O Natal de Poirot
Parte 3 - 24 de dezembro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Parte 3
24 de dezembro
I
– O senhor quer mesmo que eu fique aqui, pai? – perguntou Harry. Ele inclinou a cabeça para trás. – Sabe, estou mexendo em um ninho de vespas.
– O que você quer dizer com isso? – perguntou Simeon bruscamente.
– Meu irmão Alfred – disse Harry. – Meu bom irmão Alfred! Ele, se me permite dizer, ressente-se de minha presença aqui.
– Aos diabos com ele! – disparou Simeon. – Sou o dono desta casa.
– De qualquer forma, imagino que o senhor esteja bastante dependente de Alfred. Não quero incomodar...
– Você vai fazer o que mando – disparou seu pai.
Harry bocejou.
– Não sei se conseguirei me adaptar a esta vida caseira. É sufocante para um sujeito que está acostumado a perambular pelo mundo.
Seu pai disse:
– É melhor você se casar e sossegar de uma vez.
Harry disse:
– Com quem eu vou me casar? Pena que não se pode casar com a própria sobrinha. A jovem Pilar é atraente.
– Você notou?
– Falando em sossegar, o gordo George saiu-se muito bem, em termos de beleza. Quem era ela?
Simeon deu de ombros.
– Como eu saberia? Creio que George a apanhou em um desfile de modelos. Ela diz que seu pai era um oficial reformado da marinha.
Harry disse:
– Provavelmente o segundo-oficial de um vapor costeiro. George terá problemas com ela, se não tomar cuidado.
– George – disse Simeon Lee – é um idiota.
Harry disse:
– Por que ela se casou com ele? Por dinheiro?
Simeon deu de ombros.
Harry disse:
– Bem, o senhor acha que pode dar um jeito em Alfred?
– Logo resolveremos isso – disse Simeon, de modo sinistro.
Ele tocou uma sineta que estava sobre a mesa ao seu lado.
Horbury apareceu de imediato. Simeon disse:
– Peça ao sr. Alfred que venha até aqui.
Horbury saiu, e Harry resmungou:
– Esse sujeito ouve atrás das portas!
Simeon deu de ombros.
– É provável.
Alfred entrou apressado. Seu rosto se contraiu quando viu o irmão. Ignorando Harry, ele disse, enfático:
– O senhor queria me ver, papai?
– Sim, sente-se. Estive pensando ainda há pouco que precisamos reorganizar as coisas, agora que temos duas pessoas a mais morando aqui.
– Duas?
– Pilar fará desta casa seu lar, é claro. E Harry veio para ficar.
Alfred disse:
– Harry vai morar aqui?
– Por que não, meu velho? – disse Harry.
Alfred voltou-se bruscamente para Harry.
– Acho que você deveria saber.
– Bem, desculpe-me... mas não sei.
– Depois de tudo o que aconteceu? A maneira vergonhosa como você agiu. O escândalo...
Harry o interrompeu com um gesto indolente.
– Tudo isso é passado, meu velho.
– Seu comportamento com papai foi abominável, depois de tudo que ele fez por você...
– Olhe aqui, Alfred, parece-me que o problema é do pai, não seu. Se ele está disposto a perdoar e esquecer...
– Estou disposto – disse Simeon. – Você bem sabe, Alfred, que Harry é meu filho, afinal de contas.
– Sim, mas... isso me deixa indignado... pelo papai.
Simeon disse:
– Harry vai morar aqui! É meu desejo. – Ele pousou a mão com suavidade sobre o ombro deste. – Gosto muito de Harry.
Alfred levantou-se e deixou a sala. Seu rosto estava pálido. Harry também levantou-se e seguiu-o, rindo.
Simeon ficou rindo consigo mesmo. De repente teve um sobressalto e olhou à sua volta.
– Quem diabos está aí? Ah, é você, Horbury. Não seja tão furtivo.
– Perdão, senhor.
– Esqueça. Ouça, tenho algumas ordens para você. Quero que todos venham até aqui depois do almoço. Todos.
– Sim, senhor.
– Há algo mais. Quando eles vierem, você vem com eles. E quando você chegar à metade do corredor, levante a voz para que eu possa ouvi-lo. Qualquer pretexto servirá. Compreendeu?
– Sim, senhor.
Horbury desceu para o andar de baixo e disse a Tressilian:
– Se quiser saber minha opinião, acho que teremos um Natal feliz.
Tressilian disse bruscamente:
– O que quer dizer com isso?
– Espere e verá, sr. Tressilian. Hoje é véspera de Natal, e o espírito natalino está por toda parte... será mesmo?
II
Eles entraram na sala e pararam à porta.
Simeon estava falando ao telefone. Ele acenou-lhes.
– Sentem-se, todos vocês. Não levarei um minuto.
E continuou falando ao telefone.
– Alô, Charlton, Hodgkins & Bruce? É você, Charlton? Aqui é Simeon Lee. Sim, não é?... Sim... Não, quero fazer um novo testamento... Sim, já faz algum tempo que fiz o outro... As circunstâncias se alteraram... Ah não, não se apresse.
Não quero estragar seu Natal. Digamos que no Boxing Day[1] ou no dia seguinte. Venha para cá e direi a você o que quero que seja feito. Não, assim está bom. Ainda não estou morrendo.
Ele pôs o fone no gancho e olhou à sua volta, para os oito membros de sua família. Simeon deu uma risadinha e disse:
– Vocês todos parecem muito abatidos. Qual o problema?
Alfred disse:
– O senhor mandou-nos chamar...
Simeon, rápido, disse:
– Ah, desculpe... Não é nada extraordinário. Vocês acharam que era um conselho familiar? Não, apenas estou muito cansado hoje, só isso. Nenhum de vocês precisa aparecer depois do jantar. Irei para a cama. Quero estar bem-disposto para o dia do Natal.
Ele riu para eles. George disse sério:
– É claro... é claro...
Simeon disse:
– Formidável e antiga instituição, o Natal. Promove a comunhão do sentimento familiar. O que você acha, minha cara Magdalene?
Magdalene deu um salto. Sua boquinha tola abriu-se e logo se fechou. Ela disse:
– Ah... ah, sim!
