O Pistoleiro

Stephen King · Capítulo 4 de 7

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O Pistoleiro

Capítulo 2 · O Posto de Parada

 

Uma canção de ninar rodara o dia inteiro em sua mente, o

tipo de coisa enlouquecedora que não passa, que ignora zombetei-ramente todas as ordens da mente consciente para cessar e desistir. A canção dizia:

A chuva na Espanha cai sobre o campo

Há contentamento e há também o pranto

mas a chuva na Espanha cai sobre o campo.

A vida macula o tempo santo

Todas as coisas que conhecemos mudam

E tudo permanece igual,

mas seja você maluco ou normal,

a chuva na Espanha cai sobre o campo.

Anda-se enamorado, mas se voa amarrado

E os aviões na Espanha caem de lado.

Não sabia o que eram aqueles aviões no contexto do último

verso da cantiga, mas ao menos sabia por que a cantiga tinha lhe o-corrido. Sonhara repetidamente com seu quarto no castelo e com sua mãe, que a cantara para ele, solenemente deitado na caminha perto da janela de muitas cores.

Ela não a cantava nas horas de dormir à noite, porque todos

os meninos nascidos para a Fala Superior têm de enfrentar a escuri-dão sozinhos, mas cantava nas horas da sesta e ele conseguia lembrar do chuvisco cinzento e pesado que tremia nos arco-íris sobre as co-bertas da cama; podia sentir a serenidade do quarto e o pesado calor dos cobertores, o amor pela mãe e seus lábios vermelhos, a obcecan-te melodia da letra absurda, e a voz dela.

Agora, enquanto andava, a coisa voltava loucamente, como

um cachorro correndo atrás da cauda em sua mente. Toda a água se acabara e ele sabia que, muito provavelmente, já podia se considerar um homem morto. Nunca esperou que a coisa chegasse àquele pon-to, e lamentava. Desde meio-dia vinha olhando antes para seus pés que para o caminho à frente. Ali, mesmo a erva do diabo crescera mirrada e amarela. A terra dura se dissolvera, em certos pontos, em mero cascalho. Não dava para perceber se as montanhas estavam mais próximas, embora tivessem transcorrido 16 dias desde que dei-xara a cabana do último colono, um sujeito meio maluco na orla do deserto. O homem tinha um pássaro, o pistoleiro lembrava, mas não conseguia lembrar do nome do pássaro.

Via os pés subirem e descerem como os fios de uma mario-

nete, ouvia a cantiga absurda ecoar como uma dolorosa desafinação em sua cabeça, e se perguntou quando ia cair pela primeira vez. Não queria cair, embora não existisse ninguém para vê-lo. Era uma ques-tão de orgulho. Um pistoleiro conhece o orgulho, aquele osso invisí-vel que mantém o pescoço reto. O que não herdara do pai lhe fora incutido pelo Cort, um garoto cavalheiro, se é que isso pôde existir. Cort, sim, com a curvatura vermelha do nariz e o rosto marcado.

Parou e ergueu bruscamente os olhos. Isto fez sua cabeça

zumbir e, por um momento, todo o seu corpo pareceu flutuar. As montanhas ficaram irreais no horizonte distante. Havia, no entanto, mais alguma coisa à frente, algo muito mais perto. Talvez a menos de dez quilômetros. Contraiu os olhos, mas a visão parecia turvada pela areia e ofuscada pelo sol. Balançou a cabeça e recomeçou a an-dar. A cantiga se repetia e zumbia. Cerca de uma hora depois, caiu e esfolou as mãos. Olhou para as pequenas gotas de sangue na pele arranhada com ar descrente. O sangue não parecia mais fino; parecia como qualquer sangue, agora se dispersando no ar. Parecia quase tão asseado quanto o deserto. Limpou as gotas com a mão, sentindo um ódio cego por elas. Asseado? Por que não? O sangue não era seco. O sangue estava sendo servido. O sangue estava sendo vertido como em sacrifício. Sacrifício de sangue. Tudo que o sangue precisava fa-zer era correr... correr... correr.

Olhou para os salpicos que tinham caído na terra dura e viu-

os serem sugados de uma forma estranhamente rápida. O que acha disso, sangue? Como você entra nisso?

Ó Jesus, estou exausto.

Levantou-se, com as mãos contra o peito, e a coisa que vira

antes estava quase na sua frente, tão perto que o fez gritar — um grasnar de corvo sufocado pela poeira. Era um galpão. Não, dois galpões de madeira rodeados por uma cerca caída. A madeira parecia velha, frágil ao ponto da fantasia; era madeira se metamorfoseando em areia. Um dos galpões fora um estábulo — a forma era clara, in-confundível. O outro era uma moradia ou uma estalagem. Um posto de parada para a linha de diligências. O arruinado estábulo de areia (o vento encrustara a madeira com grãos até deixá-la parecida com um castelo de areia que o sol tivessse surpreendido na maré baixa e endurecido, tornando possível sua permanência temporária) lançava uma fina linha de sombra e havia alguém sentado na sombra, verga-do contra a parede. E a parede parecia vergar com o peso dele.

Ele, então. Finalmente. O homem de preto. O pistoleiro continuava com as mãos no peito, inconsciente

do caráter artificial de sua postura, e contraiu os olhos. Mas em vez da tremenda onda de entusiasmo (ou talvez de medo, ou espanto) que havia esperado, não havia nada além da sombria, atávica culpa pelo ódio súbito, brutal de seu próprio sangue momentos atrás, e o interminável tatibitate da canção de ninar:

... a chuva na Espanha...

Avançou, puxando um dos revólveres.

... cai sobre o campo.

Venceu os últimos 500 metros numa corrida decidida, espa-

lhafatosa, sem tentar se esconder; não havia nada onde pudesse se esconder. Sua sombra curta corria atrás dele. Não tinha idéia de que seu rosto se transformara numa cinzenta e empoeirada máscara mor-tuária da exaustão; não tinha idéia de nada a não ser do vulto na sombra. Só mais tarde lhe passaria pela cabeça que o vulto podia até já estar morto.

Pisou numa das cercas caídas (a madeira quebrou sem fazer

barulho, quase num tom de desculpas) e investiu pelo ofuscante e silencioso pátio do estábulo, apontando o revólver.

— Está na minha mira! Está na minha mira! Levante as

mãos, seu filho-da-puta, você está...

O vulto se moveu tropegamente e ficou de pé. O pistoleiro

pensou: Meu Deus, nunca vi ninguém tão acabado, que aconteceu a ele? Pois o homem de negro encolhera mais de meio metro e o cabe-lo tinha ficado branco.

O pistoleiro hesitou, estupefato, a cabeça zumbindo de mo-

do dissonante. O coração disparava num ritmo fantástico. Vou mor-rer aqui..., ele pensou.

Sugou o imaculado calor do ar para os pulmões e curvou um

instante a cabeça. Quando tornou a erguê-la, viu que não era o ho-mem de preto, mas um garoto com cabelo descolorido pelo sol, fi-tando-o com olhos que não pareciam muito interessados. O pistolei-ro o encarou com ar confuso e balançou a cabeça numa negativa. O garoto ressuscitou sua desconfiança nas coisas que via; o garoto era uma forte ilusão. Usava uma calça jeans azul com remendo num dos joelhos e uma camisa marrom de tecido rude.

O pistoleiro tornou a balançar a cabeça e continuou a andar

para o estábulo de olhos baixos, mas com o revólver na mão. Ainda não conseguia pensar. Tinha a cabeça cheia de fragmentos e havia uma enorme, palpitante dor crescendo dentro dela.

O interior do estábulo era silencioso, escuro e tremendamen-

te quente. O pistoleiro olhou ao redor com pupilas grandes e agita-das. Deu uma meia-volta cambaleante e viu o garoto de pé na porta arruinada, olhando para ele. Uma pontada de dor deslizou surda-mente para sua cabeça, dilacerando-a de uma têmpora a outra, divi-dindo seu cérebro como uma laranja. Tornou a pôr o revólver no coldre, oscilou, estendeu as mãos como para repelir fantasmas, e caiu de frente no chão.

Quando acordou, estava de costas e tinha uma pilha de feno

macio e sem cheiro sob a cabeça. O garoto não fora capaz de movê-lo, mas o deixara razoavelmente confortável. E estava fresco. Olhou para o peito e viu que sua camisa estava escura e úmida. Passou a língua pelos lábios e sentiu o gosto de água. Piscou os olhos. A lín-gua pareceu se dilatar na boca.

O garoto estava agachado ao lado dele. Ao ver que o pisto-

leiro abrira os olhos, estendeu a mão e passou-lhe uma caneca de metal amassada cheia d’água. Ele agarrou-a com mãos trêmulas e se permitiu beber um pouco — só um pouco. Quando a água desceu e pousou em sua barriga, bebeu um pouco mais. Depois derramou o resto na cara e deu uma série de sopradas nervosas. Os simpáticos lábios do garoto se curvaram num sorriso breve e solene.

— Vai querer alguma coisa para comer, senhor? — Ainda não — disse o pistoleiro. Tinha ainda uma dor en-

joada na cabeça por causa da insolação e a água parecia incômoda no estômago, como se ela não soubesse para onde ir. — Quem é você?

— Meu nome é John Chambers. Pode me chamar de Jake.

Tenho uma amiga... bem, mais ou menos amiga, ela trabalha para nós... que às vezes me chama de ‘Bama, mas pode me chamar de Jake.

O pistoleiro se sentou e a dor enjoada se tornou imediata-

mente intensa. Ele se inclinou para a frente e perdeu uma breve ba-talha com seu estômago.

— Tem mais — disse Jake, pegando a caneca e indo para os

fundos do estábulo. Fez uma pausa e virou a cabeça, sorrindo com hesitação. O pistoleiro abanou afirmativamente a cabeça, depois a-baixou-a e sustentou-a com as mãos. O garoto tinha um bom físico, uma cara agradável, talvez uns dez ou 11 anos. Uma sombra de me-do transparecera em sua expressão, mas não fazia mal; o pistoleiro teria confiado muito menos se ele não tivesse mostrado medo.

Um zumbido estranho e forte começou nos fundos do está-

bulo. O pistoleiro ergueu a cabeça atentamente, as mãos se aproxi-mando dos cabos dos revólveres. O barulho durou talvez uns 15 segundos e depois parou. O garoto voltou com a caneca — agora cheia.

De novo o pistoleiro bebeu com parcimônia, e desta vez foi

um pouco melhor. A dor na cabeça estava passando.

— Não soube o que fazer quando você caiu — disse Jake.

— E, por alguns segundos, achei que ia atirar em mim.

— Talvez fosse. Confundi você com outra pessoa. — Com o pastor?

O pistoleiro ergueu bruscamente a cabeça. O garoto exami-

nou-o com ar sério.

— Ele acampou no terreno. Eu estava na casa lá embaixo.

Que talvez seja um depósito. Não gostei dele, por isso não saí. Che-gou à noite e foi embora no dia seguinte. Eu também teria me es-condido de você, mas estava dormindo quando chegou. — Olhou sombriamente sobre a cabeça do pistoleiro. — Não gosto de pesso-as. Elas me ferraram.

