O Natal de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 1 de 7

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O Natal de Poirot

Parte 1 - 22 de dezembro

Parte 1

 

22 de dezembro

 

I

Stephen levantou a gola do casaco, enquanto caminhava a passos rápidos pela plataforma. Do alto vinha uma névoa densa que cobria a estação. Grandes locomotivas sibilavam soberbamente, lançando nuvens de vapor no ar frio e úmido. Tudo estava sujo e coberto de fuligem.

“Que país imundo, que cidade imunda!”, pensou Stephen, com desgosto.

O entusiasmo que sentira ao ver Londres pela primeira vez, com suas lojas, seus restaurantes, mulheres bem-vestidas e atraentes, havia desaparecido. Agora via a cidade como um cintilante diamante falso, engastado em uma joia encardida.

E se ele estivesse de volta à África do Sul agora... Stephen sentiu uma pontada de saudades. Sol, céu azul, jardins de límpidas flores azuis, sebes de magnólias, ipomeias azuis agarradas às paredes das choupanas.

E aqui, sujeira, fuligem e multidões intermináveis e incessantes movendo-se apressadas e acotovelando-se. Formigas operárias correndo diligentes em torno de seu formigueiro.

Por um momento ele pensou: “Gostaria de não ter vindo...”.

Então Stephen se lembrou do seu propósito, e seus lábios cerraram-se em uma linha de determinação. Não, com os diabos, ele seguiria em frente! Ele havia planejado isso por anos. Sempre quisera fazer o que iria fazer. Sim, ele seguiria em frente!

Aquela relutância momentânea, aquele súbito questionamento: “Por quê? Vale a pena? Por que remexer no passado? Por que não esquecer a coisa toda?”. Tudo isso era apenas fraqueza. Ele não era um garoto para ser jogado de um lado para o outro por caprichos passageiros. Era um homem de quarenta anos, seguro, resoluto. Seguiria em frente. Faria o que tinha vindo à Inglaterra para fazer.

Stephen embarcou no trem e seguiu pelo corredor, procurando por um lugar. Ele havia dispensado um carregador e estava levando sua própria mala de couro cru. Procurou de vagão em vagão. O trem estava cheio. Faltavam apenas três dias para o Natal. Stephen Farr olhou com desagrado para os vagões lotados.

Pessoas! Incessantes, inumeráveis pessoas! E todas tão... tão... Qual era a palavra?... Tão enfadonhas! Tão parecidas, tão terrivelmente parecidas! “Aquelas que não tinham rostos de ovelhas, tinham rostos de coelhos”, ele pensou. Algumas conversavam e se alvoroçavam. Alguns homens pesados de meia-idade grunhiam. Esses mais pareciam porcos. Mesmo as garotas, esbeltas, de rostos ovais e lábios escarlate, eram de uma uniformidade desanimadora.

Ele pensou, com súbita nostalgia, na savana aberta, solitária e queimada pelo sol...

Ao olhar para dentro de mais um vagão, Stephen de repente perdeu o fôlego. Aquela garota era diferente. Cabelo escuro, uma palidez leitosa e luzidia, e olhos com a profundidade e a escuridão da noite. Os olhos orgulhosos e tristes do Sul... Não era certo aquela garota sentada naquele trem entre pessoas enfadonhas e sem graça, não era certo que ela estivesse a caminho do melancólico interior da Inglaterra. Ela deveria estar em uma sacada, com uma rosa entre os lábios, um xale de renda negra enfeitando sua cabeça orgulhosa, e deveria haver poeira, calor e o cheiro de sangue no ar, o cheiro da praça de touros... Ela deveria estar em um lugar esplêndido, e não apertada no canto de um vagão da terceira classe.

Stephen era um homem observador. Ele não deixou de notar o mau estado de seu casaquinho e de sua saia pretos, a má qualidade das luvas de pano, os sapatos baratos e a nota dissonante de uma bolsa vermelho-fogo. Mesmo assim, esplendor era a qualidade que ele associava a ela. Ela era esplêndida, fina, exótica...

Que diabos estaria fazendo no país dos nevoeiros e dos dias gelados, das formigas diligentes e apressadas?

“Tenho de descobrir quem ela é e o que está fazendo aqui... Tenho de descobrir...”, ele pensou.

 

II

Pilar estava sentada espremida contra a janela e pensava em como era esquisito o cheiro dos ingleses... Era o que mais a impressionara até aquele momento na Inglaterra: a diferença de cheiro. Não havia alho nem poeira, e muito pouco perfume. Naquele vagão havia um cheiro frio e sufocante, o cheiro de enxofre dos trens, o cheiro de sabonete e outro cheiro muito desagradável, que ela achava que vinha da gola de pele da mulher robusta sentada ao lado. Pilar farejou com delicadeza, inalando relutante o odor de naftalina. “Que perfume estranho para se usar”, ela pensou.

Um apito soou, uma voz estentórea gritou algo, e o trem, em lentos solavancos, deixou a estação. Haviam partido. Ela estava a caminho...

Seu coração bateu um pouco mais rápido. Daria tudo certo? Ela seria capaz de realizar o que pretendia? Certamente, certamente. Ela havia planejado com tanto cuidado... Estava preparada para qualquer eventualidade. Sim, ela conseguiria... ela tinha de conseguir...

A curva da boca vermelha de Pilar virou-se para cima. Tornou-se cruel de súbito, aquela boca. Cruel e gananciosa como a boca de uma criança ou de um gatinho, uma boca que sabia apenas de seus próprios desejos e que ainda não conhecia o sentimento de pena.

Ela olhou à sua volta com a curiosidade franca de uma criança. Todas aquelas pessoas, sete delas. Que engraçados eram os ingleses! Pareciam todos tão ricos, tão prósperos, suas roupas, suas botas. Ah! Sem dúvida a Inglaterra era um país muito rico, como ela sempre ouvira falar. Mas eles não eram nem um pouco alegres, não, decididamente, não eram alegres.

Aquele homem parado no corredor era muito bonito... Pilar achou-o muito bonito. Ela gostou de seu rosto bronzeado, de seu nariz reto e de seus ombros largos. Mais rápida do que qualquer garota inglesa, Pilar percebera que o homem a admirava. Ela não havia olhado de maneira direta para ele nenhuma vez, mas sabia muito bem com que frequência e de que modo ele a estivera olhando.

Registrou os fatos sem muito interesse ou emoção. Pilar vinha de um país onde os homens tinham o hábito de olhar para as mulheres e não faziam questão de esconder isso. Ela se perguntou se ele era inglês e se convenceu de que não era.

“Ele é vivo demais, real demais para ser inglês”, concluiu Pilar. “E, no entanto, ele é louro. Talvez seja americano.” Ele era, ela pensou, parecido com os atores que vira nos filmes do velho Oeste.

Um funcionário abriu caminho pelo corredor.

– Almoço, por favor. Almoço! Ocupem seus lugares para o almoço.

