O Pistoleiro
Capítulo 3 · O Oráculo e as Montanhas
O garoto encontrou o oráculo e isso quase o destruiu. Algum vago instinto trouxe o pistoleiro do sono para a escu-
ridão aveludada que caíra sobre eles ao entardecer. Ele e Jake haviam chegado ao oásis cheio de relva, uma área quase plana após a primei-ra estirada pelos morrotes caóticos. Mesmo durante a dura subida, onde fora preciso conquistar, lutar por cada centímetro no sol assas-sino, tinham conseguido ouvir o som dos grilos friccionando as pa-tas e se agrupando sedutoramente no eterno verde do bosque de sal-gueiros acima deles. O pistoleiro permanecia mentalmente calmo, e o garoto conservara pelo menos uma fachada tranquila, o que deixa-ra o pistoleiro orgulhoso. Mas Jake não fora capaz de ocultar a agita-ção nos olhos, que eram diretos e puros, olhos de um cavalo sentin-do o cheiro da água, mas impedido de disparar pela tênue rédea da vontade de seu dono; um cavalo no ponto em que só a compreen-são, não a espora, pode mante-lo firme. O pistoleiro podia avaliar a ansiedade de Jake pela loucura que o ruído dos grilos provocava em seu próprio corpo. Os braços pareciam procurar xisto onde se esfo-lar e os joelhos pareciam implorar para serem rasgados em talhos pequenos, enfurecidos, salgados.
O sol espezinhou-os por todo o caminho; mesmo ao se con-
verter num vermelho inchado e febril com o crepúsculo, continuou brilhando perversamente nos cumes afiados das colinas à esquerda deles, um brilho que os ofuscava e continuava transformando cada gota de suor num prisma de dor.
Então apareceu a tiririca: a princípio, só moitas amareladas,
aderindo com terrível vitalidade ao solo descampado, mas atingido pelas últimas águas que vinham das vertentes. Mais para cima, havia grama do campo, primeiro esparsa, depois verde e abundante... em seguida, o doce aroma da verdadeira grama, misturada com braquiá-ria, à sombra dos primeiros pinheiros anões. Ali o pistoleiro viu um contorno marrom se deslocando nas sombras. Sacou o revólver, ati-rou e abateu o coelho muito antes que Jake pudesse começar a gritar de surpresa. Um momento depois, a arma já voltara ao coldre.
— Fique aqui — disse o pistoleiro. Bem acima, a grama se
adensava numa selva de salgueiros novos, coisa impressionante de-pois da esterilidade seca da interminável terra dura. Haveria uma nascente, talvez muitas, e seria ainda mais fresco, mas era melhor estar ali, no aberto. O garoto tinha avançado cada passo que podia dar e talvez existissem morcegos sugadores de sangue nas sombras mais escuras do arvoredo. Os morcegos podiam interromper o sono de um garoto, por mais profundo que fosse, e se fossem vampiros, o garoto não despertaria mais... pelo menos não neste mundo.
— Vou pegar um pouco de lenha — disse Jake. — Não vai, não. — O pistoleiro sorriu. — Não saia do seu
banquinho, Jake.
Quem falava assim? Uma mulher. Susan? Não conseguia
lembrar. O tempo é o ladrão da memória: esse ditado ele conhecia. Era de Vannay.
O garoto ficou sentado. Quando o pistoleiro tornou a olhar,
Jake havia adormecido na grama. Um grande louva-a-deus fazia a-bluções nas gotas que brotavam nos fios do seu topete. O pistoleiro deu uma risada alta (a primeira em deus sabe quanto tempo), acen-deu a fogueira e foi atrás de água.
O bosque de salgueiros era mais espesso do que ele suspeita-
ra e deixava a pessoa desnorteada na luz declinante. Mas ele encon-trou uma fonte exuberantemente guardada por sapos e rãs. Encheu um dos cantis... e prestou atenção. Os sons que enchiam a noite despertaram nele uma incômoda sensualidade, uma sensação que nem mesmo Allie, a mulher com quem havia dormido em Tull, fora capaz de despertar — afinal, ele desperdiçara boa parte do tempo com Allie em conversa séria. Atribuía essa sensação à repentina e atordoante saída da atmosfera do deserto. Após tantos quilômetros de terra dura e árida, a suavidade daquele crespúsculo parecia quase insalubre.
Voltou para perto da fogueira e esfolou o coelho enquanto a
água fervia. Misturado com o resto dos vegetais em conserva, o coe-lho deu um excelente guisado. Acordou Jake e viu-o comer, meio tonto mas voraz.
— Ficamos aqui até amanhã — disse o pistoleiro.
— Mas aquele homem de quem você está atrás... aquele pa-
dre...
— Não é padre. E não se preocupe. Ele vai esperar. — Como você sabe?
O pistoleiro pôde apenas balançar a cabeça. A intuição era
forte... mas não era uma boa intuição.
Após a refeição, passou água nas latas onde tinham comido
(outra vez maravilhado com essas extravagâncias com a água) e, quando olhou para trás, Jake havia adormecido de novo. O pistoleiro sentiu o agora familiar sobe e desce no peito do garoto, que lembra-va o de Cuthbert. Este último tinha a mesma idade de Roland, mas parecia ser bem mais jovem.
O cigarro tombou em direção à grama e ele o atirou na fo-
gueira. Ficou observando como o amarelo da chama queimava com limpidez, muito diferente do modo como ardia a erva do diabo. O ar estava incrivelmente fresco, e ele se deitou de costas para o fogo.
Ao longe, através do corte que abria caminho para as mon-
tanhas, ouviu o rugir pesado do incessante trovão. Dormiu. E so-nhou.
Susan Delgado, sua amada, estava morrendo diante de seus
olhos.
Ele via tudo com os braços seguros por dois aldeões e o pes-
coço laçado numa enorme e enferrujada coleira de ferro. Não era assim que tinha acontecido — ele nem mesmo estivera lá —, mas os sonhos têm sua própria lógica, não é?
Ela estava morrendo. Pôde sentir seu cabelo queimando,
pôde ouvir seus gritos. E pôde ver a cor de sua própria loucura. Swan, filha de cavaleiro. Como ela galopava pela Baixa, a sombra uma mistura de cavalo e moça, criatura fabulosa saída de uma velha história, coisa selvagem e livre! Como eles galopavam juntos pelo milharal! Agora estavam lhe atirando palha de milho e a palha pegava fogo antes mesmo de se prender no cabelo dela. Árvore de Charyou, árvore de Charyou, gritavam eles, aqueles inimigos da luz e do amor e, em algum lugar, a bruxa cacarejava. Rhea, era esse o nome da bru-xa, e Susan ia ficando negra nas chamas, a pele estalando e se abrin-do e...
E o que ela estava dizendo?
— O garoto! — gritava. — Roland, o garoto!
Ele girou, puxando seus captores. A coleira rasgou seu pes-
coço, e ele ouviu os arrancos, os sons estrangulados que saíam de sua própria garganta. Havia um cheiro enjoativamente adocicado de carne de churrasco no ar.
