O Primo Basílio
Capítulo IV
Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf!
—O caldinho ha-de estar prompto, hein!—disse, adocicando a voz.—Tira-m'o, snr.a Joanna, faz favor?
—Vossemecê hoje está com outra cara—notou a cozinheira.
—Ai! sinto-me outra, snr.a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já luzia o dia!
—E eu!—Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, como quem pisava uvas n'um lagar!
—Enfartamento—disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:
—Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem!
Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas abertas.
O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura.
—Está de appetite, snr.a Joanna, está de appetite!—dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se:
—O que se quer é que esteja a gosto.
—Está a preceito.
Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.—E a campainha da porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.
Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade.
A campainha retilintou, sacudida com impaciencia.
—Com a cabeça, burro!—disse Juliana.
Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se devagarinho no sovaco, toda repousada.
A campainha retiniu violentamente.
—Fóra, besta!—rosnou Juliana, muito tranquilla.
Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo:
—Juliana!
—Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! Irra!
—Juliana!—gritou Luiza.
A cozinheira voltou-se, já assustada:
—A senhora zanga-se, snr.a Juliana.
—Que a leve o diabo!
Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.
—Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora!
Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo de foulard côr de castanho, com pintinhas amarellas!
—Temos novidade! Temol-a grossa!—pensou Juliana pelo corredor.
A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo do braço, estava o sujeito do negocio das minas!
—Aquelle sujeito de hontem!—veio dizer, toda pasmada.
—Mande entrar...
—Viva!—pensou.
Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de jubilo:
—Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um embrulho!—Que lhe parece, snr.a Joanna? Que lhe parece?
—Visitas...—disse a cozinheira.
Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa.
Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas continuava langoroso e debil.
—Pois, senhores, isto vai rico!—disse Juliana.
Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O reposteiro dentro estava tambem cerrado.
—Os diabos calafetaram-se!—pensou.
Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: Tu, foste tu!
—Oh que bebeda!
Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó.
—Está?—perguntou, limpando a testa suada.
—Está com uma visita, snr. Sebastião!
E cerrando a porta sobre si, mais baixo:
—Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer?
—Não, não, obrigado, adeus.
Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação, sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu á cozinha.
—Tratam-se por tu!—exclamou.—Tratam-se por tu, snr.a Joanna!
E muita excitada:
—Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas!
O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo, com muita intimidade:
—Bem, não falto. Adeus.
Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia serena, muito indifferente.
—Que sonsa!
Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice.
—Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!—calculava.
Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,—pensou logo:
—Abriu-lhe o appetite!
E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na voltaire com um ar quebrado:
—Ficou derreada.
Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas forte, muito forte».
—Quer café!—veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.—Tudo á grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!
Estava furiosa.
—Todas o mesmo! Uma récua de cabras!
Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;—e a curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma corôa de rosas.
—Tem resposta?
—Tem.
Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de musgo.
Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E pensou logo:—Temos passeata, vai ter com o gajo!
Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na causeuse lendo aos bocados, ora batendo distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a cuia dos dias santos—e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço, estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a Norma ou a Lucia, punha uma melancolia na tarde.—E Juliana alli estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os morcegos começavam a voar.
Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,—ficou pasmada de a vêr vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da causeuse calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de pó d'arroz, o olhar cheio de brilho.
—O vento abrandou?—disse.
—Está a noite muito bonita, minha senhora.
Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D. Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um coupé, credo, morria-se!
Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a condessa de Arruella...
Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco:
—Vamos, filha. Faz-se tarde.
Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas!
Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma cadeira, dormitava.
Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho.
O que ia, era refastelar-se para a cama!
—Credo, snr.a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes!
Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou a poltrona para a varanda,—e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a passar a noite.
O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.
Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe «olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça de lado, saboreava, longamente, aquella consideração.
Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de leve.
—Quem é?—perguntou muito impaciente.
—Está?—disse a voz grossa de Sebastião.
—Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem.
—Ah!—fez elle.
E acrescentou:
—Muito bonita noite!