Simeon disse:
– Deixe-me ver, você viveu com um oficial reformado da marinha... – Ele fez uma pausa. – Seu pai. Não creio que você desse grande importância para o Natal. É preciso uma família grande para isso!
– Bem... bem, sim, talvez seja preciso.
Os olhos de Simeon desviaram-se dela.
– Não quero falar de nada desagradável nesta época do ano, mas sabe, George, temo que tenha de cortar um pouco sua mesada. Minha vida aqui custará um pouco mais no futuro.
George ficou muito vermelho.
– Mas papai, o senhor não pode fazer isso!
Simeon disse com suavidade:
– Será que não posso? Minhas despesas já são muito altas. Altas demais. Assim como está, não sei como pagarei as contas. Será preciso fazer uma economia rigorosíssima.
“Que sua esposa economize um pouco mais, então – disse Simeon. – As mulheres são boas nessas coisas. Elas muitas vezes pensam em economias que um homem jamais teria sonhado. E uma mulher talentosa pode fazer suas próprias roupas. Lembro que minha esposa era talentosa com a agulha. Seu único talento, uma boa mulher, mas burra de matar...”
David levantou-se com um salto. O pai disse:
– Sente-se garoto, você vai terminar derrubando algo...
David disse:
– Minha mãe...
Simeon continuou:
– Sua mãe tinha um cérebro de galinha! E parece que ela o transmitiu aos filhos. – Ele alterou-se de repente. Um ponto vermelho apareceu em cada face. Sua voz saiu aguda e esganiçada. – Vocês não valem um centavo, nenhum de vocês! Estou cansado de todos! Vocês não são homens! São uns pusilânimes, um bando de maricas pusilânimes. Pilar vale mais do que dois de vocês juntos! Juro por Deus que tenho um filho melhor do que qualquer um de vocês em algum lugar no mundo, mesmo que tenha nascido ilegítimo!
– Vamos, pai, acalme-se – exclamou Harry.
Ele havia se levantado de um salto e parado ali, com a reprovação estampada em seu rosto quase sempre bem-humorado. Simeon disparou:
– O mesmo vale para você! O que você já fez na vida? Implorava-me por dinheiro de qualquer lugar do mundo onde estivesse! Fico doente só de ver as caras de vocês todos! Saiam daqui!
Recostou-se na cadeira, um pouco ofegante.
Devagar, um a um, a família saiu. George estava vermelho e indignado. Magdalene parecia assustada. David estava pálido e trêmulo. Harry saiu esbravejando da sala. Alfred permaneceu com se estivesse sonhando. Apenas Hilda parou à porta e voltou lentamente.
Ela parou na frente dele, e Simeon teve um sobressalto quando abriu os olhos e a viu parada ali. Havia algo ameaçador na solidez de sua absoluta imobilidade.
Ele disse irritado:
– O que é?
Hilda respondeu:
– Quando sua carta chegou, eu acreditei no que o senhor disse, que queria reunir sua família para o Natal. Convenci David a vir.
Simeon disse:
– Bem, e daí?
Hilda disse devagar:
– O senhor queria reunir sua família, mas não com a intenção que dizia ter! O senhor os queria aqui para poder brigar com eles, não é? Deus o ajude, mas essa é sua ideia de diversão!
Simeon deu uma risadinha e disse:
– Eu sempre tive um senso de humor muito particular. Não espero que ninguém mais entenda a piada. Eu estou rindo dela!
Hilda não disse nada. Um vago sentimento de apreensão tomou conta de Simeon Lee. Ele disse de súbito:
– No que você está pensando?
Hilda Lee respondeu devagar:
– Tenho medo...
Simeon disse:
– Você está com medo de mim?
Ela disse:
– Não de você. Temo por você!
Como um juiz que declarou uma sentença, ela deu-lhe as costas. Hilda caminhou lenta e pesadamente para fora da sala...
Simeon ficou com o olhar fixo para a porta.
Então, ele se levantou e avançou até o cofre. Murmurou:
– Vamos dar uma olhada nas minhas belezas.
III
A campainha da porta tocou, em torno de quinze para as oito.
Tressilian foi atendê-la. Ele voltou à copa e encontrou Horbury ali, tirando as xícaras de café da bandeja e verificando suas marcas.
– Quem era? – perguntou Horbury.
– O superintendente de polícia... sr. Sugden... cuidado com o que você está fazendo!
Horbury deixou cair uma das xícaras, que se quebrou.
– E agora isso – lamentou Tressilian. – Há onze anos que as lavo e nunca quebrei nenhuma, e vem você e começa a mexer em coisas que não deve, e veja o que acontece!
– Desculpe, sr. Tressilian. Sinto muito – o outro respondeu. Seu rosto estava coberto de suor. – Não sei como aconteceu. O senhor disse que o superintendente de polícia esteve aqui?
– Sim, o sr. Sugden.
O criado passou a língua sobre os lábios pálidos.
– O quê... o que ele queria?
– Doações para o orfanato da polícia.
– Ah! – Horbury endireitou os ombros. Com uma voz mais natural, disse: – Ele conseguiu alguma coisa?
– Eu levei o livro de registros até o velho sr. Lee, e ele mandou-me trazer o superintendente para cima e colocar o xerez na mesa.
– Nada além de mendicância, nesta época do ano – disse Horbury. – O velho diabo é generoso, devo admitir, apesar de seus outros defeitos.
Tressilian disse com dignidade:
– O sr. Lee sempre foi um cavalheiro generoso.
Horbury assentiu.
– É o que há de melhor nele! Bem, estou indo agora.
– Você vai ao cinema?
– É o que pretendo. Até mais, sr. Tressilian.
Ele saiu pela porta que levava ao vestíbulo dos empregados.
Tressilian ergueu os olhos para o relógio pendurado na parede.
Ele foi até a sala de jantar e colocou os guardanapos nos suportes. Então, após assegurar-se de que tudo estava como deveria, ele soou o gongo no hall.
O superintendente de polícia desceu a escada enquanto a última nota cessava de soar. O superintendente Sugden era um homem grande e elegante. Ele vestia um paletó azul bem-abotoado e movia-se com consciência da própria importância.
