O Natal de Poirot
Parte 4 - 25 de dezembro
PARTE 4
25 de dezembro
I
Sob o sol brilhante do meio-dia de Natal, Poirot caminhava nos jardins da mansão Gorston. A mansão em si era uma casa grande e sólida, construída sem nenhuma pretensão arquitetônica particular.
Aqui, no lado sul, havia um amplo terraço flanqueado por uma sebe de arbustos aparados. Plantas pequenas cresciam entre as lajes e, em intervalos ao longo do terraço, havia alguns vasos de pedra arranjados como jardins em miniatura.
– C’est bien imaginé, ça![8]
À distância, ele viu duas figuras indo na direção do lago ornamental, a uns trezentos metros dali. Reconheceu com facilidade a figura de Pilar e pensou primeiramente que a outra era Stephen Farr, mas viu que o homem com Pilar era Harry Lee. Harry parecia muito atencioso com sua sobrinha atraente. Em intervalos, ele jogava a cabeça para trás e ria, e depois se inclinava outra vez, atento, na direção dela.
– Com certeza, aquele ali não está de luto – murmurou Poirot para si mesmo.
Um ruído suave atrás dele fez com que se voltasse. Magdalene Lee estava parada ali. Ela também estava olhando para as figuras do homem e da garota, que se distanciavam. Virou a cabeça e sorriu encantadora para Poirot. Ela disse:
– Que glorioso dia de sol! Mal se pode acreditar em todos os horrores da noite passada, não é, monsieur Poirot?
– É realmente difícil, madame.
Magdalene suspirou.
– Nunca me envolvi em uma tragédia antes. Eu... me tornei adulta ainda há pouco. Acho que permaneci criança por muito tempo... Não é uma coisa boa de se fazer.
Mais uma vez ela suspirou e disse:
– Pilar, no entanto, parece ter uma autoconfiança extraordinária. Acho que é o sangue espanhol. É tudo muito estranho, não é?
– O que é estranho, madame?
– A maneira como ela apareceu aqui, do nada.
Poirot disse:
– Fiquei sabendo que o sr. Lee estava procurando por ela já fazia um tempo. Ele estava se correspondendo com o consulado em Madri e com o vice-cônsul em Aliquara, onde a mãe dela morreu.
– Ele foi muito reservado quanto a tudo isso – disse Magdalene. – Alfred não sabia nada a respeito. Nem Lydia.
– Ah! – disse Poirot.
Magdalene se aproximou um pouco dele. Ele podia sentir o cheiro do perfume delicado que ela usava.
– O senhor sabe, monsieur Poirot, que existe uma história ligada ao marido de Jennifer, Estravados? Ele morreu um pouco depois do casamento, e há um certo mistério envolvido. Alfred e Lydia sabem o que é. Creio que foi algo muito... desonroso...
– Isso – disse Poirot – é de fato triste.
Magdalene disse:
– Meu marido acha, e eu concordo com ele, que a família deveria ter sido melhor informada sobre os antecedentes da garota. Afinal de contas, o pai dela foi um criminoso...
Ela fez uma pausa, mas Hercule Poirot não disse nada. Ele parecia estar admirando as belezas naturais que se podiam ver durante o inverno, nos jardins da mansão Gorston.
Magdalene disse:
– Não consigo evitar a impressão de que a morte de meu sogro foi, de certo modo, significativa. Ela... ela foi tão pouco inglesa.
Hercule Poirot voltou-se devagar. Seus olhos graves encontraram os dela, em indagação inocente.
– Ah – disse ele. – O traço espanhol, a senhora acha?
– Bem, eles são cruéis, não são? – A voz de Magdalene tinha um apelo infantil. – Todas aquelas touradas e tudo mais.
Hercule Poirot falou, divertido:
– A senhora está dizendo que, em sua opinião, a señorita Estravados cortou a garganta do avô?
– Ah, não, monsieur Poirot! – Magdalene foi veemente. Ela estava chocada. – Eu nunca diria algo assim! Não mesmo!
– Bem – disse Poirot. – Talvez não tenha dito.
– Mas eu acho que ela é... bem, uma pessoa suspeita. A maneira furtiva com que ela pegou algo do chão na noite passada, por exemplo.
Um tom diferente insinuou-se na voz de Poirot. Ele disse num ímpeto:
– Ela apanhou algo do chão, na noite passada?
Magdalene anuiu. Sua boca infantil torceu-se de rancor.
– Sim, tão logo entramos no quarto. Ela olhou rápido à sua volta, para ver se alguém a estava vendo, e então saltou sobre a coisa. Mas, fico contente em dizer, aquele superintendente a viu e tomou-lhe o objeto.
