O Pistoleiro

Stephen King · Capítulo 6 de 7

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O Pistoleiro

Capítulo 4 · Os Vagos Mutantes

 

O pistoleiro falava devagar com Jake. O tom subia e descia

como alguém que fala dormindo:

— Éramos três naquela noite: Cuthbert, Alain e eu. Não de-

veríamos estar ali, porque nenhum de nós havia ultrapassado seu tempo de criança. Ainda não tínhamos largado as fraldas, como se costumava dizer. Se tivéssemos sido apanhados, Cort teria nos tirado sangue. Mas não fomos apanhados. Acho também que nenhum dos que fizeram aquilo antes de nós foi apanhado. Garotos têm de pôr as calças dos pais em segredo, experimentá-las na frente do espelho e depois devolvê-las furtivamente aos cabides; funcionava mais ou menos assim. O pai finge que não nota o modo diferente como a calça está pendurada ou o cheiro de loção de barba na cara dos me-ninos. Entende isso?

O garoto não disse nada. Não dissera nada desde que tinham

saído da luz do dia. O pistoleiro, por outro lado, falava agitadamente, febrilmente, para preencher o silêncio. Não tinha se virado para trás, para a luz, quando penetraram na grota sob as montanhas, mas o garoto se virará. O pistoleiro vira o cair do dia no suave espelho do rosto de Jake: primeiro levemente rosado, depois leitoso, depois um prateado pálido, depois o clarão da última penumbra da tarde, depois nada. O pistoleiro presenciara uma falsa luminosidade e os dois con-tinuaram.

Finalmente acamparam. Nenhum eco do homem de preto

retornou. Talvez ele também tivesse parado para descansar. Ou tal-vez continuasse deslizando para a frente, sem luzes sinalizadoras, através de espaços noturnos.

— A Dança da Noite da Colheita... a Commala, como dizi-

am alguns dos mais velhos, usando a palavra que tínhamos para ar-roz... era realizada uma vez por ano no Salão do Oeste — o pistolei-ro continuou. — O verdadeiro nome era Salão dos Antepassados, mas para nós era apenas o Salão do Oeste.

O barulho de água caindo chegou aos ouvidos dos dois.

— Um rito cortesão, como qualquer dança primaveril certa-

mente é. — O pistoleiro riu num tom de quem faz pouco; os pare-dões ásperos transformaram o riso num chiado idiota. — Nos ve-lhos tempos, segundo os livros, a dança saudava a chegada da pri-mavera e a primavera era às vezes chamada de Terra Nova ou Nova Commala. Mas com o desenvolvimento da civilização, você sabe...

Sua voz se extinguiu, incapaz de descrever a mudança suge-

rida por aquela vaga palavra: a morte do romance e o cultivo de seu espectro estéril, carnal; um mundo que passara a viver sob a respira-ção forçada do falso brilho e da cerimônia, os passos geométricos simulando um galanteio durante a Dança da Noite da Colheita, to-mando o lugar da mais autêntica, mais febril vibração do amor, que agora podia ser apenas vagamente intuído; solenidade oca em lugar das paixões verdadeiras que um dia foram capazes de edificar reinos e de sustentá-los. O pistoleiro encontrara a verdade com Susan Del-gado, em Mejis, só para perder de novo essa verdade. Um dia houve um rei, podia ter contado ao garoto, o Eld, cujo sangue, ainda que atenuado, continua correndo nas minhas veias. Mas os reis acaba-ram, rapaz. Pelo menos no mundo da luz.

— Transformaram a coisa em algo decadente — disse por

fim o pistoleiro. — Um brinquedo. Um jogo. — Em sua voz havia toda a inconsciente repugnância do asceta e do eremita. A expressão do rosto, se existisse luz mais forte para iluminá-la, teria mostrado aspereza e dor, o tipo mais puro de danação. A força essencial do pistoleiro, contudo, não fora cortada ou diluída pela passagem dos anos. E a falta de imaginação que ainda subsistia naquela expressão era notável.

— Mas, apesar de tudo, o Baile — disse o pistoleiro —, a

Dança da Noite da Colheita...

O garoto não falou, não perguntou.

— Havia lustres de cristal, vidros grossos com lumes elétri-

cos. Tudo luz, era uma ilha de luz.

“Conseguimos nos introduzir num dos velhos balcões, justo

aqueles que estariam inseguros e estavam condenados. Mas éramos garotos, e garotos serão sempre garotos, por isso fomos lá. Para nós, era tudo perigoso, e daí? Não tínhamos sido feitos para viver para sempre? Achávamos que sim, mesmo quando conversávamos entre nós sobre nossas mortes gloriosas.

“Estávamos acima de todos e podíamos ver tudo de lá. Não

me lembro se algum de nós disse alguma coisa. Tragávamos o baile com nossos olhos.

“Havia uma grande mesa de pedra onde os pistoleiros e suas

mulheres sentavam-se para comer e apreciar os dançarinos. Alguns pistoleiros também dançavam, mas poucos. E eram os mais moços. O que abriu o alçapão embaixo de Hax era um dos dançarinos, acho que não me esqueci. Os mais velhos só olhavam, e me pareceu que estavam meio sem jeito entre toda aquela luz, toda aquela civilizada luz. Eram os reverenciados, os temidos, os guardiães, mas pareciam cavalariços entre a multidão de cavaleiros com suas sedosas mulhe-res...

“Havia quatro mesas circulares cheias de comida, que estava

sendo sempre trocada. Os ajudantes de cozinha não pararam de ir e vir, das sete às três horas da manhã seguinte. As mesas pareciam re-lógios, e sentíamos o cheiro de porco assado, filés, lagostas, frangos, maçãs assadas. Os odores mudavam à medida que as mesas se modi-ficavam. Havia sorvetes e doces. Havia grandes espetos de carne re-cém-saídos das brasas.

“Marten estava sentado ao lado de minha mãe e de meu pai

— reconheci-os apesar de toda aquela altura — e minha mãe dançou uma vez com Marten, girando lentamente, enquanto as pessoas abri-am uma clareira na pista de dança; elas aplaudiram quando a música acabou. Os pistoleiros não aplaudiram, mas meu pai se levantou de-vagar e estendeu as mãos para ela. E ela foi para seus braços, sorrin-do, também estendendo as mãos.

“Foi um momento de enorme gravidade, mesmo nós senti-

mos isso em nosso esconderijo lá em cima. Meu pai já havia assumi-do o controle de seu ka-tet, você sabe o que é... o Tet da Arma... e estava em vias de se tornar Dinh de Gilead, senão de todo o Mundo Interior. Os outros sabiam disso. Marten sabia melhor que qualquer outra pessoa... com a única exceção, talvez, de Gabrielle Verriss.”

O garoto finalmente falou, e aparentemente com relutância. — Era sua mãe?

— Era. Gabrielle-das-Águas, filha de Alan, esposa de Steven,

mãe de Roland. — O pistoleiro separou as mãos num pequeno gesto de zombaria que pareceu dizer: aqui estou eu, e daí? Depois deixou novamente as mãos caírem na frente do corpo. — Meu pai foi o úl-timo senhor da luz.

O pistoleiro baixou os olhos para as mãos. O garoto não fa-

lou mais nada.

— Lembro como dançavam — disse o pistoleiro. — Minha

mãe e Marten, o conselheiro dos pistoleiros. Lembro como dança-vam, girando devagar, ora juntos, ora separados, nos velhos passos do estilo cortesão.

Olhou para o garoto, sorrindo.

— Mas isso não tinha importância, acredite. Porque meu pai

já perdera o poder; um processo de que ninguém tivera conhecimen-to, mas que todos compreendiam, e minha mãe estava completa-mente voltada para o novo portador e controlador desse poder. Não era assim? Afinal ela voltou para meu pai quando a dança acabou, não foi? E segurou as mãos dele. Eles reagiram? O resto do salão reagiu quando aqueles jovens pistoleiros e sedosas senhoras aplaudi-ram e louvaram meu pai? O salão reagiu? Reagiu?

A água caía insistente e distante na escuridão. O garoto nada

dizia.

— Lembro como dançavam — disse o pistoleiro em voz

baixa. — Lembro como dançavam.

Ergueu a cabeça para a moldura de pedra oculta no escuro e,

por um momento, pareceu que ia gritar com ela, repreendê-la, desa-fiá-la cegamente — desafiar aqueles cegos e mudos maciços de gra-nito que levavam suas vidinhas como micróbios num intestino de pedra.

— Que mão podia ter sustentado a faca que levou meu pai

para a morte?

— Estou cansado — disse o garoto, e de novo se calou. O pistoleiro deslizou para o silêncio, e o garoto se deitou,

pondo uma das mãos entre o rosto e a pedra. A pequena chama na frente deles diminuía. O pistoleiro enrolou um cigarro. Parecia que ainda podia ver a luz de cristal no olho de sua memória; podia ouvir o grito de saudação, um grito vazio numa terra que, já naquela época, estava decadente e sem esperanças ante um sombrio oceano de tem-po. Recordar aquela ilha de luz o feria amargamente. Melhor que nunca tivesse tido oportunidade de testemunhá-la ou de testemunhar o corneamento do pai.

Fez a fumaça passar entre a boca e as narinas, baixando os

olhos para o garoto. Como são poderosos os círculos que criamos para nós mesmos na terra, pensou. Não importa onde se esteja, pro-curamos sempre o início, e o início está lã de novo: um recomeço que foi sempre a ruína da luz do sol.

Quanto tempo vai demorar para vermos de novo a luz do

sol?

Ele dormiu.

Depois que o ruído de sua respiração tornou-se longo, firme

e regular, o garoto abriu os olhos e observou o pistoleiro com uma expressão de mal-estar e afeto. Por um momento, a última luz da fogueira pegou sua pupila e ali se extinguiu. Ele também adormeceu.

O pistoleiro havia perdido a maior parte de seu sentido de

tempo no deserto, que era imutável; perdeu o resto ali, naquela pas-sagem sob as montanhas, onde não havia luz. Nenhum dos dois po-dia consultar um relógio e a noção das horas se tornava imprecisa, absurda. Em certo sentido, achavam-se fora do tempo. Um dia podia ser uma semana, ou uma semana, uma dia. Iam andar, dormir, comer magras refeições que não satisfariam seus estômagos. Teriam por única companhia um contínuo e trovejante barulho de água caindo, abrindo seu sulco de arado através da rocha. Foram atrás dele e be-beram da corrente regular, sugerindo sais minerais. Torceram para não haver nada ali que pudesse deixá-los doentes ou matá-los. Às vezes o pistoleiro julgava ver certos brilhos à deriva, como cadáveres de luzes sob a superfície do riacho, mas logo concluía que eram ape-nas projeções de seu cérebro, que não esquecera a luz. No entanto, advertiu o garoto para não pôr os pés na água.

O marcador de quilometragem em sua cabeça levava-os com

firmeza à frente.

A trilha ao lado do rio (pois era uma trilha — suave, ligeira-

mente menos elevada no meio que nas bordas) levava sempre para cima, para a cabeceira do rio. A intervalos regulares, atingiam postes de pedra tortos, com anéis presos neles; talvez antigamente bois ou cavalos de diligências ficassem amarrados ali. Em cada um havia também um recipiente de ferro com uma tocha elétrica, mas estavam todas sem uso e sem luz.

Durante o terceiro período de descanso-antes-de-dormir, o

garoto perambulou um pouco. O pistoleiro ouviu o leve murmúrio das pedras se agitando enquanto Jake avançava devagar.

— Cuidado — disse. — Não pode ver onde está. — Estou de gatinhas. Isto aqui é... olhe!

— Que foi? — O pistoleiro começou a ficar de pé, encos-

tando a mão na coronha de um dos revólveres.

Houve uma breve pausa. O pistoleiro contraiu inutilmente

os olhos.

— Acho que é uma estrada de ferro — disse o garoto um

tanto em dúvida.

O pistoleiro se levantou e caminhou em direção à voz de Ja-

ke. Tateava ligeiramente com um dos pés para se precaver de alguma armadilha.

