O Mar de Ferro

George R. R. Martin · Capítulo 14 de 43

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O Mar de Ferro

A Princesa na Torre

 

A sua prisão era suave. Arianne sentia-se confortada por isso. Porque haveria o pai de fazer um esforço tão grande para lhe fornecer todo o conforto no cativeiro se a tivesse marcado para uma morte de traidora? Ele não pode tencionar matar-me, disse a si própria uma centena de vezes. Não tem em si uma crueldade tão grande. Eu sou do seu sangue e semente, sou sua herdeira, sua única filha. Se fosse necessário, atirar-se-ia ao chão junto às rodas da sua cadeira, admitiria a sua falha, suplicar-lhe-ia perdão. E choraria. Quando ele visse lágrimas a correr-lhe pela cara, perdoar-lhe-ia.

Estava menos certa de se perdoar a si própria.

— Areo — suplicara ao seu captor durante a longa cavalgada seca que a trouxera do Sangueverde de volta a Lançassolar. — Eu nunca quis que a rapariga se magoasse. Tendes de acreditar em mim.

Hotah respondera apenas com grunhidos. Arianne conseguia sentir-lhe a ira. O Estrela Negra, o mais perigoso de todo o seu pequeno grupo de conspiradores, escapara-se-lhe. Cavalgara mais depressa do que os perseguidores e desaparecera nas profundezas do deserto, com a lâmina suja de sangue.

— Vós conheceis-me, capitão — dissera Arianne, enquanto as léguas ficavam para trás. — Conheceis-me desde pequena. Sempre me mantivestes a salvo, tal como mantínheis a senhora minha mãe a salvo quando viestes com ela da Grande Norvos para ser seu escudo numa terra estranha. Preciso agora de vós. Preciso da vossa ajuda. Nunca pretendi…

— O que pretendestes não importa, pequena princesa — dissera Areo Hotah. — Só o que fizestes importa. — O seu semblante era uma pedra. — Lamento. Cabe ao meu príncipe ordenar, a Hotah obedecer.

Arianne esperara ser levada perante o cadeirão do pai sob a cúpula de vitral da Torre do Sol. Mas Hotah entregara-a na Torre da Lança, e à custódia do senescal do pai, Ricasso, e de Sor Manfrey Martell, o castelão.

— Princesa — dissera Ricasso — perdoareis a um velho cego que ele não suba convosco. Estas pernas não estão à altura de tantos degraus. Um aposento foi preparado para vós. Sor Manfrey levar-vos-á para lá, para esperardes que seja desejo do príncipe chamar-vos.

— Desejo? Penoso dever, quereis vós dizer. Os meus amigos também ficarão aqui confinados? — Arianne fora separada de Garin, Drey e dos outros após a captura, e Hotah recusara-se a dizer o que seria feito com eles.

— Isso cabe ao príncipe decidir — era tudo o que o capitão tinha a dizer sobre o assunto. Sor Manfrey mostrou-se um pouco mais cooperante.

— Foram levados para Vila Tabueira e serão transportados por navio para Sinistres Gris até que o Príncipe Doran decida o seu destino.

Sinistres Gris era um velho castelo arruinado empoleirado num rochedo no Mar de Dorne, uma prisão lúgubre e pavorosa para onde os piores criminosos eram enviados para aí apodrecerem e morrerem.

— Isso quer dizer que o meu pai pretende matá-los? — Arianne não conseguia acreditar. — Tudo o que fizeram foi por amor a mim. Se o meu pai tem de derramar sangue, devia ser o meu.

— Como quiserdes, princesa.

— Quero falar com ele.

— Ele achou que talvez quisésseis. — Sor Manfrey pegara-lhe no braço e empurrara-a pelas escadas acima, para cima e para cima, até a deixar sem fôlego. A Torre da Lança tinha meia centena de metros de altura e a sua cela ficava quase no topo. Arianne examinara todas as portas por que passaram, perguntando a si própria se alguma das Serpentes de Areia estaria trancada lá dentro.

Depois de a sua porta ser fechada e trancada, Arianne explorara o seu novo lar. A cela era grande e arejada, e não lhe faltava conforto. Havia tapetes de Myr no chão, vinho tinto para beber, livros para ler. A um canto encontrava-se um ornamentado tabuleiro de cryvasse com peças esculpidas de marfim e ónix, embora não tivesse ninguém com quem jogar, mesmo se se sentisse inclinada a fazê-lo. Tinha um colchão de penas onde dormir, e uma latrina com assento de mármore, cujo cheiro era adoçado por um cesto cheio de ervas. Àquela altura, a vista era magnífica. Uma janela abria-se para leste, de modo que podia observar o Sol a nascer do mar. A outra permitia-lhe olhar para a Torre do Sol, e para as Muralhas Sinuosas e o Portão Triplo que se erguiam mais atrás.

A exploração demorara menos tempo do que ela teria levado a atar um par de sandálias, mas pelo menos servira para manter as lágrimas afastadas durante algum tempo. Arianne descobrira uma bacia e um jarro de água fria e lavara as mãos e a cara, mas não havia esfregadela que a conseguisse limpar do desgosto. Arys, pensara, meu cavaleiro branco. Lágrimas encheram-lhe os olhos, e de súbito vira-se a chorar, com o corpo inteiro sacudido por soluços. Recordara como o pesado machado de Hotah abrira caminho através da carne e osso dele, o modo como a sua cabeça saltara, girando, pelo ar. Porque o fizeste? Porquê deitar a vida fora? Nunca te disse para o fazeres, não quis isso, só quis… eu quis… quis…

Nessa noite chorara até adormecer… pela primeira vez, ainda que não pela última. Nem mesmo nos sonhos encontrara paz. Sonhava com Arys Oakheart a acariciá-la, a sorrir-lhe, a dizer-lhe que a amava… mas os dardos mantinham-se espetados no seu corpo e os ferimentos ressumavam sangue, transformando-lhe os panos brancos em vermelhos. Parte de si sabia que era um pesadelo, mesmo enquanto estava a sonhá-lo. Ao chegar a manhã tudo isto desaparecerá, dissera a princesa a si própria, mas quando a manhã chegara ela continuava na sua cela, Sor Arys mantinha-se morto, e Myrcella… Eu nunca desejei aquilo, nunca. Não desejei qualquer mal à rapariga. Tudo o que quis foi que ela fosse uma rainha. Se não tivéssemos sido traídos…

— Alguém contou — dissera Hotah. A memória ainda a deixava zangada. Arianne agarrou-se àquilo, alimentando a chama que ardia no seu coração. A ira era melhor do que as lágrimas, melhor do que a dor, melhor do que a culpa. Alguém contara, alguém em quem ela confiara. Arys Oakheart perdera a vida por causa disso, tanto morto pelo murmúrio do traidor como pelo machado do capitão. O sangue que correra pela cara de Myrcella, isso também era obra do traidor. Alguém contara, alguém que ela amara. Esse era o mais cruel de todos os golpes.