– O que ela apanhou, a senhora sabe, madame?
– Não. Eu não estava próximo o suficiente para ver. – O tom de Magdalene pedia desculpas. – Era algo muito pequeno.
Poirot franziu o cenho.
– Isso é interessante – ele murmurou para si mesmo.
Magdalene apressou-se em dizer:
– Sim, achei que o senhor deveria ficar sabendo. Afinal de contas, não sabemos nada da educação de Pilar ou de sua vida pregressa. Alfred é sempre tão desconfiado, e a querida Lydia, tão despreocupada. – Então ela murmurou: – Talvez seja melhor ver se posso ajudar Lydia de alguma maneira. Pode haver cartas para escrever.
Ela o deixou, com um sorriso de malícia satisfeita nos lábios.
Poirot continuou no terraço, perdido em pensamentos.
II
Sugden veio até ele. O superintendente de polícia parecia abatido. Ele disse:
– Bom dia, sr. Poirot. Não parece muito certo desejar feliz Natal, parece?
– Mon cher collègue, decerto não vejo nenhum traço de alegria em seu semblante. Se você tivesse dito “Feliz Natal”, eu não teria respondido: “Por muitos anos!”.
– Não desejo outro como este, de fato – disse Sugden.
– O senhor fez algum progresso?
– Verifiquei várias questões. O álibi de Horbury é sólido. O porteiro no cinema o viu entrar com a garota e o viu sair com ela, no fim da projeção, e parece haver bastante certeza de que ele não saiu do cinema, e não poderia ter saído e retornado durante a projeção. A garota jura convicta que ele esteve lá com ela o tempo inteiro.
As sobrancelhas de Poirot arquearam-se.
– Não vejo o que mais há para se dizer.
O cínico Sugden disse:
– Bem, com garotas, nunca se sabe! Elas contam mentiras descaradas por amor a um homem.
– O que faz justiça aos seus corações – disse Hercule Poirot.
Sugden resmungou.
– Trata-se de um ponto de vista estrangeiro. Desconsidera os fins da justiça.
Hercule Poirot disse:
– A justiça é uma coisa muito estranha. O senhor já refletiu sobre o assunto?
Sugden o encarou. Ele disse:
– O senhor é esquisito, sr. Poirot.
– De forma alguma. Sigo uma linha lógica de pensamento. Mas não discutamos a questão. É sua crença, então, que essa demoiselle de meia-tigela não está falando a verdade?
Sugden balançou a cabeça.
– Não – disse ele –, não é nada disso. De fato, acho que ela diz a verdade. Ela é uma garota simples e acho que, se estivesse me contando um monte de mentiras, eu perceberia.
Poirot disse:
– Baseado em sua experiência?
– Exatamente, sr. Poirot. Sabe-se, com alguma certeza, após tomar depoimentos durante uma vida inteira, quando alguém mente ou não. Não, acho que o relato da garota é genuíno e, se for, Horbury não poderia ter matado o velho sr. Lee, o que nos traz de volta às pessoas da casa.
Ele respirou fundo.
– Um deles o matou, sr. Poirot. Um deles o matou. Mas qual?
– O senhor não tem nenhum dado novo?
– Sim, tive um pouco de sorte com os telefonemas. O sr. George Lee fez uma ligação para Westeringham quando faltavam dois minutos para as nove. Essa ligação durou menos de seis minutos.
– Aha!
– Exato! Além disso, nenhuma outra ligação foi feita, para Westeringham ou qualquer outro lugar.
– Muito interessante – disse Poirot com aprovação. – Monsieur George Lee afirma que havia desligado o telefone um pouco antes de ouvir o ruído no andar de cima, mas na realidade havia concluído a ligação quase dez minutos antes. Onde ele esteve nesses dez minutos? A sra. George Lee diz que ela estava telefonando, mas não chegou a fazer uma ligação. Onde ela estava?
Sugden disse:
– Eu o vi falando com ela, monsieur Poirot?
Seu tom de voz trazia uma pergunta, mas Poirot respondeu:
– O senhor está equivocado.
– Hum?
– Eu não estava falando com ela. Ela estava falando comigo!
– Ah... – A impaciência de Sugden parecia prestes a ignorar a diferença; mas, quando ele compreendeu o que ela significava, disse: – Ela estava falando com o senhor, é isso?
– Com toda segurança. Ela veio aqui para fora com esse intuito.
– O que ela tinha a dizer?
