O Pistoleiro

Stephen King · Capítulo 2 de 7

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O Pistoleiro

A maior parte do que os escritores…

Prefácio

 

A maior parte do que os escritores escrevem sobre seu traba-

lho é besteira mal contada. 1 É por isso que você nunca viu um livro intitulado Os Cem Melhores Prefácios da Civilização Ocidental ou Preâmbulos Favoritos do Povo Americano. É claro que isso é um julgamento de valores da minha parte, mas, depois de escrever pelo menos 50 introduções e prefácios — para não falar de um livro in-teiro sobre a arte da ficção —, acho que tenho direito a ele. E acho que você deve me levar a sério quando digo que posso estar numa daquelas raras ocasiões em que tenho algo que realmente vale a pena ser dito.

Alguns anos atrás, criei certo furor entre meu leitores ao a-

presentar uma versão revista e ampliada de meu romance A Dança da Morte. Fiquei justificadamente apreensivo acerca do livro porque A Dança da Morte sempre foi a história de que meus leitores mais gostavam (no que diz respeito aos fãs mais incondicionais da Dança, eu poderia ter morrido em 1980 sem que o mundo se tornasse um lugar perceptivelmente mais pobre).

Se há uma história que rivaliza com A Dança da Morte na

imaginação dos leitores de King, é provavelmente o romance de Ro-land Deschain e sua busca da Torre Negra. E agora — porra! — a-cabei fazendo de novo a mesma coisa.

Só que não fiz, não de verdade, e quero que saiba disso.

Também quero que fique sabendo o que eu realmente fiz, e por quê. Talvez para você não tenha importância, mas é muito importante para mim, e por isso este prefácio fica isento (eu espero) da Regra da Besteira do King.

Primeiro, por favor não esqueça que A Dança da Morte so-

freu cortes profundos no original — não por razões editoriais, mas financeiras (também houve limitações de acabamento, mas não que-ro chegar tão longe). O que repus no fim dos anos 80 foram seções já revistas do manuscrito preexistente. Também revisei o trabalho como um todo, atento principalmente ao conhecimento da epidemia

 

1 Para uma discussão mais completa do Fator Besteira, ver On Writing, publicado pela Scribner’s em 2000. de AIDS, que floresceu (se assim se pode dizer) entre a primeira edi-ção de A Dança da Morte e a publicação da versão revista oito ou nove anos depois. O resultado foi um volume com cerca de 100 mil palavras a mais que o original.

No caso de O Pistoleiro, o volume original era fino e o ma-

terial acrescentado nesta versão não passa de 35 páginas, cerca de nove mil palavras. Se você já leu O Pistoleiro, só encontrará aqui duas ou três cenas totalmente novas. Os puristas da Torre Negra (que existem em número surpreendente — dê uma olhada na inter-net) vão querer ler novamente o livro, é claro, e a maior parte deles será capaz de fazê-lo com um misto de curiosidade e irritação. En-tendo isso, mas tenho de dizer que estou menos preocupado com eles que com os leitores que nunca se depararam com Roland e seu ka-tet.2

A despeito de ter fervorosos seguidores, a história da Torre é

bem menos conhecida por meus leitores que A Dança da Morte. Às vezes, quando faço palestras, peço a quem já leu um ou mais de meus livros que levante a mão. Pelo simples fato de se terem dado ao trabalho de estar lá — o que às vezes inclui a inconveniência de ter de chamar uma baby-sitter e arcar com a despesa adicional da gasolina no velho automóvel —, não é de admirar que a maior parte dos presentes levantem a mão. Então, peço que mantenham as mãos levantadas se já leram uma ou mais histórias da Torre Negra. Quan-do digo isso, pelo menos metade das mãos invariavelmente se abai-xa. A conclusão é bastante clara: embora eu tenha gasto uma exces-siva quantidade de tempo escrevendo os livros da série nos 33 anos entre 1970 e 2003, relativamente poucas pessoas os leram. Aqueles que o fizeram, no entanto, ficaram apaixonados, e eu mesmo me senti consideravelmente assim — pelo menos a ponto de nunca dei-xar Roland escapar para aquele exílio que é a infeliz morada de per-sonagens mal acabados (pense nos peregrinos de Chaucer a caminho de Canterbury ou na gente que povoava o último e inacabado ro-mance de Charles Dickens, O Mistério de Edwin Drood).

