O Primo Basílio
Capítulo VIII
A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:
—Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.a Juliana?
—De repente.
—Eu vi-a entrar tão afogueada...
Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do rosto:
—Está melhor, minha senhora?
Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava estendida na causeuse, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, com um olhar errante, vago:
—E a outra?...
—A snr.a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr a senhora, coitada... Está melhorzinha?
Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscillar brandamente:
—Póde ir, Joanna, póde ir—disse.
—A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...
Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; achava-se mudada, com outra expressão como se fosse outra; e o silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario.
—Minha senhora—disse a voz timida de Joanna.
—Que é?
—É o cocheiro.
Luiza voltou-se, sem comprehender:
—Que cocheiro?
—Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar...
—Ah!
E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração, viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»!
Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda:
—Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...—balbuciava.
Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a causeuse:
—Estou perdida!—murmurou, apertando as mãos na cabeça.
Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.
Que lhe restava?—Fugir com Bazilio!
Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, trespassou-a—como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um campo.
Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu appartamento da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul—ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, n'outras cidades...
—Se a senhora quer vir jantar...—disse Joanna á porta do quarto.
Tinha posto um avental branco, e acrescentou:
—A snr.a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde servir á mesa.
—Já vou.
Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e erguendo-se:
—Que tem ella?
—Diz que é uma dôr muito forte no coração.
Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma esperança perversa:
—Vá vêr, Joanna, vá vêr como está!
Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver...
—Está mais descançada, minha senhora—veio dizer a Joanna—diz que logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!
—Não.
E entrou para o quarto, pensando:—de que serve estar a imaginar cousas? Só me resta fugir.
Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: Meu amigo!
Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem á tarde, nem á noite—as criadas, a outra, a infame! iriam logo a Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de a vêr chegar, decepções aterradas,—até que telegrapharia a Jorge! E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao ruido offegante da machina, para um destino novo!...
Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer crochet, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle «desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter!
E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; não teria de amar em casa e amar fóra de casa!
Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bebedos...
Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha sete: cinco bilhetes curtos, e duas cartas—a primeira que elle lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... Faltava, com effeito, a primeira, e dous bilhetes! Tinha-lh'as roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... Que lhe importava, por fim!—E deixou-se cahir na causeuse, aniquilada—Que ella tivesse uma, duas, todas—era a mesma desgraça!
E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapéo, um chale-manta...
O cuco cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára aquella coberta de crochet no primeiro anno de casada: não havia uma malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas elle não se deitára—a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: «Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava, lhe refrescava o sangue!
Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na causeuse, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella—senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho,—tinha-as coberto de beijos!
E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar alli na alcova—visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! Dormiria alli só! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: é tarde, Jorge! Tudo acabára para ambos. Nunca mais!—Rompeu a chorar, de bruços sobre a cama...
Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.
—A snr.a Juliana—disse—levantou-se um momento, mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?
—Não—disse da alcova.
Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.
Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe—e agitava-se sobre o enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no sarcophago vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no sarcophago! Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da «cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho:
—Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!
E que havia de fazer áquillo?—foi então a sua inquietação. Ora pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças de a publicar, extorquir-lhe um rôr de libras por meio d'outra pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as toilettes, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa que a lama, vingar-se da «cabra»!
Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Victoria—que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta.
A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:
—Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo!
A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana:
—Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!
E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito comsigo—aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a patroa, a piorrinha! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem—e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente senhora da casa. Tinha alli fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!
E o futuro estava certo! Aquillo era dinheiro, o pão da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma Salvè-rainha de graças a Nossa Senhora, mãi dos homens!
Mas agora, depois d'aquella scena com Luiza—não podia ficar de braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, pôr-se em campo, fazer alguma cousa. O que? A tia Victoria é que havia de dizer...
Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu.
A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os bons dias em redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos.
Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos:
—Pois não imagina, snr.a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo!
—Quem?—perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca enxovalhada.
—O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!
—Piteireiro, hein?—disse o rapazola, enrolando o cigarro.
—Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente!
—Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande—disse, baixando a voz, a do chale de quadrados.
Os dous homens aproximaram-se.
—O senhor—continuou ella com gestos aterrados—é um desafôro com a cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal!
—E então se a gente tem lá o seu descuido—disse o da gravata branca com indignação—é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli!
—Lá a sua gente é socegada, snr. João—observou a picada das bexigas.
—É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!