– Ela desejava ressaltar certos motivos: o caráter anti-inglês do crime, as possíveis características indesejáveis da srta. Estravados, herdadas do lado paterno, e o fato de que a srta. Estravados havia apanhado algo do chão, de maneira furtiva, na noite passada.
– Foi o que ela disse, não foi? – disse Sugden com interesse.
– Sim. O que a señorita juntou do chão?
Sugden suspirou.
– Eu poderia dar-lhe trezentas chances para adivinhar! Mostrarei ao senhor. É uma daquelas coisas que soluciona mistérios em histórias de detetive! Se o senhor puder concluir o que seja, aposento-me da força policial.
– Mostre-me.
Sugden tirou do bolso um envelope e despejou seu conteúdo na palma da mão. Um ligeiro sorriso apareceu em seu rosto.
– Aí está. O que o senhor me diz?
Na larga palma da mão do superintendente havia um pedacinho triangular de borracha cor-de-rosa e um pequeno pino de madeira.
Seu sorriso aumentou quando Poirot tomou os artigos e franziu o cenho ao observá-los.
– Alguma ideia, sr. Poirot?
– Esta borrachinha pode ter sido cortada de um estojo de toalete?
– E foi. Vem de um estojo de toalete que estava no quarto do sr. Lee. Alguém com uma tesoura afiada cortou dele apenas um pequeno pedaço triangular. Pelo que sei, o próprio sr. Lee poderia tê-lo feito. Mas escapa-me o motivo. Horbury não pôde esclarecer nada. Quanto ao pino, tem o tamanho de
um pino de cribbage[9], mas estes costumam ser feitos de marfim. Esse aí é de madeira bruta, e eu diria que foi bastante desbastado.
– É extraordinário – murmurou Poirot.
– Fique com eles se o senhor quiser – disse Sugden generosamente. – Eu não os quero.
– Mon ami, eu não o privaria deles!
– Eles não sugerem nada ao senhor?
– Devo confessar que nada, em absoluto!
– Esplêndido! – disse Sugden com pesado sarcasmo, retornando-os a seu bolso. – Estamos progredindo!
Poirot disse:
– A sra. George Lee lembra que a jovem dama inclinou-se e juntou do chão essas ninharias, de maneira furtiva. O senhor diria que isso é verdade?
Sugden ponderou a questão.
– Nã...ão – disse ele, hesitante. – Eu não iria tão longe. Ela não parecia culpada, nada disso, mas agiu muito, como dizer?, rápida e tranquila, se o senhor entende. E ela não sabia que eu a tinha visto! Disso tenho certeza. Ela assustou-se quando a abordei.
Poirot disse, pensativo:
– Quer dizer que havia uma razão? Mas que razão concebível poderia haver? Aquele pedacinho de borracha está inteiro. Não foi usado para nada. E pode não ter sentido algum, porém…
Sugden disse, impaciente:
– Bem, o senhor pode preocupar-se com isso se quiser, sr. Poirot. Tenho outras coisas em que pensar.
Poirot perguntou:
– Em que pé está o caso, em sua opinião?
Sugden sacou seu caderno de anotações.
– Vamos aos fatos. Para começar, há pessoas que não poderiam ter cometido o crime. Vamos descartá-las, antes de tudo...
– E elas são?
– Alfred e Harry Lee. Eles têm um álibi definitivo. Também a sra. Alfred Lee, uma vez que Tressilian a viu na sala de estar apenas um minuto antes de a briga começar no andar de cima. Esses três estão limpos. Vamos agora aos outros. Tenho aqui uma lista, para efeito de clareza.
Ele passou a agenda para Poirot.
No momento do crime
George Lee ?
Sra. George Lee ?
Tocando piano na sala de música (confirmado por sua
David Lee
esposa)
Sra. David Lee Na sala de música (confirmado pelo marido)
Srta. Estravados No seu quarto (sem confirmação)
No salão de baile tocando gramofone (confirmado por três
Stephen Farr empregados que podiam ouvir a música no vestíbulo dos
empregados)
Poirot disse, devolvendo a lista:
– E então?
– E então – disse Sugden –, George Lee poderia ter matado o velho. A sra. George Lee poderia tê-lo matado. Pilar Estravados poderia tê-lo matado; tanto o sr. quanto a sra. David Lee poderiam tê-lo matado, mas não ambos.
– O senhor não aceita o álibi?