Acho que eu sempre presumi (em algum lugar no fundo da

minha mente, pois não me lembro de ter pensando nisso de modo consciente) que haveria tempo para terminar, que talvez Deus me mandasse um telegrama cantado na hora combinada: “Dim-dom-

2 Aqueles ligados pelo destino. dom, dim-dom-dom, / Volte ao trabalho, Stephen, / Acabe a Tor-re”. E, de certa forma, realmente aconteceu algo parecido, embora não se tratasse de um telegrama cantado, mas de contato imediato com a pequena van Plymouth que me faria recomeçar. Se o carro que me atingiu naquele dia fosse um pouco maior ou se a batida fos-se um pouco mais direta, teria sido um caso de por favor não man-dem flores, a família King agradece os votos de pesar. E a busca de Roland teria permanecido para sempre inacabada, ao menos por mim.

Seja como for, em 2001 — época em que eu já começara a

me sentir de novo mais autoconfiante —, decidi que estava na hora de acabar a história de Roland. Pus tudo de lado e comecei a traba-lhar nos últimos três livros. Como sempre, fiz isso não tanto para os leitores que o exigiam, mas para mim mesmo.

Ainda que no inverno de 2003, quando escrevo isto, as revi-

sões dos últimos dois volumes ainda não tenham sido feitas, os li-vros em si foram terminados no verão passado. E no intervalo entre o trabalho editorial com o Volume Cinco (Lobos de Calla) e o Vo-lume Seis (Canção de Susannah), decidi que estava na hora de voltar ao começo e iniciar as últimas revisões completas. Por quê? Porque na realidade estes sete volumes jamais foram histórias distintas, mas partes de um mesmo romance extenso chamado A Torre Negra, e o início estava fora de sincronia com o final.

Minha abordagem da revisão não tem se alterado muito nos

últimos anos. Sei que certos escritores revêem à medida que vão es-crevendo, mas meu método de ataque sempre foi mergulhar de ca-beça e avançar o mais depressa possível, mantendo o gume da lâmi-na da narrativa o mais afiado possível pelo uso constante, e tentando ultrapassar o inimigo mais insidioso do escritor, que é a dúvida. O-lhar para trás inspira perguntas demais: Até que ponto meus perso-nagens são verossímeis? A história é mesmo interessante? Até que ponto é realmente boa? Alguém vai gostar dela? Eu vou gostar?

Quando meu primeiro rascunho de um livro fica pronto, eu

o ponho de lado, com tudo que ele tem de ruim, para amadurecer. Algum tempo depois — seis meses, um ano, dois anos, realmente não importa —, consigo voltar a ele com um olhar mais frio (embo-ra ainda amoroso) e dou início à tarefa de rever. E ainda que cada livro da série da Torre fosse revisto como entidade separada, conse-gui realmente ver a obra como um todo ao terminar o Volume Sete, A Torre Negra.

Quando tornei a olhar para o primeiro volume, que agora

você tem em mãos, três verdades evidentes se apresentaram. A pri-meira foi que O Pistoleiro havia sido escrito por um homem muito jovem e tinha todos os problemas do livro de um homem muito jo-vem. A segunda foi que continha uma grande quantidade de lapsos e falsos pontos de partida, particularmente à luz dos volumes que vie-ram depois.3 A terceira foi que O Pistoleiro não era sequer parecido com os últimos livros — era, francamente, um tanto difícil de ler. Com muita freqüência eu me ouvia me desculpando por ele, dizendo que, se as pessoas perseverassem, veriam a história encontrar sua verdadeira voz em A Escolha dos Três.