— Aqui. — A mão se estendeu e roçou os dedos pelo rosto

do pistoleiro. O garoto era muito bom no escuro, melhor que o pró-prio Roland. Seus olhos pareciam dilatados até não haver mais cor neles: foi o que o pistoleiro observou ao obter uma luz precária. Não havia lenha naquele útero de rocha, e os gravetos que tinham trazido viravam rapidamente cinza. Às vezes, porém, o impulso de conseguir um pouco de luz era quase insaciável. Tinham descoberto que al-guém podia ficar tão sedento de luz quanto de comida.

O garoto estava de pé ao lado de uma curva parede de rocha

que era provida de barras paralelas de metal se estendendo para a escuridão. Cada barra tinha grampos pretos que talvez antigamente fossem condutores de eletricidade. E junto e embaixo da parede, elevando-se a poucos centímetros do chão de pedra, havia trilhos de metal brilhante. O que teria corrido um dia naqueles trilhos? O pis-toleiro mal podia imaginar polidas balas elétricas, com alarmados olhos de holofote, seguindo seus cursos por aquela noite eterna. Nunca vira tais coisas, mas sabia que eram remanescentes do mundo extinto, e acreditava nelas assim como em demônios. O pistoleiro se deparara um dia com um eremita que adquirira poder quase sobrena-tural sobre um miserável bando de pastores de gado porque possuía uma velha bomba de gasolina. O eremita ficava de cócoras ao lado da bomba, um dos braços possessivamente em volta dela, e fazia pregações selvagens, febris. De vez em quando, colocava o aço ainda brilhante da ponta da mangueira, cuja borracha estava apodrecida, entre as pernas. Na bomba, em letras perfeitamente legíveis (embora cheias de ferrugem), havia uma inscrição de significado desconheci-do: AMOCO. Sem chumbo. Amoco se transformara no totem de um deus-trovão e eles O cultuavam com a matança de ovelhas e o som de motores: Rumm! Rummm! Rum-rum-rummmmm!

Destroços, o pistoleiro pensou. Só insignificantes destroços

brotando de areias que um dia tinham sido mares. E agora destroços de uma estrada de ferro.

— Vamos segui-la — disse.

O garoto ficou calado.

O pistoleiro extinguiu a luz do graveto e os dois dormiram. Quando Roland despertou, o garoto estava diante dele, sen-

tado num dos trilhos, observando-o sem nada enxergar no escuro.

Seguiram os trilhos como cegos, Roland na frente, Jake atrás.

Como cegos, faziam sempre os pés deslizarem por um dos trilhos. O contínuo fluxo do rio à direita era sua única companhia. Não fala-vam, e foi assim durante três períodos de vigília. O pistoleiro não sentia qualquer impulso para pensar de modo coerente ou para pla-nejar. Seu sono não tinha sonhos.

Durante o quarto período de vigília e caminhada, literalmen-

te atropelaram um vagonete.

O pistoleiro bateu nele na altura do peito, e o garoto, andan-

do do outro lado, bateu com a testa e caiu gritando.

O pistoleiro logo fez fogo com a pederneira. — Você está bem? — As palavras pareciam ásperas, irrita-

das, e ele próprio estremeceu com elas.

— Sim. — O garoto segurava carinhosamente a cabeça. Sa-

cudiu-a para se certificar de que dissera a verdade. Os dois se vira-ram para ver no que haviam batido.

Era uma placa quadrada e chata de metal, parada silenciosa-

mente nos trilhos. Havia uma manivela de gangorra no centro da placa. Ela se ajustava a um conjunto de engrenagens. O pistoleiro não percebeu de imediato a finalidade da coisa, mas o garoto enten-deu prontamente.

— É um vagonete.

— O quê?

— Um vagonete — o garoto repetiu com impaciência —,

como nos antigos desenhos animados. Olhe.

Subiu e pegou a manivela. Conseguiu arriá-la, mas teve de

empregar toda a sua força para completar o movimento de vaivém. O vagonete moveu-se alguns centímetros sobre os trilhos, com si-lenciosa tranqüilidade.

— Bom! — disse uma débil voz mecânica que fez os dois

darem um pulo. — Bom, empurrem de no... — A voz mecânica ces-sou.

— É preciso um pouco de força para funcionar — disse o

garoto, como que se desculpando pela coisa.

O pistoleiro subiu ao lado de Jake na plataforma e puxou a

manivela para baixo. O vagonete avançou obediente, depois parou.

— Bom, empurrem de novo! — encorajou a voz mecânica. O pistoleiro havia sentido os giros de deslocamento sob os

pés. A operação o agradava, assim como a voz mecânica (embora não pretendesse ouvir aquilo mais que o necessário). Excluindo a bomba d’água no posto de parada, há anos não via uma máquina que ainda funcionasse bem. Mas a coisa também o deixava inquieto. Ia levá-los muito mais depressa ao destino. Não tinha a menor dúvida de que o homem de preto também pretendera que encontrassem o vagonete.

— Incrível, não é? — disse o garoto, e a voz estava cheia de

aversão. O silêncio era profundo. Roland ouvia seus próprios órgãos trabalhando dentro do corpo, o cair da água e nada mais.

— Você fica de um lado, eu fico do outro — disse Jake. —

Mas vai ter de empurrar sozinho até a coisa começar a rolar direito. Depois eu posso ajudar. Você empurra, eu empurro. Vamos assim. Percebeu?

— Percebi — disse o pistoleiro. As mãos estavam fechadas

em inúteis punhos de desespero.

O garoto repetiu, olhando para ele:

— Mas vai ter de empurrar sozinho até a coisa começar a ro-

lar direito.

De repente, o pistoleiro teve uma nítida visão do Grande Sa-

lão, cerca de um ano após a Dança da Noite da Colheita. Já então nada havia além de cacos espalhados no despertar da revolta, da luta civil e da invasão. A imagem foi seguida por uma de Allie, a mulher de Tull com cicatrizes, jogada de um lado para o outro por balas que a iam matando sem absolutamente qualquer motivo... a não ser que os reflexos do atirador fossem um motivo. Depois apareceu o rosto de Cuthbert Allgood, rindo enquanto seguia ladeira abaixo para a própria morte, sempre soprando aquela amaldiçoada trompa... e en-tão viu o rosto de Susan, contorcido, desfigurado pelo choro. Todos os meus velhos amigos, o pistoleiro pensou, sorrindo de modo terrí-vel.

— Vou empurrar — disse.

Começou a empurrar, e quando a voz começou a falar

(“Bom, empurre de novo! Bom, empurre de novo!”), sua mão tente-ou sobre a haste em que o cabo da manivela fora montado. Por fim, encontrou o que sem dúvida estava procurando: um botão. Apertou.

— Adeus, companheiro! — disse animada a voz mecânica,

que permaneceu, então, abençoadamente silenciosa por algumas ho-ras.

Rodavam pelo escuro, mais rápido agora, já sem precisar ir

tateando pelo caminho. A voz mecânica ainda se manifestou uma vez, sugerindo que comessem Crisp-A-La, e uma segunda vez dizen-do que no final de um duro dia de trabalho não havia nada melhor que Larchies. Depois desse segundo conselho, não falou mais.

Assim que os contratempos de uma época morta foram afas-

tados do vagonete, a viagem correu suave. O garoto tentava fazer sua parte e o pistoleiro permitia-lhe alguns movimentos, mas em ge-ral bombeava sozinho, em grandes subidas e descidas do peito rete-sado. O rio oculto continuava a acompanhá-los, às vezes mais pró-ximo, à direita, às vezes bem mais longe. Certa vez, produziu um barulho cavernoso, enorme e trovejante, como se estivesse atraves-sando um grande pórtico de catedral. Em outro momento, o ruído desapareceu quase por completo.

A velocidade e o vento batendo em seus rostos pareceram

tomar o lugar da visão que não tinham e soltá-los em novas coorde-nadas de tempo. O pistoleiro estimou que faziam qualquer coisa en-tre 15 a 25 quilômetros por hora, sempre numa subida leve, quase imperceptível, que aos poucos os ia deixando esgotados. Quando pararam, dormiu como pedra. A comida estava de novo quase aca-bando. Mas nenhum dos dois se preocupou com isso.

Para o pistoleiro, a expectativa do clímax que se aproximava

era tão aparentemente inexistente, mas tão real (e cumulativa) quanto a fadiga de fazer o vagonete avançar. Estavam perto do final do co-meço... ou pelo menos ele estava. Sentia-se como um ator colocado no centro do palco minutos antes de a cortina se levantar. Parado na marcação, com a primeira linha do texto seguramente decorada, ou-via a platéia invisível folhear os programas e se revirar nas poltronas. Vivia com uma considerável, respeitável bola de sombria antecipação na barriga, e achou bom o exercício que o fizera dormir. Pois quan-do realmente adormecia, era como a morte.

O garoto falava cada vez menos, mas em outro ponto de pa-

rada, num período de sono não muito antes de serem atacados pelos Vagos Mutantes, perguntou ao pistoleiro quase timidamente sobre a chegada da idade.

— Queria saber mais sobre isso — disse.

O pistoleiro apoiava as costas na manivela, um cigarro do

minguante suprimento de tabaco preso nos lábios. Quando o garoto fez a pergunta, estava à beira de entrar em seu habitual sono carre-gado.

— Por que o interesse no assunto? — disse ele, achando

graça.

A voz do garoto foi curiosamente áspera, como para escon-

der o embaraço.

— Só queria saber. — E, após uma pausa, ele acrescentou:

— Sempre quis saber como é ficar adulto. Acho que o que dizem sobre isso é quase tudo mentira.

— Ninguém disse mentiras sobre minha maturidade — rea-

giu o pistoleiro. — E acho que dei o primeiro passo muito mais cedo do que você imagina...

— Sobre sua briga com o mestre — disse Jake num tom re-

moto. — É isso que quero ouvir.

Roland abanou a cabeça. Sim, é claro, o dia em que havia re-

solvido cruzar a linha; sem dúvida uma história que qualquer garoto gostaria de ouvir.

— Minha verdadeira maturidade só começou depois que

meu pai me mandou embora. Acabei encontrando-a num ponto e noutro ao longo do caminho. — Fez uma pausa. — Um dia vi um não-homem enforcado.

— Um não-homem? Não entendo.

— Eu podia senti-lo, mas não podia vê-lo.

Jake assentiu, aparentando compreensão.

— Era invisível.

Roland ergueu as sobrancelhas. Nunca ouvira aquela palavra

antes.

— Foi isso mesmo que você disse?

— Sim.

— Então que seja. De qualquer modo, havia gente que não

queria que eu o enforcasse... Achavam que seriam amaldiçoados se eu fizesse aquilo, mas o sujeito havia adquirido um gosto pelo estu-pro. Sabe o que é?

— Sei — disse Jake. — E também acho que um sujeito invi-

sível seria bom na coisa. Como conseguiu pegá-lo?

— Essa história fica para outro dia. — Mas ele sabia que não

existiriam outros dias. Os dois sabiam que não haveria outros. — Dois anos depois, abandonei uma moça num lugar chamado King’s Town, embora eu não quisesse fazer isso...

— Claro que queria — disse o garoto, e a suavidade na voz

não disfarçava o tom de desacato. — Queria alcançar aquela Torre, estou certo? Não queria diminuir o ritmo da marcha... exatamente como os caubóis na Rede de meu pai.

Roland sentiu o rosto ficar vermelho no escuro, mas, quando

falou, o tom era calmo:

— Essa foi a última fase, eu acho. A última fase do processo

de me tornar adulto. Não tive noção das fases enquanto elas aconte-ciam. Só mais tarde fiquei sabendo.

Ele percebeu com um certo mal-estar que estava evitando o

que o garoto queria ouvir.

— Acho que o ritual da chegada da idade foi parte disso, em

cada momento — ele disse com uma certa relutância. — Foi uma coisa formal. Quase estilizada; como uma dança. — Riu sem vonta-de.

O garoto não disse nada.