O superintendente Sugden balançou a cabeça, enfático:
– Nem pensar! Esposa e marido, devotados um ao outro! Eles podem ter agido juntos ou, se um deles cometeu o crime, o outro está pronto para oferecer, sob juramento, um álibi. Entendo desta maneira: alguém estava na sala de música tocando piano. Pode ter sido David Lee. É provável que fosse, já que ele é um músico reconhecido, mas não há como dizer se a esposa dele também estava lá, exceto a palavra dela e a dele. Da mesma maneira, pode ter sido Hilda quem tocava o piano, enquanto David Lee esgueirava-se até o andar de cima e matava seu pai! Não, trata-se de um caso bem diferente dos dois irmãos na sala de jantar. Alfred Lee e Harry Lee não se gostam. Nenhum dos dois cometeria perjúrio em favor do outro.
– E Stephen Farr?
– Ele é um possível suspeito porque aquele álibi do gramofone é um pouco fraco. Por outro lado, esse tipo de álibi costuma ser mais sólido do que os bons e velhos álibis blindados e inatacáveis que, aposto dez contra um, foram forjados de antemão.
Poirot baixou a cabeça, pensativo.
– Entendo o que quer dizer. É o álibi de alguém que não sabia que deveria providenciar um.
– Exato! Mesmo assim, porém, não acredito que um estranho esteja envolvido neste caso.
Poirot disse rápido:
– Concordo. É um problema de família. Trata-se de um veneno que está no sangue, é íntimo... arraigado. Creio que há aqui ódio e conhecimento...
Ele gesticulou.
– Não sei, é difícil!
Sugden esperou que Poirot concluísse, respeitoso, mas não muito impressionado. Ele disse:
– É verdade, sr. Poirot. Mas chegaremos lá, não tema, por eliminação e lógica. Temos agora os possíveis autores, aqueles que tiveram oportunidade. George Lee, Magdalene Lee, David Lee, Hilda Lee, Pilar Estravados e, acrescento, Stephen Farr. Agora vamos ao motivo. Quem tinha um motivo para tirar o velho sr. Lee do caminho? Mais uma vez, podemos excluir certas pessoas. A srta. Estravados, por exemplo.
“Até onde sei, pelo testamento atual ela não recebe nada. Se Simeon Lee houvesse morrido antes da mãe da srta. Estravados, a parte daquela viria para esta (a não ser que o testamento da mãe determinasse de outra forma), mas, como Jennifer Estravados morreu antes de Simeon Lee, aquele legado em particular reverte aos outros membros da família. De forma que a srta. Estravados tinha um interesse definitivo em manter o velho vivo. Ele passara a gostar dela. É certo que ele teria deixado a ela uma boa quantia, no novo testamento. Ela tinha tudo a perder e nada a ganhar com o assassinato. O senhor concorda?”
– Perfeitamente.
– Persiste, é claro, a possibilidade de que ela tenha-lhe cortado a garganta no calor de uma discussão, o que não me parece nada provável. Para começar, eles estavam se dando muito bem, e ela não estava aqui há tempo suficiente para guardar algum rancor dele. Portanto, parece bastante improvável que a srta. Estravados tenha algo a ver com o crime, embora se possa argumentar que cortar a garganta de um homem seja um crime anti-inglês. Não foi o que disse sua amiga, a sra. George?
– Não a chame de minha amiga – disse Poirot, impaciente. – Ou falarei de sua amiga srta. Estravados, que o acha tão bonito!
Ele teve o prazer de ver a postura oficial do superintendente perturbada mais uma vez. O oficial de polícia enrubesceu. Poirot olhou para ele com maliciosa satisfação, dizendo em um tom suplicante:
– Seu bigode é realmente magnífico... Diga-me, o senhor usa um creme especial?
– Creme? Por Deus, não!
– O que o senhor usa?
– Uso? Nada. Ele... apenas cresce.
Poirot suspirou.
– O senhor foi favorecido pela natureza. – Ele afagou seu próprio bigode, negro e abundante, e suspirou. – Por mais caro que seja o produto – ele murmurou – para restaurar a cor natural, ele empobrece um pouco a qualidade dos fios.
O superintendente Sugden, pouco interessado em problemas capilares, prosseguiu de maneira impassível:
– Considerando o motivo para o crime, eu diria que talvez possamos excluir o sr. Stephen Farr. Não descarto a hipótese de que houve algum negócio escuso entre seu pai e o sr. Lee e o primeiro saiu perdendo, mas duvido. Os modos de Farr estavam muito tranquilos e seguros quando mencionou o assunto. Ele estava bastante confiante, e não creio que estivesse atuando. Não creio que acharemos algo ali.
– Acredito que não acharão – disse Poirot.