E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:
—Mas isto sim! Isto é que é leval-a!
O rapazola sorriu com satisfação:
—Ora! são mais as vozes do que as nozes!
—Vá lá, mostra lá—disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovêlo—mostra lá!
O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro.
—Muito bonito! Rica prenda!—disseram as duas mulheres.
—Suor do meu rosto—fez elle, acariciando o queixo.
O da gravata branca indignou-se:
—Ora seu marôto!—E baixo para as raparigas:—Suor do seu rosto, hein!—É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas—e ainda falla!
O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:
—E se quizer agora, ha-de largar a corrente!
—Ha-de-lhe custar muito!—exclamou o da gravata branca.—Uma gente que tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros é d'ella!
—Mas muito agarrada!—disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da bocca:—Estou com ella ha dous mezes, e ainda se não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé!—E cofiando o cabello para a testa:—Não faltam mulheres! e das que tem Dom!
Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e vendo Juliana:
—Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. Bons dias, snr.a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!
Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:
—E então, que ha de novo?
Juliana pôz-se a contar longamente a scena da vespera, o desmaio...
—Pois minha rica—disse a tia Victoria—o que está feito, está feito; não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e entendes-te com elle.
Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo...
A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto:
—Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?
Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com desconfiança.
—Tens medo de largar os papeis, creatura?—exclamou offendida a velha.—Arranja-te tu, então arranja-te tu...
Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...
—A pessoa—disse a tia Victoria—vai ámanhã á noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto de reis!
Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava a brincar!
—Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem—ainda hontem a vi com uma pequerrucha que tem—pagou trezentos mil reis. E em bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo...
Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula:
—Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda.
—Azul! até já te digo a côr!
—Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!
A tia Victoria fitou-a, com desdem:
—Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir!
E depois de reflectir um momento:
—Tu vai-te para casa...
—Não, lá isso não volto...
—Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada...
—Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia...
A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:
—Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus—e ás quatro para jantar, hein!
Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! Era o conto de reis que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um frou-frou de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das boas, das chics. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da arca—para estar mais seguro, mais á mão!
Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietario pacifico e rubicundo—que se afastou escandalisado!
Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:—É hoje!—foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, quando a voz de Joanna disse á porta do quarto:
—A senhora faz favor?
Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.a Juliana tinha sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar...
—Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...—Que allivio para ella!
Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar Bazilio no Paraiso.
Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa.
—A snr.a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?—veio dizer Joanna assombrada.
Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:
—Depois se saberá...
Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou emfim.—Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete felpudo...—Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.
Á Patriarchal passava um coupé de praça. Tomou-o, mandou-o ir ao Hotel Central.
O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um desejo de viagens, do ruido nocturno das gares á claridade do gaz, da agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!
Deu ao cocheiro a adresse do Paraiso. E á maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua Malaguenha!
Ao fim da rua do Ouro o coupé parou n'um embaraço de carroças, e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»: um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua linda figura!...—e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr.
O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.—Todos alli ficavam nas suas familias, nas suas felicidades, só ella partia!
Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla—uma senhora casada com um velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; era rica, dava soirées...—O que é o mundo!—pensava Luiza.
O trem parou á porta do Paraiso, era meio dia. A portinha em cima estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio appareceu galgando os degraus.
—Até que emfim!—exclamou abrindo a porta.—Porque não vieste hontem?...
—Ah! se tu soubesses...
E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle:
—Bazilio, sabes, estou perdida!
—Que ha?
Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, a scena no quarto...—O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein?
Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras.
—Isso só a ti!—exclamou.—Que douda! Que mulher!—E muito excitado:—Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir? É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto quer, e pagar-se-lhe!
—Não, não!—fez Luiza—Não posso ficar!—Tinha uma afflicção na voz. A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar para casa!—Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos. Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!—Agarrára-se a elle, procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle.
Bazilio desprendeu-se brandamente:
—Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir! Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro...
Luiza fazia-se branca, ouvindo-o.
—E além d'isso—continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto—eu não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de ser a snr.a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, respeitada como d'antes—sómente mais acautelada! Aqui está!
Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, em Paris—parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a rondar!
Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:
—Então, dize!...
—Mas estou-te a dizer, filha...
—Não queres?
—Não!—exclamou Bazilio com força.—Se tu estás douda, não estou eu!
—Oh! pobre de mim, pobre de mim!
Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito.
Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e impacientavam-no.
