O Mar de Ferro

George R. R. Martin · Capítulo 11 de 43

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O Mar de Ferro

Brienne

 

E ncontraram o primeiro cadáver a uma milha do entroncamento. Baloiçava sob o ramo de uma árvore morta cujo tronco enegrecido ainda ostentava as marcas do relâmpago que a matara. As gralhas pretas tinham-lhe trabalhado a cara, e os lobos haviam-se banqueteado com a parte de baixo das pernas, onde pendiam perto do solo. Só restavam ossos e trapos abaixo dos joelhos… e um sapato muito roído, semi-coberto de lama e bolor.

— O que é que ele tem na boca? — perguntou Podrick.

Brienne teve de se empedernir para olhar. A cara do cadáver estava cinzenta, verde e horrenda, a boca aberta e distendida. Alguém enfiara uma pedra branca e irregular entre os seus dentes. Uma pedra, ou…

— Sal — disse o Septão Meribald.

Cinquenta metros mais adiante viram o segundo corpo. Os necrófagos tinham-no puxado para baixo, de modo que o que dele restava encontrava-se espalhado no chão sob uma corda velha enrolada em volta do ramo de um ulmeiro. Brienne podia ter passado por ele, sem o notar, se Cão não o tivesse farejado e saltado para as ervas daninhas, para cheirar mais de perto.

— Que tens tu aí, Cão? — Sor Hyle desmontou, apressou-se a seguir o cão, e deparou com um meio-elmo. O crânio do morto ainda se encontrava lá dentro, acompanhado de algumas larvas e escaravelhos. — Bom aço — anunciou — e não está muito amolgado, embora o leão tenha perdido a cabeça. Pod, queres um elmo?

— Esse não. Tem vermes lá dentro.

— Os vermes lavam-se, rapaz. És enjoado como uma menina.

Brienne franziu-lhe o sobrolho.

— É grande demais para ele.

— Ele há-de crescer.

— Mas não quero — disse Podrick. Sor Hyle encolheu os ombros, e atirou o elmo partido para a floresta, com leão e tudo. Cão ladrou e foi erguer a perna contra a árvore.

Depois daquilo dificilmente avançavam cem metros sem encontrar um cadáver. Pendiam sob freixos e amieiros, faias e vidoeiros, lariços e ulmeiros, velhos salgueiros embranquecidos e faustosos castanheiros. Cada homem tinha um laço em volta do pescoço, e pendia de uma corda de cânhamo, e as bocas de todos eles estavam cheias de sal. Alguns usavam mantos cinzentos, azuis ou carmesins, embora a chuva e o sol os tivessem desbotado tanto que era difícil distinguir as cores umas das outras. Outros tinham símbolos cosidos ao peito. Brienne viu machados, setas, vários salmões, um pinheiro, uma folha de carvalho, escaravelhos, pequenos galos, uma cabeça de javali, meia dúzia de tridentes. Homens quebrados, compreendeu, a escória de uma dúzia de exércitos, os restos dos lordes.

Alguns dos mortos tinham sido calvos, e outros barbudos, alguns novos e outros velhos, alguns baixos, alguns altos, alguns gordos, alguns magros. Inchados na morte, com caras roídas e apodrecidas, todos se assemelhavam. Na árvore da forca, todos os homens são irmãos. Brienne lera aquilo num livro, embora não se conseguisse recordar de qual.

Foi Hyle Hunt quem finalmente pôs em palavras o que todos tinham compreendido.

— Foram estes os homens que saquearam Salinas.

— Que o Pai os julgue com dureza — disse Meribald, que fora amigo do idoso septão da vila.

Quem eles eram estava longe de interessar tanto a Brienne como quem os enforcara. O laço era o método de execução preferido de Beric Dondarrion e do seu bando de foras-da-lei, dizia-se. Se assim fosse, o dito senhor do relâmpago poderia perfeitamente encontrar-se por perto.

Cão ladrou, e o Septão Meribald olhou em volta e franziu o sobrolho.

— Vamos mais depressa? O sol pôr-se-á em breve, e cadáveres fazem má companhia à noite. Estes homens, vivos, eram negros e perigosos. Duvido que a morte os tenha melhorado.

— Aí discordamos — disse Sor Hyle. — Isto é precisamente o tipo de rapazes que mais é aperfeiçoado pela morte. — Mas mesmo assim, esporeou o cavalo, e todos eles aumentaram um pouco a velocidade.

Mais à frente, as árvores começaram a rarefazer-se, embora o mesmo não acontecesse aos cadáveres. Os bosques deram lugar a campos lamacentos, os ramos das árvores a cadafalsos. Nuvens de corvos erguiam-se aos guinchos dos cadáveres quando os viajantes se aproximavam, e voltavam a instalar-se depois de eles passarem. Estes homens eram maus, recordou Brienne a si própria, mas ver aquilo continuava a entristecê-la. Forçou-se a olhar para todos os homens, um de cada vez, em busca de rostos familiares. Pensou reconhecer alguns de Harrenhal, mas o estado em que estavam tornava difícil ter a certeza. Nenhum tinha um elmo em forma de cabeça de cão, mas eram poucos os que tinham qualquer tipo de elmo. A maioria fora despida de armas, armadura e botas antes de serem pendurados.

Quando Podrick perguntou pelo nome da estalagem onde esperavam passar a noite, o Septão Meribald pegou avidamente na pergunta, talvez para lhes afastar do espírito as horríveis sentinelas da berma da estrada.

