O Natal de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 2 de 7

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O Natal de Poirot

Parte 2 - 23 de dezembro

Parte 2

 

23 de dezembro

 

I

Tressilian foi atender a campainha da porta. Ela fora tocada com agressividade incomum, e agora, antes que ele terminasse seu lento avanço até o outro lado da sala, a campainha soara outra vez.

Tressilian corou. Que modo mal-educado e impaciente de se tocar a campainha na casa de um cavalheiro! Se fosse mais um daqueles corais natalinos, ouviriam umas boas verdades.

Através do gelo que cobria a vidraça na parte de cima da porta ele viu uma silhueta – um homem grande vestindo um chapéu de abas caídas. Ele abriu a porta. Como havia imaginado, tratava-se de um estranho extravagante; que terno sórdido e espalhafatoso ele trajava! Algum mendigo insolente!

– Por Deus, se não é Tressilian – disse o estranho. – Como vai, Tressilian?

Tressilian o encarou, respirou fundo e o encarou novamente. Aquele queixo duro e arrogante, o nariz proeminente, o olhar folgazão. Sim, eram os mesmos de anos atrás. Menos evidentes, na época...

Ele disse ofegante:

– Sr. Harry!

Harry Lee riu.

– Parece que lhe causei um belo choque. Por quê? Fui convidado, não fui?

– Sim, é claro, senhor. Com certeza, senhor.

– Então por que a surpresa? – Harry recuou um pouco e ergueu o olhar para ver a casa, uma boa massa sólida de tijolos vermelhos, prosaica, mas sólida. – A velha mansão feia de sempre – ele observou. – Ainda em pé, no entanto, e isso é o principal. Como vai meu pai, Tressilian?

– Ele está quase inválido, senhor. Permanece no quarto e não pode andar muito. Mas está excelente, apesar de tudo.

– O velho safado!

Harry Lee entrou na mansão, deixou que Tressilian tirasse seu cachecol e lhe tomasse o chapéu um pouco teatral.

– Como está meu caro irmão Alfred, Tressilian?

– Está muito bem, senhor.

Harry abriu um largo sorriso.

– Ansioso em me ver?

– Creio que sim, senhor.

– Eu não! Bem ao contrário. Aposto que minha vinda causou-lhe um desgosto e tanto! Alfred e eu nunca nos demos bem. Você lê a Bíblia, Tressilian?

– Ora, sim, senhor, às vezes, senhor.

– Lembra-se da história do filho pródigo? O bom irmão não gostou, lembra-se? Não gostou mesmo! Aposto que o bom e velho caseiro Alfred não gosta também.

Tressilian permaneceu em silêncio, olhando para o chão. Suas costas tensas expressavam protesto. Harry deu-lhe uma palmada no ombro.

– Mostre-me o caminho, meu velho – disse ele. – O novilho cevado me espera! Leve-me direto a ele.

Tressilian murmurou:

– Se não se importar, acompanhe-me até a sala de estar, senhor. Não tenho muita certeza de onde todos estão... Não puderam mandar ninguém à estação para buscá-lo, senhor, já que não sabiam o horário da sua chegada.

Harry assentiu. Ele seguiu Tressilian pelo corredor, movendo a cabeça para olhar à sua volta enquanto avançava.

– Vejo que todas as velhas peças de museu continuam em seus lugares – ele observou. – Não acredito que nada tenha mudado desde que parti, há vinte anos.

Ele seguiu Tressilian até a sala de estar. O velho murmurou:

– Verei se posso encontrar o sr. ou a sra. Alfred – e saiu apressado.

Harry Lee havia marchado sala adentro e então parado, encarando a figura sentada em um dos peitoris das janelas. Incrédulos, seus olhos percorreram o cabelo preto e a palidez leitosa e exótica.

– Meu Deus! – disse ele. – Você é a sétima e mais bela esposa de meu pai?

Pilar desceu do peitoril e veio na direção dele.

– Sou Pilar Estravados – ela anunciou. – E você deve ser meu tio Harry, irmão de minha mãe.

Harry disse, olhando para ela:

– Quer dizer que você é a filha de Jenny!

Pilar disse:

– Por que você me perguntou se eu era a sétima esposa do seu pai? Ele teve mesmo seis esposas?

Harry riu.

– Não, creio que ele teve somente uma, oficial. Bem... Pil... qual é seu nome?