Os sete ocupantes do compartimento de Pilar tinham bilhetes para o almoço. Levantaram-se todos ao mesmo tempo, e o compartimento tornou-se subitamente deserto e tranquilo.

Pilar fechou depressa a janela, que havia sido aberta alguns centímetros na parte de cima por uma senhora de cabelos grisalhos e aparência de brigona que ocupava um lugar no canto oposto. Então ela se recostou confortavelmente no assento e espiou pela janela os subúrbios da região norte de Londres. Pilar não se voltou ao ouvir o ruído da porta deslizando. Era o homem do corredor, e Pilar sabia, é claro, que ele entrara no compartimento para falar com ela.

Ela continuou a olhar pela janela, pensativa.

Stephen Farr disse:

– Você não gostaria que eu abrisse a janela?

Pilar respondeu de maneira recatada.

– Pelo contrário. Eu a fechei agora mesmo.

Ela falava um inglês perfeito, mas com um ligeiro sotaque.

Durante a pausa que se seguiu, Stephen pensou:

“Uma voz deliciosa, ensolarada... Quente como uma noite de verão...”

Pilar pensou:

“Gosto da voz dele. É forte e potente. Ele é atraente... sim, ele é atraente.”

Stephen disse:

– O trem está muito cheio.

– Ah, sim, é verdade. Suponho que as pessoas fujam de Londres por que lá é muito escuro.

Pilar não fora criada para acreditar que era crime falar com homens estranhos em trens. Ela podia tomar conta de si mesma como qualquer garota, mas não tinha tabus rígidos.

Se Stephen tivesse sido educado na Inglaterra, poderia ter se sentido pouco à vontade ao iniciar uma conversa com uma jovem. Mas Stephen era uma alma amigável, que achava muito natural falar com quem ele tivesse vontade.

Ele sorriu sem qualquer embaraço e disse:

– Londres é um lugar terrível, não é?

– Ah, sim. Não gosto nem um pouco da cidade.

– Nem eu.

Pilar disse:

– Você não é inglês, é?

– Sou britânico, mas da África do Sul.

– Ah, compreendo, é por isso.

– Você chegou há pouco do exterior?

Pilar assentiu.

– Vim da Espanha.

Stephen estava interessado.

– Da Espanha, é mesmo? Você é espanhola, então?

– Sou meio espanhola. Minha mãe era inglesa. É por isso que falo inglês tão bem.

– E essa história de guerra? – perguntou Stephen.

– É muito ruim, sim, muito triste. Houve muitos estragos, é verdade.

– De que lado você está?

A opinião política de Pilar parecia um tanto vaga. Ela explicou que, no vilarejo de onde vinha, ninguém prestara muita atenção na guerra.

– Veja bem, ela não estava próxima de nós. O prefeito, é claro, é um funcionário do governo, e por isso o apoia, e o padre apoia o general Franco, mas a maioria das pessoas está ocupada com as videiras e a terra e não tem tempo para entrar nessas questões.

– Mas não ocorreu nenhuma batalha na sua região?

Pilar disse que não.

– Mas depois – ela explicou –, eu percorri todo o país de carro, e havia muita destruição. Vi uma bomba cair e explodir um carro, e outra destruiu uma casa. Foi emocionante!

Stephen Farr deu um sorriso um pouco torto.

– E essa foi a impressão que você teve?

– Foi uma incomodação também – explicou Pilar. – Porque eu queria seguir em frente, mas o motorista do meu carro foi morto.

Stephen perguntou enquanto a observava:

– Isso não a perturbou?

Os grandes olhos negros de Pilar arregalaram-se:

– Todos vamos morrer! Não é? Se vier ligeiro do céu, de uma hora para outra, bum, é o mesmo que morrer de qualquer outra maneira. Vive-se por algum tempo, sim, e depois se morre. É o que acontece neste mundo.

Stephen Farr riu.

– Não creio que você seja uma pacifista.

– Você não crê que eu seja o quê? – Pilar parecia perplexa com uma palavra que ainda não havia entrado em seu vocabulário.

– Você perdoa seus inimigos, senõrita?

Pilar balançou a cabeça.

– Não tenho inimigos. Mas se tivesse...

– Bem?

Ele a estava observando, fascinado mais uma vez pela boca doce e cruel curvada para cima.

Pilar disse seriamente:

– Se eu tivesse um inimigo, se uma pessoa me odiasse e eu a odiasse, então eu cortaria a garganta dela assim...

Ela fez um gesto inconfundível.

E foi tão rápido e grosseiro que Stephen Farr ficou pasmo por um momento. Ele disse: – Você é uma jovem sanguinária!

Pilar perguntou, impassível:

– O que você faria com seu inimigo?

Ele começou a falar, mas parou e a encarou, e riu alto.

– Boa pergunta... – disse ele. – Boa pergunta!

Pilar disse de maneira reprovadora:

– Mas com certeza você sabe.

Stephen parou de rir, respirou fundo e disse em voz baixa:

– Sim, eu sei...

Então, com uma rápida mudança de modos, ele perguntou:

– O que a fez vir à Inglaterra?

Pilar respondeu com certa reserva.

– Vou ficar com parentes, meus parentes ingleses.

– Compreendo.

Ele se recostou no assento, estudando-a, imaginando como seriam esses parentes ingleses de quem ela falava, imaginando o que pensariam dessa espanhola desconhecida... Tentava imaginá-la em meio a uma sisuda família inglesa na época de Natal.

Pilar perguntou:

– É bonita a África do Sul, não é?

Ele começou a contar sobre a África do Sul. Pilar escutava com a atenção satisfeita de uma criança ouvindo uma história. Ele gostou das perguntas dela, ingênuas, porém astutas, e se divertiu inventando um conto de fadas exagerado.

O retorno dos verdadeiros ocupantes do compartimento colocou fim nessa diversão. Stephen se levantou, sorriu olhando-a nos olhos e tomou o caminho de volta para o corredor.

Enquanto Stephen esperava por um instante no vão da porta para que uma senhora idosa entrasse, seus olhos caíram sobre a etiqueta da obviamente estrangeira maleta de palha de Pilar. Ele leu o nome com interesse: Srta. Pilar Estravados. Mas, quando viu o endereço, seus olhos se arregalaram de incredulidade e de outro sentimento: Mansão Gorston, Longdale, Addelsfield.

Voltou-se um pouco, encarando a garota com uma nova expressão: perplexa, ofendida, desconfiada... Stephen saiu para o corredor e ficou ali fumando um cigarro e franzindo o cenho...

 

III

Na grande sala de estar azul e dourada da mansão Gorston, Alfred Lee e Lydia, sua esposa, discutiam seus planos para o Natal. Alfred era um homem de meia-idade e forte, com um rosto afável e suaves olhos castanho-claros. Sua voz era baixa e precisa, com uma dicção bastante clara. Sua cabeça era afundada nos ombros, e ele dava uma curiosa impressão de letargia. Lydia, sua esposa, era uma mulher ágil e esguia como um galgo. Ela era magra ao extremo, mas todos os seus movimentos demonstravam uma elegância veloz e sobressaltada.