— Alguns chamam-lhe Velha Estalagem. Há ali uma estalagem há muitas centenas de anos, embora esta só tenha sido construída durante o reinado do primeiro Jaehaerys, o rei que construiu a estrada do rei. Jaehaerys e a sua rainha dormiam aí durante as suas viagens, diz-se. Durante algum tempo, a estalagem foi conhecida em sua honra como Duas Coroas, até que um estalajadeiro construiu uma torre sineira, e mudou o nome para Estalagem do Toque de Sino. Mais tarde, passou para um cavaleiro aleijado chamado Jon Comprido Heddle, que se dedicou a trabalhar o ferro quando ficou demasiado idoso para combater. Ele forjou um novo sinal para o pátio, um dragão de três cabeças em ferro negro que pendurou de um poste de madeira. O animal era tão grande que teve de ser feito numa dúzia de peças, unidas com corda e arame. Quando o vento soprava, tinia e ressoava, de modo que a estalagem se tornou conhecida por todo o lado como o Dragão Ressonante.

— O sinal do dragão ainda lá está? — perguntou Podrick.

— Não — disse o Septão Meribald. — Quando o filho do ferreiro era já um velho, um filho bastardo do quarto Aegon ergueu-se em rebelião contra o seu irmão legítimo e escolheu como símbolo um dragão negro. Estas terras pertenciam então ao Lorde Darry, e sua senhoria era ferozmente leal ao rei. Ver o dragão de ferro negro deixou-o furioso, de modo que cortou o poste, fez o sinal em bocados e atirou-os ao rio. Uma das cabeças do dragão foi dar à costa na Ilha Quieta muitos anos mais tarde, embora por essa altura estivesse vermelha de ferrugem. O estalajadeiro não voltou a pendurar outro sinal, e os homens esqueceram-se do dragão e acostumaram-se a chamar ao sítio Estalagem do Rio. Nesses dias, o Tridente passava por baixo da sua porta das traseiras, e metade dos quartos eram construídos por cima de água. Diz-se que os hóspedes podiam deitar uma linha pela janela e apanhar trutas. Também havia aí um embarcadouro para barcos, e os viajantes podiam atravessar para a Vila do Lorde Harroway e para Alvasparedes.

— Deixámos o Tridente a sul daqui e temos avançado para norte e oeste… não na direcção do rio, mas para longe dele.

— Sim, senhora — disse o septão. — O rio deslocou-se. Foi há setenta anos. Ou terá sido há oitenta? Foi quando o avô da velha Masha Heddle era dono do sítio. Foi ela quem me contou toda esta história. Uma mulher amável, a Masha, amiga de folhamarga e de bolos de mel. Quando não tinha um quarto para mim, deixava-me dormir junto da lareira, e nunca me mandou embora sem um pouco de pão e queijo e alguns bolos duros.

— É ela agora a estalajadeira? — perguntou Podrick.

— Não. Os leões enforcaram-na. Depois de se irem embora, ouvi dizer que um dos sobrinhos tentou reabrir a estalagem, mas as guerras tinham tornado as estradas perigosas demais para as pessoas comuns viajarem, de modo que havia pouca freguesia. Ele trouxe prostitutas, mas nem isso conseguiu salvá-lo. Algum lorde também o matou, segundo ouvi dizer.

Sor Hyle fez uma careta.

— Nunca sonhei que ser dono de uma estalagem fosse um perigo tão mortal.

— O que é perigoso é ter nascimento plebeu, quando os grandes senhores jogam o seu jogo dos tronos — disse o Septão Meribald. — Não é verdade, Cão? — Cão latiu o seu acordo.

— E então — disse Podrick — a estalagem tem algum nome agora?

— O povo chama-lhe a estalagem do entroncamento. O Irmão Mais Velho disse-me que duas das sobrinhas de Masha Heddle voltaram a abri-la à clientela. — Ergueu o bordão. — Se os deuses forem bons, aquele fumo que se ergue atrás dos enforcados saiu das suas chaminés.

— Podiam chamar ao sítio Estalagem da Forca — disse Sor Hyle.

Qualquer que fosse o nome, a estalagem era grande, erguendo-se três andares acima das estradas lamacentas, com paredes, torreões e chaminés feitos de boa pedra branca que rebrilhava, pálida e fantasmagórica, contra o céu cinzento. A sua ala sul fora construída sobre pesados pilares de madeira por cima de uma rachada e afundada extensão de ervas daninhas e relva morta e castanha. Um estábulo com telhado de colmo e uma torre sineira tinham sido ligados ao lado norte. Todo o complexo era rodeado por um muro baixo de pedras brancas, quebradas e cobertas de musgo.

Pelo menos ninguém a incendiou. Em Salinas, só tinham encontrado morte e desolação. Quando Brienne e os companheiros chegaram de barco, vindos da Ilha Quieta, os sobreviventes já tinham fugido, e os mortos estavam entregues à terra, mas ficara o cadáver da própria vila, em cinzas e por enterrar. O ar ainda cheirava a fumo, e os gritos das gaivotas flutuando na aragem pareciam quase humanos, como lamentos de crianças perdidas. Até o castelo parecera esquecido e abandonado. Cinzento como as cinzas da vila em redor, o castelo consistia de uma torre quadrada cintada por uma muralha exterior, construída de forma a dominar o porto. Estava bem fechado quando Brienne e os outros fizeram os cavalos sair do barco, sem nada em movimento nas suas ameias, a não ser estandartes. Foi preciso um quarto de hora de latidos do Cão e de batidas do Septão Meribald ao portão da frente com o bastão para que uma mulher aparecesse por cima deles e quisesse saber o que pretendiam.

Por essa altura o barco já partira e começara a chover.