— Era necessário que cada um fosse provado na batalha —

explicou o pistoleiro.

Verão, e quente.

A Terra Plena chegara naquele ano como um amante vampi-

ro, liquidando o solo e as colheitas dos arrendatários, tornando os campos da cidade-fortaleza de Gilead nus e estéreis. No oeste, a al-guns quilômetros de distância e perto das fronteiras que marcavam o fim do mundo civilizado, a luta já começara. Todos os relatos eram desfavoráveis, mas todos se transformavam em coisa insignificante diante da onda de calor que envolvia as áreas centrais. O gado vivia de língua caída e olhos vazios nas baias dos currais. Porcos ronca-vam apaticamente, alheios ao sexo com as fêmeas e às facas sendo afiadas para o abate próximo. As pessoas se queixavam dos impostos e do serviço militar, como sempre faziam, mas havia uma apatia sob o árido jogo das paixões da política. O centro havia se esfiapado como uma velha tapeçaria que tivesse sido pisada, sacudida, lavada, pendurada e posta para secar. O cordão que prendia a última jóia no pescoço do mundo estava se soltando. As coisas não se mantinham mais juntas. A terra contraía a respiração no calor do futuro colapso.

O menino vagava pelo corredor superior do palácio de pedra

que era seu lar, sentindo mas não compreendendo essas coisas. An-dava também agressivo e vazio, esperando para ser preenchido.

Haviam se passado três anos desde o enforcamento daquele

cozinheiro sempre capaz de encontrar petiscos para garotos famin-tos; Roland ficara mais alto e tinha adquirido volume nos ombros e na cintura. Com 14 anos, vestindo apenas uma calça desbotada de algodão, começava a se parecer com o homem que ia se tornar: alto, magro e ágil de movimentos. Ainda não conhecia o amor, mas duas das filhas mais novas de um comerciante da Cidade do Oeste tinham lhe atirado olhares. Havia sentido uma reação, e a sentia ainda mais fortemente agora. Mesmo na friagem do corredor, tinha o corpo su-ado.

À frente, ficavam os aposentos da mãe, e ele se aproximou

desatento, pretendendo apenas cruzá-los e subir para o terraço, onde uma brisa rala e o prazer de sua mão o aguardavam.

Tinha acabado de passar pela porta quando uma voz o cha-

mou:

— Ei, garoto.

Era Marten, o conselheiro. Vestido com uma suspeita, incô-

moda descontração — calça preta de equitação, quase tão apertada quanto a malha de um acrobata, e uma camisa branca, aberta até a metade do peito sem pêlos. O cabelo estava despenteado.

O garoto olhou-o em silêncio.

— Entre, entre! Não fique parado no corredor! Sua mãe

quer falar com você. — A boca apenas sorria, mas os traços do rosto indicavam um humor mais intenso e mais debochado. Por baixo dis-so — e nos olhos dele — só havia frieza.

Na verdade, a mãe nem parecia querer vê-lo. Estava sentada

na cadeira de espaldar baixo, junto à grande janela na sala principal de seus aposentos, a que dava vista para a pedra quente e lisa do pá-tio central. Usando um penhoar solto, informal, que não parava de escorregar de um ombro branco, só olhou uma vez para o garoto: um sorriso rápido, brilhante e triste como o sol de outono num cur-so d’água. Durante a conversa que se seguiu, examinou mais as pró-prias mãos que o filho.

Ele a via raramente agora e o fantasma das cantigas de ninar

(rifle, pocotó, cabeça) quase desbotara em seu cérebro. Era, no en-tanto, uma estranha querida. Sentiu um medo informe e o brotar de um ódio incipiente de Marten, o mais próximo conselheiro do pai.

— Tudo bem, Ro? — a mãe perguntou em voz baixa. Mar-

ten, sorrindo para os dois, permaneceu ao lado dela com uma pesada e perturbadora mão perto do encontro do ombro branco com o pes-coço branco. Os olhos castanhos de Marten tinham ficado quase pretos com o sorriso.

— Tudo — disse o garoto.

— Os estudos vão bem? Vannay está satisfeito? E Cort? —

A boca repuxou com este segundo nome, como se ela tivesse sabo-reado alguma coisa amarga.

— Estou tentando — disse ele. Ambos sabiam que Roland

não tinha o brilho da inteligência de Cuthbert, nem a agilidade de Jamie. Era lerdo, avançava a duras penas. Mesmo Alain era melhor nos estudos.

— E David? — Ela sabia da afeição do filho pelo falcão. O garoto ergueu os olhos para Marten, que ainda sorria pa-

ternalmente diante da cena.

— Já não está em sua fase áurea.

A mãe pareceu estremecer; por um momento, a expressão de

Marten ficou mais sombria, e a pressão da mão no ombro dela au-mentou. Então a mãe contemplou a quente limpidez do dia, e tudo ficou como sempre tinha sido.

É uma charada, ele pensou. Um jogo. Quem está jogando

com quem?

— Tem um corte na testa — disse Marten, sempre sorrindo

e agora apontando um dedo negligente para a marca da última (obri-gado por este dia instrutivo) pancada de Cort.

— Vai ser um guerreiro como seu pai ou está apenas brin-

cando?

Dessa vez a mãe realmente estremeceu.

— As duas coisas — disse o garoto, encarando Marten e

dando um sorriso amarelo. Mesmo ali estava muito quente. Marten parou bruscamente de sorrir.

— Agora pode ir para o terraço, garoto. Acho que tem o que

fazer lá em cima.

— Minha mãe ainda não me mandou embora, lacaio! O rosto de Marten se contorceu como se o garoto lhe tivesse

batido com um chicote. O garoto ouviu o desagradável, miserável suspiro da mãe. Ela falou o nome dele.

Mas o sorriso duro permaneceu intacto no rosto do garoto,

que deu um passo à frente.

— Não quer me dar uma prova de lealdade, lacaio? Em no-

me de meu pai, a quem você serve?

Marten o encarou, mal acreditando no que ouvia. — Vá — disse Marten em voz baixa. — Vá procurar seu

rumo.

Sorrindo um tanto raivosamente, o garoto se foi. Quando fechou a porta e começou a voltar pelo mesmo ca-

minho de onde viera, ouviu o lamento da mãe. Um som profunda-mente doloroso. E então, inacreditavelmente, o barulho do subordi-nado do pai batendo nela e mandando que fechasse a matraca.

Feche a matraca!

E depois ouviu o riso de Marten.

O garoto continuou a sorrir enquanto seguia para seu teste. Jamie viera das lojas e, quando viu Roland cruzando o pátio

de exercícios, correu para falar dos últimos comentários sobre der-ramamento de sangue e revolta no oeste. Acabou, no entanto, se mantendo distante, com as palavras silenciadas. Conheciam-se desde os tempos da infância e tinham brincado um com o outro, esmurra-do um ao outro, e feito muitas explorações dentro dos muros onde ambos haviam sido criados.

Roland ultrapassou-o a passos largos, olhando sem ver, sor-

rindo aquele sorriso duro. Estava a caminho do chalé de Cort, onde as persianas se achavam abertas para repelir o calor selvagem. Cort tirava uns cochilos à tarde para poder desfrutar ao máximo das in-cursões noturnas aos caóticos e sujos bordéis da cidade baixa.

Jamie, num lampejo de intuição, soube o que estava por vir

e, em seu estado de medo e êxtase, ficou dividido entre ir atrás de Roland ou chamar pelos outros.

Então, o estado hipnótico foi quebrado e ele correu para o

prédio principal, gritando:

— Cuthbert! Alain! Thomas! — Os gritos soavam fracos, fi-

nos no calor. Todos eles sabiam, naquele modo intuitivo dos garo-tos, que Roland seria o primeiro a tentar cruzar a linha. Embora fos-se cedo demais.

O terrível sorriso no rosto de Roland chamara a atenção de

Jamie como nenhuma notícia de guerras, revoltas e feitiçarias pode-ria ter feito. Era mais importante que palavras saídas de uma boca sem dentes por cima de pés de alface.

Roland caminhou para o chalé do mestre e escancarou a por-

ta com um chute. A porta foi jogada para trás, atingiu o gesso gros-seiro, áspero, da parede e voltou.

Era a primeira vez que ele entrava lá. A porta se abria para

uma cozinha austera, fria e escura. Uma mesa. Duas cadeiras de en-costo reto. Dois armários. Um desbotado piso vitrificado estenden-do-se em listras pretas desde o refrigerador, fixado no chão, até o balcão, onde havia facas penduradas, e à mesa.

Ali estava a privacidade de um homem público. O refugio

murcho de um violento beberrão das madrugadas que tivera um ru-de afeto por garotos de três gerações, e transformara alguns deles em pistoleiros.

— Cort!

Ele chutou a mesa, fazendo-a voar e bater no balcão. Facas

caíram do suporte na parede em movimentos cintilantes.

Algo se mexeu pesadamente no outro cômodo, como o lim-

par semi-adormecido de uma garganta. O garoto não entrou, saben-do que a coisa era simulada, sabendo que Cort acordara imediata-mente no outro cômodo do chalé e estava em pé atrás da porta com um olhar brilhante, esperando para quebrar o incauto pescoço do intruso.

— Cort, saia daí, lacaio!

Agora falava a Língua Superior e Cort escancarou a porta.

Usava um short fino, de dormir; era um homem atarracado, de per-nas curvas, marcado de cima a baixo por cicatrizes, o corpo engros-sado pelo volume contorcido dos músculos. Tinha uma barriga sali-ente e redonda. O garoto sabia, por experiência própria, que era dura como mola de aço. O único olho bom o fitava da cabeça calva, irre-gular e machucada.

O garoto fez uma saudação formal.

— Não me ensine mais nada, lacaio. Hoje quem ensina sou

eu.

— Veio cedo demais, chorão — disse Cort num tom des-

contraído, mas também se expressando na Língua Superior. — A-credito que dois anos antes, no mínimo. Só vou perguntar uma vez. Está disposto a voltar atrás?

O garoto se limitou a insistir no sorriso duro, horrível. Para

Cort, que vira aquele sorriso em centenas de ensangüentadas, arrui-nadas situações de honra e desonra, aquilo era resposta suficiente — talvez a única resposta em que poderia acreditar.

— Isso é uma pena — disse o mestre num tom distraído. —

Você tem sido um aluno extremamente promissor, o melhor em du-as dúzias de anos, devo admitir. Ficarei triste em vê-lo quebrado e jogado num beco sem saída. Mas o mundo seguiu adiante. Maus tempos estão vindo a cavalo.

O garoto continuou calado (e teria sido incapaz de qualquer

justificativa coerente, se fosse o momento dela), mas pela primeira vez o sorriso medonho se abrandou um pouco.

— Contudo, se existe revolta e feitiçaria no oeste — disse

Cort —, existe também a linha do dever. Sou seu lacaio, garoto. Re-conheço seu comando e me curvo a isso agora... mesmo que pela única vez... com toda a sinceridade.

E Cort, que o esbofeteara, o chutara, o fizera sangrar, o a-

maldiçoara, zombara dele e o identificara ao próprio verme da sífilis, dobrou um joelho e curvou a cabeça. O garoto tocou a carne curtida e vulnerável de seu pescoço com admiração.

— Levante-se, lacaio. Em paz.

Cort se levantou devagar e talvez houvesse dor atrás da más-

cara impassível das feições marcadas.

— É uma pena. Volte atrás, garoto tolo. Estou lhe dando

uma chance. Volte atrás e espere.

O garoto não disse nada.

— Muito bem; se quer assim, que seja assim. — A voz de

Cort ficou seca e prática. — Uma hora. E a arma de sua escolha.

— Vai levar seu bastão?

— Sempre levo.

— Quantos bastões foram tirados de você, Cort? — O que

era a mesma coisa que perguntar: quantos garotos entraram no pátio quadrado além do Grande Salão e saíram como aprendizes de pisto-leiro?

— Nenhum bastão será tirado hoje de mim — disse Cort

devagar. — Lamento. Você não tem nenhuma chance, garoto. A pena para a superansiedade é a mesma que a pena para a falta de mé-rito. Não pode esperar?