– E há outra pessoa com um motivo para manter o velho sr. Lee vivo: seu filho Harry. É verdade que ele é beneficiado pelo testamento, mas não creio que ele soubesse disso. Ao menos não poderia ter certeza! A impressão geral parecia ser de que Harry havia sido privado em definitivo de sua parte na herança, assim que abandonou a família. Mas agora ele estava prestes a voltar às boas graças! Ele só tinha a ganhar com o novo testamento. Não seria tolo a ponto de matar o pai agora. Na realidade, como sabemos, ele não poderia tê-lo feito. Está vendo, estamos progredindo. Estamos afastando muita gente do caminho.
– É verdade. Muito em breve não sobrará ninguém!
Sugden abriu um largo sorriso.
– Não estamos indo tão rápido assim! Temos George Lee e sua esposa, e David Lee e a sra. David. Eles todos se beneficiariam com a morte, e George Lee, pelo que pude deduzir, está precisando de dinheiro. Além do mais, seu pai o estava ameaçando com uma redução de mesada. Então temos George Lee, com um motivo e uma oportunidade!
– Continue – disse Poirot.
– E temos a sra. George! Gosta tanto de dinheiro quanto um gato gosta de leite. E eu apostaria que ela está endividada neste exato momento! Ela tinha inveja da garota espanhola. Ela foi rápida em perceber que a outra estava ganhando ascendência sobre o velho. E ouviu-o dizer que mandara chamar o advogado. Ela agiu rapidamente. Pode-se construir um caso a partir daí.
– É possível.
– Depois temos David Lee e esposa. Eles têm direito à herança com o atual testamento, mas não creio, por alguma razão, que dinheiro seja o motivo principal no caso deles.
– Não?
– Não. David Lee parece um tanto sonhador, não um tipo mercenário. Mas ele é... bem, ele é esquisito. Entendo que existam três motivos possíveis para o assassinato: há a complicação dos diamantes, há o testamento e há... bem, ódio puro e simples.
– Ah, o senhor percebeu, não?
Sugden disse:
– Por certo. Tenho pensado nisso o tempo inteiro. Se David Lee matou o pai, não acho que tenha sido por dinheiro. E ele ser o criminoso poderia explicar o... bem, a sangria!
Poirot olhou para ele com admiração.
– Sim, eu me perguntava quando o senhor levaria isso em consideração. Tanto sangue... foi o que a sra. Alfred disse. Remonta a rituais antigos, aos sacrifícios sangrentos, à unção com sangue de um sacrifício...
Sugden disse, franzindo o cenho:
– O senhor afirma que o assassino do sr. Lee, seja quem for, estava louco?
– Mon cher... há toda sorte de instintos profundos no homem, dos quais ele mesmo não tem consciência. O desejo de sangue... a exigência de sacrifício!
Sugden, em dúvida, disse:
– David Lee parece um sujeito tranquilo, inofensivo.
Poirot disse:
– O senhor não compreende a psicologia. David Lee é um homem que vive no passado, um homem para quem a memória da mãe ainda está muito viva. Ele manteve-se distante do pai por muitos anos, porque não conseguia perdoar o modo como o pai tratava a mãe. Suponhamos que tivesse vindo até aqui para perdoar. Mas talvez não tenha sido capaz de perdoar. Sabemos de uma coisa: quando David Lee esteve ao lado do cadáver de seu pai, alguma parte dele foi apaziguada e satisfeita. “Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem extraordinariamente bem...” Castigo! Punição! A maldade apagada pela expiação!
Sugden estremeceu de repente. Ele disse:
– Não fale assim, sr. Poirot. Fiquei assustado. Pode ser como o senhor está dizendo. Nesse caso, a sra. David o sabe, e quer acobertar o marido de todas as maneiras possíveis. Posso imaginá-la fazendo isso. Por outro lado, não consigo imaginá-la como assassina. Ela é o tipo de mulher tão comum e tranquila.
Poirot olhou curioso para ele.
– Essa é a impressão que o senhor tem dela? – murmurou ele.
– Bem, sim... uma pessoa doméstica, se é que o senhor me entende!
– Ah, entendo com precisão!
Sugden olhou para ele.
– Vamos lá, sr. Poirot, o senhor tem ideias sobre o caso. Conte-nos.
Poirot disse devagar:
– Tenho ideias, sim, mas bastante incertas. Deixe-me primeiro ouvir seu resumo do caso.
– Bem, é como eu disse... três motivos possíveis: ódio, ganância e essa complicação dos diamantes. Analisemos os fatos cronologicamente.
“Três e meia. Reunião familiar. Conversa telefônica com o advogado ouvida por toda a família. Então o velho descarrega sua ira sobre a família e manda todos embora. Eles fogem como um bando de coelhos assustados.”