— Sou um santo septão, minha boa senhora — gritara Meribald para cima — e estes são honestos viajantes. Procuramos abrigo da chuva e um lugar perto da vossa lareira para passar a noite. — A mulher não se deixara comover pelo seu apelo.

— A estalagem mais próxima fica no entroncamento, a oeste — respondera. — Não queremos aqui estranhos. Fora. — Depois de ela desaparecer, nem as preces de Meribald, nem os latidos de Cão, nem as pragas de Sor Hyle conseguiram trazê-la de volta. Por fim, tinham passado a noite na floresta, sob um abrigo feito de ramos entrelaçados.

Mas na estalagem do entroncamento havia vida. Mesmo antes de chegarem ao portão, Brienne ouviu o som de marteladas, ténues, mas contínuas. Traziam um ressoar metálico.

— Uma forja — disse Sor Hyle. — Ou têm com eles um ferreiro, ou o fantasma do velho estalajadeiro está a fazer outro dragão de ferro. — Esporeou o cavalo. — Espero que também tenham um cozinheiro fantasma. Um frango assado e estaladiço era coisa para pôr o mundo nos eixos.

O pátio da estalagem era um mar de lama castanha que sugava os cascos dos cavalos. O clangor do aço era ali mais alto, e Brienne viu o brilho rubro da forja para lá da ponta mais distante dos estábulos, por trás de um carro de bois com uma roda partida. Também via cavalos nos estábulos, e um rapaz pequeno balouçava pendurado das correntes enferrujadas da velha forca que se erguia acima do pátio. Quatro raparigas estavam no alpendre da estalagem, observando-o. A mais nova não tinha mais de dois anos, e estava nua. A mais velha, com nove ou dez, tinha os braços protectoramente em volta da pequena.

— Meninas — gritou-lhes Sor Hyle — ide a correr buscar a vossa mãe.

O rapaz deixou-se cair da corrente e precipitou-se para os estábulos. As quatro raparigas mostraram-se inquietas. Passado um momento, uma delas disse:

— Não temos mães. — E outra acrescentou:

— Eu tive, mas eles mataram-na. — A mais velha das quatro deu um passo em frente, empurrando a pequena para trás da sua saia.

— Quem sois? — quis saber.

— Honestos viajantes em busca de abrigo. O meu nome é Brienne, e este é o Septão Meribald, que é bem conhecido nas terras fluviais. O rapaz é o meu escudeiro, Podrick Payne, e o cavaleiro é Sor Hyle Hunt.

O martelar parou de súbito. A rapariga no alpendre examinou-os, desconfiada como só alguém de dez anos sabe ser.

— Chamo-me Willow. Ireis querer camas?

— Camas, cerveja e comida quente que nos encha as barrigas — disse Sor Hyle Hunt enquanto desmontava. — És tu a estalajadeira?

Ela abanou a cabeça.

— A estalajadeira é a minha irmã Jeyne. Ela não está aqui. Só temos carne de cavalo para comer. Se vindes em busca de rameiras, não há. A minha irmã correu com elas. Mas temos camas. Algumas com colchões de penas, mas os da maioria são de palha.

— E todas elas têm pulgas, não duvido — disse Sor Hyle.

— Tendes moedas para pagar? Prata?

Sor Hyle riu-se.

— Prata? Por uma noite numa cama e um pernil de cavalo? Pretendes roubar-nos, miúda?

— Queremos prata. Caso contrário podeis dormir na floresta com os mortos. — Willow olhou de relance o burro e os barris e trouxas que tinha às costas. — Aquilo é comida? Onde a arranjastes?

— Lagoa da Donzela — disse Meribald. O Cão ladrou.

— Interrogas todos os teus hóspedes desta maneira? — perguntou Sor Hyle.

— Não temos assim tantos hóspedes. Não é como antes da guerra. Nestes dias é principalmente pardais que andam pelas estradas, ou gente pior.

— Pior? — perguntou Brienne.

— Ladrões — disse uma voz de rapaz vinda dos estábulos. — Assaltantes.

Brienne virou-se, e viu um fantasma.

Renly. Nenhum golpe de martelo no coração a poderia ter abatido tanto.

— Senhor? — arquejou.

— Senhor? — O rapaz empurrou para trás uma madeixa de cabelo negro que lhe caíra sobre os olhos. — Eu sou só um ferreiro.

Ele não é Renly, compreendeu Brienne. Renly está morto. Renly morreu nos meus braços, e era um homem de vinte e um anos. Isto é só um rapaz. Um rapaz que se parecia com o Renly que viera pela primeira vez a Tarth. Não, mais novo. Tem o queixo mais quadrado, e as sobrancelhas mais espessas. Renly fora esbelto e flexível, ao passo que aquele rapaz tinha os ombros pesados e o braço direito musculoso que era tão frequente ver nos ferreiros. Usava um longo avental de couro, mas por baixo tinha o tronco nu. Uma barba escura por fazer cobria-lhe as bochechas e o queixo, e o cabelo era uma espessa cabeleira negra que lhe tapava as orelhas. O cabelo do Rei Renly fora daquele negro de carvão, mas o dele sempre estivera lavado, escovado e penteado. Por vezes cortava-o curto, e por vezes deixava-o cair, solto, sobre os ombros, ou atado em rabo-de-cavalo com uma fita dourada, mas nunca se mostrava emaranhado ou empapado de suor. E embora os seus olhos fossem daquele mesmo azul profundo, os do Lorde Renly sempre tinham sido calorosos e receptivos, cheios de risos, ao passo que os daquele rapaz transbordavam de fúria e suspeita.

O septão também o viu.

