O Mar de Ferro

George R. R. Martin · Capítulo 10 de 43

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O Mar de Ferro

Cersei

 

O dia estivera frio, cinzento e húmido. Levara a manhã inteira a chover com intensidade, e mesmo depois de a chuva parar as nuvens recusaram-se a abrir. Não chegaram a ver o sol. Um tempo tão desgraçado era suficiente para desencorajar até a pequena rainha. Em vez de sair a cavalo com as suas galinhas e a sua comitiva de guardas e admiradores, passara o dia inteiro na Arcada das Donzelas com as galinhas, a ouvir o Bardo Azul cantar.

O dia de Cersei fora pouco melhor, até ao cair da noite. Quando o céu cinzento começava a transformar-se em negro, disseram-lhe que o Doce Cersei entrara no porto na maré da noite, e que Aurane Waters se encontrava lá fora, a solicitar uma audiência.

A rainha mandou-o buscar imediatamente. Assim que ele entrou no seu aposento privado, soube que as notícias eram boas.

— Vossa Graça — disse ele com um largo sorriso — Pedra do Dragão pertence-vos.

— Magnífico. — Pegou-lhe nas mãos e beijou-o na face. — Sei que Tommen também ficará contente. Isto vai querer dizer que podemos libertar a frota do Lorde Redwyne, e expulsar os homens de ferro dos Escudos. — As notícias que chegavam da Campina tornavam-se mais terríveis a cada corvo. Os homens de ferro não se tinham contentado com os seus novos rochedos, aparentemente. Estavam a assolar o Vago em força, e tinham chegado ao ponto de atacar a Árvore e as ilhas mais pequenas que a rodeavam. Os Redwyne não haviam mantido mais do que uma dúzia de navios de guerra nas suas águas, e todos tinham sido subjugados, capturados ou afundados. E agora havia relatórios que diziam que esse louco que chamava a si próprio Euron Olho de Corvo até estava a enviar navios para a Enseada dos Murmúrios, em direcção a Vilavelha.

— O Lorde Paxter estava a embarcar provisões para a viagem para casa quando o Doce Cersei zarpou — relatou o Lorde Waters. — Imagino que por esta altura a sua frota principal já se tenha feito ao mar.

— Esperemos que beneficiem de uma viagem rápida e de melhor tempo do que o de hoje. — A rainha puxou Waters para o banco de janela, a seu lado. — Temos este triunfo a agradecer a Sor Loras?

O sorriso dele desvaneceu-se.

— Alguns dirão que sim, Vossa Graça.

— Alguns? — A rainha deitou-lhe um olhar zombeteiro. — Vós não?

— Nunca vi cavaleiro mais bravo — disse Waters — mas ele transformou num massacre aquilo que podia ter sido uma vitória sem sangue. Mil homens estão mortos, ou tão perto disso que não faz diferença. A maior parte nossos. E não são só homens comuns, Vossa Graça, mas cavaleiros e jovens senhores, os melhores e os mais bravos.

— E o próprio Sor Loras?

— Completará mil e um. Levaram-no para o castelo após a batalha, mas os ferimentos são graves. Perdeu tanto sangue que os meistres nem sequer o sangram.

— Oh, que tristeza. Tommen ficará destroçado. Ele admirava tanto o nosso galante Cavaleiro das Flores.

— E o povo também — disse o seu almirante. — Teremos virgens a chorar para dentro do vinho por todo o reino quando Loras morrer.

A rainha sabia que ele não se enganava. Três mil pessoas comuns tinham-se reunido junto do Portão da Lama para se despedirem de Sor Loras no dia em que zarpara, e três em cada quatro eram mulheres. Ver aquilo só servira para a encher de desprezo. Desejara gritar-lhes que eram ovelhas, dizer-lhes que tudo o que alguma vez poderiam esperar de Loras Tyrell era um sorriso e uma flor. Mas em vez disso proclamara-o o mais ousado cavaleiro dos Sete Reinos e sorrira quando Tommen o presenteara com uma espada cravejada de jóias para levar para a batalha. O rei também lhe dera um abraço, o que não fazia parte dos planos de Cersei, mas agora não importava. Podia dar-se ao luxo de ser generosa. Loras Tyrell estava moribundo.

— Contai-me — ordenou Cersei. — Quero saber tudo, do princípio ao fim.

A sala já escurecera quando ele terminou. A rainha acendeu algumas velas e mandou Dorcas às cozinhas para lhes trazer um pouco de pão e queijo e de carne de vaca cozida com rábão. Enquanto jantavam, pediu a Aurane para voltar a contar-lhe a história, a fim de se lembrar correctamente de todos os detalhes.

— Afinal de contas, não desejo que a nossa preciosa Margaery ouça essas notícias de um estranho — disse. — Eu própria lhe contarei.

— Vossa Graça é bondosa — disse Waters com um sorriso. Um sorriso malévolo, pensou a rainha. Aurane não se parecia tanto com o Príncipe Rhaegar como ela julgara. Tem o cabelo, mas também o têm metade das rameiras de Lys, se as histórias forem verdadeiras. Rhaegar era um homem. Este é um rapaz manhoso, e nada mais. Útil à sua maneira, contudo.

Margaery estava na Arcada das Donzelas, beberricando vinho e tentando aprender com as três primas um novo jogo qualquer de Volantis. Embora a hora fosse tardia, os guardas admitiram Cersei de imediato.

— Vossa Graça — começou — é melhor que ouçais as notícias através de mim. Aurane regressou de Pedra do Dragão. O vosso irmão é um herói.

— Sempre soube que o era. — Margaery não parecia surpreendida. E porque haveria de estar? Já esperava isto desde o momento em que Loras suplicou o comando. Mas quando Cersei terminou a história, lágrimas cintilavam nas bochechas da rainha mais nova.

— Redwyne tinha mineiros a trabalhar a fim de fazer passar um túnel sob as muralhas do castelo, mas isso era lento demais para o Cavaleiro das Flores. Sem dúvida que pensava no povo do senhor vosso pai a sofrer nos Escudos. O Lorde Waters diz que ordenou o assalto menos de meio dia depois de tomar o comando, após o castelão do Lorde Stannis ter recusado a sua oferta para decidir o cerco entre os dois, em combate singular. Loras foi o primeiro a passar pela brecha quando o aríete quebrou os portões do castelo. Cavalgou directamente para a boca do dragão, dizem, todo de branco a brandir a maça de armas em volta da cabeça, matando à esquerda e à direita.