– Pilar, sim.

– Bem, Pilar, é uma verdadeira novidade ver algo como você florescendo neste mausoléu.

– Este... maus... como?

– Este museu de bonecos empalhados! Sempre achei esta casa péssima! Agora que a vejo de novo, acho-a pior do que nunca!

Pilar disse chocada:

– Ah, não, é muito bonito aqui! Os móveis são bons e há tapetes grossos por toda parte e muitos ornamentos. Tudo é de ótima qualidade e muito, muito rico!

– Neste ponto você está certa – disse Harry, rindo. Ele olhou para ela com deleite. – Você sabe, não consigo evitar a satisfação de vê-la em meio...

Ele parou de falar quando Lydia entrou rápido na sala.

Ela foi de imediato até ele.

– Como você vai, Harry? Sou Lydia, esposa de Alfred.

– Como está, Lydia? – Ele a cumprimentou, examinando com um olhar ligeiro o rosto expressivo e inteligente dela, e aprovando mentalmente a maneira como ela caminhava; poucas pessoas moviam-se bem.

Lydia, por sua vez, também avaliou-o de imediato.

Ela pensou: “Ele parece um durão terrível, embora atraente. Eu não confiaria nem um pouco nele...”.

Ela disse sorrindo:

– Como lhe parece a casa após todos esses anos? Muito diferente, ou a mesma de sempre?

– Eu diria que a mesma. – Ele olhou à sua volta. – Esta sala foi reformada.

– Ah, muitas vezes.

Ele disse:

– Por você, quero dizer. Você a deixou... diferente.

– Sim, espero que sim.

Ele sorriu para ela, um sorriso súbito e travesso que a fez se lembrar, com um sobressalto, do velho no andar de cima.

– Ela tem mais classe agora! Lembro-me de ouvir falar que o velho Alfred havia se casado com uma garota cuja família veio na época da Conquista.

– Acredito que tenha vindo. Mas decaiu muito, desde então.

Harry disse:

– Como está o velho Alfred? O mesmo bendito cabeça-dura de sempre?

– Não sei se você vai achá-lo mudado ou não.

– Como estão os outros? Espalhados por toda a Inglaterra?

– Não, estão todos aqui para o Natal, veja você.

Os olhos de Harry arregalaram-se.

– Um típico Natal em família? O que há com o velho? Ele costumava não dar a mínima para questões sentimentais. Não me lembro de ele se importar muito com a família, também. Ele deve ter mudado!

– Talvez.

A voz de Lydia era seca. Pilar a encarava, seus olhos grandes bem abertos e interessados. Harry disse:

– Como está o velho George? Ainda o mesmo sovina? Como ele costumava uivar se tivesse que gastar meio centavo do seu dinheirinho!

Lydia disse:

– O George está no Parlamento. Ele é deputado por Westeringham.

– O quê? Popeye no Parlamento? Meu Deus, que ótimo.

Harry jogou a cabeça para trás e riu.

Era uma risada estentórea e penetrante. Soava descontrolada e brutal no espaço confinado da sala. Pilar arquejou de espanto. Lydia encolheu-se um pouco.

Então, um movimento atrás dele fez com que Harry parasse de rir e se voltasse bruscamente. Ele não ouvira ninguém entrar na sala, mas Alfred estava ali parado, em silêncio. Ele olhava para Harry com uma expressão peculiar no rosto.

Harry deixou passar um minuto, e um lento sorriso se formou nos seus lábios. Ele deu um passo à frente.

– Ora – disse ele –, é Alfred!

Alfred anuiu.

– Olá, Harry – disse ele.

Eles ficaram parados entreolhando-se. Lydia tomou fôlego e pensou:

“Que absurdo! Como dois cães... olhando um para o outro...”

O olhar de Pilar arregalou-se mais ainda. Ela pensou consigo mesma:

“Que ridículo, eles estão parados ali... Por que não se abraçam? Não, é claro que os ingleses não fazem isso. Mas eles poderiam dizer alguma coisa. Por que eles só ficam se olhando?”

Harry disse por fim:

– Bem, bem. É estranho estar de volta!

– Imagino que sim... Faz uns bons anos desde que você... partiu.

Harry ergueu a cabeça e passou o dedo pela linha do queixo. Era um gesto habitual dele e expressava beligerância.