— Como era o homem?

— Parecia um pastor — disse o garoto dando de ombros. —

Estava usando roupas pretas.

— Um capuz e uma beca?

— O que é uma beca?

— É uma túnica. Parece um manto.

O garoto abanou a cabeça.

— Era mais ou menos isso.

O pistoleiro se inclinou para a frente e alguma coisa em seu

rosto fez o garoto se encolher um pouco.

— Há quanto tempo foi? Me conte, pelo bem de seu pai. — Eu... Eu...

— Não vou machucá-lo — disse pacientemente o pistoleiro. — Eu não sei. Não me lembro quando foi. Os dias são to-

dos iguais.

Pela primeira vez o pistoleiro teve consciência de se pergun-

tar como o garoto fora parar num lugar cercado por tantos quilôme-tros de deserto seco e matador de gente. Mas não transformaria isto numa preocupação, pelo menos ainda não.

— Tente chegar o mais perto possível. Foi há muito tempo? — Não. Não muito. Eu mesmo não estou aqui há muito

tempo.

A chama acendeu de novo nos olhos do pistoleiro. Ele agar-

rou a caneca e bebeu um gole mínimo, com mãos trêmulas. Um fragmento da canção de ninar voltou, mas agora, em vez do rosto da mãe, viu a cara marcada de Alice, que fora sua namorada na extinta cidade de Tull.

— Uma semana? Duas? Três?

O garoto olhou-o com um ar meio tonto.

— Sim.

— Qual delas?

— Uma semana. Ou duas. — Olhou para o lado, ficando

um pouco vermelho. — Três sufocos atrás, é só assim que sei medir as coisas agora. Ele nem bebeu. Achei que pudesse ser o fantasma de um padre, como no filme que eu vi, só que o Zorro percebeu que não era absolutamente um padre nem um fantasma. Era só um ban-queiro querendo uma terra por que havia ouro lá. A senhora Shaw me levou para ver esse filme. Foi em Times Square.

Nada disso tinha o menor sentido para o pistoleiro, que não

fez comentários.

— Fiquei com medo — disse o garoto. — Fiquei quase todo

o tempo com medo. — Seu rosto trepidou como cristal na última e destrutiva extensão da nota mais alta. — Nem chegou a fazer uma fogueira. Só ficou sentado ali. Nem sei se chegou a dormir.

Perto! Mais perto do que jamais tinha estado, pelos deuses!

Apesar da extrema desidratação, suas mãos pareciam ligeiramente úmidas; gordurosas.

— Aqui tem um pouco de carne-seca — disse o garoto. — Está bem. — O pistoleiro abanou a cabeça. — Bom.

O garoto se levantou para ir buscá-la, os joelhos estalando li-

geiramente. Tinha um belo porte. O deserto ainda não o abatera. Os braços eram finos, mas a pele, embora queimada de sol, não era seca nem rachada. Ele tem seiva vital, o pistoleiro pensou. Talvez tam-bém tenha um pouco de areia nos miolos ou teria pegado um dos meus revólveres e me matado quando eu estava desacordado.

Ou talvez o garoto simplesmente não tivesse pensado nisso. O pistoleiro tornou a beber da caneca. Com ou sem areia

nos miolos, ele não é deste lugar.

Jake voltou com um monte de carne-seca no que parecia

uma tábua de carne lascada pelo sol. A carne era dura, cheia de ner-vos e salgada o bastante para fazer o ulcerado céu da boca do pisto-leiro protestar. Ele comeu e bebeu até se sentir pesado e se recostou. O garoto só comeu um pouco, pegando as fibras escuras com uma estranha delicadeza.

O pistoleiro o olhava, e o garoto devolvia o olhar com bas-

tante franqueza.

— De onde você veio, Jake? — ele perguntou por fim. — Não sei. — O garoto fechou a cara. — Eu já soube. Sabia

quando cheguei aqui, mas agora tudo ficou confuso, como um pesa-delo visto por quem já acordou. Tenho muitos pesadelos. A senhora Shaw costumava dizer que era porque eu via muitos filmes de terror no canal 11.

— O que é um canal? — Uma idéia absurda ocorreu ao pis-

toleiro. — É como um raio de luz?

— Não... É na tevê.

— O que é teevêê?

— Eu... — O garoto pôs a mão na testa. — São imagens. — Alguém o trouxe até aqui? A senhora Shaw? — Não — disse o garoto. — Eu só estava aqui. — Quem é a sra. Shaw?

— Não sei.

— Por que ela o chamava de ‘Bama?

— Não me lembro.

— Você não está falando coisa com coisa — disse o pistolei-

ro secamente.

De imediato, o garoto pareceu à beira do choro. — Não posso fazer nada. Eu simplesmente apareci aqui. Se

me perguntasse sobre a tevê e os canais que assisti ontem, aposto que ainda podia ter lembrado! Amanhã provavelmente não vou me lembrar sequer de que me chamo Jake... a não ser que você me diga, mas não vai estar mais aqui, certo? Você vai embora e vou morrer de fome porque comeu quase toda a minha comida. Não pedi para estar aqui. Não gosto daqui. É mal-assombrado.

— Não sinta tanta pena de si próprio. Seja positivo. — Não pedi para estar aqui — o garoto repetiu num desnor-

teado tom de desafio.

O pistoleiro comeu outro pedaço de carne, cuspindo o sal

antes de engolir. O garoto se tornara parte da coisa e o pistoleiro estava convencido de que dizia a verdade — o garoto não pedira aquilo. O que era muito mau. Ele, por exemplo... ele havia procura-do aquilo. Mas não pedira que o jogo se tornasse tão sujo. Não pedi-ra para ser obrigado a voltar seus revólveres contra os habitantes de Tull; não pedira para matar Allie, com a beleza triste do rosto mar-cada pelo segredo a que acabara pedindo para ter acesso por meio daquela palavra, dezenove, como chave numa fechadura; não pedira para ter de se defrontar com uma escolha entre o dever e o assassi-nato aberto. Não era justo mexer com espectadores inocentes, fazê-los dizer coisas que não entendiam num palco estranho. Allie, ele pensou, Allie pelo menos fazia parte daquele mundo, ainda que de um modo fantasioso. Mas aquele garoto... aquele maldito garoto...

— Conte o que consegue lembrar — o pistoleiro disse a Ja-

ke.

— É pouca coisa. E já não parece fazer nenhum sentido. — Conte. Talvez eu possa descobrir o sentido. O garoto não sabia como começar. Parecia muito concen-

trado.

— Havia um lugar... o lugar antes deste. Um grande lugar

com muitos alojamentos e pátios de onde se podia ver prédios altos e água. Havia uma estátua pousada na água.

— Uma estátua na água?

— Sim. Uma senhora com uma coroa, uma tocha e... acho

que... um livro.

— Não está inventando isto?

— É, vai ver que estou — disse o garoto num tom abatido.

— Havia coisas para andar nas ruas. Coisas grandes e pequenas. As grandes eram azuis e brancas. As pequenas eram amarelas. Havia um monte de amarelas. Eu ia a pé para a escola. Havia trilhas de cimento dos lados das ruas. Janelas de vidro para serem espiadas e outras es-tátuas usando roupas. As estátuas vendiam as roupas. Sei que parece loucura, mas as estátuas vendiam as roupas.

O pistoleiro sacudiu a cabeça e procurou a mentira na ex-

pressão do garoto. Não viu nenhuma.

— Eu ia a pé para a escola — o garoto repetiu num tom

obstinado. — E tinha um... — seus olhos quase fecharam e os lábios se moveram com hesitação — uma... mochila... marrom. Eu carre-gava um lanche. E andava — de novo a hesitação, uma aflita hesita-ção — com uma gravata.

— Uma gravata?

Os dedos do garoto fizeram um lento e inconsciente movi-

mento de aperto na garganta, que o pistoleiro associou a enforca-mento.

— Tudo simplesmente acabou — disse Jake, olhando para o

lado.

— Posso colocá-lo para dormir? — o pistoleiro perguntou. — Não estou com sono.

— Posso deixá-lo com sono e posso fazê-lo se lembrar das

coisas.

Com ar de dúvida, Jake perguntou:

— Como ia conseguir?

— Com isto.

O pistoleiro removeu uma das balas do cinturão e começou

a girá-la entre os dedos. O movimento era habilidoso, fluindo como óleo. A bala saltava naturalmente do polegar e indicador ao indica-dor e médio, do médio e anular ao anular e mindinho. Saía de vista e reaparecia; parecia flutuar brevemente, depois caía. A bala andava entre os dedos do pistoleiro. Os próprios dedos marchavam como os pés tinham marchado nos últimos quilômetros em direção àquele lugar. O garoto observava, a dúvida inicial substituída primeiro pelo simples deleite, depois pelo êxtase, depois pelo início do vazio men-tal. Os olhos logo se fecharam. A bala dançava de um lado para o outro. Os olhos de Jake tornaram a se abrir, captaram por mais al-guns instantes o firme, límpido movimento entre os dedos do pisto-leiro e mais uma vez se fecharam. O pistoleiro continuou o malaba-rismo, mas os olhos de Jake não voltaram a se abrir. O garoto respi-rava com uma tranquilidade lenta e regular. Aquele garoto teria de entrar em seu caminho? Sim. Teria. Havia uma certa beleza severa na coisa, como nos pequenos arabescos de água azulada que se agitam entre placas de gelo. Mais uma vez pareceu ouvir a mãe cantando, desta vez não o absurdo sobre a chuva na Espanha, mas um absurdo mais suave, vindo de uma grande distância, enquanto ele próprio oscilava na beira do sono: Bebê-cabeça, bebê amado, bebê me traga aqui sua cesta. Não pela primeira vez, o pistoleiro sentiu o gosto ma-cio, quente da saudade. A bala em seus dedos, manejada com arte tão original, tornou-se de repente horripilante, o rastro de um mons-tro. Deixou-a cair na palma da mão, fechou o punho e apertou-a com extrema força. Se a bala tivesse explodido naquele momento, teria se alegrado com a destruição da mão talentosa, que só tinha talento, na realidade, para o assassinato. Sempre existiram homicí-dios no mundo, mas dizer isso não servia de consolo. Havia homicí-dio, havia estupro, havia práticas execráveis e tudo isso era para o bem, o sangrento bem, o sangrento mito, para o graal, para a Torre. Ah, a Torre permanecia em algum lugar no meio das coisas (assim costumavam dizer), erguendo a massa cinza-escura para o céu, e em seus ouvidos polidos pelo deserto o pistoleiro ouviu o som baixo, suave da voz da mãe: Rifle, pocotó, cabeça, traga o bastante para encher a cesta.

Pôs a cantiga, e a doçura da cantiga, de lado. — Onde você está? — perguntou.