Megga Tyrell já soluçava abertamente por aquela altura.

— Como foi que ele morreu? — perguntou. — Quem o matou?

— Nenhum homem tem essa honra — disse Cersei. — Sor Loras foi atingido por um dardo na coxa e por outro no ombro, mas continuou a lutar galantemente, embora o sangue saísse em golfadas. Mais tarde sofreu um golpe de maça que lhe quebrou algumas costelas. Depois disso… mas não, desejo poupar-vos o pior.

— Dizei-me — disse Margaery. — Eu ordeno-o.

Ordenas? Cersei fez um momento de pausa, e decidiu que deixaria aquilo passar.

— Os defensores retiraram para uma fortaleza interior, depois da muralha exterior ser tomada. Loras também liderou aí o ataque. Levou um banho de azeite a ferver.

A Senhora Alla ficou branca como a cal e fugiu da sala.

— O Lorde Waters garante-me que os meistres estão a fazer tudo o que podem, mas temo que o vosso irmão esteja demasiado queimado. — Cersei tomou Margaery nos braços para a confortar. — Ele salvou o reino. — Quando beijou a pequena rainha no rosto sentiu o gosto do sal das suas lágrimas. — Jaime anotará todos os seus feitos no Livro Branco, e os cantores cantarão acerca dele durante mil anos.

Margaery soltou-se do seu abraço, com tal violência que Cersei quase caiu.

— Estar moribundo não é estar morto — disse.

— Não, mas os meistres dizem…

— Estar moribundo não é estar morto!

— Só quis poupar-vos…

— Eu sei o que quisestes. Saí.

Agora sabes como me senti na noite em que Joffrey morreu. Fez uma vénia, com o rosto numa máscara de fria cortesia.

— Querida filha. Sinto-me tão triste por vós. Vou deixar-vos com o vosso desgosto.

A Senhora Merryweather não apareceu naquela noite, e Cersei deu por si demasiado inquieta para dormir. Se o Lorde Tywin me pudesse ver agora, saberia que tinha o seu herdeiro, um herdeiro merecedor do Rochedo, pensou, deitada na cama, com Jocelyn Swyft a ressonar suavemente para a outra almofada. Margaery estaria em breve a chorar as lágrimas amargas que devia ter chorado por Joffrey. Mace Tyrell talvez também chorasse, mas não lhe dera motivo para romper com ela. O que fizera, afinal, além de honrar Loras com a sua confiança? Ele pedira o comando de joelhos dobrados à vista de metade da corte.

Quando ele morrer, tenho de erguer algures uma estátua sua, e dar-lhe um funeral como Porto Real nunca viu. O povo gostaria disso. Tommen também. Mace até pode agradecer-me, pobre homem. E quanto à senhora sua mãe, se os deuses forem bons esta notícia matá-la-á.

O nascer do Sol foi o mais bonito que Cersei vira em anos. Taena apareceu pouco depois, e confessou ter passado a noite a consolar Margaery e as suas senhoras, bebendo vinho, chorando e contando histórias sobre Loras.

— Margaery continua convencida de que ele não morrerá — relatou, enquanto a rainha se vestia para uma audiência. — Planeia enviar o seu meistre para cuidar dele. As primas estão a rezar pela misericórdia da Mãe.

— Eu também rezarei. Amanhã, vinde comigo ao Septo de Baelor, e acenderemos um cento de velas pelo nosso galante Cavaleiro das Flores. — Virou-se para a aia. — Dorcas, traz-me a coroa. A nova, por favor. — Era mais leve do que a antiga, de ouro tecido de um tom claro, encastoado de esmeraldas que relampejavam quando a rainha virava a cabeça.

— Vieram quatro por causa do Duende hoje de manhã — disse Sor Osmund, quando Jocelyn o deixou entrar.

— Quatro? — A rainha estava agradavelmente surpreendida. Tinha havido um fluxo constante de informadores a caminho da Fortaleza Vermelha, afirmando saber de Tyrion, mas quatro num só dia não era comum.

— Sim — disse Osmund. — Um deles trouxe-vos uma cabeça.

— Recebo-o primeiro. Trazei-o ao aposento privado. — Que desta vez não haja erros. Que eu me veja finalmente vingada, para que Joff possa repousar em paz. Os septões diziam que o número sete era sagrado para os deuses. Se assim fosse, esta sétima cabeça talvez lhe trouxesse o bálsamo pelo qual a sua alma ansiava.

O homem revelou ser tyroshi; baixo, entroncado e suado, com um sorriso untuoso que lhe fazia lembrar Varys e uma barba bifurcada pintada de verde e cor-de-rosa. Cersei não gostou dele assim que o viu, mas estava disposta a ignorar os seus defeitos se realmente tivesse a cabeça de Tyrion dentro da arca que trazia. Era de cedro, com embutidos de marfim num padrão de trepadeiras e flores, com dobradiças e presilhas de ouro branco. Uma coisa maravilhosa, mas o único interesse da rainha jazia no que poderia estar lá dentro. Pelo menos é suficientemente grande. Tyrion tinha uma cabeça grotescamente grande, para alguém tão pequeno e atrofiado.

— Vossa Graça — murmurou o tyroshi, com uma profunda vénia — vejo que sois tão adorável como rezam as histórias. Mesmo para lá do mar estreito ouvimos falar da vossa grande beleza, e do desgosto que dilacera o vosso coração gentil. Não há homem que vos possa devolver o vosso bravo e jovem filho, mas é minha esperança poder pelo menos oferecer-vos algum bálsamo para a dor. — Pousou a mão na arca. — Trago-vos justiça. Trago-vos a cabeça do vosso valonqar.

A velha palavra valiriana causou-lhe um arrepio, embora também lhe tivesse dado uma titilação de esperança.