Ele disse afavelmente:
– Creio que teremos muito frio hoje à noite. Isso é bom, o clima dos últimos dias não tem combinado com a estação.
Tressilian disse, balançando a cabeça:
– A umidade afeta meu reumatismo.
O superintendente comentou que o reumatismo era um mal doloroso, e Tressilian abriu-lhe a porta da frente.
O velho mordomo trancou outra vez a porta e voltou devagar à sala. Esfregou os olhos e suspirou. Logo se empertigou, ao ver Lydia passar para a sala de estar. George Lee descia as escadas naquele mesmo instante.
Tressilian estava pronto, na expectativa. Quando a última convidada, Magdalene, entrou na sala de estar, ele fez sua própria aparição, murmurando:
– O jantar está servido.
À sua maneira, Tressilian era um perito em vestuário feminino. Ele sempre notava e criticava os vestidos das mulheres, enquanto circulava em torno da mesa com a jarra de vinho em punho.
A sra. Alfred, ele observou, estava usando seu novo tafetá preto e branco com estampas florais. Um modelo ousado, que causava forte impressão, mas ela o vestia bem, ao contrário de outras senhoras. O vestido da sra. George era feito sob medida, Tressilian tinha certeza. Devia ter custado muito caro. Ele se perguntou o que o sr. George achava de pagá-lo! O sr. George não gostava de gastar dinheiro, nunca gostara. E a sra. David? Ora, uma senhora simpática, mas não tinha a menor ideia de como se vestir. Para o formato de seu corpo, um simples veludo preto teria sido melhor. Veludo estampado, e ainda por cima escarlate, era uma má escolha. Quanto à srta. Pilar, não importava o que vestisse, com seu corpo e seus cabelos ela ficava bem com qualquer coisa. Mas o que dizer daquele vestidinho branco, barato e frívolo! Bem, o sr. Lee logo consertaria isso! Ele estava encantado por ela. Era sempre assim com cavalheiros idosos. Um rosto jovem podia fazer qualquer coisa com eles!
– Vinho do Reno ou clarete? – sussurrou Tressilian com deferência junto ao ouvido da sra. George. Com o rabo do olho ele viu que Walter, o criado da cozinha, estava novamente servindo os vegetais antes do molho. Depois de tudo que Tressilian havia-lhe ensinado!
Tressilian foi à cozinha e voltou com o suflê. Ocorria-lhe agora que seu interesse pelos trajes das senhoras e suas apreensões quanto às deficiências de Walter eram coisas do passado, que todos estavam muito calados esta noite. Talvez o termo exato não fosse calados: o sr. Harry estava falando por vinte pessoas – não, não o sr. Harry, o cavalheiro sul-africano. E os outros também falavam, mas somente, por assim dizer, em espasmos. Havia algo estranho neles.
O sr. Alfred, por exemplo, parecia muito doente. Como se tivesse tomado um choque ou algo parecido. Ele parecia um tanto atordoado e remexia na comida em seu prato sem comê-la. Sua esposa estava preocupada com ele. Tressilian podia perceber. Ela não parava de olhar para ele, do outro lado da mesa. Com discrição, é claro, nada perceptível. O sr. George tinha o rosto bastante vermelho e devorava sua comida sem saboreá-la. Ele terá um derrame um dia se não tomar cuidado. A sra. George não estava comendo. Dieta, talvez. A srta. Pilar, que parecia apreciar bastante a comida, ria e conversava com o cavalheiro sul-africano. Ele estava devidamente arrebatado por ela. Eles pareciam não ter nenhuma preocupação!
O sr. David? Tressilian preocupava-se com o sr. David. Ele lembrava muito a mãe. E era notável como ainda parecia jovem. Mas nervoso; veja, ele havia derrubado sua taça.
Tressilian recolheu-a sem demora e secou com perícia o líquido derramado. O problema fora resolvido. O sr. David parecia mal perceber o que fizera, apenas permanecia sentado, com seu rosto pálido, olhando para frente.
A propósito de rostos pálidos, havia sido estranha a expressão de Horbury há pouco na copa, quando ele ouvira que um oficial de polícia esteve na casa... quase como se...
A mente de Tressilian parou com um solavanco. Walter deixara cair uma pera do prato que estava servindo. Criados de cozinha não prestam hoje em dia! Do jeito que trabalham, poderiam ser cavalariços!
Ele trouxe o vinho do Porto. O sr. Harry parecia um pouco distraído nesta noite. Não tirava os olhos do sr. Alfred. Nunca houvera muito amor entre esses dois, nem mesmo na infância. O sr. Harry, é claro, sempre fora o favorito do seu pai, e isso tinha amargurado o sr. Alfred. O sr. Lee nunca se importara muito com o sr. Alfred. Uma pena, já que o sr. Alfred sempre parecera tão dedicado ao pai.
Veja, a sra. Alfred está se levantando agora. Ela deu a volta na mesa. Muito bonita aquela estampa no tafetá; aquela capa lhe cai bem. Uma dama muito elegante.
Ele retirou-se para a copa e fechou a porta da sala de estar, deixando os cavalheiros a sós com seu vinho do Porto.
Tressilian levou a bandeja de café para a sala de estar. As quatro damas estavam um tanto desconfortáveis ali, ele pensou. Não conversavam. Ele serviu o café em silêncio.
Ele saiu novamente. Enquanto entrava na copa, ouviu a porta da sala de jantar abrir-se. David Lee saiu e caminhou pelo corredor, na direção da sala de estar.
Tressilian voltou para a copa e aplicou uma reprimenda em Walter. Ele era quase, se não de fato, impertinente!
Tressilian, sozinho em sua copa, sentou-se, bastante cansado. Ele sentia-se deprimido. Véspera de Natal, e todo esse empenho e tensão... Ele não gostava disso!
Com esforço levantou-se e foi até sala de estar recolher as xícaras de café. A sala estava vazia exceto por Lydia, que estava meio escondida pela cortina da janela no canto mais distante da sala. Ela estava olhando a noite lá fora.
Da porta ao lado se ouvia o piano.
O sr. David estava tocando. Mas por que, perguntou-se Tressilian, a Marcha dos mortos? Pois era isso o que o sr. David tocava agora. Tudo ia mesmo muito mal.