Jake Chambers — às vezes Bama — está descendo as esca-

das com sua mochila. Leva um livro chamado Ciência da Terra, ou-tro, Geografia, um bloco de notas, um lápis, um lanche que a senho-ra Greta Shaw, cozinheira da mãe, preparou para ele na cozinha de fórmica cromada onde um exaustor zumbe eternamente, sugando odores estranhos. Na lancheira leva manteiga de amendoim, um pão com geléia, um cachorro-quente com alface e cebola, e quatro biscoi-tos Oreo. Os pais não têm raiva dele, mas parece que já o ignoram. Abdicaram dele e o entregaram à senhora Greta Shaw, às babás, a um professor particular no verão e ao Colégio Piper (que é Bom e Particular e, principalmente, Branco) no resto do tempo. Nenhuma dessas entidades jamais fingiu ser mais do que é — profissional, a melhor de cada área. Ninguém o envolveu num abraço particular-mente afetuoso, como costuma acontecer nos romances históricos que a mãe lê e em que Jake dá uma olhada, procurando os “trechos picantes”. Romances histéricos, como o pai às vezes os chama, ou “rasga-espartilhos”. Tinha de falar alguma coisa, diz a mãe com infi-nito desprezo atrás de alguma porta fechada onde Jake escuta. O pai trabalha para A Rede e Jake poderia reconhecê-lo numa fila de ho-mens magros com cabelos cortados a máquina um. Provavelmente.

Jake não sabe que odeia todos os profissionais, com exceção

da senhora Shaw. As pessoas sempre o desnortearam. Sua mãe, que é muito magra, mas de um modo sensual, vai frequentemente para a cama com amigos doentios. O pai às vezes também fala de pessoas da Rede que estão tomando “Coca-Cola demais”. Esta declaração é sempre acompanhada por um sorriso amarelo e uma rápida e peque-na cheirada da unha do polegar.

Agora ele está na rua, Jake Chambers está na rua, “pulou a

cerca”. Tem boa aparência e boas maneiras, é sério e sensível. Joga boliche uma vez por semana no Mid-Town Lanes. Não tem amigos, só conhecidos. Nunca se preocupou em pensar no assunto, mas a coisa o magoa. Não sabe nem compreende que uma longa associa-ção com profissionais fez com que assumisse muitos de seus traços. A senhora Greta Shaw (a melhor de todos, o que, puxa!, é ao menos um prêmio de consolação) faz sanduíches muito profissionais. Cor-ta-os em quatro partes e retira a casca do pão, de modo que, quando ele come no recreio das quatro horas, tem a sensação de estar num coquetel com um drinque na outra mão, em vez de um almanaque de esportes ou um faroeste de Clay Blaisdell tirado da biblioteca da escola. O pai ganha muito dinheiro porque é um mestre do “jogo mortal”— isto é, colocar um show mais forte em sua Rede contra um show mais fraco numa Rede rival. O pai fuma quatro maços de cigarros, por dia. O pai não tosse, mas tem um sorriso duro, e não é refratário à dose ocasional da velha Coca-Cola.

Seguindo a rua. Sua mãe deixa o dinheiro do táxi, mas ele

caminha sempre que não está chovendo, sacudindo a mochila (e às vezes a sacola de boliche, embora quase sempre a deixe em seu ar-mário). É um rapazinho que parece bem americano com o cabelo louro e os olhos azuis. As garotas já começaram a reparar (com a aprovação das mães) e ele não vira a cara com aquela arrogância vo-lúvel de garoto novo. Fala com elas com involuntário profissiona-lismo e elas partem confusas. Gosta de geografia e do boliche à tar-de. O pai tem ações de uma empresa que fabrica o mecanismo que levanta automaticamente as garrafinhas, mas a Mid-Town Lanes não usa a marca do pai. Ele acha que nunca se importou com isso, mas se importou.

Descendo a rua, passa pela Bloomies, onde há manequins

com casacos de pele, outros com conjuntos Edwardian de seis bo-tões e alguns sem nada, nuzinhos em pêlo. Esses manequins — esses modelos — são perfeitamente profissionais e ele detesta todo profis-sionalismo. É jovem demais para já ter aprendido a detestar a si mesmo, mas a semente está lá; com o tempo, vai crescer e produzir seu fruto amargo.

Chega à esquina e pára, segurando a mochila com uma das

mãos. O tráfego passa roncando: barulhentos ônibus azuis e bran-cos, táxis amarelos, Volkswagem, um caminhão grande. E apenas um garoto, mas não um garoto qualquer, e vê o homem que o mata pelo canto do olho. É o homem de preto, e não dá para ver o rosto, só a pelerine que rodopia, as mãos estendidas e o sorriso duro, pro-fissional. Cai na rua com os braços esticados, mas sem largar a mo-chila que contém o lanche extremamente profissional da senhora Greta Shaw. Dá uma breve olhada, através de um pára-brisa polari-zado, no rosto horrorizado de um homem de negócios que usa um chapéu azul-escuro com uma peninha vistosa presa na aba. Em al-gum lugar, um rádio explode com rock-and-roll. Uma senhora idosa no meio-fio oposto dá um grito — ela está usando um chapéu preto com uma rede. Nada há de vistoso naquela rede negra; lembra um véu de acompanhante de enterro. Jake só sente surpresa e experi-menta sua habitual sensação de intensa perplexidade — é assim que a coisa termina? Antes de conseguir fazer mais que 270 pontos no boliche? Bate com força no asfalto, vendo um buraco tapado a uns cinco centímetros dos olhos. A mochila é puxada de sua mão. Está se perguntando se esfolou os joelhos quando o carro do homem de negócios, que usa o chapéu azul com a pena vistosa, passa por cima dele. É um grande Cadillac 1976 azul, com pneus Firestone de banda branca. O carro é quase exatamente da mesma cor que o chapéu do homem de negócios. Quebra as costas de Jake, prepara um molho de suas tripas e faz o sangue lhe sair da boca como um jato de alta pres-são. Jake vira a cabeça e vê as flamejantes lanternas traseiras do Ca-dillac e a fumaça brotando embaixo das rodas recém-freadas. O car-ro também atropelara sua mochila, deixando sobre ela uma larga marca negra de pneus. Vira a cabeça para o outro lado e vê um gran-de Ford cinzento com os freios cantando a centímetros do seu cor-po. Um sujeito negro, que tem um carrinho que vende rosquinhas e refrigerantes, vem correndo em sua direção. O sangue escorre do nariz, orelhas, olhos e ânus de Jake. Seus genitais foram esmagados. Ele se pergunta, irritado, se os joelhos tinham ficado muito esfola-dos. Acha que pode chegar atrasado à escola. Agora o motorista do Cadillac vem correndo em sua direção, balbuciando alguma coisa. Vinda de algum lugar, uma voz calma, terrível, a voz do juízo final diz:

— Sou padre. Me deixem passar. Um Ato de Contrição... Vê a batina preta e experimenta um súbito horror. É ele, o

homem de preto. Jake vira a cara com a última de suas forças. Em algum lugar, um rádio está tocando uma música do Kiss, o grupo de rock. Vê sua própria mão se arrastando na calçada, pequena, branca, bem proporcionada. Ele nunca roeu as unhas.

Olhando para sua mão, Jake morre.

O pistoleiro está de cócoras, franzindo a testa. Está cansado,

seu corpo dói e os pensamentos vêm com lentidão irritante. Na fren-te dele, o incrível garoto dormiu com as mãos dobradas na barriga, ainda respirando calmamente. Contara a história sem grande emo-ção, mesmo que a voz tivesse tremido perto do fim, quando chegou ao trecho do “padre” e do “Ato de Contrição”. Não falara, é claro, da família e de seu próprio senso de confusa dicotomia, mas isso de qualquer modo tinha transpirado — o bastante para o pistoleiro per-ceber seu contorno. O fato de nunca ter havido uma cidade como a que o garoto descrevia (a não ser que fosse a mítica cidade de Lud) não era a parte mais desconcertante da história, mas era perturbado-ra. Tudo aquilo era perturbador. O pistoleiro tinha medo das impli-cações.

— Jake?

— Hã-hã?

— Quer se lembrar do que disse quando acordar ou quer es-

quecer?

— Esquecer — respondeu prontamente o garoto. — Quan-

do o sangue saiu da minha boca, pude sentir o gosto da minha pró-pria merda.

— Está bem. Você vai dormir, entendeu? Realmente dormir

agora. Fique calmo e deite, se quiser.

Jake se esticou, parecendo pequeno, pacato e inofensivo. O

pistoleiro não acreditava que fosse inofensivo. Havia algo de mortal em torno dele, o fedor de uma nova armadilha. Não gostava dessa sensação, mas gostava do garoto. Gostava muito dele.

— Jake?

— Shhh. Estou dormindo. Quero dormir.

— Sim. E quando acordar, não vai se lembrar de nada disto. — Tudo bem. Ótimo.

O pistoleiro contemplou-o por alguns instantes, pensando

em sua própria infância, que geralmente parecia ter acontecido a ou-tro — alguém que saltara alguma fabulosa extensão de tempo para tornar-se outra pessoa, mas que agora parecia comoventemente per-to. Fazia muito calor no estábulo do posto de parada, e ele bebeu com cuidado mais um pouco d’água. Depois se levantou e foi para os fundos do galpão, parando para dar uma olhada numa das baias. Havia uma pequena pilha de feno no canto, e um cobertor cuidado-samente dobrado, mas não havia cheiro de cavalo. Não havia cheiro de coisa alguma no estábulo. O sol drenara cada cheiro, não deixan-do nada. O ar era perfeitamente neutro.

Nos fundos do estábulo, havia um quartinho escuro com

uma máquina de aço inoxidável no centro. Não estava enferrujada nem podre. Parecia uma batedeira de manteiga. A esquerda, um cano cromado saía dela, terminando sobre um ralo no chão. O pistoleiro tinha visto bombas como aquela em outros lugares secos, mas nunca uma tão grande. Não podia imaginar como tiveram (e há quanto tempo tiveram) de perfurar fundo para encontrar água, um segredo que ficou para sempre oculto sob o deserto.

Por que não haviam removido a bomba quando o posto de

parada foi abandonado?

Demônios, talvez.

Estremeceu de repente com um súbito safanão das costas. A

contorção dos nervos agitou sua pele, depois cessou. Aproximou-se do painel da máquina e apertou o botão LIGADO. A máquina co-meçou a zumbir. Após cerca de meio minuto, um jato de água limpa e fresca brotou da bomba e escoou pelo ralo para voltar a circular. Talvez três galões tenham saído da bomba antes que ela se detivesse com um clique final. Era uma coisa tão estranha àquele tempo e lu-gar como um verdadeiro amor e, no entanto, parecia concreta como um dia de juízo, um silencioso lembrete da época em que o mundo ainda não seguira adiante. Provavelmente, sua fonte de força era a-tômica, porquanto não havia eletricidade num raio de milhares de quilômetros e eventuais baterias teriam há muito tempo perdido sua carga. Fora fabricada por uma empresa chamada North Central Posi-tronics. O pistoleiro não gostava dela.

Saiu de lá e sentou-se ao lado do garoto, que tinha posto a

mão sob o rosto. Bonito garoto. O pistoleiro tomou mais um pouco d’água e cruzou as pernas para se sentar à maneira indiana. O garoto, como aquele colono na orla do deserto que tinha o pássaro (Zoltan, o pistoleiro se lembrou de repente, o nome do pássaro era Zoltan), havia perdido a noção do tempo, mas o fato de o homem de preto estar mais perto parecia fora de dúvida. Não pela primeira vez, o pis-toleiro se perguntou se o homem de preto não o estaria deixando se aproximar com alguma segunda intenção. Talvez o pistoleiro estives-se dançando conforme a música dele. Tentou imaginar como pode-ria ser a confrontação, e não conseguiu.

