O Pistoleiro

Stephen King · Capítulo 7 de 7

Páginas do PDF

O Pistoleiro

Capítulo 5 · O Pistoleiro e o Homem de Preto

 

O homem de preto levou-o a um antigo campo de caça para

confabular. O pistoleiro reconheceu de imediato o lugar: um gólgota, local-do-crânio. E crânios descorados os fitavam brandamente: bois, coiotes, cervos, coelhos, cotias. Aqui, a cauda de alabastro de uma fêmea de faisão que morrera pastando; ali, os diminutos, delicados ossos de uma toupeira, talvez morta por prazer por um cão selva-gem.

O gólgota era um patamar cortado na encosta em declive da

montanha, e mais abaixo, em altitudes mais saudáveis, o pistoleiro pôde ver iúcas e pinheiros anões. O céu tinha o azul mais suave que ele vira nos últimos 12 meses, e havia alguma coisa indefinível que sugeria um mar não muito longe dali.

Estou no Oeste, Cuthbert, pensou ele espantado. Se isto não

for o Mundo Médio, fica perto.

O homem de preto estava sentado num antigo tronco de

vernônia. As botas estavam esbranquiçadas da poeira e dos cons-trangedores restos de osso do lugar. Havia posto novamente o ca-puz, mas o pistoleiro podia ver com nitidez o formato quadrado do queixo e o contorno do maxilar. Na sombra, os lábios se crisparam num sorriso.

— Pegue lenha, pistoleiro. Este lado das montanhas é de

clima suave, mas nesta altitude o frio ainda pode enfiar uma faca na barriga da pessoa. E este é um lugar de morte, não é?

— Vou matá-lo — disse o pistoleiro.

— Não, não vai. Não pode. Mas pode pegar um pouco de

lenha para recordar o seu Isaac.

O pistoleiro não compreendeu a referência. Ficou mudo e

foi apanhar lenha como um vulgar garoto de cozinha. A lenha era pouca. Não havia erva do diabo daquele lado e a vernônia não quei-maria. Tinha se transformado em pedra. Acabou voltando com uma grande braçada de gravetos aproveitáveis, ainda que fragmentados e misturados com ossos decompostos, como se estivessem mergulha-dos em farinha. O sol havia caído atrás das iúcas mais altas e ganhara um brilho avermelhado. Espreitava-os com funesta indiferença.

— Excelente — disse o homem de preto. — Como você é

incrível! Como é metódico! Como é habilidoso! Eu o saúdo! — Deu uma risada, e o pistoleiro jogou a lenha nos pés dele, um baque que fez subir uma nuvem de farelo de ossos.

O homem de preto não recuou nem pulou; simplesmente

começou a preparar a fogueira. O pistoleiro observou, fascinado, o ideograma (fresco, desta vez) tomar forma. Quando terminou, ficou parecido com uma pequena e complexa chaminé dupla, com cerca de meio metro de altura. O homem de preto ergueu o braço para o céu, deixando recuar a manga volumosa da mão pontuda, elegante, e logo fazendo a mão descer com o indicador e o dedo mínimo proje-tados no tradicional símbolo do olho do mal. Houve uma centelha azul, e o fogo se acendeu.

— Tenho fósforos — disse jovialmente o homem de preto

—, mas achei que você fosse gostar da mágica. Puro prazer, pistolei-ro. Agora prepare nosso jantar.

As dobras da túnica estremeceram e a carcaça depenada e

limpa de um rechonchudo coelho caiu no chão.

Sem dar uma palavra, o pistoleiro espetou o coelho num

graveto e o assou. Um cheiro apetitoso foi transportado pelo ar quando o sol se pôs. Sombras arroxeadas deslizavam famintas na cancha que o homem de preto escolhera para o confronto final. O pistoleiro também sentira a fome começando a roncar vigorosamen-te na barriga enquanto o coelho dourava, mas quando a carne ficou pronta e os molhos ferveram, ele passou, sem dar uma palavra, o espeto inteiro para o homem de preto. Depois, revirando sua mochi-la quase vazia, encontrou um resto de carne seca. Estava muito sal-gada, doía na boca e tinha gosto de lágrimas.

— Um gesto inútil — disse o homem de preto, conseguindo

parecer irritado e divertido ao mesmo tempo.

— Pode ser — disse o pistoleiro. Tinha pequenas feridas na

boca, resultado da falta de vitaminas. O gosto do sal o fazia arrega-nhar os dentes amargamente.

— Acha que a carne pode estar enfeitiçada? — É, é isso.

O homem de preto jogou o capuz para trás.

O pistoleiro olhou-o silenciosamente. Sob certo aspecto, o

rosto que o capuz escondera era um desapontamento constrangedor. Parecia agradável e comum, sem nenhuma das marcas e dobras típi-cas dos que atravessaram tempos terríveis e participaram de grandes segredos. O cabelo era preto, caindo emaranhado e irregular. A testa alta, os olhos escuros e brilhantes. O nariz banal. Os lábios eram grossos, sensuais. A pele pálida, como a do próprio pistoleiro.

— Eu esperava um homem mais velho — disse finalmente o

pistoleiro.