– Hilda Lee ficou para trás – disse Poirot.
– Ficou mesmo. Mas não por muito tempo. Em torno das seis horas, Alfred tem uma conversa com seu pai, uma conversa desagradável. Harry será reintegrado à família. Alfred não fica satisfeito. Alfred, é claro, tem de ser nosso principal suspeito. Ele tinha, de longe, o motivo mais forte. Entretanto, para prosseguir, Harry é o próximo. Ele está cheio de energia. Tem o velho no lugar exato em que o queria. Mas antes das duas conversas, Simeon Lee deu falta dos diamantes e telefonou-me.
“Ele não quer mencionar a perda a nenhum dos dois filhos. Por quê? Em minha opinião, ele estava seguro de que nenhum deles tinha nada a ver com isso. Acredito, como venho dizendo, que o velho suspeitava de Horbury e de uma outra pessoa. E estou certo do que ele pretendia fazer.
“Lembre-se: ele disse de modo claro que não desejava companhia lá em cima naquela noite. Por quê? Porque estava preparando caminho para duas coisas: a primeira era a minha visita; e a segunda, a visita daquela outra pessoa suspeita. Ele pediu a alguém para subir e vê-lo logo depois do jantar. Quem poderia ser? Poderia ter sido George Lee. Muito mais provável que tenha sido a sra. Lee.
“E, nesse momento, há outra pessoa que retorna ao quadro: Pilar Estravados. Ele havia-lhe mostrado os diamantes. Havia-lhe dito o quanto valiam. Como saber se a garota não é uma ladra? Lembre-se daquelas sugestões misteriosas sobre o comportamento desonroso do pai dela. Talvez ele fosse ladrão profissional e houvesse terminado preso.”
Poirot disse lentamente:
– E assim, como o senhor disse, Pilar Estravados retorna ao quadro.
– Sim... como ladra. Não há outra maneira. Ela talvez tenha perdido a cabeça quando foi descoberta. Ela talvez tenha se voltado contra o avô e o atacado.
Poirot disse com vagar:
– É possível... sim...
O superintendente Sugden olhou para ele atentamente.
– Mas essa não é a sua teoria? Vamos lá, sr. Poirot, qual é a sua teoria?
Poirot disse:
– Eu sempre volto à mesma questão: o caráter do morto. Que tipo de homem era Simeon Lee?
– Não há muito mistério a esse respeito – disse Sugden encarando-o.
– Conte-me, então. Isto é, conte-me o que se sabia do homem, sob o ponto de vista local.
O superintendente Sugden passou um dedo hesitante no queixo. Parecia perplexo. Ele disse:
– Não sou daqui. Venho de Reevershire, do outro lado, o próximo condado. Mas é claro que o velho sr. Lee era uma figura bem conhecida nestas paragens. O que sei sobre ele são boatos.
– Sim? E os boatos eram... quais?
Sugden disse:
– Bem, ele era um sujeito difícil, poucos conseguiam tirar vantagem dele. Mas era generoso com seu dinheiro. Mão-aberta como ninguém. Não consigo entender como o sr. George Lee possa ser o exato oposto e ser o filho do velho.
“Ah! Mas há duas linhagens distintas na família. Alfred, George e David lembram, ao menos superficialmente, o lado materno da família. Estive olhando alguns retratos na galeria, esta manhã.
“Ele era esquentado – continuou o superintendente Sugden – e tinha má reputação com as mulheres, em sua juventude, é claro. Ele já estava inválido havia muitos anos. Mas, mesmo na época, ele demonstrava generosidade. Se houvesse problemas, ele compensava a garota com uma boa quantia e quase sempre lhe arranjava casamento. Pode ter sido malandro, mas não mesquinho. Ele não tratava bem a esposa, corria atrás de outras mulheres e a negligenciava. Dizem que ela morreu de desgosto. É um termo conveniente, mas acredito que a pobre senhora era mesmo muito infeliz. Não há dúvida de que o sr. Lee foi um sujeito peculiar. Tinha um traço vingativo também. Dizem que se alguém o prejudicasse de alguma maneira, ele sempre se vingava, não importava quanto tempo tivesse de esperar.”
– Os moinhos de Deus moem devagar... – murmurou Poirot.
O superintendente Sugden disse, agressivo:
– Moinhos do diabo! Não havia nada de santo em Simeon Lee. Era o tipo de homem de quem se pode dizer que vendeu a alma ao diabo e gostou da barganha! E ele era orgulhoso, também, orgulhoso como Lúcifer.