Estava com muito calor, mas já não se sentia mal. A canção

de ninar voltou a lhe ocorrer, mas agora, em vez da mãe, pensou em Cort — Cort, um sujeito frenético que estava sempre jovem, mesmo com o rosto marcado pelas cicatrizes de murros, balas e instrumen-tos cortantes. Cicatrizes da guerra e do treinamento nas artes da guerra. Não sabia se Cort teve alguma amada para compensar aque-las monumentais cicatrizes. Achava que não. Pensou em Susan, em sua mãe e em Marten, aquele bruxo incompleto.

Embora uma vaga concepção do futuro e certos traços de

constituição emocional impedissem que o pistoleiro fosse alguém sem imaginação, uma espécie de perigoso idiota, ele não era homem de se prender ao passado. Por isso, aquele fluxo de pensamentos não deixava de espantá-lo. Cada nome chamava outros — Chuthbert, Alain, o velho Jonas com sua voz de cana rachada; e de novo Susan, a bela moça na janela. Os pensamentos sempre voltavam a Susan, à grande várzea ondulada conhecida como a Baixa e aos pescadores atirando suas redes nas baías do litoral do Mar Claro.

O pianista de Tull (também morto, como todos em Tull, e

por sua mão) conhecera aqueles lugares, embora só uma vez o pisto-leiro tivesse falado deles com o homem. Sheb gostava muito das ve-lhas canções e um dia tocou-as num saloon chamado Traveller’s Rest, onde o pistoleiro, num sussurro, cantarolou uma delas.

Amor, oh, amor, oh, desatento amor

Veja o que fez o desatento amor.

O pistoleiro riu, meio tonto. Sou o último daquele mundo

verde e cheio de calor. Mas, apesar da nostalgia, não sentiu pena de si mesmo.

O mundo passara impiedosamente, mas suas pernas ainda

eram fortes, e o homem de preto estava mais perto. O pistoleiro a-banou a cabeça.

Quando acordou, estava quase escuro e o garoto tinha sumi-

do.

O pistoleiro se levantou, ouvindo as juntas estalarem, e foi

para a porta do estábulo. Havia uma pequena chama dançando na escuridão do alpendre da estalagem. Andou na direção dela, sua sombra comprida, negra, se estendendo na luz vermelho-ocre do pôr do sol.

Jake estava sentado ao lado de um lampião a querosene. — O óleo estava num tambor — ele disse —, mas tive me-

do de acender lá dentro. Tudo está tão seco...

— Agiu muito bem. — O pistoleiro se sentou, vendo mas

não pensando na nuvem de poeira acumulada de anos, que se levan-tou em volta do seu traseiro. Considerou uma espécie de prodígio que o alpendre simplesmente não desabasse sob o peso dos dois. A chama do lampião sombreava o rosto do garoto com tons delicados. O pistoleiro pôs a mão no bolso e enrolou um cigarro.

— Temos de confabular — disse.

Jake abanou a cabeça, esboçando um sorriso por causa da

expressão.

— Acho que você sabe que estou no rastro daquele homem

que viu.

— Você vai matá-lo?

— Não sei. Tenho de fazer com que ele me diga alguma coi-

sa. Posso querer que ele me ajude a chegar a um lugar.

— Que lugar?

— Quero encontrar uma torre — disse o pistoleiro, pondo o

cigarro sobre a manga do lampião e dando uma tragada. A fumaça foi carregada pelo início de brisa noturna. Jake ficou olhando. Seu rosto não revelava medo nem curiosidade, e certamente também não entusiasmo. — Por isso vou seguir caminho amanhã — continuou o pistoleiro. — Você terá de ir comigo. Sobrou alguma coisa daquela carne?

— Só um pouco.

— Milho?

— Um pouco mais.

O pistoleiro abanou a cabeça.

— Há um porão?

— Sim. — Jake o olhava. Suas pupilas tinham atingido um

tamanho imenso, frágil. — Você chega lá por um alçapão no chão, mas eu não desci. Fiquei com medo que a escada quebrasse e eu não conseguisse subir de novo. E o lugar cheira mal. Aliás, é a única coi-sa por aqui que tem algum cheiro.

— Amanhã vamos acordar cedo e ver se há alguma coisa lá

embaixo que valha a pena pegar. Depois partimos.

— Tudo bem. — O garoto fez uma pausa e disse: — Feliz-

mente não o matei quando estava dormindo. Tinha um forcado e cheguei a pensar em fazer isso. Mas não fiz e agora não tenho de ficar com medo na hora de dormir.

— Do que teria medo?

— De fantasmas. — O garoto olhou-o com um ar sombrio.

— Dele voltar.

— O homem de preto — disse o pistoleiro. Não era uma

pergunta.

— É. Ele não é um homem mau?

— Acho que depende do seu ponto de vista — disse o pisto-

leiro num tom distraído. Então se levantou e jogou o cigarro na ter-ra. — Vou dormir.

O garoto olhou-o timidamente.

— Posso dormir no estábulo com você?

— É claro.

O pistoleiro ficou de pé nos degraus do alpendre, olhando

para cima, e o garoto fez o mesmo. A Velha Estrela estava lá no alto, e a Velha Mãe. O pistoleiro teve a impressão de que, se fechasse os olhos, conseguiria ouvir o piar dos primeiros passarinhos da prima-vera, sentir o cheiro quase de verão da relva após o primeiro corte dos gramados (e ouvir, talvez, o indolente estalar das bolas de madei-ra quando as senhoras da Ala Leste jogavam críquete, vestidas ape-nas com suas combinações sob o brilho do crepúsculo que se trans-formava em escuridão), quase podia ver Cuthbert e Jamie atraves-sando a abertura na cerca, gritando para que fosse andar com eles...

Não era de seu temperamento pensar demais no passado.

Virou-se e pegou o lampião.

— Vamos dormir — disse. Foram os dois para o estábulo. Na manhã seguinte, o pistoleiro explorou o porão. Jake tinha razão; cheirava mal. Era um fedor úmido, panta-

noso, que fez o pistoleiro sentir náuseas e uma certa tontura após o antisséptico ar sem odores do deserto e do estábulo. O celeiro tinha um cheiro de repolhos, nabos e batatas com polpas espessas e escu-ras condenadas à eterna podridão. A escada, no entanto, parecia bas-tante firme e ele desceu.

O piso era de terra batida e sua cabeça quase encostava nas

vigas do teto. Ali as aranhas ainda viviam, aranhas perturbadoramen-te grandes, com manchas coloridas nos corpos cinzentos. Muitas eram mutantes, tendo há muito perdido o contato com suas teias. Outras tinham olhos de quem prepara o bote; outras, ainda, chega-vam a ter 16 pernas.

O pistoleiro deu uma olhada em volta e esperou que a vista

se acostumasse à escuridão.

— Tudo bem aí? — chamou Jake num tom nervoso. — Tudo. — O pistoleiro se concentrou num canto. — Há

latas. Espere.

Aproximou-se cuidadosamente, curvando a cabeça. Havia

uma caixa velha com um dos lados abertos. Eram latas de vegetais (lentilhas, feijão-manteiga) e três latas de carne em conserva.

Ele pegou uma braçada de latas e voltou para a escada. Subiu

até o meio e passou as latas para Jake, que se ajoelhou para apanhá-las. Voltou para pegar mais.

Foi na terceira viagem que ouviu o gemido nas fundações. Virou-se, olhou em volta e sentiu um certo terror indefinido

se derramar sobre ele, uma sensação simultaneamente lânguida e re-pelente.

A fundação era composta de enormes blocos de arenito que,

provavelmente, tinham sido uniformemente encaixados quando o posto de parada era novo, mas que estavam agora em ziguezague e fora de prumo. Era como se a parede estivesse marcada com hieró-glifos estranhos, cheios de meandros. E da junção de duas intricadas fendas escorria um filete de areia, como se alguma coisa do outro lado estivesse cavando a parede com desajeitada mas agoniante in-tensidade.

O gemido ia e vinha, mas foi se tornando mais alto, até que

o barulho encheu todo o porão numa abstrata mistura de dor dilace-rante e tremendo esforço.

— Suba! — Jake gritou. — Ai meu Deus, suba logo, moço! — Fique aí — disse calmamente o pistoleiro. — Espere aí

fora. Se eu não subir depois que você contar até 200... ou melhor, até 300, saia daqui correndo.

— Suba!— Jake tornou a gritar.

O pistoleiro não respondeu. Ajustou o coldre com a mão di-

reita.

Agora havia um buraco do tamanho de uma moeda na pare-

de. Pôde ouvir, através da cortina de seu próprio terror, os passinhos miúdos de Jake, que já começava a fugir. Então o filete de areia pa-rou. O gemido cessou, mas ouviu-se um som de respiração forte, ofegante.

— Quem é você? — o pistoleiro perguntou. Nenhuma resposta.

E na Fala Superior, a voz adquirindo o velho trovejar de

comando, Roland perguntou:

— Quem é você, Demônio? Fale, se puder falar. Meu tempo

é curto; minha paciência, mais curta ainda.

— Vá devagar — disse uma voz arrastada, pastosa dentro da

parede. E o pistoleiro sentiu aquele terror indefinido se tornar mais denso, quase sólido. Era a voz de Alice, a mulher com quem ficara na cidade de Tull. Mas ela estava morta; ele mesmo a vira cair com um buraco de bala no meio da testa. Uma névoa pareceu oscilar e descer pelos seus olhos. — Passe devagar pelos Estreitos, pistoleiro. Fique de olho no encarnado. Enquanto você viaja com o garoto, o homem de preto viaja com sua alma no bolso.

— O que está querendo dizer? Vamos, fale! Mas a respiração se fora. O pistoleiro ficou um instante pa-

rado, imóvel; então uma das enormes aranhas caiu em seu braço e rastejou freneticamente para o ombro. Com um grunhido involuntá-rio, ele a jogou no chão e pôs os pés em movimento. Não pretendia fazer o que fez em seguida, mas o hábito era estrito, inviolável. Dei-xe os mortos em paz, dizia o velho refrão; e só uma pessoa morta poderia profetizar daquela maneira. Mas ainda assim ele se aproxi-mou do buraco e deu um soco no lugar. O arenito se esfarelou com facilidade nas bordas e, com um simples enrijecimento dos múscu-los, o pistoleiro empurrou a mão pela parede

E tocou em algo sólido, com altas e ásperas protuberâncias.

Puxou. Estava segurando um maxilar, um maxilar apodrecido no ponto de articulação. Os dentes estavam tortos.

— Tudo bem — disse em voz baixa. Enfiou o osso brusca-

mente no bolso de trás e voltou a subir a escada, carregando desajei-tadamente as últimas latas. Deixou o alçapão aberto. O sol entraria e mataria as aranhas mutantes.