— Por quê? Sou praticamente imortal, como você também,

Roland... ao menos por enquanto. Podia ter assumido um rosto com o qual você teria se sentido mais à vontade, mas preferi mostrar o rosto com o qual... hum... nasci. Veja, pistoleiro, o pôr do sol.

O sol já se fora e o céu poente estava coberto por uma so-

turna luminosidade de fornalha.

— Você não verá o sol nascer de novo pelo que pode ser um

tempo muito longo — disse o homem de preto.

O pistoleiro se lembrou do abismo sob as montanhas e o-

lhou para o céu, onde as constelações se espalhavam numa profusão de faixas luminosas.

— Isso não importa — ele disse em voz baixa — agora. O homem de preto embaralhou as cartas com mãos muito

rápidas. O baralho era imenso, os desenhos nas cartas cheios de a-dornos em curva.

— São cartas de tarô, pistoleiro... ou quase isso. Uma varian-

te do baralho-padrão, ao qual acrescentei uma seleção de minha pró-pria lavra. Agora observe com cuidado.

— Observar o quê?

— Vou revelar seu futuro. Sete cartas devem ser viradas,

uma de cada vez, e postas em conjunção com as outras. Não faço isto desde os dias em que Gilead vivia e as senhoras jogavam gamão no gramado do oeste. E desconfio que nunca li um destino como o seu. — O tom de zombaria penetrava de novo na voz. — Você é o último aventureiro do mundo. O último cruzado. Como isso deve agradá-lo, Roland! Mas não faz idéia de como está perto da Torre agora, ao retomar sua jornada. Os mundos giram em volta de sua cabeça.

— O que está querendo dizer com retomar? Eu nunca parei.

Ouvindo isto, o homem de preto riu com vontade, mas não

disse o que achava tão engraçado.

— Leia então minha sorte — disse Roland asperamente. A primeira carta foi virada.

— O Enforcado — disse o homem de preto. A escuridão o

cobria como um capuz. — Mas aqui, sem conjunção com nenhuma outra coisa, ele significa energia, não a morte. Você, pistoleiro, é o Enforcado, impelido sempre para um objetivo sobre os abismos de Na’ar. Já deixou cair um companheiro de viagem naquele fosso, não foi?

O pistoleiro não disse nada, e a segunda carta foi virada. — O Marinheiro! Repare na nitidez da sobrancelha, as faces

sem pêlos, os olhos magoados. Ele se afoga, pistoleiro, e ninguém entra na água para salvá-lo. O garoto Jake.

O pistoleiro estremeceu, mas não disse nada. A terceira carta foi virada. Havia um babuíno sorridente

montado no ombro de um rapaz. O rosto do rapaz estava virado para cima, com um esgar caricatural de espanto e de terror nas fei-ções. Olhando mais de perto, o pistoleiro viu que o babuíno segura-va um chicote.

— O Prisioneiro — disse o homem de preto. A fogueira ati-

rava incômodas sombras oscilantes no rosto do homem subjugado, dando a ilusão de que ele se mexia, se contorcia num terror inexpri-mível. O pistoleiro afastou os olhos.

— Um pouco perturbador, não é? — disse o homem de pre-

to, parecendo à beira de dar uma risada.

Virou a quarta carta. Uma mulher com um xale fazia girar

uma travessa de cerâmica numa roda. Para o olhar atordoado do pis-toleiro, ela parecia estar sorrindo maliciosamente e soluçando ao mesmo tempo.

— A Dama das Sombras — comentou o homem de preto.

— Ela não parece ter duas caras, pistoleiro? Pois tem. Pelo menos duas caras. Ela já quebrou a travessa!

— E o que isso quer dizer?

— Não sei. — E, pelo menos neste caso, o pistoleiro achou

que seu adversário estava dizendo a verdade.

— Por que está me mostrando essas coisas? — Não faça perguntas! — disse o homem de preto num tom

severo, mas logo sorrindo. — Não faça perguntas. Apenas observe. Considere isto apenas como um ritual sem sentido. Talvez assim vo-cê fique mais à vontade e mais tranqüilo. Como na igreja.

Ele abafou um riso e virou a quinta carta.

Um vulto sorridente segurava uma foice com dedos descar-

nados.

— Morte — o homem de preto se limitou a dizer. — Mas

não para você.

A sexta carta.

O pistoleiro olhou-a e sentiu uma estranha, formigante ante-

cipação no estômago. A sensação se misturava a horror e alegria, mas era impossível classificar a emoção em seu conjunto. Ela o dei-xava com vontade de vomitar e dançar ao mesmo tempo.

— A Torre — disse em voz baixa o homem de preto. — Eis

a Torre.

A carta ocupava o centro da formação; cada uma das quatro

cartas imediatamente anteriores ocupava um canto, como satélites circundando uma estrela.

— Para onde isso leva? — o pistoleiro perguntou. O homem de preto pôs a Torre sobre o Enforcado, cobrin-

do-o completamente.

— O que isso significa? — o pistoleiro perguntou. O homem de preto não respondeu.

— O que significa? — ele perguntou asperamente. O homem de preto não respondeu.

— Maldito!

Nenhuma resposta.