— Não pretendemos qualquer mal, rapaz. Quando esta estalagem era de Masha Heddle, sempre teve um bolo de mel para mim. Por vezes até me deixava dormir numa cama, se a estalagem não estivesse cheia.

— Ela está morta — disse o rapaz. — Os leões enforcaram-na.

— Enforcar gente parece ser o vosso passatempo preferido nesta zona — disse Sor Hyle Hunt. — Gostava de ter um pouco de terra por aqui. Plantava cânhamo, vendia corda, e fazia a minha fortuna.

— Todas estas crianças — disse Brienne para a rapariga chamada Willow. — São tuas… irmãs? Irmãos? Parentes directos e primos?

— Não. — Willow estava a fitá-la, de um modo que Brienne conhecia bem. — São só… não sei… os pardais trazem-nos para cá, às vezes. Outros chegam sozinhos. Se sois uma mulher, porque é que vos vestis como um homem?

O Septão Meribald respondeu.

— A Senhora Brienne é uma donzela guerreira numa demanda. Mas neste momento tem necessidade duma cama seca e duma fogueira quente. Tal como todos nós. Os meus velhos ossos dizem que vai voltar a chover, e em breve. Tendes quartos para nós?

— Não — disse o jovem ferreiro.

— Sim — disse a rapariga chamada Willow.

Olharam-se furiosos. Então Willow bateu com o pé no chão.

— Eles têm comida, Gendry. Os pequenos estão com fome. — Assobiou, e surgiram mais crianças como que por magia; rapazes esfarrapados com madeixas por tosquiar saíram a gatinhar de debaixo do alpendre, e furtivas raparigas surgiram em janelas que davam para o pátio. Alguns traziam bestas, retesadas e carregadas.

— Podiam chamar-lhe a Estalagem das Bestas — sugeriu Sor Hyle.

A Estalagem dos Órfãos seria mais apropriado, pensou Brienne.

— Wat, ajuda-os com os cavalos — disse Willow. — Will, deita essa pedra fora, eles não vieram fazer-nos mal. Tansy, Pate, vão a fugir buscar lenha para alimentar o fogo. Jon Vintém, tu ajudas o septão com aqueles fardos. Eu mostro-lhes uns quartos.

Por fim, escolherem três quartos adjacentes uns aos outros, cada um com a sua cama com colchão de penas e a sua janela. O de Brienne tinha também uma lareira. Pagou mais alguns dinheiros por um pouco de lenha.

— Eu durmo no vosso quarto, ou no de Sor Hyle? — perguntou Podrick enquanto ela abria as portadas.

— Isto não é a Ilha Quieta — disse-lhe Brienne. — Podes ficar comigo. — Ao chegar a manhã pretendia que os dois se pusessem a caminho sozinhos. O Septão Meribald ia prosseguir para Nogueira, Meandro e para a Vila de Lorde Harroway, mas Brienne não via sentido em continuar a segui-lo. Ele tinha o Cão para lhe fazer companhia, e o Irmão Mais Velho persuadira-a de que não encontraria Sansa Stark ao longo do Tridente. — Pretendo levantar-me antes do nascer do Sol, enquanto o Sor Hyle ainda estiver a dormir. — Brienne não lhe perdoara Jardim de Cima… e, como ele próprio dissera, Hunt não prestara qualquer juramento a respeito de Sansa.

— Para onde vamos, sor? Quer dizer, senhora?

Brienne não tinha resposta pronta para lhe dar. Tinham chegado a um entroncamento, literalmente; o lugar onde a estrada do rei, a estrada do rio e a estrada de altitude se juntavam. A estrada de altitude levá-los-ia para leste, através das montanhas, até ao Vale de Arryn, onde a tia da Senhora Sansa governara até à sua morte. Para oeste corria a estrada do rio, que seguia o curso do Ramo Vermelho até Correrrio e ao tio-avô de Sansa, que estava cercado mas ainda vivo. Ou então podiam seguir para norte pela estrada do rei, passando pelas Gémeas e pelo Gargalo, com seus pântanos e pauis. Se conseguisse encontrar uma forma de passar por Fosso Cailin e por quem quer que controlasse agora o castelo, a estrada do rei levá-los-ia até Winterfell.

Ou podia seguir pela estrada do rei para sul, pensou Brienne. Podia escapulir-me de volta para Porto Real, confessar a Sor Jaime o meu falhanço, devolver-lhe a espada, e arranjar um navio que me levasse para Tarth, como o Irmão Mais Velho me instou a fazer. A ideia era amarga, mas havia uma parte de si que ansiava por Entardecer e pelo pai, e outra parte que perguntava a si própria se Jaime a confortaria caso chorasse ao seu ombro. Era isso o que os homens queriam, não era? Mulheres suaves e impotentes que tinham de proteger?

— Sor? Senhora? Eu perguntei para onde vamos.

— Lá para baixo para a sala comum, jantar.

A sala comum estava repleta de crianças. Brienne tentou contá-las, mas não paravam quietas por um instante, de modo que contou algumas duas ou três vezes e outras não chegou a contar, até finalmente desistir. Tinham unido as mesas para formar três longas filas, e os rapazes mais velhos estavam a carregar bancos das traseiras. Mais velho queria dizer dez ou doze anos. Gendry era o que havia de mais semelhante a um homem feito, mas era Willow quem gritava todas as ordens, como se fosse uma rainha no seu castelo e as outras crianças não passassem de criados.