– Sim – disse ele. – Estou feliz por ter voltado para – ele fez uma pausa para dar maior significado à palavra – casa...

 

II

– Creio que fui um homem muito mau... – disse Simeon Lee.

Ele estava recostado na cadeira. Seu queixo estava erguido e com um dedo ele o acariciava de maneira pensativa. À sua frente um grande fogo brilhava e dançava. Ao lado da lareira sentava-se Pilar, segurando uma pequena tela de papel machê com a qual protegia seu rosto do calor mais intenso. De vez em quando a usava para se abanar, com um movimento hábil de seu pulso. Simeon olhou para ela com satisfação.

Ele continuou falando, talvez mais para si mesmo do que para a garota, estimulado pela presença dela.

– Sim – disse ele. – Fui um homem mau. O que você acha disso, Pilar?

Pilar meneou os ombros e disse:

– Todos os homens são maus. É o que dizem as freiras. É por isso que se deve orar por eles.

– Ah, mas eu fui pior do que a maioria. – Simeon riu. – Sabe, não me arrependo. Não, não me arrependo de nada. Aproveitei a vida... cada minuto! Dizem que você se arrepende quando fica velho. Isso é conversa fiada. Não me arrependo. Digo a você que fiz quase tudo... todos os bons e velhos pecados! Traí, roubei e menti... Deus, sim! E mulheres, sempre mulheres! Alguém me falou certo dia de um xeique árabe que tinha uma escolta de quarenta dos seus filhos, todos mais ou menos da mesma idade! Aha! Quarenta! Talvez não fossem quarenta, mas aposto que eu poderia formar uma boa escolta se saísse por aí procurando os pirralhos! Ei, Pilar, o que você acha disso? Chocada?

Pilar o encarou.

– Não, por que deveria estar? Os homens sempre desejam as mulheres. Meu pai também. Por isso as esposas são tão infelizes e por isso elas vão à igreja rezar.

O velho Simeon franzia o cenho.

– Eu fiz de Adelaide uma mulher infeliz – disse ele. Ele falava quase sussurrando, para si mesmo. – Deus, que mulher! Jovem, viçosa e bela como ninguém, quando me casei com ela! E depois? Sempre lamentando e choramingando. Uma mulher que não para de chorar desperta o diabo em um homem... Ela não tinha coragem, este era o problema com Adelaide. Se ao menos ela tivesse me enfrentado! Mas ela nunca o fez, nem uma vez. Acreditava que, ao casar-me com ela, conseguiria tomar juízo, criar uma família, livrar-me dos velhos hábitos...

Sua voz extinguiu-se. Seus olhos estavam fixos no coração incandescente do fogo.

– Criar uma família... Por Deus, que família! – Ele deu uma risadinha esganiçada e raivosa. – Olhe para eles... olhe para eles! Nenhum deles com capacidade de levar as coisas adiante! O que há de errado com eles? Não têm nada de meu sangue nas veias? Nem mesmo um entre eles, legítimo ou ilegítimo. Alfred, por exemplo, meu Deus, como me aborreço com Alfred! Olhando para mim com seu olhar canino. Pronto para fazer qualquer coisa que eu peça. Céus, que idiota! Mas há a esposa, Lydia, eu gosto de Lydia. Ela tem espírito. Ela não gosta de mim, no entanto. Não, ela não gosta de mim. Mas tem de me aguentar, por causa daquele paspalho do Alfred. – Ele olhou para a garota junto ao fogo. – Pilar, lembre-se, nada é mais enfadonho do que a devoção.

Ela sorriu para ele. Simeon prosseguiu, estimulado pela presença da juventude e da forte feminilidade dela.

– George? O que é George? Um estorvo! Um bacalhau empalhado! Um falastrão pomposo sem cérebro e sem coragem, e também mesquinho com dinheiro! David? David sempre foi um idiota, um idiota e um sonhador. O garoto da mamãe, é o que David sempre foi. A única coisa sensata que ele fez na vida foi casar-se com aquela mulher sólida e confiável. – Bateu sonoramente com a mão na beirada da cadeira. – Harry é o melhor de todos! Pobre e velho Harry, sempre errado. Mas, de qualquer modo, está vivo!

Pilar concordou.

– Sim, ele é encantador. Ele ri, ri alto, e joga a cabeça para trás. Ah, sim, gosto muito dele.