—Mas, santo nome de Deus, escuta-me!
Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto:
—Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se eu quizesse...
Bazilio ergueu-se bruscamente:
—Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para Paris, viver commigo, ser a minha amante?
—Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz!
—Mas vaes voltar p'ra casa!—exclamou elle, quasi com colera.—Por que havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel, medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!—Tomou-lhe as mãos, com muita ternura:—Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer; sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. A questão é pagar-lhe.
Ella disse, com uma voz lenta:
—E o dinheiro, onde o tenho eu?
—Está claro que o dinheiro tenho-o eu!—E depois de uma pausa:—Não muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...—Hesitou, disse:—se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe!
—E se não quizer?
—Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não é para guardar um autographo teu!
Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos—parecia-lhe soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar:
—Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a trezentos mil reis cada uma!
Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto.
—Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio!
Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... Não o aceitaria d'elle!
Bazilio encolheu os hombros:
—Estás-te a dar ares, onde o tens tu?
—Que te importa?—exclamou.
Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma impaciencia reprimida:
—Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens dinheiro.
Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço:
—Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu!
Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé:
—Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!
—Nem isso me fazes?
Bazilio não se conteve:
—Não! c'os diabos, não!
—Adeus!
—Tu estás fóra de ti, Luiza!
—Não. A culpa é minha—dizia, descendo o véo com as mãos tremulas—eu é que devo arranjar tudo!
E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço.
—Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! Escuta...
—Fujamos então, salva-me de todo!—gritou ella, abraçando-o anciosamente.
—Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel!
Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a.
—Para o Rocio—disse.
E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar convulsivamente.
Bazilio sahiu do Paraiso muito agitado. As pretensões de Luiza, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao Paraiso, calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:
—Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto.
Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu buvard com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, caixas de charutos, os seus livros—Mademoiselle Giraud ma femme, La vierge de Mabille, Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme de chambre, Le chien d'arrêt, Manuel du chasseur, numeros do Figaro, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo.
E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a «situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor e o bœuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se concluido,—e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine!
Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se!
A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um empecilho», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha passar o pé!
A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou—afogueado, de lunetas azues, furioso.
Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia—que o fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial—ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse repugnancia, eram as ternuras de familia!
—E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar!
—Sabes o que me succede?—disse Bazilio, erguendo-se.
—O quê?
—Imagina. O caso mais estupido.
—O marido apanhou-te?
—Não, a criada!
—Shocking!—exclamou Reynaldo com nôjo.
Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle:
—E agora?
—Agora é safar-te!
E levantou-se.
—Onde vaes tu?
—Vou ao banho.
Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle...
—Não posso!—exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.—Vem tu cá abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua!
Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez.
Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto:
—Então cartinha apanhada nos papeis sujos!
—Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu faça?
—As malas, menino!
E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:
—Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada!
—Oh!—fez Bazilio, impaciente.
—Oh quê?—E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao rebordo de marmore da tina:—Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se quer safar—isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!
—Meu rico, é uma mulher deliciosa!
O outro encolheu os hombros, descrente.
Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou episodios lascivos.
O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar.
—Bem! estás pelo beiço—resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se.
Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição grotesca.
—Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade!
—Eu—disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo—se me podesse desembaraçar decentemente...
—Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna!
E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica.
—Mas tambem—disse Bazilio—deixal-a agora n'aquella atrapalhação com a criada! No fim é minha prima...
Reynaldo agitou os braços, com hilaridade.
—Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de notas na mão.
—É brutal...
—É caro!
Bazilio disse então:
—Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada...
Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo:
—Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra!
Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse esquecido de frapper o champagne!
Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com effeito a ralhar, a descompôr-se? Que pulhice que era tudo aquillo! Positivamente devia partir.
—Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa?
—Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor!
—Vou fazel-o—disse Bazilio erguendo-se, muito decidido.
—E partimos ámanhã?—gritou Reynaldo.
—Ámanhã.
—Por Madrid?
—Por Madrid.
—Salero!—Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com ferradurinhas bordadas.
Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa—desde o desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:
—Está alli o primo da senhora.
Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de robe de chambre, e tinha os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, alisou o cabello, entrou na sala.
Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:—que apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo «como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas:
—Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida!
Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Bazilio acrescentou logo:
—Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!—Encolheu os hombros com desdem.—Mas são interesses d'outros... E aqui está o que eu recebi esta manhã.
Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel.
—Lê, peço-te que leias!