Se ela fosse bem nascida, o comando ser-lhe-ia natural e a deferência seria natural para os outros. Brienne perguntou a si própria se Willow poderia ser mais do que aparentava. A rapariga era nova e simples demais para ser Sansa Stark, mas tinha a idade certa para ser a irmã mais nova, e até a Senhora Catelyn dissera que faltava a Arya a beleza da irmã. Cabelo castanho, olhos castanhos, magricela… poderá ser? Lembrava-se do cabelo de Arya Stark ser castanho, mas Brienne não estava certa quanto à cor dos seus olhos. Castanho e castanho, seria? Poderá ela não ter morrido em Salinas, afinal?

Lá fora, a última luz do dia esgotava-se. Cá dentro, Willow mandara acender quatro gordurosas velas de sebo e dissera às raparigas para manter a lareira com fogo vivo e quente. Os rapazes ajudaram Podrick Payne a descarregar o burro e levaram para dentro o bacalhau salgado, o carneiro, os legumes, os frutos secos e as rodelas de queijo, enquanto o Septão Meribald se dirigia às cozinhas para se encarregar das papas de aveia.

— Infelizmente, já não tenho laranjas, e duvido que veja mais alguma até à Primavera — disse ele a um rapazinho. — Alguma vez comeste uma laranja, moço? Alguma vez espremeste uma e lhe chupaste o sumo? — Quando o rapaz abanou a cabeça numa negativa, o septão despenteou-lhe o cabelo. — Então eu trago-te uma, quando chegar a Primavera, se fores um bom rapaz e me ajudares a mexer as papas.

Sor Hyle tirou as botas para aquecer os pés junto à lareira. Quando Brienne se sentou a seu lado, ele indicou com a cabeça o outro lado da sala.

— Há manchas de sangue no chão, ali onde o Cão está a farejar. Foram raspadas, mas o sangue introduziu-se profundamente na madeira, e não há maneira de o tirar de lá.

— Foi esta a estalagem em que Sandor Clegane matou três dos homens do irmão — fez-lhe ela lembrar.

— Pois foi — concordou Hunt — mas quem poderá dizer que foram os primeiros a morrer aqui… ou que serão os últimos?

— Tendes medo de um punhado de crianças?

— Quatro seriam um punhado. Dez seriam uma barrigada. Isto é uma cacofonia. As crianças deviam ser embrulhadas em fraldas e penduradas na parede até crescer o peito às raparigas e os rapazes terem idade para fazer a barba.

— Eu tenho pena delas. Todas perderam as mães e os pais. Algumas viram-nos a ser mortos.

Hunt rolou os olhos.

— Esqueci-me de que estava a falar com uma mulher. O vosso coração é tão mole como as papas do nosso septão. Será possível? Algures dentro dessa espadachim está uma mãe aflita por dar à luz. O que realmente desejais é um bebé cor-de-rosa para mamar ao vosso peito. — Sor Hyle fez um sorriso. — Para isso precisais de um homem, segundo ouvi dizer. Um marido, de preferência. Porque não eu?

— Ainda esperais ganhar a vossa aposta…

— O que eu quero ganhar sois vós, a única descendente viva do Lorde Selwyn. Sei de homens que casaram com desmioladas e bebés de peito por propriedades com um décimo do tamanho de Tarth. Eu não sou Renly Baratheon, confesso, mas tenho a virtude de ainda estar entre os vivos. Há quem diga que essa é a minha única virtude. O casamento seria útil para ambos. Terras para mim, e um castelo cheio disto para vós. — Indicou as crianças com um movimento de mão. — Eu sou capaz, asseguro-vos. Gerei pelo menos uma bastarda, que eu saiba. Não tenhais medo, não vos obrigarei a acolhê-la. Da última vez que fui vê-la, a mãe deu-me um banho com uma panela de sopa.

Um rubor subiu pelo pescoço de Brienne.

— O meu pai só tem quarenta e quatro anos. Não é velho demais para voltar a casar e ter um filho com a sua nova esposa.

— Isso é um risco… se o vosso pai voltar a casar e se a sua noiva demonstrar ser fértil e se o bebé for um rapaz. Já fiz apostas piores.

— E perdeste-las. Jogai o vosso jogo com outra, sor.

— Assim fala uma donzela que nunca jogou o jogo com ninguém. Uma vez que o jogueis, adoptareis outro modo de ver as coisas. No escuro sois tão bela como qualquer outra mulher. Os vossos lábios foram feitos para serem beijados.

— São lábios — disse Brienne. — Todos os lábios são iguais.

— E todos os lábios são feitos para serem beijados — concordou Hunt num tom agradável. — Deixai a porta do vosso quarto destrancada esta noite, e eu esgueirar-me-ei para a vossa cama para vos demonstrar a verdade do que digo.

— Se o fizerdes, sereis um eunuco quando vos fordes embora. — Brienne levantou-se e afastou-se dele.

O Septão Meribald perguntou se podia fazer com as crianças uma oração de graças, ignorando a rapariguinha que gatinhava nua em cima da mesa.

— Sim — disse Willow, pegando na miúda antes de ela conseguir chegar às papas. E assim baixaram juntos as cabeças e agradeceram ao Pai e à Mãe as suas dádivas… todos menos o rapaz de cabelo negro da forja, que cruzou os braços ao peito e ficou quieto, os olhos cheios de fúria, enquanto os outros rezavam. Brienne não foi a única a reparar nisso. Quando a oração terminou, o Septão Meribald atravessou a mesa com o olhar e disse:

— Não tens amor pelos deuses, filho?

— Pelos vossos deuses, não. — Gendry levantou-se abruptamente. — Tenho trabalho a fazer. — E saiu a passos largos sem dar sequer uma dentada na comida.

— Há algum outro deus que ele adore? — perguntou Hyle Hunt.

— O Senhor da Luz — esganiçou um rapazinho esquelético, que ainda não teria seis anos.