Não havia beleza em seu rosto descuidado e esquálido, mas ele tinha distinção. Sua voz era encantadora.

Alfred disse:

– Meu pai insiste! Não há nada a ser feito.

Lydia controlou um súbito movimento de impaciência. Ela disse: – Você tem sempre de ceder a ele?

– Ele é muito velho, querida...

– Ah, eu sei... eu sei!

– Ele espera que as coisas sejam feitas à maneira dele.

Lydia disse secamente:

– É natural, já que sempre foram feitas assim! Mas cedo ou tarde, Alfred, você terá de se impor.

– O que você quer dizer com isso, Lydia?

Ele a encarou, incomodado e sobressaltado de modo tão evidente que, por um momento, ela mordeu o lábio e pareceu em dúvida sobre continuar o que dizia.

Alfred Lee repetiu:

– O que você quer dizer com isso, Lydia?

Ela meneou seus ombros magros e graciosos e disse, tentando escolher as palavras com cuidado: – Seu pai é... tende a ser... tirânico...

– Ele está velho.

– E ficará mais velho. E, em consequência disso, mais tirânico. Onde isso vai terminar? Ele já dita nossas vidas completamente. Não podemos fazer um plano que seja nosso! Se o fazemos, sempre há o risco de contrariá-lo.

Alfred disse:

– Papai espera vir em primeiro lugar. Lembre-se de que ele é muito bom para nós.

– Ah! Bom para nós.

– Muito bom para nós. – Alfred falou, um tanto carrancudo.

Lydia disse com calma:

– Você quer dizer em termos financeiros?

– Sim. As necessidades dele são muito simples. Mas ele não é mesquinho com dinheiro. Você pode gastar o que quiser com roupas e com esta casa, e as contas são pagas sem um pio. Somente na semana passada, ganhamos dele um carro novo.

– Em relação a dinheiro, admito que seu pai seja muito generoso – disse Lydia. – Mas em troca ele espera que nos comportemos como escravos.

– Escravos?

– Foi isso mesmo que eu disse. Você é escravo dele, Alfred. Se planejamos uma viagem e seu pai de repente não quer que a façamos, você cancela os preparativos e fica sem dizer nada! Se, por capricho, ele decide nos mandar para longe, nós vamos... Não temos vida própria, não temos independência.

O marido disse angustiado:

– Eu gostaria que você não falasse assim, Lydia. É muito ingrato. Meu pai faz tudo por nós...

Ela mordeu os lábios para conter uma resposta. Lydia meneou os ombros magros e graciosos mais uma vez.

Alfred disse:

– Sabe, Lydia, o velho gosta muito de você...

Sua esposa disse clara e distintamente:

– Eu não gosto nem um pouco dele.

– Lydia, me incomoda ouvi-la dizer essas coisas. É tão rude...

– Talvez. Mas, às vezes, nos sentimos compelidos a dizer a verdade.

– Se papai soubesse...

– Seu pai sabe muito bem que não gosto dele! Acho que isso o diverte.

– Ora, Lydia, tenho certeza de que você está errada nisso. Ele já me falou muitas vezes de como você é encantadora com ele.

– É claro que sempre fui educada. E sempre serei. Só quero que você saiba quais são meus verdadeiros sentimentos. Não gosto do seu pai, Alfred. Acho que ele é um velho tirânico e maldoso. Ele oprime você e se aproveita de seu afeto por ele. Você deveria tê-lo enfrentado anos atrás.

Alfred disse bruscamente:

– Chega, Lydia. Por favor, não diga mais nada.

Ela suspirou.

– Desculpe-me. Talvez eu esteja errada... Vamos falar dos nossos planos para o Natal. Você acha que seu irmão David virá mesmo?

– Por que não?

Ela balançou a cabeça, em dúvida.

– David é... esquisito. Lembre-se de que ele não entra nesta casa há anos. Ele era tão devotado à mãe, por certo tem mágoas em relação a este lugar.

– David sempre deixou o nosso pai nervoso – disse Alfred – com sua música e seu jeito sonhador. Papai foi, talvez, um pouco duro com ele em algumas ocasiões. Mas acho que David e Hilda virão, sim. Afinal, é época de Natal.

– Paz e boa vontade – disse Lydia. Sua boca delicada curvou-se com ironia. – Está bem! George e Magdalene virão. É provável que cheguem amanhã, pelo que disseram. Temo que Magdalene fique terrivelmente entediada.

Alfred disse com um ligeiro aborrecimento:

– Não consigo imaginar por que meu irmão George casou-se com uma garota vinte anos mais jovem do que ele! George sempre foi um idiota!

– Ele é muito bem-sucedido na sua carreira – disse Lydia. – Os eleitores gostam dele. Creio que Magdalene o ajude bastante na política.

Alfred disse devagar:

– Acho que não gosto muito dela. Ela é muito bonita, mas às vezes penso que seja como aquelas peras bonitas que se compram em certos lugares: são rosadas, macias e têm aparência lustrosa... – Ele balançou a cabeça.

– E estão estragadas por dentro? – disse Lydia. – Que engraçado você dizer isso, Alfred!

– Por que engraçado?

Ela respondeu:

– Porque você costuma ser uma pessoa tão gentil. É difícil você dizer algo rude a respeito de alguém. Irrito-me às vezes porque você não é... Como direi? Desconfiado o suficiente, não é vivido o bastante!

O marido sorriu.

– Sempre acreditei que o mundo é o que se faz dele.

Lydia disse bruscamente:

– Não! O mal não está apenas na mente. O mal existe! Você parece não ter consciência do mal no mundo. Eu tenho. Posso senti-lo. Sempre senti... Aqui nesta casa... – Ela mordeu o lábio e virou o rosto.

Alfred disse:

– Lydia...

Mas ela ergueu a mão em advertência, olhando por sobre o ombro de Alfred, para algo atrás dele. Este se voltou.

Um homem moreno de rosto suave estava parado ali de maneira respeitosa.

Lydia disse com severidade:

– O que é, Horbury?

A voz de Horbury era baixa, um mero murmúrio respeitoso.

– É o sr. Lee, madame. Ele pediu para avisá-la que haverá mais dois hóspedes para o Natal e para perguntar se a senhora poderia preparar dois quartos para eles.

Lydia disse:

– Dois hóspedes a mais?

Horbury respondeu com suavidade:

– Sim, madame, outro cavalheiro e uma jovem.

Alfred perguntou espantado:

– Uma jovem?

– Foi o que o sr. Lee disse, senhor.

Lydia disse rápido:

– Vou subir para falar com ele...

