da-lei enfiaram-lhe um laço pela cabeça, apertaram-lho bem ao pescoço e fizeram passar a outra ponta da corda por cima de um ramo. A Hyle Hunt e Podrick Payne foram dados elmos. Sor Hyle estava a gritar que mataria Jaime Lannister, mas o Cão de Caça deu-lhe um tabefe na cara e calou-o. Tinha voltado a pôr o elmo.

— Se tiverdes crimes a confessar aos vossos deuses, esta é a altura de o fazer.

— Podrick nunca vos fez mal. O meu pai resgatá-lo-á. Tarth é conhecida como a ilha safira. Enviai Podrick com os meus ossos ao Entardecer, e tereis safiras, prata, tudo o que quiserdes.

— Quero a minha mulher e filha de volta — disse o Cão de Caça. — O vosso pai pode-me dar isso? Se não puder, pode ir levar no cu. O rapaz vai apodrecer ao vosso lado. Lobos hão-de vos roer os ossos.

— Estás a tencionar enforcá-la, Limo? — perguntou o zarolho. — Ou pensas matar a cadela com conversa?

O Cão de Caça arrancou a ponta da corda ao homem que a segurava.

— Vamos lá a ver se ela sabe dançar — disse, e deu um puxão.

Brienne sentiu o cânhamo a apertar-se, enterrando-se-lhe na pele, puxando-lhe o queixo para cima. Sor Hyle estava a amaldiçoá-los com eloquência, mas o rapaz não. Podrick não chegou a erguer os olhos, nem mesmo quando os seus pés foram arrancados do chão. Se isto for outro sonho, está na altura de acordar. Se isto for real, está na altura de morrer. Tudo o que conseguia ver era Podrick, com o laço em volta do pescoço, as pernas a torcer-se. A boca abriu-se-lhe. Pod estava a espernear, a sufocar, a morrer. Brienne inspirou desesperadamente, no momento em que a corda a estrangulava. Nunca nada doera tanto.

Gritou uma palavra.

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