O garoto o olhava de uma janela bem acima da pira funerá-
ria, a mesma janela onde Susan, que o ensinara a ser um homem, tinha um dia se sentado para cantar as velhas canções: “Hey jude”, “Ease on Down the Road” e “Careless Love”. O garoto olhava pela janela como a estátua de um santo de alabastro numa catedral. Seus olhos eram de mármore. Um cravo havia sido enterrado na testa de Jake.
O pistoleiro sentiu o grito dilacerante, sufocante que assina-
lava o início de sua loucura, brotando do fundo da barriga.
— Nnnnnnnnnn...
Roland resmungou um grito quando sentiu o fogo chamus-
cá-lo. Sentou-se com as costas bem retas no escuro, ainda sentindo o sonho dos Mejis ao seu redor, estrangulando-o como a coleira que usara. Em suas contorções e guinadas, encostara a mão nas brasas agonizantes do fogo. Agora punha a mão no rosto, sentindo o sonho escapar, deixando apenas a rígida imagem de Jake, branco como ges-so, um santo para demônios.
— Nnnnnnnnnn...
Olhou ao redor para a mística escuridão do bosque de sal-
gueiros, os dois revólveres empunhados e prontos. Seus olhos eram seteiras vermelhas no último clarão do fogo.
— Nnnnnnnnnn...
Jake.
O pistoleiro estava em pé e correndo. Um árido círculo de
luar tinha brotado e ele pôde seguir o rastro do garoto no orvalho. Enfiou-se sob os primeiros salgueiros, chapinhou pela fonte e, der-rapando na umidade, alcançou a margem oposta (mesmo agora seu corpo ainda podia saborear isto). Galhos de salgueiros lhe batiam no rosto. As árvores estavam mais densas, e a lua, embaçada. Troncos de árvores brotavam em sombras repentinas. A relva, agora na altura do joelho, o acariciava, como se pedisse que andasse mais devagar, desfrutando o frescor. Desfrutando a vida. Galhos mortos e semi-apodrecidos se estendiam para suas pernas, suas canelas. Parou um instante, erguendo a cabeça e cheirando o ar. Uma brisa etérea veio em seu auxílio. O garoto não cheirava bem, é claro; nenhum dos dois. As narinas do pistoleiro brilhavam como as de um macaco. O odor mais leve e mais jovem do suor do garoto era um filete oleoso, inconfundível. Avançou contra um amontoado de relva, caules de amoreira e galhos caídos, disparou por um túnel de chorões e arbus-tos. O musgo atingia seus ombros como mãos flácidas de cadáver, e em algumas era possível sentir ansiosos dedinhos cinzentos.
Abriu caminho com dificuldade entre uma última barricada
de salgueiros e chegou a uma clareira coberta pelas estrelas e pelo pico mais alto da cadeia, que brilhava como um crânio branco numa altitude absurda.
Havia um círculo de pedras negras na vertical que lembra-
vam, sob o luar, algum tipo de armadilha animal surrealista. No cen-tro, havia uma mesa de pedra... um altar. Muito antigo, erguendo-se do chão sobre uma grossa viga de basalto.
O garoto estava parado diante dela, oscilando de um lado pa-
ra o outro. As mãos balançavam ao lado do corpo como se impreg-nadas de eletricidade estática. O pistoleiro chamou o nome dele com energia e Jake respondeu com um inarticulado som de resistência. O débil traçado do rosto, quase escondido pelo ombro esquerdo, pare-cia simultaneamente aterrorizado e exaltado. E havia mais alguma coisa.
O pistoleiro pisou dentro do círculo e Jake gritou, recuando
e atirando os braços para cima. Agora seu rosto podia ser visto cla-ramente. O pistoleiro percebeu o medo e o terror em disputa com algum excruciante prazer.
Sentiu que estava sendo tocado — pelo espírito do oráculo,
o súcubo. Suas entranhas pareceram subitamente cheias de luz, uma luz suave, mas dura. Sentiu a própria cabeça torcendo, a língua en-grossando, tornando-se sensível à saliva que a cobria.
Não pensou no que estava fazendo quando tirou o maxilar
meio podre do bolso, o maxilar que encontrara na toca do demônio falante do posto de parada. Não pensou, mas nunca tivera medo de agir movido pelo puro instinto. Fora sempre esse seu melhor e mais verdadeiro modo de operar. Manteve o sorriso congelado, pré-histórico do maxilar diante dos olhos, estendendo o braço livre rigi-damente, o primeiro e o último dedos esticados no antigo sinal do forcado, a proteção contra o mau-olhado.
A corrente de sensualidade afastou-se dele como uma cortina
sendo aberta.
Jake tornou a gritar.
O pistoleiro avançou e pôs o maxilar na frente dos olhos a-
lucinados de Jake.
— Olhe para isto, Jake... Olhe muito bem.
O que veio em resposta foi um som pastoso de agonia. O
garoto tentou desviar o olhar, não conseguiu. Por um momento, pa-receu que Jake ia desintegrar — mentalmente, se não fisicamente. Então, de repente, os dois olhos rolaram para cima e ficaram bran-cos. Jake perdeu os sentidos. Seu corpo bateu flacidamente na terra, uma das mãos quase tocando a atarracada viga de basalto que supor-tava o altar. O pistoleiro apoiou um joelho no chão e levantou o ga-roto. Estava incrivelmente leve, desidratado como uma folha de no-vembro por causa da longa caminhada através do deserto.
À sua volta, Roland pôde sentir a presença que habitava o
círculo de pedras se agitando com ira ciumenta — a presa lhe estava sendo tirada. Contudo, assim que o pistoleiro ultrapassou o círculo, a sensação de ciúme e frustração se extinguiu rapidamente. Ele condu-ziu Jake de volta à fogueira. No momento em que chegaram lá, a agitada inconsciência do garoto já se transformara em sono profun-do.
O pistoleiro parou um instante na frente das cinzas do fogo.
O luar no rosto de Jake lhe trouxe novamente à memória um santo de igreja, uma inocente imagem de alabastro totalmente desconheci-da. Abraçou o garoto e lhe deu um beijo seco no rosto. Agora sabia como gostava dele. Bem, talvez não fosse bem assim. Talvez a ver-dade fosse que gostara do garoto desde o primeiro momento (como tinha gostado de Susan Delgado) e simplesmente ainda não se per-mitira admitir o fato. Pois era um fato.
E achou que podia quase sentir o riso do homem de preto,
em algum lugar bem acima deles.
Jake o chamava: foi assim que o pistoleiro acordou. Amarra-
ra Jake firmemente a um dos resistentes arbustos que cresciam por perto, e o garoto estava faminto e nervoso. Pelo sol, eram quase no-ve e meia.
— Por que me amarrou? — perguntou Jake num tom indig-
nado, enquanto o pistoleiro afrouxava os grossos nós no cobertor. — Eu não ia fugir!
— Você já fugiu — disse o pistoleiro e a expressão no rosto
de Jake o fez sorrir. — Tive de ir pegá-lo. Estava andando dormin-do.
— Estava? — Jake o olhou com ar desconfiado. — Nunca
fiz uma coisa dessas em toda...
De repente, o pistoleiro mostrou o maxilar, mantendo-o na
frente do rosto de Jake. Jake se esquivou dele, fazendo careta e er-guendo o braço.
— Está vendo?
Jake abanou a cabeça, confuso.
— O que aconteceu?