Descobrira uma arca cheia das suas roupas aos pés da cama, de modo que despira o trajo manchado pela viagem em que dormira e envergara a roupa mais reveladora que encontrara, tufos de seda que cobriam tudo e nada escondiam. O Príncipe Doran podia tratá-la como uma criança, mas ela recusava-se a vestir-se como tal. Sabia que um trajo assim iria desconcertar o pai quando ele viesse castigá-la por ter fugido com Myrcella. Contava com isso. Se eu tenho de gatinhar e chorar, que ele fique também desconfortável.

Esperara-o naquele dia, mas quando a porta finalmente se abrira revelara apenas os criados com a refeição do meio-dia.

— Quando é que eu posso falar com o meu pai? — perguntara, mas nenhum deles quisera responder. O cabrito fora assado com limão e mel. Com ele tinham vindo folhas de videira a envolver uma mistura de passas, cebolas, cogumelos e ardente pimenta de dragão. — Não tenho fome — dissera Arianne. Os amigos estariam a comer biscoitos de marinheiro e carne de vaca salgada a caminho de Sinistres Gris. — Levai isto e trazei-me o Príncipe Doran. — Mas eles deixaram a comida, e o pai não viera. Passado algum tempo, a fome enfraquecera-lhe a determinação, e sentara-se a comer.

Depois de se acabar a comida, nada mais havia para Arianne fazer. Pôs-se a passear em volta da sua torre, duas vezes e três e três vezes três. Sentou-se em frente do tabuleiro de cryvasse e moveu, entediada, em elefante. Enrolou-se no banco de janela e tentou ler um livro, até que as palavras se transformaram numa névoa e ela compreendeu que estava de novo a chorar. Arys, meu querido, meu cavaleiro branco, porque o fizeste? Devias ter-te rendido. Eu tentei dizer-to, mas as palavras ficaram-me presas na boca. Seu galante tolo, não queria que morresses nem que Myrcella… oh, pela bondade dos deuses, aquela rapariguinha…

Por fim voltou a enfiar-se na cama. O mundo escurecera, e pouco havia que pudesse fazer além de dormir. Alguém contou, pensou. Alguém contou. Garin, Drey e a Sylva Malhada eram amigos de infância, eram-lhe tão queridos como a prima Tyene. Não era capaz de acreditar que a denunciassem… mas isso só deixava o Estrela Negra, e se era ele o traidor, porque teria virado a espada contra a pobre Myrcella? Ele queria matá-la em vez de a coroar, disse isso mesmo em Pedramarela. Disse que seria assim que eu obteria a guerra que desejava. Mas não fazia sentido que Dayne fosse o traidor. Se Sor Gerold tivesse sido o bicho na maçã, porque teria virado a espada contra Myrcella?

Alguém contou. Poderia ter sido Sor Arys? Teria a culpa do cavaleiro branco subjugado o seu desejo? Teria ele amado mais Myrcella do que a si e traído a sua nova princesa para expiar a traição à antiga? Estaria tão envergonhado por aquilo que fizera que preferira deitar a vida fora no Sangueverde a viver para enfrentar a desonra?

Alguém contou. Quando o pai viesse vê-la, ficaria a saber quem. Contudo, o Príncipe Doran não veio no dia seguinte. Nem no outro. A princesa foi deixada só para passear pelo quarto, chorar e alimentar os seus ferimentos. Durante as horas de luz, tentava ler, mas os livros que lhe tinham dado eram mortalmente aborrecidos: imponentes velhas histórias e geografias, mapas anotados, um estudo aborrecidíssimo sobre as leis de Dorne, A Estrela de Sete Pontas e Vidas dos Altos Septões, um enorme volume sobre dragões que conseguia a proeza de os tornar tão interessantes como tritões. Arianne teria dado mais que muito por uma cópia de Dez Mil Navios ou d’Os Amores da Rainha Nymeria, qualquer coisa que lhe ocupasse os pensamentos e lhe permitisse fugir da sua torre por uma hora ou duas, mas esses divertimentos eram-lhe negados.

Do seu banco de janela tinha apenas de relancear o olhar para fora para ver a grande cúpula de ouro e vidro colorido em baixo, onde o pai concedia audiências. Ele chamar-me-á em breve, dizia a si própria.

Não era autorizada a receber visitas à excepção dos criados; Bors com a sua barba por fazer, o alto Timoth que pingava dignidade, as irmãs Morra e Mellei, a pequena e bonita Cedra, a velha Belandra que fora aia da mãe de Arianne. Traziam-lhe refeições, mudavam-lhe a roupa da cama, e esvaziavam o penico que recolhia os dejectos da latrina, mas nenhum queria falar com ela. Quando pedia mais vinho, Timoth ia buscá-lo. Se desejasse algum dos seus pratos preferidos, figos, azeitonas ou pimentos recheados de queijo, bastava-lhe dizer a Belandra, e a comida aparecia. Morra e Mellei levavam a sua roupa suja e devolviam-na limpa e fresca. De dois em dois dias, era-lhe trazido um banho, e a tímida Cedra ensaboava-lhe as costas e ajudava-a a escovar o cabelo.

Mas nenhum deles tinha uma palavra a dizer-lhe, e tampouco se dignavam a contar-lhe o que estava a acontecer no mundo que se estendia para lá da sua gaiola de arenito.

— O Estrela Negra foi capturado? — perguntou um dia a Bors. — Ainda andam em sua perseguição? — O homem limitou-se a virar-lhe as costas e a afastar-se. — Ensurdeceste? — atirou-lhe Arianne. — Volta cá e responde-me. É uma ordem. — A única resposta dele foi o som de uma porta a fechar-se.