Horbury deu um pequeno passo. Foi uma mera sombra de movimento, mas parou o rápido progresso de Lydia automaticamente.

– Perdão, madame, mas o sr. Lee está dormindo seu sono da tarde. Ele determinou que não deve ser incomodado.

– Compreendo – disse Alfred. – É claro que não vamos incomodá-lo.

– Obrigado, senhor. – Horbury se retirou.

Lydia disse com veemência:

– Como eu odeio este homem! Ele se esgueira pela casa como um gato! Nunca se ouve quando ele chega ou sai.

– Também não gosto muito dele. Mas ele domina seu trabalho. Não é fácil conseguir um bom enfermeiro. E papai gosta dele, isso é o principal.

– Sim, isso é o principal, como você diz. Alfred, que conversa é esta sobre uma jovem? Que jovem?

O marido balançou a cabeça.

– Não faço ideia. Não consigo nem pensar em quem poderia ser.

Eles se encararam. Então Lydia disse, com um súbito esgar da sua boca expressiva: – Sabe o que acho, Alfred?

– O quê?

– Acho que seu pai tem se entediado ultimamente. Acho que está planejando uma pequena diversão de Natal para ele mesmo.

– Trazendo dois estranhos a uma reunião familiar?

– Não sei dos detalhes, mas imagino que seu pai esteja se preparando para se divertir.

– Espero que ele consiga algum prazer com isso – disse Alfred, sério. – Pobre velho, entrevado, um inválido após a vida cheia de aventuras que levou.

Lydia disse devagar:

– Após a vida... cheia de aventuras que ele levou.

A pausa que ela fez antes de terminar a frase deu a ela algum significado especial, embora obscuro. Alfred pareceu senti-lo. Ele corou e pareceu infeliz.

Lydia exclamou de repente:

– Não consigo imaginar como ele teve um filho como você! Vocês são dois polos opostos. E ele fascina você... você o adora!

Alfred disse com um traço de embaraço:

– Você não está indo um pouco longe, Lydia? É natural, eu diria, que um filho ame o pai. Seria antinatural não amá-lo.

Lydia disse:

– Nesse caso, a maioria dos membros desta família é... antinatural! Ah, não vamos discutir! Desculpe. Magoei você, eu sei. Acredite-me, Alfred, não foi mesmo minha intenção. Tenho enorme admiração por sua... sua... fidelidade. A lealdade é uma virtude tão rara hoje em dia. Digamos que estou com ciúme, pode ser? Se as mulheres costumam ter ciúme de suas sogras, por que não de seus sogros?

Ele colocou um braço carinhoso em torno dela.

– Você sempre diz coisas impensadas, Lydia. Não há razão para você ter ciúme.

Ela deu um beijo rápido e arrependido nele, um carinho delicado na ponta da sua orelha.

– Eu sei. Mesmo assim, Alfred, não creio que tivesse o menor ciúme de sua mãe. Gostaria de tê-la conhecido.

– Ela era uma pobre criatura – disse ele.

Sua esposa olhou para ele de maneira interessada.

– Então era assim que você a via... como uma pobre criatura... Isso é interessante.

Ele disse, em devaneio:

– Lembro-me de ela estar quase sempre doente... Muitas vezes em lágrimas... – Ele balançou a cabeça. – Ela não tinha vida.

Ainda o encarando, Lydia murmurou bem baixinho:

– Que estranho...

Mas quando ele lançou a ela um olhar questionador, Lydia balançou a cabeça e mudou de assunto.

– Já que não temos o direito de saber quem são nossos convidados misteriosos, vou lá fora terminar meu jardim.

– Está muito frio, querida, um vento cortante.

– Vou me agasalhar bem.

Ela deixou a sala. Alfred Lee, encontrando-se sozinho, ficou imóvel por alguns minutos, com o cenho um pouco franzido, e foi até a janela grande no fim da sala. Lá fora havia um terraço que acompanhava toda a extensão da casa. Ali, após alguns minutos, ele viu Lydia aparecer carregando uma cesta rasa. Ela vestia um casaco comprido de lã. Lydia largou a cesta no chão e começou a trabalhar em um vaso de pedra quadrado ligeiramente erguido acima do nível do chão.

Seu marido a observou por algum tempo. Por fim, saiu da sala, apanhou para si um casaco e um cachecol e emergiu no terraço por uma porta lateral. Enquanto caminhava por ali, passou por vários outros vasos de pedra arranjados como jardins em miniatura, todos obras dos dedos ágeis de Lydia.

Um deles representava uma paisagem do deserto com areia fina e amarela, um pequeno capão de palmeiras de zinco pintado e uma procissão de camelos com um ou dois arabezinhos. Algumas casas de barro primitivas haviam sido construídas com massa de modelar. Havia um jardim italiano com terraços e canteiros simétricos com flores de cera colorida. Havia um vaso ártico também, com montes de vidro verde imitando icebergs, e um pequeno grupo de pinguins. Adiante havia um jardim japonês com dois belos bonsais, um espelho representando água e pontes feitas de massa de modelar.

Ele parou, por fim, ao lado de Lydia, que trabalhava em mais um vaso. Ela havia estendido papel azul sobre ele e coberto tudo com vidro. Em torno desse arranjo havia pedras empilhadas. Agora ela espalhava cascalhos tirados de um saquinho e com eles formava uma praia. Entre as pedras havia alguns cactos pequenos.

Lydia murmurava para si mesma:

– Sim, é isso mesmo... Exatamente o que quero.

Alfred disse:

– O que é esta nova obra de arte?

Ela se sobressaltou, pois não havia notado a presença dele.

– Isto? Ah, é o Mar Morto, Alfred. Você gostou?

Ele disse:

– Está um tanto árido, não é? Não deveria haver mais vegetação?

Ela balançou a cabeça.

– É a minha ideia do Mar Morto. Ele está morto, compreende...

– Não é tão agradável quanto alguns dos outros.

– Foi feito para não ser muito agradável.

Passos soaram no terraço. Um mordomo idoso, de cabelos brancos e um pouco curvado, estava vindo na direção deles.

– A sra. George Lee ao telefone, madame. Ela pergunta se seria conveniente que ela e o sr. George chegassem no trem das 17h20 amanhã?

– Sim, diga a ela que estará bem.

– Obrigado, madame.

O mordomo afastou-se apressado. Lydia o acompanhou com uma expressão enternecida no rosto.

– Bom e velho Tressilian. Como é fiel! Não consigo imaginar o que faríamos sem ele.

Alfred concordou.

– Ele é um criado à moda antiga. Está conosco há quase quarenta anos e é muito dedicado a todos nós.

Lydia assentiu.

– Sim. Ele é como os vassalos leais das histórias. Creio que ele seria capaz de mentir pelos cotovelos, se isso fosse necessário para proteger alguém da família.

Alfred disse:

– Acredito que sim... De fato acredito.

Lydia ajeitou um último pedaço de seixo.