— Agora não podemos confabular. Vou ter de me ausentar
algum tempo. Talvez fique o dia inteiro fora. Então me escute, garo-to. É importante. Se a noite cair e eu não estiver de volta...
— Você está me abandonando! — O medo brotou no rosto
de Jake.
O pistoleiro só o olhava.
— Não — disse Jake após um momento. — Acho que, se
fosse me abandonar, já o teria feito.
— Isso é usar a cabeça. Agora escute e preste muita atenção.
Quero que fique aqui enquanto eu estiver fora. Bem aqui na foguei-ra. Não comece a rodar por aí, mesmo que lhe pareça a melhor idéia do mundo. E se começar a se sentir estranho... esquisito de alguma forma... pegue este osso e não o tire das mãos.
Irritação e repugnância, misturadas com perplexidade, cruza-
ram o rosto de Jake.
— Eu não vou conseguir. Eu... eu simplesmente não vou
conseguir.
— Vai conseguir. Tem de conseguir. Especialmente depois
do meio-dia. É importante. Pode sentir vontade de vomitar ou dor de cabeça quando segurar o osso pela primeira vez, mas isso passa. Está entendendo?
— Sim.
— E vai fazer o que estou dizendo?
— Vou, mas por que você tem de sair daqui? — Jake explo-
diu.
— Porque é preciso.
O pistoleiro captou outro fascinante lampejo do aço que ja-
zia sob a superfície do garoto, tão enigmático quanto a história que ele contara sobre ter vindo de uma cidade onde as casas eram tão altas que chegavam a arranhar o céu. Não era Cuthbert que o garoto lhe trazia à memória, mas principalmente seu outro amigo, Alain. Alain era tranquilo, nada propenso ao exibicionismo charlatão de Bert; era digno de confiança e não tinha medo de nada.
— Tudo bem — disse Jake.
O pistoleiro depositou cuidadosamente o maxilar no chão,
perto das cinzas do fogo, onde ele ficou sorrindo na relva como um fóssil marcado pela erosão, um fóssil vendo a luz do dia após uma noite de cinco mil anos. Jake não olhava para ele. Tinha uma expres-são pálida e angustiada. O pistoleiro se perguntou se seria útil pôr o garoto para dormir e interrogá-lo; depois concluiu que o benefício seria pequeno. Sabia muito bem que o espírito do círculo de pedras era um demônio e muito provavelmente também um oráculo. Um demônio sem contorno, uma espécie de chama sexual sem forma, mas com o olho da profecia. Por um instante, desconfiou que pu-desse ser a alma de Sylvia Pittston, a gigantesca mulher cujas prega-ções religiosas tinham levado ao último acerto de contas em Tull... mas não. Não era ela. As pedras no círculo eram antigas. Sylvia Pitts-ton era uma garota de recados comparada com a coisa que ali fazia sua toca. Uma coisa antiga... e furtiva. Mas o pistoleiro conhecia muito bem os modos da coisa e achava que o garoto não teria de usar o sujo maxilar. A voz e a intenção do oráculo teriam mais o que fazer do que se preocupar com ele. O pistoleiro precisava conhecer os detalhes, apesar do risco... e o risco era alto. Contudo, tanto para Jake quanto para ele próprio, precisava desesperadamente saber.
Abriu a caixa de tabaco e tateou por ela, colocando de lado
os filamentos de folha até chegar ao minúsculo objeto enrolado num fragmento de papel branco. Rolou-o entre dedos que logo se fecha-ram sobre ele e olhou com ar ausente para o céu. Depois, desenrolou o papel e exibiu o conteúdo na palma da mão: uma pequena pílula branca com bordas que tinham ficado bem irregulares por causa da viagem.
Jake olhou com curiosidade.
— O que é?
O pistoleiro riu secamente.
— A história que Cort costumava nos contar era que os Ve-
lhos Deuses mijaram no deserto e criaram a mescalina.
Jake só parecia confuso.
— É uma droga — disse o pistoleiro. — Mas não uma droga
que o faça dormir. Ela o deixa muito bem acordado por um certo tempo.
— Como o LSD — concordou o garoto instantaneamente,
mas logo pareceu confuso.
— O que é LSD?
— Não sei — disse Jake. — Isso me ocorreu de repente.
Acho que veio de... você sabe, de antes.
O pistoleiro aquiesceu, mas estava em dúvida. Nunca vira
ninguém se referir à mescalina como LSD, nem mesmo nos velhos livros de Marten.
— Pode lhe fazer mal? — Jake perguntou.
— Nunca fez — disse o pistoleiro, consciente da resposta
evasiva.
— Não gosto disso.
— Não importa.
O pistoleiro se agachou na frente do cantil, tomou um gole e
engoliu a pílula. Como de hábito, sentiu uma imediata reação na bo-ca: ela pareceu repleta de saliva. Sentou-se na frente da fogueira apa-gada.
— Quando vai acontecer alguma coisa? — perguntou Jake. — Não vai demorar muito. Fique quieto.
Então Jake ficou quieto, observando com franca suspeita o
pistoleiro empreender calmamente o ritual de limpar os revólveres. Tornou a colocá-los nos coldres.
— Sua camisa, Jake — disse ele. — Tire e me dê. Jake passou relutantemente a camisa desbotada pela cabeça,
revelando o magro desenho das costelas. Entregou-a a Roland.
O pistoleiro pegou a agulha que trazia enfiada na costura la-
teral da calça jeans e tirou uma linha de um cartucho vazio no cintu-rão. Começou a coser um longo rasgado numa das mangas da camisa do garoto. Quando terminou e devolveu a camisa, sentiu a mescalina fazendo efeito — houve um aperto em seu estômago e a sensação de que todos os músculos do corpo estavam sendo retesados um ponto a mais.
— Tenho de ir — disse ele ficando em pé. — Está na hora. O garoto quase se levantou, seu rosto uma sombra de preo-
cupação, e depois tornou a sentar.
— Tome cuidado — disse ele. — Por favor.
— Não esqueça do maxilar — disse o pistoleiro. Pôs a mão
na cabeça de Jake, quando passou, e despenteou o cabelo cor de es-piga de milho. O gesto despertou nele um riso breve. Jake ficou o-lhando com um sorriso confuso até o pistoleiro desaparecer na mata de salgueiros.
O pistoleiro caminhou lentamente para o círculo de pedras,
parando o tempo suficiente para tomar um gole fresco da fonte. Viu seu próprio reflexo num pequeno lago cercado de musgo e nenúfa-res, e contemplou-se por um momento, fascinado como Narciso. A reação mental começava a se definir, retardando a cadeia de pensa-mentos e aparentemente intensificando as conotações de cada idéia e de cada fragmento de fluxo sensorial. As coisas começavam a ganhar um peso e uma textura até então invisíveis. Ele hesitou, depois tor-nou a se levantar e olhou através do denso emaranhado de salguei-ros. A luz do sol caía obliquamente numa faixa dourada, poeirenta, e antes de continuar ele apreciou por alguns instantes o movimento dos ciscos e das minúsculas coisas voadoras.