— Timoth — tentou ela noutro dia — o que aconteceu à Princesa Myrcella? Eu não quis que nenhum mal lhe acontecesse. — A última vez que vira a outra princesa fora durante o regresso a Lançassolar. Demasiado fraca para montar a cavalo, Myrcella viajara numa liteira, com a cabeça envolta em ligaduras de seda na zona onde o Estrela Negra a atingira, com os olhos verdes brilhantes de febre. — Diz-me que ela não morreu, suplico-te. Que mal pode vir de eu saber isso? Diz-me como ela está. — Timoth não quis fazê-lo.

— Belandra — disse Arianne, alguns dias mais tarde — se alguma vez amaste a senhora minha mãe, apieda-te da sua pobre filha e diz-me quando é que o meu pai pretende vir visitar-me. Por favor. Por favor. — Mas Belandra também perdera a língua.

Isto é a ideia que o meu pai faz de um tormento? Nem ferros em brasa, nem a roda, mas simplesmente o silêncio? Aquilo era tão característico de Doran Martell que Arianne teve de se rir. Ele pensa que está a ser subtil quando está só a ser fraco. Decidiu desfrutar do sossego, usar o tempo para se sarar e fortalecer para aquilo que teria de se seguir.

Sabia que não valia a pena remoer constantemente Sor Arys. Obrigou-se em vez disso a pensar nas Serpentes de Areia, especialmente em Tyene. Arianne gostava de todas as suas primas bastardas, da susceptível e temperamental Obara à pequena Loreza, a mais nova, só com seis anos. Mas Tyene sempre fora aquela de que mais gostava; a irmã querida que nunca tivera. A princesa nunca fora chegada aos irmãos; Quentyn encontrava-se em Paloferro, e Trystane era novo demais. Não, sempre fora ela e Tyene, com Garin, Drey e a Sylva Malhada. Nym juntava-se-lhes, por vezes, nos jogos, e Sarella passava a vida a tentar meter-se onde não era o seu lugar, mas tinham sido quase sempre uma companhia de cinco. Mergulhavam nas lagoas e fontanários dos Jardins de Água, e iam para a batalha empoleirados nas costas nuas uns dos outros. Ela e Tyene tinham aprendido juntas a ler, tinham aprendido juntas a andar a cavalo, tinham aprendido juntas a dançar. Aos dez anos, Arianne roubara um jarro de vinho, e as duas tinham-se embebedado juntas. Haviam partilhado refeições, camas e jóias. Teriam partilhado também o primeiro homem, mas Drey ficara demasiado excitado e cobrira os dedos de Tyene de esperma no momento em que ela o tirara para fora das bragas. As mãos dela são um perigo. A recordação fê-la sorrir.

Quanto mais pensava nas primas, mais a princesa lhes sentia a falta. Tanto quanto sei, podem estar mesmo por baixo de mim. Nessa noite, Arianna tentou bater no chão com o tacão da sandália. Quando ninguém respondeu, debruçou-se de uma janela e espreitou para baixo. Conseguia ver outras janelas mais abaixo, mais pequenas do que a sua, algumas nem passavam de seteiras.

— Tyene! — chamou. — Tyene, estás aí? Obara, Nym? Ouvis-me? Ellaria? Alguém? TYENE? — A princesa passou metade da noite pendurada à janela, a chamar até ficar com a garganta em carne viva, mas não lhe chegaram gritos em resposta. Isso assustou-a mais do que poderia exprimir. Se as Serpentes de Areia estavam aprisionadas na Torre da Lança, certamente que a teriam ouvido gritar. Porque não teriam respondido? Se o pai lhes fez algum mal, nunca o perdoarei, nunca, disse a si própria.

Depois de se passar uma quinzena, tinha a paciência feita em farrapos.

— Quero falar com o meu pai já — disse a Bors, na sua voz mais autoritária. — Vais levar-me até ele. — Ele não a levou até ele. — Estou pronta a ver o príncipe — disse a Timoth, mas ele virou-lhe costas como se não tivesse ouvido. Na manhã seguinte, Arianne estava à espera junto à porta quando ela se abriu. Passou por Belandra de um salto, fazendo com que uma bandeja de ovos com especiarias se fosse esmagar contra a parede, mas os guardas apanharam-na antes de ter percorrido três metros. Também os conhecia, mas mostraram-se surdos às suas súplicas. Arrastaram-na de volta à sua cela, a esbracejar e a espernear.

Arianne decidiu que teria de ser mais subtil. Cedra era a sua melhor esperança; a rapariga era jovem, ingénua e crédula. A princesa lembrou-se de que Garin um dia se gabara de dormir com ela. No banho seguinte, enquanto Cedra lhe ensaboava os ombros, pôs-se a falar de tudo e de nada.

— Eu sei que te foi ordenado que não falasses comigo — disse — mas ninguém me disse para não falar contigo. — Falou sobre o calor do dia, e daquilo que tinha jantado na noite anterior, e de como a pobre Belandra se estava a tornar lenta e rígida. O Príncipe Oberyn armara cada uma das suas filhas para que nunca ficassem sem defesa, mas Arianne Martell não tinha qualquer arma além da sua astúcia. E assim sorriu e mostrou-se encantadora, e não pediu a Cedra nada em troca, nem palavra, nem aceno.

No dia seguinte, ao jantar, voltou a tagarelar com a rapariga enquanto ela a servia. Daquela vez arranjou-se para mencionar Garin. Cedra ergueu acanhadamente os olhos ao ouvir o nome dele e quase derramou o vinho que estava a servir. Então é assim, não é?, pensou Arianne.

Durante o banho seguinte, falou dos amigos aprisionados, especialmente de Garin.

— É por ele que mais temo — confidenciou à criada. — Os órfãos são espíritos livres, vivem para vagabundear. Garin precisa de sol e de ar fresco. Se o trancarem nalguma cela fria e húmida de pedra, como sobreviverá? Não durará um ano em Sinistres Gris. — Cedra não respondeu, mas quando Arianne se ergueu da água, a criada tinha a cara pálida, e apertava a esponja com tanta força que o sabão pingava no tapete de Myr.

Mesmo assim, foram precisos mais quatro dias e dois banhos para ter a rapariga na mão.

— Por favor — sussurrou finalmente Cedra, depois de Arianne pintar uma viva imagem de Garin a atirar-se da janela da cela, para saborear a liberdade uma última vez antes de morrer. — Tendes de o ajudar. Por favor, não o deixeis morrer.

— Trancada aqui em cima é menos do que pouco o que posso fazer — sussurrou em resposta. — O meu pai não me quer receber. Tu és a única que pode salvar Garin. Ama-lo?

— Sim — sussurrou Cedra, corando. — Mas como posso ajudar?

