O Primo Basílio

Eça de Queirós · Capítulo 13 de 18

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O Primo Basílio

Capítulo XIII



N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surprehendeu Juliana commodamente deitada na chaise-longue, lendo tranquillamente o jornal.

Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou:

—Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...

—Que se pôz a lêr o jornal, hein?...—disse Jorge, apertando instinctivamente o castão da bengala.—Onde está a senhora?

—Deve estar p'ra a sala de jantar—disse Juliana, que se pôz logo a varrer, muito apressada.

Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito applicada e muito desconsolada.

—Tu estás a engommar?—exclamou.

Luiza córou um pouco, pousou o ferro.—A Juliana estava adoentada, juntára-se uma carga de roupa...

—Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?

A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou:

—Que queres tu dizer?

—Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal.

Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula...

—Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer—ia dizendo.—É a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem estado doente...

—Pois se está doente que vá p'ra o hospital!

—Não, tambem não tens razão!

Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na sua chaise-longue, exasperou-o:

—Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella!

—Ah! se estás com esse genio!—fez Luiza com os beiços tremulos, uma lagrima já nas palpebras.

Mas Jorge continuava, muito zangado:

—Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que vá p'ra o inferno!

Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando.

—Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras?

Ella não respondia, n'um grande pranto.

—Porque choras, filha?—perguntou elle, com uma impaciencia commovida, chegando-se a ella.

—Para que me fallas tu assim?—dizia, toda soluçante, limpando os olhos.—Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O que me sabes dizer são cousas desagradaveis.

—Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada desagradavel!—E abraçou-a, ternamente.

Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:

—Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!...

—Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é que te cances!

—P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?—E as lagrimas recomeçavam.—Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que desproposito!

—Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não chores... Vá, acabou-se!—Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a dôcemente:—Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és!



Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava.

Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe a illustre D. Juliana, a minha ama e senhora! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» Tinha gracejos que gelavam Luiza.

—A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom?

Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:—«Anda, atira-lhe um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se independente, começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um rancor postiço.

Juliana, muito fina, tinha percebido tudo, e supportava, calada.

Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror—se fosse expulsa d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital!

Tinha por isso medo de Jorge.

—Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de mim—dizia ella á tia Victoria—mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao boi manso!

E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo vendo Luiza a passar um espanejador pelos consoles da sala, zangou-se:

—A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! Ainda não estou na cova!

Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite.

—Com o meu corpo o pago—dizia ella a Joanna—que trabalho como uma negra! Arrazo-me!

Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente:

—Não estou para aturar estes desleixos! Irra!—gritou.

Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana.

Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco tremula:

—Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou buscar agua!

Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella ironia constante...

Jorge não respondeu.

E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco!

—Que tens tu?—perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta.

—Espertina.

—Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!—E voltou-se, enrolando-se commodamente na roupa.



Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de vestido foi á sala de jantar—eram dez horas—e voltou a dizer a Luiza, com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:—que não estava a mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! e que a snr.a D. Juliana, a illustre snr.a D. Juliana, tinha sahido, a seu passeio!

—Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...—começou Luiza, que vestia o seu roupão.

—Ah, perdão!—interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.—Esquecia-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!

Luiza acudiu logo:

—Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro...

Subiu logo á cozinha, desesperada:

—Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu?

Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.a Juliana! Imaginára que estava p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!...

Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a.

—Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje...

—Vou—disse seccamente. E acrescentou:—Graças a Deus!

—Estás de bom humor!...—murmurou ella.

—Como vês!

Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, de certo!

Jorge, que se ia erguer, disse logo:

—Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...

E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito.

Luiza, a tremer, levantou-se tambem:

—Eu vou-lhe fallar...

Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente:

—Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...

Luiza recahiu na cadeira, muito pallida.

Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente o seu palito.

Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta:

—Não lhe digas nada!...

Elle fixou-a, assombrado:

—Porque?

Juliana n'este momento abriu o reposteiro.

—Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por arrumar?—disse-lhe Luiza logo, erguendo-se.

Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições.

—Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pela manhã...—Mas o olhar de Juliana, que se cravava n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos tremulas.—Deite agua n'este bule, vá.