Willow bateu-lhe com a colher.

— Ben Grande Boca. Há comida. Devias estar a comê-la, não a incomodar os s’nhores com conversas.

As crianças caíram sobre o jantar como lobos cairiam sobre um veado ferido, discutindo por causa do bacalhau, fazendo em bocados o pão de centeio, e enchendo tudo de papas. Nem a enorme rodela de queijo sobreviveu por muito tempo. Brienne contentou-se com peixe, pão e cenouras, enquanto o Septão Meribald deu dois bocados ao cão por cada um que ele próprio comia. Lá fora, começou a chover. Cá dentro, o fogo crepitava, e a sala comum estava cheia de ruídos de mastigar, e dos produzidos por Willow quando batia nas crianças com a colher.

— Um dia, aquela rapariguinha há-de dar uma temível esposa para um homem qualquer — observou Sor Hyle. — Aquele pobre aprendiz, provavelmente.

— Alguém devia levar-lhe alguma comida antes que se esgote toda.

— Vós sois alguém.

Brienne enrolou num pano uma cunha de queijo, uma fatia de pão, uma maçã seca e dois bocados de bacalhau frito a desfazer-se. Quando Podrick se levantou para a seguir para a rua, ela disse-lhe para se voltar a sentar e comer.

— Eu não demoro.

A chuva caía pesadamente no pátio. Brienne cobriu a comida com uma dobra do manto. Alguns dos cavalos relincharam-lhe quando passou pelos estábulos. Eles também têm fome.

Gendry estava na forja, de peito nu por baixo do seu avental de couro. Martelava uma espada como se desejasse que ela fosse um inimigo, com o cabelo ensopado em suor a cair-lhe sobre a testa. Brienne ficou a observá-lo por um momento. Ele tem os olhos de Renly e o cabelo de Renly, mas não a sua constituição. O Lorde Renly era mais esguio do que musculoso… ao contrário do irmão, Robert, cuja força era legendária.

Foi só quando parou para limpar a testa que Gendry a viu ali parada.

— Que quereis vós?

— Trouxe jantar. — Abriu o pano para ele ver.

— Se eu quisesse comida, tinha comido alguma.

— Um ferreiro tem de comer para manter as forças.

— Sois minha mãe?

— Não. — Brienne pousou a comida. — Quem era a tua mãe?

— Que tendes vós a ver com isso?

— Nasceste em Porto Real. — O modo como ele falava dava-lhe essa certeza.

— Eu e muitos outros. — E mergulhou a espada numa cuba de água da chuva para a temperar. O aço quente silvou, furioso.

— Que idade tens? — perguntou Brienne. — A tua mãe ainda está viva? E o teu pai, quem era ele?

— Fazeis demasiadas perguntas. — Pousou a espada. — A minha mãe está morta e nunca conheci o meu pai.

— És um bastardo.

Ele tomou aquilo como um insulto.

— Sou um cavaleiro. Esta espada será minha em breve, assim que a termine.

O que estaria um cavaleiro a fazer trabalhando numa forja?

— Tens cabelo negro e olhos azuis, e nasceste à sombra da Fortaleza Vermelha. Nunca ninguém tinha reparado na tua cara?

— Que tem a minha cara de errado? Não é tão feia como a vossa.

— Em Porto Real deves ter visto o Rei Robert.

Ele encolheu os ombros.

— Às vezes. Em torneios, de longe. Uma vez no Septo de Baelor. Os homens de mantos dourados empurraram-nos para o lado para que ele pudesse passar. Doutra vez estava a brincar perto do Portão da Lama quando ele voltou de uma caçada. Estava tão bêbado que quase me atropelou. Era um grande beberrão gordo, mas melhor rei do que estes seus filhos.

Eles não são seus filhos. Stannis disse a verdade, naquele dia em que se encontrou com Renly. Joffrey e Tommen nunca foram filhos de Robert. Mas este rapaz…

— Escuta-me — começou Brienne. Então ouviu o Cão a ladrar, ruidosa e freneticamente. — Vem aí alguém.

— Amigos — disse Gendry, sem se mostrar preocupado.

— Que tipo de amigos? — Brienne dirigiu-se à porta da forja para espreitar através da chuva.

Ele encolheu os ombros.

— Conhecê-los-eis bem depressa.

Posso não querer conhecê-los, pensou Brienne, enquanto os primeiros cavaleiros surgiram a esparrinhar água das poças no pátio. Sob o tamborilar da chuva e os latidos do Cão, conseguiu ouvir o ténue tinir de espadas e cotas de malha sob os seus mantos esfarrapados. Contou-os à medida que foram aparecendo. Dois, quatro, seis, sete. Alguns estavam feridos, julgando pelo modo como cavalgavam. O último homem era maciço e pesadão, tão grande como dois dos outros. O seu cavalo estava estoirado e ensanguentado, e cambaleava sob o seu peso. Todos os cavaleiros tinham os capuzes erguidos contra a chuva intensa, à excepção dele. A sua cara era larga e sem pêlos, com uma palidez de verme, e as bochechas redondas estavam cobertas de chagas.

Brienne susteve a respiração e puxou pela Cumpridora de Promessas. Demasiados, pensou, com um sobressalto de medo, eles são demasiados.

— Gendry — disse em voz baixa — vais querer uma espada e armadura. Estes não são os teus amigos. Não são amigos de ninguém.

— De que estais vós a falar? — O rapaz aproximou-se e parou atrás dela, de martelo na mão.