Ele atravessou devagar o corredor, de volta a sua copa.
Foi então que Tressilian ouviu primeiro o ruído lá em cima; porcelana quebrando-se, móveis derrubados, uma série de estalos e batidas.
“Meu Deus!”, pensou Tressilian. “O que o patrão está fazendo? O que está acontecendo lá em cima?”
Depois, alto e claro, veio um grito – um grito agudo, terrível e lamentoso, que morreu em um engasgo ou um ruído gutural.
Tressilian ficou paralisado por um instante, correu para o hall e subiu a larga escada. Outros estavam com ele. Aquele grito havia sido ouvido em toda a casa.
Eles correram escada acima, fazendo a curva e passando por um nicho no qual havia estátuas que emitiam um brilho pálido e sobrenatural, e continuaram pelo corredor estreito que levava à porta de Simeon Lee. O sr. Farr já estava lá, assim como a sra. David. Ela estava encostada à parede, e ele virava a maçaneta da porta.
– A porta está trancada – ele dizia. – A porta está trancada!
Harry Lee veio de encontro ao sr. Farr e arrancou-lhe a maçaneta das mãos. Ele também a virou e torceu.
– Papai – ele gritou. – Papai, deixe-nos entrar.
Ele ergueu a mão, e, em silêncio, todos tentaram ouvir algo. Não houve resposta. Nenhum ruído veio do quarto.
A campainha da porta da frente soou, mas ninguém lhe deu atenção.
Stephen Farr disse:
– Temos de arrombar a porta. É a única maneira.
Harry disse:
– Será difícil. Estas portas são sólidas. Vamos, Alfred.
Eles tentaram com todas as forças. Por fim, apanharam um banco de carvalho e o usaram como aríete. A porta afinal cedeu. Suas dobradiças se espatifaram, e ela caiu dos batentes com um estrondo.
Por um minuto eles amontoaram-se ali, olhando para dentro. O que viram, nenhum deles jamais esqueceu...
Com certeza ocorrera uma luta terrível. Móveis pesados haviam sido tombados. Vasos de porcelana estavam estilhaçados no chão. No meio do tapete da lareira, em frente às chamas altas, jazia Simeon Lee em uma grande poça de sangue... Havia sangue respingado por toda parte. O lugar lembrava um matadouro.
Houve um longo suspiro horrorizado, e então duas vozes alternaram-se. Estranhamente, ambas as frases ditas foram citações.
David Lee disse:
– Os moinhos de Deus moem devagar... [2]
A voz de Lydia saiu como um sussurro trêmulo:
– Quem poderia adivinhar que o velho tinha tanto sangue dentro das veias?
[3]
IV
O superintendente Sugden havia tocado a campainha três vezes. Enfim, em desespero, ele bateu na aldrava.
Depois de muito tempo, Walter, assustado, abriu a porta.
– Ufa... – disse ele. Seu rosto expressou alívio. – Eu estava agora mesmo ligando para a polícia.
– Para quê? – disse o superintendente Sugden bruscamente. – O que está acontecendo aqui?
Walter sussurrou:
– É o velho sr. Lee. Alguém o matou.
O superintendente empurrou Walter para o lado e correu escada acima. Ele entrou no quarto sem que ninguém o percebesse e viu Pilar inclinar-se para frente e apanhar algo do chão, enquanto David Lee estava parado com as mãos sobre os olhos.
Ele viu os outros amontoados em um pequeno grupo. Apenas Alfred Lee havia se aproximado do corpo de seu pai. Ele estava agora bastante próximo, olhando para baixo. Sua expressão era vazia...
George Lee dizia, com gravidade:
– Nada deve ser tocado, lembrem-se, nada até a polícia chegar. Isso é o mais importante!
– Com licença – disse Sugden.
Ele abriu caminho, empurrando com cortesia as damas para o lado.
Alfred Lee o reconheceu.
– Ah – disse ele. – É o senhor, superintendente Sugden. O senhor chegou aqui muito rápido.
– Sim, sr. Lee – o superintendente Sugden não perdia tempo com explicações.
– O que é tudo isso?
– Meu pai – disse Alfred Lee – foi morto... assassinado...
Sua voz sumiu. Magdalene, histérica, irrompeu em soluços.
O superintendente Sugden ergueu sua grande mão em um gesto oficial. Ele disse com autoridade:
– Por favor, saiam todos do quarto, com exceção do sr. Lee e... hum... sr. George Lee?
Eles caminharam devagar até a porta, relutantes como ovelhas. O superintendente Sugden interceptou Pilar de súbito.
– Com licença, senhorita – disse ele com educação. – Nada deve ser tocado ou movido.
Ela o encarou. Stephen Farr disse, impaciente:
– É claro que não. Ela sabe disso.
O superintendente Sugden disse, ainda da mesma maneira agradável:
– Você não apanhou alguma coisa do chão agora mesmo?
Os olhos de Pilar se arregalaram. Ela o encarou e disse, sem acreditar:
– Eu peguei?
O superintendente Sugden permaneceu gentil. Somente sua voz estava um pouco mais firme.
– Sim, eu a vi...
– Ah!
– Então, por favor, entregue a mim. Está em sua mão agora.
Lentamente Pilar abriu a mão. Em sua palma havia um pedaço de borracha e um pequeno objeto feito de madeira. O superintendente Sugden tomou-os, fechou-os em um envelope e guardou-os no bolso interno de seu paletó. Ele disse:
– Obrigado – e deu as costas. Apenas por um minuto os olhos de Stephen Farr deixaram transparecer um respeito surpreso. Era como se ele houvesse subestimado o grande e elegante superintendente.
Eles saíram aos poucos do quarto. Atrás deles, ouviram a voz oficial do superintendente:
– E agora, se não se importarem...
V
– Nada como um fogo de lenha – disse o coronel Johnson enquanto jogava mais uma tora e então trazia sua cadeira para mais perto das chamas. – Sirva-se à vontade – ele acrescentou com hospitalidade, chamando a atenção para o carrinho de bebidas e o sifão que estavam próximos de seu convidado.
