O Natal de Poirot
Parte 5 - 26 de dezembro
Parte 5
26 de dezembro
I
O chefe de polícia e o superintendente Sugden encararam Poirot incrédulos. Este recolocou com cuidado uma torrente de pequenas pedras em uma caixinha de papelão e a empurrou sobre a mesa, na direção do chefe de polícia.
– Ah, sim – disse ele. – São mesmo os diamantes.
– Onde o senhor disse que os encontrou? No jardim?
– Em um dos pequenos jardins construídos por madame Alfred Lee.
– Sra. Alfred? – Sugden balançou a cabeça. – Não parece provável.
Poirot disse:
– O senhor quer dizer, imagino, que considera improvável que a sra. Alfred tenha cortado a garganta do sogro?
Sugden disse rápido:
– Sabemos que não cortou. Quis dizer que parecia improvável que ela roubasse os diamantes.
Poirot disse:
– Não, seria difícil acreditar que ela fosse uma ladra.
Sugden disse:
– Qualquer pessoa poderia tê-los escondido ali.
– É verdade. Foi conveniente que, naquele jardim em particular, que representa o Mar Morto, houvesse pedras muito similares em formato e aparência.
Sugden disse:
– O senhor afirma que ela o arranjou assim de antemão? Para deixá-lo pronto?
O coronel Johnson disse, enfático:
– Não acredito, nem por um instante. Nem sequer por um instante. Por que ela roubaria os diamantes, em primeiro lugar?
– Bem, quanto a isso... – disse Sugden devagar.
Poirot interveio rapidamente:
– Há uma resposta possível. Ela levou os diamantes para sugerir um motivo para o assassinato. Isto é, ela sabia que o assassinato aconteceria, embora ela mesma não tenha tomado parte ativa nele.
Johnson franziu o cenho.
– Isso não se sustenta por um minuto. Você a está tornando cúmplice. Mas cúmplice de quem ela poderia ser? Apenas do marido. Mas, como sabemos que também ele não teve nada a ver com o assassinato, a teoria inteira cai por terra.
Sugden coçou o queixo, pensativo.
– Sim – disse ele –, é isso mesmo. Não, se a sra. Lee levou os diamantes, o que já é supor demais, foi um simples roubo, e é verdade que ela pode ter preparado aquele jardim com a única intenção de escondê-los até que o clamor geral passasse. Outra possibilidade é a da coincidência. Aquele jardim, com suas pedras semelhantes, apresentou-se ao ladrão, seja quem for, como o esconderijo ideal.
Poirot disse:
– Isso é bem possível. Eu estou sempre preparado a admitir uma coincidência.
O superintendente Sugden balançou a cabeça em dúvida.
Poirot disse:
– Qual é a sua opinião, superintendente?
O superintendente disse com cautela:
– A sra. Lee é uma pessoa muito refinada. Não parece plausível que ela se envolvesse em qualquer negócio escuso. Mas, é claro, nunca se sabe.
O coronel Johnson disse com mau humor:
– Em todo caso, qualquer que seja a verdade sobre os diamantes, ela estar envolvida no assassinato está fora de questão. O mordomo a viu na sala de estar, no momento exato do crime. Lembra-se, Poirot?
Poirot disse:
– Eu não tinha esquecido isso.
O chefe de polícia se virou para o subordinado.
– É melhor seguirmos em frente. O que você tem para nos contar? Alguma novidade?
– Sim, senhor. Eu tenho algumas informações novas. Para começo de conversa, Horbury. Há uma razão por que ele poderia estar com medo da polícia.
– Roubo? Hum?
– Não, senhor. Exigir dinheiro mediante ameaças. Extorsão qualificada. O caso não pôde ser provado, então ele saiu livre, mas acredito que já tenha tentado algo do gênero uma ou duas vezes, com sucesso. Tendo a consciência pesada, ele por certo achou que suspeitávamos de alguma coisa quando Tressilian mencionou um policial naquela noite, e apavorou-se.
O chefe de polícia disse:
– Ah! Deixemos Horbury de lado. O que mais?
O superintendente tossiu.
– Hum... a sra. George Lee, senhor. Obtivemos informações sobre ela, do período anterior ao casamento. Vivia com um comandante Jones. Passava por filha dele, mas não era... Pelo que nos contaram, acho que o velho sr. Lee tinha um palpite sobre ela, que se mostrou correto. Ele era esperto quando o assunto era mulheres, conhecia uma garota de passado reprovável quando a via. Apenas por diversão, disparou um tiro no escuro. E acertou-a em cheio!
O coronel Johnson disse pensativamente:
– O que dá a ela outro motivo possível, além do dinheiro. Ela pode ter pensado que ele sabia algo importante e iria denunciá-la ao marido. Aquela história do telefone é muito suspeita. Ela não telefonou.
Sugden sugeriu:
– Por que não chamá-los juntos, senhor, e tirar de uma vez a dúvida quanto a essa questão do telefone? Ver o que conseguimos.
O coronel Johnson disse:
– Boa ideia.