— Vá para o inferno. Qual é a sétima carta? O homem de preto virou a sétima. Um sol se erguia num céu

luminosamente azul. Cupidos e duendes brincavam em volta dele. Sob o sol, a grande área vermelha sobre a qual ele brilhava. Seriam rosas ou sangue? O pistoleiro não saberia dizer. Talvez, ele pensou, fossem as duas coisas.

— A sétima carta é a Vida — disse suavemente o homem de

preto. — Mas não para você.

— Onde ela entra na formação?

— Não é coisa para você saber agora — disse o homem de

preto. — Nem para eu saber. Não sou o supremo que você procura, Roland. Sou apenas seu emissário. — Ele lançou a carta negligente-mente no fogo quase apagado. A carta ficou chamuscada, encrespa-da e irrompeu numa chama. O pistoleiro sentiu o coração se enco-lher e ficar gelado no peito.

— Agora durma — disse num tom descuidado o homem de

preto. — Quem sabe para sonhar ou algo assim.

— O que as balas não fizerem talvez minhas mãos façam —

disse o pistoleiro. Suas pernas se moveram com precisão esplêndida, selvagem. Com os braços estendidos, ele voou sobre a fogueira na direção do outro. O homem de preto, sorrindo, inchou em seu cam-po de visão, mas logo foi recuando por um comprido corredor cheio de ecos. Tudo se encheu com o som do riso sardônico e o pistoleiro estava caindo, morrendo, dormindo.

Ele estava sonhando.

O universo estava vazio. Nada se movia. Nada existia. O pistoleiro vagava, bestificado.

— Que haja uma pequena luz — disse a voz do homem de

preto num tom displicente, e houve luz. Um tanto desligado, o pisto-leiro considerou que a luz era muito boa.

—Agora a escuridão lá em cima, com estrelas nela. Água

correndo aqui embaixo.

Assim foi. Ele vagava sobre mares sem fim. No alto, as es-

trelas piscavam sem parar, mas ele não via nenhuma das constela-ções que o tinham guiado durante sua longa vida.

— Terra — sugeriu o homem de preto, e houve terra; ela

brotava das águas em contínuas, galvânicas convulsões. Era verme-lha, árida, rachada, crestada de esterilidade. Vulcões expeliam magma sem parar, como espinhas gigantes num feio adolescente.

— Tudo bem — dizia o homem de preto. — É um começo.

Que haja algumas plantas. Árvores. Relva e campos.

Houve. Dinossauros perambulavam aqui e ali, rosnando, gri-

tando, comendo uns aos outros e unindo-se em turbas agitadas e fedorentas. Enormes florestas tropicais espalhavam-se por toda par-te. Samambaias gigantes acenavam para o céu com suas folhas serri-lhadas. Besouros de duas cabeças rastejavam sobre algumas delas. Tudo isso o pistoleiro viu. E contudo se sentia grande.

— Que venha agora o homem — disse o homem de preto,

mas o pistoleiro estava caindo... caindo para cima. O horizonte da-quela terra vasta e fecunda começou a se curvar. Sim, todos tinham dito que se curvava, seu professor Vannay alegava que isso havia si-do provado muito tempo antes de o mundo ter passado. Mas aqui-lo...

Cada vez mais longe, cada vez mais alto. Continentes toma-

ram forma ante seus olhos maravilhados e foram obscurecidos com esteiras de nuvens. A atmosfera do mundo guardou tudo numa pla-centa. E o sol, erguendo-se além da curvatura da Terra...

Ele gritou e pôs um braço diante dos olhos. — Que haja luz!

A voz não pertencia mais ao homem de preto. Era colossal,

ecoava. Enchia o espaço e os espaços entre o espaço.

Luz!

Caindo, caindo.

O sol se recolheu. Um planeta vermelho coberto de canais

passou girando por ele, duas luas o circundavam freneticamente. A-trás disto, havia um rodopiante cinturão de pedras e um gigantesco planeta que fervilhava com gases, grande demais para suportar seu próprio peso, conseqüentemente muito achatado nos pólos. Mais além, havia um mundo cercado de anéis, brilhando como pedra pre-ciosa dentro de um círculo de estrias glaciais.

— Luz! Que haja...

Outros mundos, um, dois, três. Muito além, uma solitária

bola de gelo e rocha girava no escuro profundo em volta de um sol que não brilhava mais que uma moeda amarelada.

Além disso, havia mais escuridão.

— Não — disse o pistoleiro, mas a palavra ficou inerte e

sem ecos. Ali estava mais escuro que a escuridão, mais preto que o negrume. Com parado com aquilo, a mais escura noite da alma de um homem era um meio-dia, e a escuridão sob as montanhas, um mero borrão na face da Luz. — Já chega. Por favor, agora já chega. Já chega...

— LUZ!

— Já chega. Já chega, por favor...

As próprias estrelas começaram a se contrair. Nebulosas in-

teiras se uniram e começaram a irradiar borrões. O universo inteiro parecia estar se congregando em torno dele.

— Por favor já chega já chega já chega...

A voz do homem de preto murmurava como seda em seu

ouvido:

— Então renegue. Livre-se de todos os pensamentos sobre a

Torre. Siga seu caminho, pistoleiro, e dê início à longa tarefa de sal-var sua alma.

O pistoleiro retomou o controle. Abalado e sozinho, envolto

na escuridão, com muito medo de se deparar com um último signifi-cado correndo para ele, recobrou a fibra e deu a resposta final sobre o assunto:

— NUNCA!