— O Duende já não é meu irmão, se é que alguma vez o foi — declarou. — E não direi o seu nome. Em tempos foi um nome orgulhoso, antes de ele o desonrar.

— Em Tyrosh chamamos-lhe Mãos-Vermelhas, devido ao sangue que escorre dos seus dedos. O sangue de um rei, e o de um pai. Há quem diga que ele também matou a mãe, rasgando-lhe o ventre com selváticas garras ao nascer.

Que disparate, pensou Cersei.

— É verdade — disse. — Se a cabeça do Duende estiver nessa arca, farei de vós senhor e atribuir-vos-ei ricas terras e fortalezas. — Os títulos eram mais baratos do que pó, e as terras fluviais estavam cheias de castelos arruinados, que se erguiam desolados por entre campos por cuidar e aldeias incendiadas. — A minha corte espera-me. Abri a caixa e deixai-nos ver.

O tyroshi abriu a caixa com um floreado, e deu um passo para trás, sorrindo. Lá dentro, a cabeça de um anão repousava sobre uma camada de suave veludo azul, fitando-a.

Cersei examinou-a longamente.

— Esse não é o meu irmão. — Tinha um sabor amargo na boca. Suponho que seria esperar demasiado, especialmente depois de Loras. Os deuses nunca são tão bons. — Este homem tem olhos castanhos. Tyrion tinha um negro e um verde.

— Os olhos, é verdade… Vossa Graça, os olhos do vosso irmão tinham… apodrecido, de certa forma. Tomei a liberdade de os substituir por vidro… mas da cor errada, tal como dizeis.

Aquilo só a aborreceu mais.

— A tua cabeça pode ter olhos de vidro, mas eu não tenho. Há gárgulas em Pedra do Dragão mais parecidas com o Duende do que esta criatura. Ele é careca, e é duas vezes mais velho do que o meu irmão. O que lhe aconteceu aos dentes?

O homem encolheu-se perante a fúria na sua voz.

— Ele tinha um belo conjunto de dentes de ouro, Vossa Graça, mas nós… lamento…

— Oh, ainda não. Mas vais lamentar. — Devia mandar estrangulá-lo. Que arqueje por ar até ficar com a cara preta, como o meu querido filho. As palavras estavam-lhe nos lábios.

— Um engano honesto. Um anão parece-se tanto com os outros, e… Vossa Graça poderá observar, ele não tem nariz…

— Não tem nariz porque tu o cortaste.

— Não! — O suor na testa do homem traiu a mentira da negação.

— Sim. — Uma doçura venenosa insinuou-se no tom de Cersei. — Pelo menos tiveste esse bom senso. O último idiota tentou dizer-me que um feiticeiro ambulante tinha feito com que voltasse a crescer. Mesmo assim, parece-me que deves um nariz a este anão. A Casa Lannister paga as suas dívidas, e tu também pagarás. Sor Meryn, levai esta fraude a Qyburn.

Sor Meryn Trant pegou no braço do tyroshi e puxou-o para fora da sala, ainda a protestar. Depois dos outros saírem, Cersei virou-se para Osmund Kettleblack. — Sor Osmund, tirai esta coisa da minha vista, e mandai entrar os outros três que afirmam ter informações sobre o Duende.

— Sim, Vossa Graça.

Infelizmente, os três candidatos a informadores não se mostraram mais úteis do que o tyroshi. Um disse que o Duende estava escondido num bordel de Vilavelha, a dar prazer aos homens com a boca. Aquilo dava uma imagem engraçada, mas Cersei não acreditou nem por um instante. O segundo afirmava ter visto o anão num espectáculo de saltimbancos em Bravos. O terceiro insistiu que Tyrion se tornara eremita nas terras fluviais, e vivia numa qualquer colina assombrada. A rainha respondeu o mesmo a todos.

— Se fizerdes a bondade de levar alguns dos meus bravos cavaleiros a esse anão, sereis ricamente recompensados — prometeu. — Desde que seja o Duende. Se não for… bem, os meus cavaleiros têm pouca paciência para aldrabices e para tolos que os ponham a perseguir sombras. Um homem poderia perder a língua. — E de repente, os três informadores perderam as certezas, e concederam que talvez pudessem ter visto outro anão qualquer.

Cersei nunca se apercebera da existência de tantos anões.

— Estará o mundo inteiro a transbordar desses monstrinhos retorcidos? — protestou, enquanto o último dos informadores era conduzido para fora. — Quantos poderá haver?

— Menos do que havia — disse a Senhora Merryweather. — Posso ter a honra de acompanhar Vossa Graça à audiência?

— Se conseguirdes suportar o tédio — disse Cersei. — Robert era um palerma acerca da maior parte das coisas, mas tinha razão num aspecto. Governar um reino é trabalho cansativo.

— Entristece-me ver Vossa Graça tão cheia de cuidados. Fugi, brincai e deixai estas cansativas petições para a Mão do Rei. Podíamos vestir-nos como criadas e passar o dia entre o povo, para ouvir o que eles têm a dizer sobre a queda de Pedra do Dragão. Eu conheço a estalagem onde o Bardo Azul toca quando não está a cantar para a pequena rainha, e uma certa cave onde um prestidigitador transforma chumbo em ouro, água em vinho e raparigas em rapazes. Ele talvez pudesse aplicar-nos os seus feitiços. Não divertiria Vossa Graça ser um homem por uma noite?

Se eu fosse um homem, seria Jaime, pensou a rainha. Se fosse um homem, podia governar este reino em meu próprio nome em vez de no de Tommen.

— Só se vós permanecêsseis mulher — disse, sabendo que era isso o que Taena queria ouvir. — Sois uma malvada por me tentar assim, mas que tipo de rainha seria eu se pusesse o meu reino nas mãos trémulas de Harys Swyft?

Taena fez beicinho.

— Vossa Graça é demasiado diligente.

— Pois sou — concedeu Cersei — e antes de terminar o dia, estarei arrependida de o ser. — Deu o braço à Senhora Merryweather. — Vinde.