Um relâmpago estalou para sul enquanto os cavaleiros desmontavam. Durante meio segundo, a escuridão transformou-se em dia. Um machado cintilou num azul prateado, luz reflectiu-se em cotas de malha e placas de aço, e sob o escuro capuz do cavaleiro da frente Brienne vislumbrou um focinho de ferro e fileiras de dentes de aço, a rosnar.

Gendry também o viu.

— Ele.

— Não é ele. É o seu elmo. — Brienne tentou manter o medo afastado da voz, mas tinha a boca seca como poeira. Fazia uma ideia bastante precisa de quem usava o elmo do Cão de Caça. As crianças, pensou.

A porta da estalagem abriu-se com estrondo. Willow saiu para a chuva, com uma besta na mão. A rapariga estava a gritar aos cavaleiros, mas um trovão rolou pelo pátio, afogando as suas palavras. Quando o estrondo se desvaneceu, Brienne ouviu o homem dentro do elmo do Cão de Caça dizer:

— Dispara um dardo contra mim, e eu enfio-te essa besta na cona e fodo-te com ela. Depois arranco-te o caralho dos olhos e obrigo-te a comê-los. — A fúria na voz do homem fez Willow recuar um passo, a tremer.

Sete, voltou Brienne a pensar, desesperando. Sabia que não tinha hipótese contra sete. Nem hipótese, nem alternativa.

Saiu para a chuva, de Cumpridora de Promessas na mão.

— Deixa-a em paz. Se queres violar alguém, experimenta comigo.

Os foras-da-lei viraram-se como um só homem. Um deles riu-se, e outro disse qualquer coisa numa língua que Brienne não entendia. O enorme da larga cara branca soltou um ssssssssssssss malévolo. O homem com o elmo do Cão de Caça desatou a rir.

— És ainda mais feia do que eu me lembrava. Mais depressa violava o teu cavalo.

— Cavalos, é isso o que queremos — disse um dos homens feridos. — Cavalos frescos, e alguma comida. Vêm foras-da-lei atrás de nós. Dai-nos os vossos cavalos e nós vamo-nos embora. Não vos queremos fazer mal.

— Que se foda essa merda. — O fora-da-lei com o elmo do Cão de Caça puxou um machado de batalha da sela. — Eu quero cortar-lhe a merda das pernas. Vou pô-la em cima dos tocos p’ra que ela me veja foder a tipa da besta.

— Com o quê? — provocou-o Brienne. — Shagwell disse que te cortaram o membro viril quando te deixaram sem nariz.

Pretendera que aquilo o provocasse, e provocou. Berrando pragas, ele correu para ela, fazendo saltar salpicos de água negra enquanto carregava. Os outros deixaram-se ficar para trás, para assistir ao espectáculo, como ela rezara que fizessem. Brienne ficou imóvel como pedra, à espera. O pátio estava escuro, e a lama escorregadia sob os pés. É melhor deixar que ele venha até mim. Se os deuses forem bons, há-de escorregar e cair.

Os deuses não eram assim tão bons, mas a espada dela era. Cinco passos, quatro passos, agora, contou Brienne, e a Cumpridora de Promessas ergueu-se ao encontro do ímpeto dele. Aço bateu em aço quando a lâmina de Brienne atravessou os farrapos do homem e abriu uma fenda na sua cota de malha, no mesmo momento em que o seu machado caía sobre ela. Brienne esquivou-se para o lado, voltando a golpear-lhe o peito na retirada.

Ele seguiu-a, cambaleando e sangrando, rugindo em fúria.

— Puta! — trovejou. — Anormal! Cadela! Vou dar-te ao meu cão para foder, sua cadela de merda! — O seu machado rodopiava em arcos assassinos, uma brutal sombra negra que se tornava prateada sempre que o relâmpago surgia. Brienne não tinha escudo para parar os golpes. Tudo o que podia fazer era recuar, afastando-se dele, correndo para um lado ou para o outro, enquanto a cabeça do machado voava contra si. Uma vez, a lama cedeu sob o seu calcanhar e quase caiu, mas recuperou sem saber bem como, embora o machado tivesse raspado dessa vez no seu ombro esquerdo, deixando uma braseiro de dor na sua esteira.

— Apanhaste a puta — gritou um dos outros, e outro disse:

— Vamos lá a ver como é que ela dança para longe desse golpe.

E dançar foi o que ela fez, aliviada por eles estarem a ver. Antes isso do que interferirem. Não podia lutar contra sete, sozinha não, mesmo se um ou dois estivessem feridos. O velho Sor Goodwin estava há muito na sua tumba, e no entanto conseguia ouvi-lo a murmurar-lhe ao ouvido. Os homens irão sempre subestimar-vos, dizia, e o seu orgulho fá-los-á querer vencer-vos depressa, para que não se diga que uma mulher lhes deu luta. Deixai-os gastar as forças em ataques furiosos, enquanto conservais as vossas. Esperai e observai, menina, esperai e observai. E ela esperou, observando, movendo-se de lado, e logo para trás, e então de novo para o lado, golpeando ora a cara dele, ora as pernas, ora o braço. Os golpes dele começaram a cair mais devagar quando o machado se tornou mais pesado. Brienne virou-o para que a chuva lhe caísse sobre os olhos, e deu dois passos rápidos para trás. Ele ergueu o machado uma vez mais, praguejando, e saltou sobre ela, com um pé a deslizar na lama…

… e ela saltou para enfrentar o seu ataque, com ambas as mãos no cabo da espada. A carga precipitada dele trouxe-o mesmo de encontro à ponta da espada, e a Cumpridora de Promessas trespassou pano, cota de malha, couro e mais pano, afundou-se profundamente nas suas entranhas e saiu-lhe pelas costas, fazendo um som de arranhar ao raspar-lhe na coluna. O machado do homem caiu de dedos sem força, e ele tombou sobre ela, esmagando a cara de Brienne com o elmo da cabeça de cão. Brienne sentiu o metal frio e molhado contra o rosto. Chuva caía em rios pelo aço, e quando o relâmpago voltou a surgir ela viu dor e medo e uma completa incredulidade através das fendas para os olhos.