– Pronto – disse ela. – Terminei a tempo.

– A tempo? – Alfred parecia surpreso.

Ela riu.

– Para o Natal, bobo! Para este Natal familiar e sentimental que teremos.

 

IV

David estava lendo a carta. Antes a havia amassado e jogado longe. Agora, depois de apanhá-la e alisá-la, a lia outra vez Com calma, sem dizer nada, sua esposa, Hilda, o observava. Ela notou a veia que saltava na sua têmpora, o ligeiro tremor das longas mãos delicadas, os movimentos nervosos e espasmódicos do seu corpo inteiro. Quando ele empurrou para o lado a franja de cabelo louro que sempre tendia a cair-lhe sobre a testa e olhou para ela com olhos azuis suplicantes, ela estava preparada.

– Hilda, o que faremos?

Hilda hesitou por um minuto antes de falar. Ela ouvira a súplica na voz dele e sabia como ele era dependente dela; sempre fora, e, desde que se casaram, sabia que poderia influenciar a decisão dele de maneira definitiva. No entanto, por essa mesma razão, ela tinha o cuidado de não dizer nada decisivo.

Ela respondeu, e sua voz tinha a qualidade lenta e calmante que pode ser ouvida na voz de uma enfermeira experiente em um berçário: – Depende de como você se sente a respeito, David.

Uma mulher grande, Hilda, não bela, mas com certo magnetismo. Algo nela era como uma pintura holandesa. Algo generoso e cativante no som da sua voz. Algo forte, a secreta força vital que atrai a fraqueza. Uma mulher de meia-idade robusta e atarracada. Não inteligente, não brilhante, mas algo nela era impossível ignorar. Força! Hilda Lee tinha força!

David levantou-se e começou a caminhar de um lado para outro. Seu cabelo não tinha quase nenhum fio grisalho. Ele tinha uma estranha aparência jovial. Seu rosto tinha a qualidade meiga de um cavaleiro de Burne Jones. Não era, por assim dizer, muito real...

Ele disse com sua voz melancólica:

– Você sabe como me sinto a respeito, Hilda. Você tem de saber.

– Não tenho certeza.

– Mas eu disse a você, reiteradas vezes! Como eu odeio tudo aquilo, a casa, o campo em volta e tudo mais! Só me faz lembrar de sofrimento. Eu odiei cada momento que passei ali! Quando penso nisso, em tudo o que ela sofreu, minha mãe...

Sua esposa anuiu em simpatia.

– Ela era tão doce, Hilda, tão paciente. Deitada ali, muitas vezes sofrendo de dores, mas suportando-as, suportando tudo. E quando penso em meu pai – uma sombra passou por seu rosto – provocando todo aquele sofrimento na vida dela, humilhando-a, gabando-se de seus casos amorosos, sempre infiel a ela, sem nunca preocupar-se em esconder o fato.

Hilda Lee disse:

– Ela não deveria ter aceitado a situação. Deveria tê-lo deixado.

Ele disse com um toque de reprovação:

– Ela era boa demais para isso. Achou que era seu dever ficar com ele. Além disso, aquele era seu lar, para onde mais ela iria?

– Poderia ter construído uma vida para ela.

David disse, irritado:

– Não naquela época! Você não compreende. Mulheres não se comportavam desse jeito. Elas aceitavam as coisas. Suportavam pacientemente. Minha mãe tinha de pensar em nós. Mesmo que ela se divorciasse do meu pai, o que teria acontecido? Talvez ele se casasse outra vez. Poderia haver uma segunda família. Nossos interesses poderiam ser negligenciados. Ela tinha de pensar em todas essas possibilidades.

Hilda não respondeu.

David continuou:

– Não, ela fez bem. Era uma santa! Suportou até o fim, sem queixas.

Hilda disse:

– Não de todo sem queixas, ou você não saberia tanto, David!

Ele disse com suavidade e um brilho no rosto:

– Sim, ela me contou coisas... Ela sabia o quanto eu a amava. Quando ela morreu...

Ele parou e passou as mãos pelos cabelos.

– Hilda, foi um horror, terrível! A desolação! Ela ainda era bastante jovem, não precisava ter morrido. Ele a matou, meu pai! Ele foi responsável pela morte dela. Ele partiu o coração dela. Decidi então que não continuaria vivendo sob seu teto. Escapei, fugi de tudo aquilo.

Hilda anuiu.

– Você foi muito inteligente – disse ela. – Era a coisa certa a ser feita.

David disse:

– Papai queria que eu fosse trabalhar com ele. Isso significaria viver em casa. Eu não teria aguentado. Não sei como Alfred aguenta, como aguentou todos esses anos.

– Ele nunca se rebelou? – perguntou Hilda com algum interesse. – Acho que você me contou algo sobre ele haver abandonado outra carreira.

David assentiu com a cabeça.

– Alfred ingressaria no exército. Papai já tinha planejado tudo. Alfred, o mais velho, entraria para algum regimento de cavalaria, Harry o ajudaria no escritório, assim como eu. George entraria para a política.

– E o plano não funcionou?

David balançou a cabeça.

– Harry estragou tudo! Ele sempre foi bastante independente. Contraiu dívidas e toda sorte de outros problemas. Por fim ele fugiu um dia com centenas de libras que não lhe pertenciam, deixando para trás um bilhete que dizia que uma cadeira de escritório não combinava com ele e que estava partindo para ver o mundo.

– E vocês nunca mais ouviram falar dele?

– Ah, sim, ouvimos! – David riu. – Ouvimos com muita frequência! Ele sempre mandava telegramas pedindo dinheiro, de todas as partes do mundo. E quase sempre o conseguia!

– E Alfred?

– Papai mandou que ele esquecesse o exército e voltasse para o escritório.

– Ele se importou?

– Muito, no começo. Ele odiava o trabalho. Mas Alfred sempre foi um fantoche do pai. Creio que viva até hoje sob o jugo dele.

– E você... escapou! – disse Hilda.

– Sim. Fui para Londres e estudei pintura. Papai me disse com clareza que, se eu cometesse uma tolice dessas, receberia dele uma pequena mesada durante sua vida e nada quando ele morresse. Eu disse que não me importava. Ele me chamou de jovem idiota, e foi tudo! Nunca mais o vi desde então.

Hilda disse com carinho:

– E você não se arrependeu?

– Na verdade, não. Sei que não vou a lugar algum com minha arte. Nunca serei um grande artista, mas nós vivemos felizes neste chalé, temos tudo o que queremos, todas as coisas essenciais. E se eu morrer, bem, você recebe meu seguro.

Ele fez uma pausa e disse:

– E agora... isso!

Ele bateu na carta com a mão aberta.

– Lamento que seu pai tenha escrito essa carta, se ela o incomoda tanto – disse Hilda.

David prosseguiu como se não a tivesse ouvido.

– Ele pede que eu traga minha esposa para o Natal e espera que possamos estar todos juntos nesta data; uma família unida! Com que intenção?