Jalabhar Xho era o primeiro peticionário desse dia, como era próprio do seu estatuto como um príncipe no exílio. Por magnífico que parecesse no seu brilhante manto de penas, só tinha vindo mendigar. Cersei deixou-o fazer a sua súplica habitual por homens e armas que o ajudassem a reconquistar o Vale da Flor Vermelha, e depois disse:

— Sua Graça está a travar a sua própria guerra, Príncipe Jalabhar. Ele não tem homens que possa dispensar para a vossa neste momento. Talvez para o ano. — Aquilo era o que Robert lhe dizia sempre. No ano seguinte dir-lhe-ia nunca, mas hoje não. Pedra do Dragão era sua.

O Lorde Hallyne da Guilda dos Alquimistas apresentou-se para pedir autorização para os seus piromantes chocarem qualquer ovo de dragão que pudesse aparecer em Pedra do Dragão, agora que a ilha estava segura e de volta às mãos do rei.

— Se tivessem restado alguns ovos desses, Stannis tê-los-ia vendido para pagar pela sua rebelião — disse-lhe a rainha. Absteve-se de dizer que o plano era louco. Desde que o último dragão Targaryen morrera, todas as tentativas do género tinham terminado em morte, desastre ou desgraça.

Um grupo de mercadores surgiu perante ela a fim de suplicar à coroa para interceder por eles junto do Banco de Ferro de Bravos. Os bravosianos andavam a exigir o pagamento das dívidas por saldar, pelos vistos, e recusavam todos os novos empréstimos. Precisamos do nosso próprio banco, decidiu Cersei, o Banco Dourado de Lanisporto. Quando o trono de Tommen estivesse seguro, talvez pudesse fazer com que isso acontecesse. De momento, tudo o que pôde fazer foi dizer aos mercadores para pagarem aos usurários bravosianos aquilo que lhes era devido.

A delegação da Fé era liderada pelo seu velho amigo, o Septão Raynard. Seis dos Filhos do Guerreiro escoltaram-no pela cidade; juntos faziam sete, um número sagrado e favorável. O novo Alto Septão — ou Alto Pardal, como o Rapaz Lua o apelidara — fazia tudo em grupos de sete. Os cavaleiros usavam cinturões listados com as sete cores da Fé. Cristais adornavam os punhos das suas espadas e os espigões dos seus elmos. Transportavam escudos em forma de estrela, num estilo que não era comum desde a Conquista, ostentando um símbolo que não era visto nos Sete Reinos há séculos: uma espada arco-íris a cintilar, brilhante, em fundo de escuridão. Perto de uma centena de cavaleiros já se apresentara para ajuramentar as suas vidas e espadas aos Filhos do Guerreiro, segundo Qyburn dizia, e apareciam mais todos os dias. Bêbados de deuses, todos eles. Quem haveria de pensar que o reino continha tantos?

A maior parte tinham sido cavaleiros domésticos ou andantes, mas uma mão cheia era de elevado nascimento; filhos mais novos, pequenos senhores, velhos que ansiavam pela expiação de antigos pecados. E depois havia Lancel. Julgara que Qyburn devia estar a brincar quando lhe dissera que o cretino do seu primo renunciara a castelo, terras e esposa e voltara à cidade para se juntar à Nobre e Poderosa Ordem dos Filhos do Guerreiro, mas ali estava ele com os outros piedosos palermas.

Cersei não gostava nada daquilo. E tampouco estava contente com a contínua truculência e ingratidão do Alto Pardal.

— Onde está o Alto Septão? — perguntou a Raynard. — Foi a ele que convoquei.

O Septão Raynard adoptou um tom pesaroso.

— Sua Alta Santidade mandou-me em seu lugar, e pediu-me para dizer a Vossa Graça que os Sete lhe ordenaram que fosse combater a maldade.

— Como? Pregando a castidade ao longo da Rua da Seda? Será que ele julga que rezar por prostitutas faz delas de novo virgens?

— Os nossos corpos foram esculpidos pelos nossos Pai e Mãe para podermos juntar homem com mulher e gerar filhos legítimos — respondeu Raynard. — É vil e pecaminoso que as mulheres vendam as partes sagradas por dinheiro.

Aquele piedoso sentimento poderia ter sido mais convincente se a rainha não soubesse que o Septão Raynard tinha amigas especiais em todos os bordéis da Rua da Seda. Não havia dúvida de que ele decidira que fazer de eco aos chilreios do Alto Pardal era preferível a lavar soalhos.

— Não vos atrevais a pregar comigo — disse-lhe. — Os encarregados dos bordéis têm andado a queixar-se, e com razão.

— Se os pecadores falam, porque hão-de os justos de lhes dar ouvidos?

— Esses pecadores alimentam os cofres reais — disse a rainha sem rodeios — e os seus dinheiros ajudam a pagar os salários dos meus homens de mantos dourados e a construir galés para defender as nossas costas. E também há o comércio a ter em conta. Se Porto Real não tivesse bordéis, os navios iriam para Valdocaso ou Vila Gaivota. Sua Alta Santidade prometeu-me paz nas minhas ruas. A prostituição ajuda a manter essa paz. Os homens comuns privados de prostitutas são capazes de se virar para a violação. Daqui em diante, que Sua Alta Santidade faça as suas orações no septo, onde é o seu lugar.

A rainha esperara ouvir também notícias trazidas pelo Lorde Gyles, mas foi o Grande Meistre Pycelle quem surgiu no seu lugar, de rosto cinzento e apologético, para lhe dizer que Rosby se encontrava demasiado fraco para sair da cama.

— É triste dizê-lo, mas temo que o Lorde Gyles tenha de se reunir em breve aos seus nobres antepassados. Que o Pai o julgue com justiça.

Se Rosby morrer, Mace Tyrell e a pequena rainha irão de novo tentar forçar-me a aceitar Garth, o Grosso.

— O Lorde Gyles já tem aquela tosse há anos, e ela nunca o matou — protestou. — Ele levou a tossir durante metade do reinado de Robert e durante todo o de Joffrey. Se está agora moribundo, só pode ser porque alguém o quer ver morto.

O Grande Meistre Pycelle pestanejou, incrédulo.

— Vossa Graça? Q-quem quereria ver o Lorde Gyles morto?