Em determinado ponto de O Pistoleiro, Roland é descrito

como o tipo de homem que alinharia quadros em quartos de hotéis desconhecidos. Eu mesmo sou esse tipo de cara e, até certo ponto, isso é tudo que reescrever significa: endireitar os quadros, passar as-pirador no chão, esfregar os banheiros. Executei muitas tarefas do-mésticas no transcurso desta revisão e tive a oportunidade de fazer o que qualquer escritor quer fazer com um trabalho que está pronto mas ainda precisa de um polimento e uma regulada: simplesmente fazer direito. A partir do momento em que você sabe como as coisas funcionam, você deve isso ao leitor potencial — e a você mesmo: volte e ponha as coisas em ordem. Foi o que tentei fazer aqui, tendo sempre o cuidado de impedir que algum acréscimo ou alteração dei-xasse escapar os segredos ocultos nos últimos três livros do ciclo, segredos que, em certos casos, venho pacientemente guardando a nada menos de 30 anos.

Antes de encerrar, gostaria de dizer uma palavra sobre o

homem mais novo que se atreveu a escrever este livro. O jovem se expusera a um número excessivo de seminários sobre a escrita e aca-bara se ajustando demais às idéias que aqueles seminários propagam: que a pessoa não está escrevendo para outra pessoa, mas para si mesma; que a linguagem é mais importante que a história; que a am-

3 Um exemplo provavelmente servirá por todos. No texto da edi-ção anterior de O Pistoleiro, Farson é o nome de uma pequena cidade. Em volumes posteriores, acaba se tornando o nome de um homem: o rebelde John Farson, que arquiteta a queda de Gilead, a cidade-estado onde Roland passa a infância. bigüidade é preferível à clareza e à simplicidade, indícios, geralmente, de mente grosseira e literal. Como resultado, não fiquei surpreso ao encontrar um alto grau de pretensão na primeira aparição de Roland (para não mencionar o surgimento de milhares de advérbios desne-cessários). Removi o máximo que pude da tagarelice vazia e não la-mento um só corte nesse sentido. Em outros pontos — invariavel-mente naqueles em que fui induzido a esquecer as idéias do seminá-rio de escrita por algum episódio particularmente envolvente da his-tória —, pude deixar o texto quase inteiramente em paz, salvo pelos detalhes habituais de revisão que qualquer escritor precisa observar. Como já assinalei em outro lugar, só Deus faz as coisas certas logo da primeira vez.

Seja como for, não quis sufocar ou mesmo alterar demais o

modo como a história fora contada; apesar de todos os defeitos, ela tem seu próprio encanto, acho eu. Alterá-la de forma muito radical seria repudiar a pessoa que escreveu pela primeira vez sobre o pisto-leiro no final da primavera e início do verão de 1970, e isso eu não quis fazer.

O que eu realmente quis fazer — e, se possível, antes de saí-

rem os últimos volumes da série — foi dar aos recém-chegados à história da Torre (e aos velhos leitores que quiserem refrescar suas lembranças) um ponto de partida mais claro e um acesso ligeiramen-te mais fácil ao mundo de Roland. Também quis que tivessem um volume que antecipasse mais efe-tivamente acontecimentos futuros. Espero ter conseguido. E se você for um dos que jamais visitou o mundo estranho no qual Roland se move com seus amigos, espero que desfrute as maravilhas que encontrará por lá.

Mais que qualquer outra coisa, eu quis contar uma história de

espanto. Se você se descobrir caindo sob o feitiço da Torre Negra, mesmo que só um pouco, vou considerar cumprido meu trabalho, que começou em 1970 e, no geral, acabou em 2003. Roland, contu-do, seria o primeiro a salientar que tal intervalo de tempo não signi-fica grande coisa. De fato, quando alguém anda à procura da Torre Negra, o tempo é um assunto que não tem absolutamente nenhuma importância.

6 de fevereiro de 2003

...uma pedra, uma folha, uma porta não encontrada; de uma

folha, uma pedra, uma porta. E de todos os rostos esquecidos.

Nus e sozinhos entramos no exílio. Em seu útero escuro,

não reconhecemos o rosto de nossa mãe; da prisão de sua carne vi-emos entrar na indizível e incomunicável prisão desta terra.

Algum de nós conheceu seu irmão? Algum de nós investigou

o coração de seu pai? Algum de nós não permaneceu para sempre prisioneiro-encurralado? Algum de nós não é para sempre um estra-nho sozinho?

...Oh fantasma perdido, e pelo vento tocado, volte outra vez.

Thomas Wolfe Look Homeward, Angel