O Primo Basílio

Eça de Queirós · Capítulo 17 de 18

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O Primo Basílio

Capítulo XVIII



Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de Sebastião.

N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de vêr um doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do enterro, da afflicção de Jorge.

—Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!—disse Julião compadecido.

—Era uma esposa modêlo!...—murmurou o Conselheiro.

De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia profundamente.

E acrescentou:

—Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do grande desastre de Waterloo!

E passado um momento, continuou:

—É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...—E interrompendo-se, parando:—Porque eu entendi que era o meu dever dedicar um tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e não me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua opinião conscienciosa e desassombrada.

Julião tossiu, e perguntou:

—É um necrologio?

—É um necrologio.

E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, na sua posição, o entrar em cafés publicos», lembrou a Julião que poderiam descançar um momento no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia lêr-lhe «a producção».

Espreitaram.

Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus cafés, com os chapéos na cabeça, apoiados a bengalas de cana da India. O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala estreita.

—Ha um silencio propicio—disse o Conselheiro.

Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel pautado, murmurou:—Infeliz senhora!—Inclinou-se para Julião, e leu:


NECROLOGIO

Á MEMORIA DA SNR.a D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO


Rosa d'amor, rosa purpurea e bella,
Quem entre os goivos te esfolhou na campa?


—É do immortal Garrett!—E continuou com uma voz lenta e lugubre:

«... Mais um anjo que subiu ao céo! Mais uma flôr pendida na tenra haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal desabrochada para as trevas do tumulo...»

Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o curvado a remexer o seu café, proseguiu com entonações mais funerarias:

—«Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa tão cedo arrancada ás caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como baixel no escarcéo da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! Por que soluçaes?»

—Um café, ó Antonio!—bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de jaquetão, que se sentou ao pé, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e deitando o chapéo para o cachaço.

O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz:

—«...Não soluceis! Que o anjo se não pertence á terra pertence ao céo!...»

—O sô Guedes esteve já por ahi?—perguntou a voz rouca.

O criado disse de traz do balcão, limpando com uma rodilha as travessas de metal:

—Ainda não, snr. D. José!

—«...Alli—continuou o Conselheiro—seu espirito, librando-se nas candidas azas, entôa louvores ao Eterno! E não cessa de pedir ao Omnipotente mercês e favores para derramar sobre a cabeça do dilecto esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará nas regiões celestes, patria das almas de tão subido quilate...»—E a voz do Conselheiro aflautava-se para indicar aquella ascensão paradisiaca.

—E hontem á noite esteve cá, o sô Guedes?—insistiu o sujeito de jaquetão com os cotovêlos sobre a mesa, fumando como uma chaminé.

—Esteve tarde. Lá pelas duas horas.

O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas de author interrompido. Mas proseguiu:

—«...E vós, ó almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as, não percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da Providencia...»

E interrompendo-se:

—Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge!—Continuou:—«...da Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura...»

—Esteve com a pequena, o sô Guedes?—fez o sujeito, quebrando no marmore da mesa a cinza do charuto.

O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva:

—Deve ser pessoa da mais baixa extracção—rosnou com odio.

E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balcão:

—Nada, não; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua. Uma magrinha, com o cabello riçado, uma capa vermelha...

—A Lola!—acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se com voluptuosidade á recordação da Lola.

O Conselheiro agora apressava-se:

«... E de resto, o que é a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos somos indignos vassallos».

E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou.

—Que lhe parece, com franqueza?

Julião sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires, lambendo os beiços:

—É para imprimir?

—Na Voz Popular, com tarjeta preta.

Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se:

—Está muito bom. Muito bom, Conselheiro!

E Accacio procurando o troco para o moço:

—Creio que está digno d'ella, e de mim!

E sahiram calados.

A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou:

—Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade recolhe-se á Encarnação.

—Ah!

—Disse-m'o agora. Eu fui justamente vêl-a antes de ir vêr um doente á rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoção; o susto! E deu-me parte: recolhe-se ámanhã á Encarnação.

O Conselheiro disse:

—Sempre conheci n'aquella senhora idéas retrogradas. É o resultado das manobras jesuiticas, meu amigo!—E ajuntou com a melancolia do liberal descontente:—A reacção levanta a cabeça!

Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo:

—Qual reacção! É por sua causa, ingrato...

O Conselheiro estacou:

—Que quer o meu nobre amigo insinuar?

—Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave...

—O que? Acredite...

—O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!—E rindo muito, dizendo-lhe adeus! adeus! desceu rapidamente a rua do Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braços cruzados, como petrificado.—Que infeliz senhora! Que funesta paixão!—murmurou emfim. E acariciou o bigode, com satisfação.

Como tinha de passar a limpo o Necrologio apressou-se a entrar em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupações d'homem; e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no silencio do seu Sanctus Sanctorum. Terminava quando a porta rangeu, e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz constipada:

—Então hoje não se faz néné?

—Não tardo, minha Adelaide, não tardo!

E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era commovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada como um ai! Meditou, com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre os dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a mão pela calva: aquelle dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou:

—«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»

Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente:

—«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»—E passando o braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou:

—Está de fazer sensação, minha Adelaide!

Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem preenchido e digno: da manhã certificára-se com regosijo no Diario do Governo, que a familia real «passava sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripções assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar:

—A vida é um bem inestimavel!—E acrescentar como bom cidadão:—Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica!

E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito cheio, os passos firmes, erguendo alto o castiçal.

A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada da constipação e—de uma hora de ternuras, que tivera á tardinha, com o louro e meigo Arnaldo, caixeiro da Loja da America.



Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem á porta do Hotel Central: um trazia uma ulster de xadrez, o outro uma longa pelliça. Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens.

Um criado allemão, que conversava em baixo com o porteiro, reconheceu-os logo, e tirando o côco:

—Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde!

O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, rosnou de dentro da sua pelliça:

—É verdade, aqui estamos outra vez na possilga!

Mas áquella hora?

—A que horas queria vossê que chegassemos? Ás horas da tabella, talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal é quasi nada...

—Houve algum transtorno?—perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela escada.

E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:

—O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto paiz!...—E desabafava a sua cólera com o criado: tel-a-hia desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:—Ha um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum barão que surge. E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!—E sorria, vagamente reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias.

Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou—que não havia senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar—a cólera de Reynaldo não conheceu restricções:

—Então havemos de dormir no mesmo quarto? Vossê pensa que o snr. D. Bazilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me espanta!—E encolhendo os hombros com rancôr.—É o clima, é o clima que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!...

E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado á pressa, sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um frango frio e Bourgogne.

Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhára Bazilio que voltava a terminar «o seccante negocio da borracha». E não cessava de rosnar soturnamente de dentro da pelliça:

—Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!

Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa Apolonia, recordações do Paraiso, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do verão passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fôra encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente.

—Que fará ella a esta hora?—pensava Bazilio.—Naturalmente, deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel Central...

Cearam.

Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma lassidão confortavel.

—E ámanhã estou-te d'aqui a vêr—disse Reynaldo.—Vaes-te logo metter com a prima!

Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiçou-se.—Que diabo!—disse—é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!—Bebeu mais um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia noite.

Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com soluços cançados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido n'um sophá, lia a Revista dos Dous Mundos. Leopoldina dançava n'uma soirée da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma arvore sobre a sepultura de Luiza.



D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar em redor, um coupé decente. Mas o Pintéos, avistando-o de longe, lançou logo a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado de tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse:

—Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos!

—A casa da senhora? Prompto, meu amo.—E endireitando-se na almofada, bateu.

Quando a tipoia parou á porta de Jorge—o Paula sahiu para a rua, a estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos.

Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o charuto, tornou a puxar o cordão com força.

—As janellas estão trancadas, meu amo—disse o Pintéos.

Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a casa tinha um aspecto mudo.

Bazilio dirigiu-se ao Paula:

—Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra?

—Já não moram—disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o bigode.

Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre.

—Onde vivem agora então?

O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado:

—V. s.a é o parente?

Bazilio disse sorrindo:

—Sou o parente, sou.

—Então não sabe?

—O quê, homem de Deus?

O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça:

—Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu.

—Que senhora?—perguntou Bazilio. E fez-se muito branco.

—A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o Engenheiro... E o snr. Jorge está em casa do snr. Sebastião. Alli ao fim da rua. Se v. s.a lá quer ir...

—Não!—fez Bazilio com um gesto rapido da mão. Os beiços tremiam-lhe um pouco.—Mas que foi?

—Uma febre! Rapou-a em dous dias!

Bazilio dirigiu-se ao coupé devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéos bateu p'ra a Baixa.

O Paula então aproximou-se do estanque:

—Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!—murmurou.

A estanqueira disse lamentosamente:

—Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos por alma...

—E eu!—suspirou a carvoeira.

—Ha-de-lhe isso servir de muito!—rosnou o Paula, afastando-se.

Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! e todas as noites lia a Nação que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma porcaria.

Foi de certo sob este sentimento que, voltando á porta do estanque, disse ás visinhas com um ar lugubre:

—Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é?—Fazia um gesto que abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra suprema:

—Um monte d'estrume!



Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo á porta do hotel Street. Mandou parar o Pintéos, e saltando do coupé:

—Sabes?

—O quê?

—Minha prima morreu.

O visconde Reynaldo murmurou polidamente:

—Coitada!...

E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a côr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisação da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.

E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza.

O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo!—Mas em resumo, sempre achára aquella ligação absurda...

Porque emfim fossem francos: que tinha ella? Não queria dizer mal «da pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade é que não era uma amante chic; andava em tipoias de praça; usava meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sepatos d'ourello; não tinha espirito, não tinha toilette... que diabo! Era um trambolho!

—Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...—resmungou Bazilio com a cabeça baixa.

—Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!—disse Reynaldo com desdem.

E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava governando atarantadamente dous cavallos pretos:—Que phaeton! Que arreios! Que estylo! Só em Lisboa!...

Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos pelas suiças:

—De modo que estás sem mulher...

Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um forte raspão no chão com a bengala:

—Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!

E foram tomar Xerez á Taverna Ingleza.


Setembro 1876—Setembro 1877.