Ele tocou a campainha. Tressilian a respondeu.
– Peça para o sr. e a sra. George Lee virem aqui.
– Muito bem, senhor.
Quando o velho se virou, Poirot disse:
– A data naquele calendário na parede está assim desde o assassinato?
Tressilian voltou.
– Que calendário, senhor?
– Aquele na parede do outro lado.
Os três homens estavam sentados mais uma vez na pequena sala de estar de Alfred Lee. O calendário em questão era grande e de folhas destacáveis, com a data em números grandes sobre cada folha.
Tressilian perscrutou o outro lado da sala e dirigiu-se para lá, arrastando os pés devagar, até estar a pouco mais de meio metro do calendário.
Ele disse:
– Perdão, senhor, ele foi destacado. Hoje é dia 26.
– Ah, desculpe. Quem o teria destacado?
– O sr. Lee, senhor, ele o destaca todas as manhãs. O sr. Alfred é um cavalheiro muito metódico.
– Compreendo. Obrigado.
Tressilian deixou a sala. Sugden disse, confuso:
– Tem algo suspeito a respeito do calendário, sr. Poirot? Eu deixei passar alguma coisa aí?
Com um menear de ombros, Poirot disse:
– O calendário não tem importância. Foi apenas um pequeno experimento que eu estava fazendo.
O coronel Johnson disse:
– O inquérito é amanhã. Haverá um adiamento, é claro.
Sugden disse:
– Sim, senhor, encontrei-me com o juiz e tudo está arranjado.
II
George Lee entrou na sala, acompanhado da esposa.
O coronel Johnson disse:
– Bom dia. Por favor, sentem-se. Tenho algumas perguntas para fazer aos dois. Algo que ainda não entendi muito bem.
– Será uma satisfação ajudar-lhe da melhor maneira possível – disse George, um pouco pomposo.
Magdalene disse baixinho:
– É claro!
O chefe de polícia fez um ligeiro aceno de cabeça para Sugden. Este disse:
– A respeito daquelas chamadas na noite do crime. Creio que o senhor disse que fez uma ligação para Westeringham, sr. Lee?
George respondeu com frieza:
– Sim, eu fiz. Para meu agente no distrito eleitoral. Ele poderá confirmar que...
O superintendente Sugden ergueu a mão para interromper o discurso.
– Está bem... está bem, sr. Lee. Não o estamos contestando. A sua ligação foi feita exatamente às 20h59.
– Bem... eu... hum... não saberia dizer a hora exata.
– Ah – disse Sugden. – Mas nós podemos! Sempre conferimos essas coisas com muito cuidado. Todo o cuidado. A ligação foi feita às 20h59 e encerrada às 21h04. O seu pai, sr. Lee, foi morto em torno de 21h15. Tenho de lhe pedir mais uma vez um relato dos seus movimentos.
– Eu já lhe disse. Eu estava telefonando!
– Não, sr. Lee, o senhor não estava.
– Bobagem! O senhor deve ter cometido um erro. Bem, talvez eu tivesse acabado de telefonar... acho que cogitei fazer outra ligação... estava pensando se valeria a... hum... a despesa... quando ouvi o ruído no andar de cima.
– O senhor dificilmente passaria dez minutos decidindo fazer ou não uma ligação.
George ficou roxo. E começou a falar, afoito.
– O que o senhor quer dizer? Que diabos o senhor quer dizer? Maldita petulância! O senhor duvida de minha palavra? Duvida da palavra de um homem de minha posição? Eu... hum... por que deveria dar conta de cada minuto do meu tempo?
O superintendente Sugden disse com uma imparcialidade que Poirot admirou:
– É o costumeiro.
George voltou-se irado para o chefe de polícia.
– Coronel Johnson. O senhor aprova essa... essa atitude sem precedentes?
O chefe de polícia disse energicamente:
– Em um caso de assassinato, sr. Lee, perguntas têm de ser feitas... E respondidas.
– Eu as respondi! Eu acabara de telefonar e estava... hum... pensando se deveria fazer outra ligação.
– O senhor estava nesta sala quando começou a confusão no andar de cima?
– Eu estava... sim, eu estava.
Johnson voltou-se para Magdalene.
– Eu acho, sra. Lee – disse ele –, que a senhora disse estar ao telefone quando o alarme foi dado e que, naquele momento, estava sozinha na sala?
Magdalene estava em pânico. Sua respiração ficou entrecortada. Ela olhou de lado para George, para Sugden e, por fim, de maneira suplicante, para o coronel Johnson. Magdalene disse:
– Ora... não sei... não lembro o que disse... eu estava tão transtornada...
Sugden disse:
– Saiba que temos tudo por escrito.
Ela voltou as baterias contra ele, os olhos arregalados suplicantes, a boca trêmula. Mas Magdalene encontrou em resposta a rígida indiferença de um homem de respeitabilidade inflexível que não a aprovava.
Ela disse sem convicção:
– Eu... eu... é claro que eu telefonei. Não posso ter certeza de quando...