Hilda disse:

– É preciso que haja outra intenção além da que está escrita?

Ele a olhou de maneira questionadora.

– Quero dizer – disse ela, sorrindo – que seu pai está ficando velho. Ele está começando a ficar emotivo a respeito de vínculos familiares. Isso acontece, sabe.

– Imagino que aconteça – disse David devagar.

– Ele é velho e está solitário.

Ele lançou-lhe um olhar rápido.

– Você quer que eu vá, não é, Hilda?

Ela disse devagar:

– Acho uma pena não responder a um apelo. Eu reconheço que sou antiquada, mas por que não ter paz e boa vontade na época do Natal?

– Depois de tudo que lhe contei?

– Eu sei, querido, eu sei. Mas isso tudo está no passado. Está tudo feito e acabado.

– Não para mim.

– Não porque você não deixa o passado morrer. Você o mantém vivo em sua própria cabeça.

– Não consigo esquecer.

– Você não quer esquecer, é isso que você quer dizer, David.

Sua boca cerrou-se em uma linha firme.

– Nós, os Lee, somos assim. Lembramo-nos das coisas por anos, remoemos, mantemos a memória viva.

Hilda disse com um toque de impaciência:

– Isso é algo de que se orgulhar? Não creio!

Ele a olhou, pensativo, com um toque de reserva no seu jeito, e disse: – Você não dá muito valor à lealdade, então, lealdade a uma lembrança?

Hilda disse:

– Acredito que o presente importa, não o passado! O passado deve terminar. Acredito que, se buscamos manter o passado vivo, terminamos por distorcê-lo. Nós o vemos em termos exagerados, com uma falsa perspectiva.

– Tenho a lembrança exata de cada palavra e cada incidente daqueles dias – disse David com paixão.

– Sim, mas não deveria, querido! Não é natural fazê-lo! Você está submetendo aquela época ao julgamento de um menino, em vez de rememorá-la sob o ponto de vista mais comedido de um homem.

– Que diferença isso faria? – exigiu David.

Hilda hesitou. Ela sabia que era insensato prosseguir e, no entanto, havia coisas que ela queria muito dizer.

– Acho – disse ela – que você está vendo seu pai como um bicho-papão! Talvez, se você fosse vê-lo agora, perceberia que ele era apenas um homem muito comum; um homem que se deixou, quem sabe, levar por suas paixões, um homem cuja vida esteve longe de ser imaculada, mas, mesmo assim, um simples homem, não um monstro desumano!

– Você não compreende! O modo como ele tratava minha mãe...

Hilda disse com gravidade:

– Há certo tipo de docilidade, de submissão, que faz vir à tona o que há de pior em um homem. Entretanto o mesmo homem, se enfrentado com coragem e determinação, pode tornar-se uma criatura diferente!

– Então você diz que foi culpa dela...

Hilda o interrompeu.

– Não, é claro que não! Não tenho dúvida de que seu pai tratou sua mãe muitíssimo mal, mas um casamento é algo extraordinário, e não creio que qualquer pessoa de fora, mesmo um filho, tenha o direito de julgá-lo. Além disso, todo esse ressentimento não pode ajudar sua mãe, agora. Tudo já passou, ficou para trás! O que resta agora é um velho de saúde frágil, convidando seu filho para visitá-lo no Natal.

– E você quer que eu vá?

Hilda hesitou e de súbito tomou uma decisão.

– Sim – disse ela. – Quero. Quero que você vá e deixe de acreditar nesse bicho-papão, de uma vez por todas.

 

V

George Lee, deputado por Westeringham, era um cavalheiro um tanto corpulento, de 41 anos. Seus olhos eram azul-pálido e um pouco proeminentes, com uma expressão desconfiada. Ele tinha um queixo pesado e uma fala lenta, pedante.

Ele dizia agora, de maneira ponderada:

– Eu já disse a você, Magdalene, que acho que é meu dever ir.

Sua esposa meneou os ombros com impaciência.

Ela era uma figura esguia, uma loura platinada com sobrancelhas modeladas e um rosto liso em formato de ovo. Às vezes, ele podia parecer bastante vazio e destituído de qualquer expressão. Ela tinha essa aparência agora.

– Querido – disse ela –, será uma ocasião deprimente, tenho certeza disso.

– Além disso – disse George Lee, e seu rosto iluminou-se ao ocorrer-lhe uma ideia interessante –, teremos a chance de fazer uma economia considerável. O Natal é sempre uma época cara. Podemos pagar aos criados somente as despesas básicas.

– Está bem! – disse Magdalene. – Afinal de contas, o Natal é bastante deprimente em qualquer lugar!

– Imagino que eles esperem uma ceia de Natal, não é? – disse George, seguindo a mesma linha de pensamento. – Um bom bife, talvez, em vez de peru.

– Quem? Os criados? Ah, George, não se preocupe tanto. Você está sempre se preocupando com dinheiro.

– Alguém tem de se preocupar – disse George.

– Sim, mas é absurdo economizar essas ninharias. Por que você não faz seu pai lhe dar um pouco mais de dinheiro?

– Ele já me dá uma mesada bastante polpuda.

– É terrível ser dependente do pai, como você é! Ele deveria ter-lhe dado parte da herança logo no início.

– Não é assim que ele faz as coisas.

Magdalene olhou para ele. Seus olhos cor de avelã estavam de repente concentrados e atentos. O rosto de ovo sem expressão demonstrou uma súbita intenção.

– Ele é riquíssimo, não é, George? Uma espécie de milionário, não é?

– Duas vezes milionário, creio eu.

Magdalene soltou um suspiro de inveja.

– Como ele conseguiu tudo isso? Na África do Sul, não foi?

– Sim, ele fez uma grande fortuna lá, quando era jovem. Principalmente com diamantes.

– Que emocionante! – disse Magdalene.

– Então ele veio para a Inglaterra, se lançou nos negócios e sua fortuna dobrou ou triplicou, creio eu.

– O que acontecerá quando ele morrer? – perguntou Magdalene.

– Papai nunca falou muito sobre o assunto. É claro que não se pode fazer uma pergunta direta. Imagino que a maior parte do dinheiro venha para Alfred e para mim. Alfred, é claro, ficará com a parte maior.

– Você tem outros irmãos, não tem?

– Sim, há meu irmão David. Creio que ele não ganhará muito. Ele saiu de casa para fazer arte ou alguma tolice do gênero. Acho que o pai avisou-o que iria tirá-lo do testamento, e David disse que não se importava.

– Que bobagem! – disse Magdalene com desdém.

– Havia também minha irmã Jennifer. Ela fugiu com um estrangeiro, um artista espanhol, um dos amigos de David. Mas ela morreu há pouco mais de um ano. Deixou uma filha, creio eu. Papai talvez deixe algum dinheiro para ela, mas não muito. E, é claro, há Harry...