— Podes fazer sair uma carta minha — disse a princesa. — Farás isso? Correrás o risco… por Garin?

Os olhos de Cedra esbugalharam-se. E confirmou com a cabeça.

Tenho um corvo, pensou Arianne, triunfantemente, mas envio-a a quem? O único dos seus conspiradores a escapar à rede do pai fora o Estrela Negra. No entanto, por aquela altura Sor Gerold podia perfeitamente ter já sido capturado; e se não o tivesse sido, teria certamente fugido de Dorne. O seu pensamento seguinte foi a mãe de Garin e os órfãos do Sangueverde. Não, eles não. Tem de ser alguém com real poder, alguém que não tenha participado no nosso plano mas que possa ter motivos para nutrir simpatia por nós. Pensou em apelar à mãe, mas a Senhora Mellario estava longe, em Norvos. E além disso, havia muitos anos que o Príncipe Doran não dava ouvidos à senhora sua esposa. Ela também não. Preciso dum fidalgo, um fidalgo suficientemente grande para coagir o meu pai a libertar-me.

O mais poderoso dos senhores de Dorne era Anders Yronwood, o Sangue-Real, Senhor de Paloferro e Protector do Caminho de Pedra, mas Arianne não era tola para procurar ajuda junto do homem que criara o seu irmão Quentyn. Não. O irmão de Drey, Sor Deziel Dalt aspirara em tempos a casar com ela, mas era demasiado obediente para se opor ao seu príncipe. E além disso, embora o Cavaleiro de Limoeiros pudesse intimidar um pequeno senhor, não tinha força suficiente para influenciar o Príncipe de Dorne. Não. Arianne finalmente decidiu que não tinha mais do que duas esperanças reais: Harmen Uller, Senhor da Toca do Inferno, e Franklyn Fowler, Senhor de Alcanceleste e Protector do Passo do Príncipe.

Metade dos Uller são meio loucos, dizia o provérbio, e os outros são pior. Ellaria Sand era filha ilegítima do Lorde Harmen. Ela e as suas pequenas tinham sido presas com o resto das Serpentes de Areia. Isso devia ter deixado o Lorde Harmen furioso, e os Uller eram perigosos quando se enfureciam. Perigosos demais, talvez. A princesa não queria colocar mais vidas em perigo.

O Lorde Fowler poderia ser uma escolha mais segura. Chamavam-lhe o Velho Falcão. Nunca se dera bem com Anders Yronwood; havia um feudo de sangue entre as duas casas que remontava a mil anos antes, quando os Fowler preferiram apoiar os Martell e não os Yronwood durante a Guerra de Nymeria. Os gémeos Fowler eram também amigos afamados da Senhora Nym, mas quanto peso teria isso junto do Velho Falcão?

Arianne vacilou durante quatro dias enquanto compunha a sua carta secreta.

— Dai ao homem que vos levar isto cem veados de prata — começou. Isso asseguraria que a mensagem era entregue. Disse na carta onde estava e suplicou que a salvassem. — Seja quem for que me tire desta cela, não será esquecido quando eu casar. — Isso deverá trazer os heróis a correr. A menos que o Príncipe Doran a tivesse proscrito, continuava a ser a legítima herdeira de Lançassolar; o homem que se casasse consigo iria um dia governar Dorne a seu lado. Arianne só podia rezar para que o seu salvador se revelasse mais novo do que os grisalhos que o pai lhe fora oferecendo ao longo dos anos. — Quero um consorte com dentes — dissera-lhe quando recusara o último.

Não se atrevia a pedir pergaminho por temer levantar suspeitas aos seus captores, portanto escreveu a carta no fundo de uma página arrancada à Estrela de Sete Pontas, e enfiou-a na mão de Cedra no dia de banho seguinte.

— Há um lugar junto do Portão Triplo onde as caravanas carregam provisões antes de atravessarem as areias profundas — disse-lhe Arianne. — Procura um viajante que se dirija ao Passo do Príncipe, e promete-lhe cem veados de prata se ele puser isto nas mãos do Lorde Fowler.

— Prometo. — Cedra escondeu a mensagem no corpete. — Encontrarei alguém antes do pôr-do-sol, princesa.

— Óptimo — disse Arianne. — Amanhã diz-me como correu.

Mas a rapariga não regressou na manhã seguinte. Nem no outro dia. Quando chegou a altura de Arianne tomar banho, foi Morra e Mellei que lhe encheram a banheira, e que ficaram para lhe lavar as costas e escovar o cabelo.

— Cedra adoeceu? — perguntou-lhes a princesa, mas nenhuma das duas quis responder. Só conseguia pensar: ela foi apanhada. Que outra coisa pode ser? Nessa noite quase não dormiu, com medo do que poderia seguir-se.

Quando Timoth lhe trouxe o pequeno-almoço na manhã seguinte, Arianne pediu para ver Ricasso em vez do pai. Era evidente que não conseguia forçar o Príncipe Doran a recebê-la, mas certamente que um mero senescal não ignoraria uma convocatória da legítima herdeira de Lançassolar.

No entanto, ignorou.

— Transmitiste a Ricasso o que eu disse? — perguntou da vez seguinte que viu Timoth. — Disseste-lhe que eu precisava dele? — Quando o homem se recusou a responder-lhe, Arianne pegou num jarro de vinho tinto e virou-lho em cima da cabeça. O criado retirou-se a pingar, com a cara transformada numa máscara de dignidade ferida. O meu pai pretende deixar-me aqui a apodrecer, decidiu a princesa. Ou então está a fazer planos para me casar com algum velho idiota repugnante e tenciona manter-me trancada até à noite de núpcias.

Arianne Martell crescera a contar casar um dia com um grande senhor qualquer, escolhido pelo pai. Fora ensinada que era para isso que as princesas serviam… embora, havia que admiti-lo, o tio Oberyn tivesse visto o assunto de forma diferente.

— Se quiserdes casar, casai — dissera o Víbora Vermelha às filhas. — Se não, tirai prazer onde o encontrardes. Não é coisa que abunde no mundo. Mas escolhei bem. Se deixardes que um idiota ou um bruto vos ponha a sela, não venhais ter comigo para vos verdes livres dele. Eu dei-vos as ferramentas para tratardes disso sozinhas.