Ela parou. George disse:
– O que é tudo isso? De onde você telefonou? Não daqui.
O superintendente Sugden disse:
– Eu afirmo, sra. Lee, que a senhora não fez ligação alguma. Nesse caso, onde a senhora estava e o que estava fazendo?
Magdalene olhou distraída à sua volta e irrompeu em lágrimas. Ela soluçou:
– George, não deixe que eles me pressionem! Você sabe que, se alguém me assusta e começa a me fazer perguntas aos gritos, não consigo lembrar-me de nada! Eu... eu não sei o que eu disse aquela noite... foi tão horrível... e eu estava tão nervosa... e eles estão sendo tão grosseiros comigo...
Magdalene levantou-se de um salto e correu para fora da sala, chorando.
Levantando-se com um impulso, George Lee vociferou:
– O que o senhor está fazendo? Não permitirei que pressionem e aterrorizem minha esposa! Ela é muito sensível. Isso é uma vergonha! Levarei ao parlamento a questão dos métodos opressores e vergonhosos da polícia. É absolutamente vergonhoso!
Ele marchou para fora da sala e bateu a porta com força.
O superintendente Sugden jogou a cabeça para trás e riu. Ele disse:
– Acho que os pegamos de jeito! Agora veremos!
Johnson disse, franzindo o cenho:
– Que coisa extraordinária! Parece suspeito. Nós temos de conseguir um novo depoimento dela.
Sugden disse com tranquilidade:
– Ela estará de volta em um minuto ou dois, quando decidir o que vai dizer. Hein, sr. Poirot?
Poirot, que estivera devaneando, sobressaltou-se:
– Pardon!
– Eu disse que ela voltará.
– É provável... sim, possivelmente... ah, sim!
Sugden disse, encarando-o:
– Qual o problema, sr. Poirot? Viu um fantasma?
Poirot disse com vagar:
– Sabe, não tenho bem certeza se não acabei de fazer exatamente isso.
O coronel Johnson disse com impaciência:
– Bem, Sugden, algo mais?
Sugden disse:
– Tentei checar a ordem na qual todos chegaram à cena do assassinato. Está bastante claro o que deve ter acontecido. Após o assassinato, quando o grito de agonia da vítima havia dado o alarme, o assassino esgueirou-se para fora do quarto, trancou a porta com um alicate, ou ferramenta parecida, e, alguns instantes depois, era uma das pessoas que corriam até a cena do crime. Infelizmente não é fácil checar com exatidão quem todos viram, porque memórias de momentos como esse não são muito precisas. Tressilian diz ter visto Harry e Alfred Lee passarem pelo salão vindos da sala de estar e correrem escada acima. Isso os deixa de fora, mas não suspeitamos deles, de qualquer maneira. Até onde pude verificar, a srta. Estravados chegou lá tarde, foi uma das últimas. A ideia geral parece ser que Farr, a sra. George e a sra. David foram os primeiros. Cada um desses três diz que um dos outros estava logo à sua frente. É isso que é tão difícil. Não se consegue distinguir mentiras deliberadas de lembranças verdadeiras confusas. Concorda-se que todos correram até lá, mas a dificuldade está em descobrir a ordem de chegada.
Poirot disse devagar:
– O senhor acha isso importante?
Sugden disse:
– Este é o elemento tempo. O tempo, lembre-se, foi incrivelmente curto.
Poirot disse:
– Concordo com você que o elemento tempo é muito importante neste caso.
Sugden prosseguiu:
– O que torna a questão mais difícil ainda é que existem duas escadarias. Há a principal do hall, mais ou menos equidistante das portas das salas de jantar e estar. E há uma na outra extremidade da casa. Stephen Farr subiu por esta. A srta. Estravados atravessou o corredor superior, vinda do mesmo lado que Farr (o quarto dela fica no extremo oposto). Os outros disseram que subiram pela escada principal.
Poirot disse:
– É uma confusão, sim.
A porta se abriu, e Magdalene entrou rapidamente. Ela respirava ofegante e tinha um ponto de rubor em cada face. Foi até a mesa e disse baixinho:
– Meu marido acha que estou na cama. Escapuli do quarto em silêncio. Coronel Johnson – ela apelou com olhos arregalados e nervosos –, se eu disser a verdade o senhor manterá segredo, não é? Quero dizer, o senhor não precisa tornar tudo público?
Coronel Johnson disse:
– A senhora está querendo dizer, sra. Lee, algo que não tem conexão alguma com o crime?
– Sim, nenhuma conexão. Só algo da minha... minha vida particular.
O chefe de polícia disse:
– É melhor revelar tudo, sra. Lee, e deixar que decidamos.
Magdalene disse, com os olhos marejados de lágrimas:
– Sim, confiarei no senhor. Sei que posso. O senhor parece tão gentil. Veja bem: existe alguém... ela parou.
– Sim, sra. Lee?