Jake estava no meio do terreiro do estábulo, encolhido entre

o cascalho e as fendas da terra dura. Gritou quando viu o pistoleiro, recuou um ou dois passos e depois correu para ele, gritando:

— Achei que a coisa tinha pegado você, tinha pegado você.

Achei...

— Não pegou. Nada me pegou. — Estava abraçado ao garo-

to, sentindo seu rosto, o calor contra o peito, as mãos ressecadas em suas costelas. Podia sentir as rápidas batidas do coração de Jake. O-correu-lhe, mais tarde, que foi aí que começou realmente a gostar do garoto, que era, é claro, o que o homem de preto teria certamente passado o tempo todo planejando. Que armadilha, afinal, poderia se equiparar à do afeto?

— Era um demônio? — Uma voz abafada. — Era. Um demônio falante. Não temos de voltar lá. Va-

mos. Vamos puxar o nosso primeiro quilômetro.

Foram até o estábulo e o pistoleiro enrolou algumas coisas

no cobertor onde dormira — o cobertor era quente e felpudo, e ele não tinha outra peça de roupa. Feito isso, encheu os cantis com a bomba d’água.

— Você leva um dos cantis — disse o pistoleiro. — Coloque

no ombro... sabe como é?

— Sei. — O garoto ergueu os olhos para ele em atitude de

veneração, um olhar rapidamente dissimulado. Jogou o cantil sobre o ombro.

— Está muito pesado?

— Não. Está bom.

— Agora me diga a verdade. Não vou poder carregá-lo se ti-

ver uma insolação.

— Não vou ter uma insolação. Não vai haver problema. O pistoleiro abanou a cabeça.

— Vamos para as montanhas, não é?

— Sim.

Saíram para a firme pressão do sol. Jake, a cabeça na altura

do balanço dos cotovelos do pistoleiro, caminhava à sua direita e um pouco à frente, as tranças de couro cru do cantil caindo quase até as canelas. O pistoleiro cruzara dois outros cantis nos ombros e carre-gava a trouxa de comida na axila, o braço esquerdo firmando-a con-tra o corpo. Na mão direita ia o embrulho do cobertor, a vara de pederneira e o resto da munição.

Cruzaram o portão na extremidade do posto de parada e en-

contraram de novo os sulcos borrados da trilha de diligências. Ti-nham andado talvez 15 minutos quando Jake se virou e acenou para os dois galpões. Eles pareciam encolhidos no espaço titânico do de-serto.

— Adeus! — Jake gritou. — Adeus! — Então se voltou para

o pistoleiro, com ar perturbado. — Tenho a sensação de que alguma coisa está nos observando.

— Alguma coisa ou alguém — concordou o pistoleiro. — Havia alguém escondido lá? Escondido o tempo todo lá? — Não sei. Acho que não.

— Será que devíamos voltar? Voltar e...

— Não. Estamos quites com esse lugar.

— Ótimo — disse Jake com fervor.

Eles prosseguiram. A trilha de diligências subiu um morrote

de saibro mais compacto e, quando o pistoleiro olhou em volta, o posto de parada tinha sumido. De novo havia o deserto, e só.

Já estavam a três dias do posto de parada; agora, as monta-

nhas pareciam enganosamente nítidas. Podiam ver o avanço suave e regular do deserto pelo sopé da serra, a aridez das primeiras encos-tas, a rocha aflorando da superfície da terra num triunfo sombrio, comido pela erosão. Mais acima, o terreno voltava provisoriamente a se abrandar e, pela primeira vez em meses, ou anos, o pistoleiro a-preciou um verde realmente bonito. Capim, abetos anões, talvez até salgueiros, tudo alimentado pela neve que escorria dos picos. Além desse ponto, a rocha voltava a dominar, elevando-se cada vez mais em gigantesco e caótico esplendor, rumo às ofuscantes calotas de neve. Um pouco para a esquerda, um enorme corte abria caminho para penhascos de arenito, afloramentos menores corroídos pela e-rosão, e mesetas e pedregulhos no lado oposto. Essa parte mergu-lhava na quase contínua membrana cinza de pancadas de chuva. À noite, Jake se sentaria fascinado nos poucos minutos antes de mer-gulhar no sono, contemplando a brilhante esgrima dos relâmpagos distantes, avermelhados e brancos, brotando na limpidez do ar no-turno.

O garoto era bom na trilha. Era durão, mas o melhor é que

parecia enfrentar a exaustão com um tranquilo reservatório de força de vontade que o pistoleiro reconhecia e admirava. Não falava muito e não fazia perguntas, nem mesmo sobre o maxilar que o pistoleiro virava e revirava nas mãos enquanto fumava seu cigarro da noite. O pistoleiro teve a sensação de que o garoto se sentia extremamente satisfeito com sua companhia — talvez mesmo entusiasmado por ela — e isso o perturbava. Fora colocado em seu caminho (enquanto você viaja com o garoto, o homem de preto viaja com sua alma no bolso) e o fato de Jake não o estar retardando só abria espaço para mais perigosas possibilidades.

Passavam pelas sobras simétricas das fogueiras do homem

de preto em intervalos regulares, e o pistoleiro achou que as sobras eram agora muito mais recentes. Na terceira noite, teve certeza de ver o clarão distante de outra fogueira em algum lugar do primeiro trecho em aclive no sopé das montanhas. Isso o agradou menos do que podia ter esperado. Um dos ditados de Cort lhe ocorreu: Cuida-do com o homem que se finge de fraco.

Perto das duas da tarde, no quarto dia de distância do posto

de parada, Jake cambaleou e quase caiu.

— Sente-se aqui — disse o pistoleiro.

— Não, estou bem.

— Sente.

O garoto sentou-se obediente. O pistoleiro se agachou perto

dele, assim Jake ficaria em sua sombra.

— Beba.

— Não devo beber até...

— Beba.

O garoto bebeu, três goles. O pistoleiro molhou a ponta do

cobertor, que embrulhava agora um número bem menor de coisas, e aplicou o tecido úmido nos pulsos e na testa do garoto, ressecados pela febre.

— Daqui para a frente, descansamos todas as tardes nesta

mesma hora. Quinze minutos. Quer dormir?

— Não. — O garoto olhou envergonhado para ele. O pisto-

leiro retribuiu com um olhar afetuoso. Num gesto distraído, tirou uma das balas do cinturão e começou a passá-la habilidosamente en-tre os dedos. O garoto olhava, fascinado.

— É incrível — disse ele.

O pistoleiro assentiu.

— É! — Fez uma pausa. — Quando tinha a sua idade, eu

morava numa cidade murada, já contei isso?

O garoto balançou a cabeça sonolento.

— Pois é — continuou o pistoleiro. — E havia um sujeito

mau...

— Era o padre?

— Bem, às vezes, para dizer a verdade, eu me pergunto se

não era — disse o pistoleiro. — Mas quem sabe não eram dois, acho agora que deviam ter sido irmãos. Talvez até gêmeos. Mas será que algum dia vi os dois juntos? Não, nunca vi. Esse mau sujeito... esse Marten... era um feiticeiro. Como Merlin. Conheciam Merlin no lu-gar de onde você veio?

— Merlin, Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda — dis-

se Jake num tom de devaneio.

O pistoleiro sentiu um desagradável solavanco passar por e-

le.

— Sim — disse. — Arthur Eld. Você diz a verdade e eu di-

go obrigado. Eu era muito jovem...

Mas o garoto adormecera sentado, as mãos cuidadosamente

dobradas na frente do corpo.

— Jake.

— Sai!

O som desta palavra na boca do garoto sobressaltou-o bas-

tante, mas o pistoleiro não deixou a emoção transparecer na voz.

— Quando eu estalar os dedos, você vai acordar. Se sentirá

calmo e revigorado. Entendeu bem?

— Sim.

— Então deite.

O pistoleiro tirou coisas do bolso e enrolou um cigarro. Algo

estava se perdendo. Procurou a seu modo diligente, cuidadoso, e achou. O que se perdia era o enlouquecedor sentimento de pressa, a sensação de que poderia a qualquer momento ser deixado para trás, de que o rastro ia sumir e só lhe restaria a última e desgastada pegada de alguém. Tudo isso acabara e o pistoleiro se convencia, aos pou-cos, de que o homem de preto queria ser apanhado. Cuidado com o homem que se finge de fraco.

O que aconteceria agora?

A pergunta era vaga demais para despertar o seu interesse.

Cuthbert a teria achado interessante, muito interessante (e prova-velmente engraçada), mas Cuthbert era tão passado quanto o Chifre de sua Deschain, e o pistoleiro só podia continuar avançando do jei-to que sabia.

Fumava contemplando o garoto, e sua mente voltou a Cuth-

bert, que estava sempre rindo (seguira rindo até sua morte), voltou a Cort, que nunca ria, e a Marten, que às vezes sorria — um sorriso fino, silencioso, que tinha seu próprio e inquietante brilho... como um olho que avança aberto no escuro e descobre sangue. E houvera o falcão, é claro. O falcão se chamava David, conforme a lenda do menino com a atiradeira. A única coisa que David conhecia, ele tinha certeza absoluta, era o impulso para o ataque, o assassinato, o terror. Como o próprio pistoleiro. David não era um amador; ele jogava no centro da quadra.

Exceto talvez no final.

O estômago do pistoleiro pareceu se comprimir dolorosa-

mente contra o coração, mas sua expressão não se alterou. Viu a fu-maça do cigarro subir no ar quente do deserto e desaparecer, e sua mente voltou ao passado.

O céu estava branco, perfeitamente branco, com cheiro de

chuva forte no ar. O cheiro das cercas vivas e do verde brotando era doce. Era plena primavera, a época que alguns chamavam Terra No-va.

David estava pousado no braço de Cuthbert, um pequeno

engenho de destruição com brilhantes olhos dourados que cintila-vam para longe e para nada. A trela de couro cru presa em sua argola se enroscava negligentemente no braço de Bert.

Distante dos dois garotos, Cort era uma figura silenciosa que

vestia uma calça de couro remendada e uma camisa verde de algodão cingida acima da cintura pelo largo e velho cinto de infantaria. O verde da camisa se misturava com as cercas e a ondulação do grama-do das Quadras de Trás, numa época em que as senhoras ainda não tinham começado a participar das apostas.

— Se prepare — Roland murmurou para Cuthbert. — Estamos prontos — Cuthbert respondeu confiante. —

Não estamos, Davey?

Falavam a língua vulgar, que era tanto a língua dos ajudantes

de cozinha quanto dos escudeiros; o tempo em que lhes seria permi-tido usar seu próprio idioma na presença de outros ainda estava lon-ge.

— Um belo dia. Está sentindo o cheiro da chuva? É... Cort ergueu subitamente as mãos com o alçapão e abriu a

tampa lateral. Logo a pomba estava fora, alçando vôo para o céu numa rápida e nervosa rajada de suas asas. Cuthbert puxou a trela, mas foi lento; o falcão já estava solto e a partida foi desajeitada. O falcão se recuperou com uma breve contorção das asas. Atirou-se para cima, cortando pesadamente o ar, ganhando altitude sobre a pomba, movendo-se com uma rapidez de bala.