— Safiras — segredou-lhe, enquanto dava à sua lâmina uma forte torção que o fez estremecer. O peso dele descaiu sobre ela, e de súbito era um cadáver que abraçava, ali na chuva negra. Deu um passo para trás e deixou-o cair…

… e o Dentadas caiu sobre ela, aos guinchos.

Caiu sobre ela como uma avalancha de lã molhada e carne de um branco de leite, erguendo-a no ar e atirando-a ao chão. Brienne caiu numa poça com um chapão que lhe atirou água pelo nariz acima e para dentro dos olhos. Todo o ar foi forçado a sair-lhe dos pulmões, e a cabeça estalou de encontro a uma pedra semi-enterrada com um crac.

— Não — foi tudo o que teve tempo de dizer antes de ele cair em cima de si, enterrando-a mais na lama com o seu peso. Uma das mãos dele estava no seu cabelo, puxando-lhe a cabeça para trás. A outra procurava-lhe a garganta às apalpadelas. A Cumpridora de Promessas desaparecera, arrancada às suas mãos. Estas eram tudo o que tinha para lutar contra ele, mas quando lhe atingiu a cara com um punho foi como esmurrar uma bola de húmida e branca massa de pão. Ele silvou-lhe.

Brienne voltou a bater-lhe, e de novo, e de novo, atingindo-lhe o olho com a base da mão, mas ele não parecia sentir os seus golpes. Arranhou-lhe os pulsos, mas o aperto só se tornou mais forte, embora sangue escorresse dos regos que deixara ao arranhá-lo. Ele estava a esmagá-la, a sufocá-la. Ela empurrou-lhe os ombros, para o fazer sair de cima de si, mas ele era pesado como um cavalo, impossível de mover. Quando tentou dar-lhe uma joelhada nas virilhas, não conseguiu mais do que enfiar-lhe o joelho na barriga. Grunhindo, o Dentadas arrancou-lhe uma mão-cheia de cabelo.

O meu punhal. Brienne agarrou-se àquele pensamento, desesperada. Conseguiu enfiar a mão entre ambos, com os dedos a contorcer-se sob a pele acre e sufocante do homem, procurando até finalmente encontrarem o cabo. O Dentadas pôs ambas as mãos em volta do seu pescoço e começou a bater-lhe a cabeça contra o chão. O relâmpago voltou a brilhar, daquela vez dentro do seu crânio, mas de algum modo os dedos apertaram-se-lhe, puxando o punhal de dentro da bainha. Com o homem em cima de si, Brienne não conseguia erguer a lâmina para o apunhalar, portanto empurrou-a com força contra a sua barriga. Algo de quente e húmido jorrou entre os seus dedos. O Dentadas voltou a silvar, mais alto do que antes, e largou-lhe a garganta apenas o tempo suficiente para a esmurrar na cara. Ouviu ossos a estalar, e a dor cegou-a por um instante. Quando tentou voltar a golpeá-lo, ele arrancou-lhe o punhal dos dedos e espetou-lhe um joelho no braço, quebrando-o. Então voltou a pegar-lhe na cabeça e retomou a tentativa de lha arrancar de entre os ombros.

Brienne conseguia ouvir o Cão a ladrar, e havia homens a gritar a toda a volta, e entre os trovões ouviu o tinir de aço em aço. Sor Hyle, pensou, Sor Hyle juntou-se ao combate, mas tudo isso parecia longínquo e sem importância. O seu mundo não era maior do que as mãos na sua garganta e a cara que pairava em cima de si. A chuva escorreu do capuz dele quando se inclinou para mais perto. O hálito do homem fedia a queijo apodrecido.

Brienne tinha o peito a arder, e a tempestade encontrava-se atrás dos seus olhos, cegando-a. Ossos raspavam uns nos outros dentro do seu corpo. A boca do Dentadas escancarou-se com uma amplidão impossível. Brienne viu-lhe os dentes, amarelos e tortos, afiados em ponta. Quando se fecharam na carne mole da sua bochecha, ela quase não o sentiu. Sentia-se a cair em espiral para a escuridão. Ainda não posso morrer, disse a si própria, há uma coisa que ainda tenho de fazer.

A boca do Dentadas libertou-se, cheia de sangue e de carne. Cuspiu, sorriu, e voltou a afundar os dentes pontiagudos na sua carne. Daquela vez mastigou e engoliu. Ele está a comer-me, compreendeu Brienne, mas já não lhe restavam forças para lutar. Sentiu-se como se estivesse a flutuar acima de si própria, observando o horror como se estivesse a suceder a outra mulher qualquer, a uma rapariga estúpida que pensava ser um cavaleiro. Terminará em breve, disse a si própria. Então não importará se ele me comer. O Dentadas puxou a cabeça para trás e voltou a abrir a boca, uivando, deitando-lhe a língua de fora. Terminava numa ponta aguçada e pingava sangue, mais longa do que qualquer língua devia ser. Deslizando de dentro da sua boca, para fora, e para fora, e para fora, rubra, húmida e a cintilar, era algo de hediondo e obsceno. A sua língua tem trinta centímetros de comprimento, pensou Brienne, logo antes de ser levada pela escuridão. Olha, parece quase uma espada.

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