Ele parou, um pouco constrangido.

– Harry? – disse Magdalene, surpresa. – Quem é Harry?

– Ah... hum... meu irmão.

– Eu não sabia que você tinha outro irmão.

– Querida, ele não era... como direi... confiável para nós. Não o mencionamos. Seu comportamento foi vergonhoso. Já faz alguns anos que não ouvimos falar dele. É provável que esteja morto.

Magdalene riu subitamente.

– O que é? Do que você está rindo?

Magdalene disse:

– Eu só estava pensando como é engraçado que você, você, George, tenha um irmão mal-afamado! Você é tão respeitável.

– Assim espero – disse George com frieza.

Seus olhos se estreitaram.

– Seu pai não é muito respeitável, George.

– Ora, Magdalene!

– Às vezes as coisas que ele diz deixam-me constrangida.

George disse:

– De fato, Magdalene, você me surpreende. Lydia... hum... também sente-se assim?

– Ele não diz as mesmas coisas a Lydia – disse Magdalene. Ela acrescentou de maneira irada: – Não, ele nunca as diz a Lydia. Não consigo imaginar por que não.

George olhou rápido para ela e desviou o olhar.

– Ah, bem – disse ele de modo vago. – É preciso fazer concessões. Na idade do papai... e com a má saúde dele...

Ele fez uma pausa. Sua esposa perguntou:

– Ele está mesmo muito doente?

– Ah, eu não diria isso. Ele tem uma resistência notável. De qualquer modo, já que ele quer ter a família à sua volta no Natal, acho que devemos ir. Pode ser seu último Natal.

Ela disse bruscamente:

– Isso é o que você diz, George, mas pode ser que ele viva ainda muitos anos, não é?

Um pouco surpreso, o marido gaguejou:

– Sim... sim, é claro que pode ser.

Magdalene desviou o olhar.

– Ah, bem – disse ela –, imagino que estejamos fazendo a coisa certa em ir.

– Não tenho dúvidas.

– Mas eu odeio a ideia! Alfred é tão chato, e Lydia é arrogante comigo.

– Bobagem.

– Ela é sim. E odeio aquele criado nojento.

– O velho Tressilian?

– Não, Horbury. Espreitando como um gato, com aquele sorriso insolente.

– Ora, Magdalene, não vejo como Horbury possa afetá-la de qualquer jeito.

– Ele me dá nos nervos, só isso. Mas não vamos nos incomodar. Compreendo que tenhamos de ir. Não vale a pena ofender o velho.

– Não, não vale, esse é o motivo exato. Sobre a ceia de Natal dos empregados...

– Agora não, George, outra hora. Vou telefonar para Lydia e dizer a ela que chegaremos no trem das 17h20, amanhã.

Magdalene deixou a sala com pressa. Após telefonar, subiu para seu quarto e sentou-se à frente da escrivaninha. Então baixou a tampa e remexeu os vários escaninhos. Cascatas de contas vieram abaixo. Magdalene as separou, tentando dar a elas alguma espécie de ordem. Afinal, com um suspiro impaciente, empilhou-as e enfiou de volta no escaninho de onde haviam caído. Magdalene passou a mão por sua cabeça lisa e platinada.

– E agora o que farei? – ela murmurou.

 

VI

No primeiro andar da mansão Gorston, um longo corredor levava a uma grande sala, que dava para o acesso frontal da casa. Era uma sala mobiliada nos estilos mais extravagantes e antiquados. Papel de parede com brocados, vistosas poltronas de couro, grandes vasos ornamentados com dragões, esculturas em bronze... Tudo nela era magnífico, caro e sólido.

Em uma poltrona grande e antiga, a maior e mais imponente de todas, sentava-se a figura magra e extenuada de um velho. Suas mãos longas como garras descansavam sobre os braços da poltrona. Uma bengala com castão de ouro estava ao seu lado. Ele vestia um roupão azul velho e gasto. Nos pés, calçava pantufas. Seu cabelo era branco, e a pele do rosto, amarela.

Uma figura maltrapilha e insignificante, se poderia pensar. Mas o nariz, aquilino e orgulhoso, e os olhos, escuros e intensamente vivos, poderiam fazer com que um observador mudasse de opinião. Ali havia fogo, vida e vigor.

O velho Simeon Lee gargalhou para ele mesmo, uma gargalhada súbita e aguda de diversão.

Ele disse:

– Você deu meu recado à sra. Alfred, hum?

Horbury estava parado ao lado da cadeira. Ele respondeu com sua voz baixa e respeitosa:

– Sim, senhor.

– Com as exatas palavras que mandei você dizer? Exatas, veja bem.

– Sim, senhor. Não cometi erro algum, senhor.

– Não, você não comete erros. E é melhor que não os cometa, ou vai se arrepender! E o que ela disse, Horbury? O que o sr. Alfred disse?

Calmo e impassível, Horbury repetiu o que havia ocorrido. O velho gargalhou de novo e esfregou as mãos.

– Esplêndido... De primeira classe... Eles devem ter pensado e imaginado coisas durante a tarde inteira! Esplêndido! Vou recebê-los agora. Vá buscá-los.

– Sim, senhor.

Horbury atravessou a sala em silêncio e saiu.

– E, Horbury...

O velho olhou à sua volta e praguejou.

– O sujeito move-se como um gato. Nunca sei onde ele está.

Ele ficou imóvel na cadeira, acariciando o queixo com os dedos, até ouvir uma batida na porta, e Alfred e Lydia entraram.

– Ah, aí estão vocês, aí estão vocês. Sente-se aqui, Lydia querida, perto de mim. Que belo rubor você tem.

– Estive lá fora, no frio. Faz o rosto corar depois.

Alfred disse:

– Como o senhor vai, papai, descansou bem esta tarde?

– Um descanso de primeira... de primeira. Sonhei com os velhos tempos! Antes de me estabelecer e tornar-me um pilar da sociedade.

Ele gargalhou subitamente.

Sua nora permaneceu em silêncio, sorrindo com atenção cortês.

Alfred disse:

– Que história é essa, papai, de recebermos mais duas pessoas para o Natal?

– Ah, isso! Sim, tenho de contar-lhe. Meu Natal, este ano, será grandioso, um Natal grandioso. Deixe-me ver... George está vindo, e Magdalene...

Lydia disse:

– Sim, eles chegam amanhã, no trem das 17h20...

O velho Simeon disse:

– Pobre, George! Não passa de um falastrão! Mesmo assim, é meu filho.

Alfred disse:

– Seus eleitores gostam dele.

Simeon gargalhou de novo.

– Eles por certo acham que ele é honesto. Honesto! Até hoje nunca houve um Lee honesto.

– Por favor, pai.

– Calma, meu rapaz. Exceto você.

– E David? – perguntou Lydia.