O garoto se recordou de Marten parado na frente dele. O

sorriso. E o barulho do golpe atrás da porta fechada.

— Não.

— Muito bem. Que arma você escolhe?

O garoto não disse nada.

O sorriso de Cort mostrou uma fileira irregular de dentes.

— Bem esperto para começar. Daqui a uma hora. Percebe

que, com toda a probabilidade, jamais voltará a ver seu pai, sua mãe ou seus companheiros de ka?

— Sei o que o exílio significa — disse Roland em voz baixa. — Vá agora e medite sobre o rosto de seu pai. Isso vai lhe

fazer muito bem.

O garoto foi, sem olhar para trás.

O porão do celeiro era tremendamente frio, úmido, com

cheiro de teias de aranha e água estagnada. O sol o iluminava com os raios empoeirados que passavam pelas janelas estreitas, mas ali não havia nada do calor do dia. Era onde o garoto guardava o falcão e onde o pássaro parecia bastante à vontade.

David não caçava mais no céu. Suas penas tinham perdido o

radiante brilho animal de três anos atrás, mas seus olhos continua-vam penetrantes e imóveis como sempre. Não é possível ser amigo de um falcão, se costuma dizer, a não ser que você seja meio falcão, alguém sozinho e só de passagem pela terra, sem amigos e sem pre-cisar deles. O falcão não paga tributo ao amor ou à moral.

David era agora um velho falcão. O garoto gostaria muito de

ser um falcão jovem.

— Ei — disse ele em voz baixa, estendendo o braço para a

corrente do poleiro.

O falcão pousou no braço do garoto e ficou imóvel, sem ca-

puz. Com a outra mão, o garoto pôs a mão no bolso e puxou um pedaço de carne seca. O falcão pegou-a habilidosamente no meio dos dedos e a fez desaparecer.

O garoto começou a alisar David com muito cuidado. Com

toda a probabilidade, Cort não acreditaria se visse aquilo, mas Cort também não tinha acreditado que o tempo do garoto havia chegado.

— Acho que você vai morrer hoje — disse ele, continuando

a alisá-lo. — Acho que vai participar de um sacrifício, como todas aquelas pequenas aves que nós o treinamos para atacar. Está lembra-do? Não? Não faz mal. A partir de amanhã eu serei o falcão e todo ano, no dia de hoje, vou atirar para o céu em sua memória.

David permanecia em seu braço, silencioso e sem piscar, in-

diferente à vida ou à morte.

— Você está velho — disse o garoto num tom de reflexão.

— E talvez nem seja meu amigo. Um ano atrás teria preferido bicar os meus olhos em vez daquele pedacinho de carne, não é? Cort ia achar graça. Mas se chegarmos bem perto... bem perto daquele sujei-tinho enjoado... sem ele desconfiar... o que você acha, David? Mor-rer de velho ou honrar a amizade?

David não respondeu.

O garoto pôs-lhe o capuz e achou a trela, que estava enrola-

da na ponta do poleiro de David. Saíram do celeiro.

O pátio atrás do Grande Salão não era realmente um pátio,

mas um corredor verde cujas paredes eram formadas por cercas vi-vas de uma vegetação muito densa e emaranhada. Fora usado para o rito da chegada da idade desde tempos imemoriais, muito antes de Cort e de seu antecessor, Mark, que ali morrera de um ferimento a faca provocado pela mão ultrazelosa de alguém. Muitos garotos saí-ram do corredor como homens, vindo de sua ponta direita, por onde o professor sempre entrava. A ponta direita ficava de frente para o Grande Salão, com toda a civilização e intriga do mundo iluminado. Um número muito maior de garotos, no entanto, tinha saído como eternos garotos, furtivamente, batidos e desonrados, vindo da ponta oeste, por onde os garotos sempre entravam. A ponta oeste ficava de frente para as fazendas e as casas de colono que ficavam além das fazendas; mais além, eram as florestas fechadas e bárbaras; mais a-lém, Garlan e, além de Garlan, o deserto Mohaine. O garoto que se tornava um homem progredia da escuridão e da ignorância para a luz e a responsabilidade. O garoto que fosse derrotado podia apenas ba-ter em retirada, para todo o sempre. A passagem era plana e verde como um campo de jogo. Tinha exatamente 50 metros de compri-mento. No meio, abria-se uma faixa de terra. Era a linha.

Cada ponta ficava geralmente repleta de tensos espectadores

e parentes, pois o ritual costumava ser organizado com grande preci-são — 18 era a idade mais comum (aqueles que não faziam o teste até os 25 anos geralmente caíam no ostracismo e ficavam conheci-dos como elementos dúbios, incapazes de encarar a realidade brutal do tudo-ou-nada do campo militar e do teste). Naquele dia, porém, só estavam lá Jamie DeCurry, Cuthbert Allgood, Alain Johns e Thomas Whitman. Tinham se agrupado na saída dos garotos, de bo-ca aberta, francamente apavorados.

— Sua arma, estúpido! — sibilou Cuthbert, desesperado. —

Esqueceu a arma!

— Estou com ela — disse o garoto, e se perguntou vaga-

mente se a notícia de sua loucura já chegara aos prédios centrais, à sua mãe... e a Marten. O pai se achava numa caçada, devendo passar muitos dias fora. O garoto se sentia muito mal com isso, pois acredi-tava que encontraria compreensão, se não aprovação, no pai. — Cort veio?

— Cort está aqui. — A voz chegou da extremidade do cor-

redor e logo Cort apareceu, vestindo uma camiseta de malha. Uma pesada tira de couro cercava sua testa para manter o suor longe dos olhos. Usava um cinturão escuro para manter as costas retas. Numa das mãos, trazia um bastão de madeira e ferro, afiado numa ponta e com o formato de uma faca extremamente rombuda na outra. Co-meçou a litania que todos eles, graças ao juramento de sangue dos antepassados desde os tempos do Eld, aprendiam já na tenra infân-cia, com vistas ao dia em que, talvez, se tornas sem homens.

— Veio até aqui com um objetivo sério, garoto? — Vim com um objetivo sério.

— Veio como um proscrito da casa de seu pai? — Tive de vir assim. — E permaneceria proscrito até conse-

guir levar a melhor sobre Cort. Se a vitória fosse de Cort, permane-ceria para sempre proscrito.

— Veio com a arma que escolheu?

— Vim.

— Qual é a arma? — Essa era a vantagem do mestre, a pos-

sibilidade de adaptar o plano de batalha ao estilingue, lança, clava ou arco.

— Minha arma é o David.

Cort só hesitou um instante. Estava espantado e, muito pro-

vavelmente, confuso. Isso era bom. Talvez fosse bom.

— Então vai mesmo me desafiar, garoto?

— Vou.

— Em nome de quem?

— Em nome de meu pai.

— Diga o nome dele.

— Steven Deschain, da linha do Eld.

— Seja rápido, então.

E Cort avançou para o corredor, passando o bastão de uma

mão para outra. Os garotos suspiraram, agitados como pássaros, en-quanto o pequeno dinh avançava ao encontro do mestre.

Minha arma é o David, mestre.

Cort havia entendido? E se assim foi, entendera plenamente?

Nesse caso, era provável que tudo estivesse perdido. A coisa girava em torno da surpresa — e da energia que pudesse ter sobrado no falcão. Mas David não poderia ficar parado, estúpido e desinteressa-do no braço do garoto, enquanto Cort atacasse loucamente com o bastão de madeira e ferro? E se ele tentasse escapar para o céu quen-te lá no alto?

Enquanto um adversário se aproximava do outro, cada um

ainda de seu lado da linha, o garoto tirou o capuz do falcão com de-dos sem força. O capuz caiu na grama verde e Cort ficou imediata-mente imóvel. O garoto viu os olhos do velho guerreiro caírem so-bre o pássaro e se alargarem com espanto e um lento alvorecer de entendimento. Agora ele compreendia.

— Ah, seu pequeno tolo — Cort quase gemeu, e Roland fi-

cou subitamente furioso por ser repreendido daquele jeito.

— Ataque! — gritou, erguendo o braço.

E David voou como silenciosa bala marrom, as asas curtas e

grossas batendo uma, duas, três vezes antes de atingir o rosto de Cort. As garras buscaram o alvo, o bico atacou. Gotas vermelhas saltaram no ar quente.

— Aí, Roland! — Cuthbert gritou em delírio. — O primeiro

sangue! O primeiro sangue para regar meu coração! — Bateu no pei-to com força suficiente para produzir uma contusão que levaria uma semana para desaparecer.

Cort cambaleou para trás, sem equilíbrio. O bastão de ma-

deira e ferro subia e batia inutilmente no ar em volta da cabeça do garoto. O falcão era uma trouxa ondulante e borrada de penas.

O garoto se atirou para a frente, a mão estendida em cunha,

o cotovelo travado. Era a sua chance e muito provavelmente a única que teria.

Cort, no entanto, foi muito rápido e se esquivou. O pássaro

havia coberto 90% da visão de Cort, mas o bastão tornou a subir com a ponta rombuda para a frente, e Cort, a sangue frio, executou a única ação que poderia alterar os eventos naquele ponto. Bateu em seu próprio rosto três vezes, os bíceps se movendo impiedosamente.

David caiu, quebrado, contorcido. Uma asa batia frenetica-

mente no chão. Os olhos frios, predadores, encaravam febrilmente o rosto do mestre, onde o sangue escorria. O olho ruim de Cort salta-va agora cegamente da órbita.

O garoto aplicou um chute na têmpora de Cort, acertando

com precisão. Isso devia ter encerrado a coisa, mas não foi assim. Por um momento, o rosto de Cort oscilou; então ele se arremessou para a frente, agarrando o pé do garoto.

O garoto deu um pulo para trás e tropeçou nos próprios pés.

Caiu em cheio no chão. Ouviu, de muito longe, o barulho de Jamie gritando de frustração.

Cort estava pronto para cair sobre ele e acabar com a luta.

Roland perdera a vantagem e os dois sabiam disso. Por um instante, se olharam, o mestre parado sobre o aluno com gotas de sangue es-correndo do lado esquerdo do rosto, o olho ruim agora fechado, ex-ceto por uma fina fenda branca. Não haveria bordéis para Cort na-quela noite.

Algo afiado rasgou a mão do garoto. Era David, dilacerando

cegamente qualquer coisa que pudesse alcançar. Suas duas asas esta-vam quebradas. Era incrível que ainda estivesse vivo.

O garoto agarrou-o como se ele fosse uma pedra. Desprezou

o bico que não parava de avançar, golpear, e que ia arrancando tiras de carne de seu pulso. Quando Cort voou para ele, de braços e per-nas abertos, o garoto atirou o falcão para cima.

— Aí, David! Mate!

Então Cort cobriu o sol e caiu em cima do garoto. O pássaro ficou imprensado entre os dois e o garoto sentiu

os calos de um polegar tateando pela órbita de seu olho. Virou o ros-to, ao mesmo tempo erguendo parte da coxa para reter o joelho de Cort, que procurava seus genitais. A mão acertou três duros golpes no meio do pescoço de Cort. Foi como bater numa pedra com ner-vuras.

Então Cort deu um forte grunhido. Seu corpo estremeceu.

Pelo canto do olho, o garoto viu a mão tentando pegar o bastão caí-do e, com uma violenta estocada, conseguiu tirá-lo do alcance. David havia enfiado uma garra na orelha direita de Cort. A outra batia im-piedosamente na face do mestre, transformando-a numa ruína. San-gue quente respingava no rosto do garoto com um cheiro de cobre esmerilhado.

O punho de Cort atingiu o pássaro uma vez, quebrando-lhe

a espinha. Atingiu-o de novo e o pescoço estalou, ficando num ân-gulo torto. Mas ainda assim a garra segurava. Já não havia orelha; só um buraco vermelho entrando ao lado do crânio. O terceiro golpe atirou o pássaro longe, finalmente livrando o rosto de Cort.