— O seu herdeiro, talvez. — Ou a pequena rainha. — Alguma mulher que ele tenha desdenhado em tempos. — Margaery, Mace e a Rainha dos Espinhos, porque não? Gyles está no seu caminho. — Um velho inimigo. Um novo. Vós.

O velho empalideceu.

— V-vossa graça graceja. Eu… eu purguei sua senhoria, sangrei-o, tratei-o com cataplasmas e infusões… os vapores dão-lhe algum alívio e o sono doce ajuda a acalmar a violência da sua tosse, mas temo ele esteja agora a cuspir bocados de pulmão com o sangue.

— Seja como for. Regressareis para junto do Lorde Gyles e informá-lo-eis de que não tem a minha autorização para morrer.

— Se aprouver a Vossa Graça. — Pycelle fez uma vénia rígida.

Havia mais, e mais, e mais, cada peticionário mais aborrecido do que o último. E naquela noite, depois de o último finalmente ter partido, quando estava a comer um jantar simples com o filho, disse-lhe:

— Tommen, quando fizeres as tuas rezas antes de te deitares, diz à Mãe e ao Pai que estás grato por seres ainda uma criança. Ser rei é trabalho duro. Garanto-te, não gostarás. Dão-te bicadas como um bando de corvos. Todos querem um bocado da tua carne.

— Sim, mãe — disse Tommen num tom triste. Cersei compreendeu que a pequena rainha lhe contara o que acontecera a Sor Loras. Sor Osmund dizia que o rapaz chorara. Ele é novo. Quando for da idade de Joff, já não se lembrará do aspecto de Loras. — Mas eu não me importava que eles bicassem — prosseguiu o filho. — Devia ir convosco todos os dias às audiên- cias, para escutar. Margaery diz…

— … muito mais do que devia — cortou Cersei. — Por meio dinheiro, de bom grado mandaria arrancar-lhe a língua.

— Não digais isso — gritou Tommen de repente, com a pequena face redonda a tornar-se vermelha. — Deixai-lhe a língua em paz. Não lhe toqueis. Eu é que sou o rei, não sois vós.

Cersei fitou-o, incrédula.

— O que foi que disseste?

— O rei sou eu. Eu é que digo que línguas são arrancadas, não vós. Não vos deixarei fazer mal a Margaery. Não deixarei. Proíbo-o.

Cersei agarrou-o pela orelha e arrastou-o aos guinchos para a porta, onde se encontrava de guarda Sor Boros Blount.

— Sor Boros, Sua Graça esqueceu-se do seu lugar. Tende a bondade de o escoltar até ao quarto e de trazer Pate. Desta vez quero que seja o próprio Tommen a chicotear o rapaz. Deverá continuar até que o rapaz sangre de ambas as bochechas. Se Sua Graça recusar, ou disser uma palavra de protesto, chamai Qyburn e dizei-lhe para remover a língua de Pate, para que Sua Graça compreenda o custo da insolência.

— Às vossas ordens — arquejou Sor Boros, olhando o rei de relance e com constrangimento. — Vossa Graça, vinde comigo, por favor.

Quando a noite caiu sobre a Fortaleza Vermelha, Jocelyn acendeu a lareira no quarto da rainha enquanto Dorcas acendia as velas junto da cama. Cersei abriu a janela para apanhar um pouco de ar, e descobriu que as nuvens tinham voltado a esconder as estrelas.

— Que noite tão escura, Vossa Graça — murmurou Dorcas.

Sim, pensou, mas não tão escura como na Arcada das Donzelas, ou em Pedra do Dragão, onde Loras Tyrell jaz queimado e a sangrar, ou lá em baixo, nas celas negras sob o castelo. A rainha não sabia por que motivo aquilo lhe ocorrera. Tinha decidido não dedicar a Falyse mais nenhum pensamento. Combate singular. Falyse devia ter tido o bom senso de não casar com um tal idiota. Segundo o que transpirara de Stokeworth, a Senhora Tanda morrera de um resfriado no peito, causado pela anca partida. Lollys Desmiolada fora proclamada Senhora Stokeworth, sendo Sor Bronn o seu senhor. Tanda morta e Gyles moribundo. Ainda bem que temos o Rapaz Lua, caso contrário a corte ficaria completamente privada de bobos. A rainha sorriu ao pousar a cabeça na almofada. Quando lhe beijei o rosto, saboreei o sal das suas lágrimas.

Sonhou um sonho antigo, sobre três raparigas com mantos castanhos, uma velha encarquilhada, e uma tenda que cheirava a morte.

A tenda da velha era escura, com um tecto alto e bicudo. Ela não queria entrar, tal como não quisera aos dez anos, mas as outras raparigas estavam a observá-la, portanto não podia recuar. No sonho eram três, tal como tinham sido em vida. A gorda Jeyne Farman deixou-se ficar para trás, como sempre fazia. Era um assombro que tivesse chegado tão longe. Melara Hetherspoon era mais corajosa, mais velha e mais bonita, à sua maneira sardenta. Envoltas em mantos de tecido grosseiro, com os capuzes erguidos, as três tinham-se esgueirado para fora das camas e atravessado o terreno de torneios, para ir em busca da feiticeira. Melara ouvira as criadas a segredar que ela era capaz de amaldiçoar um homem ou fazê-lo apaixonar-se, conjurar demónios e prever o futuro.

Em vida, as raparigas tinham estado sem fôlego e entontecidas, segredando umas com as outras enquanto avançavam, com tanta excitação como medo. O sonho era diferente. No sonho, os pavilhões encontravam-se cobertos de sombras e os cavaleiros e criados por que passavam eram feitos de neblina. As raparigas vaguearam por muito tempo antes de encontrarem a tenda da velha. Quando o fizeram, já todos os archotes se estavam a apagar. Cersei observou as raparigas a juntar-se, sussurrando umas com as outras. Voltai para trás, tentou dizer-lhes. Afastai-vos. Não há aqui nada para vós. Mas embora movesse a boca nenhuma palavra saiu.

A filha do Lorde Tywin foi a primeira a atravessar a aba, com Melara logo atrás. Jeyne Farman entrou por último e tentou esconder-se atrás das outras duas, como sempre fazia.