Juliana não se mexeu.

—Vossê não ouviu?—berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á mesa, que fez saltar a louça.

—Jorge!—gritou Luiza, agarrando-lhe no braço.

Mas Juliana fugira da sala, correndo.

—E logo, na rua!—exclamou Jorge.—Faze-lhe as contas, e que se vá. Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que emfim! Chegou-me a minha vez!

Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala:

—E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias que a trago aqui atravessada. P'ra a rua!



Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: Meu adorado Bazilio! Então uma cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente—convencel-o-hia!

Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:

—Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai aqui tudo raso n'esta casa!

—Cale-se, sua infame!—gritou Luiza.

—Vossê manda-me calar, sua p...!—E Juliana disse a palavra.

Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cahir, com um gemido, sobre os joelhos.

—Mulher!—bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a pelos braços.

Juliana, assombrada, fugiu.

—Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!—exclamava Luiza com as mãos apertadas na cabeça.

—Racho-a!—dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brazas—racho-a!

Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como a cal, repetindo, toda a tremer:

—O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer!

A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panellas.

—E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a!

Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á banda, as dedadas escarlates na face, medonha.

—Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua—gritou ella—ou eu vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...

—Pois mostre, faça o que quizer!—disse Luiza, passando, sem a olhar.

Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...

Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a morte uma purificação maior...—E onde estava elle, o homem que a desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, n'aquelle coupé:—Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra um lindo collo—então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, soffreu—ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande prazer—perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil reis—então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a vida! Ainda bem que a deixava!

Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina,—e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que trazia o seu sacco ao hombro.

Ia-se embora!—pensou Luiza.—Mandava pôr fóra os bahus! E depois? Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! Santo Deus!—E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com as cartas na mão!...

Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um convento! Não, c'os diabos!

Foi direita ao quarto de Juliana.

—Vem vêr se lhe levo alguma cousa?—gritou logo a outra furiosa.

Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas embrulhadas em jornaes velhos.

—E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as minhas contas!...

—Escute, Juliana, não se vá.—Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas saltaram-lhe dos olhos.

Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de duraque em cada mão.

—É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!—E com uma voz aguda, batendo as solas das botinas:—Fica tudo como d'antes, na paz do Senhor!

Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a chorar! expulsava a outra! e não perdia os seus commodos!

—É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua!

Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e limpando os olhos:

—Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa...

A rapariga ficou a olhar para ella, espantada.

—O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...

—Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?

Luiza insistiu, baixo, envergonhada:

—Foi um repente, tem estado a pedir perdão...

—Eu foi para defender a senhora!—exclamou a rapariga, abrindo os braços, afflicta.

Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar:

—Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... Vou-lhe fazer as contas.

—Olha que pago este!—gritou Joanna, então, desesperada. E com uma resolução, batendo o pé:—Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não tem razão!...

Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as fontes nas mãos abertas:

—Que expiação! Que expiação, Santo Deus!

De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e fallando-lhe junto do rosto:

—Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se vossê!—E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando:—Pelas cinco chagas de Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo amor de Deus!

A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente.

—Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora!

—Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não chore... Espere...

Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, dizendo-lhe baixo:

—Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu.

—Sim, minha senhora—soluçava a rapariga, babada de dôr—sim, minha rica senhora!

Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua chaise-longue, n'um choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, piedade a Deus!

Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta:

—Então em que ficamos?

—A Joanna vai-se. Que quer mais?

—Que sáia já!—disse a outra imperiosamente.—Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!

As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva.

—E a senhora agora ouça!

O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida.

E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido:

—E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!...

E voltou as costas, batendo os tacões.



Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretenciosamente.

Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quasi a correr.

O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de Sebastião, e veio dizer á estanqueira:

—Em casa do Engenheiro ha novidade!

E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas immoveis.

—O snr. Sebastião?—perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.

E ia entrando pelo corredor.

—Na sala—disse a pequena.

Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz angustiosa e sumida:

—Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou perdida!

Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar:

—Que é? Que é?

—Escrevi a meu primo—repetiu, com os olhos cravados n'elle, anciosamente—a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!

Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe.

Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido.

De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico.

O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto d'ella:

—Então! então!—murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, tremiam como folhas.

Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.

—Desculpe, Sebastião, desculpe—dizia.—Bebeu então um gole d'agua, ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas silenciosas cahiam sem cessar.

Sebastião foi fechar a porta—e vindo ao pé d'ella, com muita doçura:

—Mas então? Que foi?

Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda humilhada:

—Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!—murmurou.

—Não se afflija! Não se afflija!

Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade:

—Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem!

—Oh Sebastião!...—exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou:—Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho soffrido, Sebastião!

Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta.

—Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo.

E chorava, com as mãos sobre o rosto.

Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:

—Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais tempo?

—Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não pude, não pude!

—Fez mal!...

—Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...—E desviou os olhos, muito escarlate.—Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me...

—Santo Deus!—murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.

—Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...

—Mas merece a morte, essa infame!—exclamou batendo com o pé no chão.

Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:

—É necessario tirar-lhe as cartas...

—Mas como?

Sebastião coçava a barba, a testa.

—Ha-de-se arranjar—disse, por fim.

Ella agarrou-lhe a mão:

—Oh Sebastião, se fizesse isso!

—Ha-de-se arranjar.

Esteve um momento calculando—e com o seu tom grave:

—Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em casa... Podiam ir ao theatro, esta noite.

Levantou-se lentamente, foi buscar o Jornal do Commercio, sobre a mesa, olhou os annuncios:

—Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o Fausto... Podiam ir vêr o Fausto...

—Podiamos ir vêr o Fausto—repetiu Luiza, suspirando.

E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa.

Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao Hotel Gibraltar... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, então, Juliana estaria só.

—Vê como tudo se arranja?—disse elle, sorrindo.

Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?

Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:

—Ha-de dar—disse.

Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na voz:

—E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...

Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros:

—Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha!

E acrescentou logo:

—Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao pé do palco...

Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.

No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! era a flôr do bairro!

—Está bom, tia Joanna, está bom—disse Sebastião, afastando-a brandamente.

Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!

Luiza corava, embaraçada.

E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade?

—Está bom, basta, tia Joanna!—fez Sebastião impaciente.

—Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!...

Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel.

Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna—mais prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um P. S., no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres grande toilette. Nada de decotes nem de côres claras.»



Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:

—Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda!

—Bufa! bufa!—gritou de cima Juliana—mas vai-te indo para o olho da rua!

Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!

—Se eu t'apanho!—rosnava a Joanna descendo.

—Rua! rua, sua porca!—gania a Juliana.

Luiza então chamou a rapariga:

—Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã—disse-lhe baixo.

Juliana em cima cantava a Carta adorada, com um jubilo estridente.

E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o jantar na mesa».

Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto;—e alli jantou, a um canto da jardineira.

Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...

—E isto...

Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.

—Oh Sebastião!—murmurou ella, com um reconhecimento commovido.

—E carruagem, tem?

—Não

—Eu cá mando. Ás oito, hein?

E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados.

Nós de dedos bateram á porta do quarto:

—Então a senhora não quer jantar?—disse a voz impaciente de Juliana, de fóra.

—Não.

—Mais fica!



D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas.

—Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?—disse logo, muito alegre, a excellente senhora.

Um capricho!—O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel Gibraltar.

—Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir—disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido.—Apertar-me depois de jantar! Felizmente, não tinha comido quasi nada!

Quiz então saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...—E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.

Uma carruagem parou á porta.

—O trem!—disse, toda risonha.

Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?

—Ai! o meu ramo!—exclamou Luiza.

Juliana ficou espantada quando a viu vestida p'ra theatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:

—Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou.

O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:

—Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro!

—Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!—fez Luiza impaciente.

Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!

Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do Gibraltar, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola.

Perguntaram por Jorge.

E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, vestida de soirée, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.

—Estão a arder por saber quem somos.

Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,—e pondo o chapéo mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.

Jorge correu á portinhola do trem, rindo:

—Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o divorcio!

Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atraz no camarote.—E para as não amarrotar subiu para a almofada.