O velho olhou para ela.

– Você gosta, mesmo, Pilar? Harry sempre teve jeito com as garotas. Puxou ao pai. – Ele começou a rir, uma risadinha lenta, sibilante. – Tive uma boa vida, uma vida muito boa. Tive muito de tudo.

Pilar disse:

– Na Espanha temos um provérbio. É assim: Tome o que você quiser e pague por isso, assim diz Deus.

Simeon bateu uma mão compreensiva no braço da cadeira.

– Isso é bom. É isso mesmo. Tome o que você quiser... eu fiz isso, toda minha vida, tomei o que quis...

Pilar disse, com a voz aguda e clara, que de súbito exigia atenção:

– E o senhor pagou por isso?

Simeon parou de rir para si mesmo. Ele endireitou-se, a encarou e disse:

– O que foi que você falou?

– Eu disse: e o senhor pagou por isso, vovô?

Simeon Lee respondeu devagar:

– Eu... não sei...

Então, batendo com o punho no braço da cadeira, ele exclamou, com ira repentina:

– Por que você diz isso, garota? Por que você diz isso?

Pilar disse:

– Eu... só estava pensando.

A mão que segurava a tela parou de se mover. Seus olhos estavam escuros e misteriosos. Estava ali sentada, com a cabeça inclinada para trás, consciente de si mesma, de sua feminilidade.

Simeon disse:

– Sua diabinha.

Ela disse suavemente:

– Mas o senhor gosta de mim, vovô. O senhor gosta que eu fique aqui com você.

Simeon disse:

– Sim, eu gosto. Faz muito tempo desde que vi algo tão jovem e belo... Faz-me bem, aquece meus ossos velhos... E você é sangue do meu sangue... Bom para Jennifer, ela acabou sendo a melhor de todo o bando, no fim das contas!

Pilar ficou ali sorrindo.

– Saiba que você não me engana – disse Simeon. – Sei por que você fica aí sentada, ouvindo tão paciente minha tagarelice monótona. É o dinheiro... é somente o dinheiro... Ou você finge amar seu velho avô?

Pilar disse:

– Não, não o amo. Mas gosto do senhor. Gosto muito. O senhor tem de acreditar nisso, pois é verdade. Acho que o senhor foi mau, mas gosto disso também. O senhor é mais sincero do que as outras pessoas nesta casa. E o senhor tem coisas interessantes para dizer. O senhor viajou e levou uma vida de aventuras. Se eu fosse homem seria assim também.

Simeon anuiu.

– Sim, acredito que seria... Temos sangue cigano em nós, é o que sempre se disse. Ele não apareceu muito nos meus filhos, exceto em Harry, mas acho que ele resultou em você. Veja bem, eu posso ser paciente, quando necessário. Esperei uma vez quinze anos para acertar as contas com um homem que me havia lesado. Essa é outra característica dos Lee: eles não esquecem! Eles vingarão uma afronta mesmo que tenham de esperar anos para fazê-lo. Um homem me trapaceou. Esperei quinze anos até que vi a oportunidade e então ataquei. Eu o arruinei. Deixei-o limpo!

Ele riu baixinho.

Pilar disse:

– Foi na África do Sul?

– Sim. Um grande país.

– O senhor voltou para lá alguma vez?

– Voltei, cinco anos depois de casado. Foi a última vez.

– Mas, e antes? O senhor esteve lá por muitos anos?

– Sim.

– Conte-me a respeito.

Ele começou a falar. Pilar, protegendo o rosto, ouvia.

Sua voz ficou mais lenta, cansada. Ele disse:

– Espere, vou mostrar-lhe algo.

Simeon colocou-se em pé com cuidado. Com sua bengala, mancou lentamente pela sala. Ele abriu o cofre grande. Voltando-se, acenou para que ela se aproximasse.

– Olhe aqui. Sinta-os, deixe que corram por entre seus dedos.

Ele olhou para o rosto espantado dela e riu.

– Você sabe o que são? Diamantes, garota, diamantes.

Os olhos de Pilar se abriram. Ela disse enquanto se inclinava para frente:

– Mas eles parecem pequenas pedras, só isso.

Simeon riu.

– São diamantes brutos. É assim que são achados, desse jeito.

Pilar perguntou, incrédula:

– E se eles fossem lapidados, seriam diamantes de verdade?