O interior da tenda estava cheio de cheiros. Canela e noz-moscada. Pimenta, vermelha, branca e preta. Leite de amêndoa e cebolas. Cravinho, erva-limão e o precioso açafrão, e especiarias mais estranhas, ainda mais raras. A única luz provinha de um braseiro de ferro com a forma de uma cabeça de basilisco, uma ténue luz verde que fazia as paredes da tenda parecer frias, mortas e apodrecidas. Teria também sido assim em vida? Cersei não parecia recordar-se.

A feiticeira dormia no sonho, como um dia dormira em vida. Deixai-a em paz, quis gritar a rainha. Suas patetinhas, nunca acordai uma feiticeira adormecida. Sem língua, só podia observar enquanto a rapariga tirava o manto, dava um pontapé na cama da bruxa e dizia:

— Acorda, queremos a sina lida.

Quando Maggy, a Rã, abriu os olhos, Jeyne Farman soltou um guincho assustado e fugiu da tenda, mergulhando de cabeça na noite. Estúpida, rechonchuda, tímida, pequena Jeyne, de rosto pálido e gordo, assustada com cada sombra. Foi ela a sensata, contudo. Jeyne ainda vivia na Ilha Bela. Casara com um dos vassalos do senhor seu irmão e parira uma dúzia de filhos.

Os olhos da velha eram amarelos, e estavam rodeados por uma crosta de qualquer coisa nojenta. Em Lanisporto dizia-se que ela era jovem e bela quando o marido a trouxera do leste com uma carga de especiarias, mas a idade e o mal tinham deixado em si as suas marcas. Era baixa, atarracada e verrugosa, com bochechas esverdeadas com uma textura de gravilha. Já não tinha dentes e as tetas pendiam-lhe até aos joelhos. Se se ficasse perto demais dela, conseguia-se cheirar a doença, e quando falava o hálito era estranho, forte e malcheiroso.

— Fora — disse a velha às raparigas, num murmúrio coaxante.

— Viemos para uma profecia — disse-lhe a jovem Cersei.

— Fora — coaxou a velha, pela segunda vez.

— Ouvimos dizer que vós conseguíeis ver o amanhã — disse Melara. — Só queremos saber com que homens vamos casar.

— Fora — coaxou Maggy, pela terceira vez.

Dai-lhe ouvidos, teria gritado a rainha se tivesse língua. Ainda tendes tempo para fugir. Fugi, suas palerminhas!

A rapariga dos caracóis dourados pôs as mãos nas ancas.

— Dá-nos a nossa profecia, senão vou falar com o senhor meu pai e ele manda-te chicotear por insolência.

— Por favor — suplicou Melara. — Lede-nos o futuro, e depois vamos embora.

— Alguns dos que aqui estão não têm futuro — resmungou Maggy com a sua terrível voz profunda. Aconchegou o roupão em volta dos ombros e fez um sinal às raparigas para que se aproximassem. — Vinde, se não quereis ir. Tolas. Vinde, sim. Tenho de saborear o vosso sangue.

Melara empalideceu, mas Cersei não. Uma leoa não teme uma rã, por mais velha e feia que seja. Devia ter-se ido embora, devia ter escutado, devia ter fugido. Mas em vez disso pegou no punhal que Maggy lhe ofereceu, e fez passar a retorcida lâmina de ferro pela ponta do seu polegar. Então tratou também de Melara.

Na tenda verde e escura, o sangue parecia mais negro do que vermelho. A boca desdentada de Melara tremeu ao vê-lo.

— Cá — sussurrou — dai-o cá. — Quando Cersei ofereceu a mão, ela sugou o sangue com gengivas tão moles como as de um bebé recém-nascido. A rainha ainda se lembrava de como a sua boca era estranha e fria.

— Podeis fazer três perguntas — disse a velha, depois de beber a sua bebida. — Não ireis gostar das minhas respostas. Perguntai, senão fora convosco.

Vai, pensou a rainha que sonhava, controla a língua, e foge. Mas a rapariga não tinha suficiente bom senso para sentir medo.

— Quando é que eu me caso com o príncipe? — perguntou.

— Nunca. Casareis com o rei.

Sob os seus caracóis dourados, o rosto da rapariga enrugou-se de perplexidade. Durante anos, depois daquilo, pensou que aquelas palavras queriam dizer que não casaria com Rhaegar até depois do pai, Aerys, ter morrido.

— Mas vou ser rainha? — perguntou o seu eu mais novo.

— Sim. — A malícia cintilou nos olhos amarelos de Maggy. — Rainha sereis… até chegar outra, mais nova e mais bela, para vos derrubar e roubar tudo aquilo que vos for querido.

A ira relampejou na cara da criança.

— Se ela tentar, mando o meu irmão matá-la. — Nem mesmo então parou, sendo como era uma criança obstinada. Ainda lhe era devida mais uma pergunta, mais um vislumbre da vida que a esperava. — O rei e eu teremos filhos? — perguntou.

— Oh, sim. Ele dezasseis, e vós três.

Aquilo não fazia sentido para Cersei. O polegar latejava onde o cortara, e o seu sangue pingava no tapete. Como pode isso ser?, quis perguntar, mas já não tinha mais perguntas.

Porém, a velha ainda não terminara com ela.

— De ouro serão as suas coroas e de ouro as suas mortalhas — disse. — E quando as vossas lágrimas vos afogarem, o valonqar enrolará as mãos na vossa pálida garganta branca e estrangular-vos-á até vos roubar a vida.

— O que é um valonqar? Algum monstro? — A rapariga dourada não gostava daquela profecia. — És uma mentirosa e uma rã verrugosa e uma velha selvagem malcheirosa, e eu não acredito numa palavra que tu dizes. Vem embora, Melara. Não vale a pena ouvi-la.

— Eu também tenho três perguntas — insistiu a amiga. E quando Cersei lhe puxou o braço, ela libertou-se e voltou-se outra vez para a velha. — Vou casar-me com o Jaime? — perguntou muito depressa.

Sua rapariga estúpida, pensou a rainha, ainda hoje zangada. Jaime nem sequer sabe que estás viva. Nessa época, o irmão vivia apenas para as espadas, os cães e os cavalos… e para ela, a sua gémea.