O convidado recusou com um aceno cortês de mão. Com cuidado, ele aproximou sua própria cadeira da lenha em chamas, embora acreditasse que a possibilidade de torrar as solas dos próprios pés (como algum tipo de tortura medieval) não compensaria a corrente fria que circulava às suas costas.
O coronel Johnson, chefe de polícia de Middleshire, poderia ser da opinião que nada podia ser melhor do que um fogo de lenha, mas Hercule Poirot era da opinião que o aquecimento central podia e era sempre melhor!
– Que história incrível, aquele caso Cartwright – observou o anfitrião entregando-se a reminiscências. – Um homem maravilhoso! Modos encantadores. Ora, quando ele esteve aqui com o senhor, teve-nos completamente nas mãos.
Ele balançou a cabeça.
– Nós nunca mais teremos nada como aquele caso! – disse ele. – Um envenenamento por nicotina é algo raro, felizmente.
– Houve uma época em que se considerava todo envenenamento como um ato indigno de um inglês – sugeriu Hercule Poirot. – Um expediente usado por estrangeiros! Sem espírito esportivo!
– Não creio que pudéssemos afirmá-lo – disse o chefe de polícia. – Sempre houve muitos envenenamentos por arsênico, talvez bem mais do que se suspeitava.
– Sim, é possível.
– Todos os casos de envenenamento são complicados – disse Johnson. – Testemunhos conflitantes dos peritos... os médicos, em geral, têm extremo cuidado com o que dizem. Sempre são casos difíceis de se levar ao júri. Não, se é preciso haver assassinato (que Deus não permita!), que seja um caso claro. Algo sem ambiguidades quanto à causa da morte.
Poirot assentiu.
– O ferimento a bala, a garganta cortada, o crânio esmigalhado? É aí que está sua preferência?
– Ah, não a chame de uma preferência, caro amigo. Não alimente a ideia de que gosto de casos de assassinato! Espero nunca ter mais um. De qualquer forma, deveremos estar seguros o suficiente durante sua visita.
Poirot começou de maneira modesta:
– Minha reputação...
Mas Johnson havia seguido em frente.
– Época de Natal – disse ele. – Paz, boa vontade e todo esse tipo de coisa. Boa vontade por toda parte.
Hercule Poirot se recostou na cadeira. Ele encostou as pontas dos dedos umas nas outras. Estudou seu anfitrião pensativamente e murmurou:
– É sua opinião, portanto, que a época do Natal é um período do ano improvável para o crime?
– Foi isso que eu disse.
– Por quê?
– Por quê? – Johnson ficou ligeiramente desconcertado. – Bem, como eu disse há pouco, é uma época de alegria e tudo mais!
Hercule Poirot murmurou:
– Os britânicos são tão sentimentais!
Johnson disse com firmeza:
– E se formos? E se gostamos das tradições e festividades antigas? Estamos fazendo algum mal?
– Não há mal algum. É tudo muito encantador! Mas examinemos por um momento os fatos. Você disse que o Natal é uma época alegre. Isso significa comer e beber bastante, não é? Significa, na realidade, comer em excesso! E comer demais provoca indigestão! E com a indigestão vem a irritabilidade!
– Crimes – disse o coronel Johnson – não são cometidos por irritabilidade.
– Não tenho tanta certeza! Veja a questão por outro lado. No Natal há um espírito de boa vontade. É como você diz, “a coisa a ser feita”. Velhas brigas são apaziguadas, aqueles que discordavam aceitam concordar, mesmo que seja apenas por um tempo.
Johnson anuiu.
– Firmar a paz, isso mesmo.
Poirot seguiu com seu raciocínio:
– E agora, famílias que passaram o ano inteiro separadas reúnem-se uma vez mais. Sob tais condições, meu amigo, você tem de admitir que haja uma tensão considerável. Pessoas que não se sentem amigáveis aplicam grande pressão sobre si mesmas para parecerem amigáveis! Na época do Natal há muita hipocrisia, uma hipocrisia honrada, uma hipocrisia praticada pour le bon motif, c’est entendu, mas mesmo assim hipocrisia!
– Bem, eu não colocaria a questão assim – disse o coronel Johnson em dúvida.
Poirot olhou radiante para ele.
– Não, não. Sou eu que a estou colocando assim, não você. Estou demonstrando que sob essas condições, tensão mental, mal-estar físico, é bastante provável que ligeiras antipatias e desavenças banais, de um momento para outro, assumam um caráter mais sério. O resultado de se fingir ser mais amável, magnânimo e civilizado do que se é na verdade é que, cedo ou tarde, o indivíduo passa a se comportar de forma mais mal-humorada, impiedosa e em geral mais desagradável do que é na realidade! Se você reprime um comportamento natural, mon ami, cedo ou tarde a represa rompe e ocorre um cataclismo!
O coronel Johnson olhou para ele com ar de dúvida.
– Eu nunca sei quando você está falando sério ou quando você está me passando a perna – ele resmungou.
Poirot sorriu para o chefe de polícia.
– Não estou falando sério! Nem um pouco sério! Mas de qualquer forma, é verdade o que eu digo: condições artificiais provocam uma reação natural.
O empregado do coronel Johnson entrou na sala.
– O superintendente Sugden no telefone, senhor.
– Certo. Já estou indo.
Com uma palavra de desculpas, o chefe de polícia deixou a sala. Ele voltou em torno de três minutos depois. Seu rosto era sério e perturbado.
– Malditos sejam! – disse ele. – Um caso de assassinato! E ainda mais na véspera do Natal!
As sobrancelhas de Poirot se ergueram.
– Não há dúvida de que se trata de um assassinato?
– Hum? Não, não há outra solução possível! Um caso perfeitamente claro. Assassinato, e brutal ainda por cima!
– Quem é a vítima?
– O velho Simeon Lee. Um de nossos homens mais ricos! Começou a ganhar dinheiro na África do Sul. Ouro, não, diamantes, creio eu. Ele investiu uma fortuna imensa na fabricação de um equipamento específico para mineração. Acredito que inventado por ele mesmo. De qualquer maneira, o retorno foi enorme! Dizem que é multimilionário.
Poirot disse:
– Ele era benquisto?