A droga o havia perturbado muitas vezes: seu ego era dema-
siado forte (ou talvez apenas demasiado simples) para gostar de ser eclipsado, rejeitado, transformado num alvo para emoções mais sen-síveis — elas lhe faziam cócegas (e às vezes o enlouqueciam) como o toque de um bigode de gato. Mas desta vez ele se sentia razoavel-mente calmo. Isso era bom.
Penetrou na clareira e foi direto para o círculo. Ficou parado,
deixando a mente livre. Sim, agora estava vindo mais forte, mais rá-pido. A relva o inundava de verde; parecia que se ele se curvasse e esfregasse as mãos na relva, ficaria com verde pintado por todos os dedos e palmas das mãos. Resistiu ao impulso travesso de tentar o experimento.
Mas nenhuma voz vinha do oráculo. Nenhum estímulo, se-
xual ou qualquer outro.
Foi até o altar, parou um instante a seu lado. Um pensamen-
to coerente era agora quase impossível. Seus dentes pareciam estra-nhos em sua cabeça, pequenas lápides fincadas em terra úmida e ro-sada. O mundo continha luz em excesso. Subiu no altar e se deitou de costas. A mente estava se tornando uma selva cheia de estranhos pensamentos-plantas que nunca vira, ou de cuja existência nunca suspeitara, uma selva de salgueiros que tinham crescido ao redor de uma fonte de mescalina. O céu era água e ele ficou suspenso nela. O pensamento lhe trouxe uma vertigem que pareceu uma sensação re-mota e sem importância.
Um trecho de poema antigo lhe ocorreu, agora não num tom
de ninar, não; sua mãe temera as drogas e a necessidade delas (assim como temera Cort e a necessidade daquele espancador de garotos); os versos vinham do folclore manni, ao norte do deserto, onde um clã ainda vivia entre máquinas que geralmente não funcionavam... e que às vezes comiam os homens quando o faziam. Os versos brota-vam repetidas vezes, lembrando-o (de um modo desconexo, típico do delírio da mescalina) da neve caindo num globo que possuíra quando criança, místico e meio fantástico:
Além do limite do alcance humano
Uma gota de inferno, um toque de estranho... As árvores que pendiam sobre o altar tinham faces. Ele as
contemplou com extasiada fascinação: aqui um dragão, verde e re-torcido, ali uma ninfa com galhos que acenavam como braços, lá um crânio vivo coberto de lodo. Faces. Faces.
A relva da clareira de repente se contorceu e chicoteou. Chego aí.
Chego aí.
Uma vaga agitação em sua carne. Até onde cheguei, ele pen-
sou. De deitar ao lado de Susan, na doce grama da Baixa, a isto.
Susan se apertava contra ele, um corpo feito de vento, um
seio de perfumados jasmim, rosa e madressilva.
— Faça sua profecia — ele disse. — Diga o que preciso sa-
ber. — Sua boca parecia cheia de cascalho.
Um suspiro. Um ruído baixo de choro. Os genitais do pisto-
leiro pareciam repuxados e duros. Acima dele e além das faces nas folhas, ele podia ver as montanhas — duras, brutais e cheias de den-tes.
O corpo se movia contra ele, lutava com ele. Sentiu as mãos
se fecharem em punhos. Ela tinha lhe enviado uma visão de Susan. Era Susan sobre ele, a encantadora Susan Delgado, esperando por ele numa abandonada choça de vaqueiro na Baixa, o cabelo derra-mado pelas costas e pelos ombros. Ele jogou a cabeça para o lado, mas o rosto dela acompanhou.
Jasmim, rosa, madressilva, feno velho... o cheiro do amor.
Me ame.
— Diga a profecia — ele falou. — Diga a verdade.
Por favor, o oráculo chorou. Não seja frio. É sempre tão frio aqui... Mãos escorregando sobre sua carne, manipulando, conse-
guindo abrasá-lo. Puxando-o. Sorvendo. Uma perfumada fenda es-cura. Úmida e quente...
Não. Seca. Fria. Estéril.
Tenha um dedo de misericórdia, pistoleiro. Ah, por favor, imploro sua
mercê! Misericórdia!
— Você teria misericórdia do garoto?
Que garoto? Não conheço nenhum garoto. Não é de garotos que eu pre-
ciso. Ah, por favor.
Jasmim, rosa, madressilva. Feno seco com seu toque de tre-
vo de verão. Óleo despejado de urnas antigas. Uma festa para a car-ne.
— Depois — disse ele. — Se for útil o que me contar. Agora. Por favor. Agora.
Deixou a mente rolar para ela, a antítese da emoção. O cor-
po que pendia sobre ele gelava e parecia gritar. Houve um breve, perverso cabo-de-guerra no meio de suas têmporas — sua mente era a corda, cinzenta e fibrosa. Por longos momentos, o único som foi o sopro sereno de sua respiração e a brisa ligeira que fazia as faces ver-des das árvores se deslocarem, piscarem, fazerem caretas.
Ela afrouxou o abraço. De novo o som de soluços. Teria de
ser rápido, ou ela o abandonaria. Ficar agora poderia significar en-fraquecimento; talvez, para ela, um tipo de morte. O pistoleiro já sentia sua friagem recuando para deixar o círculo de pedras. O vento encrespava a relva, formando tortuosos desenhos.
— Profecia — ele disse, e depois uma palavra ainda mais se-
ca. — Verdade.
Um suspiro choroso, cansado. Quase se dispôs a conceder a
misericórdia que ela implorara, mas... havia Jake. Teria encontrado Jake morto ou insano se tivesse chegado um pouco mais tarde na noite anterior.
Durma então.
— Não.
Então quase durma.
O que ela pedia era perigoso, mas também provavelmente
necessário. O pistoleiro ergueu os olhos para os rostos nas folhas. Um jogo estava sendo feito ali para seu entretenimento. Mundos brotavam e desapareciam diante dele. Impérios eram construídos em areias brilhantes onde as máquinas criavam uma eterna e frenética agitação eletrônica. Impérios entravam em decadência, caíam, ergui-am-se de novo. Rodas que tinham deslizado com o silêncio das coi-sas líquidas moviam-se mais devagar, começavam a ranger, começa-vam a gritar, paravam. Areia asfixiava canos de aço inox de ruas con-cêntricas sob céus escuros cheios de estrelas, como tabuleiros de jói-as brutas. E, no meio de tudo isso, soprava um último vento de mu-dança, trazendo consigo o cheiro de canela do final de outubro. O pistoleiro contemplou o mundo passando.
E quase adormeceu.
Três. Este é o número do seu destino.
— Três?
Sim, o três é místico. O três fica no centro de sua busca. Outro número
vem mais tarde. Agora o número é três.
— Que três?
Vemos parcialmente, e por isso o espelho da profecia fica obscurecido. — Diga o que puder.
O primeiro é jovem, de cabelo preto. Está próximo do roubo e do homi-
cídio. Um demônio tomou conta dele. O nome do demônio é HEROÍNA.
— Que demônio é esse? Nunca ouvi falar nele, nem mesmo
nas lições de meu tutor.
“Vemos parcialmente, e por isso o espelho da profecia fica obscurecido.”
Há outros mundos, pistoleiro, e outros demônios. Essas águas são profundas. Fique atento aos portais. Fique atento as rosas e aos portais ausentes.
— O segundo?
Ela vem de rodas. Não vejo mais.
— O terceiro?