– Eu queria ligar para alguém naquela noite... um homem... um amigo meu, e não queria que George soubesse. Sei que estava muito errada... mas, bem, foi assim que aconteceu. Fui telefonar após o jantar, quando achei que estaria segura, pois George estava na sala de jantar. Mas quando cheguei lá, ouvi-o falando ao telefone, e esperei.
– Onde a senhora esperou, madame? – perguntou Poirot.
– Há um lugar para os casacos e outras coisas, atrás da escadaria. É escuro. Escondi-me ali para poder ver quando George saísse da sala. Mas ele não saiu, então aconteceu todo o barulho e o sr. Lee gritou, e eu corri escada acima.
– Então o seu marido não deixou esta sala até o momento do assassinato?
– Não.
O chefe de polícia disse.
– E a senhora esteve, das nove horas até as nove e quinze, esperando no recesso atrás da escadaria?
– Sim, mas eu não podia dizer nada, entenda! Eles exigiriam saber o que eu fazia ali. Tem sido muito, muito constrangedor para mim. O senhor compreende isso, não é?
Johnson disse secamente:
– Constrangedor, de fato.
– Estou tão aliviada por ter-lhes contado a verdade. E os senhores não contarão ao meu marido, não é? Não, tenho certeza de que não! Posso confiar em todos os senhores.
Ela incluiu a todos em seu olhar suplicante final e saiu rápida da sala.
O coronel Johnson respirou fundo.
– Bem – disse ele. – Pode ter sido assim! É uma história plausível. Por outro lado...
– Pode não ter sido – terminou Sugden. – Apenas isso. Não sabemos.
III
Lydia Lee estava à janela, no lado oposto da sala de estar, olhando para fora. Sua figura ficou meio escondida pelas pesadas cortinas da janela. Um ruído na sala fez com que ela se voltasse, sobressaltada, e visse Hercule Poirot parado junto à porta.
Ela disse:
– O senhor me assustou, monsieur Poirot.
– Peço desculpas, madame. Eu caminho sem fazer ruído.
Ela disse:
– Eu achei que era Horbury.
Hercule Poirot anuiu.
– É verdade, ele caminha sem fazer ruído. Como um gato... ou um ladrão.
Ele parou por um minuto, observando-a.
O rosto dela não deixava transparecer nada, mas ela fez uma ligeira careta de desagrado quando disse:
– Nunca gostei daquele homem. Ficarei contente em livrar-me dele.
– Acho que seria uma medida inteligente, madame.
Lydia olhou para ele e perguntou:
– O que o senhor quer dizer com isso? O senhor tem conhecimento de alguma coisa contra ele?
Poirot disse:
– Ele é um homem que coleciona segredos... e os usa em proveito próprio.
Ela disse bruscamente:
– O senhor acha que ele sabe algo sobre o assassino?
Poirot deu de ombros e disse:
– Ele tem pés silenciosos e ouvidos aguçados. Pode ter ouvido algo que está guardando para si mesmo.
– O senhor quer dizer que ele pode tentar chantagear um de nós?
– Está dentro dos limites da possibilidade. Mas não é o que vim dizer.
– O que o senhor veio dizer?
Poirot respondeu devagar:
– Estive falando com o sr. Alfred Lee. Ele me fez uma proposta, e eu gostaria de discuti-la com a senhora antes de aceitá-la ou recusá-la. Mas fiquei tão impressionado com o quadro que a senhora formou, o padrão encantador do seu blusão contra o vermelho profundo das cortinas, que parei para admirar.
Lydia retrucou:
– Devemos desperdiçar tempo com elogios, monsieur Poirot?
– Peço desculpas, madame. Tão poucas senhoras inglesas compreendem la toilette. O vestido que a senhora estava usando na primeira noite em que a vi, seu padrão audacioso, mas simples, ele tinha elegância, distinção.
Lydia disse, impaciente:
– Que assunto o senhor queria discutir comigo?
Poirot tornou-se sério.
– Apenas isso, madame: seu marido quer, de maneira muito clara, que eu assuma a investigação. Ele exige que eu fique aqui, na casa, e faça o meu melhor para chegar ao fundo dessa história.
Lydia interrompeu:
– Bem?
Poirot disse lentamente:
– Eu não gostaria de aceitar um convite sem a aprovação da senhora da casa.
Ela disse com frieza:
– É claro que aprovo o convite de meu marido.
– Sim, madame, mas preciso de mais do que isso. A senhora de fato quer que eu venha aqui?
– Por que não?
– Sejamos francos. Minha pergunta é: a senhora quer que a verdade venha à tona, ou não?
– Naturalmente.
Poirot suspirou.
– A senhora precisa me dar respostas convencionais?
Lydia disse:
– Sou uma mulher convencional.
Ela mordeu o lábio, hesitou, e disse:
– Talvez seja melhor falar com franqueza. É claro que o compreendo! A posição não é aprazível. Meu sogro foi brutalmente assassinado, e, a não ser que os fatos apontem o suspeito mais provável, Horbury, como ladrão e assassino, o que não parecem apontar, uma pessoa da sua própria família o matou. Levar essa pessoa aos tribunais significará trazer vergonha e desgraça para nós todos... Para ser honesta, devo dizer que não quero que isso aconteça.