— ENTÃO QUE HAJA LUZ!

E houve luz, batendo nele como um martelo, uma grande

luz primordial. Não havia como a consciência sobreviver naquele grande clarão, mas, antes que perecesse, o pistoleiro viu algo com clareza, algo que acreditou ter uma importância cósmica. Tentou a-garrá-lo num esforço desesperado e depois se deixou afundar, pro-curando refugio em si mesmo antes que a luz cegasse seus olhos e destruísse sua sanidade.

Fugiu da luz e do conhecimento que a luz envolvia, voltan-

do-se para si mesmo. Assim fazemos todos nós; assim fazem os me-lhores dentre nós.

Ainda era noite — a mesma ou outra, ele não tinha um meio

imediato de saber. Arrancou-se de onde seu salto de demônio atrás do homem de preto o levara e ergueu os olhos para a planta onde Walter das Sombras (como alguns ao longo do caminho de Roland o chamavam) estivera sentado. Ele se fora.

Uma grande sensação de desespero o inundou (Deus, tudo

aquilo de novo), mas nesse momento o homem de preto disse por trás dele:

— Acorde, pistoleiro. Preferiria que não estivesse tão perto

de mim. Você fala dormindo. — Ele deu uma risada.

O pistoleiro se ajoelhou um tanto grogue e olhou em volta.

A fogueira se reduzira a cinzas e brasas vermelhas, deixando o fami-liar e precário contorno da lenha consumida. O homem de preto estava sentado ao seu lado. Estalava os lábios com um entusiasmo nada agradável pelos restos gordurosos do coelho.

— Você se saiu razoavelmente bem — disse. — Eu nunca

poderia ter mandado aquela visão para seu pai. Ele teria voltado sem falar coisa com coisa.

— O que era aquilo? — o pistoleiro perguntou. Suas pala-

vras estavam pastosas e trêmulas. Sentiu que, se tentasse se levantar, as pernas iam vergar.

— O universo — respondeu num tom negligente o homem

de preto. Arrotou e atirou os ossos na fogueira, onde eles primeiro brilharam, depois escureceram. O vento sobre a copa do gólgota as-sobiava e gemia.

— Universo? — disse atônito o pistoleiro. Era uma palavra

com a qual não estava familiarizado. Sua primeira conclusão foi que o outro estivesse fazendo poesia.

— Você quer a Torre — disse o homem de preto. Parecia

uma pergunta.

— Sim.

— Bem, você não a terá — disse o homem de preto, sorrin-

do com óbvia crueldade. — Ninguém se importa, nas conferências do supremo, se você empenha sua alma ou parte logo para vendê-la, Roland. Faço idéia de como seu objetivo o empurrou para o abismo. A Torre o matará mesmo a meio mundo de distância.

— Você não sabe nada a meu respeito — disse o pistoleiro

em voz baixa, e o sorriso sumiu dos lábios do outro.

— Eu fiz seu pai e eu o arruinei — disse severamente o ho-

mem de preto. — Me aproximei de sua mãe como Marten... essa é uma verdade de que você sempre desconfiou, não foi?... e conquis-tei-a. Ela se curvou aos meus desejos como um galho de salgueiro... embora (isso pode lhe servir de consolo) nunca tenha quebrado in-teiramente. De qualquer modo, estava escrito e aconteceu. Sou o predileto daquele que agora governa a Torre Negra. A Terra foi en-tregue à mão rubra desse rei.

— Rubra? Por que está dizendo rubra?

— Não importa. Não vamos falar dele, embora você possa

ficar sabendo mais do que pretende se fizer força. O que o feriu uma vez vai feri-lo duas. Isto não é o começo, mas o fim do começo. É bom se lembrar disso... mas você nunca lembra.

— Não estou entendendo.

— Não. Não está. Nunca entendeu. Nunca entenderá. Não

tem imaginação. Você é cego.

— O que eu vi? — o pistoleiro perguntou. — O que eu vi

no final? O que era aquilo?

— O que parecia ser?

O pistoleiro ficou calado, pensativo. Procurou tabaco no

bolso, mas não havia nenhum. O homem de preto não se ofereceu para abastecê-lo por magia negra ou branca. Mais tarde, talvez o pis-toleiro encontrasse alguma coisa na mochila, mas a disposição para procurar mais tarde pareceu então muito remota.

— Havia luz — o pistoleiro disse por fim. — Luz forte e

clara. E depois... — Ele se interrompeu e encarou o homem de pre-to. Foi se inclinando para a frente e uma estranha emoção se estam-pou em seu rosto, uma estampa muito forte para ser dissimulada ou negada. Era temor ou espanto. Talvez fosse uma coisa só. — Você também não sabe o que era aquilo — disse, e começou a sorrir. — Ah, grande feiticeiro que dá vida aos mortos. Você não sabe. Você é uma piada!

— Eu sei — disse o homem de preto. — Mas não sei... o

nome.

— Luz clara — o pistoleiro repetiu. — E depois... uma ca-

mada de relva. Uma única camada de relva que tomou conta de tudo. E era minúscula. Infinitesimal.