Morte... mas não para você.
— O homem de preto? Onde ele está?
Perto. Em breve falará com ele.
— Do que vamos falar?
Da Torre.
— E o garoto? Jake? Fale-me do garoto!
O garoto é sua porta para o homem de preto. O homem de preto é sua
porta para os três. Os três são seu caminho para a Torre Negra.
— Como? Como pode ser isso? Por que tem de ser assim? “Vemos parcialmente, e por isso o espelho...”
— Maldita seja.
Não me amaldiçoe.
— Não me trate como criança, Coisa.
Como devia então chamá-la? Meretriz-estelar? Puta dos Ven-
tos?
Alguns vivem do amor que alcança lugares antigos... mesmo nessa época
má e triste. Outros, pistoleiro, vivem do sangue. Até mesmo, eu sei, do sangue de garotos novos.
— Ele não pode ser poupado?
Pode.
— Como?
Pare, pistoleiro. Levante acampamento e volte para noroeste. No noro-
este, ainda há necessidade de homens que vivem pela bala.
— Estou jurado pelas armas de meu pai e pela traição de
Marten.
Marten não existe mais. O homem de preto comeu a alma dele. Você
sabe disso.
— Estou jurado.
Então está condenado.
— Faça o que quiser comigo, puta.
Avidez.
A sombra oscilou sobre ele, envolveu-o. Houve um êxtase
repentino, quebrado apenas por uma galáxia de dores, fracas e com a luminosidade de velhas estrelas tornadas vermelhas com o colapso. Faces se aproximaram naturalmente dele no clímax de sua união: Sylvia Pittston; Alice, a mulher de Tull; Susan; uma dúzia de outras.
E finalmente, após uma eternidade, conseguiu afastá-la, mais
uma vez em seu juízo perfeito, extenuado e enojado.
Não! Não é suficiente! É...
— Me deixe em paz — disse o pistoleiro. Sentou-se e quase
caiu do altar antes de recuperar o equilíbrio. Ela o tocava de modo hesitante
(madressilva, jasmim, doce essência de rosas) e ele a empurrou violentamente, caindo de joelhos. Abriu caminho como um bêbado até o perímetro do círculo.
Atravessou-o cambaleante, sentindo um enorme peso sair de seus ombros. Teve um trêmulo, choroso arranco de respiração. O que ouvira bastava para justificar aquela sensação de corrupção? Não sabia. Achava que ia descobrir na hora devida. Começando a se afas-tar, pôde senti-la parada junto às barras de sua prisão, vendo-o se distanciar. Teve vontade de saber quanto tempo mais poderia se pas-sar antes que outra pessoa atravessasse o deserto e a encontrasse, faminta e sozinha. Por um momento, sentiu-se insignificante diante das possibilidades do tempo.
— Você está doente!
Jake se levantou rápido quando o pistoleiro oscilou pelas úl-
timas árvores e entrou na clareira. O garoto estivera grudado nos restos da pequena fogueira. Em seus joelhos, o maxilar se abria des-consoladamente sobre os ossos do coelho. Correu para o pistoleiro com um ar de sofrimento que fez Roland sentir plenamente o peso ameaçador de uma futura rendição.
— Não — disse ele. — Não estou doente. Só cansado. Moí-
do. — Gesticulou com ar distraído para o maxilar. — Pode se livrar disso, Jake.
O garoto atirou a coisa longe, rápido e violento, esfregando
as mãos na camisa depois de fazê-lo. Seu lábio superior subiu e des-ceu proferindo um rosnado que foi, o pistoleiro acreditou, perfeita-mente inconsciente.
O pistoleiro sentou-se — quase caiu — sentindo as juntas
doendo e a cabeça tonta, pesada, no desagradável efeito final da mescalina. Sua virilha também pulsava com uma dor persistente. En-rolou um cigarro com cuidadosa, inconsciente lentidão. Jake olhava. O pistoleiro sentiu um brusco impulso de obter a cumplicidade do garoto contando-lhe tudo que tinha ouvido, mas repeliu a idéia com horror. Achou que uma parte dele — mente ou alma — podia estar se desintegrando. Expor sua mente e coração aos sentimentos de uma criança? A idéia era insana.
— Vamos dormir aqui esta noite. Amanhã começamos a su-
bir. Vou lá embaixo um pouco mais tarde para ver se consigo acertar alguma coisa para o jantar. Precisamos recuperar energia. Agora te-nho de dormir. Certo?
— Claro. Pode apagar.
— Não entendo o que diz.
— Faça o que está querendo.
— Ah. — O pistoleiro balançou a cabeça e se recostou. Pos-
so apagar, ele pensou. Apagar. Me apagar.
Quando acordou, as sombras se estendiam pela relva da pe-
quena clareira.
— Acenda o fogo — ele disse a Jake, atirando-lhe a vara de
pederneira. — Sabe usar isso?
— Sim, acho que sim.
O pistoleiro caminhou para a mata de salgueiros, mas logo
parou ao som da voz do garoto. Parou atônito.
— Faísca-a-risca, cadê meu pai? — o garoto murmurou, e
Roland ouviu o agudo chik! chik! chikl da pederneira. Soava como o piado de um pequeno pássaro mecânico. — Vou me cansar? Vou me amparar? Abençoe com fogueira este campo.
Como tiradas de mim, o pistoleiro pensou, de maneira algu-
ma surpreso por constatar que estava completamente estupidificado e à beira de começar a tremer como um cachorro molhado. Como tiradas de mim, palavras que eu já não me lembro sequer de ter dito — e será que as deixaria tão expostas? Ah, Roland, expor um fio tão autêntico de palavras num mundo tão desfiado e triste? Como seria possível justificar isso?
São simples palavras.
É, mas antigas. Boas palavras.
— Roland? — o garoto chamava. — Você está bem? — Sim — ele disse rispidamente, e o vestígio de fumaça
chegou fraco a seu nariz. — Já fez o fogo?
— Já — o garoto se limitou a dizer, e Roland não precisou
se virar para saber que ele estava sorrindo.
O pistoleiro continuou avançando e rumou para a esquerda,
desta vez contornando o bosque de salgueiros. Num ponto onde o terreno se abria para os lados e para cima num denso relvado, recu-ou para as sombras e ficou em silêncio. De modo fraco, mas nítido, pôde ouvir o estalar da fogueira que Jake havia tornado a acender. O barulho o fez sorrir.
Ficou sem se mexer por 10, 15, 20 minutos. Três coelhos
apareceram e, assim que entraram em posição, o pistoleiro começou a atirar. Depois de abatê-los, tirou-lhes a pele, as vísceras, e levou-os para a fogueira. Jake já tinha água fervendo sobre as chamas baixas.
— Este é um belo trabalho. — O pistoleiro abanava a cabe-
ça.
Jake ficou vermelho de satisfação e devolveu em silêncio a
vara de pederneira.
Enquanto a carne cozinhava, o pistoleiro usou o resto de luz
para retornar ao bosque de salgueiros. Perto do primeiro lago, come-çou a quebrar as resistentes parreiras que cresciam junto da margem pantanosa da água. Mais tarde, quando a fogueira estivesse reduzida a brasas e Jake dormisse, faria um trançado com os galhos, trans-formando-os em cordas que poderiam ser de alguma limitada utili-dade. Mas sua intuição era que a subida não seria particularmente difícil. Sentia o ka trabalhando na superfície das coisas e já nem con-siderava isso estranho.