Johnson respondeu lentamente:
– Não acho que alguém gostasse dele. Era o tipo do sujeito esquisito. Já há alguns anos que ele estava inválido. Eu não sei muito sobre ele. Mas com certeza ele era um dos figurões do condado.
– Então esse caso vai causar uma grande comoção?
– Sim. Tenho de chegar a Longdale o mais rápido possível.
Ele hesitou, olhando para seu convidado. Poirot respondeu a pergunta não pronunciada:
– Você gostaria que eu o acompanhasse?
Johnson disse, sem jeito:
– É quase indigno pedir-lhe isso. Mas, bem, você sabe como são as coisas! O superintendente Sugden é um bom homem, não há melhor: meticuloso, cuidadoso, confiável ao extremo... mas... bem, ele não é um sujeito nem um pouco imaginativo. Eu gostaria muito, já que você está aqui, de ter o beneficio dos seus conselhos.
Ele fez uma breve pausa no final do discurso, dando-lhe um estilo um tanto telegráfico. Poirot respondeu com rapidez:
– Será um prazer. Pode contar comigo para ajudá-lo de todas as maneiras que eu puder. Não podemos ferir os sentimentos do bom superintendente. O caso será dele, não meu. Serei apenas o consultor informal.
O coronel Johnson disse em tom afetuoso:
– Você é um bom sujeito, Poirot.
Com essas palavras de louvor, os dois homens partiram.
VI
Um policial abriu-lhes a porta da frente e os saudou com uma continência. Atrás dele, o superintendente Sugden veio do fundo da sala e disse:
– Fico contente que tenha vindo, senhor. Entremos neste aposento à esquerda, o gabinete do sr. Lee. Eu gostaria de repassar os principais elementos do caso. A coisa toda é muito peculiar.
Ele conduziu-os até uma pequena sala, à esquerda do hall. Havia um telefone ali e uma grande escrivaninha coberta de papéis. As paredes estavam cobertas por prateleiras de livros.
O chefe de polícia disse:
– Sugden, este é o monsieur Hercule Poirot. Talvez você já tenha ouvido falar dele. Por acaso ele estava em minha casa. Superintendente Sugden.
Poirot fez uma ligeira mesura e olhou para o outro homem, avaliando-o. Ele viu um homem alto de ombros largos e postura militar, nariz aquilino, queixo proeminente e um farto bigode castanho. Sugden olhou fixamente para Hercule Poirot, após responder ao cumprimento. Hercule Poirot olhava fixamente o bigode do superintendente Sugden. Seu viço parecia fasciná-lo.
O superintendente disse:
– É claro que já ouvi falar do senhor, monsieur Poirot. O senhor esteve por aqui alguns anos atrás, se me lembro bem. Morte de sir Bartholomew Strange. Um caso de envenenamento. Nicotina. Não no meu distrito, mas é claro que ouvi tudo sobre o ocorrido.
O coronel Johnson disse com impaciência:
– Mas vamos aos fatos, Sugden. Um caso claro, você disse.
– Sim, senhor, trata-se de um assassinato, sem a menor sombra dúvida. A garganta do sr. Lee foi cortada. Pelo que entendi do médico, a veia jugular foi seccionada. Mas tem algo muito esquisito sobre essa história toda.
– Você quer dizer...
– Eu gostaria que o senhor ouvisse meu relato primeiro. Estas são as circunstâncias: esta tarde, em torno das cinco horas, recebi uma ligação do sr. Lee na delegacia de Addlesfield. Ele soava um pouco estranho no telefone e me pediu para vir até aqui para vê-lo às oito horas da noite de hoje. Ele fez questão de ressaltar o horário. Além disso, instruiu-me para dizer ao mordomo que eu estava arrecadando doações para alguma caridade da polícia.
O chefe de polícia ergueu o olhar de súbito.
– Ele queria algum pretexto plausível para fazê-lo entrar na casa, não é?
– Correto, senhor. Bem, naturalmente, como o sr. Lee era uma pessoa importante, concordei com seu pedido. Cheguei aqui um pouco antes das oito horas e aleguei que estava arrecadando contribuições para o orfanato da polícia. O mordomo se afastou e voltou para me dizer que o sr. Lee queria me ver. Logo a seguir, ele me levou até o quarto do sr. Lee, que fica no primeiro andar, exatamente em cima da sala de jantar.
O superintendente Sugden fez uma pausa, recuperou o fôlego e prosseguiu com seu relatório, em um tom um tanto oficial.
– O sr. Lee estava sentado em uma cadeira junto à lareira. Ele estava usando um penhoar. Depois que o mordomo havia deixado a sala e fechado a porta, o sr. Lee pediu-me que sentasse perto dele. Então ele disse de maneira um tanto hesitante que queria dar parte de um roubo. Eu perguntei o que havia sido levado. Ele respondeu que tinha motivos para acreditar que diamantes (diamantes não lapidados, acho que ele disse) no valor de milhares de libras haviam sido roubados do seu cofre.
– Diamantes, hum? – disse o chefe de polícia.
– Sim, senhor. Fiz-lhe diversas perguntas de rotina, mas ele estava hesitante e suas respostas tinham um caráter um pouco vago. Por fim ele disse: “O senhor tem de compreender, superintendente, que posso estar enganado sobre esta questão”. Eu disse: “Não entendo bem, senhor. Os diamantes desapareceram ou não desapareceram. Uma coisa ou outra.” Ele respondeu: “Os diamantes decerto desapareceram, mas existe a possibilidade, superintendente, de que seu desaparecimento seja uma mera piada de mau gosto”. Bem, aquilo me pareceu estranho, mas eu não disse nada. Ele prosseguiu: “É difícil explicar em detalhes, mas em resumo é isto: até onde sei, apenas duas pessoas podem ter feito isso de brincadeira. Se uma terceira pessoa os levou, significa que eles foram mesmo roubados”. Eu disse: “O que o senhor quer que eu faça, afinal?” Ele respondeu rápido: “Quero que o senhor retorne daqui a uma hora, não, um pouco mais do que isso, digamos às nove e quinze. Poderei dizer-lhe então, sem dúvida alguma, se fui roubado ou não”. Eu fiquei um pouco confuso, mas concordei e fui embora.