A liberdade que o Príncipe Oberyn permitia às suas bastardas nunca fora partilhada pela herdeira legítima do Príncipe Doran. Arianne tinha de casar; ela aceitara-o. Sabia que Drey a desejara; e o irmão dele, Deziel, o Cavaleiro de Limoeiros, também. Daemon Sand chegara mesmo a pedir-lhe a mão. Mas Daemon era bastardo, e o Príncipe Doran não pretendia que ela casasse com um dornês.

Arianne também isso aceitara. Houvera um ano em que o irmão do Rei Robert viera de visita e ela fizera o seu melhor para o seduzir, mas pouco passava de uma menina e o Lorde Renly parecera mais assombrado do que inflamado pelas suas ofertas. Mais tarde, quando Hoster Tully lhe pedira para ir a Correrrio a fim de conhecer o seu herdeiro, acendera velas de agradecimento à Donzela, mas o Príncipe Doran declinara o convite. A princesa poderia até ter tomado em conta Willas Tyrell, com perna aleijada e tudo, mas o pai recusara-se a mandá-la a Jardim de Cima para o conhecer. Tentara ir a despeito do pai, com a ajuda de Tyene… mas o Príncipe Oberyn apanhara-as em Vaith e trouxera-as de volta. Nesse mesmo ano, o Príncipe Doran tentara prometê-la a Ben Beesbury, um fidalgo menor que se não tinha oitenta anos pouco faltava, e que era tão cego como desdentado.

Beesbury morrera alguns anos mais tarde. Isso dava-lhe algum pequeno conforto na presente situação; não podia ser obrigada a casar com ele se o homem estava morto. E o Senhor da Travessia voltara a casar, portanto desse também estava salva. Contudo, Elden Estermont continua vivo e por casar. Bem como o Lorde Rosby e o Lorde Grandison. Chamavam a Grandison Barbagris, mas quando Arianne o conhecera, a sua barba havia-se tornado branca como a neve. No banquete de boas-vindas, adormecera entre o prato de peixe e o de carne. Drey dissera que aquilo era adequado, visto que o seu símbolo era um leão adormecido. Garin desafiara-a a ver se conseguia dar-lhe um nó na barba sem o acordar, mas Arianne contivera-se. Grandison parecera um tipo agradável, menos quezilento do que Estermont e mais robusto do que Rosby. Nunca casaria com ele, contudo. Nem mesmo se Hotah se puser atrás de mim com o seu machado.

Ninguém veio casar com ela no dia seguinte, nem no outro. Cedra também não regressou. Arianne tentou conquistar Morra e Mellei da mesma forma, mas não resultou. Se tivesse conseguido apanhar uma delas sozinha podia ter alguma esperança, mas, juntas, as irmãs eram uma muralha. Por essa altura, a princesa teria achado bem-vindo um toque de um ferro quente, ou uma noite passada na roda. A solidão era capaz de a levar à loucura. Mereço o machado de um carrasco por aquilo que fiz, mas ele nem sequer me dará isso. Mais depressa me trancará e esquecerá que eu existi. Perguntou a si própria se o Meistre Caleotte estaria a traçar uma proclamação para nomear o irmão Quentyn herdeiro de Dorne.

Os dias chegaram e partiram, um atrás do outro, tantos que Arianne perdeu a conta ao tempo que passara aprisionada. Deu por si a passar cada vez mais tempo na cama, até chegar ao ponto de não se levantar de todo, salvo para usar a latrina. As refeições que os criados traziam arrefeciam, intocadas. Arianne dormia e acordava e voltava a dormir, e continuava a sentir-se demasiado cansada para se levantar. Rezava à Mãe pedindo misericórdia e ao Guerreiro em busca de coragem, e depois dormia mais um pouco. Novas refeições substituíam as antigas, mas ela também não as comia. Uma dia em que se sentiu especialmente forte, levou toda a comida até à janela e atirou-a para o pátio, para que não a tentasse. O esforço deixou-a exausta, de modo que gatinhou para a cama e levou meio dia a dormir.

E então chegou um dia em que uma mão rude a acordou, sacudindo-a pelo ombro.

— Pequena princesa — disse uma voz que conhecia desde a infância. — Levantai-vos e vesti-vos. O príncipe chamou-vos. — Areo Hotah, o seu velho amigo e protector, estava em pé junto dela. Estava a falar com ela. Arianne sorriu, ensonada. Era bom ver aquela cara vincada, cheia de cicatrizes, e ouvir a sua voz áspera e profunda e o forte sotaque de Norvos.

— O que fizeste com Cedra?

— O príncipe mandou-a para os Jardins de Água — disse Hotah. — Ele contar-vos-á. Primeiro tendes de vos lavardes e comer.

Devia ter o aspecto de uma miserável criatura. Arianne saiu com dificuldade da cama, fraca como uma gatinha.

— Manda Morra e Mellei preparar um banho — disse-lhe — e diz a Timoth que me traga um pouco de comida. Nada de pesado. Um pouco de caldo frio e um bocado de pão e fruta.

— Sim — disse Hotah. Nunca ouvira som mais adorável.

O capitão esperou lá fora enquanto a princesa se banhava, escovava o cabelo e comia frugalmente algum do queijo e fruta que lhe tinham trazido. Bebeu um pouco de vinho para sossegar o estômago. Estou assustada, compreendeu, pela primeira vez na vida sinto medo do meu pai. Aquilo fê-la rir tanto que deitou vinho pelo nariz. Quando chegou a altura de se vestir, escolheu um vestido simples de linho cor de marfim, com gavinhas e uvas purpúreas bordadas em volta das mangas e do corpete. Não pôs jóias. Tenho de me mostrar casta, humilde e contrita. Tenho de me atirar aos pés dele e suplicar perdão, senão posso nunca mais ouvir outra voz humana.

Quando finalmente ficou pronta, caíra o ocaso. Arianne julgara que Hotah a levaria até à Torre do Sol para ouvir o julgamento do pai, mas em vez disso entregou-a no aposento privado do pai, onde foram encontrar Doran Martell sentado atrás de uma mesa de cryvasse, com as pernas gotosas apoiadas num apoio almofadado para os pés. Estava a brincar com um elefante de ónix, virando-o nas mãos avermelhadas e inchadas. O príncipe parecia pior do que alguma vez o vira. Tinha a cara pálida e entumecida, as articulações tão inflamadas que lhe doía só de olhar para elas. Vê-lo assim fez com que o coração de Arianne se estendesse para o pai… mas sem que soubesse porquê não se conseguiu levar a ajoelhar e suplicar, como planeara.

— Pai — preferiu dizer.