– Com certeza.

– Eles reluziriam e brilhariam?

– Reluziriam e brilhariam.

Pilar disse de maneira infantil:

– Ah, não posso acreditar!

Ela estava impressionada.

– É a mais absoluta verdade.

– Eles são valiosos?

– Bastante valiosos. Difícil dizer antes de serem lapidados. De qualquer maneira, este pequeno lote vale alguns milhares de libras.

Pilar disse, com um espaço entre cada palavra:

– Alguns... milhares... de... libras?

– Digamos que nove ou dez mil libras... Veja bem, elas são pedras grandes.

Pilar perguntou, os olhos se abrindo:

– Mas por que o senhor não os vende, afinal?

– Por que gosto de tê-los aqui.

– Mas e todo esse dinheiro?

– Não preciso do dinheiro.

– Compreendo.

Pilar pareceu impressionada e disse:

– Mas por que o senhor não os manda lapidar para deixá-los lindos?

– Porque os prefiro desse jeito. – Seu rosto assumiu uma expressão severa. Simeon virou-se para o lado e começou a falar consigo mesmo. – Eles me levam de volta... o toque deles, a sensação deles escorrendo por entre meus dedos... Tudo volta para mim, o sol, o cheiro da savana, os bois... o velho Eb... todos os rapazes... as noites...

Houve uma batida suave na porta.

Simeon disse:

– Coloque-os de volta no cofre e feche-o.

Então ele disse, levantando a voz:

– Entre.

Horbury entrou, silencioso e submisso.

Ele disse:

– O chá está pronto no andar de baixo.

III

Hilda disse:

– Aí está você, David. Estive procurando por você em toda parte. Vamos sair desta sala, é tão gélida.

David não respondeu imediatamente. Estava parado olhando para uma cadeira, uma cadeira baixa forrada de cetim esmaecido. E disse de súbito:

– Aquela é a cadeira dela... a cadeira em que ela sempre se sentou... do mesmo jeito... está do mesmo jeito. Apenas gasta, é claro.

Um pequeno vinco apareceu na testa de Hilda. Ela disse:

– Estou vendo. Vamos sair daqui, David. Faz um frio terrível.

David não prestou atenção. Olhando à sua volta, ele disse:

– Na maioria das vezes, ela ficava aqui. Lembro-me de sentar naquele banco enquanto ela lia para mim. João e o pé de feijão, era isso, João e o pé de feijão. Eu devia ter uns seis anos então.

Hilda pousou uma mão firme no braço dele.

– Volte para a sala de estar, querido. Não há aquecimento nesta sala.

Ele voltou-se, obediente, mas ela sentiu um pequeno arrepio passar pelo corpo dele.

– Está do mesmo jeito – ele murmurou. – Está do mesmo jeito. Como se o tempo houvesse parado.

Hilda parecia preocupada e disse com voz alegre e determinada:

– Onde estarão os outros? Deve ser quase hora do chá.

David desvencilhou seu braço e abriu outra porta.

– Havia um piano aqui... Ah, sim, lá está ele! A dúvida é se está afinado.

Ele sentou-se, abriu a tampa e correu de leve os dedos sobre as teclas.

– Sim, está claro que foi mantido afinado.

Ele começou a tocar. Seu toque era bom, a melodia fluía de seus dedos.

Hilda perguntou:

– O que é isso? Parece que conheço, mas não consigo lembrar bem.

Ele disse:

– Não a toco há anos. Ela costumava tocá-la. Uma das Canções sem palavras de Mendelssohn.

A melodia doce, doce demais, encheu a sala. Hilda disse:

– Toque algo de Mozart, vamos.

David balançou a cabeça e começou outro Mendelssohn.

Então largou de repente as mãos sobre as teclas, produzindo uma dissonância ruidosa. Ele levantou-se. Seu corpo inteiro tremia. Hilda foi até ele.

Ela disse:

– David... David...

Ele disse:

– Não é nada... não é nada...

 

IV

A campainha soou de maneira agressiva. Tressilian levantou da sua cadeira na copa e caminhou devagar em direção à porta.

A campainha soou outra vez. Tressilian franziu o cenho. Através do gelo na vidraça da porta ele viu a silhueta de um homem vestindo um chapéu de abas caídas. Tressilian passou a mão pela testa. Algo o preocupava. Era como se tudo estivesse acontecendo duas vezes.