As parreiras derramaram uma seiva verde em suas mãos en-
quanto ele as carregava para onde Jake estava à espera.
Levantaram-se com o sol e estavam prontos em meia hora.
O pistoleiro quis matar outro coelho no prado antes de partirem, mas o tempo era curto e nenhum coelho apareceu. A trouxa do que lhes restava de comida era agora tão pequena e leve que Jake carre-gou-a facilmente. Tinha endurecido aquele garoto; uma mudança a olhos vistos.
O pistoleiro carregava a água, recentemente tirada de uma
das nascentes. Enrolou suas três cordas de parreira na cintura. Con-servaram distância do círculo de pedras (o pistoleiro receou que o garoto pudesse experimentar aquela sensação de medo, mas quando passaram ao largo do círculo numa subida pedregosa, Jake só o o-lhou de relance, logo se concentrando num pássaro que pairava na corrente de vento). Pouco depois, as árvores começaram a perder altura e exuberância. Os troncos ficaram retorcidos e as raízes pare-ciam lutar com a terra numa torturada busca de umidade.
— É tudo tão antigo — disse Jake num tom melancólico
quando fizeram uma pausa para descansar. — Não há nada novo neste mundo?
O pistoleiro sorriu e deu uma cotovelada em Jake. — Só você — disse.
Jake reagiu com um sorriso amarelo.
— Vai ser difícil subir?
O pistoleiro olhou-o com ar curioso.
— As montanhas são altas. Não acha que será uma subida
difícil?
Jake devolveu o olhar, olhos enevoados, confusos. — Não.
Continuaram.
O sol subiu para seu zênite, onde pareceu se demorar menos
do que era habitual durante a travessia do deserto, e depois continu-ou seguindo, devolvendo aos dois suas sombras. Plataformas de ro-cha se projetavam da terra cada vez mais alta como braços de gigan-tescas espreguiçadeiras enterradas no solo. A relva rala ficou amarela, seca. Finalmente se defrontaram com uma fenda profunda na trilha, como uma chaminé, e tiveram de escalar um pouco, apoiando-se em saliências de rocha para contorná-la e ultrapassá-la. O antigo granito se gastara em pontos que eram do tamanho de um passo e, como os dois haviam intuído, pelo menos o início da subida foi fácil. Fizeram uma pausa no topo de uma escarpa, uma área com mais de um me-tro de largura, e deixaram os olhos deslizarem até o deserto, que se enroscava ao redor das terras altas como enorme garra amarela. Já bem longe, ele cintilava num escudo branco que ofuscava o olho, estendendo-se em embaçadas ondas de calor. O pistoleiro ficou um tanto espantado ao imaginar como aquele deserto quase o matara. De onde estavam, num novo trecho de vegetação, o deserto certa-mente parecia imponente, mas não mortal.
Voltaram a subir, seguindo com cuidado por afloramentos
de rocha cheios de cascalho e por planos inclinados de pedra salpi-cados com brilhos de quartzo e mica, onde precisaram avançar aga-chados. A rocha parecia agradavelmente quente ao toque, mas o ar era definitivamente mais frio. No final da tarde, o pistoleiro ouviu o barulho fraco do trovão. As altas vertentes das montanhas, no entan-to, obscureciam a visão da chuva do outro lado. Quando as sombras começaram a passar ao roxo, acamparam no parapeito formado por uma projeção de rocha. O pistoleiro escorou o cobertor no alto e embaixo, montando uma espécie de alpendre tosco. Sentaram-se na entrada da tenda, vendo o céu estender um manto sobre o mundo. Jake balançava os pés sobre a beirada. O pistoleiro enrolava o cigar-ro da noite e fitava Jake com um ar meio engraçado.
— Não role por aí quando estiver dormindo — disse — ou
pode acordar no inferno.
— Não vou rolar — respondeu Jake seriamente. — Minha
mãe diz... — Ele se interrompeu.
— Diz o quê?
— Que eu durmo como um morto — Jake concluiu. Olhou
para o pistoleiro, que viu que a boca do garoto estava tremendo na luta para conter as lágrimas...
Só um garoto, ele pensou, e a dor o golpeou como aquela
sensação de furador de gelo que mergulhar em água muito fria pode às vezes plantar na nossa testa. Só um garoto. Porque com ele? Per-gunta boba. Quando um garoto, ferido no corpo ou no espírito, fa-zia essa pergunta a Cort, aquela velha máquina de batalha cheia de cicatrizes, cujo trabalho era ensinar aos filhos dos pistoleiros os ru-dimentos do que eles tinham de saber, a resposta era: Porque você é uma letra torta que a gente não consegue que fique direita... não im-porta por quê, só se levante, cabeça em pé! Levante! O dia é uma criança!
— Por que estou aqui? — Jake perguntou. — Por que es-
queci tudo que aconteceu antes?
— Porque o homem de preto o trouxe para cá — disse o
pistoleiro. — E por causa da Torre. A Torre fica numa espécie de... anel de poder. No tempo.
— Não entendo isso!
— Nem eu — disse o pistoleiro. — Mas alguma coisa vem
acontecendo. E em meu próprio tempo. “O mundo seguiu adiante”, nós dizemos... nós sempre dizemos. Mas está passando mais depres-sa agora. Alguma coisa aconteceu ao tempo. Está ficando mais flexí-vel.
Sentaram-se em silêncio. Uma brisa, fraca mas com certa as-
pereza, tocou em suas pernas. Em algum lugar, a brisa fazia um ca-vernoso uuuuuuh numa fenda de rocha.
— De onde você vem? — perguntou Jake.
— De um lugar que não existe mais. Conhece a Bíblia? — Jesus e Moisés. Claro.
— Pois então. — O pistoleiro sorriu. — Minha terra tinha
um nome bíblico... Nova Canaã, era como se chamava. A terra de leite e mel. Na Canaã da Bíblia, supostamente havia uvas tão grandes que os homens tinham de carregá-las em trenós. Não as cultiváva-mos tão grandes assim, mas era uma doce terra.
— Conheço a história de Ulisses — disse Jake com hesita-
ção. — Ele estava na Bíblia?
— Talvez — disse o pistoleiro. — Nunca fui perito no as-
sunto e não posso afirmar com certeza.
— Mas os outros... seus amigos...
— Não há outros — disse o pistoleiro. — Sou o último.
Uma pequena, enfraquecida lua começou a subir no céu, ati-
rando seu brilho enodoado na mistura de rochas onde estavam sen-tados.
— Era bonito? Seu país... sua terra?
— Era bonito — disse o pistoleiro. — Havia campos, flores-
tas, rios e névoas pela manhã. Mas era só isso. Minha mãe costuma-va dizer que a única verdadeira beleza é a ordem, o amor e a luz.
Jake fez um ruído neutro.