– Ah, sim, David. Estou curioso em ver o garoto, após esses anos todos. Ele era um jovem sem fibra. Como será a esposa dele? Pelo menos ele não se casou com uma garota vinte anos mais jovem, como aquele idiota do George!

– Hilda escreveu uma carta muito simpática – disse Lydia. – Há pouco recebi um telegrama dela confirmando sua vinda e dizendo que chegariam amanhã, com certeza.

O sogro de Lydia lançou-lhe um olhar agudo, penetrante.

Ele riu.

– Jamais consigo superar Lydia – disse ele. – Devo reconhecer isto, Lydia: você é uma mulher bem-criada. Uma boa educação faz diferença. Bem o sei. A hereditariedade é uma coisa engraçada, no entanto. Só um de vocês se parece comigo, só um, de toda ninhada.

Seus olhos dançaram.

– Agora, adivinhem quem vem para o Natal. Darei três chances e aposto cinco libras que vocês não acertarão.

Ele olhou de um para outro. Alfred disse, franzindo o cenho:

– Horbury disse que o senhor está esperando uma jovem.

– O que o deixou intrigado, sim, atrevo-me a dizer que sim. Pilar chegará a qualquer minuto. Ordenei ao motorista que fosse buscá-la.

Alfred disse bruscamente:

– Pilar?

Simeon disse:

– Pilar Estravados. Filha de Jennifer. Minha neta. Pergunto-me como será ela.

Alfred exclamou:

– Meu Deus, pai, o senhor nunca me contou...

O velho abriu um largo sorriso.

– Não, achei melhor manter segredo! Pedi a Charlton que escrevesse a ela e tomasse todas as providências.

Alfred repetiu, em tom magoado e reprovador:

– O senhor nunca me contou...

O pai disse, ainda rindo com malícia:

– Teria estragado a surpresa! Como será ter outra vez sangue jovem debaixo deste teto? Não conheci Estravados. Será que a garota puxou à mãe ou ao pai?

– O senhor acha mesmo que isso é sensato, pai? – começou Alfred. – Levando-se tudo em consideração...

O velho o interrompeu.

– Segurança... segurança... você sempre busca a saída mais segura, Alfred! Sempre! Eu não ajo assim! Faça o que quer e dane-se o resto! É o que digo! A garota é minha neta, a única neta na família! Não me importa quem foi seu pai ou o que ele fez! Ela é sangue do meu sangue! E ela está vindo para viver aqui, em minha casa.

Lydia disse bruscamente:

– Ela está vindo para morar aqui?

Ele lançou-lhe um olhar rápido.

– Você tem alguma objeção?

– Eu não poderia ter qualquer objeção a que o senhor convide alguém à sua própria casa, poderia? Estava pensando... nela.

– Pensando nela... o que você quer dizer com isso?

– Se ela seria feliz aqui.

O velho Simeon ergueu a cabeça.

– Ela não tem um centavo. Deve estar agradecida!

Lydia deu de ombros.

Simeon voltou-se para Alfred:

– Você está vendo? Será um Natal grandioso! Todos os meus filhos à minha volta. Todos os meus filhos! Aí está, Alfred, essa é a sua pista. Agora adivinhe quem é o outro visitante.

Alfred o encarou.

– Todos os meus filhos! Adivinhe, garoto! Harry, é claro! Seu irmão Harry!

Alfred ficou muito pálido e gaguejou:

– Harry... não Harry...

– Harry em pessoa!

– Mas nós achávamos que ele estava morto!

– Não!

– O senhor... o senhor vai recebê-lo de volta aqui! Depois de tudo?

– O filho pródigo, hum? Você está certo. O novilho cevado! Temos de abater o novilho cevado, Alfred! Temos de dar a Harry esplêndidas boas-vindas.

Alfred disse:

– Ele tratou o senhor... todos nós... vergonhosamente. Ele...

– Não é necessário enumerar os crimes dele! É uma longa lista. Mas o Natal, não esqueça, é a época do perdão! Daremos boas-vindas ao filho pródigo que retorna.

Alfred se levantou e murmurou:

– Esse foi... um enorme choque. Nunca sonhei que Harry voltaria a pôr os pés nesta casa.

Simeon inclinou-se para frente.

– Você nunca gostou de Harry, não é? – disse ele com suavidade.

– Depois da maneira como ele agiu com o senhor...

Simeon deu uma gargalhada e disse:

– Ah, águas passadas não movem moinhos. Esse é o espírito do Natal, não é, Lydia?

Lydia também empalidecera. Ela disse sem rodeios:

– Vejo que o senhor pensou bastante no Natal deste ano.

– Quero minha família em torno de mim. Paz e boa vontade. Sou um velho. Você já vai, minha cara?

Alfred apressara-se para fora da sala. Lydia parou por um momento, antes de segui-lo.

Simeon assentiu com a cabeça na direção da figura que se afastava.

– Alfred aborreceu-se. Ele e Harry nunca se deram bem. Harry costumava caçoar dele. Chamava-o de Velho Matungo.

Os lábios de Lydia se abriram. Ela estava prestes a falar, quando viu a expressão ansiosa dele e se conteve. O autocontrole dela, Lydia percebeu, desapontava o velho. Essa percepção permitiu-lhe dizer: – A lebre e a tartaruga. Ah, bem, a tartaruga vence a corrida.

– Nem sempre – disse Simeon. – Nem sempre, minha querida Lydia.

Ela disse, ainda sorrindo:

– Com licença, preciso ver como está Alfred. Emoções súbitas sempre o incomodam.

Simeon gargalhou.

– Sim, Alfred não gosta de mudanças. Ele sempre foi um modelo de seriedade.

Lydia disse:

– Alfred é muito devotado ao senhor.

– E isso lhe parece estranho, não é?

– Às vezes, sim – disse Lydia.

Ela deixou a sala. Simeon a acompanhou com o olhar.

Ele riu baixinho e esfregou as mãos.

– Muito divertido – disse ele. – Muito divertido mesmo. Apreciarei este Natal.

Com esforço ele levantou-se e, com a ajuda da bengala, atravessou a sala arrastando os pés.

Simeon foi até um cofre grande que ficava no canto da sala. Ele girou a combinação. A porta se abriu e, com dedos trêmulos, ele apalpou o espaço interno.

Tirou dali uma pequena sacola de couro desbotado e a abriu, deixando passar-lhe entre os dedos uma torrente de diamantes brutos.

– Bem, meus adorados, bem... Ainda os mesmos, ainda meus velhos amigos. Aqueles foram dias e tanto... dias e tanto... Ninguém os cortará ou lapidará, meus amigos. Vocês não ficarão em torno dos pescoços das mulheres, presos nos seus dedos ou pendurados em suas orelhas. Vocês são meus! Velhos amigos! Aprendemos alguns truques, vocês e eu. Eu estou velho, é o que dizem, e doente, mas não estou acabado! Ainda há muita vida no velho cão. E ainda há alguma diversão para se tirar da vida. Ainda alguma diversão...