Certamente isso já havia acontecido antes. Certamente...

Ele puxou a tranca e abriu a porta.

O feitiço se desfez. O homem ali parado disse:

– É aqui que mora o sr. Simeon Lee?

– Sim, senhor.

– Eu gostaria de vê-lo, por favor.

Um ligeiro eco de memória despertou em Tressilian. Era um tom de voz de que ele se lembrava, dos velhos tempos, quando o sr. Lee estivera pela primeira vez na Inglaterra.

Tressilian balançou a cabeça, em dúvida.

– O sr. Lee é um inválido, senhor. Ele não vê mais muitas pessoas hoje em dia. Se o senhor...

O estranho o interrompeu. Ele sacou um envelope e estendeu-o ao mordomo.

– Por favor, dê isto ao sr. Lee.

– Sim, senhor.

 

V

Simeon Lee tomou o envelope e retirou dele a única folha de papel que continha. Ele pareceu surpreso. Suas sobrancelhas se ergueram, mas ele sorriu.

– Mas que coisa extraordinária! – ele disse.

Então, para o mordomo:

– Diga ao sr. Farr para subir, Tressilian.

– Sim, senhor.

Simeon disse:

– Eu estava agora mesmo pensando no velho Ebezener Farr. Ele foi meu sócio lá em Kimberley. Agora me aparece o seu filho!

Tressilian reapareceu. Ele anunciou:

– Sr. Farr.

Stephen Farr entrou na sala com um traço de nervosismo. Ele o disfarçava com uma dose um pouco maior de arrogância. Com um sotaque sul-africano mais acentuado do que o normal, especial para a ocasião, ele disse:

– Sr. Lee?

– Prazer em vê-lo. Então você é o filho de Eb?

Stephen Farr sorriu de maneira um tanto acanhada e disse:

– Minha primeira visita à velha pátria. Papai sempre me dizia para procurá-lo, se eu viesse para cá.

– Muito bem. – O velho olhou à sua volta. – Esta é minha neta, Pilar Estravados.

– Como vai? – disse Pilar, recatada.

Stephen Farr pensou com um toque de admiração: “Que criaturinha fria. Ela ficou surpresa em me ver, mas o demonstrou somente por um instante”.

Ele disse, um tanto atrapalhado:

– É um grande prazer conhecê-la, srta. Estravados.

Simeon Lee disse:

– Sente-se e conte-me tudo. Você pretende ficar na Inglaterra por muito tempo?

– Ah, agora que enfim consegui chegar, não vejo por que ter pressa em voltar!

Ele riu, jogando a cabeça para trás.

Simeon Lee disse:

– Muito bem. Você ficará aqui conosco por algum tempo.

– Ah, por favor, senhor. Não posso me intrometer desse jeito. Só faltam dois dias para o Natal.

– Você tem de passar o Natal conosco. A não ser que tenha outros planos.

– Bem, não tenho, mas não gostaria de...

Simeon disse:

– Está decidido. – Ele virou a cabeça. – Pilar?

– Sim, vovô?

– Vá dizer a Lydia que teremos outro convidado. Peça a ela para subir.

Pilar deixou a sala. Os olhos de Stephen a seguiram. Simeon notou o fato com divertimento.

Ele disse:

– Você veio direto da África do Sul?

– Pode-se dizer que sim.

Eles começaram a falar daquele país.

Alguns minutos depois, Lydia entrou.

Simeon disse:

– Este é Stephen Farr, filho de meu velho amigo e sócio, Ebenezer Farr. Ele vai passar o Natal conosco, se você puder encontrar um quarto para ele.

Lydia sorriu.

– É claro. – Seus olhos avaliaram a aparência do estranho. Seu rosto bronzeado, olhos azuis e o meneio fácil de sua cabeça.

– Minha nora – disse Simeon.

Stephen disse:

– Sinto-me um pouco envergonhado... Intrometendo-me dessa forma em uma festa familiar.

– Você é da família, meu jovem – disse Simeon. – Considere-se assim.

– O senhor é muito generoso.

Pilar entrou novamente na sala, sentou-se em silêncio junto ao fogo e apanhou a tela. Ela a usou como leque, movendo lentamente o pulso para frente e para trás. Seus olhos estavam baixos e reservados.