— Relva. — O homem de preto fechou os olhos. Seu rosto

pareceu repuxado, desfigurado. — Uma camada de relva. Tem certe-za?

— Tenho. — O pistoleiro fechou a cara. — Mas era roxa. — Agora me escute, Roland, filho de Steven. Vai me ouvir? — Vou.

E então o homem de preto começou a falar. O universo (disse ele) é o Grande Todo e oferece um para-

doxo grande demais para ser apreendido pela mente finita. Assim como o cérebro vivo não pode conceber um cérebro não-vivo — embora possa achar que pode —, a mente finita não pode apreender o infinito.

O fato prosaico da existência do universo já desacredita, por

si mesmo, o pragmático e o romântico. Houve uma época, cem ge-rações antes de o mundo seguir adiante, em que a humanidade atin-gira perícia científica e técnica suficiente para tirar algumas lascas do grande pilar de pedra da realidade. Mesmo assim, a falsa luz da ciên-cia (o conhecimento, se você preferir) só brilhou em alguns países desenvolvidos. Nesse respeito, uma companhia (ou conluio mafioso) abria o caminho: a North Central Positronics, como ela se autode-nominava. Contudo, apesar de um tremendo incremento de novos conhecimentos, as novas percepções foram notavelmente reduzidas.

— Pistoleiro, nossos muitas vezes tetravós venceram a-

doença-que-rói, que chamavam de câncer, quase venceram o enve-lhecimento, andaram na Lua...

— Não acredito — disse secamente o pistoleiro. O homem de preto apenas sorriu e respondeu: — Não precisa acreditar. Mas aconteceu. E foram feitos ou

descobertos dezenas de engenhos incríveis. Mas a riqueza de infor-mação produzia pouco ou nenhum discernimento. Não se escreve-ram grandes odes sobre as maravilhas da inseminação artificial... ter bebês a partir do esperma congelado... ou sobre os carros que anda-vam graças à força que tiravam do sol. Pouca gente, se é que alguém o fez, parece ter compreendido o mais autêntico princípio da reali-dade: novo conhecimento conduz sempre a mistérios ainda mais es-pantosos. Maior conhecimento fisiológico do cérebro torna a exis-tência da alma menos possível, ainda que mais provável pela própria natureza da pesquisa. Está entendendo? Claro que não. Você atingiu os limites de sua capacidade de compreender. Mas não faz mal... não é isso que nos interessa.

— O que é, então, que nos interessa?

— O maior mistério que o universo propõe não é a vida,

mas o tamanho. O tamanho contém a vida e a Torre contém o ta-manho. A criança, que em geral está familiarizada com o espanto, diz: papai, o que existe em cima do céu? E o pai diz: a escuridão do espaço. A criança: o que existe depois do espaço? O pai: a galáxia. A criança: depois da galáxia? O pai: outra galáxia. A criança: depois das outras galáxias? O pai: ninguém sabe.

“Está entendendo? O tamanho nos derrota. Para o peixe, o

lago onde ele vive é o universo. O que pensa o peixe quando é pu-xado pela boca por um gancho prateado, nos limites da existência, e penetra num novo universo onde o ar afoga e a luminosidade é uma loucura azulada? Onde enormes bípedes sem guelras o amontoam para morrer numa caixa sufocante, forrada de vegetação úmida?

“Ou se pode pegar a ponta de um lápis e ampliá-la. Vamos

chegar a um ponto onde uma atordoante compreensão cai sobre nós: a ponta do lápis não é sólida; é composta de átomos que giram e rodopiam como um trilhão de diabólicos planetas. O que nos pa-rece sólido é apenas uma rede de coisas soltas, mantidas juntas pela gravidade. Vistas na sua real dimensão, as distâncias entre esses áto-mos podem se tornar quilômetros, abismos, eternidades. Os pró-prios átomos são compostos de núcleos com prótons e elétrons gi-rando em torno deles. Podemos descer ainda mais até as partículas subatômicas. E depois para o quê? Para os táquions? Para nada? Cla-ro que não. Tudo no universo rejeita o nada; sugerir um término é o único absurdo que existe.”

“Se você recuasse para o limite do universo, será que encon-

traria uma cerca de madeira e tabuletas dizendo SEM SAÍDA? Não. Talvez você encontrasse algo duro e arredondado, como o pintinho deve ver o ovo do seu interior. E se você atravessasse a casca belis-cando (ou encontrasse uma porta), não poderia jorrar, nesses confins do espaço, uma incrível luz torrencial através da abertura? Você não poderia olhar por ali e descobrir que todo o nosso universo é apenas parte de um átomo numa camada de relva? Não poderia ser levado a pensar que, ao queimar um graveto, você está incinerando uma eter-nidade de eternidades? Que a existência não avança para um infinito mas para uma infinidade deles?

“Talvez você tenha visto o lugar que nosso universo ocupa

no esquema das coisas — não mais que um átomo numa camada de relva. Será possível que tudo que percebemos, do vírus microscópico à distante nebulosa Cabeça de Cavalo, esteja contido numa camada de relva que pode ter existido por uma única estação num outro flu-xo de tempo? E se a camada fosse cortada por uma foice? Quando ela começasse a morrer, a podridão não escorreria para nosso pró-prio universo e nossas próprias vidas, deixando tudo amarelado, es-curo e ressecado? Talvez isso já tenha começado a acontecer. Dize-mos que o mundo seguiu adiante; talvez estejamos realmente que-rendo dizer que ele começou a secar.