O momento era claro, o garoto bateu com o lado da mão na

ponte do nariz do mestre, usando toda a sua energia e quebrando o osso fino. O sangue esguichou.

A mão de Cort, movendo-se às cegas, atacava nas nádegas

do garoto, tentando arriar suas calças, tentando atingir suas bolas. Roland rolou para o lado, encontrou o bastão de Cort e ficou de joe-lhos.

Cort também ficou de joelhos, arreganhando os dentes. In-

crivelmente, ficaram se encarando de cada lado da linha, embora ti-vessem trocado de posição e Cort se encontrasse agora no lado onde Roland dera início à disputa. O rosto do velho guerreiro estava co-berto de sangue. O único olho que enxergava rolava furiosamente na órbita. O nariz, despedaçado, ficara num ângulo deformado, torto. Ambas as bochechas caíam em abas.

O garoto agarrava o bastão de Cort como um jogador no

Gran’ Points esperando o arremesso do pássaro de couro.

Cort fez a finta para os lados, depois foi direto em sua dire-

ção.

Roland estava pronto e não se deixou minimamente enganar

por aquele último truque, que os dois sabiam como era ruim. O bas-tão girou num arco plano, atingindo o crânio de Cort com um baque surdo. Cort caiu de lado, contemplando o garoto com uma cega ex-pressão de debilidade. Um pequeno filete de cuspe saía de sua boca.

— Renda-se ou morra — disse o garoto. Parecia ter a boca

cheia de algodão molhado.

E Cort sorriu. Quase toda a consciência cessara e ele ia ficar

uma semana de cama em seu chalé, imerso na escuridão de um esta-do de coma. Agora, porém, resistia com toda a energia de uma vida impiedosa, inflexível. Viu a necessidade de confabular nos olhos do garoto e, mesmo com uma cortina de sangue entre os dois, compre-endeu que era uma necessidade desesperada.

— Eu me rendo, pistoleiro. Eu me rendo sorrindo. No dia

de hoje, você fez lembrar a face de seu pai e de todos aqueles que vieram antes dele. Que maravilha você fez!

O olho claro de Cort se fechou.

O pistoleiro sacudiu-o com cuidado, mas com insistência. Os

outros estavam agora à sua volta, mãos ansiosas para dar pancadi-nhas nas suas costas e pegar no seu ombro; mas eles recuaram, com medo, sentindo um novo fosso. Isto foi menos estranho do que po-deria ter sido, porque sempre havia existido um fosso entre aquele pistoleiro e os outros.

O olho de Cort se revirou e tornou a abrir.

— A chave — disse o pistoleiro. — Meu direito de primo-

genitura, mestre. Preciso dela.

O direito de primogenitura eram as armas, não os revólveres

pesados do pai — com o peso da madeira de sândalo —, mas ainda assim armas. Proibidas a todos, com exceção de uns poucos. Sob o alojamento de caserna onde, pela antiga lei, longe do carinho da mãe, ele agora teria de residir, havia uma reforçada caixa forte com suas armas de aprendiz: espingardas desajeitadas e incômodas de aço ni-quelado, com cano grosso. Tinham, no entanto, servido a seu pai durante seu período de aprendizagem e seu pai agora governava — pelo menos nominalmente.

— Sua necessidade é assim tão terrível? — murmurou Cort,

como se falasse dormindo. — Tão insistente? É, era o que eu temia. Tamanha necessidade tinha de transformá-lo num idiota. E, no en-tanto, você venceu.

— A chave.

— O falcão foi uma bela manobra. Uma bela arma. Quanto

tempo demorou para treinar o safado?

— Nunca treinei o David. Só fui amigo dele. A chave.

— Debaixo do meu cinto, pistoleiro. — O olho tornou a se

fechar.

O pistoleiro pôs a mão sob o cinto de Cort, sentindo a forte

pressão da barriga do homem, dos enormes músculos ali existentes, agora frouxos e adormecidos. A chave estava numa argola de metal. Ele a apertou na mão, contendo o ímpeto louco de erguê-la para o céu numa saudação de vitória.

Levantou-se e estava finalmente se virando para os outros

quando a mão de Cort tateou para seu pé. Por um momento, o pis-toleiro temeu algum último ataque e ficou de guarda, mas Cort só ergueu o olho e acenou com um dedo ralado.

— Agora vou dormir — Cort murmurou calmamente. —

Vou seguir a trilha. Talvez até a clareira que existe no fim, eu não sei. Não lhe ensino mais nada, pistoleiro. Você foi melhor que eu, e com dois anos a menos que seu pai, que na época era o aluno mais jovem. Mas me deixe lhe dar um conselho.

— Qual? — com impaciência.

— Para ouvir, limpe esse olhar arrogante da cara, seu verme. Espantado, Roland fez o que ele pedira (embora os outros,

que se agachavam e se escondiam mais atrás, não o tenham percebi-do). Cort assentiu e murmurou uma única palavra.

— Espere.

— O quê?

O esforço do homem para falar concedeu grande ênfase a

suas palavras:

— Deixe a notícia e a lenda correrem antes de você. Existem

aqueles que se encarregarão das duas. — Os olhos oscilaram para além do ombro do pistoleiro. — Tolos, talvez. Deixe sua sombra se estender sobre a face das pessoas. Deixe que se torne negra. — Ele sorriu grotescamente. — No tempo certo, as palavras poderão até encantar um encantador. Entende o que estou querendo dizer, pisto-leiro?

— Sim. Acho que sim.

— Vai aceitar meu último conselho como seu mestre? O pistoleiro balançou para trás nos calcanhares, uma postura

contida, reflexiva, que sugeria o homem maduro. Olhou para o céu. Estava ficando carregado, roxo. O calor do dia ia diminuindo e nu-vens de trovoada no oeste sinalizavam chuva. Riscos de relâmpagos fustigavam o contorno sereno dos contrafortes a quilômetros de dis-tância. Além deles, as montanhas. Além delas, as crescentes explo-sões de sangue e irracionalidade. Ele estava cansado, cansado até os ossos e até mais fundo. Tornou a olhar para Cort.

— Vou enterrar meu falcão esta noite, mestre. Depois vou à

cidade baixa para informar a quem, nos bordéis, quiser ter notícias suas. Talvez diga algumas palavras de consolo a um ou dois.

Os lábios de Cort se separaram num sorriso doloroso. De-

pois ele dormiu.

O pistoleiro ficou de pé e se virou para os outros. — Arranjem uma maca e levem-no para casa. E tragam uma

enfermeira. Não, duas enfermeiras, está bem?

Eles ainda o contemplavam, presos a um momento de ten-

são que nenhum deles conseguia facilmente romper. Ainda espera-vam ver uma coroa de fogo sobre ele ou uma alteração mágica de suas feições.

— Duas enfermeiras — o pistoleiro repetiu, e deu um sorri-

so. Eles devolveram o sorriso. Nervosos.

— Seu maldito ladrão de cavalos! — Cuthbert gritou de re-

pente, rindo. — Não deixou carne suficiente para termos vontade de bicar o osso!

— O mundo não seguirá adiante amanhã — disse o pistolei-

ro, citando o velho adágio com um novo sorriso. — Alain, seu bun-da-mole! Mova seu barco.

Alain se ocupou do problema de conseguir a maca; Thomas

e Jamie foram juntos para o hall principal e à enfermaria.

O pistoleiro e Cuthbert se entreolharam. Sempre tinham sido

amigos íntimos — pelo menos tão íntimos quanto lhes permitiam as características peculiares de suas personalidades. Havia um brilho curioso, especulativo, nos olhos de Bert, e o pistoleiro reprimiu, com grande dificuldade, o impulso de pedir que ele não requeresse o teste antes de um ano, ou mesmo 18 meses, para não ser obrigado a servir no oeste. Mas tinham atravessado uma grande provação juntos, e o pistoleiro achava impossível dizer uma coisa dessas sem que o olhar em seu rosto pudesse de novo ser interpretado como arrogância. Já comecei a conspirar, ele pensou, ficando um tanto desanimado. En-tão pensou em Marten, na mãe, e mostrou um falso sorriso para o amigo.

Estou aqui para ser o primeiro. Percebia claramente a coisa

pela primeira vez, embora já tivesse pensado várias vezes no assunto, sem grande interesse. Eu sou o primeiro.

— Vamos — disse.

— Com prazer, pistoleiro.

Saíram pela ponta direita do corredor, limitado pelas cercas

vivas; Thomas e Jamie já voltavam com as enfermeiras. Elas pareci-am fantasmas nas túnicas brancas e finas de verão com uma faixa vermelha no peito.

— Quer que eu o ajude a enterrar o falcão? — Cuthbert per-

guntou.

— Quero — disse o pistoleiro. — Seria muita gentileza,

Bert.

E mais tarde, quando a escuridão chegou trazendo chuvas e

trovões intensos; e enquanto enormes, fantasmagóricos blocos de nuvens rolavam pelo céu e relâmpagos cobriam as ruas tortuosas da cidade baixa com um fogo azul; enquanto os cavalos amarrados em seus postes abaixavam a cabeça e deixavam cair a cauda, o pistoleiro tomou uma mulher e deitou-se com ela.

Foi rápido e bom. Quando acabou e um ficou deitado ao la-

do do outro sem falar, o granizo começou a cair com brusca, des-concertante ferocidade. No andar de baixo, mas longe, alguém estava tocando o ragtime “Hey Jude”. A mente do pistoleiro se voltou me-ditativa para dentro de si mesma. Foi naquele silêncio quebrado pelo granizo, pouco antes de ser dominado pelo sono, que ele pensou, pela primeira vez, que talvez fosse o último pistoleiro.

Não contou tudo isso ao garoto, mas é possível que a maior

parte tenha sido passada. Já se dera conta de que se tratava de um garoto extremamente perceptivo, não tão diferente de Alain, que era muito bom naquela semi-empatia, semitelepatia que chamavam “o toque”.

— Está dormindo? — o pistoleiro perguntou. — Não.

— Entendeu o que contei?

— Entendi? — o garoto perguntou com surpreendente des-

dém. — Se eu entendi? Era um enigma? Não. — Mas o pistoleiro ficou na defensiva. Nunca contara a ninguém sobre sua chegada à idade, pois tinha uma posição ambígua acerca do assunto. Natural-mente, o falcão fora uma arma perfeitamente aceitável, mas fora também um truque. E uma deslealdade. A primeira de muitas outras. E me digam... Estarei realmente me preparando para atirar este garo-to nas mãos do homem de preto? — Entendi a história, perfeita-mente — disse o garoto. — Era um jogo, não era? Homens adultos sempre têm de fazer esses jogos? E tudo tem de ser uma desculpa para outro tipo de jogo? Os homens amadurecem ou fazem apenas o jogo da chegada da idade?

— Você não sabe tudo — disse o pistoleiro, tentando conter

a onda de raiva. — É apenas um garoto.

— Certo. Mas sei o que eu sou para você.

— E o que é? — o pistoleiro perguntou concisamente. — Uma carta de reserva.

O pistoleiro teve vontade de pegar uma pedra e abrir a cabe-

ça do garoto. Em vez disso, falou calmamente.

— Vá dormir. Garotos precisam dormir.

E mentalmente ouviu o eco de Marten: Vá procurar seu ru-

mo. Sentou-se rigidamente no escuro, atônito e apavorado (pela primeira vez em sua existência) com a aversão que poderia vir a sen-tir por si próprio.

Durante o período de vigília seguinte, a estrada de ferro se

aproximou ainda mais do rio que corria no escuro, e eles se depara-ram com os Vagos Mutantes.

Jake viu o primeiro e deu um grito forte.

A cabeça do pistoleiro, bem firme à frente enquanto traba-

lhava com a manivela do vagonete, deu um solavanco para a direita. Havia uma espécie de esverdeado podre pulsando debilmente e bri-lhando como um fogo-fátuo logo abaixo deles. Pela primeira vez tomou consciência do odor: fraco, desagradável, úmido.