Cort avançou, sem fazer alvoroço, para onde estavam os ga-

rotos e acertou com um enorme punho virado a orelha de Cuthbert. O rapaz desabou sem dar um pio, embora os lábios tenham se afas-tado um pouco das gengivas. Um filete de sangue começou a escor-rer devagar de sua orelha, caindo no exuberante gramado verde.

— Você foi lento, seu verme — disse Cort. — Peço sua graça, Cort. — Cuthbert estava lutando para fi-

car de pé. — Foi só que eu...

Cort golpeou de novo e Cuthbert tornou a cair. Agora o

sangue corria mais depressa.

— Fale a Língua Superior — ele disse em voz baixa. Um

tom plano, ainda que com ligeira, embriagada aspereza. — Diga seu Ato de Contrição na língua da civilização pela qual homens melhores que você tantas vezes morreram, seu verme.

Cuthbert estava se levantando de novo. Lágrimas pairavam

brilhantes em seus olhos, mas os lábios estavam comprimidos numa forte marca de ódio que não tremia.

— Lamento — disse Cuthbert num tom ofegante de auto-

controle. — Esqueci o rosto de meu pai, cujos revólveres espero um dia carregar.

— Está bem, criança — respondeu Cort. — Vai pensar no

que fez de errado e ter as reflexões estimuladas pela fome. Nada de jantar. Nada de café da manhã.

— Olhe! — Roland gritou. Apontou para cima. O falcão ultrapassara a pomba que voava. Planou um instan-

te com as asas curtas estendidas e sem movimento no ar puro e se-reno da primavera. Depois dobrou as asas e caiu como pedra. Os dois corpos se encontraram e, por um momento, Roland pensou ver sangue no ar. O falcão deu um breve grito de triunfo. A pomba des-ceu num rodopio para o chão e Roland correu para o animal abatido, deixando Cort e o castigado Cuthbert para trás.

O falcão pousara ao lado da presa e rasgava festivamente o

peito branco e gorducho. Algumas penas se agitavam e caíam deva-gar.

— David! — Roland gritou e jogou para o falcão um pedaço

de carne de coelho que tirou do bolso. O falcão pegou-a em pleno vôo, ingeriu-a com uma sacudidela do lombo e da garganta, e o garo-to tentou repor a trela no pássaro.

O falcão girou num movimento quase distraído, fazendo um

corte comprido e irregular na pele do braço de Roland. Depois vol-tou à refeição.

Com um gemido, Roland atirou novamente a trela, agora

imobilizando o bico agitado e afiado de David com a luva de couro que usava. Deu ao falcão outro pedaço de carne e lhe pôs o capuz. Docilmente, David subiu em seu pulso.

Levantou-se orgulhoso com o falcão no braço. — O que é isto, pode me dizer? — Cort perguntou apon-

tando para o talho que sangrava no antebraço de Roland. O garoto se preparou para receber o golpe, bloqueando a garganta contra qualquer possível grito, mas não houve golpe.

— Ele me bicou — disse Roland.

— Você encheu o saco dele — disse Cort. — O falcão não

tem medo de você, garoto, e nunca terá. O falcão é o pistoleiro de Deus.

Roland se limitou a olhar para Cort. Não era um rapaz ima-

ginativo e se Cort havia tentado sugerir uma moral, perdera seu tem-po; Roland interpretaria aquilo, no máximo, como um dos poucos comentários absurdos que ouvira de Cort.

Cuthbert veio se aproximando por trás e pôs a língua de fora

para Cort, embora na segurança de seu traseiro. Roland não sorriu, mas abanou a cabeça para ele.

— Agora entrem — disse Cort, pegando o falcão. Virou-se e

apontou para Cuthbert. — Mas lembre da reflexão que tem de fazer, seu verme. E de suas refeições. Hoje à noite e amanhã de manhã.

— Sim — disse Cuthbert, agora artificialmente formal. —

Obrigado por este dia instrutivo.

— Você aprende — disse Cort —, mas sua língua tem o

mau hábito de cair da boca estúpida quando o instrutor vira as cos-tas. Talvez chegue o dia em que ela e você aprendam a ocupar seus respectivos lugares.

Deu novamente um soco em Cuthbert, desta vez bem no

meio dos olhos e com força suficiente para Roland ouvir um baque surdo — o som que faz uma rolha de cortiça quando um ajudante de cozinha tapa um barril de cerveja. Cuthbert caiu para trás no grama-do, os olhos a princípio vidrados, atordoados. Depois seus olhos clarearam e ele encarou Cort com um ar abrasador, o sorriso habitual e fácil sumido de todo, o ódio escancarado, uma pupila brilhante como o sangue da pomba no centro de cada olho. Abanou a cabeça e entreabriu os lábios num sorriso extremamente duro, que Roland nunca tinha visto.

— Mas há esperança para você — Cort continuou. —

Quando achar que pode, venha me pegar, seu verme.

— Como ficou sabendo da língua? — disse Cuthbert entre

os dentes.

Cort se virou para Roland tão depressa que ele quase caiu

para trás — e então Roland se juntaria a Cuthbert no gramado, aju-dando-o a decorar o verde recente com sangue.

— Vi a coisa refletida nestes olhos de verme — disse. —

Lembre-se disso, Cuthbert Allgood. Última lição de hoje.

Cuthbert abanou de novo a cabeça, com o mesmo sorriso

assustador no rosto.

— Lamento — disse ele. — Esqueci a face... — Pare com essa merda — disse Cort, perdendo o interesse.

Ele se virou para Roland. — Agora vão embora. Vocês dois. Se eu tiver de olhar para suas estúpidas caras de verme um minuto a mais, vou vomitar minhas tripas e perder um bom jantar.

— Vamos — disse Roland.

Cuthbert chacoalhou a cabeça para clareá-la e ficou de pé.

Cort já estava descendo a colina com seu passo torto, atarracado, parecendo poderoso e um tanto pré-histórico. A mancha raspada e cinzenta no alto da cabeça brilhava.

— Vou matar o filho-da-puta — disse Cuthbert, ainda sor-

rindo.

Um grande galo roxo e nodoso brotava misticamente em sua

testa.

— Não vai e eu também não — disse Roland, irrompendo

de repente num sorriso. — Pode jantar na cozinha do oeste comigo. O cozinheiro vai nos dar alguma coisa.

— Ele vai contar ao Cort.

— Ele não é amigo do Cort — disse Roland e sacudiu os

ombros. — E daí, se contasse?

— Certo. Tudo bem. — Cuthbert retribuiu o sorriso. — Eu

sempre quis saber como é o mundo quando se fica com a cabeça do avesso e de trás para a frente.

Iniciaram o caminho de volta pelos gramados verdes, atiran-

do sombras na incrível limpidez da luz da primavera.

O cozinheiro na cozinha do oeste se chamava Hax. Parecia

enorme dentro de seus aventais com manchas de comida. Era um homem de aparência rude, cujos ancestrais eram um quarto negros, um quarto amarelos, um quarto das hoje quase esquecidas Ilhas do Sul (o mundo mudara) e um quarto deus-sabe-o-quê. Circulava entre três aposentos enfumaçados, de teto alto, como um trator em pri-meira. Usava chinelos que lembravam pantufas. Era um desses adul-tos bastante raros que se comunicam razoavelmente bem com crian-ças pequenas e que amam imparcialmente todas elas — não de um jeito açucarado, mas de um modo prático e eficiente que pode, às vezes, resultar num abraço, assim como fechar um grande negócio pode implicar um aperto de mão. Também gostava dos meninos que estavam sendo iniciados no caminho das armas, embora eles fossem diferentes das outras crianças — reservados e sempre meio perigo-sos, não num sentido adulto, mas como crianças comuns com um leve toque de loucura. Bert não era o primeiro dos alunos de Cort que alimentava às escondidas. Naquele momento, estava parado na frente de seu enorme e precário fogão elétrico — um dos seis ele-trodomésticos que haviam sobrado em toda a propriedade. Era seu domínio pessoal, e ele contemplava os dois garotos devorarem as fatias de carne assada que havia servido. Atrás dele, na frente e por toda a sua volta, ajudantes de cozinha, lavadores de pratos e vários outros subordinados corriam pelo ar esfumaçado e úmido, sacudin-do panelas, mexendo guisados e tratando de batatas e vegetais nas profundezas do lugar. No círculo da copa, parcamente iluminado, uma faxineira com ar miserável, esgotado, e um lenço no cabelo, passava água no piso com um pano de chão.

Um dos rapazes da copa apareceu com um homem da

Guarda a reboque.

— Este homem quer falar com você, Hax.

— Tudo bem. — Hax abanou a cabeça para o Guarda, que

retribuiu o movimento. — Vocês, garotos, falem com a Maggie. Ela vai lhes dar um pouco de torta. Depois caiam fora. Não me arranjem problemas.

Mais tarde, os dois se lembrariam do que ele dissera: Não me

arranjem problemas.

Eles sacudiram as cabeças e procuraram Maggie, que lhes

serviu fatias imensas de torta em pratos de jantar — mas cautelosa-mente, como se fossem cachorros selvagens que pudessem mordê-la.

— Vamos comer embaixo da escada — disse Cuthbert. — Está bem.

Sentaram-se atrás de uma enorme e suada colunata de pedra,

fora da visão da cozinha, e começaram a devorar a torta com os de-dos. Foi só momentos mais tarde que viram sombras descerem na distante parede curva da escadaria. Roland agarrou o braço de Cuth-bert.

—Vamos — disse. — Está vindo alguém. — Cuthbert er-

gueu os olhos com uma expressão de surpresa manchada de comida.

Mas as sombras pararam. Era Hax e o homem da Guarda.

Os rapazes ficaram onde estavam. Se fizessem algum movimento, poderiam ser ouvidos.

— ...o homem bom — o Guarda estava dizendo. — Farson?

— Em duas semanas — o Guarda respondeu. — Talvez

três. Você tem de vir conosco. Há um remessa do depósito de car-ga... — Um barulho particularmente alto de pratos e panelas e uma torrente de assobios dirigidos ao infeliz auxiliar que os deixara cair abafou um pouco do resto; então os rapazes ouviram o Guarda ter-minar: — ...carne envenenada.

— Arriscado.

— Não pergunte o que o homem bom pode fazer por vo-

cê... — o Guarda começou.

— Mas o que você pode fazer por ele. — Hax suspirou. —

Sem perguntas, soldado.

— Você sabe o que isto pode significar — disse o Guarda

em voz baixa.

— Sei. E conheço minhas responsabilidades com relação a

ele; não precisa me passar um sermão. Gosto dele exatamente como você. Você o seguiria para o mar se ele pedisse; eu também.

— Tudo bem. A carne estará marcada para estocagem a cur-

to prazo em seu frigorífico. Mas você terá de ser rápido. Precisa en-tender isso.

— Há crianças em Taunton? — o cozinheiro perguntou.

Não era realmente uma pergunta.

— Há crianças por toda parte — disse suavemente o Guar-

da. — É com as crianças que nós... e ele... estamos preocupados.

— Carne envenenada. Um modo muito estranho de cuidar

de crianças. — Hax deu um suspiro pesado, sibilante. — Elas não vão ficar aterrorizadas, segurar as barrigas e gritar pelas mães? Apos-to que vão.