—D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!—exclamou alto.
E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente:
—Recados a Joanna! Não se esqueça!—mostrando-se intima, madama, com olho terno para os homens.
Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio.
Era beneficio; já de fóra se sentia o brouhaha lento e monotono, e via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa.
Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito surprehendido, exclamou:
—Que feliz acaso!
Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade.
A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado!
—Os trabalhos, minha senhora...—disse Bazilio curvando-se.
E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:
—E a velhice! Sobretudo a velhice!
Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.
Tinham ficado parados, conversando.
Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente!
E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado—vestidos d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos.
Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo.
Luiza quiz-se sentar.
Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna.
—Que fizeste tu hoje, Bazilio?—perguntou Luiza.
Tinha ido aos touros.
—E que tal? Gostaste?
—Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Hespanha! Isso sim!
D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel!
Bazilio disse, com um sorriso:
—Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora!
D. Felicidade tinha ouvido contar,—mas achava todos esses divertimentos barbaros, contra a religião.
E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:
—P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada!
—Mas aqui representam tão mal!—replicou Bazilio com uma voz desolada.—Tão mal, minha rica senhora!
D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão:
—Não me viu—disse desconsolada.
—Era o conselheiro?—perguntou Luiza.
—Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação, sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro.
Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas gris-perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.
—E tu, que fizeste hoje?—perguntou-lhe Bazilio.
Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr.
Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a Mulher de fogo de Belot. Tinha lido, ella?
—Não, que é?
—É um romance, uma novidade.
E acrescentou sorrindo:
—Talvez um pouco picante; não t'o aconselho!
D. Felicidade andava a lêr o Rocambole. Tanto lh'o tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão.
—Soffre?—perguntou Bazilio, com um interesse bem educado.
D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o uso do gelo.—De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago, ultimamente, tinham muito chic. Interessou-se pela d'ella, pediu pormenores.
D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo!
—Com o vinho, já se sabe?
—Com o vinho, minha senhora!
—E olha que talvez!—exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no braço de Luiza, já esperançada.
Luiza sorriu, ia responder—mas viu o sujeito pallido da pera longa que fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera.
Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir o leque.
Bazilio notou o seu silencio.—Tinha somno?
D. Felicidade sorriu com finura.
—Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona que se vê.
Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente:
—Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre!
Mas D. Felicidade insistia:
—Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo!
Luiza disse, com impaciencia:
—Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio.
—Está bem, não te enfureças!—exclamou D. Felicidade. E para Bazilio:—Que geniosinho, hein!
Bazilio pôz-se a rir.
—A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei...
D. Felicidade acudiu:
—É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.
E envolvia-a n'um olhar maternal.
Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,—e as meninas adiante, os paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos.
Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,—e vendo D. Felicidade a olhar distrahida:
—Estive para te ir vêr de manhã—disse baixinho a Luiza.
Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença:
—E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter ido...
D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.
Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquillo reanimou-a. Era um pot-pourri da opera,—e não havia musica de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. Bazilio?
Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza:
—Não sei, minha senhora, depende...
Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo.
Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em redor d'ella gente bocejava.
D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou Bazilio, e como era difficil andar lembrou—«que se fossem d'aquella semsaboria».
Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou afflicta:
—Ai filha! Estou que arrebento!
Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida.
—E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu vim ao Passeio...
Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:
—É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. Que elles conhecem-se, filha!
Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem um trem.
Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.a D. Felicidade!
Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.
No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,—e na noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e pallido de uma vela de estearina colossal e apagada.
Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!—pensava—Que tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do brouhaha das multidões alegres, dos brios impulsivos das orchestras; os restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos stores de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá estivesse!—Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e promettedor.
Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de perdiz e beber uma garrafa de champagne frappée!
Luiza não respondeu. Devia ser delicioso—pensava.—Mas D. Felicidade exclamou:
—Perdiz, a esta hora!
—Perdiz ou outra qualquer cousa.
—Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!
Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e subtil.
Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço, quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:
—Prompto, meu amo, prompto!
Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, rondou,—e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pera.
Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um grupo defronte da Escóla ia tocando o Fado do Vimioso; aquelles sons entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.
—Um suspirosinho que vai para o Alemtejo—disse D. Felicidade, tocando-lhe o braço.
Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou em casa.
Juliana veio alumiar.—O chá estava prompto, quando a senhora quizesse...
Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, estendeu-se na voltaire; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! Chamou-a. Onde estava? credo!
Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da causeuse, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.—Fôra abaixo dar uma arrumadella. Era o chá? Estava prompto...
E entrando com as torradas:
—Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas...
—Que lhe disse?
—Que a senhora tinha sahido com a snr.a D. Felicidade. Como não sabia, não disse para onde.
E acrescentou:
—Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar mais de meia hora!...
Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de Almada, e chamavam-se rosas D. Sebastião. Mandou-as pôr nos vasos da sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante:
—Olhe—disse a Juliana—abra as janellas.
—Bem—pensou Juliana—temos cá o melro.
O melro veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao piano.
—Está alli o sujeito do costume—foi dizer Juliana.
Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão:
—Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.
E chamando-a:
—Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre.
Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ella todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!
Subiu á cozinha, devagar,—lograda.
—Temos grande novidade, snr.a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Bazilio.
E com um risinho:
—É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem graça!
—Então que havia de o homem ser senão parente?—observou Joanna.
Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo.
—É o primo!—reflectia ella.—E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!
Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito «para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto?
Mas a campainha, em baixo, tocou.
—Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho!
Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:
—Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz que mandasse entrar!
Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.
—Está aqui o snr. Julião—disse com satisfação.
Luiza apresentou os dous homens.
Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com um olhar quasi horrorisado.
—Que pulha!—pensou.
Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião.
Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto mal feito—que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos da casa! Sentia já o seu chic diminuido. E instinctivamente, a sua physionomia tornou-se muito reservada,—como se semelhante visita a surprehendesse! semelhante toilette a indignasse!
Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado, ageitando a luneta:
—Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de Jorge...
—Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem...
Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,—onde brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi.
A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião.
Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse:
—Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito occupado...
Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:
—Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,—a não ser meu primo, naturalmente!
Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação, ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.
Houve um silencio difficil.
—Bonitas rosas!—disse emfim Bazilio, preguiçosamente.
—Muito bonitas!—respondeu Luiza.
Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe emfim muito precipitadamente:
—E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?
—Colerinas—respondeu Julião.—Por causa das frutas. Doenças de ventre.
Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?
Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarella.
—É algum romance?—perguntou-lhe Luiza.
—Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero.
Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago...
—Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.
—Com o gago?
—Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.
—Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga?
Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca:
—Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus recados, hein?
Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo, tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a vida,—transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada!
Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e cruzando os braços:
—Quem é este pulha?
Luiza córou muito, balbuciou:
—É um rapaz medico...
—É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante!
—Coitado, não tem muitos meios...
Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...
Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.
—São frescos os amigos da casa!...—continuou.—Que diabo! tu não foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da Magdalena.
Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:
—Diz que tem muito talento...
—Era melhor que tivesse botas.
Luiza, por cobardia, concordou.
—Tambem o acho exquisito!—disse.
—Horrivel, minha filha!
Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:—e a campainha da porta retiniu fortemente.
Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:
—O snr. conselheiro. Mando entrar?
—De certo—exclamou.
E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre sapatos de entrada abaixo, de laço.
Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso:
—Já sabia que v. exc.a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias do nosso high-life. E do nosso Jorge?
Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...
Bazilio, mais amavel, deixou cahir:
—Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso!
O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava o annel d'armas, observou:
—É todavia a capital do districto!
Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino!—E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.—Morria-se positivamente de pasmaceira!
Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir:
—Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.
Accacio curvou-se:
—Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.
E com muita bonhomia:
—Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás Madrids...
—De certo—fez Luiza.
E o conselheiro continuou com pompa:
—Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem (eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...
Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada!