— Nem Jaime, nem nenhum outro homem — disse Maggy. — Serão os vermes a ficar com a vossa virgindade. A vossa morte está hoje aqui, pequena. Sentis o cheiro do seu hálito? Está muito perto.

— O único hálito que cheiramos é o teu — disse Cersei. Havia um boião de uma poção grossa qualquer junto ao seu cotovelo, pousado numa mesa. Pegou nele e atirou-o aos olhos da velha. Em vida, esta gritara-lhes numa estranha língua estrangeira qualquer, e amaldiçoara-as quando fugiram da sua tenda. Mas no sonho, o seu rosto dissolveu-se, derretendo-se em fitas de névoa cinzenta até que tudo o que restou foram dois olhos vesgos e amarelos, os olhos da morte.

O valonqar enrolará as mãos na vossa garganta, ouviu a rainha, mas a voz não pertencia à velha. As mãos emergiram das névoas do seu sonho, e envolveram-lhe o pescoço; mãos grossas, e fortes. Por cima delas flutuava a cara dele, olhando-a de esguelha com os seus olhos desiguais. Não, tentou gritar a rainha, mas os dedos do anão enterraram-se-lhe profundamente no pescoço, afogando os seus protestos. Esperneou e esganiçou-se, sem resultado. Não levou muito tempo a começar a fazer o mesmo som que o filho fizera, o terrível som agudo de sugar que assinalara a última inspiração de Joff nesta terra.

Acordou a arquejar no escuro, com a manta enrolada em volta do pescoço. Cersei puxou-a com tal violência que a rasgou, e sentou-se na cama, com os seios a oscilar. Um sonho, disse a si própria, um sonho antigo e uma colcha presa, não passou disso.

Taena estava de novo a passar a noite com a pequena rainha, de modo que era Dorcas quem dormia a seu lado. A rainha sacudiu rudemente a rapariga pelo ombro.

— Acorda, e vai buscar Pycelle. Ele deve estar com o Lorde Gyles, espero eu. Trá-lo cá imediatamente. — Ainda meio a dormir, Dorcas saiu aos tropeções da cama e correu pelo aposento em busca das suas roupas, fazendo restolhar os pés nus nas esteiras.

Séculos mais tarde, o Grande Meistre Pycelle entrou a arrastar os pés, e parou na sua frente com a cabeça baixa, pestanejando os seus olhos de grossas pálpebras e lutando para não bocejar. Parecia que o peso da enorme corrente de meistre em volta do caniço do seu pescoço o arrastava para o chão. Que Cersei se lembrasse, Pycelle sempre fora velho, mas tinha havido uma época em que também era magnífico: ricamente vestido, digno, impecavelmente cortês. A sua imensa barba branca dava-lhe um ar de sabedoria. Mas Tyrion rapara-lhe a barba, e aquilo que voltara a crescer era digno de dó, uns tufos irregulares de pêlos finos e quebradiços que pouco faziam para esconder a pele solta e cor-de-rosa que tinha sob o queixo pendente. Isto não é um homem, pensou Cersei, são só as ruínas de um homem. As celas negras roubaram-lhe todas as forças que pudesse ter possuído. Isso e a navalha do Duende.

— Quantos anos tendes? — perguntou abruptamente Cersei.

— Oitenta e quatro, se aprouver a Vossa Graça.

— Um homem mais novo aprazer-me-ia mais.

A língua de Pycelle surgiu momentaneamente entre os seus lábios.

— Não tinha mais que quarenta e dois quando o Conclave me chamou. Kaeth tinha oitenta quando o escolheram, e Ellendor estava próximo dos noventa. As preocupações do cargo esmagaram-nos, e ambos estavam mortos menos de um ano após terem sido nomeados. Merion sucedeu-lhes, só com sessenta e seis, mas morreu de um resfriado a caminho de Porto Real. Depois disso, o Rei Aegon pediu à Cidadela para mandar um homem mais novo. Foi o primeiro rei que eu servi.

E Tommen será o último.

— Preciso que me forneçais uma poção. Algo que me ajude a dormir.

— Uma taça de vinho antes de deitar freq…

— Eu bebo vinho, seu cretino desmiolado. Quero qualquer coisa mais forte. Qualquer coisa que não me deixe sonhar.

— Vós… Vossa Graça não deseja sonhar?

— O que foi que acabei de dizer? Ter-se-ão os vossos ouvidos tornado tão fracos como a vossa picha? Sois capaz de me fazer uma poção assim, ou terei de ordenar ao Lorde Qyburn para rectificar mais um dos vossos falhanços?

— Não. Não há necessidade de envolver esse… de envolver Qyburn. Sono sem sonhos. Tereis a vossa poção.

— Óptimo. Podeis ir. — Mas quando ele se virou para a porta, a rainha chamou-o de volta. — Mais uma coisa. O que ensina a Cidadela a respeito de profecias? Os nossos amanhãs podem ser preditos?

O velho hesitou. Uma mão enrugada tacteou cegamente o peito, como que tentando afagar a barba que não estava lá.

— Os nossos amanhãs podem ser preditos? — repetiu lentamente. — Talvez. Há certos feitiços nos livros antigos… mas Vossa Graça devia perguntar era se “Os nossos amanhãs devem ser preditos” E a isso eu devia responder: “Não.” Há portas que é melhor manter fechadas.

— Assegurai-vos de fechar a minha quando sairdes. — Devia saber de antemão que o homem lhe daria uma resposta tão inútil como ele próprio.

Na manhã seguinte quebrou o jejum com Tommen. O rapaz parecia muito subjugado; dar o tratamento a Pate servira o seu objectivo, segundo parecia. Comeram ovos fritos, pão frito, bacon e umas laranjas de sangue acabadas de chegar por navio de Dorne. O filho estava rodeado pelos seus gatinhos. Ao observar os gatos a brincar em volta dos pés dele, Cersei sentiu-se um pouco melhor. Nada de mal acontecerá a Tommen enquanto eu continuar viva. Mataria metade dos lordes de Westeros e todos os plebeus, se fosse esse o preço de o manter a salvo.

— Vai com Jocelyn — disse ao rapaz depois de comerem.