Quando ele ergueu a cabeça para a olhar, tinha os olhos escuros enevoados de dor. Será a gota?, perguntou Arianne a si própria. Ou serei eu?

— Um povo estranho e subtil, os volantenos — murmurou, enquanto punha o elefante de parte. — Vi Volantis uma vez, a caminho de Norvos, onde me encontrei pela primeira vez com Mellario. Os sinos estavam a tocar, e os ursos dançavam nos degraus. Areo deve lembrar-se desse dia.

— Lembro — ecoou Areo Hotah na sua voz profunda. — Os ursos dançavam e os sinos tocavam, e o príncipe vinha vestido de vermelho, dourado e laranja. A minha senhora perguntou-me quem era aquele que tanto brilhava.

O Príncipe Doran fez um sorriso tristonho.

— Deixa-nos, capitão.

Hotah bateu com o cabo do seu machado no chão, girou sobre os calcanhares, e retirou-se.

— Eu disse-lhes para porem um tabuleiro de cryvasse nos teus aposentos — disse o pai quando ficaram sós.

— Com quem se pretendia que eu jogasse? — Porque está ele a falar de um jogo? Ter-lhe-á a gota roubado os miolos?

— Contigo. Às vezes é melhor estudar um jogo antes de se tentar jogá-lo. Quão bem conheces o jogo, Arianne?

— Suficientemente bem para jogar.

— Mas não para ganhar. O meu irmão gostava do combate pelo combate, mas eu só jogo os jogos que posso ganhar. O cryvasse não é para mim. — Estudou o rosto dela por um longo momento antes de dizer: — Porquê? Diz-me isso, Arianne. Diz-me porquê.

— Pela honra da nossa Casa. — A voz do pai deixara-a zangada. Soava tão triste, tão exausto, tão fraco. És um príncipe!, quis gritar. Devias estar em fúria! — A vossa docilidade envergonha Dorne inteira, pai. O vosso irmão foi para Porto Real em vosso lugar, e eles mataram-no!

— E achas que eu não sei disso? Oberyn está comigo de cada vez que fecho os olhos.

— Dizendo-vos para os abrirdes, sem dúvida. — Arianne sentou-se ao tabuleiro de cryvasse, em frente ao pai.

— Não te dei licença para te sentares.

— Então chamai Hotah e chicoteai-me pela minha insolência. Sois o Príncipe de Dorne. Podeis fazê-lo. — Tocou numa das peças de cryvasse, o cavalo pesado. — Apanhastes Sor Gerold?

Ele abanou a cabeça.

— Bem gostaria que tivéssemos apanhado. Foste uma tola por o teres metido nisto. O Estrela Negra é o homem mais perigoso de Dorne. Tu e ele causastes-nos um grande dano.

Arianne quase sentiu receio de perguntar.

— Myrcella. Ela está…?

— … morta? Não, embora o Estrela Negra tenha feito o seu melhor. Todos os olhos estavam no teu cavaleiro branco, de modo que ninguém parece ter grandes certezas sobre o que aconteceu exactamente, mas parece que o cavalo dela recuou perante o dele no último instante, evitando que o Estrela Negra cortasse o topo do crânio da rapariga. Mesmo assim, o golpe abriu-lhe a cara até ao osso e cortou-lhe a orelha direita. O Meistre Caleotte conseguiu salvar-lhe a vida, mas não há cataplasma ou poção capaz de lhe restaurar o rosto. Ela era minha protegida, Arianne. Prometida ao teu irmão e sob a minha protecção. Desonraste-nos a todos.

— Nunca lhe desejei qualquer mal — insistiu Arianne. — Se Hotah não tivesse interferido…

— … terias coroado Myrcella como rainha, para originar uma rebelião contra o irmão. Em vez duma orelha, teria perdido a vida.

— Só se perdêssemos.

— Se? A palavra é quando. Dorne é o menos populoso dos Sete Reinos. O Jovem Dragão achou por bem fazer todos os nossos exércitos maiores quando escreveu aquele seu livro, para tornar a sua conquista mais gloriosa na mesma proporção, e nós achámos por bem regar a semente que ele plantou e deixar os nossos inimigos julgar-nos mais poderosos do que somos, mas uma princesa devia conhecer a verdade. O valor é fraco substituto para os números. Dorne não pode esperar ganhar uma guerra contra o Trono de Ferro. Sozinho, não. E no entanto, pode bem ser isso o que tu nos deste. Sentes-te orgulhosa? — O príncipe não lhe deu tempo para responder. — Que vou eu fazer contigo, Arianne?

Parte de si quis dizer perdoa-me, mas as palavras dele tinham-na ferido demasiado.

— Ora, fazei o que fazeis sempre. Nada.

— Tu tornas difícil a um homem engolir a sua fúria.

— É melhor parardes de engolir, é provável que vos engasgueis com ela. — O príncipe não respondeu. — Dizei-me como soubestes dos meus planos.

— Eu sou o Príncipe de Dorne. Os homens procuram cair-me nas graças.

Alguém contou.

— Sabíeis, e no entanto permitistes-nos na mesma fugir com Myrcella. Porquê?

— Foi esse o meu erro, e revelou ser um erro grave. És minha filha, Arianne. A rapariguinha que costumava correr para mim quando esfolava o joelho. Achei difícil acreditar que conspirarias contra mim. Tive de saber a verdade.

— Agora sabeis. Quero saber quem me denunciou.

— Eu também quereria, se estivesse no teu lugar.

— Não mo direis?

— Não consigo imaginar nenhuma razão para o fazer.

— Julgais que eu não sou capaz de descobrir a verdade sozinha?

— Tenta à vontade. Até que descubras, terás de desconfiar de todos eles… e ter um pouco de desconfiança é bom para uma princesa. — O Príncipe Doran suspirou. — Desiludes-me, Arianne.

— Diz o corvo ao melro. Há anos que me desapontais, pai. — Não pretendera ser tão frontal com ele, mas as palavras jorravam. Pronto, agora já o disse.

— Eu sei. Sou demasiado brando, fraco e cauteloso, demasiado clemente para com os nossos inimigos. Neste momento, contudo, tu precisas dum pouco dessa clemência, parece-me. Devias estar a suplicar o meu perdão em vez de procurares provocar-me mais.

— Só peço clemência para os meus amigos.

— Que nobre da tua parte.

— O que eles fizeram, foi por me amarem. Não merecem morrer em Sinistres Gris.