O coronel Johnson comentou:
– Curioso, muito curioso. O que você me diz, Poirot?
Hercule Poirot disse:
– Posso lhe perguntar, superintendente, que conclusões o senhor tirou disso?
O superintendente passou a mão pelo queixo enquanto respondia com cuidado:
– Bem, várias ideias me ocorreram, mas, como um todo, cheguei a esta conclusão. Não existe a possibilidade de ter sido uma brincadeira. Os diamantes foram roubados mesmo. Mas o velho senhor não tinha certeza de quem havia feito isso. Creio que ele estava falando a verdade quando disse que poderiam ter sido duas pessoas, das quais, uma trabalhava na casa e a outra era um membro da família.
Poirot assentiu apreciativamente.
– Très bien. Sim, isso explica muito bem a atitude dele.
– Daí o seu desejo de que eu voltasse mais tarde. Nesse ínterim, ele queria ter uma conversa com a pessoa em questão. Ele diria a eles que já falara sobre o assunto com a polícia, mas que, se a restituição fosse feita de pronto, poderia abafar o assunto.
O coronel Johnson disse:
– E se o suspeito não reagisse?
– Nesse caso, ele tinha a intenção de colocar a investigação em nossas mãos.
O coronel Johnson franziu o cenho e torceu o bigode. Ele arguiu:
– Por que não tomar essa medida antes de mandar chamá-lo?
– Não, não, senhor. – O superintendente balançou a cabeça. – O senhor não percebe, se ele tivesse feito isso, poderia parecer um blefe. Não seria tão convincente. O ladrão poderia dizer a si mesmo: “O velho não envolverá a polícia, não importa do que suspeite!”. Mas se o velho senhor diz a ele: “Já falei com a polícia, o superintendente saiu há pouco”. Nesse caso, digamos que o ladrão questione o mordomo e o mordomo confirme. Ele diz: “Sim, o superintendente esteve aqui, um pouco antes do jantar”. Então o ladrão se convence de que o velho cavalheiro fala sério, e agora tem de devolver as pedras.
– Hum, sim, compreendo – disse o coronel Johnson. – Alguma ideia, Sugden, de quem esse “membro da família” possa ser?
– Não, senhor.
– Não há qualquer indício?
– Nenhum.
Johnson balançou a cabeça e disse:
– Bem, vamos seguir em frente.
O superintendente Sugden retomou seu tom oficial.
– Eu voltei à casa, senhor, precisamente às nove e quinze. Bem quando eu ia tocar a campainha da porta da frente, ouvi um grito de dentro da casa, e então um ruído confuso de gritos e comoção geral. Eu toquei várias vezes e também usei a aldrava. Levou uns três ou quatro minutos para a porta ser atendida. Quando enfim o criado da cozinha a abriu, pude ver que algo sério havia ocorrido. O corpo inteiro dele tremia e ele parecia prestes a desfalecer. Ele balbuciou que o sr. Lee havia sido assassinado. Corri apressadamente escada acima. Encontrei o quarto do sr. Lee em um estado de desordem absoluta. É evidente que ocorrera uma luta violenta. O sr. Lee estava caído em frente ao fogo com a garganta cortada em meio a uma poça de sangue.
O chefe de polícia disse bruscamente:
– Ele não poderia tê-lo feito sozinho?
Sugden balançou a cabeça.
– Impossível, senhor. Para começar, havia cadeiras e mesas viradas, potes de cerâmica e ornamentos quebrados e, além disso, não havia sinal da navalha ou da faca com a qual o crime foi cometido.
O chefe de polícia disse pensativo:
– Sim, isso parece conclusivo. Havia alguém no quarto?
– A maior parte da família estava ali, senhor. Simplesmente parados em volta do corpo.
O coronel Johnson disse de maneira brusca:
– Alguma ideia, Sugden?
O superintendente disse devagar:
– É um caso sórdido, senhor. Tenho a impressão de que um deles cometeu o crime. Não vejo como alguém de fora pudesse tê-lo matado e fugido a tempo.
– E a janela? Fechada ou aberta?
– Há duas janelas no quarto, senhor. Uma estava trancada. A outra estava aberta alguns centímetros na parte de baixo, mas estava fixa nesta posição por uma cavilha. Além disso, tentei abri-la e está emperrada, creio que não é aberta há anos. Também a parede do lado de fora é bastante lisa e sem reentrâncias, nada de heras ou trepadeiras. Não há como alguém ter saído por ali.
– Quantas portas no quarto?
– Apenas uma. O quarto fica no fim de um corredor. A porta estava trancada por dentro. Quando eles ouviram o ruído da luta e o grito agonizante do velho e correram escada acima, tiveram que arrombar a porta para entrar.
Johnson perguntou:
– E quem estava no quarto?
O superintendente Sugden respondeu de maneira grave:
– Ninguém estava no quarto, senhor, exceto o velho que fora morto havia não mais do que alguns minutos.
VII
O coronel Johnson encarou Sugden por alguns minutos antes de irromper:
– Você está querendo me dizer, superintendente, que este é um daqueles malditos casos que se lê em histórias de detetive, em que um homem é morto em um aposento trancado de alguma maneira aparentemente sobrenatural?
Um sorriso muito ligeiro agitou o bigode do superintendente quando ele respondeu gravemente:
– Não creio que a situação seja tão ruim assim, senhor.
O coronel Johnson disse:
– Suicídio. Tem de ser suicídio!
– Onde está a arma, se foi isso que ocorreu? Não, senhor, a hipótese de suicídio não serve.
– Então como o assassino escapou? Pela janela? – Sugden balançou a cabeça.
– Sou capaz de jurar que ele não fez isso.
– Mas a porta estava trancada por dentro, como você disse.
O superintendente anuiu. Ele tirou a chave do bolso e a colocou sobre a mesa.
– Na há impressões digitais – ele anunciou. – Mas apenas olhe para esta chave, senhor. Dê uma olhada com aquela lupa ali.
Poirot inclinou-se para frente. Ele e Johnson examinaram a chave juntos. O chefe de polícia exclamou.