Nunca ia ao Passeio, ao domingo—declarou.—Reconhecia que era muito agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,—e a sua voz tomou o tom espaçado d'uma revelação,—tinha notado que muita gente, n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as aguas de Vichy.
—Pódes fumar—disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.—Queres lume?
Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos pareciam mais louros, a sua pelle mais fina.
Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:
—O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...
O conselheiro reflectiu e respondeu:
—Não serei tão severo, snr. Brito!—Mas parecia-lhe que com effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.—Em primeiro lugar—exclamou com muita convicção, endireitando-se—nada, mas nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!—Além d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.—Appéllo para a snr.a D. Luiza!—disse.—Mas emfim, sempre era mais agradavel encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furára o craneo.—E além d'isso nada mais facil que cahir uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...—É conveniente ter prudencia—resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de sêda da India muito enrolado.
Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto, Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as camaras e S. Carlos!
—Que estavas tu a tocar quando eu entrei?—perguntou Bazilio.
O conselheiro acudiu logo:
—Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de S. Carlos, ha dezoito annos...
Bazilio interrompeu-o:
—Toca?
—Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta.
E acrescentou, com um gesto benevolo:
—Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza?
—Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a Filha do Pescador, de Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.
Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano.
—O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro?
—O nosso Sebastião—disse o conselheiro com authoridade—é um rival dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?—perguntou a Bazilio.
—Não, não conheço.
—Uma perola!
Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.
—Tu ainda cantas?—perguntou-lhe Luiza, sorrindo.
—Quando estou só.
Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos...
O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
—Coragem, snr. Brito, coragem!
Luiza então preludiou.
E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o calor tornava mais pallida.
Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da canção:
Igual ao mar sombrio
Meu coração profundo...
Meu coração profundo...
Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no Almanach das Senhoras. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode:
Tem tempestades, coleras,
Mas perolas no fundo!
Mas perolas no fundo!
Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica—ou a espaços, com um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a voz d'um modo appellativo:
Vem! vem
Pousar, ó dôce amada,
Teu peito contra o meu...
Pousar, ó dôce amada,
Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
O conselheiro bateu as palmas.
—Uma voz admiravel!—exclamava—Uma voz admiravel!
Bazilio dizia-se envergonhado.
—Não, senhor, não, senhor!—protestou Accacio, levantando-se.—Um excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade!
Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou:
Sou negrinha, mas meu peito
Sente mais que um peito branco.
Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
—Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.
Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco.
Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o ritornello choroso:
E a negra p'ra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.
O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador...
—Monarcha de rara illustração...—acrescentou respeitosamente.
Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que—havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica...
—Onde está v. exc.a alojado, snr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central.
Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever—declarou.—Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.a D. Luiza bem o sabia.—Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens!
E conservando na sua mão a mão de Bazilio:
—Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio d'um ermita.
Tornou a curvar-se diante de Luiza:
—E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.a!
E direito, grave, sahiu.
—Este ao menos é limpo—resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da bocca.
Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza aproximou-se:
—Canta alguma cousa, Bazilio!
Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella.
Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços; e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa.
Bazilio disse-lhe, baixo:
—Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza.
O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu:
—Canta alguma cousa.
O seu seio arfava.
—Canta tu—murmurou Bazilio.
E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um pouco tremulas, uniram-se.
A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente.
—É alguem—disse agitada.
Vozes baixas fallavam á cancella.
Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo.
—Vaes-te?—exclamou ella toda desconsolada.
—Pudera! Não posso estar só comtigo um momento!
A cancella fechou-se com ruido.
—Não é ninguem, foi-se—disse Luiza.
Estavam de pé, no meio da sala.
—Não te vás! Bazilio!
Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
—E para que queres tu estar só commigo?—disse ella.—Que tem que venha gente?—E arrependeu-se logo d'aquellas palavras.
Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabellos, vorazmente.
Ella soltou-se a tremer, escarlate.
—Perdôa-me—exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.—Perdôa-me. Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza!
Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito.
—Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica, feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei!
Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer.
—Falla, responde!—disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente.
—Que queres que te diga?—murmurou ella.
A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
—Fallemos n'outras cousas!
Elle balbuciava com os braços estendidos:
—Luiza! Luiza!
—Não, Bazilio, não!
E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma caricia.
Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços.
Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados—e Bazilio, pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou afflicta:
—Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mãos abertas pela testa, pelos cabellos:
—Oh meu Deus! É horrivel!—murmurou.—Deixa-me! É horrivel!
Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia:
—Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente.
—Juro-t'o!—disse com força, batendo no peito.
Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito sensatamente:—Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma amizade d'irmãos, nada mais.
Ella escutava-o, esquecida.
De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um sentimento ideal.—E os seus olhos devoravam-na.
Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella estremeceu, ergueu-se logo:
—Não! Vai-te!
—Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a sêda do chapéo:
—Bem, adeus—repetiu melancolicamente.
—Adeus.
Bazilio disse então com muita ternura:
—Estás zangada?
—Não!
—Escuta—murmurou, adiantando-se.
Luiza bateu com o pé.
—Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã!
—Ámanhã!—disse elle, baixinho.
E sahiu rapidamente.
Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos.
—Quem tocou ha bocado?—perguntou Luiza.
—Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava.
Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com uma visita»!
Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!» Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, talvez, um negocio de Jorge de certo...
Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.
O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote, uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre.
Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.—Descia o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:
—Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem diabo é?
Sebastião encolheu os hombros.
—Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe?
Não sabia.
—Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...—Passava a mão pela testa.—Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa é elle!
E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:
—E que ha de novo, Sebastião?
Tambem não sabia.
—Nem eu!
E bocejando muito:
—Isto está uma pasmaceira, homem!
N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então—para reclamar visitas, encontros, tantas relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade.
A tia Joanna tinha-o achado «macambusio».
Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietal-o.
Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um pandigo e, como tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da estroinice lisboeta:—partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pégas applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um debochado, um perdido; ouvira que elle tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...
Para que?... Era claro, para a desinquietar!
Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito:
—Ó snr. Sebastião!
Era o Paula dos moveis.
—Viva, snr. João.
O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:
—Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro?
Sebastião todo surprehendido:
—Não. Porque?
O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:
—É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse o medico.
E puxando o escarro:
—D'esses novos da homœopathia!
Sebastião tinha córado.
—Nada—disse.—É o primo de D. Luiza.
—Ah!—fez o Paula.—Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião.
E curvou-se, respeitosamente.
—Já temos fallatorio!—foi pensando Sebastião.
E entrou em casa, descontente.
Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com quintal.
Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,—o Rozegal. As duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta, servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o «menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os respeitos d'uma avó. Era do Porto, do Poârto, como ella dizia, porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil do Porto.
Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro da casa, S. Sebastião—que se torcia, cravado de settas, nas cordas que o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.
A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o pelludo; punham-lhe rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr.
Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.
Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer:
—Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos! Deixa lá, deixa lá!
A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz nasal:
—Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle!
Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle, coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer, por habito:
—Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!
Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, com bocejos enormes de leão enfastiado.
Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastião era sempre o cavallo nas imitações da diligencia, o vencido nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão, deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e permanente.
Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena.
Todo aquelle plano jovial da Sociedade Sebastião e Jorge—chamavam-lhe assim, rindo—desabou, como um castello de cartas. Sebastião teve um grande pezar.
E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos papeis do casamento!
E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, brandindo o cachimbo!
Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o Eurico. Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso:
—E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives!
Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de Luiza; o antigo pelludo de latim reapparecia. Jorge luctára para que elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella, não lhe dissesse a todo o momento:—V. exc.a, v. exc.a—meio erguido na cadeira.
Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de massar!
N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna veio-lhe perguntar pela Luizinha.
Adorava-a, achava-a um anjinho, uma açucena.
—Como está ella? viu-a?
Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente, que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as orelhas do Trajano, o seu velho perdigueiro:
—Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima!
Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre o extraordinario parente de Sebastião,—saudades e mil beijos...
Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava tudo,—a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de chorar...
—Ah! não! é horroroso, é horroroso!—dizia só, fallando alto.—É necessario acabar!
Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse, que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria meu querido primo, mas simplesmente primo Bazilio.
E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!
Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era!—E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não seccassem, Santo Deus!
Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge. Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma lufada de independencia.
Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?—E de repente tudo o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido, de maravilhoso, que palpita e faisca.—Oh! estava douda, de certo!
Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê.
O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a melancolia de um gemido.
Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob a escuridão das ramagens...
Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na causeuse, no seu quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa e forte a idéa do primo Bazilio.
As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido por ella!—dissera.—E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. E havia de dizer-lhe:—Não voltes, vai-te?
—Quando a senhora quizer o chá...—disse da porta do quarto Juliana.
Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a lamparina, mais tarde.
Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados.
—Hoje houve cousa, snr.a Joanna—disse Juliana sentando-se.—Está toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa.
Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os punhos, pestanejava de somno.
—A snr.a Juliana, tambem, deita tudo para o mal—disse.
—É que era necessario ser tola, snr.a Joanna!
Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle bem refinado—e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um gosto de formigas, exasperava-a.
—Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é bom!—rosnou muito amargamente.
E depois d'uma pausa repetiu:
—É que era necessario ser tola, snr.a Joanna!
A cozinheira disse preguiçosamente:
—Cada um sabe de si...
—E Deus de todos—suspirou Juliana.
E ficaram caladas.
Luiza tocou a campainha em baixo.
—Que teremos nós agora? Está com as cocegas!
Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:
—Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite! Sempre a gente as vê...
Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo de lata:
—E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do salgado. Quer picantes!
E com muito escarneo:
—Sempre a gente vê cousas! Quer picantes!
Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou.
Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro, adiantando os beiços seccos—para beijar uns cabellos negros onde reluziam fios brancos.
Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para alli fumar o seu cigarro.
Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada, côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos.
Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha desmazelada, a crescer.
—Já a pé, visinho!—disse Sebastião.
O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.
—Oh Sebastião!—disse com uma voz plangente—Ando a passear os meus leites, homem!
—A pé?
—Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia bem o passeiosito a pé...
Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação.
—E como vai isso?—perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, com affecto.
O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:
—A desfazer-se!
Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação.
Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação d'interesse no olhar amortecido:
—Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da mulher? o filho do João de Brito?
—É, sim, porque?
O Cunha fez: Ah! ah! com uma grande satisfação.
—Bem dizia eu!—exclamou.—Bem dizia eu! E aquella teimosa que não! que não!...
E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz:
—O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo, homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!...
Sebastião disse vagamente:
—Pois é, é o Brito...
—Bem dizia eu!
Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente:
—Pois, vou-me arrastando até casa.
Suspirou. E arregalando os olhos:
—Quem me dera a sua saude, Sebastião!
E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao ventre, o seu largo paletot côr de pinhão.
Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!...
Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio parar á porta de Luiza.
Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as pernas, pôz-se a enrolar o cigarro.
Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte, immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a compasso de estudo, a Oração d'uma virgem.
Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza.
—Rico calor, snr. Sebastião!—observou o Paula curvando-se—É um regalo estar á fresca!
Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema.
—Eu venho assim mesmo—disse ella.—Não faço ceremonias.
Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria sempre!—exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de manhã fosse já uma promessa da sua nudez.
Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, d'uma zarzuela que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára, e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella.
O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S. Donato, a villa do principe Demidoff,—porque lembrava sempre as suas intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria das suas viagens.
E ella, tinha sonhado?
Luiza córou.—Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a trovoada, elle?
—Estava a cear no Gremio, quando trovejou.
—Costumas cear?
Elle teve um sorriso infeliz.—Cear! se se podia chamar cear ir ao Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento!
E fitando-a:
—Por tua causa, ingrata!
Por sua causa?
—Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris?
—Por causa dos teus negocios...
Elle encarou-a severamente:
—Obrigado—disse, curvando-se até ao chão.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.—Não, realmente era injusta. Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella!
Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho d'amor muito pequenino, assim...—Mostrava o comprimento da unha.
Riram.
—Assim, talvez.
E o peito de Luiza arfava.
Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o verniz que usam as cocottes, que lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,—e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe!
Olhava-a com uma supplicação.
—Que é?
—É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão.
—É muito simples—acrescentou elle.—Tu vaes-me encontrar a qualquer parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e fouette, cocher!
Luiza hesitava.
—Não digas que não.
—Mas onde?
—Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim.
A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára.
—Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos.
—Não! isso não!
Bazilio zangou-se, chamou-lhe beata. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida.
—Talvez, veremos—dizia.
—Dize que sim!—insistia.—Sê boa rapariga!
—Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio, nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot, A mulher de fogo. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de café concerto, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras; fel-a rir.
Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa, anecdotas, paixões chics. Tudo se passava com duquezas, princezas, d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante...
O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou a occupação reles d'um temperamento burguez...
E quando sahiu, disse, como recordando-se:
—Sabes que estou com minhas idéas de partir?...
Ella perguntou, um pouco descorada:
—Porque?
Bazilio disse, muito indifferente:
—Que diabo faço eu aqui?...
Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:
—Adeus, meu amor...
E sahiu.
Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos.
Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo calor, da sécca de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra!
—És tu que não queres—acudiu elle. —Podiamos fazer um passeio adoravel.
Mas tinha medo, podiam vêr...
—O quê! N'um coupé fechado? Com os stores descidos?
Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta!
Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás Alegrias, á quinta d'um amigo d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam levar gelo, champagne...
—Vem!—disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.
Ella córou.—Talvez. No domingo veria.
Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios! Bazilio cantou a Medjé, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, como depois d'um excesso.
Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o Rolim—o seu gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, ingrato como um tyranno.
A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente.
A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta:
—Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, com umas tontices!...
—A respeito de quê, tia Joanna?—perguntou Sebastião.
—A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da Luizinha.
Sebastião ergueu-se logo:
—Que disse ella, tia Joanna?
A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada:
—Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que uma voz que nem no theatro...
Sebastião interrompeu-a, impaciente:
—É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou do Brazil.
A tia Joanna teve um bom sorriso.
—Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito rapaz! E todo janota!
E sahindo para a cozinha, devagar:
—Eu logo vi que era parente, logo disse!...
Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!—E, assustado, decidiu-se logo a ir consultar Julião.
Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça branca enxovalhada, o ar suado.
—Ia a tua casa, homem!—disse Sebastião logo.
Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.
Havia alguma novidade? Que era?
—Uma do diabo!—exclamou, baixo, Sebastião.
Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles, emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.
—Vamos alli para o café—disse Julião.—Aqui na rua arde-se!
—Tenho estado apoquentado—ia dizendo Sebastião.—Muito apoquentado! Quero fallar-te.
No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.
Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro; sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia, e—todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer d'um trem travado.
Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz. Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente a cabeça.
—Mas o que é então?—perguntou logo Julião.
Sebastião chegou-se mais para elle:
—É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo—disse baixo.
E acrescentou:
—Tu vistel-o, hein?
A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente:
—Vi.
—E então?
—Pareceu-me um asno!—exclamou, não se contendo.
—E um extravagante—disse com terror Sebastião—Não te pareceu, hein?
—Pareceu-me um asno—repetiu.—Umas maneiras, uma affectação, um alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de mulher...
E com um certo sorriso azedado:
—Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas—disse, apontando para os botins mal engraxados—tenho muita honra n'ellas, são de quem trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente não cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
—Uma besta!—resumiu.
—Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?—disse Sebastião, baixo, como assustado da gravidade da confidencia.
E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião:
—Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de lá escreveu a romper o casamento.
Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede:
—Mas isso é o enredo da Eugenia Grandet, Sebastião! Estás-me a contar o romance de Balzac! Isso é a Eugenia Grandet!
Sebastião fitou-o espantado.
—Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra d'honra—acrescentou vivamente.
—Vá, Sebastião, vá, dize.
Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes altercavam.
Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente:
—E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá!
Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
—Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião?
E com uma vivacidade quasi jovial:
—O primo atira-se?
Aquella palavra escandalisou Sebastião.
—Ó Julião!—E severamente:—Com essas cousas não se brinca!
Julião encolheu os hombros.
—Mas está claro que se atira!—exclamou.—És de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada!
—Falla baixo—acudiu Sebastião.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura funebre.
Julião baixou a voz:
—Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade!
E quasi ao ouvido d'elle:
—É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que influencia isto tem no sentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com abundancia:
—Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma, que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á custa do marido, e...
Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo.
—É optimo!—acrescentou.—Todos os primos raciocinam assim. Bazilio é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, menino!—gritou, dando-lhe uma palmada na perna.
—É o diabo—murmurou Sebastião cabisbaixo.
Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
—Mas tu suppões que uma rapariga de bem...
—Eu não supponho nada!—acudiu Julião.
—Falla baixo, homem!
—Eu não supponho nada—repetiu Julião baixinho.—Eu affirmo o que elle faz. Agora ella...
E acrescentou com seccura:
—Como é uma rapariga honesta...
—Se é!—exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.
—Prompto!—cantou arrastadamente o moço.
O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado.
Sebastião disse, então, com tristeza:
—A questão não é por ella. A questão é pela visinhança.
Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia.
—Mas—disse Julião, como sahindo d'uma reflexão—a visinhança? Como a visinhança?
—Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia, faz um escandalo na rua. Já se falla. Já vieram com mexericos á tia Joanna. Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos trastes, em baixo, não se faz nada que elle não dê fé: são umas linguas de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a janella, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no Alemtejo... Está duas e tres horas. É muito serio, é muito serio!
—Mas ella então é tola!
—Não vê o mal...
Julião encolheu os hombros, duvidando.
Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta, gritou para dentro:
—E fique sabendo que havia d'encontrar homem!
Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.
O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o café resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o, com um ar gingado.
—O que eu devia fazer—exclamava o agigantado, brandindo o punho—era quebrar a cara áquelle pulha!
O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se:
—Questões não servem para nada, sô Corrêa!
—É que sou muito prudente—berrou o herculeo.—É que me lembro que tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue!
E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.
O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o jornal.
Sebastião, então, disse reflectindo:
—Não te parece que seria bom avisal-a?
Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo.
—Dize alguma cousa!—implorou Sebastião—Tu não ias fallar-lhe, hein?
—Eu?—exclamou Julião com um aspecto que repellia a idéa.—Eu! Estás doudo!
—Mas que te parece, emfim?
E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção.
Julião hesitou:
—Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu não sei, meu amigo!
E pôz-se a chupar o seu cigarro.
Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com desconsolação:
—Homem, vim-te pedir um conselho...
—Mas que diabo queres tu?—E a voz de Julião irritava-se.—A culpa é d'ella. É d'ella!—insistiu, vendo o olhar de Sebastião.—É uma mulher de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se não recebe todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhança a postos! Se o faz, é porque lhe agrada.
—Ó Julião!—disse muito severamente Sebastião.
E dominando-se, com a voz commovida:
—Não tens razão, não tens razão!
Calou-se muito magoado.
Julião levantou-se.
—Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes.
Chamou o criado.
—Deixa—disse Sebastião precipitadamente, pagando.
Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado.
Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente:
«O abaixo assignado, antigo empregado da nação, reduzido á miseria...»
—Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!—gemeu chorosamente, com uma rouquidão, o sujeito calvo.
Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na mão duas placas de cinco tostões, discretamente.
O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e declamou com uma voz cava:
—Mil agradecimentos a v. exc.a, snr. conde!