—Para que?—fez ella.
Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente necessaria. Parta já.»
Dobrou o papel, entregou-lh'o.
—E partes, hein?
—É forçoso.
—Quando?
—Esta noite.
Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:
—Bem, adeus.
Bazilio murmurou:
—És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é necessario terminar. Fallaste á mulher?
—Está tudo arranjado—respondeu ella, franzindo a testa.
Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade:
—Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe?
Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente:
—Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!...
Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, tirando uma carteira da algibeira, começou:
—Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem lidamos), é natural que haja outras exigencias...—Abriu a carteira, tomou um sobrescripto pequenino e cheio.
Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio.
—Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro.
—Tu estás doudo?—exclamou ella.
—Mas...
—Tu queres-me dar dinheiro?—A sua voz tremia.
—Mas emfim...
—Adeus!—E ia sahir da sala, indignada.
—Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste...
Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar:
—Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus...
—Mas sabes que volto, dentro de tres semanas...
—Bem, então nos veremos...
Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios passivos e inertes.
Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:
—Nem um beijo me queres dar?
Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando:
—Adeus.
Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro:
—Adeus!—E da porta, voltando-se, com melancolia:—Escreve-me ao menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22.
Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janellas!
O trem rolou. Era o n.º 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.—Elle partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da densa noite, erriçada de perigos!
Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,—encontrou a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom.—Não, não estava no mundo só! Tinha-o a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!—E collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:—Perdôa-me, Jorge, meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma!
Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente:
—A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.a Juliana?
—Mas onde quer vossê ir saber?—perguntou Luiza.
—Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir saber...
—Pois bem, vá, vá.
Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente...
Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e sangrava dolorosamente!
Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,—e recuou vendo Juliana, amarella, muita alterada.
—A senhora faz favor de me dar uma palavra?
Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, furiosa:
—Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim?
—Que é, mulher?—fez Luiza, petrificada.
—Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar em nada?—berrou.
—Oh mulher, pelo amor de Deus!...
A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se.
Mas depois de um momento, mais baixo:
—A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram?—E retomada pela sua colera, batendo com o punho furiosamente na mesa:—Raios me partam, se não houver uma desgraça n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal!
—Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?—disse Luiza, erguendo-se direita, diante d'ella.
Juliana ficou um momento interdicta.
—A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os papeis!—respondeu, empertigando-se.
—Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil reis?
—Ao inferno!—gritou Juliana.—Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas!
Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada.
—Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
—A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para m'as pagarem!—E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação phrenetica:—Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã—e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o que lhe appetece—e a negra? A negra a esfalfar-se!
Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira.
—Pois que lhe parece?—exclamava.—Não que eu cômo os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez—e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança.—Quem manda agora, sou eu!
Luiza soluçava baixo.
—A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura!
Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços:
—Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca se torna a abrir!—E deu uma palmada na bocca.
Luiza erguera-se devagar, muito branca:
—Pois bem—disse, quasi n'um murmurio—eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.
Fez-se um silencio—que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o seu tic-tac, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita.
Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um momento:
—Bem, minha senhora—disse, muito secca.
Voltou as costas, sahiu.
Luiza sentiu-a bater a cancella com força.
—Que expiação, Santo Deus!—exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada de novo em lagrimas.
Eram quasi dez horas quando Joanna voltou.
—Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe d'ella.
—Bem, traga a lamparina.
E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo:
—A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio!
Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo!
A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de amargura. Quem lhe poderia valer?—Sebastião! Sebastião era rico, era bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de Jorge:—Empreste-me seiscentos mil reis.—Para quê, minha senhora? E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.
A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,—a chegada de Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao Paraiso...
Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas do wagon!
E ella alli, na agonia!
Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia.
Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.—Aquella alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar!
Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana desappareceria, Jorge voltaria!—E, alvoraçada, via perspectivas de felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.
Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado d'Almada, desejava saber como a senhora estava.
Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo que podesse!
Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E Sebastião era tão amigo d'ella!
Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe désse mau humor, entrou.
Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera tão recto, e a sua barba tão séria!
—Então que é? precisa alguma cousa?—perguntou-lhe elle depois das primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.
Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo:
—É por causa de Jorge!
—Aposto que não lhe tem escripto?
—Não.
—Esteve muito tempo sem me escrever tambem.—E rindo:—Mas hoje recebi duas cartas por atacado.
Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam devagarinho o estôfo.