Poirot disse:
– A senhora gostaria que o assassino escapasse ileso?
– É provável que existam vários assassinos impunes, à solta pelo mundo.
– Nisso a senhora está certa.
– Um a mais importa, então?
Poirot disse:
– E os outros membros da família? Os inocentes?
Ela o encarou.
– O que têm eles?
– A senhora percebe que, se o caso tiver o fim que a senhora espera, ninguém jamais saberá. A sombra permanecerá sobre todos, sem distinção...
Ela disse sem convicção:
– Eu não havia pensado nisso.
Poirot disse:
– Ninguém jamais saberá quem foi o culpado...
Ele acrescentou em voz baixa:
– A não ser que a senhora já saiba, madame.
Ela exclamou:
– O senhor não tem o direito de dizer isso! Não é verdade! Ah! Se apenas fosse um estranho e não um membro da família.
Poirot disse:
– Podem ter sido os dois.
Ela o encarou.
– O que o senhor quer dizer com isso?
– Pode ter sido um membro da família... e, ao mesmo tempo, um estranho... A senhora não percebe o que eu estou querendo dizer? Eh bien, é uma ideia que ocorreu na mente de Hercule Poirot.
Ele olhou para ela.
– Bem, madame, o que eu devo dizer para o sr. Lee?
Lydia ergueu as mãos e as deixou cair em um gesto repentino de desamparo.
Ela disse:
– É claro... o senhor tem de aceitar.
IV
Pilar estava em pé, no centro da sala de música. Estava muito ereta, lançando olhares de um lado para o outro, como um animal que teme um ataque.
Ela disse:
– Quero ir embora daqui!
Stephen Farr disse ternamente:
– Você não é a única que se sente assim. Mas não nos deixam sair, minha cara.
– Você quer dizer... a polícia?
– Sim.
Pilar disse, muito séria:
– Não é bom meter-se com a polícia. Não é algo que deva acontecer com pessoas respeitáveis.
Stephen disse com um ligeiro sorriso.
– Você se refere a si mesma?
Pilar disse:
– Não, estou falando de Alfred, Lydia, David, George, Hilda e, sim, Magdalene também.
Stephen acendeu um cigarro. Ele deu uma ou duas baforadas antes de dizer:
– Por que a exceção?
– Do que você está falando, por favor?
– Por que deixar o irmão Harry de fora?
Pilar riu, mostrando seus dentes brancos e uniformes.
– Ah, Harry é diferente! Acho que ele sabe muito bem o que é meter-se com a polícia.
– Talvez você esteja certa. Ele decerto é um pouco extravagante demais para se adaptar bem ao quadro doméstico.
Ele seguiu em frente:
– Você gosta dos seus parentes ingleses, Pilar?
Pilar disse, em dúvida:
– Eles são gentis, eles são todos muito gentis. Mas eles não riem muito, não são alegres.
– Minha querida garota, ocorreu há pouco um assassinato na casa!
– S...im – disse Pilar, hesitante.
– Um assassinato – explicou Stephen – não é uma ocorrência tão cotidiana quanto sua indiferença parece sugerir. Na Inglaterra, os assassinatos são levados muito a sério, não importa o que se possa pensar na Espanha.
Pilar disse:
– Você está rindo de mim...
Stephen disse:
– Você está errada. Não estou com vontade de rir.
Pilar olhou para ele e disse:
– Porque você também gostaria de ir embora daqui?
– Sim.
– E o policial grande e bonitão não o deixará ir embora?
– Eu não pedi a ele. Mas, se o fizesse, não tenho dúvida de que ele diria não. Tenho de cuidar por onde ando, Pilar, e ser muito cuidadoso.
– Isso é cansativo – disse Pilar, anuindo com a cabeça.
– É só um pouco mais do que cansativo, minha querida. E ainda há aquele estrangeiro lunático espreitando por aí. Não acredito que seja grande coisa, mas ele me deixa nervoso.
Pilar estava franzindo o cenho. Ela disse:
– Meu avô era muito, muito rico, não era?
– Eu imagino que sim.
– Para onde vai o dinheiro dele agora? Para Alfred e os outros?
– Depende do testamento dele.
Pilar disse pensativamente:
– Ele poderia ter me deixado algum dinheiro, mas temo que talvez não tenha feito isto.
Stephen disse de maneira carinhosa:
– Você ficará bem. Afinal de contas, você faz parte da família. Seu lugar é aqui. Eles têm de tomar conta de você.
Pilar disse com um suspiro:
– Meu lugar é aqui. Muito engraçado. E, por outro lado, não tem graça alguma.
– Posso entender por que você não acharia a situação muito cômica.
Pilar suspirou de novo e disse:
– Você acha que se ligássemos o gramofone poderíamos dançar?
Stephen, em dúvida, disse:
– Não pareceria muito apropriado. Esta casa está de luto, sua espanholinha insensível.