— Será como se fossem dormir — disse o Guarda, mas a

calma confiante de sua voz pareceu excessiva.

— É claro — disse Hax e riu.

— Você mesmo disse: “sem perguntas, soldado”. Gosta de

ver crianças sob o tacão das armas, quando podiam estar nas mãos dele, prontas para começar a construir um mundo novo?

Hax não respondeu.

— Entro de serviço em 20 minutos — disse o Guarda, a voz

novamente calma. — Dê-me um pernil de carneiro e vou beliscar uma de suas garotas e fazê-la rir. Quando eu for embora...

— Meu carneiro não provocará cãibras em sua barriga, Ro-

beson.

— Será que você... — Mas as sombras se afastaram e as vo-

zes se perderam.

Eu poderia ter matado os dois, Roland pensou, imóvel e fas-

cinado. Poderia ter matado os dois com minha faca, cortado suas gargantas como porcos. Olhou para as mãos, agora manchadas de molho e polpa de fruta, além da sujeira das lições do dia.

— Roland.

Olhou para Cuthbert. Os dois se encararam por um bom

tempo na perfumada semi-escuridão, e um gosto quente de desespe-ro subiu à garganta de Roland. O que ele sentia parecia ser um tipo de morte — algo tão brutal e definitivo quanto a morte da pomba no céu esbranquiçado sobre o campo de jogos. Hax?, pensou, per-plexo. Hax, que pôs um cataplasma na minha perna daquela vez? Hax? E então sua mente se fechou bruscamente, encerrando o as-sunto.

O que ele viu, inclusive na expressão cômica e inteligente de

Cuthbert, não foi nada demais — absolutamente nada. Os olhos de Cuthbert pareciam inertes ante a condenação de Hax. Nos olhos de Cuthbert, já era um fato consumado. Hax lhes dera comida, eles ti-nham ido comer embaixo da escada, e então Hax levara o Guarda chamado Robeson para o lado errado da cozinha naquele pequeno e traiçoeiro tête-à-tête. O Ka tinha funcionado como o ka às vezes fazia, inesperado como um pedregulho rolando pela ribanceira. Só isso.

Os olhos de Cuthbert eram olhos de pistoleiro. O pai de Roland acabara de voltar das terras altas e parecia

deslocado entre as cortinas e os adornos de gaze de seda do principal salão de recepções ao qual só recentemente, como reconhecimento de sua aprendizagem, o garoto tivera acesso.

Steven Deschain usava uma calça jeans preta e uma camiseta

azul. A capa, cheia de manchas e poeira, rasgada até o forro em de-terminado lugar, estava jogada negligentemente sobre o ombro, sem nenhuma consideração pelo modo como isso e ele próprio se choca-vam com a elegância do lugar. Steven era desesperadamente magro e o volumoso bigode pontudo parecia fazer pesar sua cabeça quando ele a baixava para o filho. Os revólveres cruzados sobre os lados de sua cintura caíam num ângulo perfeitamente adequado para as mãos, os cabos de madeira de sândalo usada parecendo opacos e sem vida na lânguida luz do salão.

— O cozinheiro-chefe — disse o pai em voz baixa. — Ima-

gine! Os trilhos que foram dinamitados na estação terminal das mon-tanhas. O gado morto em Hendrickson. E talvez até... imagine! Ima-gine! — Olhou mais atentamente para o filho. — Parecemos presas.

— Presas de falcão — disse Roland. Ele riu da assustadora

exatidão da imagem, e não de qualquer leveza na situação.

Seu pai sorriu.

— É — continuou Roland. — Acho que eu também sou

uma presa.

— Cuthbert estava com você — disse o pai. — A essa altura

já contou ao pai dele.

— Sim.

— Hax alimentou vocês dois quando Cort... — Sim.

— E Cuthbert. Ele também deve estar se sentindo uma pre-

sa, não acha?

— Não sei. — Nem se importava. Não estava preocupado

em comparar suas sensações com as dos outros.

— Isso o deprime porque você sente que provocou a morte

de um homem?

Roland deu de ombros com mau humor, subitamente des-

gostoso com aquela sindicância sobre suas motivações.

— Mesmo assim você contou. Por quê?

— Como poderia não contar? — Os olhos do rapaz se alar-

garam. — A traição era...

Seu pai sacudiu bruscamente a mão.

— Se agiu assim por algo tão barato quanto um conceito de

livro escolar, foi um ato indigno. Eu teria preferido ver toda a Taun-ton envenenada.

— Eu não! — As palavras jorraram com violência. — Tive

vontade de matá-lo... de matar os dois! Mentirosos! Perversos menti-rosos! Serpentes! Eles...

— Continue.

— Foi uma afronta — ele concluiu, desafiador. — Eles me-

xeram em alguma coisa que dói. Tive vontade de matá-los por isso. Tive vontade de matá-los ali mesmo.

Seu pai abanou a cabeça.

— Uma reação crua, Roland, mas não indigna. Também não

virtuosa, mas não cabe a você ser virtuoso. Na realidade... — Olhou firme para o filho. — Talvez a virtude esteja sempre além de seu al-cance. Você não é rápido, como Cuthbert ou o filho de Vannay. Mas não faz mal. Isso o tornará formidável.

O garoto sentiu-se simultaneamente contente e perturbado. — Ele vai ser...

— Ah, vai ser enforcado.

O garoto abanou a cabeça.

— Quero ver — disse.

Deschain pai atirou a cabeça para trás e riu alto. — Não tão formidável quanto eu pensei... talvez só estúpido.

— Fechou a boca de repente. Estendeu o braço e agarrou doloro-samente o antebraço do garoto. Roland fez uma careta, mas não re-cuou. O pai olhou-o atentamente e o garoto devolveu o olhar, em-bora fosse mais difícil fazer isso que colocar o capuz no falcão.

— Está bem — disse o pai —, você pode ver. — E virou-se

abruptamente para sair.

— Pai?

— O quê?

— Você sabe de quem eles estavam falando? Sabe quem é o

homem bom?

Seu pai se virou para trás e olhou-o com um ar de especula-

ção.

— Sim. Acho que sei.

— Se você o pegasse — disse Roland no seu jeito pensativo,

quase penoso —, acho que ninguém precisa ter o pescoço quebrado como o do cozinheiro.

Seu pai sorriu ligeiramente.

— Talvez por enquanto não. Mas, no final das contas, o pes-

coço de mais alguém, homem ou mulher, também terá de ser que-brado, segundo a curiosa expressão que você usou. As pessoas que-rem assim. Cedo ou tarde, se não surge outro renegado, as pessoas inventam um.

— Sim — disse Roland, apreendendo instantaneamente a i-

déia, uma das que jamais ia esquecer. — Mas se for o homem bom...

— Não vou pegá-lo — disse o pai secamente. — Por que não? Isso não resolveria o problema? Por um momento, seu pai pareceu à beira de dizer por quê,

mas acabou balançando a cabeça.

— Já conversamos demais, eu acho. Vamos encerrar. Teve vontade de pedir que o pai não esquecesse sua promes-

sa quando chegasse o momento de Hax pisar no alçapão, mas sabia que os humores do pai eram delicados. Encostou o punho na testa, cruzou um pé na frente do outro e fez um cumprimento. Depois saiu, fechando rapidamente a porta. Desconfiava que o que seu pai queria agora era trepar. Tinha consciência de que a mãe e o pai fazi-am aquilo, e era razoavelmente bem informado sobre como era feito, mas a imagem mental que sempre se formava com o pensamento o deixava ao mesmo tempo inquieto e estranhamente culpado. Alguns anos mais tarde, Susan lhe contaria a história de Édipo, que ele ab-sorveria em tranqüila meditação, pensando no estranho e sangrento triângulo formado por seu pai, sua mãe e Marten — conhecido em certas regiões como Farson, o homem bom. Ou talvez fosse um quadrilátero, se ele se acrescentasse a si próprio.

O Morro do Patíbulo ficava na Taunton Road, o que era a-

gradavelmente poético; Cuthbert podia ter apreciado isso, mas Ro-land não. Cuthbert de fato apreciou o cadafalso esplendidamente sinistro que se elevava para o céu brilhantemente azul, um contorno anguloso projetado sobre a estrada de diligências.

Os dois garotos tinham sido dispensados dos Exercícios da

Manhã — Cort lera atentamente os bilhetes dos pais deles, os lábios se movendo sem parar, a cabeça abanando aqui e ali. Ao terminar, arrumara cuidadosamente os papéis no bolso. Mesmo ali, em Gilead, o papel costumava ser valioso como ouro. Uma vez as duas folhas em segurança, ele ergueu os olhos para o azul-violeta do céu da au-rora e tornou a abanar a cabeça.

— Esperem aqui — disse, e foi para a cabana de pedra meio

torta que lhe servia de alojamento. Voltou com um pedaço de gros-seiro pão ázimo, partiu-o em dois e deu a metade para cada um. — Quando terminar, cada um de vocês colocará isto embaixo dos sapa-tos dele. Prestem atenção para fazerem exatamente como estou di-zendo ou parto a cara dos dois na semana que vem.

Só compreenderam ao chegar, depois de viajarem em mar-

cha acelerada no garanhão de Cuthbert. Eram os primeiros, estavam duas horas inteiras na frente de todos os outros e faltavam quatro horas para o enforcamento. O Morro do Patíbulo ainda estava deser-to — exceto pelos corvos e gralhas. Os pássaros estavam por toda parte. Pousavam ruidosamente na dura e comprida viga que pendia sobre o alçapão — a armação da morte. Os meninos pararam um ao lado do outro na beira da plataforma, acotovelando-se em busca de melhor posição nos degraus.

— Eles abandonam os corpos — Cuthbert murmurou. —

Para os pássaros.

— Vamos subir — disse Roland.

— Lá em cima? — Cuthbert olhou-o com uma espécie de

horror. — Você acha que...

Roland interrompeu-o com um gesto das mãos. — Chegamos anos adiantados. Ninguém vai ver. — Está bem.

Avançaram lentamente para o último degrau e os pássaros

esvoaçaram, grasnando e voando em círculos como uma multidão de raivosos camponeses expulsos da terra. Os corpos muito pretos se destacavam contra o límpido amanhecer no céu do Mundo Interior.

Pela primeira vez, Roland sentiu a dimensão de sua respon-

sabilidade no caso; aquilo nem era madeira nobre, não era parte da assombrosa máquina da Civilização, mas apenas pinho empenado da Floresta do Baronato, pinho coberto de dejetos brancos de pássaro. Estavam salpicados por toda parte — degraus, cercas, plataforma — e cheiravam mal.

O garoto se virou para Cuthbert com olhos sobressaltados,

horrorizados, e viu Cuthbert devolver-lhe um olhar com a mesma expressão.

— Não consigo — Cuthbert sussurrou. — Ro, não consigo

ver isso.

Roland sacudiu lentamente a cabeça. Percebeu que havia

uma lição ali, não uma coisa brilhante, mas algo velho, enferrujado e disforme. Fora por isso que seus pais os tinham deixado ir. E com a persistência habitual, a muda teimosia, Roland começou mentalmen-te a agarrar o que quer que aquilo pudesse significar.