“Pense em como essa idéia das coisas nos torna pequenos,

pistoleiro! Se um Deus vela sobre tudo, acha realmente que Ele vai se preocupar em distribuir justiça a uma raça de mosquitos entre uma infinidade de raças de mosquitos? Será que Seu olho vê o pardal cair quando o pardal é menos que um pontinho de hidrogênio flutu-ando solto nas profundezas do espaço? E se Ele realmente vê... qual deve ser a natureza de um tal Deus? Onde Ele vive? Como é possí-vel viver além do infinito?

“Imagine a areia do deserto de Mohaine, que você cruzou

para me encontrar, e imagine um trilhão de universos — não mun-dos, mas universos — encerrados em cada grão daquele deserto; e dentro de cada universo uma infinidade de outros. Nós nos eleva-mos sobre esses universos de uma suposta posição privilegiada na relva; com um movimento de sua bota, você pode chutar um bilhão de mundos, fazê-los voar para a escuridão, numa reação em cadeia que jamais terá fim.

“Tamanho, pistoleiro... tamanho...

“Mas continue a supor. Suponha que todos os mundos, to-

dos os universos se reúnam num único nexo, um mesmo portal, uma Torre. E que dentro dela haja uma escada, levando, talvez, à própria Divindade. Você teria coragem de subir até lá, pistoleiro? Não é pos-sível que em algum lugar sobre toda essa infinita realidade exista uma Sala?...

“Você não teria coragem.”

E na mente do pistoleiro, aquelas palavras ecoaram: você

não teria coragem.

— Alguém teve coragem — disse o pistoleiro. — Quem pode ter sido?

— O próprio Deus — disse o pistoleiro em voz baixa. Seus

olhos brilhavam. — Deus teve coragem... ou o rei de quem você fa-lou... ou... A sala está vazia, vidente?

— Não sei. — O medo, sussurrante e escuro como asa de

urubu, cruzou a expressão branda do homem de preto. — E além do mais, eu não faço essa pergunta. Pode não ser uma coisa inteli-gente.

— Tem medo de ser fulminado?

— Talvez medo de... um ajuste de contas.

O homem de preto ficou um instante em silêncio. A noite

era muito longa. A Via Láctea se espraiava acima deles com grande esplendor, ainda que apavorante nos vazios entre seus pontos de luz. O pistoleiro se perguntou o que sentiria se aquele céu carregado se abrisse de repente e deixasse entrar uma torrente de luz.

— A fogueira — disse ele. — Estou com frio. — Acenda você mesmo — disse o homem de preto. — É a

noite de folga do mordomo.

O pistoleiro tirou um cochilo e quando acordou o homem

de preto o fitava com uma insalubre avidez.

— O que está olhando? — Uma velha brincadeira de Cort

lhe ocorreu. — Está vendo a bunda da sua irmã?

— Estou olhando para você, é claro.

— Bem, não olhe. — Ele atiçou o fogo, arruinando a preci-

são do ideograma. — Eu não gosto. — Virou-se para o leste. Queria saber se havia um indício de luz, mas a noite continuava decidida.

— Está procurando a luz cedo demais.

— Fui feito para a luz.

— Ah, sem dúvida foi! E como fui mal-educado esquecendo

o fato! Contudo, ainda temos muito a discutir, eu e você. Pois assim me foi dito pelo meu rei e senhor.

— Quem é esse rei?

O homem de preto sorriu.

— Devemos então dizer a verdade, eu e você? Sem mais

mentiras?

— Achei que já tínhamos começado.

Mas o homem de preto insistiu como se Roland não tivesse

falado.

— Deve existir verdade entre nós, como dois homens? Não

como amigos, mas como iguais? É uma proposta que você raramen-te ouve, Roland. Só iguais falam a verdade, é assim que penso. Ami-gos e amantes mentem sem parar, presos na teia do respeito. Como é cansativo!

— Bem, como não quero cansá-lo, vamos dizer a verdade.

— Ainda não fora tão direto naquela noite. — Comece me dizendo o que exatamente você entende por feitiçaria.

— Ora, encantamento, pistoleiro! O encantamento do meu

rei prolongou esta noite e vai prolongá-la até que nossa confabulação esteja concluída.

— Quanto tempo vai durar?

— Muito tempo. Não posso dizer mais que isso. Eu mesmo

não sei. — O homem de preto estava parado diante do fogo e o cla-rão das brasas desenhava formas em seu rosto. — Pergunte. Vou dizer o que sei. Você me pegou, é justo. Não achei que fosse conse-guir. Mas sua busca só começou. Pergunte. Isso logo nos levará a falar de coisas sérias.

— Quem é o seu rei?

— Nunca o vi, mas você terá de vê-lo. Antes de encontrá-lo,

no entanto, terá de encontrar o Estranho Sem Idade. — O homem de preto sorriu sem rancor. — Terá de acabar com ele, pistoleiro. Mas acho que não era isso que você queria perguntar.

— Se nunca viu seu rei e senhor, como pode saber quem ele

é?