– Orgulhoso como Lúcifer! – disse Poirot. – É sugestivo o que o senhor disse agora.
O superintendente Sugden disse, parecendo confuso:
– O senhor não está querendo dizer que ele foi morto por ter sido orgulhoso, não é?
– Eu quis dizer – disse Poirot – que existe algo chamado herança. Simeon Lee transmitiu esse orgulho para seus filhos...
Ele interrompeu o que estava dizendo. Hilda Lee havia saído da casa e estava parada olhando para o terraço.
III
– Eu queria encontrá-lo, monsieur Poirot.
O superintendente Sugden havia pedido licença e voltara para a casa. Hilda, que estava à procura de Poirot, disse:
– Eu não sabia que ele estava com o senhor. Achei que ele estava com Pilar. Ele me parece um homem bom, bastante atencioso.
A voz dela era agradável, com uma cadência tranquilizadora.
Poirot perguntou:
– A senhora queria me ver, é isso?
Ela inclinou a cabeça.
– Sim. Acho que o senhor pode me ajudar.
– Eu teria prazer em fazê-lo, madame.
Ela disse:
– O senhor é um homem muito inteligente, monsieur Poirot. Eu vi isso noite passada. Creio que existem coisas que o senhor vai descobrir muito facilmente. Eu gostaria que o senhor compreendesse o meu marido.
– Sim, madame?
– Eu não falaria dessa maneira com o superintendente Sugden. Ele não compreenderia. Mas o senhor sim.
Poirot fez uma mesura.
– A senhora me faz sentir honrado, madame.
Hilda prosseguiu com calma:
– Meu marido, por muitos anos, desde que nos casamos, tem sido o que apenas consigo descrever como um aleijado emocional.
– Ah!
– Quando se sofre um grave ferimento físico, há choque e dor, que se curam com o tempo, a carne regenera-se, os ossos emendam-se. Podem permanecer, talvez, um pouco de fraqueza, uma ligeira cicatriz e nada mais. Meu marido, monsieur Poirot, sofreu um grave ferimento mental, na idade em que era mais suscetível. Ele adorava a mãe e a viu morrer.
“Ele acreditava que seu pai era o responsável moral por aquela morte. Desse choque ele nunca se recuperou. Seu ressentimento contra o pai nunca desapareceu. Fui eu quem persuadiu David a vir até aqui neste Natal, para se reconciliar com o pai. Eu queria, pelo bem dele, que esse ferimento mental sarasse. Sei agora que vir para cá foi um erro. Simeon Lee divertiu-se reabrindo essa velha ferida. Foi... uma coisa muito perigosa de se fazer...”
Poirot disse:
– A senhora está me dizendo, madame, que seu marido matou o pai dele?
– Digo-lhe, monsieur Poirot, que ele bem poderia tê-lo feito... E digo-lhe também: ele não o matou! Quando Simeon Lee foi morto, seu filho estava tocando a Marcha dos mortos. A vontade de matar estava em seu coração. Ela passou por seus dedos e morreu em ondas de som, essa é a verdade.
Poirot ficou em silêncio por um minuto ou dois, então ele disse:
– E a senhora, madame, qual o seu veredicto sobre aquele drama passado?
– O senhor quer dizer a morte da esposa de Simeon Lee?
– Sim.
Hilda disse devagar:
– Conheço o suficiente da vida para saber que nunca se pode julgar qualquer caso por seus méritos exteriores. Segundo as aparências, a culpa era toda de Simeon Lee, e sua esposa era tratada de forma abominável. Ao mesmo tempo, acredito honestamente que há uma espécie de submissão, uma predisposição para o martírio, que faz surgir os piores instintos em certo tipo de homem. Creio que Simeon Lee teria admirado coragem e força de caráter. Ele era apenas intolerante com resignação e lágrimas.
Poirot anuiu e disse:
– O seu marido falou noite passada: “Minha mãe nunca reclamou”. Isso é verdade?
Hilda Lee respondeu de maneira impaciente:
– É claro que não é! Ela reclamava o tempo inteiro a David! Ela colocou todo o fardo da sua infelicidade sobre os ombros dele. Ele era muito jovem, jovem demais para suportar toda a carga que ela lançava sobre ele!
Poirot olhou pensativo para ela. Seu olhar a fez corar e morder o lábio.
Ele disse:
– Compreendo.
Ela disse bruscamente:
– O que o senhor compreende?
Ele respondeu:
– Eu compreendo que a senhora teve de ser uma mãe para seu marido quando preferiria ter sido uma esposa.
