O Natal de Poirot
Parte 7 - 28 de dezembro
Parte 7
28 de dezembro
I
Lydia Lee disse:
– Pilar, acho que é melhor você ficar conosco até conseguirmos algo em definitivo para você.
Pilar disse humildemente:
– Você é muito boa, Lydia. Você é gentil. Você perdoa as pessoas com bastante facilidade sem fazer um estardalhaço a respeito.
Lydia disse, sorrindo:
– Eu ainda a chamo de Pilar, embora imagine que seu nome seja outro.
– Sim, na verdade sou Conchita Lopez.
– Conchita é um belo nome também.
– Você é mesmo boa demais, Lydia. Mas não precisa se preocupar comigo. Eu vou me casar com Stephen, e estamos indo para a África do Sul.
Lydia disse, sorrindo:
– Bem, aí está um belo desfecho.
Pilar disse com timidez:
– Já que você tem sido tão gentil, Lydia, você acha que nós poderíamos voltar e ficar com vocês, quem sabe no Natal, e então nós faríamos uma festa com direito a biscoitos, passas flambadas, aqueles enfeites reluzentes na árvore e bonequinhos de neve?
– Sem dúvida, você pode vir e teremos um Natal inglês de verdade.
– Isso seria adorável. Sabe, Lydia, este ano o Natal não foi nem um pouco feliz.
Lydia teve um ligeiro sobressalto. Ela disse:
– Não, não foi um Natal feliz...
II
Harry disse:
– Bem, adeus, Alfred. Não se preocupe, você não terá de me aturar por muito mais tempo. Estou indo para o Havaí. Sempre quis viver lá se tivesse um pouco de dinheiro.
Alfred disse:
– Adeus, Harry. Espero que você aproveite. Espero mesmo.
Harry disse sem jeito:
– Desculpe por tê-lo irritado tanto, meu velho. É esse meu senso de humor desgraçado. Não resisto a uma brincadeira.
Alfred disse com esforço:
– Acho que preciso não levar as coisas tão a sério.
Harry disse, aliviado:
– Bem... até mais.
III
Alfred disse:
– David, Lydia e eu decidimos vender este lugar. Achei que talvez você quisesse ficar com algumas coisas da nossa mãe... a cadeira e o banquinho. Você sempre foi o favorito dela.
David hesitou um minuto e agradeceu:
– Obrigado pela lembrança, Alfred, mas, sabe, acho que não ficarei com elas. Não quero nada desta casa. Acho que é melhor romper completamente com o passado.
Alfred disse:
– Sim, compreendo. Talvez você esteja certo.
IV
George disse:
– Bem, adeus, Alfred. Adeus, Lydia. Que momento terrível nós passamos. Tem o julgamento vindo aí, também. Imagino que toda a história infame virá a público... de que Sugden é... hum... filho do meu pai. Será que alguém poderia convencê-lo de que seria melhor se ele alegasse ser um comunista fervoroso e que detestava meu pai como capitalista... algo do gênero?
Lydia disse:
– Meu caro George, você realmente imagina que um homem como Sugden contaria mentiras para preservar nossos sentimentos?
George disse:
– Hum... talvez não. Entendi o que você quis dizer. Ainda assim, o homem deve ser maluco. Bem, adeus mais uma vez.
Magdalene disse:
– Boa viagem. Ano que vem vamos todos para a Riviera ou algum lugar para passar o Natal e nos divertirmos de verdade.
George disse:
– Depende da bolsa de valores.
Magdalene disse:
– Querido, não seja sovina.
V
Alfred apareceu no terraço. Lydia estava trabalhando em um vaso de pedra. Ela se endireitou quando o viu.
Ele disse com um suspiro:
– Bem, todos já se foram.
Lydia disse:
– Sim... que bênção.
– É mesmo.
Alfred disse:
– Você vai gostar de ir embora daqui.
Ela perguntou:
– Você vai se importar muito?
– Não, vai ser bom. Existem tantas coisas interessantes que nós podemos fazer juntos. Viver aqui significaria ser constantemente lembrado daquele pesadelo. Graças a Deus isso tudo já passou!
Lydia disse:
– Graças a Hercule Poirot.
– Sim. Sabe, foi realmente incrível a maneira como tudo fez sentido quando ele nos explicou.
– Eu sei. Como quando você termina um quebra-cabeça e todas aquelas peças de formatos estranhos que você jurou que nunca se encaixariam em lugar nenhum encontram seus lugares.
Alfred disse:
– Tem um detalhe que nunca se encaixou. O que George estava fazendo depois de dar o telefonema? Por que ele não disse?
– Você não sabe? Eu sempre soube. Ele estava espiando os seus papéis na sua escrivaninha.
– Ah! Não, Lydia, ninguém faria uma coisa dessas!
– George faria. Ele é bastante curioso a respeito de questões que envolvem dinheiro. Mas é claro que ele não diria isso. Ele teria de estar no banco dos réus para confessar uma coisa dessas.
Alfred disse:
– Você está fazendo outro jardim?
– Sim.
– O que é desta vez?
– Acho – disse Lydia – que é uma tentativa do Jardim do Éden. Uma nova versão, sem serpente alguma, e Adão e Eva são definitivamente pessoas de meia-idade.
Alfred disse com carinho:
– Querida Lydia, como você foi paciente comigo todos esses anos. Você tem sido muito boa para mim.
Lydia disse:
– Mas, Alfred, eu amo você...
VI
O coronel Johnson exclamou:
– Deus me livre! Palavra de honra! – E por fim, mais uma vez: – Deus me livre!
Ele se recostou na cadeira e encarou Poirot. Disse com tristeza:
– Meu melhor homem! O que está acontecendo com a polícia?
Poirot disse:
– Mesmo policiais têm vidas particulares! Sugden era um homem muito orgulhoso.
O coronel Johnson balançou a cabeça, então cutucou as toras na lareira para se acalmar. Ele disse abruptamente:
– É o que sempre digo: nada como um fogo de lenha.
Hercule Poirot, sentindo as correntes de ar em torno do seu pescoço, pensou consigo mesmo:
“Pour moi, mil vezes o aquecimento central...”.
Você terminou O Natal de Poirot
Agatha Christie
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