Pilar disse, seus olhos grandes mais arregalados ainda:
– Mas não me sinto nem um pouco triste. Porque eu não conhecia bem meu avô e, embora gostasse de conversar com ele, não quero chorar e ficar infeliz porque ele está morto. É muita tolice fingir.
Stephen disse:
– Você é adorável!
Pilar disse, persuasiva:
– Poderíamos colocar algumas meias e luvas no gramofone, para que não fizesse muito barulho, assim, ninguém ouviria.
– Venha comigo, sua tentadora.
Ela riu, alegre, e saiu correndo da sala na direção do salão de baile nos fundos da casa.
Então, ao chegar à passagem lateral que levava à porta do jardim, Pilar estacou. Stephen a alcançou e também parou.
Hercule Poirot havia tirado um retrato da parede e o estava estudando sob a luz do terraço. Ele ergueu o olhar e os viu.
– Aha! – disse ele. – Vocês chegaram em um momento oportuno.
Pilar disse:
– O que o senhor está fazendo?
Ela se aproximou e parou ao lado dele.
Poirot disse gravemente:
– Estou estudando algo muito importante: o rosto de Simeon Lee quando era jovem.
– Ah, este é o meu avô?
– Sim, mademoiselle.
Ela olhou atenta o rosto no retrato e disse devagar:
– Que diferença... que diferença enorme... Ele era tão velho, tão enrugado. Aí ele lembra Harry, como Harry pode ter sido há dez anos.
Hercule Poirot anuiu.
– Sim, mademoiselle. Harry Lee é mesmo filho do pai dele. Agora aqui... – Ele a conduziu pela galeria, até um pouco adiante. – Aqui está sua avó, madame. Um rosto longo, bondoso, cabelo muito louro, olhos azul-claros.
Pilar disse:
– Como David.
Stephen disse:
– Lembra um pouco Alfred também.
Poirot disse:
– A hereditariedade é muito interessante. O sr. Lee e a esposa eram tipos diametralmente opostos. De modo geral, os filhos puxaram à mãe. Veja aqui, mademoiselle.
Ele apontou o retrato de uma garota de uns dezenove anos. Seus cabelos eram como fios de ouro, e ela tinha olhos azuis, grandes e alegres. A cor era da esposa de Simeon Lee, mas havia um espírito, uma vivacidade que aqueles olhos azuis tranquilos e traços serenos nunca haviam conhecido.
– Ah! – disse Pilar.
A cor subiu ao seu rosto. Ela levou a mão ao pescoço, de onde tirou uma longa corrente de ouro com um medalhão. Pilar pressionou uma tranca, e ele se abriu. O mesmo rosto sorridente olhou para Poirot.
– Minha mãe – disse Pilar.
Poirot anuiu. No lado oposto do medalhão havia o retrato de um homem. Ele era jovem e bonito, com cabelo preto e olhos azul-escuros.
Poirot disse:
– Seu pai?
Pilar respondeu:
– Sim, meu pai. Ele era muito bonito, o senhor não acha?
– Sim, era mesmo. Poucos espanhóis têm olhos azuis, não é, señorita?
– Às vezes, na região norte. Além disso, a mãe do meu pai era irlandesa.
Poirot disse pensativamente:
– Então a senhorita tem sangue espanhol, irlandês e inglês, e um pouco de cigano também. Sabe o que eu acho, mademoiselle? Com essa herança, a senhorita deve ser uma má inimiga.
Stephen disse, rindo:
– Lembra-se do que você disse no trem, Pilar? Que sua maneira de lidar com seus inimigos seria cortar a garganta deles.
Ele parou de repente, ao perceber a implicação das suas palavras.
Hercule Poirot foi rápido em desviar o assunto. Ele disse:
– Ah, sim, há uma coisa, señorita, que tenho de pedir-lhe. Seu passaporte. Meu amigo, o superintendente, precisa dele. Sabe, a polícia tem algumas regras para estrangeiros neste país. Elas são muito estúpidas, muito cansativas, mas necessárias. E, é claro, por lei, a senhorita é uma estrangeira.
Pilar arqueou as sobrancelhas.
– Meu passaporte? Sim, irei buscá-lo. Está em meu quarto.
Poirot desculpou-se enquanto caminhava ao lado dela:
– Eu sinto muitíssimo por incomodá-la. Muito mesmo.
Eles haviam chegado ao fim da longa galeria. Aqui havia um lance de escadas. Pilar subiu correndo, e Poirot a seguiu. Stephen veio também. O quarto de Pilar ficava junto à cabeceira da escada.
Ela disse quando chegou à porta:
– Vou trazê-lo ao senhor.
Pilar entrou no quarto. Poirot e Stephen Farr ficaram esperando do lado de fora.
Stephen disse, arrependido:
– Que bobagem minha dizer uma coisa daquelas. Acho que ela não notou, não é?
Poirot não respondeu. Ele inclinou a cabeça um pouco para o lado como se estivesse ouvindo alguma coisa.
Ele disse:
– Os ingleses gostam muito de ar puro. A srta. Estravados deve ter herdado essa característica.