— Ele vem em sonhos até mim. Veio como um garoto

quando eu vivia, pobre e desconhecido, numa terra distante. Há um monte de séculos, ele me deu consciência de meu dever e me prome-teu recompensar. Mas eu teria muitas missões a cumprir na juventu-de e nos dias da maturidade, antes da apoteose. Você é essa apoteo-se, pistoleiro. Você é meu clímax. — Ele deu uma risada. — Está vendo, alguém o levou a sério.

— E o tal Estranho, ele tem um nome?

— Ah, lhe puseram um nome.

— E qual é o nome dele?

— Legião — o homem de preto disse em voz baixa e, em al-

gum lugar na escuridão oriental onde estavam as montanhas, um deslizamento de rocha pontuou suas palavras e um puma gritou co-mo uma mulher. O pistoleiro estremeceu e o homem de preto ficou encolhido. — Mas acho que também não é isso que você queria per-guntar. Não é de seu temperamento pensar tão à frente.

O pistoleiro conhecia a pergunta; ela o atormentara durante

toda a noite e talvez já viesse atormentando há muitos anos. A per-gunta tremia em seus lábios, mas ele não a fez... ainda não.

— O tal Estranho é um agente da Torre? Como você? — Sim. Ele obscurece. Ele dá o tom. Está em todos os tem-

pos. Mas existe alguém maior que ele.

— Quem?

— Não me pergunte mais nada! — gritou o homem de pre-

to. Sua voz pretendia ser severa, mas desmoronou em desespero. — Não sei! Não quero saber. Falar das coisas do Fim do Mundo é falar da ruína de nossa própria alma.

— E além do Estranho Sem Idade fica a Torre e o que é

guardado na Torre?

— Sim — sussurrou o homem de preto. — Mas nenhuma

dessas coisas é o que você queria perguntar.

— Verdade.

— Está bem — disse o pistoleiro e fez, então, a mais antiga

pergunta do mundo: — Vou me sair bem? Vou triunfar?

— Se eu respondesse a essa pergunta, pistoleiro, você me

mataria.

— Eu deveria matá-lo. Você precisa morrer. — Suas mãos

tinham descido para as coronhas gastas dos revólveres.

— Essas coisas não abrem portas, pistoleiro; só as fecham

para sempre.

— Onde tenho de ir?

— Comece pelo oeste. Vá até o mar. Onde o mundo termi-

na é onde você tem de começar. Houve um homem que o aconse-lhou... o homem que, muito tempo atrás, você derrotou...

— Sim, Cort — interrompeu o pistoleiro impacientemente. — O conselho foi esperar. Foi um mau conselho. Pois meus

planos contra seu pai não paravam de serem postos em prática. Ele o mandou para longe e quando você voltou...

— Não tenho de ficar ouvindo você falar nessas coisas —

disse o pistoleiro, escutando em sua mente a mãe cantar: Bebê-cabeça, bebê amado, bebê me traga aqui sua cesta.

— Mas escute isto: quando você voltou, Marten partira para

oeste, para juntar-se aos rebeldes. Pelo menos foi o que todos disse-ram, e você acreditou. Mas ele e uma certa bruxa tinham lhe monta-do uma armadilha e você caiu direitinho. Bom garoto! E embora Marten já tivesse ido embora há muito tempo, havia um homem que às vezes o fazia lembrar-se dele, não é? Um homem que usava um traje de monge e tinha a cabeça raspada como um penitente...

— Walter — sussurrou o pistoleiro. E embora já tivesse le-

vado suas conclusões até o fim, a crua verdade ainda o espantava: — Você. Marten nunca foi embora.

— A seu serviço. — O homem de preto deu uma risada. — Eu deveria matá-lo agora.

— Não seria muito justo. Além do mais, tudo aconteceu há

muito tempo. Agora chegou o momento de compartilhar.

— Você nunca foi embora — repetiu o pistoleiro, atônito.

— Só mudou de figura.

— Sente-se — o homem de preto convidou. — Posso lhe

contar histórias, tantas quantas quiser ouvir. Mas acho que você tem histórias muito mais compridas.

— Não falo de mim mesmo — murmurou o pistoleiro. — Mas esta noite deve falar. Para que possamos compreen-

der.

— Compreender o quê? Meu objetivo? Você o conhece. En-

contrar a Torre é meu objetivo. Estou jurado.

— Não seu objetivo, pistoleiro. Sua mente. Sua mente burra,

persistente, obstinada. Nunca houve mente como essa em toda a história do mundo. Talvez na história da criação. Esta é a hora de falar. A hora de contar histórias.

— Então fale.

O homem de preto sacudiu a volumosa manga da túnica.

Um embrulho em papel de alumínio caiu e captou, nos muitos refle-xos de sua superfície enrugada, as brasas que morriam.

— Tabaco, pistoleiro. Não quer fumar?

Ele fora capaz de resistir ao coelho, mas não pôde resistir

àquilo. Abriu o pacote com dedos ávidos. No interior havia um óti-mo tabaco desfiado e folhas verdes para embrulhá-lo, surpreenden-temente úmidas. Há dez anos não via um tabaco daqueles.

Enrolou dois cigarros e mordeu a ponta de cada um deles

para liberar o aroma. Ofereceu um ao homem de preto, que aceitou. Cada um tirou um graveto ardendo da fogueira.