— Você consegue, Bert.

— Não vou dormir esta noite.

— Então não vai — disse Roland, não vendo o que uma

coisa tinha a ver com outra.

De repente, Cuthbert pegou a mão de Roland e olhou-o com

tamanha agonia, ainda que silenciosa, que a dúvida do próprio Ro-land voltou e, ansioso, ele lamentou que tivessem ido à cozinha do oeste naquela noite. Seu pai tinha razão. Teria sido melhor não saber. Teria sido melhor ver cada homem, mulher e criança de Taunton morto e fedendo.

Mas mesmo assim. Contudo. Por mais que a lição fosse bru-

tal, como algo meio enterrado com pontas enferrujadas e afiadas, não deixaria a coisa escapar, não afrouxaria o controle que mantinha sobre ela.

— Não vamos subir — disse Cuthbert. — Já vimos tudo. E Roland abanou a cabeça com relutância, sentindo o con-

trole sobre aquela coisa — o que quer que ela fosse — se enfraque-cer. Cort, ele sabia, mataria os dois de pancada e depois os obrigaria a subir na plataforma passinho por passinho... cheirando o sangue fresco com os narizes e as gargantas como uma geléia salgada. Cort provavelmente colocaria uma nova corda de forca sobre a ponta da viga e poria o laço em volta de seus pescoços, fazendo-os ficar de pé sobre o alçapão; e Cort estaria pronto para golpeá-los se chorassem ou perdessem o controle da bexiga. Cort, é claro, estaria certo. Pela primeira vez na vida, Roland se sentiu detestando sua própria crian-cice. Ansiou tremendamente pela idade avançada.

Com cuidado, tirou uma lasca da cerca e colocou-a no bolso

interno da jaqueta antes de se virar.

— Por que você fez isso? — perguntou Cuthbert. Ele quis dar alguma resposta arrogante: Ah, a madeira da

sorte das forcas..., mas se limitou a olhar para Cuthbert e balançar a cabeça.

— Só para ter — disse. — Para ter para sempre. Afastaram-se da forca, sentaram-se e ficaram à espera. Em

cerca de uma hora, começaram a se reunir as primeiras pessoas da cidade, principalmente famílias que haviam chegado em carroções quebrados e surrados carros de boi trazendo seus lanches — cestas de panquecas frias com recheio de geléia de cogumelos. Roland sen-tiu o estômago roncar de fome e tornou a se perguntar, com deses-pero, onde estavam a honra e a nobreza. Tinham-lhe ensinado essas coisas, e ele era agora forçado a avaliar se não passavam de comple-tas mentiras, ou se seriam tesouros profundamente enterrados pelos sábios. Queria acreditar nessa segunda hipótese, mas lhe parecia que Hax, com seus aventais sujos, andando de um lado para o outro na cozinha nebulosa e subterrânea, gritando com os ajudantes, tinha mais honra que a contida naquele patíbulo. Girou a lasca de madeira, enjoado e intrigado. Cuthbert estava parado a seu lado com ar im-passível.

No final, não foi assim tão grande coisa, e Roland ficou satis-

feito. Hax foi conduzido num carro aberto, mas só sua enorme bar-riga o denunciava; os olhos tinham sido vendados com o largo pano preto que descia sobre o rosto. Alguns atiravam pedras, mas a maio-ria continuava simplesmente fazendo seu lanche enquanto assistia.

Um pistoleiro que o garoto não conhecia muito bem (estava

contente que o pai não viesse carregando a pedra negra) conduziu com cuidado o gordo cozinheiro pelos degraus. Dois Guardas da Vigília tinham seguido à frente e se colocado de um lado e do outro do alçapão. Quando Hax e o pistoleiro atingiram o topo, o pistoleiro atirou a corda sobre a viga e passou o laço pela cabeça do cozinhei-ro, puxando o nó até logo abaixo da orelha esquerda. Todos os pás-saros tinham voado, mas Roland sabia que estavam à espera.

— Deseja fazer uma confissão? — perguntou o pistoleiro. — Não tenho nada a confessar — disse Hax. Suas palavras

foram bem nítidas e o tom singularmente digno, apesar da mordaça de pano que passava em seus lábios. O pano se franzia um pouco na brisa leve e agradável que havia soprado. — Não esqueci a face de meu pai; ela tem estado o tempo todo comigo.

Roland deu uma olhada atenta na multidão e ficou perturba-

do com o que viu — um sentimento de simpatia? De admiração, talvez? Perguntaria isso ao pai. Quando traidores são considerados heróis (ou heróis traidores, conjecturava ele franzindo as sobrance-lhas), os tempos sombrios devem ter chegado. Tempos sombrios, de fato. Gostaria de ter compreendido melhor. Sua mente disparou para Cort e o pão que Cort lhes dera. Sentiu desprezo; estava chegando o dia em que Cort o serviria. Talvez não Cuthbert; talvez Bert tivesse de continuar curvado ao tacão de Cort, permanecendo como pajem ou cavalariço (ou, infinitamente pior, como um diplomata perfuma-do, flertando em salões de recepção ou olhando em falsas bolas de cristal com princesas e reis senis), mas ele não. Sabia disso. Ele era feito para os campos abertos e as longas viagens. Que isso parecesse um bom destino era algo que, mais tarde, em sua solidão, iria enchê-lo de espanto.

— Roland?

— Estou aqui. — Ele pegou a mão de Cuthbert e os dedos

dos dois se fecharam uns nos outros como ferro.

— A acusação é de crime capital e sedição — disse o pisto-

leiro. — Você cruzou a linha branca, e eu, Charles filho de Charles, o confio eternamente à escuridão.

A multidão murmurou, alguns protestando. — Eu nunca...

— Conte essa história no mundo subterrâneo, seu verme —

disse Charles de Charles, e puxou a alavanca com as duas mãos cal-çadas com luvas amarelas.

O alçapão se abriu. Hax caiu na vertical, ainda tentando falar.

Roland nunca esqueceu disso. O cozinheiro desceu ainda tentando falar. E onde seria concluída a última frase que começou a dizer na terra? As palavras foram encerradas pelo alçapão, como um estouro de madeiras de pinho no coração frio das noites de inverno.

Na hora não ficou pensando muito naquilo. As pernas do

cozinheiro se debateram uma vez, formando um grande Y; a multi-dão produziu um ruído sibilante de satisfação; os Guardas da Vigília relaxaram no porte militar e começaram a recolher negligentemente as coisas do patíbulo. Charles filho de Charles desceu lentamente os degraus, subiu no cavalo e partiu, abrindo bruscamente caminho por um grupo de pessoas fazendo piquenique, chicoteando algumas das carroças mais lentas, fazendo-as disparar.

A multidão se dispersou rapidamente e, em 40 minutos, os

dois garotos estavam sozinhos no pequeno morro que tinham esco-lhido. Os pássaros voltavam para examinar seu novo troféu. Um de-les pousou no ombro de Hax e ali continuou como amigo íntimo, golpeando com o bico a brilhante, lustrosa argola que Hax sempre usara na orelha direita.

— Não está nada parecido com ele — disse Cuthbert. — Ah, está sim — disse Roland confiante enquanto cami-

nhavam para o patíbulo, com o pão nas mãos. Bert parecia estar com medo.

Pararam embaixo da viga, erguendo os olhos para o corpo

retorcido, que balançava. Cuthbert estendeu a mão e, desafiante, to-cou num tornozelo peludo. O corpo começou a executar um novo arco retorcido.

Então, rapidamente, partiram o pão e espalharam os pedaços

sob os pés oscilantes. Roland olhou só uma vez para trás enquanto se afastavam. Agora havia milhares de pássaros. O pão — percebeu isso um tanto vagamente — era simbólico, então.

— Foi bom — disse de repente Cuthbert. — Foi... Eu... Eu

gostei. Gostei mesmo.

Roland não ficou chocado ouvindo isto, embora a cena não

tivesse lhe parecido particularmente agradável. Mas achou que talvez pudesse compreender o que Bert estava dizendo. Talvez ele não fos-se acabar como diplomata, mesmo sendo bom para contar piadas e jogar conversa fora.

— Não sei bem o que achei — disse —, mas valeu a pena.

Certamente valeu.

A terra não se abriu aos pés do homem bom por outros cin-

co anos e, na época em que Roland se tornou pistoleiro, seu pai já estava morto, ele próprio se transformara num matricida... e o mun-do seguira adiante.

Os longos anos e as longas viagens haviam começado.

— Olhe — disse Jake, apontando para cima. O pistoleiro ergueu a cabeça e sentiu uma pontada no qua-

dril direito. Estremeceu. Estavam há dois dias no sopé das monta-nhas e, embora os cantis estivessem de novo quase vazios, isso já não importava. Logo teriam toda a água que pudessem beber.

Seguiu o vetor do dedo de Jake apontando para o alto, para

além do patamar do planalto verde até os rochedos estéreis, cintilan-tes, e os desfiladeiros mais acima... e ainda além, na direção da pró-pria calota de neve.

O pistoleiro avistou o homem de preto. Tênue e distante,

nada além de uma pequena mancha (se não fosse por sua constância, poderia ter sido confundido com um daqueles corpúsculos que dan-çam perpetuamente diante dos olhos). Subia as encostas num pro-gresso letal, minúscula mosca numa enorme parede de granito.

— É ele mesmo? — perguntou Jake.

O pistoleiro fitava o despersonalizado corpúsculo fazendo a

distante acrobacia. Sentia apenas uma premonição de desgraça.

— É ele, Jake.

— Acha que vamos pegá-lo?

— Não deste lado. Do outro. E não se ficarmos aqui para-

dos falando sobre isso.

— É tudo tão alto — disse Jake. — O que há do outro lado? — Não sei — disse o pistoleiro. — Acho que ninguém sabe.

Talvez antigamente soubessem. Vamos lá, garoto.

Começaram de novo a subir, fazendo cair pequenos filetes

de pedra e areia no deserto escavado atrás deles. Uma torrente de restos, mortiça e crestada pelo sol, que parecia nunca acabar. Acima deles, bem acima, o homem de preto avançava mais e mais e mais. Era impossível saber se olhava para trás. Parecia saltar por impossí-veis abismos, escalar paredões. Desapareceu uma vez ou duas, mas tornavam sempre a vê-lo, até que uma cortina violeta de escuridão tirou-o definitivamente de vista. Enquanto faziam a fogueira para a noite, o garoto falou pouco e o pistoleiro se perguntou se o garoto sabia o que ele próprio já havia intuído. Pensou na expressão de Cu-thbert, ardente, amedrontada, nervosa. Pensou no pão. Pensou nos pássaros. Acaba assim, ele pensou. Costuma sempre acabar assim. Há buscas e trilhas que conduzem sempre para a frente, e todas elas terminam no mesmo lugar — no território da morte.

Exceto, talvez, a estrada para a Torre. Onde o ka pode mos-

trar sua verdadeira face.

O garoto, a vítima, com o rosto inocente e tão jovem sob a

luz da diminuta fogueira, adormecera sobre os feijões que comia. O pistoleiro agasalhou-o com o cobertor do cavalo e depois se enros-cou para dormir também.