Hilda baixou os olhos. Neste momento, David Lee saía da casa e vinha pelo terraço na direção deles. Ele disse, e sua voz tinha um tom límpido e alegre:
– Hilda, o dia não está glorioso? Parece primavera e não inverno.
Ele se aproximou. Sua cabeça estava altiva, uma mecha de cabelo louro caía-lhe sobre a testa, e seus olhos azuis brilhavam. Ele parecia bastante jovem e pueril. Havia nele uma animação juvenil e um fulgor despreocupado. Hercule Poirot preferiu calar-se...
David disse:
– Vamos até o lago, Hilda.
Ela sorriu, enlaçou o braço dele, e eles saíram juntos.
Enquanto Poirot os observava, ele a viu se virar e lhe lançar um olhar de relance. Ele percebeu um lampejo de ansiedade. Ou talvez fosse medo?
Devagar, Hercule Poirot caminhou até a outra extremidade do terraço. Ele murmurou para si mesmo:
– Como sempre digo: sou o padre confessor! E, como as mulheres se confessam com maior frequência do que os homens, elas vieram até mim esta manhã. Pergunto-me: haverá outra em breve?
Enquanto dava a volta e continuava a percorrer o mesmo circuito, ele soube que sua pergunta fora respondida. Lydia Lee vinha em sua direção.
IV
Lydia disse:
– Bom dia, monsieur Poirot. Tressilian disse-me que o senhor estaria aqui com Harry. Fico contente em encontrá-lo sozinho. Meu marido tem falado no senhor. Sei que ele está muito ansioso para falar com o senhor.
– Ah! Sim? Vamos vê-lo agora?
– Ainda não. Ele mal dormiu na noite passada. Acabei dando-lhe um sonífero forte. Ele ainda está dormindo, e não quero incomodá-lo.
– Compreendo. A senhora foi muito sensata. Pude perceber, ontem à noite, que o choque havia sido muito grande.
Ela disse com seriedade:
– Veja bem, monsieur Poirot, ele realmente se importava... muito mais que os outros.
– Entendo.
Ela perguntou:
– O senhor... o superintendente tem alguma ideia de quem possa ter feito essa coisa terrível?
Poirot disse de maneira deliberada:
– Temos certa ideia, madame, de quem não a fez.
Lydia disse, quase impaciente:
– É como um pesadelo... tão fantástico... não consigo acreditar que seja real!
Ela acrescentou:
– E Horbury? Ele estava realmente no cinema, como ele disse?
– Sim, madame, a história dele foi checada. Ele estava falando a verdade.
Lydia parou e arrancou algumas folhas do arbusto. Seu rosto ficou um pouco mais pálido. Ela disse:
– Mas é terrível! Isso deixa apenas... a família!
– Exato.
– Monsieur Poirot, não posso acreditar!
– Madame, a senhora pode e acredita!
Ela parecia prestes a protestar. De súbito, deu um sorriso pesaroso. E disse:
– Como somos hipócritas!
Ele anuiu.
– Se a senhora quisesse ser franca comigo, madame – disse ele –, admitiria que a ideia de seu sogro ter sido morto por alguém da família é bastante natural.
Lydia disse bruscamente:
– Que coisa absurda o senhor diz, monsieur Poirot!
– Sim, é mesmo. Mas o seu sogro era uma pessoa absurda!
Lydia disse:
– Pobre velho. Agora consigo sentir pena dele. Quando estava vivo, irritava-me de maneira indescritível!
Poirot disse:
– Posso imaginar!
Ele se inclinou sobre um dos vasos de pedra.
– Como são originais. Muito agradáveis.
– Que bom que o senhor gostou deles. É um dos meus passatempos. O senhor gostou deste Ártico, com os pinguins e o gelo?
– Encantador. E este, o que é?
– Ah, esse é o Mar Morto, ou ainda será. Não está terminado. Não olhe para ele. Este é para ser Piana, na Córsega. Como o senhor sabe, as pedras lá são bem rosadas e muito lindas, no lugar onde se encontram com o mar azul. Esta cena do deserto é bem divertida, o senhor não acha?
Lydia os foi mostrando a Poirot. Quando eles chegaram à extremidade mais distante, ela consultou seu relógio de pulso.
– Tenho de ver se Alfred está acordado.
Assim que ela entrou na casa, Poirot voltou devagar ao arranjo que representava o Mar Morto. Observou-o com grande interesse. Então, tomou um punhado de pedrinhas e as deixou correr por entre os dedos.
Seu rosto sofreu uma súbita mudança. Ele segurou as pedras próximo ao rosto:
– Sapristi![10] – disse ele. – Que surpresa! Mas qual é seu significado exato?