O pistoleiro fumava e pensava em como era — as noites no
enorme salão principal, centenas de figuras ricamente vestidas mo-vendo-se com os lentos e firmes passos da valsa ou as ondulações leves e mais rápidas da pol-kam, Aileen Ritter em seu braço, a moça que, achava ele, seus pais tinham escolhido para desposá-lo, os olhos dela mais brilhantes que as mais preciosas das pedras, a luz dos can-delabros de cristal brilhando nos cabelos recentemente penteados dos cortesãos e de seus pares amorosos meio cínicos. O salão era enorme, uma ilha de luz cuja idade já não se conseguia contar, assim como a idade de toda a Área Central, que era constituída de quase uma centena de castelos de pedra. Havia se passado um número des-conhecido de anos desde que Roland os vira e os deixara pela última vez. Sentira então a cabeça doendo ao afastar de vez os olhos e dar início à sua primeira busca pela trilha do homem de preto. Já então as paredes tinham caído, ervas daninhas cresciam nos pátios, morce-gos se empoleiravam entre as grandes vigas do salão principal, e as galerias ecoavam com o esvoaçar suave e o murmúrio das andori-nhas. Os campos onde Cort lhes ensinara a arte do arco, a artilharia, a falcoaria, estavam entregues ao mato, ao capim e às parreiras selva-gens. Na enorme cozinha onde Hax um dia mantivera sua fumegan-te e aromática corte, uma grotesca colônia de Vagos Mutantes se formara. Eles o espreitaram da abençoada escuridão das despensas e das sombras das colunas. O vapor quente que sempre se enchia dos odores pungentes dos assados de carne de boi e porco fora substitu-ído pela viscosa umidade do musgo. Gigantescos cogumelos brancos cresciam nos cantos onde nem mesmo os Vagos Mutantes ousavam acampar. O enorme tabique de carvalho que isolava a adega subter-rânea permanecia aberto, deixando escapar um cheiro muito agressi-vo do que havia lá dentro, um odor que parecia expressar com cate-górica determinação todas as duras realidades da dissolução e da de-cadência: o cheiro forte e penetrante do vinho transformado em vi-nagre. Não fora preciso lutar para virar o rosto para o sul e deixar aquilo para trás — mas machucara seu coração.
— Houve uma guerra? — Jake perguntou.
— Melhor ainda — disse o pistoleiro, atirando fora a última
brasa que queimava em seu cigarro. — Houve uma revolução. Ven-cemos cada batalha, e perdemos a guerra. Ninguém ganhou a guerra, a não ser que levemos em conta as aves de rapina. Elas devem ter desfrutado de um rico espólio durante os anos que se seguiram.
— Gostaria de ter vivido lá — disse Jake com ar melancóli-
co.
— Está falando sério?
— Estou.
— Hora de dormir, Jake.
O garoto, agora apenas uma vaga sombra, virou de lado e se
enroscou no cobertor atirado sobre ele. O pistoleiro velou ao seu lado por cerca de uma hora, mergulhando em profundos, graves pensamentos. Tal meditação era uma novidade para ele, agradável sob um certo prisma melancólico, mas sem absolutamente qualquer significado prático: a única solução para o problema de Jake era a-quela que o Oráculo tinha oferecido — virar-lhe as costas simples-mente não era possível. Talvez tivesse havido tragédia na situação, mas o pistoleiro não via isso; via apenas a predestinação de sempre. E por fim, a natureza mais realista de seu temperamento voltou a se afirmar, e ele dormiu profundamente, sem sonhos.
A subida ficou mais severa no dia seguinte, quando continu-
aram a rumar para o estreito V do desfiladeiro entre as montanhas. O pistoleiro avançava devagar, ainda sem qualquer sentimento de pressa. A rocha árida sob seus pés não deixava traço do homem de preto, mas o pistoleiro sabia que ele passara por ali... Não só pela trajetória de sua escalada, percebida quando ele e Jake o observaram, minúsculo como um inseto, do sopé das montanhas, mas porque seu aroma estava impresso em cada fria corrente descendente de ar. Era um odor debochado, gorduroso, amargo para o nariz como o fedor da erva do diabo.
O cabelo de Jake já crescera bastante, e se curvara ligeira-
mente na base do pescoço queimado de sol. O garoto subia com de-terminação, movendo-se com passos seguros. Aparentemente, não tinha medo da altura quando atravessavam falhas ou tinham de transpor saliências de pedra. Já por duas vezes atingira lugares ina-cessíveis para um adulto, e prendera uma das cordas para que o pis-toleiro pudesse subir usando as mãos.
Na manhã seguinte, passaram por um fragmento de nuvem
frio e úmido, que borrou as caóticas encostas embaixo deles. Marcas de queda de uma neve granulada e dura começaram a aparecer em certos bolsões mais profundos de rocha. Brilhavam como quartzo e sua textura era seca como areia. Naquela tarde, encontraram uma pegada numa dessas areiazinhas. Jake contemplou-a um instante com extrema fascinação, depois ergueu a cabeça assustado, como se espe-rasse ver o homem de preto se materializar para ocupar sua própria pegada. O pistoleiro deu tapinhas em seu ombro e apontou para a frente.
— Vamos. O dia está chegando ao fim.
Mais tarde, sob a última luz do dia, acamparam numa larga e
plana saliência de rocha a leste, e ao norte da passagem que rumava para o coração das montanhas. O ar era frio; podiam ver as nuvens de suas respirações, e o ruído pastoso de trovão no entardecer ver-melho-e-púrpura era surreal, ligeiramente lunático.
O pistoleiro achou que o garoto ia começar a interrogá-lo,
mas Jake não fez nenhuma pergunta. Caiu quase de imediato no so-no. O pistoleiro seguiu seu exemplo. Sonhou de novo com Jake co-mo um santo de alabastro com um cravo na testa. Acordou sem fô-lego, experimentando o frio rarefeito da altitude nos pulmões. Jake dormia a seu lado, mas não era um sono fácil; debatia-se e resmun-gava, caçando seus próprios fantasmas. O pistoleiro se recostou um tanto inquieto, e dormiu de novo.
Uma semana depois de Jake ter visto a pegada, acabaram se
defrontando por um breve momento com o homem de preto. Foi quando o pistoleiro achou que podia quase entender a implicação da própria Torre, pois o instante pareceu se estender para sempre.
Continuaram para sudeste, atingindo um ponto mais ou me-
nos na metade da ciclópica cadeia de montanhas e, justamente quan-do, pela primeira vez, o caminho pareceu que ia se tornar realmente difícil (sobre eles, aparentemente cada vez mais íngremes, saliências nevadas e elevações escarpadas fizeram o pistoleiro sentir uma desa-gradável vertigem reversa), começaram novamente a descer pelo la-do do estreito desfiladeiro. Uma trilha em forte ziguezague levou-os para o fundo de uma garganta, onde um regato cercado de gelo des-cia com severa, impetuosa força, certamente após cair de um pare-dão mais alto.
Naquela tarde, o garoto ficou um instante imóvel e se virou
para o pistoleiro, que parará para lavar o rosto no regato.
— Sinto o cheiro dele — disse.
— Eu também.
À frente deles, a montanha erguia sua última defesa — uma
enorme laje de intransponível granito subindo para um infinito ene-voado. O pistoleiro achava que, a qualquer momento, o regato faria uma curva brusca que os colocaria defronte a uma alta queda d’água e à insuperável superfície da rocha — fim do caminho. A atmosfera, no entanto, possuía ali aquele estranho poder de exagerar as coisas, comum aos lugares altos, e tiveram outro dia antes de atingirem o grande paredão de granito.