— Por acaso, concordo. À excepção do Estrela Negra, os teus outros conspiradores não foram mais do que crianças tontas. Apesar disso, isto não foi um inofensivo jogo de cryvasse. Tu e os teus amigos estavam a brincar às traições. Eu podia ter mandado cortar-lhes as cabeças.

— Podíeis, mas não o fizestes. Dayne, Dalt, Santagar… não, nunca vos atreveríeis a transformar essas Casas em inimigos.

— Atrevo-me a mais do que tu sonhas… mas deixemos isso de momento. Sor Andrey foi enviado para Norvos a fim de servir a senhora tua mãe durante três anos. Garin passará os próximos dois anos em Tyrosh. Da sua família entre os órfãos recebi dinheiro e reféns. A Senhora Sylva não foi punida por mim, mas está em idade de casar. O pai despachou-a para Pedraverde a fim de se casar com o Lorde Estermont. Quanto a Arys Oakheart, escolheu o seu próprio destino e enfrentou-o corajosamente. Um cavaleiro da Guarda Real… o que foi que lhe fizeste?

— Fodi-o, pai. Ordenastes-me que entretivesse os nossos nobres visitantes, se bem me lembro.

O rosto dele enrubesceu.

— Bastou isso?

— Disse-lhe que uma vez que Myrcella fosse rainha nos daria licença para casar. Ele queria-me para esposa.

— Fizeste tudo o que pudeste para impedir que ele desonrasse os seus votos, certamente — disse o pai.

Foi a vez dela corar. A sedução de Sor Arys levara meio ano. Embora ele afirmasse ter conhecido outras mulheres antes de vestir o branco, ela nunca o teria adivinhado pela forma como agia. As suas carícias eram desajeitadas, os beijos nervosos, e da primeira vez que se deitaram juntos ele derramara a semente na sua coxa quando ela o guiava para si com a mão. Pior, fora consumido pela vergonha. Se tivesse um dragão por cada vez que ele sussurrara “Não devíamos estar a fazer isto” estaria mais rica do que os Lannister. Terá ele carregado sobre Areo Hotah na esperança de me salvar?, perguntou Arianne a si própria. Ou tê-lo-á feito para fugir, para lavar a desonra com o sangue da sua vida?

— Ele amava-me — ouviu-se a dizer. — Morreu por mim.

— Se assim foi, pode bem ser apenas o primeiro de muitos. Tu e as tuas primas queriam a guerra. Podeis ter o que desejais. Outro cavaleiro da Guarda Real aproxima-se lentamente de Lançassolar neste mesmo momento. Sor Balon Swann traz-me a cabeça da Montanha. Os meus vassalos têm andado a atrasá-lo, para me arranjar algum tempo. Os Wyl retiveram-no no Caminho do Espinhaço durante oito dias, a caçar com e sem falcões, e o Lorde Yronwood banqueteou-o por uma quinzena quando ele emergiu das montanhas. Actualmente está na Penha, onde a Senhora Jordayne organizou jogos em sua honra. Quando chegar a Monte Espírito encontrará a Senhora Toland decidida a ultrapassá-la. Mas mais cedo ou mais tarde, Sor Balon tem de chegar a Lançassolar, e quando isso acontecer ele esperará ver a Princesa Myrcella… e Sor Arys, seu Irmão Ajuramentado. O que lhe diremos, Arianne? Deverei dizer que Oakheart pereceu num acidente de caça, ou duma queda nalguma escada escorregadia? Talvez Arys tenha ido nadar nos Jardins de Água, escorregado no mármore, batido com a cabeça e morrido afogado?

— Não — disse Arianne. — Dizei que ele morreu a defender a sua pequena princesa. Dizei a Sor Balon que o Estrela Negra tentou matá-la e Sor Arys se interpôs entre ambos e lhe salvou a vida. — Era assim que os cavaleiros brancos da Guarda Real deviam morrer, dando as vidas pelas daqueles que tinham jurado proteger. — Sor Balon pode ficar desconfiado, como vós ficastes quando os Lannister mataram a vossa irmã e os filhos, mas não terá provas…

— … até falar com Myrcella. Ou terá essa corajosa criança de sofrer também um trágico acidente? Se assim for, isso significará a guerra. Não haverá mentira que salve Dorne da fúria da rainha se a sua filha perecer enquanto estiver ao meu cuidado.

Ele precisa de mim, compreendeu Arianne. Foi por isso que me mandou buscar.

— Eu podia dizer a Myrcella o que dizer, mas porque o faria?

Um espasmo de ira percorreu a cara do pai.

— Previno-te, Arianne, estou sem paciência.

— Comigo? — Isto é tão típico. — Para com o Lorde Tywin e os Lannister sempre tivestes a indulgência de Baelor, o Abençoado, mas para o vosso sangue, nada.

— Confundes indulgência com paciência. Trabalhei para a queda de Tywin Lannister desde o dia em que me informaram sobre Elia e os filhos. Era minha esperança despi-lo de tudo o que ele tinha de mais querido antes de o matar, mas ao que parece o seu filho anão roubou-me esse prazer. Retiro um certo consolo em saber que morreu uma morte cruel às mãos do monstro que ele próprio gerou. Mas não importa. O Lorde Tywin está a uivar nas profundezas do inferno… onde milhares se lhe irão juntar, se a tua loucura se transformar em guerra. — O pai fez um trejeito, como se a própria palavra lhe fosse dolorosa. — É isso que tu queres?

A princesa recusou-se a deixar-se intimidar.

— Quero as minhas primas libertadas. Quero o meu tio vingado. Quero os meus direitos.

— Os teus direitos?

— Dorne.

— Terás Dorne depois de eu morrer. Estás assim tão ansiosa por te veres livre de mim?

— Eu devia devolver-vos essa pergunta, pai. Há anos que andais a tentar ver-vos livre de mim.

— Isso não é verdade.

— Não? Vamos perguntar ao meu irmão?

— Trystane?

— Quentyn.

— Que há com ele?

— Onde está?

— Está com a hoste do Lorde Yronwood no Caminho do Espinhaço.

— Realmente mentis bem, pai, concedo-vos isso. Nem sequer pestanejastes. Quentyn foi para Lys.

— De onde te veio essa ideia?

— Disse-me um amigo. — Ela também podia ter segredos.

— O teu amigo mentiu. Dou-te a minha palavra, o teu irmão não foi para Lys. Juro pelo sol e lança e pelos Sete.

Arianne não se deixava enganar com tanta facilidade.