O pistoleiro acendeu seu cigarro e tragou a fumaça aromática

bem para dentro dos pulmões, fechando os olhos para concentrar os sentidos. Soprou-a com longa, lenta satisfação.

— Está bom? — o homem de preto indagou. — Está. Muito bom.

— Aproveite. Para você esta pode ser a última fumaça du-

rante muito tempo.

O pistoleiro ouviu aquilo com ar impassível. — Muito bem — disse o homem de preto. — Vamos come-

çar: “Você deve compreender que a Torre sempre existiu, e sempre existiram rapazes que sabiam de sua existência e ansiavam por ela, mais que pelo poder, riquezas ou mulheres... rapazes que procura-vam as portas que levavam a ela...

Houve conversa, conversa que valeu uma noite inteira e só

Deus sabe se valeria mais (ou que parte dela era verdade), mas o pis-toleiro lembrou-se de pouca coisa mais tarde... e, para sua mente sin-gularmente utilitária, pouca coisa pareceu ter importância. O homem de preto tornou a dizer que ele tinha de ir para o mar, que ficava a não mais de 30 curtos quilômetros a oeste, e onde ele seria investido com o poder da escolha.

— Mas isso também não é exatamente correto — disse o

homem de preto atirando o cigarro nos restos da fogueira. — Nin-guém quer investi-lo com qualquer espécie de poder, pistoleiro; a coisa está simplesmente em você, e sou compelido a lhe dizer isso, em parte devido ao sacrifício do garoto e em parte porque é lei, a lei natural das coisas. A água tem de correr morro abaixo e você tem de ser informado. Você vai escolher três, eu acho... mas realmente não me importo e realmente não quero saber.

— Os três — o pistoleiro murmurou, pensando no Oráculo. — E depois começa a diversão! Mas quando isso acontecer,

eu já estarei bem longe. Adeus, pistoleiro. Minha parte agora está cumprida. O fio continua em suas mãos. Cuidado para ele não se enrolar em volta do seu pescoço.

Impelido por algo fora dele, Roland perguntou: — Tem mais uma coisa para dizer, não tem? — Sim — disse o homem de preto, sorrindo para o pistolei-

ro com seus olhos sem profundidade e estendendo uma das mãos para ele. — Que haja luz.

E houve luz, e desta vez a luz era boa.

Roland acordou junto às ruínas da fogueira e descobriu que

estava dez anos mais velho. O cabelo preto tinha ficado ralo nas têmporas e para lá tinham ido as teias grisalhas da plena idade madu-ra. As rugas estavam mais fundas no rosto, a pele mais áspera.

As cinzas da lenha que ele carregara tinham se convertido

numa espécie de pedra e o homem de preto era um esqueleto sorri-dente numa túnica preta que apodrecia, mais ossos naquele lugar de ossos, mais um crânio naquele gólgota.

Será que é mesmo você?, pensou ele. Tenho minhas dúvidas,

Walter das Sombras... Tenho minhas dúvidas, Marten-o-que-não-é-mais.

Levantou-se e olhou em volta. Então, com um gesto súbito e

rápido, lançou-se para os restos do companheiro da noite anterior (se fossem de fato os restos de Walter), uma noite que, de alguma forma, havia durado dez anos. Quebrou o maxilar sorridente e enfi-ou-o descuidadamente no bolso traseiro esquerdo do jeans— um substituto bastante adequado para o que fora perdido sob as monta-nhas.

— Quantas mentiras você me contou? — perguntou ele.

Muitas, tinha certeza, mas elas se tornavam boas mentiras pelo fato de terem sido misturadas com a verdade.

A Torre. Em algum lugar à frente, ela estava à sua espera —

o nexo do Tempo, o nexo do Tamanho.

Começou de novo a seguir para oeste, de costas para o nas-

cer do sol, no rumo do oceano, percebendo que uma grande fase de sua vida havia se completado.

— Eu amava você, Jake — disse ele em voz alta. A rigidez abandonou seu corpo e ele começou a andar mais

depressa. Pouco antes do anoitecer, chegara ao final da terra. Viu-se numa praia que se estendia sem fim para a esquerda e para a direita, deserta. As ondas avançavam sem parar sobre a costa, batendo e ba-tendo. O sol se pondo tingia a água de uma grande faixa de ouro ve-lho.

Ali o pistoleiro se sentou, com o rosto voltado para a luz po-

ente. Sonhou seus sonhos e viu as estrelas aparecerem; não vacilava em seu objetivo, nem seu coração fraquejava; o cabelo, mais ralo agora e grisalho nas têmporas, voava ao redor de sua cabeça, e os revólveres de seu pai, incrustados com madeira de sândalo, pousa-vam letal e suavemente em seus quadris; ele estava sozinho, mas não achava de modo algum a solidão uma coisa ruim ou infame. A escu-ridão desceu e o mundo seguiu adiante. O pistoleiro esperava pelo tempo do esquema e sonhou seus sonhos longos com a Torre Ne-gra, que um dia ia alcançar ao cair da noite e desafiar, soprando sua trompa, para alguma inimaginável batalha final.

Você terminou O Pistoleiro

Stephen King

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.