O pistoleiro começou a sentir outra vez aquele pulsar de an-
tecipação, o sentimento de que tudo finalmente estava a seu alcance. Já experimentara isto antes — muitas vezes — mas ainda tinha de lutar consigo mesmo para não irromper numa ávida disparada.
— Espere! — O garoto tinha parado de repente. Defronta-
vam-se com uma fechada curva no regato; a água fervilhava, espu-mava ao redor da superfície gasta pela erosão de um gigantesco blo-co de arenito. Tinham andado toda a manhã na sombra das monta-nhas enquanto o desfiladeiro se estreitava.
Jake tremia violentamente e seu rosto empalidecera. — Qual é o problema?
— Vamos voltar — Jake murmurou. — Vamos voltar de-
pressa.
A expressão do pistoleiro não se alterava.
— Por favor. — O rosto do garoto estava repuxado, e o
queixo oscilava numa agonia reprimida. Através da pesada manta de pedra, ainda ouviam o trovão, nítido como máquinas sobre a terra. A fatia de céu que conseguiam ver tinha assumido um turbulento, góti-co tom cinzento em que correntes frias e quentes se encontravam e lutavam entre si.
— Por favor, por favor! — O garoto ergueu um punho, co-
mo se fosse bater no peito do pistoleiro.
— Não.
O rosto do garoto assumiu um ar de espanto.
— Você vai me matar. Ele me matou da primeira vez e você
vai me matar desta vez. E acho que sabe disso.
O pistoleiro sentiu a mentira nos lábios, e a disse: — Nada vai acontecer com você. — E uma mentira ainda
maior. — Eu vou cuidar de você.
O rosto de Jake ficou sombrio, e ele não falou mais nada.
Estendeu hesitantemente a mão e ele e o pistoleiro contornaram a curva daquele jeito, de mãos dadas. Do outro lado, ficaram cara a cara com aquele último paredão e com o homem de preto.
Ele estava a não mais de seis metros acima dos dois, logo à
direita da queda d’água que quebrava e se derramava de uma enorme abertura denteada na rocha. Um vento invisível encrespava e franzia sua túnica com capuz. Segurava um cajado numa das mãos. A outra estava estendida para eles num gesto zombeteiro de boas-vindas. Parecia um profeta, e, debaixo da aspereza daquele céu, postado numa saliência de rocha, um profeta do juízo final, sua voz, a voz de Jeremias.
— Pistoleiro! Como você preenche bem as profecias antigas!
Bom dia, bom dia e bom dia! — Riu e curvou a cabeça, o som eco-ando sobre o ronco da água caindo.
Sem pensar um segundo, o pistoleiro tinha sacado suas pis-
tolas. O garoto, uma pequena sombra, abaixava-se à sua direita e a-trás dele.
Roland atirou três vezes antes de conseguir controlar as
mãos traiçoeiras — os ecos lançaram os tons de bronze contra o va-le rochoso que se erguia ao redor, sobre o barulho do vento e da á-gua.
Uma rajada de granito soprou sobre a cabeça do homem de
preto; uma segunda rajada, à esquerda de seu capuz; uma terceira, à direita. O pistoleiro errara por completo todas as três vezes.
O homem de preto ria — um riso franco, vigoroso, que pa-
recia desafiar os ecos em retirada dos disparos.
— Mataria todas as suas respostas tão facilmente, pistoleiro? — Desça — disse o pistoleiro. — Faça o que estou man-
dando e teremos respostas por toda parte.
De novo aquele riso enorme, debochado.
— Não são suas balas que eu temo, Roland. O que me as-
susta é essa sua idéia de resposta.
— Desça.
— Vamos falar do outro lado, eu acho — disse o homem de
preto. — Do outro lado vamos fazer muitas conferências e confabu-lar longamente. — Seus olhos fizeram um movimento repentino pa-ra Jake, e ele acrescentou: — Só nós dois.
Jake desviou o rosto com um pequeno grito choroso, e o
homem de preto deu meia volta, a túnica batendo no ar cinzento como asa de morcego. Desapareceu na fenda de rocha por onde a água era vomitada com toda força. O pistoleiro exercitou seu auto-controle e não disparou uma bala atrás dele — mataria todas as suas respostas tão facilmente, pistoleiro?
Havia apenas o barulho do vento e da água, um som que es-
tivera há mil anos naquele lugar de desolação. Contudo, fora lá que o homem de preto aparecera. Doze anos após sua última aparição, Ro-land tornara a vê-lo de perto, falara com ele. E o homem de preto havia rido.
Do outro lado vamos fazer muitas conferências e confabular longamente. O garoto ergueu os olhos, o corpo tremendo. Por um mo-
mento, o pistoleiro viu o rosto de Allie, a moça de Tull, superposto ao de Jake. A cicatriz se projetava na testa como acusação muda, e sentiu uma irracional aversão pelos dois (só muito mais tarde lhe o-correria que tanto a cicatriz na testa de Allie quanto o cravo que, em seus sonhos, viu enfiado na testa de Jake estavam no mesmo lugar). Jake talvez tenha captado um traço de seu pensamento; um suspiro lhe escapou da garganta. Mas Jake repuxou os lábios e eliminou o som. Mostrava as qualidades de um homem requintado, talvez de um verdadeiro pistoleiro se lhe dessem o tempo necessário.
Só nós dois.
O pistoleiro sentiu uma grande, horrível sede em algum bu-
raco profundamente desconhecido do corpo, uma sede que nenhum gole de água ou vinho poderia abrandar. Mundos tremiam, alguns dentro do alcance de seus dedos e, de uma forma instintiva, ele luta-va para não ser corrompido, sabendo no fundo frio de sua mente que tal luta era e sempre seria vã. No fim, havia apenas o ka.
Era meio-dia. Ele ergueu os olhos, deixando a enevoada, ins-
tável luz do dia brilhar pela última vez sobre o sol extremamente vulnerável de sua própria virtude. Ninguém jamais realmente paga pela traição em prata, pensou. O preço de qualquer traição sempre é devido em carne.
— Venha comigo ou fique — disse o pistoleiro.
O garoto reagiu com um riso duro e destituído de humor —
o riso do pai, que mal chegara a conhecer.
— E vou ficar muito bem se continuar aqui — disse Jake. —
Fico muito bem completamente sozinho, aqui nas montanhas. Al-guém virá me salvar. Vão trazer bolo e sanduíches. Café numa garra-fa térmica, também. Não acha que sim?
— Venha comigo ou fique — o pistoleiro repetiu e sentiu
algo acontecer em sua mente. Uma desconexão. Foi o momento em que a pequena figura na frente dele deixou de ser Jake e tornou-se apenas o garoto, uma coisa impessoal a ser posta em movimento e usada.
Algo gritou na serenidade do vento; ele e o garoto ouviram. O pistoleiro começou a subir e, após um momento, Jake foi
atrás. Juntos galgaram o caótico amontoado de rocha ao lado das quedas d’água, frias como aço, e pararam onde o homem de preto havia parado. E juntos entraram onde ele havia desaparecido. A es-curidão os engoliu.