– Por Júpiter, agora entendo. Aqueles pequenos arranhões na haste. Você os vê, Poirot?
– Claro que vejo. Isso significa, não é, que a chave foi girada pelo lado de fora da porta, com ajuda de uma ferramenta especial que foi inserida no buraco da fechadura e se prendeu na haste da chave. Um par comum de alicates poderia ser suficiente.
O superintendente assentiu.
– Pode ser feito sem problema algum.
Poirot disse:
– A ideia seria, portanto, que a morte fosse vista como um suicídio, já que a porta estava trancada e não havia ninguém no quarto.
– Essa era a ideia, monsieur Poirot, eu diria que não há dúvida quanto a isso.
Poirot balançou a cabeça em dúvida.
– Mas a desordem no quarto! Como o senhor disse, somente esse fato já descarta a ideia de suicídio. Com certeza o assassino, antes de qualquer coisa, teria colocado tudo em seu lugar.
O superintendente Sugden disse:
– Mas ele não tinha tempo, sr. Poirot. Essa é a questão. Ele não tinha tempo. Digamos que ele esperasse pegar o velho cavalheiro desprevenido. Bem, isso não aconteceu. Houve uma luta, uma luta ouvida com clareza na sala embaixo. Além disso, o velho cavalheiro gritou por ajuda. Todos subiram correndo. O assassino teve somente tempo para escapulir do quarto e girar a chave pelo lado de fora.
– Isso é verdade – admitiu Poirot. – Seu assassino, ele pode ter cometido esse erro. Mas por que, ah, por que ele pelo menos não deixou a arma? Pois, pela lógica, se não há uma arma, não pode ser um suicídio! Trata-se de um erro muito grave.
O superintendente Sugden disse de maneira impassível:
– Criminosos normalmente cometem erros. Essa é a nossa experiência.
Poirot deu um ligeiro suspiro e murmurou:
– Mas de qualquer forma, apesar dos seus erros, esse criminoso escapou.
– Não creio que ele tenha de fato escapado.
– O senhor está insinuando que ele ainda está na casa?
– Não vejo onde mais ele possa estar. Foi um serviço feito por alguém de dentro.
– Mas, tout de même[4] – Poirot, gentil, salientou –, ele escapou até este ponto: o senhor não sabe quem ele é.
O superintendente Sugden respondeu de maneira educada, mas convicta:
– Creio que logo saberemos. Não interrogamos ainda ninguém da casa.
O coronel Johnson interveio:
– Olhe aqui, Sugden, uma coisa me chama a atenção. Quem quer que tenha girado aquela chave pelo lado de fora devia ter algum conhecimento da profissão. Isto é, por certo tinha alguma experiência criminal. Esse tipo de ferramenta não é fácil de se usar.
– O senhor quer dizer que foi um trabalho profissional?
– É isso que eu quero dizer.
– Assim parece – admitiu o outro. – Conclui-se a partir daí que havia um ladrão profissional entre os empregados. Isso explicaria o roubo dos diamantes, e o assassinato seria uma consequência lógica.
– Bem, algo errado com essa teoria?
– Foi o que pensei no início. Mas é difícil. Há oito empregados na casa; seis deles são mulheres, e destas seis, cinco estão aqui há quatro anos ou mais. Então sobra o mordomo e o criado da cozinha. O mordomo está aqui há quase quarenta anos, o que não é pouco, eu diria. O empregado da cozinha é local, filho do jardineiro e criado aqui. Não vejo muito bem como ele possa ser um profissional. A única outra pessoa é o criado pessoal do sr. Lee. Ele é relativamente novo, mas estava na rua e ainda está. Saiu um pouco antes das oito horas.
O coronel Johnson disse:
– Você tem uma lista exata de quem estava na casa?
– Sim, senhor. Eu a consegui com o mordomo. – Ele tirou seu bloco de anotações. – Devo lê-la para o senhor?
– Por favor, Sugden.
– Sr. e sra. Alfred Lee. Sr. George Lee, deputado, e sua esposa; sr. Henry Lee; sr. e sra. David Lee. Senhorita... – o superintendente fez uma breve pausa, usando as palavras com cuidado: – Pilar... Estravados. – Ele as pronunciou como uma peça de arquitetura. – Sr. Stephen Farr. E agora, os empregados: Edward Tressilian, mordomo. Walter Champion, criado da cozinha. Emily Reeves, cozinheira. Queenie Jones, auxiliar de cozinha. Gladys Spent, chefe das domésticas. Grace Best, segunda doméstica. Beatrice Moscombe, terceira doméstica. Joan Kench, copeira. Sydney Horbury, criado pessoal.
– São todos?
– São todos, senhor.
– Alguma ideia de onde estavam no momento do assassinato?
– Apenas por cima. Como eu lhe disse, ainda não interroguei ninguém. De acordo com Tressilian, os cavalheiros estavam ainda na sala de jantar. As senhoras haviam se retirado para a sala de estar. Tressilian havia servido café. De acordo com sua declaração, não fazia muito que ele voltara para a copa quando ouviu um ruído no andar de cima. Seguido por um grito. Tressilian correu para o hall e escada acima atrás dos outros.
O coronel Johnson disse:
– Quantos da família vivem na casa, e quem está somente hospedado aqui?
– O sr. e a sra. Alfred Lee vivem aqui. Os outros só estão visitando.
Johnson assentiu.
– Onde estão todos eles?
– Pedi a eles para ficarem na sala de estar até que eu estivesse pronto para tomar suas declarações.
– Compreendo. Bem, vamos subir e dar uma olhada nos estragos.
O superintendente tomou a frente, pela larga escada e pelo corredor. Quando entrou no quarto onde o crime ocorrera, Johnson respirou fundo.
– Que horror – ele comentou.
Johnson ficou parado um minuto estudando as cadeiras viradas, a porcelana espatifada e os entulhos salpicados de sangue.
Um homem idoso que estava ajoelhado junto ao corpo se levantou e o cumprimentou com a cabeça.
– Boa noite, Johnson – disse ele. – Uma sangueira e tanto, hein?
– Eu diria que sim. Tem alguma coisa para nós, doutor?
O médico deu de ombros e abriu um largo sorriso.