O esverdeado era um rosto — ou poderia ser chamado de

rosto por uma pessoa de temperamento caridoso. Sobre o nariz a-chatado, olhos protuberantes de inseto os espreitavam sem expres-são. O pistoleiro sentiu um rastejar atávico em seus intestinos e geni-tais. Acelerou ligeiramente o ritmo dos braços e da manivela do va-gonete.

O rosto brilhante sumiu.

— Que diabo foi isso! — perguntou o garoto, chegando

mais para perto do pistoleiro. — Que... — As palavras emudeceram em sua garganta quando eles se defrontaram e depois ultrapassaram um grupo de três formas debilmente luminosas, paradas entre os trilhos e o rio invisível, imóveis a contemplá-los.

— São os Vagos Mutantes — disse o pistoleiro. — Acho

que não vão nos incomodar. Provavelmente estão com tanto medo de nós quanto nós de...

Uma das formas se destacou e cambaleou para os dois. Era o

rosto de um idiota esfomeado. O corpo fraco e nu se convertera numa massa cheia de nódulos com membros e saliências tentacula-res.

O garoto gritou de novo e se encostou na perna do pistoleiro

como um cão assustado.

Um dos braços-tentáculos da coisa tateou sobre a plataforma

lisa do vagonete. Sugeria umidade e escuridão. O pistoleiro soltou a manivela e sacou o revólver. Acertou uma bala na testa do idiota fa-minto. O rosto desabou, o fraco brilho de pântano se extinguindo como lua eclipsada. O disparo se conservou nítido e reluzente nas retinas escuras dos dois, sumindo apenas com relutância. O cheiro da pólvora consumida era quente, selvagem e estranho naquele lugar isolado.

Havia outros, muitos. Nenhum avançava abertamente, mas

estavam fazendo um cerco nos trilhos, como um silencioso, horren-do grupo de curiosos.

— Talvez tenha de bombear para mim — disse o pistoleiro.

— Você consegue?

— Consigo.

— Então se prepare.

O garoto continuou perto dele, o corpo preparado. Os olhos

percebiam os Vagos Mutantes somente quando o vagonete os ultra-passava, nunca em profundidade; não viam mais do que tinham de ver. O garoto construíra um protetor psíquico contra o terror, como se o próprio id tivesse vazado pelos poros para formar um escudo. Se ele possuía o toque, o pistoleiro ponderou, aquilo não seria im-possível.

O pistoleiro bombeava firmemente, mas a velocidade não

aumentava. Os Vagos Mutantes podiam cheirar o terror dos dois, ele sabia, mas duvidava que apenas o terror fosse suficiente para motivá-los. Ele e o garoto eram, afinal, criaturas da luz, e de modo integral. Como devem nos odiar, pensou e se perguntou se teriam odiado o homem de preto da mesma maneira. Achava que não, talvez o ho-mem de preto tivesse passado entre eles como a sombra de uma asa escura numa escuridão maior.

O garoto fez um barulho com a garganta e o pistoleiro virou

a cabeça quase por acaso. Quatro daquelas criaturas já estavam ata-cando o vagonete num avanço trôpego — um em vias de encontrar apoio para as mãos.

O pistoleiro largou a manivela e de novo sacou o revólver, o

mesmo movimento sonolentamente casual. Alvejou o líder mutante na cabeça. A criatura deixou escapar um ruído suspirante, soluçante, e começou a arreganhar os dentes. Suas mãos eram flácidas como um peixe, e mortas, os dedos aderiam uns aos outros como dedos de uma luva que tivesse ficado muito tempo mergulhada na lama seca. Uma das mãos cadavéricas encontrou o pé do garoto e começou a puxar.

O garoto gritou agudamente no útero de granito. O pistoleiro acertou o mutante no peito, que começou a ba-

bar através do sorriso. Jake estava escorregando pelo lado. O pisto-leiro agarrou um dos braços do garoto e também quase perdeu o equilíbrio. A coisa era incrivelmente forte. O pistoleiro pôs outra bala na cabeça do mutante e um de seus olhos saltou como um doce na máquina. Contudo, o mutante puxava. Empenharam-se num si-lencioso cabo-de-guerra pelo corpo de Jake, que se debatia, se con-torcia. O Vago Mutante o agarrava como se ele fosse o ossinho da sorte de um frango. Seu desejo seria, sem a menor dúvida, roê-lo.

O vagonete estava diminuindo a marcha. Outros começaram

a se aproximar — o sem braços, o coxo, o cego. Talvez só estives-sem procurando um Jesus capaz de curá-los, capaz de fazê-los se levantar da escuridão como Lázaro.

É o fim para o garoto, o pistoleiro pensou com perfeito san-

gue frio. O fim esperado. Esqueça e bombeie ou insista e seja enter-rado com ele. É o fim para o garoto.

Deu um tremendo puxão no braço de Jake e atirou na barri-

ga do mutante. Por um momento paralisante, o aperto da coisa ficou ainda mais forte, e Jake começou de novo a escorregar pela borda. Então, a luva morta de lama afrouxou e o Vago Mutante caiu de ca-ra, ainda sorrindo, atrás do vagonete que diminuía a velocidade.

— Achei que você fosse me abandonar — o garoto soluça-

va. — Achei... Achei...

— Segure no meu cinturão — disse o pistoleiro. — Segure o

mais firme que puder.

A mão se encaixou no cinturão e agarrou-se ali; o garoto es-

tava respirando em grandes arfadas silenciosas, mas convulsas.

O pistoleiro começou de novo a bombear com firmeza e o

vagonete ganhou velocidade. Os Vagos Mutantes recuaram um pas-so e viram-nos se afastar com expressões quase humanas (ou pateti-camente humanas), expressões que produziam a fosforescência fra-ca, comum aos peixes estranhos que, sob pressão incrível e mortal, vivem nas grandes profundidades. Aquelas faces não estampavam ódio ou irritação, só o que parecia ser um semiconsciente e idiota sentimento de pesar.

— Estão sumindo — disse o pistoleiro. Os músculos retesa-

dos de seu baixo ventre e dos genitais tiveram um relaxamento mí-nimo. — Estão...

Os Vagos Mutantes tinham colocado pedras nos trilhos. O

caminho estava bloqueado. Seria um trabalho rápido, simples, talvez só um minuto bastasse para remover as pedras, mas teriam de parar. E alguém precisaria descer para tirar as pedras. O garoto gemia e, tremendo, chegou para mais perto do pistoleiro. O pistoleiro soltou a manivela e o vagonete deslizou silencioso até as pedras, onde bateu e parou.

Os Vagos Mutantes reiniciaram o cerco, quase distraidamen-

te, quase como se estivessem apenas passando por ali e, perdidos numa escuridão fantástica, encontrassem pessoas a quem pedir in-formação. Eram os amaldiçoados fazendo uma reunião sob as anti-gas rochas.

— Eles vão nos pegar? — o garoto perguntou, agora cal-

mamente.

— De jeito nenhum. Fique quieto um segundo. O pistoleiro olhou para as pedras. No fundo, os mutantes

eram fracos, é claro, e não tinham sido capazes de arrastar nenhuma rocha maior para bloquear o caminho. Só pedras pequenas. Ainda que suficientes para detê-los, para obrigar alguém a...

— Desça — disse o pistoleiro. — Vai ter de tirar as pedras.

Eu lhe dou cobertura.

— Não — o garoto murmurou. — Por favor. — Não posso lhe dar um revólver e não posso tirar as pe-

dras e disparar ao mesmo tempo. Você tem de descer.

Os olhos de Jake se agitavam terrivelmente; por um instante,

seu corpo estremeceu no ritmo das reviravoltas da mente, mas ele acabou saltando pela borda do vagonete e começou a jogar as pedras para a direita e para a esquerda, trabalhando com velocidade frenéti-ca, sem levantar a cabeça.

O pistoleiro sacou os revólveres e esperou.

Duas das criaturas, mais cambaleando do que andando, a-

vançaram para o garoto com braços pastosos. Os revólveres fizeram seu trabalho, picotando a escuridão com feixes de luz vermelhos e brancos que cravavam agulhas de dor nos olhos do pistoleiro. O ga-roto gritava e continuava a atirar as pedras para os lados. O clarão de feitiçaria dos disparos saltava, dançava. Mesmo assim continuava difícil enxergar, e isso era o pior. Tudo acabava mergulhado nas sombras e nas ilusões da retina.

Um dos mutantes, que tinha pelo menos um certo brilho,

avançou de repente para o garoto com os braços de borracha do bi-cho-papão. Olhos que rasgavam a cabeça até a metade rolavam a-quosamente.

Jake tornou a dar um grito e virou-se para lutar. O pistoleiro atirou sem se dar ao luxo de especular se a visão

borrada não acabaria provocando um tremor terrível nas mãos; as duas cabeças, afinal, estavam a poucos centímetros uma da outra. Foi o mutante quem caiu.

Jake removia freneticamente as pedras. Os mutantes se des-

locavam num círculo lento, bem junto à linha amarela invisível que marcaria o início da via férrea. Pouco a pouco, iam fechando o círcu-lo, e agora já estavam muito perto. Outros chegavam, aumentando o efetivo.

— Tudo bem — disse o pistoleiro. — Suba. Rápido. Quando o garoto se moveu, os mutantes investiram contra

eles. Jake pulou para dentro do vagonete, lutando para ficar de pé; o pistoleiro já tornava a bombear, exausto. Ambos os revólveres ti-nham voltado para os coldres. Precisavam fugir. Era sua única chan-ce.

Mãos estranhas batiam no metal da superfície do carro. O

garoto segurava agora com as duas mãos o cinturão do pistoleiro, o rosto apertado com força na parte de baixo das costas dele.

Um grupo de mutantes pulou para os trilhos na frente do

vagonete, os rostos cheios daquela estúpida, idiota antecipação. O pistoleiro estava cheio de adrenalina, e o carro voou sobre os trilhos cortando a escuridão. Atingiram as quatro ou cinco lastimáveis coi-sas com força total. Elas voaram como bananas podres golpeadas do cacho.

Cada vez mais à frente, para a escuridão silenciosa, sinistra,

que vinha voando.

Séculos depois, o garoto levantou o rosto para o vento da

corrida, apavorado mas querendo saber o que se passava. O espectro dos disparos ainda se prolongava em suas retinas. Fora isso, nada havia para ver além do escuro e nada para ouvir além do ronco do rio.

— Eles foram embora — disse o garoto, de repente com

medo que os trilhos acabassem no meio daquela escuridão, e anteci-pando o perigoso baque que os faria saltar da linha, que os reduziria a contorcidas ruínas humanas. Jake viajara em automóveis; um dia, o pai mal-humorado guiava a 140 na estrada de New Jersey quando foi parado por um policial, que ignorou os 20 dólares estendidos com a habilitação e entregou-lhe uma multa. Daquele jeito, no entanto, Jake nunca viajara: o vento, o escuro e os terrores à frente e atrás; o baru-lho do rio como uma voz com rouquidão de chocalho — a voz do homem de preto. Os braços do pistoleiro eram como pistões numa lunática fábrica humana.

— Eles foram embora — o garoto disse timidamente, as pa-

lavras arrancadas de sua boca pelo vento. — Agora pode ir mais de-vagar. Já os deixamos para trás.

Mas o pistoleiro não ouviu. E foram se lançando cada vez

mais à frente na estranha escuridão.

Continuaram seguindo por três “dias” sem incidentes. Durante o quarto período de vigília (na metade dele? a três

quartos do início? não sabiam — sabiam apenas que ainda não esta-vam cansados o bastante para parar), houve uma forte pancada em-baixo deles; o vagonete oscilou e seus corpos se inclinaram de ime-diato para a direita, contra a gravidade, enquanto os trilhos faziam uma volta gradual para a esquerda. Havia uma luz à frente — um brilho tão fraco e estranho que pareceu, a princípio, ser um elemento totalmente novo, não terra, ar, fogo ou água. Não tinha cor e só po-dia ser percebido pelo fato de os corpos dos dois terem entrado nu-ma dimensão superior à dos sentidos habituais. Os olhos haviam se tornado tão sensíveis à luz que repararam no brilho quase dez qui-lômetros antes de se aproximarem de sua fonte.