— Então é Myr? Tyrosh? Eu sei que ele está algures para lá do mar estreito, a contratar mercenários para me roubar o direito de nascença.

A cara do pai escureceu.

— Essa desconfiança não te honra, Arianne. Devia ser Quentyn a conspirar contra mim. Mandei-o para longe quando não passava de uma criança, jovem demais para compreender as necessidades de Dorne. Anders Yronwood foi mais pai para ele do que eu, e no entanto o teu irmão mantém-se leal e obediente.

— E porque não? Favorecei-lo e sempre o haveis feito. Ele parece-se convosco, pensa como vós e tencionais dar-lhe Dorne, não vos incomodeis em negá-lo. Eu li a vossa carta. — As palavras ainda ardiam brilhantes como fogo na sua memória. — “Um dia ocuparás o meu lugar e governarás Dorne inteira”, escrevestes-lhe. Dizei-me, pai, quando foi que decidistes deserdar-me? Foi no dia em que Quentyn nasceu, ou no dia em que eu nasci? O que vos fiz eu para vos levar a odiar-me tanto? — Para sua fúria, havia lágrimas nos seus olhos.

— Eu nunca te odiei. — A voz do Príncipe Doran era frágil como pergaminho, e cheia de dor. — Arianne, não compreendes.

— Negais ter escrito essas palavras?

— Não. Isso foi quando Quentyn foi para Yronwood. Sim, pretendia que ele me sucedesse. Tinha outros planos para ti.

— Oh, sim — disse ela, cheia de escárnio — e que planos. Gyles Rosby. O Ben Cego Beesbury. O Barbagris Grandison. Eram esses os vossos planos.

Não lhe deu qualquer hipótese de responder.

— Eu sei que é meu dever dar um herdeiro a Dorne, nunca me esqueci disso. Teria casado, e de bom grado, mas os homens que me trouxestes eram insultos. Com cada um deles cuspistes em mim. Se alguma vez sentistes algum amor por mim, porquê oferecer-me a Walder Frey?

— Porque sabia que o desdenharias. Eu tinha de ser visto a tentar encontrar-te um consorte depois de chegares a uma certa idade, caso contrário teria levantado suspeitas, mas não me atrevi a trazer-te um homem que pudesses aceitar. Tu estavas prometida, Arianne.

Prometida? Arianne fitou-o, incrédula.

— Que estais vós a dizer? É mais alguma mentira? Nunca dissestes…

— O pacto foi selado em segredo. Tencionava contar-te quando tivesses idade suficiente… quando chegasses à idade adulta, pensava, mas…

— Tenho vinte e três anos, há sete que sou uma mulher feita.

— Eu sei. Se te mantive na ignorância durante tanto tempo, foi só para te proteger. Arianne, a tua natureza… para ti, um segredo era apenas uma história especial para murmurar a Garin e Tyene à noite na cama. Garin mexerica como só os órfãos são capazes, e Tyene não guarda segredos de Obara e da Senhora Nym. E se elas soubessem… Obara gosta demasiado de vinho, e Nym é demasiado chegada aos gémeos Fowler. E a quem poderiam os gémeos Fowler fazer confidências? Não podia correr o risco.

Sentiu-se perdida, confundida. Prometida. Eu fui prometida.

— Quem é? A quem estive eu prometida todos estes anos?

— Não importa. Ele está morto.

Isso deixou-a mais desconcertada do que nunca.

— Os velhos são tão frágeis. Foi uma anca partida, um resfriado, a gota?

— Foi um vaso de ouro derretido. Nós, os príncipes, fazemos os nossos cuidadosos planos e os deuses põem-nos todos de pantanas. — O Príncipe Doran fez um gesto fatigado com uma mão irritada e vermelha. — Dorne será tua. Tens a minha palavra quanto a isso, se a minha palavra ainda tiver algum significado para ti. O teu irmão Quentyn tem um caminho mais duro a percorrer.

— Que caminho? — Arianne olhou-o com suspeita. — Que estais a guardar para vós? Que os Sete me salvem, mas estou farta de segredos. Contai-me o resto, pai… ou então nomeai Quentyn vosso herdeiro, mandai chamar Hotah e o seu machado e deixai-me morrer ao lado das minhas primas.

— Pensas mesmo que eu faria mal às filhas do meu irmão? — O pai fez uma careta. — A Obara, Nym e Tyene nada falta à excepção da liberdade, e Ellaria e as filhas estão alegremente escondidas nos Jardins de Água. Dorea anda por lá, sorrateira, a derrubar laranjas das árvores com a sua maça de armas, e Elia e Obella transformaram-se no terror das lagoas. — Suspirou. — Não se passou assim tanto tempo desde que eras tu a brincar naquelas lagoas. Costumavas montar aos ombros de uma rapariga mais velha… uma rapariga alta de cabelo amarelo como palha…

— Jeyne Fowler, ou a irmã Jennelyn. — Tinham-se passado anos sem que Arianne pensasse nisso. — Oh, e Frynne, o pai era um ferreiro. Ela tinha cabelo castanho. Mas Garin era o meu preferido. Quando montava Garin ninguém conseguia derrotar-nos, nem mesmo Nym e aquela rapariga Tyroshi de cabelo verde.

— Essa rapariga de cabelo verde era a filha do Arconte. Esperava-se que eu te enviasse para Tyrosh no lugar dela. Terias servido o Arconte como copeira e ter-te-ias encontrado em segredo com o teu prometido, mas a tua mãe ameaçou ferir-se se eu lhe roubasse mais algum filho, e eu… não lhe consegui fazer tal coisa.

A história cada vez se torna mais estranha.

— Foi para aí que Quentyn foi? Para Tyrosh, a fim de cortejar a filha de cabelo verde do Arconte?

O pai pegou numa peça de cryvasse.

— Tenho de saber como te chegou ao conhecimento que o Quentyn estava no estrangeiro. O teu irmão partiu com Cletus Yronwood, o Meistre Kedry e três dos melhores jovens cavaleiros do Lorde Yronwood numa longa e perigosa viagem, com um resultado incerto no fim. Foi para nos devolver aquilo que é desejo do nosso coração.

Ela estreitou os olhos.

— O que é o desejo do nosso coração?

— A vingança. — A voz dele era baixa, como se tivesse receio de alguém estar a ouvir. — A justiça. — O Príncipe Doran pressionou o dragão de ónix contra a palma da mão dela com os seus dedos inchados e gotosos, e murmurou: — Fogo e sangue.

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