Então mandou buscar Qyburn.

— A Senhora Falyse ainda está viva?

— Viva, sim. Talvez não inteiramente… confortável.

— Estou a ver. — Cersei reflectiu por um momento. — Este homem, Bronn… não posso afirmar que gosto da ideia de ter um inimigo tão próximo. Todo o seu poder deriva de Lollys. Se apresentássemos a irmã mais velha…

— É pena — disse Qyburn. — Temo que a Senhora Falyse já não esteja capaz de governar Stokeworth. Ou, na verdade, de se alimentar sozinha. Aprendi bastante com ela, agrada-me dizer, mas as lições não surgiram inteiramente livres de custos. Espero não ter excedido as instruções de Vossa Graça.

— Não. — Quaisquer que fossem as suas intenções, agora era tarde demais. Não fazia sentido remoer em coisas daquelas. É melhor que ela morra, disse a si própria. Não quereria continuar a viver sem o marido. Apesar de ser o imbecil que era, a tola parecia gostar dele. — Há outro assunto. Na noite passada tive um sonho terrível.

— Toda a gente é assim afligida, de vez em quando.

— Este sonho dizia respeito a uma bruxa que eu visitei em criança.

— Uma bruxa da floresta? A maioria são criaturas inofensivas. Sabem um pouco de ervas e algo sobre partos, mas para além disso…

— Ela era mais do que isso. Metade de Lanisporto ia ter com ela em busca de encantos e poções. Era mãe de um pequeno senhor, um mercador rico a quem foi dado um título pelo meu avô. O pai deste senhor encontrara-a enquanto fazia negócios no leste. Havia quem dissesse que ela o tinha enfeitiçado, embora seja mais provável que o único feitiço necessário tenha sido aquele que tinha entre as pernas. Nem sempre foi hedionda, ou pelo menos é o que dizem. Não me lembro do nome da mulher. Qualquer coisa comprida, oriental e exótica. O povo chamava-lhe Maggy.

— Maegi?

— É assim que vós pronunciais? A mulher sugava-nos uma gota de sangue do dedo e dizia o que o futuro nos traria.

— A magia de sangue é a espécie mais negra de feitiçaria. Há quem diga que também é a mais poderosa.

Cersei não queria ouvir aquilo.

— Esta maegi fez certas profecias. A princípio ri-me delas, mas… ela predisse a morte de uma das minhas aias. Na altura em que fez a profecia, a rapariga tinha onze anos, era saudável como um cavalinho e vivia a salvo no interior do Rochedo. Mas pouco depois caiu a um poço e afogou-se. — Melara suplicara-lhe que nunca falasse daquilo que tinham ouvido naquela noite na tenda da maegi. Se nunca falarmos sobre aquilo, depressa esqueceremos, e então será como termos tido um pesadelo, dissera Melara. Os pesadelos nunca se tornam reais. Ambas eram tão novas, que aquilo soara quase sensato.

— Ainda sofreis por essa amiga de infância? — perguntou Qyburn. — É isso o que vos perturba, Vossa Graça?

— Melara? Não. Quase nem consigo lembrar-me da sua cara. É só que… a maegi sabia quantos filhos eu teria, e sabia dos bastardos de Robert. Anos antes de ele gerar sequer o primeiro, ela sabia. Garantiu-me que eu seria rainha, mas disse que outra rainha chegaria… — Mais nova e mais bela, disse ela. — … outra rainha, que me roubaria tudo aquilo que eu amo.

— E desejais antecipar-vos a essa profecia?

Mais do que qualquer outra coisa, pensou.

— Posso antecipar-me a ela?

— Oh, sim. Nunca duvideis de tal coisa.

— Como?

— Penso que Vossa Graça sabe como.

E sabia. Sempre o soube, pensou. Mesmo na tenda. “Se ela tentar, mando o meu irmão matá-la.”

Mas saber o que era preciso fazer era uma coisa; saber como fazê-lo outra bem diferente. Já não podia ter confiança em Jaime. Uma doença súbita seria o melhor, mas os deuses raramente se mostravam tão prestáveis. Então como? Uma faca, uma almofada, uma taça de veneno do coração? Todas essas opções colocavam problemas. Quando um velho morria durante o sono ninguém pensava duas vezes no assunto, mas uma rapariga de dezasseis anos encontrada morta na cama iria de certeza levantar questões incómodas. Além do mais, Margaery nunca dormia só. Mesmo com Sor Loras moribundo, havia espadas em seu redor de dia e de noite.

As espadas têm dois gumes, porém. Os próprios homens que a guardam podiam ser usados para a derrubar. As provas teriam de ser tão esmagadoras que nem mesmo o senhor pai de Margaery tivesse alternativa a dar consentimento à sua execução. Isso não seria fácil. Não é provável que os seus amantes confessem, sabendo que isso custaria tanto as suas cabeças como a dela. A menos que…

No dia seguinte a rainha encontrou Osmund Kettleblack no pátio, à espadeirada com um dos gémeos Redwyne. Qual, não saberia dizer; nunca fora capaz de os distinguir um do outro. Observou o combate durante algum tempo, e então chamou Sor Osmund de parte.

— Acompanhai-me por um pouco — disse — e dizei-me a verdade. Agora não quero fanfarronadas vazias, nada de conversas sobre como um Kettleblack é três vezes melhor do que qualquer outro cavaleiro. Muito pode depender da vossa resposta. O vosso irmão Osney. Qual é a sua qualidade enquanto espadachim?

— É bom. Já o vistes. Não é tão forte como eu ou como Osfryd, mas é rápido na matança.

— Se se chegasse a esse ponto, seria ele capaz de derrotar Sor Boros Blount?

— Boros, a Barriga? — Sor Osmund riu alto. — Ele tem o quê? Quarenta anos? Cinquenta? Passa metade do tempo meio bêbado, e é gordo mesmo quando está sóbrio. Se alguma vez teve gosto pela batalha, perdeu-o. Sim, Vossa Graça, se Sor Boros quiser ser morto, Osney pode tratar disso com bastante facilidade. Porquê? Boros cometeu alguma traição?

— Não — disse ela. Mas Osney cometeu.

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