— O final — disse o garoto com uma voz tensa. — É o fi-

nal.

— Não. — O pistoleiro falou com estranha segurança. —

Não é.

E não era. Alcançavam luz, mas não a luz do dia. Quando se aproximaram da fonte do brilho, viram que o pa-

redão de rocha à esquerda desaparecera e os trilhos tinham se unido a outros, que os cruzavam em complexa teia de aranha. A luz os mostrava como polidos vetores. Em alguns, havia escuros vagões de carga e vagões de passageiros que não passavam de diligências adap-tadas aos trilhos. Pareciam galeões fantasmas encurralados num sub-terrâneo mar de sargaços, e deixaram o pistoleiro nervoso.

A luz ficou mais forte, machucando um pouco os olhos, mas

a variação foi suficientemente lenta para terem tempo de se adaptar. Saíram do escuro para a luz como mergulhadores saindo das pro-fundezas em diversos estágios.

À frente, e cada vez mais perto, o contorno de um enorme

hangar se desenhava na escuridão. Em suas paredes, havia umas 24 portas de acesso, reveladas por amarelados quadriláteros de luz. À medida que se aproximaram, elas foram passando do tamanho de portinhas de brinquedo a entradas com mais de seis metros de altura. O vagonete penetrou através de uma das portas situadas no meio do hangar. Acima dela havia uma série de inscrições, certamente em diversos idiomas, deduziu o pistoleiro. Ele ficou assombrado ao per-ceber que conseguia ler a última; era uma antiga raiz da Fala Superi-or, e dizia: VIA 10 PARA A SUPERFÍCIE E ÁREAS A OESTE A luz no interior era mais brilhante, e os trilhos continuavam se encon-trando, se fundindo por meio de uma série de chaves de desvios. Ali alguns sinais de tráfego ainda funcionavam, piscando eternos verme-lhos, verdes e amarelos.

Rolaram entre elevadas plataformas de pedra, enegrecidas

pela passagem de milhares de trens, e chegaram a uma espécie de entroncamento central. O pistoleiro deixou o vagonete seguir lenta-mente até parar, e olhou em volta.

— Parece um metrô — disse o garoto.

— Metrô?

— Não importa. Você não ia entender o que estou falando.

Eu mesmo já não entendo mais o que estou falando.

O garoto subiu para o cimento rachado. Olharam para os

quiosques silenciosos, desertos, onde livros e jornais eram antiga-mente negociados; havia também uma sapataria, uma loja de roupas de mulher e uma loja de armas (o pistoleiro, de repente cheio de en-tusiasmo, viu revólveres e rifles; um exame mais detido mostrou que os canos haviam sido tapados com chumbo; ainda assim ele pegou um arco, que pendurou nas costas, e um estojo de flechas, que pare-ciam inúteis e só fariam peso). Em algum lugar um exaustor não pa-rava de renovar o ar, como se fizesse aquilo há milhares de anos — embora talvez não fosse fazê-lo por muito mais tempo. Raspava em alguma coisa num certo ponto da rotação, o que serviu para lembrar que o moto-perpétuo, mesmo sob condições estritamente controla-das, ainda era um sonho louco. O ar possuía um cheiro mecânico. Os tênis do garoto e as botas do pistoleiro produziam ecos fortes.

— Ei! Ei... — gritou o garoto.

O pistoleiro se virou e se aproximou dele. Jake estava para-

do, atônito, no quiosque dos livros. No interior do quiosque, esten-dida num canto, havia uma múmia. Vestia um uniforme azul com insígnias douradas — parecia um uniforme de ferroviário. Havia um jornal antigo, perfeitamente conservado, no colo da coisa morta, mas o jornal se reduziu a pó quando o pistoleiro encostou a mão nele. A cara da múmia parecia uma maçã velha, murcha. Cuidadosamente, o pistoleiro tocou no rosto. Houve uma pequena aragem de poeira. Quando o ar clareou, puderam olhar através da pele e ver o interior da boca da múmia. Um dente de ouro cintilava.

— Gás — murmurou o pistoleiro. — Os antigos habitantes

fabricavam um gás que provocaria isto. Ou pelo menos foi o que Vannay nos contou.

— O sujeito que ensinava pelos livros.

— Sim. Ele.

— Aposto que esses antigos habitantes fizeram guerras com

este gás — disse o garoto num tom sombrio. — Mataram outros antigos habitantes com ele.

— Tenho certeza de que você tem razão.

Havia talvez uma dúzia de outras múmias. Todas, com exce-

ção de duas ou três, usavam o uniforme azul com insígnias douradas. O pistoleiro especulou que o gás devia ter sido usado com o lugar livre da maior parte do movimento de chegada e saída de pessoas. Talvez, nas brumas do passado, a estação tivesse sido alvo militar de algum exército e de alguma causa há muito desaparecidos.

Essa idéia o deprimiu.

— É melhor continuarmos — disse, começando a voltar pa-

ra a Via 10 e ao vagonete. O garoto, no entanto, ficou parado numa atitude de rebelião.

— Eu não vou.

O pistoleiro se virou, espantado.

O rosto do garoto estava contorcido e tremia. — Você só vai conseguir o que quer quando eu morrer. Vou

correr meus riscos sozinho.

O pistoleiro abanou a cabeça com um ar evasivo, odiando-se

pelo que ia fazer.

— Tudo bem, Jake — disse suavemente. — Tenha longos

dias e belas noites. — Deu meia-volta, atravessou as plataformas de pedra e pulou com ar determinado para o vagonete.

— Você fez um trato com alguém! — o garoto gritou atrás

dele. — Sabe que fez!

Sem responder, o pistoleiro pôs cuidadosamente o arco na

base da manivela que saía do piso do vagonete. Era ali que ficaria em segurança.

Os punhos do garoto estavam cerrados, as feições repuxadas

pelo desespero.

Com que facilidade você engana esse menino, disse o pisto-

leiro para si mesmo. Várias vezes a maravilhosa intuição do garoto — seu toque — conduziu-o a esse ponto, e várias vezes você conse-guiu que ele o ultrapassasse. Mas como a manobra pode ser difícil — afinal, você é seu único amigo.

Num súbito e simples pensamento (quase uma visão), ocor-

reu-lhe que talvez Jake tivesse razão e ele devesse parar com aquilo, dar meia-volta, pegar o garoto e transformá-lo no centro de uma no-va força. A Torre realmente não precisava ser conquistada num hu-milhante modo chorão, certo? Por que não retomar a busca depois que o garoto tivesse alguns anos a mais, quando então os dois pode-riam atirar o homem de negro para o lado como um barato brinque-do de corda?

Com toda a certeza, pensou cinicamente. Com toda a certe-

za.

Percebia com súbita frieza que voltar significaria a morte pa-

ra os dois — a morte ou coisa pior: um sepultamento com os Vagos Mutantes atrás deles. Uma deterioração de todas as faculdades, tal-vez com os revólveres do pai vivendo muito mais que os dois e sen-do conservados em infame esplendor, como totens não diferentes da esquecida bomba de gasolina.

Mostre alguma firmeza, disse falsamente para si mesmo. Estendeu a mão para a manivela e começou a bombear. O

vagonete começou a afastar-se das plataformas de pedra.

— Espere! — o garoto gritou. E começou a correr na diago-

nal para um ponto na escuridão, onde o vagonete emergeria. O pis-toleiro teve o impulso de acelerar, de deixar o garoto mais um pouco sozinho, pelo menos com alguma incerteza. Em vez disso, segurou-o quando ele pulou. Jake o abraçou, o coração sob a camisa fina ba-tendo com força e de modo irregular. O fim estava muito próximo agora.

O barulho do rio havia se tornado muito alto, enchendo até

os sonhos deles com seu trovão. O pistoleiro, antes como capricho que como qualquer outra coisa, deixou o garoto acionar a manivela enquanto atirava algumas péssimas flechas, amarradas por finos pe-daços brancos de fio, na escuridão.

O arco também era muito ruim, incrivelmente preservado

mas com uma terrível torção que impedia a pontaria, e o pistoleiro sabia que nada poderia melhorá-lo. Tentar regular a tensão do arco não ajudava a madeira cansada. As flechas não iam longe no escuro, mas a última que ele atirou voltou molhada e lustrosa. O pistoleiro abanou os ombros em dúvida, quando o garoto perguntou a que dis-tância ficava a água, mas não achava que a flecha pudesse ter se afas-tado mais que 60 metros do arco defeituoso — e seria uma sorte chegar tão longe.

No entanto, o trovejar do rio havia ficado mais alto, mais

perto.

Durante o terceiro período de vigília após a estação, uma

luminosidade espectral começou de novo a surgir. Haviam penetra-do num túnel comprido com alguma estranha rocha fosforescente, pois as paredes úmidas brilhavam e cintilavam com milhares de es-trias. O garoto chamou-as caudas de estrelas. Viram essas coisas co-mo uma espécie de assustadora surrealidade de trem fantasma.

O barulho feroz do rio era canalizado até eles pelas paredes

de rocha e tinha seu volume natural amplificado. O som, no entanto, permanecia estranhamente constante enquanto avançavam para o cruzamento que o pistoleiro tinha certeza que existia à frente, pois as paredes estavam se afastando, recuando. O ângulo da subida ficava mais pronunciado.

Os trilhos corriam pela nova luminosidade. Para o pistoleiro,

os feixes de caudas de estrelas lembravam os canudos de gás fedo-rento às vezes vendidos por uma pechincha na feira do Festival da Colheita; para o garoto lembravam intermináveis fileiras de tubos de neon. Mas, graças ao brilho que irradiavam, os dois puderam ver como a rocha que os rodeara durante tanto tempo terminava à fren-te, levando-os para duas plataformas, duas penínsulas denteadas que apontavam para um fosso de escuridão — um abismo sobre o rio.

Os trilhos logo começariam a se projetar sobre aquela des-

conhecida queda, suportados por um viaduto muito antigo. E ao longe, no que parecia uma distância incrível, havia um pequeno pon-to de luz, não fosforescente ou fluorescente, mas a sólida, a verda-deira luz do dia. Era tão minúsculo quanto uma picada de agulha num pano escuro, mas tremendamente repleto de significado.

— Pare — disse o garoto. — Pare um minuto. Por favor. Sem discutir, o pistoleiro deixou o vagonete diminuir a mar-

cha e parar. O barulho do rio era um ronco, um estrondo contínuo, que vinha de baixo e da frente. O brilho artificial da rocha úmida se tornou repentinamente insuportável. Pela primeira vez o pistoleiro sentiu uma mão claustrofóbica encostar nele, e o ímpeto de sair, de escapar daquele sepultamento em vida foi poderoso e quase incon-trolável.

— Vamos continuar — disse o garoto. — Não é o que ele

quer? Que a gente empurre o vagonete sobre... isso... e caia lá em-baixo?

O pistoleiro sabia que não era bem assim, mas disse: — Não sei o que ele quer.

Desceram para a linha e se aproximaram com cuidado da

beira da depressão. O leito de pedra sob seus pés continuou a se ele-var até que, com uma queda súbita, vertical, o chão desapareceu de-baixo dos trilhos e os trilhos continuaram sozinhos, através do escu-ro.

O pistoleiro caiu de joelhos e olhou para baixo. Pôde vaga-

mente discernir uma complexa, quase inacreditável rede de vigas e longarinas de aço, sumindo na direção do ronco do rio, todas supor-tando o gracioso arco dos trilhos através do vazio.

Pôde mentalmente imaginar o trabalho do tempo e da água

no aço, em mortal revezamento. Quanta resistência sobrava? Pouca? Praticamente nenhuma? Nenhuma? De repente, tornou a ver a face da múmia e o modo como a carne, aparentemente sólida, fora redu-zida a pó ante o simples toque de seu dedo.