—É verdade—dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.—Recebi duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...—E estendendo uma carta a Luiza:—Póde vêr.
Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão precipitadamente:
—Perdão, não é essa!
—Não, deixe vêr...
—Não diz nada, são negocios...
—Não, quero vêr!
Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa:
—O quê?—A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza irritada.—Realmente!...
—São tolices, são tolices!—murmurava Sebastião, muito vermelho.
Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar:
«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»—Que graça!—murmurou Luiza, furiosa.—«Receio muito que se repita commigo o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...»
Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel.
—São brincadeiras!—balbuciou elle.
Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma soirée em minha honra, e em minha honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»—Luiza fez-se escarlate—«e uma queda do diabo...»
—Está doudo!—exclamou ella.—«E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...»
Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a Sebastião:
—Muito bem, diverte-se!—disse com uma voz sibilante.
—São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio...
—Eu!—exclamou ella.—Acho muito natural até!
Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. Felicidade, de Julião...
—Trabalha muito agora para o concurso—disse Sebastião.—Quem não tenho visto é o Conselheiro.
—Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem?
Sebastião encolheu os hombros—e com um ar quasi reprehensivo:
—Ora realmente tomou a serio...
Luiza interrompeu-o:
—Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu.
Sebastião teve um alvoroço d'alegria.
—Sim?
—Foi para Paris, não creio que volte.—E depois d'uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, e a carta:—Só em Paris está bem... Estava no ar p'ra partir.—Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido:—Precisava casar, aquelle rapaz.
—P'ra assentar—disse Sebastião.
Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido.
Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de familia...
—Teem mais experiencia—disse.
—Mas um fundo leviano—observou ella.
E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço.
—Eu a fallar a verdade—disse então Luiza—estimei que meu primo partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio despedir-se, fiquei surprehendida...
Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas trocadas—mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo:
—Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi grande...
Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava».
Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas duvidas, que tivera, tão injustas!...
—E volta?—perguntou.
—Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!
E com a idéa da carta, de repente:
—Então o Sebastião é confidente de Jorge?
Elle riu:
—Oh minha senhora! pois acredita...
—E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não supporta o Alemtejo...—Mas vendo Sebastião olhar o relogio:—O que, já? É cedo.
Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle.
Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê—porque a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada.
Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham trazido outras—e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro!
Luiza riu, forçadamente.
—Ora, quando se é proprietario e rico!...
—Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!...
Levantou-se, e despedindo-se:
—Eu espero que aquelle vadio se não demore muito...
—Se a estanqueira der licença...
Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que viesse immediatamente, ou que partia ella!»—Entrou no quarto, muito excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da «mais pequena cousa»—separava-se, recolhia-se a um convento, morria de certo, matava-o!...
—Minha senhora—veio dizer Joanna—é um gallego com esta carta. Está á espera da resposta.
Que espanto! Era de Juliana!
Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros d'orthographia, dizia:
«Minha senhora.
«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço como d'antes—ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus repentes, e com isto não canço mais e sou
«Serva muito obediente
«a criada
«Juliana Couceiro Tavira.»
Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi dizer—não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não! Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu castigo... Hesitou ainda um momento:
—Que sim, que venha, é a resposta.
Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do petroleo.
Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? o que tinha acontecido? porque não déra noticias?—Juliana contou que fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama...
Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem estivera...
—A senhora tem andado a modo incommodada—disse Joanna.
—É do tempo—observou Juliana.—Tinha trazido a sua costura, e ambas caladas continuaram o serão.
Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era ella, de certo!
—Entre...
A voz de Juliana disse muito naturalmente:
—Está o chá na mesa.
Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse:
—Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora?
Luiza fez que sim com a cabeça, sem a olhar.
Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés:
—A senhora não precisa mais nada?—perguntou.
—Não.
—Muito boa noite, minha senhora.
E não houve outra palavra mais.
—Parece um sonho!—pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.—Esta creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me torturar, para me roubar!—Como se achava ella, Luiza, n'aquella situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem «dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!...—Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais!
D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera—e sonhava que um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante, nem mesa:—havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:—Brejeiros ou de Xabregas?—Fugia então de casa indignada, e, através de successos confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros de palhaço, repenicava uma viola, e cantava:
Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido
Tem obrigação de amar!
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido
Tem obrigação de amar!
—Não tem!—gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de papel.—E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que fazia Juliana com as suas azas de morcego.