Stephen encarou-o e disse:
– Por quê?
Poirot disse baixinho.
– Porque, apesar de hoje estar extremamente frio, a geada negra, como vocês chamam (não como ontem, tão aprazível e ensolarado), a srta. Estravados acaba de abrir a parte de baixo de sua janela. É impressionante gostar tanto de ar fresco.
Houve uma súbita exclamação em espanhol dentro do quarto, e Pilar reapareceu, alegremente decepcionada.
– Ah! – ela exclamou. – Sou uma idiota desajeitada. Minha maleta estava no peitoril da janela, e remexi nela de modo tão afobado e desastrado que meu passaporte caiu pela janela. Está no canteiro lá embaixo. Vou buscá-lo.
– Eu vou buscá-lo – disse Stephen Farr, mas Pilar passou rapidamente por ele e gritou por sobre o ombro:
– Não, foi burrice minha. Vá até a sala de estar com monsieur Poirot e logo o trarei a vocês.
Stephen Farr parecia inclinado a ir atrás dela, mas a mão de Poirot pousou gentil sobre o braço dele e a voz de Poirot disse:
– Vamos por aqui.
Eles seguiram pelo corredor do primeiro andar na direção da outra extremidade da casa, até chegarem à cabeceira da escada principal. Ali Poirot disse:
– Vamos ficar aqui em cima por um minuto. Se você não se importar de vir comigo até o quarto do crime, há algo que gostaria de perguntar-lhe.
Eles caminharam pelo corredor que levava ao quarto de Simeon Lee. Do lado esquerdo passaram por um nicho que continha duas estátuas de mármore, ninfas robustas que se agarravam às suas dobras de tecido, em uma agonia de decoro vitoriano.
Stephen olhou para elas de relance e murmurou:
– Bastante assustadoras, à luz do dia. Achei que havia três delas quando passei por aqui na outra noite, mas graças a Deus há apenas duas!
– Elas não são o que se admira hoje em dia – admitiu Poirot. – Mas não há dúvida de que elas custaram muito dinheiro na sua época. Acho que parecem mais bonitas à noite.
– Sim, vê-se apenas uma silhueta branca de brilho tênue.
Poirot murmurou:
– À noite, todos os gatos são pardos!
Sugden estava ajoelhado junto ao cofre, examinando-o com uma lupa. Ele ergueu os olhos quando eles entraram.
– Ele foi mesmo aberto com a chave – disse ele. – Por alguém que sabia a combinação. Não há sinal de nada mais.
Poirot foi até ele, chamou-o à parte e sussurrou algo. O superintendente anuiu e deixou o quarto.
Poirot voltou-se para Stephen Farr, que estava parado olhando a poltrona na qual Simeon Lee sempre se sentava. Ele tinha o cenho franzido, e as veias apareciam na sua testa. Poirot olhou para ele por alguns minutos, em silêncio, então disse:
– Você tem lembranças... não é?
Stephen disse devagar:
– Há dois dias ele sentava-se ali, vivo... e agora...
Saindo do devaneio, ele disse:
– Sim, monsieur Poirot, o senhor trouxe-me aqui para perguntar-me algo?
– Ah, sim. Você foi, eu acho, a primeira pessoa a chegar à cena do crime naquela noite?
– Fui eu? Não lembro. Não, acho que uma das senhoras estava aqui antes de mim.
– Qual delas?
– Uma das esposas. A de George, talvez a de David, o que sei é que ambas chegaram logo.
– Suponho que o senhor tenha dito que não ouviu o grito?
– Creio que não ouvi. Não consigo lembrar. Alguém gritou, mas poderia ser alguém no andar de baixo.
Poirot disse:
– Você não ouviu um som como este?
Ele jogou a cabeça para trás e emitiu um grito súbito e penetrante, tão inesperado que Stephen deu um passo para trás e quase caiu no chão. Ele disse, enraivecido:
– Pelo amor de Deus, o senhor quer assustar a casa inteira? Não, não ouvi nada nem um pouco parecido! O senhor vai apavorar a todos outra vez! Pensarão que aconteceu outro assassinato!
Poirot parecia envergonhado. Ele murmurou:
– Verdade... foi uma bobagem... temos de ir de uma vez.
Ele saiu apressado do quarto. Lydia e Alfred estavam ao pé da escada olhando para cima. George saiu da biblioteca para juntar-se a eles, e Pilar veio correndo com um passaporte na mão.
Poirot exclamou:
– Não foi nada... nada. Não fiquem assustados. Um pequeno experimento que fiz. Foi só isso.
Alfred parecia irritado, e George, indignado. Poirot deixou para Stephen dar as explicações e saiu apressado pelo corredor em direção ao outro lado da casa.
No fim do corredor, o superintendente Sugden saiu sem fazer ruído do quarto de Pilar e encontrou-se com Poirot.
– Eh bien? – perguntou Poirot.
O superintendente balançou a cabeça.
– Nenhum som.
Seus olhos encontraram com gratidão os de Poirot, e ele assentiu com a cabeça.