— Vamos passar agora — disse o pistoleiro. Quase esperou que o garoto tornasse a reclamar, mas foi ele

próprio quem iniciou a travessia, começando a cruzar calmamente, com passos seguros, os chumbados batentes dos trilhos. O pistoleiro seguiu-o sobre o abismo, pronto para ampará-lo se ele desse um pas-so em falso.

O pistoleiro sentiu uma densa camada de suor cobrindo sua

pele. O viaduto estava deteriorado, bastante deteriorado. Com o im-petuoso movimento do rio muito lá embaixo, o viaduto rangia sob seus pés, oscilando ligeiramente nos invisíveis cabos de sustentação. Somos acrobatas, pensou ele. Olhe, Mãe, sem rede. Estou voando.

Em certo ponto, ajoelhou-se e examinou os dormentes que

atravessavam. Estavam marcados de buracos e torrões de ferrugem (podia sentir a razão no próprio rosto — ar fresco, o amigo do des-gaste; agora deviam estar muito próximos da superfície). Um forte golpe do punho fez o metal vibrar sinistramente. Em certo momen-to, o pistoleiro ouviu um rangido de advertência sob os pés e sentiu o aço iniciando um processo de ceder, mas já conseguira passar.

O garoto, é claro, era quase uns 50 quilos mais leve e só não

chegaria em segurança se o trajeto ficasse cada vez pior.

Atrás deles, o vagonete se fundira à escuridão geral. A plata-

forma de pedra à esquerda se estendia por uns 20 metros. Projetava-se mais que a da direita, mas também havia sido deixada para trás, e agora estavam sozinhos sobre o vazio.

A princípio pareceu que o diminuto raio de luz do dia conti-

nuava zombeteiramente constante (talvez mesmo se afastando deles no ritmo exato em que tentavam se aproximar — o que sem dúvida seria um belo truque de mágica), mas gradualmente o pistoleiro foi percebendo que o raio estava se alargando, ficando mais definido. Achavam-se ainda muito embaixo, mas os trilhos iam se elevando ao encontro dele.

O garoto teve uma exclamação de surpresa e de repente gui-

nou para o lado, os braços executando vagarosas e amplas revolu-ções. Pareceu ficar oscilando um tempo considerável na beira do abismo antes de recuperar o equilíbrio e continuar.

— Essa quase acabou comigo — disse em voz baixa, sem

emoção. — Há um buraco aqui. Pule se não quiser fazer um rápido vôo para o fundo. O mestre mandou: dê um passo de gigante.

Era um jogo que o pistoleiro conhecia como Mamãe Man-

dou, uma nítida lembrança das brincadeiras de infância com Cuth-bert, Jamie e Alain. Mas ele não disse nada, só ultrapassou o buraco.

O dormente em que o garoto havia pisado cedera quase de

todo e se inclinava preguiçosamente para baixo, balançando num rebite podre.

— Volte — disse Jake com ar sério. — Esqueceu de dizer:

“posso ir?”.

— Imploro seu perdão, mas acho que não vou voltar. Para cima, ainda para cima. Era uma caminhada de pesadelo

e por isso parecia muito mais comprida do que de fato era; o próprio ar pareceu se adensar, ficar como uma pasta, e o pistoleiro teve a sensação de estar antes nadando que caminhando. Repetidas vezes sua mente tentou se desviar da obsessiva, concentrada avaliação do terrível espaço entre o viaduto e o rio lá no fundo. Seu cérebro, no entanto, examinava a coisa nos mais ínfimos detalhes, com todos os seus componentes: o guincho do metal retorcido, cedendo, a guina-da quando o corpo deslizava para o lado, os dedos procurando para-peitos inexistentes, o rápido bater dos saltos das botas no aço traiço-eiro, enferrujado — e lá embaixo, ameaçando repetidamente, o início do jato quente no meio das pernas quando a bexiga cedia, a investida do vento contra seu rosto encrespando o cabelo para cima numa caricatura de pavor, puxando as pálpebras para trás, a água escura avançando em sua direção, mais rápida, superando inclusive seu próprio grito...

O metal rangia debaixo dele, mas ele o ultrapassava sem afo-

bação, dosando seu peso, não pensando em queda num momento tão crucial, não se preocupando em saber até onde já tinham avan-çado ou quanto ainda faltava. E também não pensando que o garoto pudesse ser sacrificável, e que a venda de sua honra estivesse agora, por fim, quase negociada. Mas que alívio seria quando o negócio es-tivesse concluído!

— Três dormentes faltando — o garoto disse friamente. —

Vou pular. Aqui! Bem aqui! Jerônimo!

Por um momento, o pistoleiro viu a silhueta de Jake contra a

luz do dia. Uma águia desajeitada e curva de braços estendidos, co-mo se em último caso restasse a possibilidade de voar. Quando ele pousou, toda a construção balançou embriagada com seu peso. O metal protestou e alguma coisa bem lá embaixo se soltou, primeiro com um ruído de quebra, depois com uma pancada na água.

— Pulou? — perguntou o pistoleiro.

— Pulei — disse o garoto —, mas está muito podre. Como

as idéias de certas pessoas, talvez. Acho que você não vai conseguir passar de onde está. Isto não agüenta. A mim sim, mas não a você. Volte. Volte agora e me deixe sozinho.

A voz era fria, mas por baixo havia uma histeria. Palpitava

como havia palpitado o coração de Jake quando ele pulou para o vagonete e Roland o segurou.

O pistoleiro pisou sobre a falha. Um grande passo. Um pas-

so de gigante. Mamãe, posso ir? Sim-você-pode. O garoto tremia sem poder fazer nada.

— Volte. Não quero que me mate.

— Pelo amor do Homem Jesus, ande — disse o pistoleiro

asperamente. — Isto vai cair com certeza se ficarmos aqui confabu-lando.

O garoto continuou tropegamente, as mãos trêmulas esten-

didas diante dele, os dedos esticados.

Avançaram.

Sim, estava muito mais podre agora. Havia freqüentes falhas

de um, dois, até mesmo três dormentes. O pistoleiro vivia a expecta-tiva constante de encontrar o longo espaço vazio entre os trilhos que ia obrigá-los a voltar, ou a caminhar pelos próprios trilhos, equili-brando-se vertiginosamente sobre o precipício.

Ele mantinha os olhos fixos na luz.

O clarão havia adquirido uma coloração — azul — e à me-

dida que se aproximavam, ficava mais suave, eclipsando a radiância das caudas de estrelas. Ainda faltava cobrir uns 50 ou 100 metros? Não sabia dizer.

Avançavam e agora o pistoleiro olhava para seus pés, pas-

sando de um dormente a outro. Quando tornou a erguer a cabeça, o clarão à frente se transformara num buraco, onde não havia apenas luz, mas uma saída. Estavam quase lá.

Trinta metros agora. Não mais que isso. Três mil pequenos

centímetros. Podia ser feito. Talvez ainda alcançassem o homem de preto. Talvez, no brilho da luz do sol, as flores do mal murchassem e tudo seria possível.

A luz do sol foi bloqueada.

O pistoleiro ergueu os olhos, sobressaltado, espreitando co-

mo toupeira de seu buraco, e viu o vulto tapando a luz, devorando-a, só deixando passar frestas de um azul ridículo ao redor do contorno dos ombros e pelo meio das pernas.

— Olá, rapazes!

A voz do homem de preto ecoou amplificada naquela natural

garganta de pedra, e o sarcasmo de seu bom humor assumiu podero-sos semitons. Cegamente, o pistoleiro procurou o maxilar, mas ele se fora, ficara perdido em algum lugar, gasto.

O homem de preto riu acima deles e o som ribombou ao re-

dor, ecoando como arrebentação de onda numa caverna da costa. O garoto gritou e oscilou, de novo girando os braços como um cata-vento no ar escasso.

O metal se rasgava e se desprendia embaixo deles, os trilhos

se inclinavam em vagarosa e fantástica torção. O garoto mergulhou, e a mão do pistoleiro voou como gaivota no escuro puxando-o para cima, para cima. Mas ele ficou pendurado no abismo; ficou ali balan-çando, os olhos pretos se levantando para encarar o pistoleiro num reconhecimento final e atônito.

— Me ajude.

E ressoando, fazendo barulho:

— Os jogos acabaram. Venha já, pistoleiro. Ou nunca vai

me pegar.

Todas as fichas na mesa. Todas as cartas expostas, com ex-

ceção de uma. O garoto balançando, uma carta viva de tarô, o En-forcado, o Marinheiro Fenício, um inocente perdido que mal conse-guia se manter sobre as ondas de um mar infernal. Espere aí, espere um pouco.

— Eu vou?

A voz dele é tão alta, fica difícil pensar.

— Me ajude. Me ajude, Roland.

O viaduto começara a se retorcer ainda mais, rangendo, sol-

tando-se de si mesmo, cedendo...

— Então vou deixar você.

— Não! NÃO vai!

As pernas do pistoleiro o impeliram num repentino salto,

rompendo a paralisia que o dominara. Foi um verdadeiro passo de gigante sobre o garoto pendurado, e ele aterrissou numa derrapada, ansiosamente concentrado na luz emitida pela imagem negra e quieta da Torre congelada em sua mente...

Para o repentino silêncio.

O vulto se foi, mesmo a batida do coração se foi quando o

viaduto afundou mais um pouco, começando a lenta dança final para as profundezas, desintegrando-se. A mão do pistoleiro encontrou a ponta rochosa e iluminada da danação; e atrás dele, no terrível silên-cio, a voz do garoto veio de muito longe.

— Vá então. Há outros mundos além deste. Aí o viaduto se rompeu de vez, com todo o peso de suas fer-

ragens; e ao se aprumar e seguir para a luz, para a brisa, para a reali-dade de um novo ka, o pistoleiro ainda virou a cabeça para trás, por um momento de agonia lutando para ser como Jano e conhecer o passado e o futuro — mas não havia nada, só um silêncio de chum-bo, pois o garoto não gritara ao cair.

Então Roland estava de pé, pisando na escarpa rochosa que

dava para uma planície verde, onde o homem de preto se achava de pernas abertas, os braços cruzados.

O pistoleiro parou cambaleante, pálido como um fantasma,

os olhos enormes se agitando sob a testa, a camisa manchada com a poeira branca de sua violenta arremetida final. Ocorreu-lhe que en-frentaria novos aviltamentos do espírito, coisas que talvez fizessem tudo aquilo parecer infinitesimal. E, no entanto ele ainda estaria fu-gindo de lá, descendo corredores e cruzando cidades, passando de uma cama a outra; fugiria da face do garoto e tentaria enterrá-la em bocetas e mortes, mesmo que entrasse num último quarto e o en-contrasse olhando para ele sobre uma chama de vela. Havia se trans-formado no garoto; o garoto havia se transformado nele. Estava se transformando no próprio lobisomem que inventara. Nas profunde-zas dos sonhos, ia virar o garoto e falar a língua da estranha cidade do garoto.

Isto é a morte. Não é? Não é?

Desceu devagar e trôpego a encosta rochosa para o lugar

onde o homem de preto estava à espera. Ali os trilhos desapareciam, sob o sol da razão, e era como se jamais tivessem existido.

O homem de preto tirou seu capuz com as costas de ambas

as mãos, rindo.

— Então! — ele gritou. — Não um final, mas o final do

começo, hã? Está progredindo, pistoleiro! Está progredindo! Ah, como eu admiro você!

O pistoleiro sacou os revólveres com fúria cega e atirou 12

vezes. Os disparos turvaram o próprio sol, e o barulho das detona-ções ricocheteou pela superfície de rocha nas escarpas atrás deles.

— Bom-bom — disse o homem de preto, rindo. — Ah,

bom-bom-bom. Fazemos mágicas incríveis juntos, eu e você. Você não me mata mais do que mata a si mesmo.

Ele foi se retirando, andando de costas, encarando o pistolei-

ro, sorrindo e acenando.

— Venha. Venha. Venha. Mamãe, posso ir? Sim-você-pode. O pistoleiro o seguiu com suas botas surradas até o local de

confabulação.