V
Alfred Lee disse:
– Enfim, o senhor aceita, monsieur Poirot?
A mão de Alfred tremeu um pouco, enquanto ia em direção à boca. Seus suaves olhos castanhos estavam acesos com uma expressão nova e febril. Ele gaguejou um pouco. Lydia, silenciosa ao lado dele, olhava-o com alguma ansiedade.
Alfred disse:
– O senhor não sabe... n-não pode imaginar... o que isso s-s-significa para mim... o assassino de meu pai tem de ser encontrado.
Poirot disse:
– Já que o senhor assegurou-me de que refletiu longa e cuidadosamente, sim, eu aceito. Mas o senhor tem de compreender, sr. Lee, que não há como recuar. Não sou o cão que se manda em uma caçada e logo se chama de volta porque não se gosta da presa que ele apontou.
– É claro... é claro... Está tudo pronto. O seu quarto está preparado. Fique pelo tempo que desejar...
Poirot sentenciou:
– Não será preciso muito tempo.
– Hum? Como assim?
– Eu disse que não será preciso muito tempo. Existe neste crime um círculo tão restrito que não há como se levar muito tempo para se chegar à verdade.
Alfred o encarou.
– Impossível! – disse ele.
– De forma alguma. Todos os fatos apontam mais ou menos claramente em uma direção. Há apenas uma questão irrelevante a ser tirada do caminho. Quando isso for feito, a verdade aparecerá.
Alfred disse de maneira incrédula:
– O senhor quer dizer que sabe a verdade?
Poirot sorriu.
– Ah, sim – disse ele. – Eu sei.
Alfred disse:
– Meu pai... meu pai... – e baixou os olhos.
Poirot disse energicamente:
– Há dois pedidos que eu tenho de fazer, monsieur Lee.
Alfred disse com uma voz abafada:
– Qualquer coisa... qualquer coisa.
– Em primeiro lugar, eu gostaria do retrato de monsieur Lee colocado no quarto que o senhor gentilmente me cedeu.
Alfred e Lydia o encararam. O primeiro disse:
– O retrato do meu pai... mas, por quê?
Poirot disse gesticulando com a mão:
– Ele vai... como eu poderia dizer... servir de inspiração.
Lydia provocou:
– O senhor pretende, monsieur Poirot, solucionar um crime por clarividência?
– Digamos, madame, que eu pretenda usar não apenas os olhos do corpo, mas os olhos da mente.
Ela deu de ombros. Poirot continuou:
– Em segundo lugar, sr. Lee, eu gostaria de saber as verdadeiras circunstâncias que levaram à morte do marido da sua irmã, Juan Estravados.
Lydia disse:
– Isso é necessário?
– Quero todos os fatos, madame.
Alfred disse:
– Juan Estravados, em consequência de uma briga por causa de uma mulher, matou outro homem em um café.
– Como ele o matou?
Alfred olhou suplicante para Lydia. Ela disse sem emoção alguma:
– Ele o esfaqueou. Juan Estravados não foi condenado à morte, já que houvera provocação. Ele foi condenado à prisão e morreu na cadeia.
– Pilar sabe sobre o pai dela?
– Acho que não.
Alfred disse:
– Não, Jennifer nunca contou para ela.
– Obrigado.
Lydia disse:
– O senhor não acha que Pilar... Ah, isto é absurdo!
Poirot disse:
– Agora, monsieur Lee, o senhor poderia me dar algumas informações sobre seu irmão, o monsieur Harry Lee?
– O que o senhor quer saber?
– Sei que ele era considerado de certa forma uma desgraça para a família. Por quê?
Lydia disse:
– Faz tanto tempo...
Alfred disse, com rubor subindo-lhe ao rosto:
– Se o senhor quer saber, monsieur Poirot, ele roubou uma grande soma de dinheiro, falsificando a assinatura de meu pai em um cheque. Naturalmente meu pai não o processou. Harry sempre foi um mau-caráter. Ele teve problemas no mundo todo. Sempre telegrafava pedindo dinheiro para sair de uma enrascada. Ele entrou e saiu de cadeias aqui, ali e em todo lugar.
Lydia disse:
– Você não tem como saber isso tudo, Alfred.
Alfred disse, irado e com as mãos trêmulas:
– Harry não presta... Para nada! Nunca prestou!
Poirot disse:
– Pelo visto não há afeição alguma entre vocês dois.
Alfred disse:
– Ele vitimou meu pai, ele o vitimou vergonhosamente!
Lydia suspirou, um suspiro rápido e impaciente. Poirot ouviu e lançou-lhe um olhar severo.
Ela disse:
– Se pelo menos aqueles diamantes fossem encontrados. Tenho certeza que a solução está ali.
Poirot disse:
– Eles foram encontrados, madame.
– O quê?
Poirot disse delicadamente:
– Eles foram encontrados no seu pequeno jardim do Mar Morto...
Lydia exclamou:
– No meu jardim? Que... que extraordinário!
Poirot disse em voz baixa:
– Não é mesmo, madame?